dia 8 a 14 de junho de 2009

Dia 8 de junho

Mt 5, 1-12

1Vendo Ele as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Acercaram-se os discípulos 2e Ele, tomando a palavra, pôs-se a ensiná-los, dizendo:

3Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

4Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

5Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra.

6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

7Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

8Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

9Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.

10Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

11Bem-aventurados sois, quando, por minha causa, vos injuriarem e perseguirem e disserem, falsamente, contra vós toda a espécie de mal.

12Alegrai-vos e exultai, porque será grande nos Céus a vossa recompensa. Foi assim que perseguiram os profetas antes de vós.

Comentário

1-2. O Sermão da Montanha ocupa integralmente os caps. 5, 6 e 7 de São Mateus. Trata-se do primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus que aparecem neste Evangelho. Compreende uma considerável parte dos ensinamentos do Senhor.

Não é fácil de reduzir o discurso a um só tema, mas os diversos ensinamentos podem comodamente agrupar-se à volta destes cinco pontos: 1) o espírito que se deve ter para entrar no Reino dos Céus (as Bem-aventuranças, sal da terra e luz do mundo, Jesus e a Sua doutrina, plenitude da Lei); 2) rectidão de intenção nas práticas de piedade (aqui se inclui a oração do Senhor ou Pai-Nosso); 3) confiança na Providência paternal de Deus; 4) as relações fraternas dos filhos de Deus (não julgar o próximo, respeito pelas coisas santas, eficácia da oração e a regra de oiro da caridade); e 5) condições e fundamento para a entrada no reino (a porta estreita, os falsos profetas e edificar sobre rocha).

2. “Pôs-se a ensiná-los”: Refere-se tanto aos discípulos que rodeavam Jesus como às multidões ali presentes, segundo aparece no fim do Sermão da Montanha (Mt 7,28).

As Bem-aventuranças (5,3-12) constituem como que o pórtico do Sermão da Montanha. Para uma recta compreensão das Bem-aventuranças é conveniente ter em conta que nelas não se promete a salvação a umas determinadas classes de pessoas que aqui se enumerariam, mas a todos aqueles que alcancem as disposições religiosas e o comportamento moral que Jesus Cristo exige. Quer dizer, os pobres de espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos e os que sofrem perseguição por buscar a santidade, não indicam pessoas distintas entre si, mas são como que diversas exigências de santidade dirigidas a quem quer ser discípulo de Cristo.

Pela mesma razão, também não prometem a salvação a determinados grupos da sociedade, mas a toda a pessoa que, seja qual for a sua situação no mundo, se esforce por viver o espírito e as exigências das Bem-aventuranças.

A todas elas é também comum o sentido escatológico, isto é, é-nos prometida a salvação definitiva não neste mundo, mas na vida eterna. Mas o espírito das Bem-aventuranças produz, já na vida presente, a paz no meio das tribulações. Na história da humanidade, as Bem-aventuranças constituem uma mudança completa dos critérios humanos habituais: desqualificam o horizonte da piedade farisaica, que via na felicidade terrena a bênção e prémio de Deus e, na infelicidade e desgraça, o castigo. Em todos os tempos as Bem-aventuranças põem muito por cima os bens do espírito sobre os bens materiais. Sãos e doentes, poderosos e débeis, ricos e pobres… são chamados, por cima das suas circunstâncias, à felicidade profunda daqueles que alcançam as Bem-aventuranças de Jesus.

É evidente que as Bem-aventuranças não contêm toda a doutrina evangélica. Não obstante contém, como que em germe, todo o programa de perfeição cristã.

3. Neste versículo exprime-se de modo amplo a relação da pobreza com o espírito. Este conceito religioso de pobre tinha já uma longa tradição no AT (cfr, p. ex., Soph 2,3 s). Mais que a condição social de pobre, expressa a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus: é pobre o que acorre a Deus sem considerar méritos próprios e confia só na misericórdia divina para ser salvo. Esta atitude religiosa da pobreza está muito aparentada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada em propriedade; tudo é de Deus seu Pai e a Ele o deve. De qualquer modo a pobreza em espírito, quer dizer, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e austeridade no uso deles. A alguns, os religiosos, Deus pede-lhes o desprendimento inclusive jurídico das suas propriedades, como testemunho perante o mundo da condição passageira das coisas terrenas.

