In Evangelho do dia

Dia 7 de setembro

Lc 6, 6-11

6Noutro sábado, entrou na sinagoga e pôs-se a ensinar. Estava lá um homem que tinha a mão direita ressequida. 7Ora os Escribas e os Fariseus observavam-No de perto para verem se Ele realizaria uma cura no sábado, a fim de acharem com que acusá-Lo. 8Mas Ele conhecia-lhes os pensamentos. Disse então ao homem que tinha a mão ressequida: Levanta-te e põe-te de pé, aí no meio. Este levantou-se e ficou de pé. 9Disse-lhes Jesus: Pergunto-vos se é permitido, ao sábado, fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la? 10E, olhando-os a todos em volta, disse ao homem: Estende a mão. Ele estendeu-a, e a mão ficou-lhe curada. 11Eles encheram-se de fúria e começaram a falar entre si do que haviam de fazer a Jesus.

Comentário

10. Os Santos Padres ensinam-nos a descobrir um profundo sentido espiritual mesmo naquelas palavras do Senhor que podem parecer irrelevantes à primeira vista. Assim, Santo Ambrósio comenta a frase “estende a mão”: “Este remédio é comum e geral (…). Estende-a muitas vezes, favorecendo o teu próximo; defende de qualquer injúria a quem vejas sofrer sob o peso da calúnia, estende também a tua mão ao pobre que te pede; estende-a também ao Senhor pedindo-Lhe o perdão dos teus pecados: é assim como se deve estender a mão, e é assim como se cura” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

11. Perante a pergunta do Senhor os fariseus não querem responder, e diante do milagre que realiza depois não sabem que dizer. Deveriam ter-se convertido, mas o seu coração ofusca-se e enche-se de inveja e de furor. Depois, aqueles que não tinham falado diante do Senhor começam a dialogar entre si, não para se aproximarem de Cristo mas para O perder. Neste sentido comenta São Cirilo: “Oh fariseu!, vês O que faz coisas prodigiosas e cura os doentes em virtude de um poder superior e tu projectas a Sua morte por inveja” (Commentarium in Lucam, ad loc.).

Dia 8 de setembro

Mt 1, 1-16.18-23

1Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.

2Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacob, Jacob gerou a Judas e seus irmãos. 3Judas gerou a Fares e a Zara, de Tamar. Fares gerou a Esron, Esron gerou a Arão. 4Arão gerou a Aminabad, Aminabad gerou a Naasson, Naasson gerou a Salmon. 5Salmon gerou a Booz, de Raab. Booz gerou a Obed, de Rute. Obed gerou a Jessé, Jessé gerou a el-rei David.

6David gerou a Salomão, da que fora mulher de Urias. 7Salomão gerou a Roboão, Roboão gerou a Abias, Abias gerou a Asa. 8Asa gerou a Josafá, Josafá gerou a Jorão; Jórão gerou a Ozias. 9Ozias gerou a Joatã, Joatã gerou a Acaz, Acaz gerou a Ezequias. 10Ezequias gerou a Manassés, Manasses gerou a Amós, Amós gerou a Josias. 11Josias gerou a Jeconias e seus irmãos, no tempo da deportação para Babilónia.

12Depois da deportação para Babilónia, Jeconias gerou a Salatiel, Salatiel gerou a Zorobabel. 13Zorobabel gerou a Abiud, Abiud gerou a Eliacim, Eliacim gerou a Azor. 14Azor gerou a Sadoc, Sadoc gerou a Aquim, Aquim gerou a Eliud. 15Eliud gerou a Eleazar, Eleazar gerou a Matã, Matã gerou a Jacob. 16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

– José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

22Ora tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: 23Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem será dado o nome de Emanuel“, que quer dizer “Deus connosco”.

Comentário

1. Este versículo vem a ser como que o título de todo o Evangelho. Em Jesus Cristo cumprem-se as promessas divinas de salvação feitas a Abraão em favor de toda a humanidade (Gen 12, 3). Igualmente se cumpre a profecia de um reino eterno dada por meio do profeta Natan ao rei David (2 Sam 7, 12-16).

A genealogia que introduz São Mateus, no começo do seu Evangelho, mostra a ascendência de Jesus Cristo segundo a Sua humanidade, ao mesmo tempo que dá uma indicação da plenitude a que chega a História da Salvação com a Encarnação do Filho de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Messias esperado.

A genealogia está apresentada segundo uma estrutura de três grupos. Cada grupo consta de catorze elos que mostram o desenvolvimento progressivo da história sagrada.

