In Evangelho do dia

Dia 9 de novembro

Jo 2, 13-22

13Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 14Encontrou no Templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas, e os cambistas abancados. 15Fez um chicote de cordas e a todos expulsou do Templo, incluindo as ovelhas e os bois; despejou os trocos dos banqueiros, derribando-lhes as mesas, 16e disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui; não façais da casa de Meu Pai casa de comércio. 17Lembraram-se os discípulos de que estava escrito: Devorar-Me-á o zelo pela Tua casa. 18Tomaram então os Judeus a palavra e perguntaram-Lhe: Que sinal nos apresentas para assim procederes? 19Respondeu-lhes Jesus: Desfazei este Santuário e Eu em três dias o levantarei. 20Disseram então os Judeus: Há quarenta e seis anos que se tem estado a construir este Santuário, e Tu em três dias o hás-de levantar?! 21Ele, porém, dizia isto a respeito do Santuário do Seu corpo. 22Por isso, quando ressuscitou dos mortos, recordaram-se os discípulos de que Ele o tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra que Jesus pronunciara.

Comentário

13. “Páscoa dos Judeus”: Era a festa religiosa mais importante do povo do Antigo Testamento, prefiguração da Páscoa cristã. A Páscoa judaica celebrava-se no dia 14 do mês de Nisan e a seguir vinha a semana festiva dos Ázimos (pão sem fermento). Segundo a Lei de Moisés, em tais dias todo o israelita devia “apresentar-se diante do Senhor” (Ex 34,23; Dt 16,16). Isto explica o piedoso costume da peregrinação ao Templo de Jerusalém para estas festas, a grande aglomeração de gente e a afluência de vendedores, que abasteciam as necessidades dos peregrinos, mas que davam lugar a sérios abusos.

“Jesus subiu a Jerusalém”: Com isso faz manifestação pública da Sua observância da Lei de Deus. Mas, segundo mostram os factos que acontecem a seguir, vê-se que Jesus Cristo acorre ao Templo como quem é: o Filho Unigénito, que deve velar pelo decoro e pela honra devidos à Casa de Seu Pai. “E desde então Jesus, o Ungido de Deus, começa sempre por reformar os abusos e purificar do pecado; tanto quando visita a Sua Igreja, como quando visita a alma cristã” (Origenes, Homilias sobre São João, 1).

14-15. Todo o israelita tinha de oferecer como sacrifício na festa da Páscoa um boi ou uma ovelha, se era rico; ou duas rolas ou dois pombos, se era pobre (Lev 5,7). Além disso, devia pagar cada ano meio siclo, se tinha feito os 20 anos. O meio siclo, que equivalia ao jornal de um operário, era uma moeda especial, chamada também moeda do Templo (Ex 30,13); as outras moedas em uso (denários, dracmas, etc.), por levarem impressas a efígie de autoridades pagãs, eram consideradas impuras. Por ocasião da Páscoa, quando o concurso de gente era maior, o átrio exterior do Templo ou pátio dos gentios enchia-se de vendedores, cambistas, etc., com as consequências imagináveis: ruído, vozearia, mugidos, esterco… Já os profetas tinham fustigado tal abuso (cfr Zach 14,21) introduzido com a autorização tácita das autoridades do Templo, que obtinham assim boas receitas.

16-17. “Devorar-me-á o zelo pela Tua casa “: Trata-se de uma citação do Salmo 69,10. Jesus acaba de fazer uma afirmação transcendente: “Não façais da casa de Meu Pai casa de comércio”. Ao chamar a Deus Seu Pai e ao actuar com grande fortaleza, proclama-Se diante de todos o Messias Filho de Deus. O zelo de Jesus pela glória de Seu Pai não passou despercebido aos discípulos, que viram na Sua conduta cumpridas as palavras do Salmo 69.