4. “Os que choram”: Chama aqui bem-aventurados Nosso Senhor todos os que estão aflitos por alguma causa e, de modo particular, aqueles que estão verdadeiramente arrependidos dos seus pecados, ou aflitos pelas ofensas que outros fazem a Deus, e que levam o seu sofrimento com amor e desejos de reparação.

“Choras? – Não te envergonhes. Chora; sim, os homens também choram, como tu, na solidão e diante de Deus. – Durante a noite, diz o rei David, regarei de lágrimas o meu leito. Com essas lágrimas, ardentes e viris, podes purificar o teu passado e sobrenaturalizar a tua vida actual” (Caminho, n° 216).

O Espírito de Deus consolará com paz e alegria, mesmo neste mundo, os que choram os pecados, e depois participarão da plenitude da felicidade e da glória do céu: esses são bem-aventurados.

5. “Mansos”: quer dizer, os que sofrem com paciência as perseguições injustas; os que nas adversidades mantêm o ânimo sereno, humilde e firme, e não se deixam levar pela ira ou pelo abatimento. É a virtude da mansidão muito necessária para a vida cristã. Normalmente as frequentes manifestações externas de irritabilidade procedem da falta de humildade e de paz interior.

“A terra”: Comummente entende-se em sentido transcendente, quer dizer, a pátria celestial

6. O conceito de justiça na Sagrada Escritura é essencialmente religioso. Chama-se justo a quem se esforça sinceramente por cumprir a Vontade de Deus, que se manifesta nos mandamentos, nos deveres de estado e na união da alma com Deus. Por isso a justiça, na linguagem da Bíblia, coincide com o que actualmente costuma chamar-se santidade (1 Ioh 2,29; 3,7-10; Apc 22,11; Gen 15,6; Dt 9,4).

Como comenta São Jerônimo (Comm. in Matth. 5.6), esta quarta bem-aventurança de Nosso Senhor exige não um simples desejo vago de justiça, mas ter fome e sede dela, isto é, amar e buscar com todas as forças aquilo que torna justo o homem diante de Deus. O que de verdade quer a santidade cristã tem de amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver a todos os homens: frequência de sacramentos, convivência íntima com Deus na oração, fortaleza em cumprir os deveres familiares, profissionais, sociais.

7. A misericórdia não consiste apenas em dar esmola aos pobres, mas também em compreender os defeitos que possam ter os outros, desculpá-los, ajudá-los a superá-los e amá-los mesmo com os defeitos que tenham. Também faz parte da misericórdia alegrar-se e sofrer com as alegrias e dores alheias.

8. A doutrina de Cristo ensina que a raiz da qualidade dos actos humanos está no coração, quer dizer, no interior do homem, no fundo do seu espírito: “Quando falamos de um coração humano, não nos referimos só aos sentimentos: aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que convive com os outros. Ora, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos ajudar a compreender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções. Um homem vale o que vale o seu coração – diríamos com palavras bem humanas” (Cristo que passa, n° 164).

A pureza de coração é um dom de Deus, que se manifesta na capacidade de amar, no olhar recto e puro para tudo o que é nobre. Como diz o Apóstolo, “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, é o que deveis ter em mente” (Phil 4,8). O cristão, ajudado pela graça de Deus, deve lutar continuamente para purificar o seu coração e adquirir essa pureza, em virtude da qual se promete a visão de Deus.

9. A palavra “pacíficos” é a usual nas traduções e, além disso, etimologicamente é fiel ao texto. No livro sagrado tem claramente um sentido activo: “os que promovem a paz” em si mesmos, nos outros e, sobretudo, como fundamento do anterior, procuram reconciliar-se e reconciliar os outros com Deus. A paz com Deus é a causa e o cume de toda a paz. Será vã e enganadora qualquer paz no mundo que não se baseie nessa paz divina.

“Serão chamados filhos de Deus”: É um hebraísmo muito frequente na Sagrada Escritura; é o mesmo que dizer ” serão filhos de Deus”. A primeira Epístola de São João (1 Ioh 3, 1) dá-nos a exegese autêntica desta bem-aventurança: “Vede que amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus e que realmente o sejamos”.

10. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por ser santos ou pelo seu empenho em ser santos, porque deles é o Reino dos Céus.