Entre os Judeus (como entre outros povos orientais de origem nómada) a árvore genealógica tinha uma importância capital. Há que ter em conta que, precisamente por essa origem semi-nómada, a identidade de uma pessoa estava especialmente ligada à família e tribo, sendo menos significativo o lugar. No povo hebreu a essas circunstâncias acrescentava-se o significado religioso de pertencer pelo sangue ao povo eleito.

Ainda na época de Jesus a árvore genealógica se conservava nas famílias judaicas com todo o cuidado, pois segundo essa árvore as pessoas constituiam-se em sujeitos de direitos e obrigações.

6. Nas genealogias nomeiam-se quatro mulheres: Tamar (cfr Gen 38; 1 Chr 2,4), Rahab (cfr Ios 2; 6,17), Betsabé (cfr 2 Sam 11; 12,24) e Rut (cfr livro de Rut). Estas quatro mulheres estrangeiras, que de um ou outro modo se incorporam na história de Israel, são um símbolo, entre muitos outros, da salvação divina que abarca toda a humanidade.

Ao citar também outros personagens pecadores, mostra-se como os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos humanos. Através de homens cujo comportamento não foi recto Deus vai realizar os Seus planos de salvação. Ele salva-nos, santifica-nos e escolhe-nos para fazer o bem, apesar dos nossos pecados e infidelidades. Tal é o realismo que Deus quis fazer constar na história da nossa salvação.

11. Sobre a deportação para Babilónia fala-se em 2 Reg 24-2 5. Com este facto cumpre-se a ameaça dos profetas ao povo de Israel e aos seus reis, como castigo da sua infidelidade aos mandamentos da Lei de Deus, especialmente ao primeiro.

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc 1, 25-38): “(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)” (Catecismo Romano, I, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproximadamente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimónio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimónias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expressamente nos versículos 22-23): 1° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3° o carácter miraculoso da conceição do Menino sem intervenção de varão.

19. “José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7, 1; 23-32; Ez 18, 5 ss; Prv 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7, 6; 9, 6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens” (Cristo que passa, n° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2 Sam 7, 12). Como diz São João Crisóstomo: “Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem” (Hom. sobre S. Mateus, 4).

“Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi concebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes” (Catecismo Romano, I, 4, 1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa “salvador”. Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

“Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus. (…) Os nomes profetizados (…o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens” (Catecismo Romano, I, 3, 5 e 6).

23. “Emanuel”: A profecia de Isaías 7, 14 citada neste versículo, preanunciava, já desde há uns sete séculos, que o sinal da salvação divina ia ser o acontecimento extraordinário de uma virgem que vai dar à luz um filho. O Evangelho revela-nos, pois, neste passo duas verdades:

A primeira que, na verdade, Jesus é o Deus connosco preanunciado pelo profeta. Assim o sentiu sempre a tradição cristã. Inclusivamente o Magistério da Igreja (no Breve Divina de Pio VI, 1779) condenou uma interpretação que negava o sentido messiânico do texto de Isaías. Cristo é, pois, verdadeiramente Deus connosco, não só pela Sua missão divina mas porque é Deus feito homem (cfr Jo 1, 14). Não quer dizer que Jesus Cristo tenha de ser normalmente chamado Emanuel: este nome refere-se mais directamente ao Seu mistério de Verbo Encarnado. O anjo da anunciação indicou que Lhe fosse posto o nome de Jesus, que significa Salvador. Assim o fez São José.

A segunda verdade que nos revela o texto sagrado é que Santa Maria, em quem se cumpre a profecia de Is 7, 14, permanece virgem antes do parto e no próprio parto. Precisamente o sinal miraculoso que dá Deus de que chegou a salvação é que uma mulher que é virgem, sem deixar de o ser, é também mãe.

“Jesus Cristo saiu do seio materno sem detrimento algum da virgindade de Sua Mãe; assim pois, com louvores merecidíssimos, celebramos a sua imaculada e perpétua virgindade. E isto em verdade operou-se por virtude do Espírito Santo, que tanto engrandeceu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho, que lhe deu a ela fecundidade e conservou ao mesmo tempo a sua perpétua virgindade” (Catecismo Romano, I, 4, 8).

Dia 9 de setembro

Lc 6, 20-26

20Erguendo os olhos para os Seus discípulos, pôs-Se a dizer: Felizes de vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus.

21Felizes de vós, os que tendes agora fome, porque sereis saciados.

Felizes de vós, os que chorais agora, porque haveis de rir.

22Felizes sereis quando os homens vos odiarem, e quando vos rejeitarem, vos insultarem, e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. 23Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois é grande no Céu a vossa recompensa. Desse modo, efectivamente, é que procediam os pais deles com os profetas.

24Mas ai de vós, os ricos, porque recebeis a vossa consolação.

25Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome.

Ai de vós, os que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar.

26Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem.