18-22. O Templo de Jerusalém, que tinha substituído o antigo Santuário que os israelitas transportavam no deserto, era o lugar escolhido por Deus durante o Antigo Testamento para manifestar de uma maneira especial a Sua presença no meio do povo. Mas essa realidade antiga era apenas uma figura ou antecipação imperfeita da realidade plena da presença de Deus entre os homens, que é o Verbo de Deus feito carne. Jesus, em que “habita toda a plenitude da divindade corporalmente” (Col 2,9), é a plena presença de Deus aqui na terra e, portanto, o verdadeiro Templo de Deus. Jesus identifica o Templo de Jerusalém com o Seu próprio Corpo, e deste modo refere-Se a uma das verdades mais profundas sobre Si mesmo: a Encarnação. Depois da Ascensão do Senhor aos Céus essa presença real e especialíssima de Deus no meio dos homens continua no sacramento da Santíssima Eucaristia.

O comportamento e as expressões de Cristo quando expulsava os vendedores do Templo manifestam claramente que Ele é o Messias anunciado pelos profetas. Por isto se aproximam alguns judeus e Lhe pedem um sinal do Seu poder (cfr Mt 16,1; Mc 8,11; Lc 11,29). As autoridades judaicas tentaram transformar a resposta de Jesus (v. 20), que ficou obscura até ao momento da Sua Ressurreição, numa invectiva contra o Templo, digna da pena de morte (Mt 26,61; Mc 14,58; cfr Ier 26,4 ss.); utilizaram-na depois com sarcasmo contra o Senhor agonizante na Cruz (Mt 27,40; Mc 15,29) e, mais tarde, bastou-lhes ouvi-la repetir a Santo Estêvão para o acusarem perante o Sinédrio (Act 6,14).

Nas palavras pronunciadas por Jesus não há nada depreciativo, como pretenderiam depois as falsas testemunhas. O milagre que lhes oferece, a que chama “o sinal de Jonas” (cfr Mt 16,4) será a Sua própria Ressurreição ao terceiro dia. Para indicar a grandiosidade do milagre da Sua Ressurreição, Jesus recorre a uma metáfora: é como se dissesse: Vedes este Templo? Pois bem, imaginai-o destruído. Não seria um grande milagre reconstruí-lo em três dias? Isto farei Eu como sinal. Porque vós destruireis o Meu Corpo, que é o Templo verdadeiro, e Eu o voltarei a levantar ao terceiro dia.

A declaração de que Jesus é o Templo de Deus ficou encoberta para todos. Judeus e discípulos pensaram que o Senhor falava de voltar a edificar o Templo que Herodes o Grande tinha começado a construir no ano 19-20 a.C. Os discípulos entenderam depois o verdadeiro sentido da expressão.

Dia 10 de novembro

Lc 17, 7-10

7Qual de vós, que tenha um criado a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá, quando ele entrar do campo: “Vem cá depressa e põe-te à mesa.”? 8Não lhe dirá antes: “Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, enquanto eu como e bebo; depois disso é que tu hás-de comer e beber”? 9Irá agradecer ao criado por ter feito o que lhe fora mandado? 10Assim, vós também, quando tiverdes feito tudo o que se vos mandou, dizei: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.”

Comentário

7-10. Jesus não aprova esse tratamento abusivo e arbitrário do amo, mas serve-Se de uma realidade muito quotidiana para as gentes que O escutavam, e ilustra assim qual deve ser a disposição da criatura diante do seu Criador: desde a nossa própria existência até à bem-aventurança eterna que nos é prometida, tudo procede de Deus como um imenso presente. Daí que o homem sempre esteja em dívida com o Senhor, e por mais que faça no Seu serviço as suas acções não passam de ser uma pobre correspondência aos dons divinos. O orgulho diante de Deus não tem sentido numa criatura. O que aqui nos inculca Jesus vemo-lo feito realidade na Virgem Maria, que respondeu diante do anúncio divino: “Eis a escrava do Senhor” (Lc 1,38).