Portanto, é bem-aventurado o que sofre perseguição por ser fiel a Jesus Cristo, e a suporta não só com paciência mas com alegria. Na vida do cristão apresentam-se circunstâncias heróicas, nas quais não têm lugar meios termos; ou se é fiel a Jesus Cristo jogando-se a honra, a vida e os bens, ou O renegamos. São Bernardo (Sermão da Festa de Todos os Santos) diz que esta oitava bem-aventurança era como que a prerrogativa dos santos mártires. O cristão que é fiel à doutrina de Jesus Cristo é de facto também um “mártir” (testemunha) que reflecte ou cumpre esta bem-aventurança, mesmo sem chegar à morte corporal,

11-12. As Bem-aventuranças são as condições que Cristo pôs para entrar no Reino dos Céus. O versículo, à maneira de recapitulação, é um convite global a viver estes ensinamentos. A vida cristã não é, pois, tarefa fácil, mas vale a pena pela plenitude de vida que o Filho de Deus promete.

Dia 9 de junho

Mt 5, 13-16

13Vós sois o sal da terra. Ora se o sal se tornar insípido, com que há-de ser ele salgado? Para nada mais serve, senão para se deitar fora e ser pisado pelos homens. 14Vós sois a luz do mundo. Não pode ocultar-se uma cidade assente sobre um monte. 15Nem se acende uma candeia para se colocar debaixo do alqueire mas sim sobre o velador, e assim alumia a quantos estão em casa. 16Brilhe a vossa luz diante dos homens de tal modo que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus.

Comentário

13-15. Estes versículos são um chamamento à missão apostólica que todo o cristão tem pelo facto de o ser. Cada cristão há-de lutar pela sua santificação pessoal, mas também pela santificação dos outros. Jesus ensina-o com as imagens expressivas do sal e da luz. Assim como o sal preserva da corrupção os alimentos, lhes dá sabor, os torna agradáveis e desaparece confundindo-se com eles, o cristão há-de desempenhar essas mesmas funções entre os seus semelhantes.

“Tu és sal, alma de apóstolo.- ‘Bonum est sal’ – o sal é bom, lê-se no Santo Evangelho; ‘si autem sal evanuerit’ – mas se o sal se desvirtua… de nada serve, nem para a terra, nem para o esterco; deita-se fora como inútil. Tu és sal, alma de apóstolo. – Mas se te desvirtuas…” (Caminho, nº 921).

As boas obras são fruto da caridade, que consiste em amar os outros como nos ama o Senhor (cfr Ioh 15,12). “Agora adivinho – escreve Santa Teresinha – que a verdadeira caridade consiste em suportar todos os defeitos do próximo, em não estranhar as suas debilidades, em edificar-se com as suas menores virtudes; mas aprendi especialmente que a caridade não deve permanecer encerrada no fundo do coração pois ‘não se acende uma luz para a colocar debaixo de um alqueire, mas sobre o velador a fim de alumiar todos os que estão em casa’. Parece-me que esta tocha representa a caridade que deve iluminar e alegrar não só aqueles que mais amo, mas todos os que estão em casa” (História de uma alma, cap 9).

Uma das manifestações mais claras da caridade é a actividade apostólica. O Concílio Vaticano II pôs em relevo a obrigação do apostolado, direito e dever que nascem do Baptismo e da Confirmação (cfr Lumen gentium, n. 33), até afirmar que, fazendo o cristão parte do Corpo Místico, “o membro que não contribui segundo a sua medida para o aumento deste Corpo, deve dizer-se que não aproveita nem à Igreja nem a si mesmo” (Apostolicam actuositatem, n. 2). “Inúmeras oportunidades se oferecem aos leigos para exercerem o apostolado de evangelização e santificação. O próprio testemunho da vida cristã e as obras, feitas com espírito sobrenatural, têm eficácia para atrair os homens à fé e a Deus; diz o Senhor: ‘Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que vejam as vossas boas obras e dêem glória ao vosso Pai que está nos céus'” (Apostolicam actuositatem, n. 6).

“A Igreja tem de estar presente nestes agrupamentos humanos por meio dos seus filhos que entre eles vivem ou a eles são enviados. Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Baptismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os outros homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai e compreendam mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana” (Ad gentes, n. 11; cfr n. 36).

Dia 10 de junho

Mt 5, 17-19

17Nao julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir mas cumprir. 18Em verdade vos digo: até que passem os Céus e a Terra, nem um só jota ou um só til da Lei passará, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, quem transgredir um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas quem os observar e ensinar, esse será grande no Reino dos Céus.