Desse modo, efectivamente, é que procediam os pais deles com os falsos profetas.

Comentário

20-26. As oito Bem-aventuranças que São Mateus apresenta (5,3-12) oferece-as São Lucas resumidas em quatro, mas acompanhadas de quatro antíteses. Podemos dizer, com Santo Ambrósio, que as oito de Mateus estão compreendidas nas quatro de Lucas (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). As expressões do texto de Lucas têm, por vezes, uma forma mais directa e incisiva que as do primeiro Evangelho, que são mais explicativas; por exemplo, a primeira bem-aventurança diz simplesmente “Felizes os pobres”, enquanto em Mateus se lê “Bem-aventurados os pobres em espírito”, que constitui uma breve explicação do sentido da virtude da pobreza.

20. “Todo o cristão corrente tem que tornar compatíveis na sua vida dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque – feita de coisas concretas – que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, que deseja encher-se do amor de Deus e depois dar a todos desse mesmo amor; e, ao mesmo tempo ser mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com que se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas para resolver os problemas da vida humana e para estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

“(…) O melhor exemplo de pobreza sempre foram esses pais e essas mães de família numerosa e pobre que se desfazem pelos seus filhos e que, com o seu esforço e constância – muitas vezes sem voz para dizer a alguém que passam necessidades – mantêm os seus, criando um lar alegre em que todos aprendem a amar, a servir, a trabalhar” (Temas Actuais do Cristianismo, nos 110 e 111).

24-26. Com estas quatro exclamações condena o Senhor a avareza e o apego aos bens do mundo; o excessivo cuidado do corpo, a gula; a alegria néscia e a busca da própria complacência em tudo; a adulação, o aplauso e o afã desordenado de glória humana. Quatro tipos de vícios que são muito comuns no mundo, e diante dos quais o cristão deve estar vigilante para não se deixar arrastar por eles.

24. De modo semelhante a como no v. 20 se fala dos pobres referindo-se àquelas pessoas que amam a pobreza para agradar mais a Deus, assim, neste versículo, por ricos há que entender aqueles que se afanam em cumular bens sem atender à liceidade ou iliceidade dos meios empregados, e que, além disso, põem nestas riquezas a sua felicidade, como se fossem o seu fim último. Pelo contrário, aqueles ricos que por herança ou através de um trabalho honrado abundam em bens são realmente pobres se não se apegam a esses bens, e como consequência desse desprendimento sabem empregá-los em benefício dos outros, segundo Deus lhes pede. Na Sagrada Escritura aparecem alguns personagens como Abraão, Isaac, Moisés, David e Job aos quais, mesmo possuindo muitas riquezas, se pode aplicar a bem-aventurança dos pobres.

Já em tempos de Santo Agostinho havia quem entendesse mal a pobreza e a riqueza, fazendo este raciocínio: o Reino dos Céus será dos pobres, dos Lázaros, dos famintos; os ricos são todos maus, como o rico avarento. Diante destas opiniões erróneas explica Santo Agostinho o sentido profundo da riqueza e da pobreza segundo o espírito evangélico: “Ouve-me, senhor pobre, sobre o que dizes. Quando te chamas a ti mesmo Lázaro, aquele santo varão chagado, temo que por soberba não sejas aquele que dizes. Não desprezes os ricos misericordiosos, os ricos humildes; ou, para o dizer em poucas palavras, não desprezes os que denominei ricos pobres. Oh pobre!, sê tu pobre também; pobre, ou seja, humilde (…). Ouve-me, pois. Sê verdadeiro pobre, sê piedoso, sê humilde; se te glorias dos teus andrajos e da tua pobreza ulcerosa, se te glorias de te assemelhares ao mendigo estendido junto da casa do rico, não reparas senão em que foi pobre e não te fixas em nada mais. Em que vou fixar-me?, dizes. Lê as Escrituras e entenderás o que te digo. Lázaro foi pobre, mas aquele para cujo seio foi levado era rico. ‘Sucedeu – está escrito – que morreu o pobre e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão’. Para onde? Para o seio de Abraão, ou digamos, para o misterioso lugar onde repousava Abraão. Lê (…) e pondera como Abraão foi opulentíssimo na terra, onde teve em abundância prata, família, gados, fazenda; e, contudo, este rico foi pobre, pois foi humilde. ‘Creu Abraão em Deus, e foi-lhe contado como justiça’ (…) Era fiel, praticava o bem, recebeu o mandato de imolar o seu filho e não demorou a oferecer o que tinha recebido Àquele de Quem o tinha recebido. Ficou provado aos olhos de Deus e posto como exemplo de fé” (Sermo 14).

