dia 8 a 14 de março de 2010

Dia 8 de março

Lc 4, 24-30

24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo facto de Jesus, seu concidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida, exigem-Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23,7-11); inclusivamente censura a sua posição, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr 1 Reg 17,9 e 2 Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos nas Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se retirando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfr Ioh 18,32) quando chegasse a Sua hora.

Dia 9 de março

Mt 18, 21-35

21Então aproximou-se Pedro e disse-Lhe: Senhor, se meu irmão pecar contra mim, quantas vezes lhe devo perdoar? Até sete vezes? 22Disse-lhe Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Por isso, é semelhante o Reino dos Céus a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. 24Logo ao começar, foi-lhe apresentado um que devia dez mil talentos. 25E como não tivesse com que pagar, mandou o senhor que o vendessem a ele e à mulher e aos filhos e a tudo quanto tinha e que assim se pagasse a dívida. 26Lançou-se o servo por terra e, prostrando-se diante dele, disse-lhe: “Senhor, tem paciência comigo e pagar-te-ei tudo”. 27E o senhor, compadecido daquele servo, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair, encontrou-se o servo com um dos seus companheiros que lhe devia cem dinheiros e, aferrando-o pelo pescoço afogava-o, dizendo: Paga o que deves. 29Lançou-se-lhe o companheiro aos pés e começou a suplicar-lhe: Tem paciência comigo e pagar-te-ei. 30Ele, porém, não quis, mas foi metê-lo na cadeia até que pagasse a dívida. 31Os outros servos, ao verem o que se passava, ficaram muito magoados e foram contar tudo ao senhor. 32Então o senhor chamou-o e disse-lhe: Servo perverso, perdoei-te toda aquela dívida, porque mo pediste. 33Não devias tu compadecer-te do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? 34E, indignado, o senhor entregou-o aos algozes até que pagasse toda a dívida. 35Assim vos fará também o Meu Pai celeste, se não perdoardes, cada um a seu irmão, do íntimo dos vossos corações.

Comentário

21-35. A pergunta de Pedro e, sobretudo, a resposta de Jesus dão-nos a pauta do espírito de compreensão e misericórdia que deve presidir à actuação dos cristãos.

A cifra de setenta vezes sete na linguagem hebraica equivale ao advérbio “sempre” (cfr Gen 4,24): “De modo que não encerrou o Senhor o perdão num número determinado, mas deu a entender que se tem de perdoar continuamente e sempre ” (Hom. sobre S. Mateus, 6). Também se pode observar aqui um contraste entre a atitude mesquinha dos homens em perdoar com cálculo e a misericórdia infinita de Deus. Por outro lado, a nossa situação de devedores relativamente a Deus fica muito bem reflectida na parábola. Um talento equivalia a seis mil denários e um denário era o jornal diário de um trabalhador. A dívida de dez mil talentos é uma quantidade exorbitante que nos dá ideia do valor imenso que tem o perdão que recebemos de Deus. Contudo, o ensinamento final da parábola é o de perdoar sempre e do íntimo do coração aos nossos irmãos.

“Esforça-te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofenderem, desde o primeiro instante, já que, por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti” (Caminho, n° 452).

Dia 10 de março

Mt 5, 17-19

17Nao julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir mas cumprir. 18Em verdade vos digo: até que passem os Céus e a Terra, nem um só jota ou um só til da Lei passará, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, quem transgredir um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas quem os observar e ensinar, esse será grande no Reino dos Céus.

Comentário

17-19. Jesus ensina neste passo o valor perene do Antigo Testamento, enquanto é palavra de Deus; goza, portanto, de autoridade divina e não pode desprezar-se o mínimo. Na Antiga Lei havia preceitos morais, judiciais e litúrgicos. Os preceitos morais do AT conservam no Novo o seu valor, porque são principalmente promulgações concretas, divino-positivas, da lei natural. Nosso Senhor dá-lhes, contudo, a sua significação e as suas exigências mais profundas. Os preceitos judiciais e cerimoniais, pelo contrário, foram dados por Deus para uma etapa concreta na História da Salvação, a saber, até à vinda de Cristo; a sua observância material em si não obriga os cristãos (cfr Suma Teológica, I-II, q. 108, a. 3 ad 3).