Comentário

17-19. Jesus ensina neste passo o valor perene do Antigo Testamento, enquanto é palavra de Deus; goza, portanto, de autoridade divina e não pode desprezar-se o mínimo. Na Antiga Lei havia preceitos morais, judiciais e litúrgicos. Os preceitos morais do AT conservam no Novo o seu valor, porque são principalmente promulgações concretas, divino-positivas, da lei natural. Nosso Senhor dá-lhes, contudo, a sua significação e as suas exigências mais profundas. Os preceitos judiciais e cerimoniais, pelo contrário, foram dados por Deus para uma etapa concreta na História da Salvação, a saber, até à vinda de Cristo; a sua observância material em si não obriga os cristãos (cfr Suma Teológica, I-II, q. 108, a. 3 ad 3).

A lei promulgada por meio de Moisés e explicada pelos Protelas constituía um dom de Deus para o povo, como antecipação da Lei definitiva que daria Cristo o Messias. Na verdade, como definiu o Concílio de Trento, Jesus não só “foi dado aos homens como Redentor em quem confiem, mas também como Legislador a quem obedeçam” (De iustificatione, can. 21).

Dia 11 de junho – Corpus Christi

Mc 14, 12-16.22-26

12 No primeiro dia dos Ázimos, quando imolavam a Páscoa, dizem-Lhe os discípulos: Onde queres que vamos fazer os prepa­rativos para comeres a Páscoa? 13Ele manda dois discípulos e diz-lhes: Ide à cidade, e sair-vos-á ao encontro um homem com um cântaro de água. Segui-o 14e dizei ao dono da casa onde entrar: «O Mestre manda dizer: Onde está a Minha sala em que possa comer a Páscoa com os Meus discípulos?». 15 Ele mostrar-vos-á urna grande sala no andar superior, já mobiliada e pronta. Fazei lá os preparativos. 16Partiram os discípulos e, entrando na cidade, encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa.

22Durante a ceia, tomou um pão, pronunciou a fórmula da bênção, partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: Tomai; isto é o Meu corpo. “Tomou depois o cálice, deu graças e passou-lho, e todos beberam dele. 24E disse-lhes: Isto é o Meu sangue do Testamento, derramado por muitos. 25Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o hei-de beber novo no Reino de Deus.

26E, cantados os hinos, saíram para o Monte das Oliveiras.

Comentário

12-16. Os pormenores deste passo podem parecer à primeira vista desusados no comportamento do Senhor. Não obstante, considerado com certa atenção, tudo é coerente: é provável que Jesus quisesse evitar que Judas conhecesse com antecipação o sítio exacto da celebração da Ceia e o comunicasse ao Sinédrio. Assim se cumpriram os planos divinos para aquela noite memorável de Quinta Feira Santa. Judas, com efeito, não parece ter podido comunicar aos sinedritas onde podiam encontrar Jesus antes de celebrarem a Ceia de Páscoa, durante a qual saiu o traidor do Cenáculo (cfr Iohl3,30).

São Marcos descreve com mais pormenor que os outros evangelistas o lugar da Ceia, ao dizer que era uma sala grande e bem mobiliada: tratava-se de um lugar digno. Uma antiga tradição cristã afirma que a casa do Cenáculo era propriedade de Maria, a mãe do próprio São Marcos, à qual parece que pertencia também o Horto das Oliveiras.

22. A palavra «isto» não se refere ao acto de partir o pão, mas à coisa que Jesus apresenta aos Seus discípulos, isto é, ao que diante dos seus olhos aparecia como pão, que já não era pão mas o Corpo de Cristo. «Isto é o Meu corpo. A saber, o que vos dou agora e que agora vós tomais. Porque o pão não é só figura do Corpo de Cristo, mas converte-se neste mesmo Corpo, segundo disse o Senhor: o pão que Eu darei é a Minha própria carne (Ioh6, 51). Por isso o Senhor conserva as espécies de pão e de vinho, mas converte estes na realidade da Sua carne e do Seu sangue» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.). Não corresponde, pois, ao sentido do texto qualquer interpretação que derive para o simbolismo ou para a metá­fora. O mesmo se deve dizer acerca de «este é o Meu sangue» do v. 24. Sobre o realismo destas expressões cfr a nota a Mt 26,26-29, primeira parte.

