dia 8 a 14 de fevereiro de 2010

Dia 8 de fevereiro

Mc 6, 53-56

53Feita a travessia, vieram para terra e atracaram em Genesaré. 54Apenas saídos da barca, logo O reconheceram 55e, percorrendo toda aquela região, começaram a trazer em maças os doentes para onde ouviam dizer que Ele estava. 56E onde quer que entrava, nas aldeias ou nas cidades ou nos campos, punham os enfermos nas praças e rogavam-Lhe que ao menos os deixasse tocar a franja do Seu manto. E quantos O tocavam ficavam curados.

Não há comentários para essa passagem

Dia 9 de fevereiro

Mc 7, 1-13

Ajuntaram-se depois à volta d’Ele os Fariseus e alguns Escribas vindos de Jerusalém. 2E, vendo alguns dos Seus discípulos a comer com as mãos profanas, isto é, sem as terem lavado; 3de facto, os Fariseus, como todos os Judeus, não comem sem ter lavado as mãos cuidadosamente, seguindo a tradição dos antigos; 4e, ao voltarem da praça, não comem sem se terem lavado; há ainda muitas outras cerimônias que observam por tradição, como abluções de copos e jarros e vasos de metal. 5Perguntaram-Lhe, pois, os Fariseus e os Escribas: Porque é que os Teus discípulos não se conformam com a tradição dos antigos e comem com as mãos profanas? 6Mas Ele disse-lhes: Bem profe­tizou Isaías de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. 7Em vão Me prestam culto, ensinando doutrinas que são preceitos humanos. 8Desprezando o mandamento de Deus, aferrais-vos à tradição dos homens, abluções de jarros e copos e fazeis muitas outras coisas semelhantes. 9E dizia-lhes: Vós violais lindamente o mandamento de Deus, para observar a vossa tradição. 10Com efeito, disse Moisés: «Honra teu pai e tua mãe», e: «Quem amaldiçoar pai ou mãe seja punido de morte». 11Vós, porém, dizeis: Ao homem que disser ao pai ou à mãe: tudo aquilo com que podia ajudar-te é «qorban», isto é, «oferenda», I2já lhe não permitis fazer nada em favor do pai ou da mãe, 13anulando assim o mandamento de Deus com a vossa tradição, por vós transmitida. E coisas como estas fazeis muitas.

Comentário

1-2. O lavar-se as mãos não era por meros motivos de higiene ou de urbanidade, mas tinha um significado religioso de purificação. Em Ex 30,17 ss. a Lei de Deus prescrevia a purificação dos sacerdotes antes das suas funções cultuais. A tradição judaica tinha-o ampliado a todos os israelitas para antes de todas as refeições, querendo dar a estas um significado religioso que se reflectia nas bênçãos com que começavam. A purificação ritual era símbolo da pureza moral com que uma pessoa deve apresen­tar-se diante de Deus (Ps 24,3 ss.; 51,4-9); mas os fariseus tinham conservado o meramente exterior. Por isso Jesus restitui o sentido genuíno destes preceitos da Lei, que tendem a ensinar a verdadeira adoração a Deus (cfr Ioh4,24).

3-5. No texto vemos com clareza que boa parte dos destinatários imediatos do Evangelho de São Marcos eram cristãos procedentes do paganismo, que desconheciam os costumes dos Judeus. Por isso o Evangelista explica-lhes, com certo pormenor, alguns destes costumes para facilitar a compreensão do sentido dos acontecimentos e dos ensina­mentos da história evangélica.

De modo semelhante a pregação e ensino da Sagrada Escritura deve fazer-se de maneira que seja compreensível e acomodada às circunstâncias dos ouvintes. Por isso ensina o Concilio Vaticano II que «compete aos Bispos ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso recto dos livros divinos, de modo particular do Novo Testamento, e sobretudo dos Evangelhos. E isto por meio de traduções dos textos sagrados, que devem ser acompanhadas às explicações necessárias e verdadeiramente suficientes, para que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro e útil com a Sagrada Escritura, e se penetrem do seu espírito» (Dei Verbum, n. 25).

11-13. Sobre a explicação deste texto vid. a nota a Mt 15,5-6. Jesus Cristo, que é o intérprete autêntico da Lei, porque enquanto Deus é autor dela, esclarece o verdadeiro alcance do quarto mandamento perante as explicações errôneas da casuística judaica. Em muitas outras ocasiões Nosso Senhor corrigiu as interpretações erradas dos mestres judaicos. Assim acontece, por exemplo, quando recorda aquela frase do Antigo Testamento: «Ide e aprendei que sentido tem: Quero misericórdia e não sacrifício» (Os 6,6; l Sam 15,22; Eccli 35,4) que nos conservou São Mateus em 9,13.

