Dois Homens – Dois Santos: Josemaria Escrivá e Thomas Moro

Por Maria Fernanda Barroca
Maria Fernanda considera neste artigo as semelhanças entre o Fundador do Opus Dei e São Thomas Moro, especialmente no que se refere à espiritualidade e à busca pela santidade no meio do mundo.

A 9 de Janeiro de 1902, nasceu em Barbastro aquele que viria a ser mais tarde São Josemaria Escrivá o Fundador do Opus Dei. Crescido e educado numa família cristã, nunca lhe passou pela cabeça a idéia de se fazer sacerdote. Um dia, já com os seus 15 anos, estando à janela viu um padre carmelita descalço na neve a caminho do seus ministérios. Ficou muito impressionado e perguntou-se: “Será que eu não posso fazer por Deus o que este faz?”. Começaram assim os pressentimentos de que Deus queria “algo” dele e que ele não sabia. Resolveu então fazer-se sacerdote para estar mais disponível para cumprir os desígnios de Deus a seu respeito. De fato assim aconteceu e depois dos estudos feitos foi ordenado sacerdote a 28 de Março de 1925.

Em 2 de Outubro de 1928, “viu” finalmente o que Deus queria dele – a Fundação do que mais tarde se viria a designar por Opus Dei e que veio inculcar nas pessoas do seu tempo a idéia de que a santidade é para todos e que o modo de atingir essa santidade é cada um manter-se no seu lugar, “santificando o seu trabalho profissional; santificando-se com esse trabalho; e santificando os outros com esse trabalho”.

Viveu e pregou incansavelmente este modo de santidade e em 26 de Junho de 1975, morreu, melhor, passou deste mundo para o Céu, “espremido como um limão”, como costumava dizer, a propósito da generosidade na entrega que cada um deve fazer de si a Deus, no estado e lugar em que se encontra. A 17 de Maio de 1992, João Paulo II beatifica-o e a 6 de Outubro de 2002 canoniza-o. A doutrina que sempre pregou – a chamada universal à santidade – já sancionada pelo Concílio Vaticano II, ficou assim mais confirmada ainda.

Quatrocentos e vinte e quatro anos antes, em 1478, nasceu, em Londres, Thomas Moro, que viria a ser um grande humanista, um juiz reto e prestigiado, embaixador, conselheiro e Chanceler da Inglaterra. Era um modelo de amigo, de pai e de esposo. Nunca foi um especulativo, mas um homem de sentido prático que trabalhou para viver a sua vida espiritual em plenitude. Isso não o impediu de participar ativamente na vida pública do seu país. A sua infelicidade, humanamente falando, foi ter vivido no tempo do Rei Henrique VIII; sob o ponto de vista sobrenatural esse fato foi a causa da sua grandeza.

Thomas Moro nunca esqueceu o sentido do mistério do cristianismo; tinha um grande apreço pelos sacramentos e a união do material com o espiritual. João Paulo II na Carta Apostólica sob a forma de Motu Próprio em que declarava Thomas Moro Patrono dos Governantes e Políticos, cita a Exortação pós-sinodal Christifideles laici, nº 17: “a unidade de vida dos fiéis leigos é de enorme importância, pois eles têm que se santificar na vida profissional e social normal. Assim, para que possam corresponder à sua vocação, os fiéis leigos devem olhar as atividades da vida quotidiana como ocasião de união com Deus e de cumprimento da sua vontade, e também como serviço aos outros homens”.

A sua vida familiar nunca foi descurada pelas inquietações religiosas ou pelo seu trabalho intenso. Soube ser um bom filho, como soube ser um bom chefe de família e um profissional excelente.

A festa litúrgica de São Josemaria Escrivá é celebrada no dia 26 de junho e a de São Thomas Moro no dia 22 de junho. Não é porém esta proximidade de datas que os liga, mas sim a maneira como Thomas Moro, muitos séculos antes de Josemaria Escrivá soube viver a santidade no meio do mundo.

Francesco Cossiga, aquando da Canonização de São Josemaria, escreveu um artigo em Il Tempo em que se pode ler a dado passo, referindo-se a São Thomas Moro: “Foi leigo e talvez o primeiro santo leigo, de tal modo – a hipótese é minha – que, se tivesse vivido nos nossos dias, poderia talvez ter pertencido ao Opus Dei”.

Acrescento que foi Francesco Cossiga um dos que contribuiu, com a recolha de assinaturas, para pedir ao Santo Padre que nomeasse São Thomas Moro Patrono dos Governantes e Políticos e teve o apoio de pessoas da direita, do centro e da esquerda, quer em Itália, quer no estrangeiro.

São Josemaria tinha-lhe uma particular devoção, pois via nele o prenúncio da vocação laical que tanto pregou. Compreende-se assim, que o pensamento de São Josemaria Escrivá e a vida de São Thomas Moro estivessem de acordo e houvesse uma conjunção entre a espiritualidade do Fundador do Opus Dei e a espiritualidade, feita vida, de São Thomas Moro.

Maria Fernanda Barroca

– Artigo publicado originalmente no Diário do Minho, da cidade de Braga – Portugal, em 26 de junho de 2005.