24. As palavras da consagração do cálice mostram com clareza a natureza de sacrifício que tem a Eucaristia: O Sangue de Cristo derramado que sela a nova e definitiva Aliança de Deus com os homens. Esta Aliança fica selada para sempre com o sacrifício de Cristo na Cruz, no qual Jesus é ao mesmo tempo o Sacerdote e a Vítima. A Igreja definiu esta verdade com as seguintes palavras: «Se alguém disser que no sacrifício da Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício, ou que o oferecê-lo, não é outra coisa senão dar-Se-nos a comer Cristo, seja anátema» (De SS. Missae sacrifício, cap. l, can. t).

Aquelas palavras pronunciadas sobre o cálice devem ter sido muito reveladoras para os Apóstolos, porque nelas aparecia o sentido de preparação e de antecipação que tinham tido os sacrifícios da antiga Aliança. Os Apóstolos compreenderam deste modo como a Aliança do Sinai e os múltiplos sacrifícios do Templo não eram senão uma figura imperfeita do sacrifício definitivo e da Aliança definitiva, que teriam lugar na Cruz e eram antecipados na Ceia.

Uma explicação clara do caracter sacrificial da Eucaristia, pode ver-se no texto inspirado dos capítulos 8 e 9 da Epístola aos Hebreus. Do mesmo modo, a melhor preparação para entender a presença real e a Eucaristia como alimento da alma é a leitura do capítulo 6 do Evangelho de São João.

Na Ultima Ceia, pois, Cristo entrega-Se já voluntariamente a Seu Pai como vítima que vai ser imolada. Tanto a Ceia como a Santa Missa constituem com a Cruz um sacrifício único e perfeito, porque nos três casos a vítima oferecida é a mesma: Cristo; e o mesmo sacerdote: Cristo. A única diferença é que a Ceia, anterior à Cruz, antecipa de modo incruento a morte do Senhor e oferece a vítima que há-de ser imolada; enquanto a Santa Missa oferece, também de modo incruento, a vítima já imolada na Cruz, vítima que permanece na eternidade da glória.

25. O Senhor, depois de instituir a Santíssima Eucaristia, prolonga aquela Ultima Ceia em comovente conversa com os Seus discípulos, a quem dê novo fala da Sua próxima morte (cfr Iohcaps. 13-17). Jesus alivia a tristeza da Sua despedida prometendo aos Apóstolos que chegará um dia em que voltará a reunir-Se com eles, quando o Reino de Deus tiver chegado à sua plenitude. Com isso refere-Se à vida beatífica nos Céus, tantas vezes comparada a um banquete. Então não haverá necessidade do alimento e bebida normais desta terra, mas de algo diferente. Por isso alude o Senhor a um vinho novo (cfr Is 25, 6). Em última análise, depois da Ressurreição, os Apóstolos e todos os santos poderão ter a dita de estar com Jesus.

O facto de São Marcos apresentar estas palavras depois da instituição da Eucaristia, indica de algum modo que esta é uma antecipação aqui na terra da posse de Deus na bemaventurança eterna, em que Deus será tudo em todos (cfr l Cor 15, 28). «O Nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do Seu Corpo e do Seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da Cruz, confiando à Igreja, Sua esposa amada, o memorial da Sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura» (Sacrosanctum Concilium, n. 47).

26. «E, cantados os hinos». Segundo o costume dos Judeus, na Ceia Pascal recitavam-se umas orações que se chamavam «Hallel», e que recolhiam os Salmos 113 a 118; a última parte recitava-se no fim da ceia.

Dia 12 de junho

Mt 5, 27-32

27Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. 28Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar uma mulher para a cobiçar, já com ela cometeu adultério em seu coração. 29Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ser todo o teu corpo lançado na Geena. 30E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a fora, para longe de ti, porque melhor é para ti perder-se um só dos teus membros, do que ir todo o teu corpo para a Geena. 31Também foi dito: Todo aquele que se desquitar de sua mulher, dê-lhe libelo de repúdio. 32Eu, porém, digo-vos: Todo o que se desquitar de sua mulher, exceto no caso de união ilegítima, faz com que ela venha a ser adúltera, e quem se casar com uma repudiada, comete adultério.

Comentário

27-30. Refere-se ao olhar pecaminoso dirigido a toda a mulher, casada ou não. Nosso Senhor leva à sua plenitude o preceito da Antiga Lei. Neste só se considerava pecado o adultério e o desejo da mulher do próximo.

O desejo: uma coisa é sentir e outra consentir. O consentimento supõe a advertência da maldade desses atos (olhares, imaginações, desejos impuros), e a voluntariedade que livremente os admite.