A lei promulgada por meio de Moisés e explicada pelos Protelas constituía um dom de Deus para o povo, como antecipação da Lei definitiva que daria Cristo o Messias. Na verdade, como definiu o Concílio de Trento, Jesus não só “foi dado aos homens como Redentor em quem confiem, mas também como Legislador a quem obedeçam” (De iustificatione, can. 21).

Dia 11 de março

Lc 11, 14-23

14Jesus estava a expulsar um Demônio e este era mudo. Saído o Demônio, o mudo falou, e as multidões ficaram admiradas. 15Disseram, porém, alguns dentre eles: É por Belzebu, Príncipe dos Demônios, que Ele expulsa os Demônios. 16Outros, para O experimentarem, solicitavam da Sua parte um sinal do céu. 17Mas Ele, que conhecia os pensamentos deles, disse-lhes: Todo o reino que se dividiu contra si mesmo ficará devastado, caindo casa sobre casa. 18Então, se Satanás, também, se dividiu contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que por Belzebu é que Eu expulso os Demônios!… 19Mas se Eu expulso os Demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso é que eles mesmos serão vossos juizes! 20Mas, se Eu expulso os Demônios pelo dedo de Deus, é que chegou até vós o Reino de Deus.

21Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, estão em segurança os seus haveres. 22Mas, quando surge um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe o equipamento em que estava confiado e distribui-lhe os despojos.

23Quem não está comigo é contra Mim, e quem não junta comigo dispersa.

Comentário

14-23. A obstinação dos inimigos de Jesus não cede nem diante da evidência do milagre. Uma vez que não podem negar o valor extraordinário do facto, atribuem-no a artes demoníacas, com o intento de negar que Jesus é o Messias. O Senhor replica-lhes com um raciocínio que não admite escapatória: as expulsões de demônios que faz são provas evidentes de que com Ele chegou o Reino de Deus. O Concilio Vaticano II recordou de novo esta verdade: “O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras (…). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: “Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus (Lc 11,20; cfr Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se sobretudo na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos (Mc 10,45)” (Lumen gentium, n° 5).

O forte e bem armado é o demônio (v. 21), que com o seu poder tinha escravizado o homem; mas Jesus Cristo, mais forte que ele, veio, venceu-o e está a desalojá-lo de onde se tinha assenhoreado. São Paulo dirá que Cristo “despojou os principados e as potestades, triunfando publicamente sobre eles”(Col 2,15).

Depois da vitória de Cristo, o “mais forte”, as palavras do v. 23 são uma séria advertência aos que O escutavam, e a toda a humanidade: ainda que o não queiram reconhecer Jesus Cristo venceu, e doravante não é admissível a neutralidade diante da Sua causa: quem não estiver com Ele, está contra Ele.

18. O argumento de Cristo é claro. Um dos maiores males que podem sobrevir à Igreja é precisamente a divisão entre os cristãos, a desunião dos crentes. Temos de fazer nossa a oração de Jesus: “Que todos sejam um; como Tu, Pai, em Mim e Eu em Ti, que assim eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Ioh 17,21).

Dia 12 de março

Mc 12, 28b-34

28bAproximou-se um escriba e perguntou-Lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 29O primeiro – respondeu Jesus – é: Ouve Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor 30e ama o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças. 31O segundo é: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Não há nenhum mandamento maior que estes. 32Disse-Lhe o escriba: Mestre, disseste verdadeiramente bem que é único e não há outro fora d’Ele, 33e que amá-Lo de todo o coração, e de toda a inteligência, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios. 34Jesus, ao ver que tinha respondido atinadamente, disse-lhe: Não estás longe do Reino de Deus. E ninguém mais ousava interrogá-Lo.