Dia 11 de novembro

Lc 17, 11-19

11Na Sua marcha para Jerusalém, ia passando entre a Samaria e a Galileia. 12Ao entrar em certa povoação, vieram-Lhe ao encontro dez leprosos, que, mantendo-se a distância, 13ergueram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem piedade de nós. 14Este, ao vê-los, disse-lhes: Ide mostrar-vos aos sacerdotes. Enquanto iam a caminho, ficaram limpos. 15Um deles, vendo que se tinha curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz, 16e caiu a Seus pés com a face em terra, agradecendo-Lhe. E esse era samaritano. 17Jesus tomou a palavra e disse: Não ficaram limpos os dez? Então, onde estão os outros nove? 18Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro? 19E disse-lhe a ele: Levanta-te e segue o teu caminho. Salvou-te a tua fé.

Comentário

11-19. O lugar onde se desenrola a cena explica que tivesse andado um samaritano junto com uns judeus. Havia uma antipatia mútua entre ambos os povos (cfr Ioh 4,9), mas a dor unia aqueles leprosos por cima dos ressentimentos de raça.

Segundo estava mandado na Lei de Moisés, os leprosos, precisamente para evitar o contágio, deviam viver longe do convívio com a gente, e dar mostras visíveis da sua doença (cfr Lev 13,45-46). Isto explica que não se aproximem de Jesus e daqueles que O acompanhavam, mas de longe expusessem o pedido aos gritos. O Senhor, antes de os curar, manda-lhes que vão aos sacerdotes para que certifiquem a sua cura (cfr Lev 14,2 ss.) e cumpram os ritos estabelecidos. A obediência dos leprosos ao mandato de ir aos sacerdotes supõe uma prova de fé nas palavras de Jesus. Efectivamente, pouco depois de se porem a caminho ficam limpos.

Contudo, só um deles, o samaritano que volta para trás louvando e agradecendo o milagre, recebe um dom ainda maior que a cura da lepra. Jesus, com efeito, diz-lhe: “Salvou-te a tua fé” (v. 19), e louva as manifestações de agradecimento deste homem. O Evangelho conservou-nos a cena para ensinamento nosso.

“Habitua-te a elevar o coração a Deus em acção de graças, muitas vezes ao dia. – Porque te dá isto e aquilo. – Porque te desprezaram. – Porque não tens o que precisas, ou porque o tens.

Porque fez tão formosa a Sua Mãe, que é também tua Mãe. – Porque criou o Sol e a Lua e este animal e aquela planta. – Porque fez aquele homem eloquente e a ti te fez difícil de palavra…

Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom ” (Caminho, n° 268).

Dia 12 de novembro

Lc 17, 20-25

20Interrogado pelos Fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, respondeu-lhes, dizendo: O Reino de Deus não vem com aparato; 21nem se dirá: “ei-lo aqui” ou “ali”; pois o Reino de Deus está dentro de vós.

22Disse depois aos discípulos: Dias virão em que tereis o desejo de ver um dos dias do Filho do homem, e não o vereis! 23Dir-vos-ão: “ei-lo ali”, ou então: “ei-lo aqui”. Não queirais lá ir nem os sigais. 24Pois, assim como o relâmpago, ao faiscar, brilha dum lado ao outro do horizonte, assim será o Filho do homem no Seu dia. 25Mas primeiro tem Ele de sofrer muito e de ser rejeitado por esta geração.

Comentário

20-21. Os fariseus, como outros muitos judeus daquela época, imaginavam o estabelecimento do Reino de Deus como um poder visível, externo, político. Jesus, pelo contrário, ensina que é um poder eminentemente espiritual, sobrenatural, que desde a Sua vinda já está a agir – ainda que a sua culminação seja depois da Sua segunda vinda ou Parusia no fim dos tempos -, sobretudo no interior dos homens, ainda que também seja visível e externo – como é visível a Igreja -.