A proibição dos vícios implica sempre um aspecto positivo, que é a virtude contrária. A santa pureza é, como toda a virtude, eminentemente positiva; nasce do primeiro mandamento e para ele se ordena: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua mente” (Mt 22, 37). “A pureza é conseqüência do amor com que entregamos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos. Não é uma negação: é uma alegre afirmação” (Cristo que passa, n° 5). Esta virtude exige pôr todos os meios e, se for necessário, heroicamente.

Por olho direito e mão direita entende-se o que é para nós de maior estima. Este modo de falar do Senhor, tão forte, não deve ser rebaixado na sua exigência moral. É claro que não significa que nos devemos mutilar fisicamente, mas lutar sem concessões, estando dispostos a sacrificar tudo aquilo que possa ser ocasião clara de ofensa a Deus. As palavras do Senhor, tão gráficas, previnem principalmente acerca de uma das mais freqüentes ocasiões: o cuidado que devemos ter com os olhares. O rei David começou deixando-se levar pela curiosidade e isto conduziu-o ao adultério e ao crime. Depois chorou os seus pecados e teve uma vida santa na presença de Deus (cfr 2 Sam 11 e 12).

“Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniqüidades. – Quantas experiências como a de David!… – Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração” (Caminho, n° 183).

Entre os meios ascéticos que servem para salvaguardar a virtude da santa pureza podem enumerar-se: Confissão e Comunhão freqüentes; devoção à Santíssima Virgem; espírito de oração e mortificação; guarda dos sentidos; fuga das ocasiões, e esforço por evitar a ociosidade, estando sempre ocupados em coisas úteis. Há também outros dois meios que têm hoje uma particular importância: “O pudor e a modéstia são os irmãos pequenos da pureza” (Caminho, n° 128). Pudor e modéstia são expressão de bom gosto, de respeito pelos outros e pela dignidade humana e cristã. Por isso o cristão, conseqüente com esta doutrina do Senhor, há-de lutar opondo-se a um ambiente paganizado, para influir nele e tratar de mudá-lo.

“É necessária uma cruzada de virilidade e de pureza que contrarie e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta. E esta cruzada é obra vossa” (Caminho, n° 121).

31-32. A Lei de Moisés (Dt 24, 1), dada em tempos antigos, tinha tolerado o divórcio pela dureza de coração dos Hebreus. Mas não tinha indicado de maneira clara os motivos para chegar a ele. Por isso os rabinos tinham dado uma série de interpretações diversas, segundo as escolas a que pertencessem, que iam de posições muito laxas a outras mais rígidas. Em qualquer dos casos, só o marido podia repudiar a mulher. A condição de inferioridade da mulher tinha sido de algum modo suavizada pela ata ou libelo de repúdio, escrito pelo qual o marido declarava a liberdade da mulher repudiada para que pudesse contrair novas núpcias. Contra tais interpretações rabínicas, Jesus restabelece a originária indissolubilidade do matrimônio tal como Deus o tinha instituído (Gen 1, 27; 2, 24; cfr Mt 19, 4-6; Eph 1, 31; 1 Cor 7, 10).

“Exceto no caso de união ilegítima” ou “fora do caso de fornicação” não pode tomar-se como uma exceção do princípio da absoluta indissolubilidade do matrimônio que Jesus acaba de restabelecer. Quase com toda a certeza, a mencionada cláusula refere-se a uniões admitidas como matrimônio entre alguns povos pagãos, mas proibidas, por incestuosas, na Lei mosaica (cfr Lev 18) e na tradição rabínica. Trata-se, pois, de uniões inválidas desde a sua raiz por algum impedimento. Quando tais pessoas se convertiam à verdadeira fé, não é que pudesse dissolver-se a sua união, mas declarava-se que não tinham estado nunca unidas em verdadeiro matrimônio. Portanto, esta cláusula não vai contra a indissolubilidade do matrimônio, mas reafirma-a. A Igreja, a partir dos ensinamentos de Jesus, e guiada pelo Espírito Santo, concretizou a solução do caso especialmente grave do adultério, estabelecendo a liceidade da separação dos cônjuges, mas sem dissolubilidade do vínculo matrimonial e, portanto, sem possibilidade de contrair novo matrimônio.