Dia 10 de fevereiro

Mc 7, 14-23

14E, chamando outra vez o povo, dizia-lhes: Ouvi-Me todos e entendei: 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro; mas as coisas que saem do homem, essas é que tornam o homem impuro. 16Quem tem ouvidos para ouvir ouça…

17Quando, ao deixar a multidão, entrou em casa, perguntaram-Lhe os discípulos a significação da parábola. I8E Ele disse-lhes: Também vós sois assim tão pouco inteli­gentes?! Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro? 19Porque não entra no coração, mas no ventre, e daí sai para lugar escuso. Declarava assim puros todos os alimentos. 20E dizia: O que sai do homem, isso é que torna o homem impuro; 21porque de dentro, do coração dos homens, saem os maus pensa­mentos, desonestidades, furtos, homicídios, 22adultérios, ambições, maldades, fraude, impudicícia, inveja, blasfêmia, soberba, in­sensatez. 23Todas estas coisas más procedem do interior e tornam o homem impuro.

Comentário

15. Alguns códices importantes acrescentam aqui: «Quem têm ouvidos para ouvir ouça…», que corresponderia ao v. 16, que a tradução portuguesa que transcrevemos refere.

18-19. Sabemos pela Tradição que São Marcos foi o intérprete de São Pedro e que ao escrever o seu Evangelho sob a inspiração do Espírito Santo recolheu a catequese do Príncipe dos Apóstolos em Roma.

A visão que teve São Pedro em Joppe (Act 10,10-16) fê-lo entender em toda a sua profundidade este ensinamento do Senhor acerca dos alimentos. O próprio São Pedro o narra ao voltar a Jerusalém, contando a conversão de Cornélio em Joppe: «Então recordei-me da palavra do Senhor» (Act 11,16). O caráter já não obrigatório de tais prescrições de Deus no AT (cfr Lev 11) devia ser algo que São Pedro incluía na sua pregação. Para a interpretação deste texto vid. também a nota a Mt 15,10-20.

20-23. «Na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das ações» (Cristo que passa, n.” 164).

A bondade ou malícia, a qualidade moral dos nossos atos não depende do seu caráter espontâneo, instintivo. O próprio Senhor diz-nos que do coração humano podem sair ações pecaminosas.

Tal possibilidade compreende-se, se temos em conta que, depois do pecado original, o homem «foi mudado para pior» segundo o corpo e a alma e, portanto, está inclinado para o mal (cfr De peccato originali). Com as palavras deste passo do Evangelho, o Senhor restitui a moral em toda a sua pureza e interioridade.

Dia 11 de fevereiro

Mc 7, 24-30

24Levantou-se depois e partiu dali para os confins de Tiro e Sidónia; e, entrando numa casa, não queria que ninguém o soubesse; mas não conseguiu ocultar-Se, 25pois uma mulher cuja filhinha estava possessa do espírito imundo, apenas ouviu falar d’Ele, veio lançar-se-Lhe aos pés. 26Esta mulher era gentia, de origem sírio-fenícia; e suplicava–Lhe que expulsasse da sua filha o Demônio. 27Mas Ele dizia-lhe: Espera que primeiro se saciem os filhos; porque não é bonito tomar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorros. 28Replicou ela: É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas dos filhos. 29E Ele disse-lhe: Por essa tua palavra, vai, que o Demônio saiu da tua filha. 30E ela, voltando para casa, encon­trou a menina deitada na cama, livre do Demônio.

Comentário

24. A região de Tiro e de Sidónia corresponde à zona sul do actual país do Líbano, antiga Fenícia. Desde o lago de Genesaré à fronteira de Tiro e Sidónia não são mais de 50 km. Jesus retira-Se para fora da Palestina para evitar a perseguição das autoridades judaicas e para Se poder dedicar mais intensamente à formação dos Apóstolos.

27. O Senhor emprega o diminutivo «cachorrinho» para Se referir aos gentios, dulcificando assim uma expressão depreciativa que os Judeus utilizavam para os designar. Sobre o episódio da cananeia cfr as notas aos passos paralelos de Mt 15,21-22. 24.25-28.