A presença do Reino de Deus em cada alma percebe-se através dos afectos e inspirações que o Espírito Santo comunica. Santa Teresinha explica assim a sua própria experiência: “O Doutor dos doutores ensina sem grandes discursos. Nunca O ouvi falar, mas sei que está em mim. Em todos os instantes me guia e me inspira; mas precisamente no momento oportuno é quando descubro claridades desconhecidas até então. Regularmente não brilham aos meus olhos nas horas de oração, mas no meio das ocupações do dia” (História de uma alma, cap. 8).

22. Depois de os Apóstolos receberem o Espírito Santo no dia de Pentecostes, consagrarão toda a sua vida a pregar com valentia e audácia a mensagem de Jesus Cristo, e a ganhar todos os homens para o Senhor. Isto acarretar-lhes-á muitas e graves contradições, e sofrerão tanto que desejarão ver “um dos dias do Filho do homem”, isto é, um dos dias de triunfo de Jesus Cristo. Mas este triunfo glorioso não chegará até à segunda vinda do Senhor.

Dia 13 de novembro

Lc 17, 26-37

26Como sucedeu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem: 27comiam, bebiam, casavam-se, até ao dia em que Noé entrou na arca e veio o dilúvio, que a todos perdeu. 28Dar-se-á o mesmo que sucedeu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, construíam. 29Mas no dia em que Lot saiu de Sodoma, Ele fez chover do céu fogo e enxofre e a todos perdeu. 30Assim será no dia em que Se revelar o Filho do homem. 31Nesse dia, quem se encontrar no terraço e tiver as suas coisas em casa não desça para as tirar, e quem estiver no campo não volte igualmente atrás. 32Lembrai-vos da mulher de Lot. 33Quem procurar preservar a sua vida perdê-la-á, e quem a perder conservá-la-á. 34Eu vos digo: Nessa noite haverá dois numa cama: um será tomado, e o outro deixado. 35Haverá duas a moer em conjunto: uma será tomada, e a outra deixada. 36(Haverá dois no campo: um será tomado e o outro deixado.)

37Eles tomam a palavra e perguntam-Lhe: Onde, Senhor? Jesus responde-lhes: Onde estiver o corpo, lá se hão-de juntar também os abutres.

Comentário

23-36. Estas palavras do Senhor constituem uma profecia acerca da última vinda do Filho do Homem. Deve ter-se em conta que na profecia se interpõem a miúdo diversos planos de acontecimentos, se costuma utilizar grande quantidade de símbolos e modos de falar, de maneira que o claro-escuro que apresentam faz que possamos vislumbrar os acontecimentos futuros, ainda que os pormenores concretos só fiquem claros à medida que vão acontecendo. A última vinda do Senhor será repentina, inesperada; muitos homens estarão desprevenidos. Jesus ilustra esta verdade com exemplos da História Sagrada: como nos dias de Noé (cfr Gen 6,9-9,17) e como nos de Lot (cfr Gen 18,16-19,27), o juízo divino sobre os homens virá de repente.

De todas as formas convém recordar que cada um se apresentará diante do Juiz divino imediatamente depois da morte, no juízo particular. Deste modo o ensinamento de Jesus tem também uma urgência de presente: já agora deve o discípulo vigiar o seu próprio comportamento, visto que o Senhor pode chamá-lo a prestar contas quando menos o espere.

33. “Conservá-la-á”: Na realidade o verbo grego correspondente traduzido à letra seria “gerá-la-á”, isto é, “dará à alma a verdadeira vida”. Segundo isto, o sentido das palavras do Senhor parece ser o seguinte: quem quiser conservar a todo o transe esta vida terrena, fazendo dela o valor fundamental, perderá a vida eterna; pelo contrário, quem estiver disposto a perder esta vida da terra, isto é, a resistir até à morte aos inimigos de Deus e da alma, nesta luta ganhará a felicidade eterna. As palavras deste versículo, embora diferentes na letra, são quase idênticas no seu conteúdo às de Lc 9,24.