Comentário

28-34. O doutor da lei que faz a pergunta mostra uma atitude leal diante de Jesus Cristo porque busca sinceramente a verdade. Ficou impressionado diante da resposta precedente de Jesus (vv. 18-27), e aproxima-se com desejos de conhecer melhor os ensinamentos do Mestre. A sua pergunta é acertada e Jesus entretém-se a instruir este homem, pertencente a um grupo, os escribas, sobre o qual vai lançar as acusações mais fortes (cfr Mc 12,38 ss.).

Mas Jesus não vê no personagem que d’Ele se aproxima apenas um escriba mas uma alma que busca a verdade. E os ensinamentos de Jesus penetram no seu coração: aquele homem repete-os saboreando-os, e o Senhor terá para ele uma palavra carinhosa que incita à conversão definitiva: “Não estás longe do Reino de Deus”. Este encontro faz-nos recordar o que teve com Nicodemos (cfr Ioh 3, 1 ss.).

30. Este mandamento da Antiga Lei, ratificado por Jesus, manifesta, antes de mais, o amor de Deus que quer estabelecer uma comunicação íntima com o homem: “Verdadeiramente Deus mostra-Se desejoso do nosso amor! Não Lhe bastou conceder-nos a graça de consentir que O amássemos(…); vai mais adiante em declarar-nos a Sua paixão amorosa; ordena-nos que O amemos com todas as forças, a fim de que nem a consideração da Sua Majestade e da nossa miséria, coisas tão infinitamente díspares, nem qualquer outro pretexto nos afastem do Seu amor. Nisso mostra bem que não colocou inutilmente em nós a inclinação para O amarmos, pois para que não ficasse frustrada, impele-nos a exercitá-la mediante um mandamento geral; e para que se possa cumprir este mandamento, a nenhum homem regateia os meios indispensáveis” (Tratado do amor de Deus, livro 2, cap. 8).

Dia 13 de março

Lc 18, 9-14

9Disse também a seguinte parábola, para alguns, que estavam intimamente convencidos de que eram justos e desprezavam os demais: 10Subiram ao Templo dois homens para orar: um fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, perfilado, fazia lá consigo esta oração: “Ó Deus, dou-Te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, ou ainda como este publicano. 12Jejuo duas vezes por semana; pago o dízimo de tudo quanto recebo”. 13E o publicano, mantendo-se a distância, não ousava nem sequer erguer os olhos ao Céu, mas batia no peito, dizendo: “Ó Deus, sê clemente para comigo, que sou pecador!”. 14Eu vos digo: Desceu este justificado para sua casa, ao contrário do outro, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

Comentário

9-14. O Senhor completa o Seu ensinamento sobre a oração; além de ser perseverante e cheia de fé, a oração deve brotar de um coração humilde e arrependido dos seus pecados: Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies (Ps 51,19), o Senhor, que nunca despreza um coração contrito e humilhado, resiste aos soberbos e dá a Sua graça aos humildes (cfr 1 Pet 5,5; Iac 4,6).

A parábola apresenta dois tipos humanos contrapostos: o fariseu, meticuloso no cumprimento externo da Lei; e o publicano, pelo contrário, considerado pecador público (cfr Lc 19,7). A oração do fariseu não é agradável a Deus devido ao seu orgulho, que o leva a fixar-se em si mesmo e a desprezar os outros. Começa a dar graças a Deus, mas é óbvio que não se trata de verdadeira acção de graças, visto que se ufana do bem que fez, e não é capaz de reconhecer os seus pecados; como pensa que já é justo, não tem necessidade, segundo ele, de ser perdoado; e, efectivamente, permanece nos seus pecados; a ele se aplica também o que disse o Senhor noutra ocasião a um grupo de fariseus: “Se fôsseis cegos não teríeis pecado, mas agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” (Ioh 9,41). O fariseu baixou do Templo, pois, com os seus próprios pecados.