Dia 12 de fevereiro

Mc 7, 31-37

31 Deixando novamente a região de Tiro, veio por Sidónia, para o mar da Galileia, através do território da Decápole. 32Trazem-Lhe um surdo-tartamudo e pedem-Lhe que lhe imponha as mãos. 33E Ele, tomando-o consigo aparte, longe da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com a saliva tocou-lhe a língua. 34Depois, levantando os olhos ao céu, suspirou e disse-lhe: Effathá! – isto é – Abre-te! 35E imediatamente se lhe abriram os ouvidos e se desatou a prisão da língua e falava expeditamente. Ele mandou-lhes que o não contassem a ninguém. 36Mas quanto mais lho mandava, tanto mais eles o apregoavam 37e, fora de si de espanto, diziam: Tudo faz bem: faz ouvir os surdos e falar os mudos.

Comentário

32-33. Com alguma freqüência aparece na Sagrada Escritura a imposição das mãos como gesto para transmitir poderes ou bênçãos (cfr Gen 48,14ss.; 2 Reg 5.11; Lc 13,13). De todos é conhecido que a saliva tem certa eficácia para aliviar feridas leves. Os dedos simbolizavam na linguagem da Revelação uma acção divina poderosa (cfr Ex 8,19; Ps 8,4; Lc 11,20). Jesus, pois, emprega sinais que têm uma certa conaturalidade em relação com o efeito que se pretende produzir, ainda que, como vemos pelo texto, o efeito — a cura imediata do surdo-mudo — exceda completamente o sinal empregado.

No milagre do surdo-tartamudo podemos encontrar, além disso, uma imagem da atuação de Deus nas almas: para crer é necessário que Deus abra o nosso coração a fim de que possamos escutar a Sua palavra. Depois, como os Apóstolos, poderemos anunciar com a nossa língua as magnalia Dei, as grandezas divinas (cfr Act 2,11). Na Liturgia da Igreja (cfr o hino Veni Creator) o Espírito Santo é comparado ao dedo da mão direita de Deus Pai (Digitus paternae dexterae). O Consolador realiza nas nossas almas, na ordem sobrenatural, efeitos comparáveis aos que Cristo realizou no corpo do surdo-tartamudo.

Dia 13 de fevereiro

Mc 8, 1-10

Por aqueles dias, sendo outra vez grande a multidão e não tendo que comer, chama os discípulos e diz-lhes: 2Tenho compaixão deste povo, porque há já três dias que anda comigo e não tem que comer; 3e, se o mando para suas casas em jejum, desfalecerá no caminho, tanto mais que alguns deles são de longe. 4Responderam-Lhe os discípulos: E onde encontrar pão para os saciar aqui num deserto? 5Mas Ele perguntou: Quantos pães tendes? Sete, disseram eles. 6Mandou então sentar o povo no chão. E, tomando os sete pães, deu graças, partiu-o e foi-os dando aos discípulos, para que os servissem, e eles serviram-nos à multidão. 7Tinham também alguns peixes pequenos, e Ele pronunciou sobre eles a fórmula da bênção e mandou-os também servir. 8E eles comeram até se saciarem. E, dos pedaços que sobejaram, recolheram sete cabazes. 9Èram cerca de quatro mil, e mandou-os embora.

10E logo entrou na barca com os discípulos e foi para a região de Dalmanuta.

Comentário

l-9. Jesus repete o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes: na primeira vez (Mc 6,33-44) atuou ao ver uma grande multidão que ia como «ovelhas sem pastor»; agora, quanto a multidão O seguiu durante três dias e não tem que comer.

Este milagre é uma mostra de como premia Cristo a perseverança no Seu seguimento: a multidão esteve pendente da palavra de Jesus, esquecendo-se de tudo o resto.

Também, nós devemos estar pendentes d’Ele e cumprir o que nos manda, pondo de parte toda a preocupação vã pelo futuro, o que equivaleria a desconfiar da Providência divina.

10. «Dalmanuta»: Esta comarca deve situar-se nas proximidades do lago de Genesaré, ainda que seja difícil de dar uma localização mais precisa. E esta a única vez que se menciona na Sagrada Escritura. No passo paralelo de São Mateus (15,39) figura umas vezes Magadan e outras Magdala.

Dia 14 de fevereiro

Lc 6, 17.20-26

17Descendo com eles, ficou num sítio plano, Ele, um numeroso grupo de discípulos Seus e grande multidão dos do povo, prove­nientes de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, (…) 20Erguendo os olhos para os Seus discípulos, pôs-Se a dizer: Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus.