36. Este versículo, segundo a Vulgata, diz assim: “una assumetur, et altera relinquetur. Duo in agro; unus assumetur, et alter relinquetur” (“uma será tomada e a outra deixada. Estarão dois no campo: um será tomado e o outro deixado”). Estas palavras parecem acrescentadas em parte ao texto de Lucas, tomadas de Mt 24,40: faltam, com efeito, nos melhores códices gregos. Por esta razão a Neo-vulgata omite-os.

37. “Onde, Senhor?”: Os fariseus tinham perguntado a Jesus quando chegaria o Reino de Deus (v. 20). Agora os discípulos, depois das explicações do Mestre, perguntam-Lhe: onde?; diante desta interrogação, fruto da curiosidade natural, Jesus responde com uma frase que tem todo o sabor de um provérbio e que nos indica, precisamente pelo seu sentido enigmático, que não quis responder com clareza ao que Lhe perguntavam. Assim, pois, o breve discurso do Senhor sobre a vinda do Reino de Deus e de Cristo começa e termina com perguntas superficiais dos ouvintes, mas que dão azo ao Senhor para expor uma doutrina que será entendida depois.

“Onde estiver o corpo, lá se hão-de juntar também os abutres”: O texto grego emprega um vocábulo que indica indistintamente águia ou abutre. Em qualquer caso esta frase proverbial indica a rapidez com que as aves de rapina se dirigem para a sua presa. Aqui parece referir-se ao modo como terá lugar a segunda vinda do Filho de Deus e o juízo que a acompanhará: de maneira repentina e imprevista, sem concretizar mais. A Sagrada Escritura, noutros lugares, recolhe a mesma ideia: “Mas quanto ao tempo e à ocasião, irmãos, não precisais que vos escrevam, pois vós mesmos sabeis perfeitamente que o Dia do Senhor virá como um ladrão, de noite” (1 Thes 5,1-2). Uma vez mais, Jesus exorta à vigilância: não descuidemos o mais importante da nossa vida, a salvação eterna. “Tudo isso, que te preocupa de momento, é mais ou menos importante. – O que importa acima de tudo é que sejas feliz, que te salves” (Caminho, n° 297).

Além disso, a curiosidade dos fariseus e dos discípulos sobre o quando, onde, etc., que os distraía do principal do ensinamento de Jesus, também nós a padecemos com frequência diante de acontecimentos tão importantes como a morte: quantas vezes perdemos o tempo a ponderar as circunstâncias da morte dos nossos conhecidos, e desatendemos o aviso que é o acabar esta vida – seja do modo que for – e encontrar-se com Deus.

Dia 14 de novembro

Lc 18, 1-8

1Expôs-lhes então uma parábola sobre a necessidade de eles orarem sempre sem desfalecer: 2Em certa cidade – disse Ele – havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. 3Ora, naquela cidade, existia uma viúva, que ia ter com ele e lhe dizia: “Faz-me justiça contra o meu adversário”. 4Por algum tempo, ele não quis; mas, depois, disse consigo: “Se bem que não temo a Deus nem respeito os homens, 5contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que não venha moer-me até ao fim!”. 6E o Senhor acrescentou: Escutai o que diz o juiz iníquo!… 7E Deus não havia de fazer justiça aos Seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e iria ter demoras com eles? 8Eu digo-vos que lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do homem, quando voltar, achará acaso a fé sobre a Terra?!

Comentário

1-8. A parábola do juiz injusto é um ensinamento muito expressivo acerca da eficácia da oração perseverante e firme. Por sua vez constitui a conclusão da doutrina sobre a vigilância, exposta nos versículos anteriores (17,23-26). O facto de comparar o Senhor com uma pessoa como esta, põe em relevo o contraste entre ambos: se até um juiz injusto acaba por fazer justiça àquele que insiste com perseverança, quanto mais Deus, infinitamente justo e nosso Pai, escutará as orações perseverantes dos Seus filhos. Deus, com efeito, fará justiça aos Seus escolhidos que clamam por Ele sem cessar.