Pelo contrário, o publicano reconhece a sua indignidade e arrepende-se sinceramente: estas são as disposições necessárias para ser perdoado por Deus. A jaculatória do publicano, que exprime tais sentimentos, alcança o perdão divino: “Com razão, explica São Francisco de Sales, alguns disseram que a oração justifica, porque a oração contrita ou a contrição orante eleva a alma a Deus, une-a à Sua bondade e obtém o Seu perdão em virtude do amor divino que lhe comunica este santo movimento. Por conseguinte, devemos sentir-nos fortes com tais jaculatórias, feitas com actos de dor amorosa e com desejos de divina reconciliação a fim de que, por meio delas, expressando diante do Salvador as nossas angústias (Ps 142, 2), confiemos a alma ao Seu Coração misericordioso que a receberá com piedade” (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 20).

Dia 14 de março

Jo 9, 1-41

1Ao passar, viu um cego de nascença. 2Interrogaram-No então os discípulos, nestes termos: Rabi, quem pecou, ele ou os pais, para ter nascido cego? 3Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem os pais; foi para nele se manifestarem as obras de Deus. 4Devemos trabalhar nas obras d’Aquele que Me enviou, enquanto é dia. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo.

6Dito isto, cuspiu na terra, fez lodo com a saliva e aplicou-lho aos olhos. 7Depois disse-lhe: Vai lavar-te à piscina de Siloá – que quer dizer Enviado. Ele foi, lavou-se e voltou com vista. 8Ora os vizinhos e os que antes o viam – pois era um mendigo – perguntavam: Não é este o que estava por aí sentado a mendigar? 9Uns diziam: É ele! Outros replicavam: Não! É parecido com ele. O próprio afirmava: Sou eu!

10Observavam-lhe, pois: Como foi então que se te abriram os olhos? 11Ele respondeu: Esse homem que se chama Jesus fez lodo, aplicou-mo aos olhos e disse-me: “Vai lavar-te a Siloá”. Eu então fui e, depois de me lavar, comecei a ver. 12Perguntaram-lhe: Onde está Ele? Não sei – respondeu.

13Levaram aos Fariseus o que fora cego. 14Era um sábado o dia em que Jesus tinha feito lodo e lhe abrira os olhos. 15Perguntaram-lhe também por sua vez os Fariseus como tinha começado a ver. Ele declarou-lhes: Pôs-me lodo nos olhos; depois lavei-me e cá estou a ver. 16Diziam então alguns dos Fariseus: Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado. Outros observavam: Como pode um pecador fazer tais milagres? E havia desacordo entre eles. 17Perguntaram então novamente ao cego: Que dizes tu, a respeito d’Ele, quanto a ter-te aberto os olhos? 18É um profeta! – respondeu. Ora os Judeus não quiseram acreditar que ele fora cego e adquirira a vista, antes de chamarem os pais do mesmo que alcançara a vista. 19Interogaram-nos, pois, nestes termos: É este o vosso filho que dizeis ter nascido cego? Como é então que ele agora já vê? 20Responderam os pais, dizendo: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego. 21Mas como é que ele agora já vê, não o sabemos, como não sabemos quem lhe abriu os olhos. Perguntai-lho vós. Tem idade; ele próprio falará a seu respeito. 22Isto disseram os pais dele, porque tinham medo dos Judeus. É que os Judeus já haviam combinado que, se alguém reconhecesse a Jesus como o Messias, seria excluído da sinagoga. 23Por isso é que os pais dele disseram: “Tem idade; interrogai-o vós”.