21Felizes de vós, os que tendes agora fome, porque sereis saciados.

Felizes de vós, os que chorais agora, porque haveis de rir.

22Felizes sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos rejeitarem, vos insul­tarem, e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. 23Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois é grande no Céu a vossa recompensa. Desse modo, efetivamente, é que procediam os pais deles com os profetas.

24Mas ai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Desse modo, efetivamente, é que procediam os pais deles com os falsos profetas. 24Mas ai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Comentário

20-49. Estes trinta versículos de São Lucas têm uma certa correspondência com o Sermão da Montanha, que São Mateus expõe por extenso nos capítulos cinco a sete do seu Evangelho. É muito verossímil que Nosso Senhor, ao longo do Seu ministério público pelas diversas regiões e cidades de Israel, tenha pregado as mesmas coisas, ditas de modo diferente, em diversas ocasiões. Cada Evangelista recolheu o que, por inspiração do Espírito Santo, pensava mais conveniente para a instrução dos seus leitores imediatos: cristãos procedentes do judaísmo, em Mateus; conver­tidos da gentilidade, em Lucas. Nada impede que um e o outro Evangelista tenham apresentado, segundo as necessi­dades desses leitores, umas ou outras coisas da pregação de Jesus, insistindo nuns aspectos e abreviando ou omitindo outros.

No presente discurso, segundo o texto de Lucas, podem distinguir-se três partes: as Bem-aventuranças e imprecações (6,20-26); o amor aos inimigos (6,27-38); e os ensinamentos sobre a retidão de coração (6,39-40).

É possível que a não poucos cristãos lhes custe com­preender a necessidade de viver até ao fundo a moral evangélica, especialmente os ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha. As palavras de Jesus são exigentes, mas estão dirigidas a todos, não só aos Apóstolos ou aos discípulos que seguiam o Senhor de perto: diz-se expressamente que «quando Jesus terminou estes discursos, as multidões ficaram admiradas com a Sua doutrina» (Mt 7,28). É evidente que o Mestre chama a todos à santidade, sem distinção de estado, de raça nem de condição. Esta doutrina do chamamento universal à santidade foi ponto central na pregação de Mons. Escrivá de Balaguer desde 1928.0 Concilio Vaticano II, em 1964, expressou com todo o peso da sua autoridade esta doutrina de que todos somos chamados à santidade cristã; para não citar mais que um só texto, eis as seguintes palavras da Const. Dogm. Lumen gentium, n. 11: «Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho».

O que exige Cristo no Sermão da Montanha não é um ideal inatingível que seria útil porque nos faz humildes ao ver a nossa incapacidade. Não. A verdadeira doutrina cristã a este respeito é clara: o que Cristo manda é para que se cumpra e obedeça. Para isto, juntamente com o mandato, outorga a graça para o cumprir. Assim, todo o cristão pode viver a moral pregada por Cristo e atingir a plenitude da sua vocação, isto é, a santidade, não apenas com as suas forças, mas com a graça que Cristo nos ganhou e com o auxílio constante dos meios de santificação que entregou à Sua Igreja. «Se alguém aduz a desculpa de que a debilidade humana o impede de amar a Deus, deve ensinar-se-lhe que Deus, que pede o nosso amor, derramou nos nossos corações a virtude da caridade por meio do Espírito Santo; e o nosso Pai Celeste dá este bom Espírito aos que Lho pedem, como suplicava Santo Agostinho: ‘Concede-me o que mandas e manda o que queiras’. E visto que o auxílio divino está à nossa disposição, especialmente depois da morte de Cristo nosso Senhor, pela qual o príncipe deste mundo foi expulso, ninguém deve atemorizar-se diante da dificuldade do man­dato, porque nada há difícil para o que ama» (Catecismo Romano, III, 1,7).

20-26. As oito Bem-aventuranças que São Mateus apre­senta (5,3-12) oferece-as São Lucas resumidas em quatro, mas acompanhadas de quatro antíteses. Podemos dizer, com Santo Ambrósio, que as oito de Mateus estão compreendidas nas quatro de Lucas (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). As expressões do texto de Lucas têm, por vezes, uma forma mais direta e incisiva que as do primeiro Evangelho, que são mais explicativas; por exemplo, a primeira bem-aventurança diz simplesmente «Felizes os pobres», enquanto em Mateus se lê «Bem-aventurados os pobres em espírito», que constitui uma breve explicação do sentido da virtude da pobreza.