A indissolubilidade do matrimônio foi ensinada pela Igreja desde o princípio sem a menor dúvida, e urgiu na prática o cumprimento moral e jurídico desta doutrina, exposta com toda a autoridade por Jesus (Mt 19, 3-9; Mc 10, 1-12; Lc 16, 18) e pelos Apóstolos (1 Cor 6, 16; 7, 10-11.39; Rom 7, 2-3; Eph 5,31 s.). Entre os muitos textos do Magistério que se poderiam citar, eis aqui só alguns a modo de exemplo:

“É atribuído um triplo bem ao matrimônio (…). O terceiro é a indissolubilidade do matrimônio, porque significa a união invisível de Cristo e da Igreja. E ainda que por motivo de fornicação seja lícito fazer separação do leito, não o é, contudo, contrair outro matrimônio, uma vez que o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo” (Pro Armeniis).

“Se alguém disser que, por causa de heresia, ou por coabitação molesta, ou por ausência culpável do cônjuge, o vínculo do matrimônio pode ser dissolvido, seja anátema” (De Sacram. matr., can. 5).

“Se alguém disser que a Igreja erra quando ensinou e ensina que, de acordo com a doutrina do Evangelho e dos Apóstolos, não se pode desatar o vínculo do matrimônio por razão de adultério de um dos cônjuges; e que nenhum dos dois, nem sequer o inocente que não deu causa para o adultério, pode contrair novo matrimônio enquanto viva o outro cônjuge, e que adultera na mesma o que depois de repudiar a adúltera se casa com outra, como a que depois de repudiar o adúltero se casa com outro, seja anátema” (De Sacram. matr., can. 7).

“Fique assente, antes de mais, como fundamento inamovível e inviolável, que o matrimônio não foi instituído nem estabelecido por obra dos homens, mas por obra de Deus; que foi protegido, confirmado e elevado não com leis dos homens, mas do próprio autor da natureza, Cristo Senhor; leis, portanto, que não podem estar sujeitas ao arbítrio dos homens, nem sequer ao acordo contrário dos mesmos cônjuges. Esta é a doutrina das Sagradas Letras; esta a constante e universal Tradição da Igreja; esta a solene definição do sagrado Concílio de Trento, que confirma e precisa com as mesmas palavras da Sagrada Escritura que o perpétuo e indissolúvel vínculo do matrimônio e a sua unidade e firmeza têm Deus por autor” (Casti connubii).

“Assim pois, apesar de antes de Cristo, de tal modo se ter temperado a sublimidade e serenidade da lei primitiva que Moisés permitiu aos cidadãos do mesmo povo de Deus, por causa da dureza do seu coração, dar libelo de repúdio por determinadas causas; não obstante, Cristo, no uso do Seu poder de legislador supremo, revogou esta permissão de maior licença, e restabeleceu inteiramente a lei primitiva por aquelas palavras que nunca se devem esquecer: ‘o que Deus uniu, não o separe o homem'” (Casti connubii).

“Em vista do bem tanto dos esposos e da prole como da sociedade, este sagrado vínculo não está ao arbítrio da vontade humana. O próprio Deus é o autor do matrimônio… Esta união íntima, já que é o dom recíproco de duas pessoas, exige, do mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira fidelidade dos cônjuges e a indissolubilidade da sua união” (Gaudium et Spes, n. 48).

Dia 13 de junho

Mt 5, 33-37

33Ouvistes mais que foi dito aos antigos: Não jures falso, mas cumpre os juramentos feitos ao Senhor. 34Eu, porém, digo-vos que não jureis de modo nenhum, nem pelo Céu, que é o trono de Deus, 35nem pela Terra, que é estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do Grande Rei. 36Nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um só cabelo branco ou preto. 37Seja, pois, o vosso falar: sim, sim, não, não, porque tudo o que passa disto procede do Maligno.

Comentário

33-37. A Lei de Moisés proibia taxativamente o perjúrio ou violação de juramento (Ex 20, 7; Num 30,3; Dt 23,22). Em tempos de Cristo, a prática do juramento tinha caído num abuso até ridículo pela sua freqüência e pela casuística à volta dele. Segundo numerosos documentos rabínicos da época, jurava-se pelos motivos mais fúteis. Juntamente com o abuso do juramento, tinha surgido outro, não menos ridículo, para legitimar o seu não cumprimento. Tudo isso constituía uma falta de respeito ao nome de Deus. Não obstante, pela mesma Sagrada Escritura sabemos que o juramento é lícito e bom nalgumas ocasiões: “se juras pela vida de Yahwéh com verdade, com direito e com justiça, serão em ti abençoados os povos e em ti se gloriarão” (Ier 4, 2).