24Chamaram então, pela segunda vez, o homem que fora cego e disseram-lhe: Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é pecador. 25Ele respondeu: Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo. 26Perguntaram-lhe então: Que te fez Ele? Como te abriu os olhos? 27Já vo-lo disse – retorquiu-lhes – e vós não destes ouvidos! Porque desejais ouvi-lo novamente? Também vós quereis fazer-vos Seus discípulos? 28Então eles descompuseram-no e acrescentaram: Tu é que és Seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. 29Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas Esse, não sabemos donde é. 30Respondeu-lhes o homem: O que é de facto assombroso é que vós não saibais donde é, tendo-me Ele aberto os olhos. 31Nós sabemos que Deus não atende os pecadores, mas, se alguém for piedoso e cumprir a Sua vontade, Ele atende-o. 32Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos dum cego de nascença. 33Responderam-lhe eles: Tu nasceste todo inteiro no pecado, e estás a ensinar-nos?! 34E expulsaram-no.

35Ouviu Jesus dizer que o tinham expulsado e, tendo-o encontrado, perguntou-lhe: Tu acreditas no Filho do homem? 36Ele respondeu: E quem é, Senhor, para eu acreditar n’Ele? 37Disse-lhe Jesus: Tu já O viste; é Ele que está a falar contigo! 38Então exclamou: Creio, Senhor! E prostrou-se diante d’Ele. 39Depois Jesus disse-lhe: Para uma discriminação é que Eu vim a este mundo: para que os que não vêem passem a ver e os que vêem fiquem cegos.

40Ouviram isto alguns dos Fariseus, que estavam com Ele, e perguntaram-Lhe: Nós também somos cegos? 41Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas, de facto, vós dizeis: “nós vemos!”, e o vosso pecado permanece.

Comentário

2-3. A pergunta dos discípulos faz-se eco das opiniões dos judeus sobre a causa da doença e das desgraças em geral: consideravam-se castigo dos pecados pessoais (cfr Ioh 4,7-8; 2 Mach 7,18), ou das faltas dos pais, que recaíam sobre os filhos (cfr Tob 3,3).

Sabemos pela Revelação (cfr Gen 3,16-19; Rom 5,12; etc.) que a origem de todas as desgraças que afligem a humanidade é o pecado: o pecado original e os sucessivos pecados pessoais. Não obstante, isto não quer dizer que cada desgraça ou doença tenha a sua causa imediata num pecado pessoal, como se Deus enviasse ou permitisse os males em relação directa com cada pecado cometido. A dor, que acompanha tantas vezes a vida do justo, pode ser um meio que Deus lhe envia para se purificar das suas imperfeições, para exercitar e robustecer as suas virtudes e para se unir aos padecimentos de Cristo Redentor que, sendo inocente, levou sobre Si o castigo que mereciam os nossos pecados (cfr Is 53, 4; 1 Pet 2,24; 1 Ioh 3,5). Neste sentido, a Santíssima Virgem, São José e todos os santos experimentaram intensamente a dor como participação no sofrimento redentor de Cristo.

4-5. O “dia” refere-se à vida terrena de Jesus. Daqui a urgência que a Si mesmo se impõe de realizar a Vontade do Pai antes que chegue a Sua morte, que compara com a noite. Também se pode entender que a noite se refere ao fim deste mundo; neste sentido o passo significa que a Redenção dos homens realizada por Cristo deve ser continuada pela Igreja ao longo dos tempos, e que também os cristãos devem esforçar-se por estender o Reino de Deus.

“O tempo é precioso, o tempo passa, o tempo é uma fase experimental da nossa sorte decisiva e definitiva. Das provas que demos de fidelidade aos próprios deveres depende a nossa sorte futura e eterna.

O tempo é um dom de Deus: é uma interpelação do amor de Deus à nossa livre e – pode dizer-se – decisiva resposta. Devemos ser avaros do tempo, para o empregar bem, com a intensidade no agir, amar e sofrer. Que não exista jamais para o cristão o ócio, o aborrecimento. O descanso sim, quando for necessário (cfr Mc 6,31), mas sempre tendo em vista uma vigilância que só no último dia se abrirá a uma luz sem ocaso” (Paulo VI, Homilia, 1-I-1976. IX Dia mundial da paz).