1.É preciso orar em todo o tempo e não desfalecer. Por que devemos orar?

1) Devemos orar, antes de mais, porque somos crentes. Com efeito, a oração é o reconhecimento dos nossos limites e da nossa dependência: vimos de Deus, somos de Deus e retornamos a Deus. Portanto, não podemos deixar de nos abandonarmos n’Ele, nosso Criador e Senhor, com plena e total confiança (…). A oração é, antes de mais, um acto de inteligência, um sentimento de humildade e de reconhecimento, uma atitude de confiança e de abandono n’Aquele que nos deu a vida por amor. A oração é um diálogo misterioso, mas real, com Deus, um diálogo de confiança e de amor.

2) Mas nós somos cristãos, e por isto devemos orar como cristãos. Efectivamente, a oração para o cristão adquire uma característica particular que muda totalmente a sua natureza íntima e o seu valor íntimo. O cristão é discípulo de Jesus; é o que crê verdadeiramente que Jesus é o Verbo encarnado; o Filho de Deus vindo entre nós a esta terra.

Como homem, a vida de Jesus foi uma oração contínua, um acto contínuo de adoração e de amor ao Pai, e porque a expressão máxima da oração é o sacrifício, o apogeu da oração de Jesus é o sacrifício da cruz, antecipado com a Eucaristia na Última Ceia e transmitido a todos os séculos com a Santa Missa.

Por isto o cristão sabe que a sua oração é Jesus; toda a sua oração parte de Jesus; é Ele quem ora em nós, connosco e por nós. Todos os que crêem em Deus, oram; mas o cristão ora em Jesus Cristo: Cristo é a nossa oração! (…).

3) Finalmente, devemos orar também porque somos frágeis e culpáveis. É preciso reconhecer humilde e realmente que somos pobres criaturas, com ideias confusas (…), frágeis e débeis, com necessidade contínua de força interior e de consolação. A oração dá força para os grandes ideais, para manter a fé, a caridade, a pureza, a generosidade; a oração dá ânimo para sair da indiferença e da culpa, se por desgraça se cedeu à tentação e à debilidade; a oração dá luz para ver e julgar os acontecimentos da própria vida e da própria história na perspectiva salvífica de Deus e da eternidade. Por isto, não deixeis de orar! Não passe um dia sem que tenhais orado um pouco! A oração é um dever, mas também é uma grande alegria, porque é um diálogo com Deus por meio de Jesus Cristo! Cada domingo a Santa Missa e, se vos é possível, alguma vez também durante a semana; cada dia as orações da manhã e da noite e nos momentos mais oportunos!” (João Paulo II, Audiência com os jovens, 14-III-1979).

8. O ensinamento de Jesus sobre a perseverança na oração une-se com a severa advertência de que é preciso manter-se fiéis na fé; fé e oração vão intimamente unidas: “Creiamos para orar – comenta Santo Agostinho -; e para que não desfaleça a fé com que oramos, oremos. A fé faz brotar a oração, e a oração, enquanto brota, alcança a firmeza da fé” (Sermo 115).

O Senhor anunciou a Sua assistência à Igreja para que possa cumprir indefectivelmente a sua missão até ao fim dos tempos (cfr Mt 28,20); a Igreja, portanto, não pode desviar-se da verdadeira fé. Porém, nem todos os homens perseverarão fiéis, mas alguns afastar-se-ão voluntariamente da fé. É o grande mistério que São Paulo chama de iniquidade e de apostasia (2 Thes 2,3), e que o próprio Jesus Cristo anuncia noutros lugares (cfr Mt 24, 12-13). Deste modo o Senhor previne-nos para que, ainda que à nossa volta haja quem desfaleça, nos mantenhamos vigilantes e perseverando na fé e na oração.