Jesus estabelece o princípio que hão-de seguir os Seus discípulos nesta matéria. Funda-se num restabelecimento da confiança mútua, da hombridade de bem e da sinceridade. O demônio é o “pai da mentira” (Ioh 8, 44). Portanto, na Igreja de Cristo não podem tolerar-se umas relações humanas baseadas no engano, na hipocrisia. Deus é a verdade, e os filhos do Reino têm, pois, que fundamentar as suas relações na verdade. Jesus conclui com uma exaltação da sinceridade. Ao longo de todo o seu ensino a hipocrisia é um dos vícios mais combatidos (veja-se, por exemplo, Mt 23, 13-32), enquanto que a sinceridade constitui uma das mais belas virtudes (veja-se Ioh 1, 47).

Dia 14 de junho

Mc 4, 26-34

26Dizia também: O Reino de Deus é assim como um homem que lançou a semente à terra, 27e dorme, e levanta-se, de noite e de dia, e a semente germina e cresce sem ele saber como. 28Porque a terra por si mesma produz primeiro o colmo, depois a espiga, depois o trigo grado na espiga. 29E, quando o fruto o permite, logo lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa. 30Dizia ainda: A que havemos de assemelhar o Reino de Deus, ou com que parábola o hemos de representar? 31É como o grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a mais pequenina de todas as sementes que na Terra há. 32Mas, depois de semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças e deita ramos tão grandes, que as aves do céu podem acolher-se à sua sombra. 33E com muitas parábolas como esta lhes expunha a palavra, segundo a sua capacidade de ouvir. 34E sem parábolas não lhes falava; mas, em particular, explicava tudo aos Seus discípulos.

Comentário

26-29. Os agricultores esforçam-se por preparar bem o terreno para a sementeira; mas, uma vez semeado o grão, já não podem fazer por ele nada mais, até ao momento da ceifa; de maneira que o grão se desenvolve pela sua própria força. Com esta comparação, exprime o Senhor o vigor íntimo do crescimento do Reino de Deus na terra, até ao dia da ceifa (cfr Ioel 3,13 e Apc 14,15), ou seja, o dia do Juízo Final.

Jesus fala da Igreja aos Seus discípulos: a pregação do Evangelho, que é a semente generosamente espalhada, dará o seu fruto sem falta, não dependendo de quem semeia ou de quem rega, mas de Deus, que dá o incremento (cfr l Cor 3,5-9). Tudo se realizará “sem que ele saiba como”, sem que os homens se dêem plenamente conta.

Ao mesmo tempo o Reino de Deus indica a operação da graça em cada alma: Deus opera silenciosamente em nós uma transformação, enquanto dormimos ou enquanto velamos, fazendo brotar no fundo da nossa alma resoluções de fidelidade, de entrega, de correspondência, até nos levar à idade “perfeita” (cfr Eph 4,13). Ainda que seja necessário este esforço do homem, em última análise é Deus quem actua, “porque é o Espírito Santo que, com as suas inspirações, vai dando tom sobrenatural aos nossos pensamentos, desejos e obras. É Ele que nos impele a aderir à doutrina de Cristo e a assimilá-la em profundidade; que nos dá luz para tomar consciência da nossa vocação pessoal e força para realizar tudo o que Deus espera de nós. Se formos dóceis ao Espírito Santo, a imagem de Cristo ir-se-á formando, cada vez mais nítida, em nós e assim nos iremos aproximando cada vez mais de Deus Pai. Os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus (Rom VIII,14)” (Cristo que passa, n° 135).

30-32. O sentido principal desta parábola é dado pelo contraste entre o pequeno e o grande. A semente do Reino de Deus na Terra é algo muito pequeno ao princípio (Lc 12,32; Act 1,15); depois será uma árvore grande. Assim vemos como o reduzido grupo inicial dos discípulos cresce nos começos da Igreja (cfr Act 2,47; 6,7; 12,24), se estende ao longo dos séculos e chegará a ser uma multidão imensa “que ninguém poderá contar” (Apc 7,9).

Também se realiza em cada alma esse mistério do crescimento, a que se referem as palavras do Senhor: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21), e que podemos ver anunciado com aquelas outras do Salmo: “O justo multiplicar-se-á como o cedro do Líbano” (Ps 92,13). Para que brilhe a misericórdia do Senhor que nos exalta, que nos faz grandes, é preciso que nos encontre pequenos, humildes (Ez 17, 22-24; Lc 18,9-14).