Jesus proclama-Se a Luz do mundo porque a Sua vida entre os homens nos deu o sentido último do mundo, da vida de cada homem e da humanidade inteira. Sem Jesus toda a criatura está às escuras, não encontra o sentido do seu ser, nem sabe aonde vai. “O mistério do homem só se esclarece realmente no mistério do Verbo Encarnado (…). Por Cristo e em Cristo ilumina-se o enigma da dor e da morte, que fora do Seu Evangelho nos envolve em absoluta obscuridade” (Gaudium et spes, n. 22). Jesus adverte-nos – e isto di-lo-á mais claramente em Ioh 12,35-36 – da necessidade de nos deixarmos iluminar por essa luz que é Ele mesmo (cfr Ioh 1,9-12).

6-7. A cura realiza-se em duas etapas: a acção de Jesus sobre os olhos do cego e o mandato de se lavar na piscina de Siloá. Nosso Senhor tinha utilizado também a saliva para curar um surdo-mudo (cfr Mc 7,33) e um cego (cfr Mc 8,23). A piscina de Siloá era um tanque construído pelo rei Ezequias no século VII a.C. para o abastecimento de água a Jerusalém (cfr 2 Reg 20,20; 2 Chr 32,30); os profetas consideravam estas águas como uma mostra do favor divino (cfr Is 8,6; 22,11). São João apoiando-se no sentido amplo da etimologia de Siloá, aplica-o a Jesus, que é o “Enviado” do Pai. O Senhor actua por meio da matéria para produzir efeitos que superam a natureza dessa mesma matéria. Algo semelhante fará com os Sacramentos: a uns meios materiais conferirá pela Sua palavra o poder da regeneração sobrenatural do homem.

O mandato que o Senhor dá ao cego evoca o milagre de Naamão, general sírio que foi curado da sua lepra quando, por indicação do profeta Eliseu, se lavou sete vezes nas águas do Jordão (cfr 2 Reg 5,1 ss.). Aquele tinha titubeado antes de obedecer; o cego, pelo contrário, obedece com prontidão e sem replicar.

“Que belo exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa. É assim que te comportas com os mandatos de Deus, quando muitas vezes estás cego, quando nas preocupações da tua alma se oculta a luz? Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem humedecidos? Teria sido mais adequado um colírio desconhecido, um medicamento precioso preparado no laboratório dum sábio alquimista. Mas aquele homem crê, põe em prática o que Deus lhe ordena e volta com os olhos cheios de claridade” (Amigos de Deus, n° 193).

8-34. Depois de narrar o milagre, o Evangelho refere as dúvidas dos vizinhos e conhecidos do cego (vv. 8-12) e a investigação que fazem os fariseus: interrogatório ao cego curado (vv. 13-17), aos seus pais (vv. 18-23) e de novo ao cego, a quem terminam condenando e expulsando-o da sua presença (vv. 24-34). O passo contém tal precisão de pormenores que manifesta claramente a espontaneidade de uma testemunha que presenciou e viveu o acontecimento.

Os Santos Padres e Doutores da Igreja viram simbolizado neste milagre o sacramento do Baptismo, no qual, por meio da água, a alma fica limpa e recebe a luz da fé: “Envia-o à piscina, que se chama de Siloá, para que se lave e para que seja iluminado, isto é, para que seja baptizado e receba no baptismo a iluminação plena” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

O episódio reflecte, por outro lado, as diversas posições diante do Senhor e dos Seus milagres. O cego, de coração simples, crê em Jesus como enviado, profeta (vv. 17.33) e Filho de Deus (vv. 17.33.38). Os fariseus, pelo contrário, obstinam-se em não querer ver nem crer, inclusivamente perante a evidência dos factos (vv. 24-34).