20. «Todo o cristão corrente tem que tornar compatíveis na sua vida dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque — feita de coisas concretas — que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, que deseja encher-se do amor de Deus e depois dar a todos desse mesmo amor; e, ao mesmo tempo ser mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com que se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas para resolver os problemas da vida humana e para estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

«(…) O melhor exemplo de pobreza sempre foram esses pais e essas mães de família numerosa e pobre que se desfazem pelos seus filhos e que, com o seu esforço e constância — muitas vezes sem voz para dizer a alguém que passam necessidades — mantêm os seus, criando um lar alegre em que todos aprendem a amar, a servir, a trabalhar» (Temas Actuais do Cristianismo, n.os 110 e 111).

24-26. Com estas quatro exclamações condena o Ser a avareza e o apego aos bens do mundo; o excessivo cuida do corpo, a gula; a alegria néscia e a busca da própria l complacência em tudo; a adulação, o aplauso e o afã desordenado de glória humana. Quatro tipos de vícios que são muito comuns no mundo, e diante dos quais o cristão deve l estar vigilante para não se deixar arrastar por eles.

24. De modo semelhante a como no v. 20 se fala dos pobres referindo-se àquelas pessoas que amam a pobreza para agradar mais a Deus, assim, neste versículo, por ricos» há que entender aqueles que se afanam em acumular bens sem atender à licitude ou ilicitude dos meios empregados, e que, além disso, põem nestas riquezas a sua felicidade, como se fossem o seu fim último. Pelo contrário, aqueles ricos que por herança ou através de um trabalho honrado abundam em bens são realmente pobres se não se apegam à esses bens, e como conseqüência desse desprendimento sabem empregá-los em benefício dos outros, segundo Deus lhes pede. Na Sagrada Escritura aparecem alguns personagens como Abraão, Isaac, Moisés, David e Job aos quais, mesmo possuindo muitas riquezas, se pode aplicar a bem-aventurança dos pobres.

Já em tempos de Santo Agostinho havia quem entendesse mal a pobreza e a riqueza, fazendo este raciocínio: o Reino dos Céus será dos pobres, dos Lázaros, dos famintos; os ricos são todos maus, como o rico avarento. Diante destas opiniões errôneas explica Santo Agostinho o sentido profundo da riqueza e da pobreza segundo o espírito evangélico: « Ouve-me, senhor pobre, sobre o que dizes. Quando te chamas a ti mesmo Lázaro, aquele santo varão chagado, temo que por soberba não sejas aquele que dizes. Não desprezes os ricos misericordiosos, os ricos humildes; ou, para o dizer em poucas palavras, não desprezes os que denominei ricos pobres. Oh pobre!, sé tu pobre também; pobre, ou seja, humilde (…). Ouve-me, pois. Sé verdadeiro pobre, sé piedoso, sé humilde; se te glorias dos teus andrajos e da tua pobreza ulcerosa, se te glorias de te assemelhares ao mendigo estendido junto da casa do rico, não reparas senão em que foi pobre e não te fixas em nada mais. Em que vou fixar-me?, dizes. Lê as Escrituras e entenderás o que te digo. Lázaro foi pobre, mas aquele para cujo seio foi levado era rico. ‘Sucedeu — está escrito — que morreu o pobre e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão’. Para onde? Para o seio de Abraão, ou digamos, para o misterioso lugar onde repousava Abraão. Lê (…) e pondera como Abraão foi opulentíssimo na terra, onde teve em abundância prata, família, gados, fazenda; e, contudo, este rico foi pobre, pois foi humilde. ‘Creu Abraão em Deus, e foi-lhe contado como justiça’ (…) Era fiel, praticava o bem, recebeu o mandato de imolar o seu filho e não demorou a oferecer o que tinha recebido Àquele de Quem, o tinha recebido. Ficou provado aos olhos de Deus e posto como exemplo de fé» (Sermo 14).

Em resumo, a pobreza não consiste em algo puramente exterior, em ter ou não ter bens materiais, mas em algo mais profundo que afeta o coração, o espírito do homem, consiste em ser humilde diante de Deus, em ser piedoso, em ter uma fé submissa. Se se possuem estas virtudes e, além disso, abundância de bens materiais, a atitude do cristão será de desprendimento, de caridade para com os outros homens, e assim agradar-se-á a Deus. Pelo contrário, o que não possui bens materiais abundantes nem por isso está justificado diante de Deus, se não se esforça por adquirir essas virtudes que constituem a verdadeira pobreza.