Dia 15 de novembro

Mc 13, 24-32

24Mas, naqueles dias, depois daquela tribu­lação, o Sol escurecer-se-á, e a Lua não dará a sua claridade, 25e cairão do céu as estrelas, e abalar-se-ão os exércitos celestes.

26Então verão vir o Filho do homem sobre as nuvens, com grande poder e majestade. 27E então enviará os Anjos e ajuntará os Seus escolhidos, dos quatro ventos, do extremo da Terra ao extremo do céu.

28Aprendei a parábola tirada da figueira: Quando já os seus ramos estão tenros e brotam as folhas, sabeis que está próximo o Verão. 29 Assim também vós, quando virdes suceder estas coisas, sabei que está perto, às portas. 30Em verdade vos digo que não passará esta geração, até que estas coisas se realizem. 31Passarão o céu e a Terra, mas as Minhas palavras não hão-de passar.

32 Agora, quanto àquele dia ou hora, ninguém o sabe, nem os Anjos no Céu nem o Filho, só mente o Pai.

Comentário

24-25. Parece que as próprias criaturas irracionais no fim dos tempos expressarão a seu modo o estremecimento perante o Juís Supremo, Jesus Cristo, que voltará na majestade da Sua glória. Cumprir-se-ão então as profecias do AT (cfr p. ex., Is 13, 10; 34, 4; Ez 32, 7). Por «potestades dos céus», alguns Santos Padres, como São Jerônimo (Comm. in Matth. Ad loc.) e São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 77), entenderam os anjos que se admirarão diante daqueles acontecimentos. Reforça esta sentença o uso litúrgico de nomear o conjunto dos anjos como « Virtutes caelorum» (cfr Missale Romanum, Praef. de Sanctis Martyribus, p. 430). Mas a frase pode entender-se também, segundo muitos outros comentaristas, como equivalente à anterior, de modo que poderia traduzir–se por «forças cósmicas» ou «astros do firmamento».

26-27. Jesus Cristo descreve aqui a Sua segunda vinda, no fim dos tempos, anunciada já pelo profeta Daniel (7, 13). Com isso descobre o sentido último encerrado nas palavras do antigo profeta: aquele «como filho de homem» que Daniel viu, « a quem foi dado o poder, e a honra e o reino, e todos os povos, tribos e línguas o servirão», é o próprio Jesus Cristo, que reunirá à Sua volta os santos.

28-30. Já se advertiu, na nota a Mc 13,4, que os discípulos de Jesus, seguindo as idéias judaicas da época, não conce­biam uma separação entre a ruína de Jerusalém e o fim do mundo. Advertia-se também ao comentar Mc 13,4, que há uma certa relação entre ambos os acontecimentos, enquanto a destruição da Cidade Santa é figura do fim do mundo. Nosso Senhor, respondendo agora aos Seus discípulos, anuncia em Mc 13,30 que a ruína de Jerusalém sucederia dentro daquela geração, como na verdade aconteceu no ano 70, às mãos das legiões romanas. Para uma maior explicação da ruína de Jerusalém como figura do fim do mundo cfr a nota a Mt 24, 32-35.

31. Com esta frase o Senhor dá uma especial solenidade às Suas palavras. Sublinha assim que o que Ele disse se cumprirá indefectivelmente.

Só Deus diz e faz, só quem é Senhor do Universo tem sob o Seu poder tudo o que existe, e Jesus recebeu do Pai todo o poder sobre os céus e a terra (cfr Mt 1 1 , 27 e 28, 18).

32. Aludindo a este versículo explica Santo Agostinho (Enarrationes in Psalmos, 36, 1): «Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos foi enviado como Mestre, disse que nem sequer o Filho do Homem conhecia o dia do juízo, porque não entrava nas atribuições do Seu magistério o ensinar-no-lo».

Quanto à ciência de Jesus Cristo, isto é, aos conhecimentos que tinha durante a Sua vida na terra, vid. a nota a Lc 2, 52.

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