Neste milagre Jesus revela-Se de novo como luz do mundo. Comprova-se a afirmação do Prólogo: “Era a luz verdadeira que ilumina todo o homem, que vem a este mundo” (1,9). Não só dá a luz aos olhos do cego, mas ilumina-o interiormente levando-o a um acto de fé na Sua divindade (v. 38). Ao mesmo tempo fica patente o drama profundo daqueles que se obcecam na sua cegueira, tal como o tinha anunciado no diálogo com Nicodemos: “Veio a luz ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz, já que as suas obras eram más” (Ioh 3,19).

14-16. Os fariseus aduzem a mesma acusação que na cura do paralítico da piscina (Ioh 5,10) e que noutras ocasiões: Jesus é um transgressor da Lei porque não guarda o sábado ao curar os doentes (cfr Lc 13,16; 14,5…). Cristo tinha ensinado muitas vezes que a observância do descanso sabático (cfr Ex 20,8.11; 21,13; Dt 5,14) não se opõe à obrigação de fazer o bem (cfr Mt 12,3-8; Mc 2,28; Lc 6,5). Por cima de todos os preceitos está a caridade, o bem dos homens. Pelo contrário, quando a norma se antepõe de maneira cega as obrigações evidentes de justiça e de caridade, cai-se no fanatismo, que sempre se opõe ao Evangelho, e mesmo à recta razão. É o que acontece com os fariseus neste caso: fecham-se nas suas idéias até ao ponto de não quererem ver a mão de Deus num facto que mostra de modo razoável que só pode ser realizado pelo poder divino. O dilema que se lhes põe sobre Jesus – se é um homem de Deus pelos milagres que faz, ou um pecador por não observar o sábado (cfr Mc 3,23-30) – só é possível dentro de uma mentalidade completamente dominada pelo fanatismo religioso. A interpretação errada do cumprimento de alguns preceitos tinha-os levado a não compreender o essencial da Lei: o amor a Deus e o amor ao próximo.

Os fariseus, para não aceitarem a divindade de Jesus, rejeitam a única interpretação correcta do milagre. O cego, pelo contrário – como as almas abertas sem preconceito à verdade -, encontra no milagre um apoio firme para confessar que Cristo opera com poder divino (Ioh 9,33): “Certamente Cristo apoiou e confirmou a Sua pregação com milagres para excitar e robustecer a fé dos ouvintes, mas não para exercer coacção sobre eles” (Dignitatis humanae, n. 11).

24. “Dá glória a Deus”: Solene declaração, a modo de juramento, com que se exortava a dizer a verdade. Não obstante, os fariseus não buscavam a verdade, mas intimidar o cego para que se desdissesse do confessado. Agora forçam a sua consciência advertindo-o: “Nós sabemos que esse homem é pecador”. Ao explicar este passo, escreve Santo Agostinho: “Que pretendem ao dizer: Dá glória a Deus? Que negue o benefício recebido. Isto não é certamente dar glória a Deus, mas antes blasfemar contra Deus” (In Ioann. Evang., 44,11).

25-34. Todo o interrogatório mostra que o milagre foi tão patente que nem sequer os adversários puderam negá-lo. Nosso Senhor durante o Seu ministério público fez muitos milagres, manifestando assim a Sua omnipotência sobre todas as coisas ou, o que é o mesmo, a Sua divindade.

Perante a atitude racionalista que não aceita, por um falso princípio filosófico, a intervenção sobrenatural de Deus neste mundo e, portanto, a possibilidade do milagre, o Magistério da Igreja ensinou sempre a existência e o valor dos milagres: “Quis Deus que aos auxílios internos do Espírito Santo se juntassem argumentos externos da Sua Revelação, a saber, factos divinos e, antes de mais, os milagres e as profecias que, mostrando luminosamente a omnipotência e a ciência infinita de Deus, são sinais certíssimos da Revelação divina e acomodados à inteligência de todos”. “Se alguém disser que não se pode dar nenhum milagre e que portanto todas as narrações sobre eles, mesmo as contidas na Sagrada Escritura, há que relegá-las entre as fábulas ou os mitos, ou que os milagres não podem nunca ser conhecidos com certeza e que com eles não se prova legitimamente a origem divina da religião cristã, seja anátema” (Dei Filius, cap. 3 e can. 4).

29. O facto miraculoso é igualmente válido para todos, mas a contumácia daqueles fariseus não se rende diante da significação do facto, nem sequer depois das averiguações realizadas com os pais e o próprio cego. “O pecado dos fariseus não consistia em não verem Deus em Cristo, mas em encerrarem-se voluntariamente em si mesmos, em não tolerarem que Jesus, que é luz, lhes abrisse os olhos” (Cristo que passa, n° 71).

Em todo este episódio assim como há um processo de aprofundamento na fé por parte do cego, que começa a reconhecer Jesus como Profeta (v. 17) e culmina na confissão da Sua divindade (v. 35), há também um processo contrário de obstinação naqueles judeus: desde a dúvida (v. 16), passando pela afirmação blasfema de que Jesus é um pecador (v. 24), até terminar por expulsarem o mendigo (v. 34). É preciso que os homens estejamos atentos a esse grande inimigo, a soberba, que cega os olhos e impede de ver até o mais evidente.

34. Depois do exílio de Babilônia (século VI a.C.) existia entre os judeus o costume de expulsar da sinagoga aqueles que cometiam certos delitos. Fazia-se de duas formas: a exclusão temporária durante 30 dias como medida disciplinar, e a exclusão definitiva, que se poria em prática com freqüência contra os judeus que se convertessem ao cristianismo. Aqui parece que se refere a esta expulsão definitiva, tal como o tinham combinado (v. 22), e pode comprovar-se por outros dados do Evangelho (cfr 12,42; 16,2; Lc 6,22).

35-38. Não parece casual este encontro com Jesus. Os fariseus expulsaram da sinagoga o cego curado; mas o Senhor, além de o acolher, ajuda-o a fazer um acto de fé na Sua divindade. “Lavada finalmente a face do coração e purificada a consciência, reconhece-o não só filho de homem, mas Filho de Deus” (In Ioann. Evang., 44,15). Este diálogo recorda-nos o que Jesus tinha mantido com a samaritana (cfr Ioh 4,26).

39. Perante o contraste entre a fé do cego e a obstinação dos fariseus, o Senhor pronuncia esta sentença. Ele não foi enviado para condenar o mundo, mas para o salvar (cfr Ioh 3,17); mas a Sua presença entre nós comporta já um juízo, porque cada homem há-de tomar diante d’Ele uma destas duas atitudes: de aceitação ou de rejeição. Cristo foi posto para ruína de uns e salvação de outros (cfr Lc 2,34). Deste modo, estabelece-se uma diferenciação entre os homens (cfr Ioh 3,18-21; 12,47-48). Por um lado, os humildes de coração (cfr Mt 11,25) que, reconhecendo as suas misérias, acorrem a Jesus em busca do perdão: estes gozarão daquela luz. Por outro lado, os que, satisfeitos de si mesmos, pensam que não necessitam de Cristo nem da Sua palavra; estes que dizem ver são na realidade cegos. Desta maneira somos nós os homens que com a fé ou a rejeição de Jesus preparamos a nossa sorte última.

40-41. As palavras de Jesus produziram uma forte impressão entre os fariseus, desejosos de encontrar nos Seus ensinamentos algum motivo de condenação. Dando-se conta de que Se referia a eles, voltam a interrogá-Lo. A resposta do Senhor é clara: eles podem ver mas não querem; daí a sua culpabilidade. “Se conhecêsseis a vossa cegueira e vos considerásseis cegos e recorresseis ao médico, não teríeis pecado, porque Eu vim tirar o pecado; mas porque dizeis vemos, por isso permanece o vosso pecado. Por quê? Porque dizendo vemos não recorreis ao médico e assim ficareis na vossa cegueira” (In Ioann. Evang., 45,17).