Em resumo, a pobreza não consiste em algo puramente exterior, em ter ou não ter bens materiais, mas em algo mais profundo que afecta o coração, o espírito do homem, consiste em ser humilde diante de Deus, em ser piedoso, em ter uma fé submissa. Se se possuem estas virtudes e, além disso, abundância de bens materiais, a atitude do cristão será de desprendimento, de caridade para com os outros homens, e assim agradar-se-á a Deus. Pelo contrário, o que não possui bens materiais abundantes nem por isso está justificado diante de Deus, se não se esforça por adquirir essas virtudes que constituem a verdadeira pobreza.

Dia 10 de setembro

Lc 6, 27-38

27Mas Eu digo-vos a vós que Me ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, 28bem-dizei os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos maltratam. 29Ao que te bate numa face oferece-lhe também a outra, e àquele que te leva a capa não lhe impeças de ficar também com a túnica. 30Dá a todo aquele que te pede, e ao que leva o que é teu não lho reclames. 31O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-lho de igual modo vós também. 32Se amardes os que vos amam, que agradecimento vos é devido? Pois também os pecadores amam aqueles que os amam. 33Se fizerdes bem aos que bem vos fazem, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores fazem o mesmo. 34E, se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que agradecimento vos é devido? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. 35Mas vós, amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Será grande assim a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é benigno para com os ingratos e os maus. 36Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. 38Absolvei, e sereis absolvidos. Dai, e dar-se-vos-á. Deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, agitada, a transbordar, pois com a medida que empregardes vos será medido.

Comentário

27. “No facto de amarmos os nossos inimigos vê-se claramente certa semelhança com Deus Pai, que reconciliou conSigo o género humano, que estava em inimizade com Ele e era contra Ele, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho (cfr Rom 5,8-10)” (Catecismo Romano, IV, 14,19). Seguindo o exemplo de Deus nosso Pai, devemos desejar para todos os homens – também para os que se declaram nossos inimigos – em primeiro lugar a vida eterna; depois, o cristão tem obrigação de respeitar e de compreender a todos sem excepção pela intrínseca dignidade da criatura humana, feita à imagem e semelhança do Criador,

28. Jesus Cristo ensinou-nos com o Seu exemplo que este preceito não é uma simples recomendação piedosa: estando já pregado na Cruz Jesus pediu a Seu Pai pelos que O tinham entregado: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). À imitação do Mestre, Santo Estevão, o primeiro mártir da Igreja, no momento de ser lapidado pedia ao Senhor que não tivesse em conta o pecado dos seus inimigos (cfr Act 7,60). A Igreja, na Liturgia de Sexta Feira Santa, eleva a Deus orações e sufrágios pelos que estão fora da Igreja para que lhes dê a graça da fé, para que os que não conhecem a Deus saiam da sua ignorância; para que os Judeus recebam a luz da verdade; para que os não católicos estreitados pelo laço da verdadeira caridade, se unam de novo à comunhão da Igreja nossa Mãe.

29. O Senhor continua a mostrar-nos como devemos comportar-nos para imitar a misericórdia de Deus. Em primeiro lugar põe-nos um exemplo para que exercitemos uma das obras de misericórdia que a tradição cristã chama espirituais: perdoar as injúrias e sofrer com paciência os defeitos do próximo. Isto é o que quer dizer, em primeiro lugar, a recomendação de apresentar a outra face a quem lhe bate numa.

Para captar bem esta recomendação, comenta São Tomás, “há que entender a Sagrada Escritura à luz do exemplo de Cristo e de outros santos. Cristo não apresentou a outra face ao ser esbofeteado em casa de Anás (Ioh 18,22-23) nem tampouco São Paulo quando, segundo nos contam os Actos dos Apóstolos, foi açoitado em Filipos (Act 16,22 ss.). Por isso, não há por que entender que Cristo tenha mandado à letra oferecer a outra face ao que te bate numa; mas isto deve entender-se quanto à disposição interior; ou seja, que se for necessário, devemos estar dispostos a que não se turve o nosso ânimo contra o que nos bate, e a estar preparados para suportar algo semelhante e inclusivamente mais. Assim fez o Senhor quando entregou o Seu corpo à morte” (Comentário sobre S. João, 18,37).

36. O modelo de misericórdia que Cristo nos propõe é o próprio Deus. D’Ele diz São Paulo: “Bendito seja Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, o qual nos consola em todas as nossas tribulações” (2 Cor 1,3-4). “A primeira excelência que tem esta virtude – explica Frei Luis de Granada – é tornar os homens semelhantes a Deus, e semelhantes na coisa mais gloriosa que há n’Ele, que é na misericórdia (Lc 6,36). Porque é certo que a maior perfeição que pode ter uma criatura é ser semelhante ao seu Criador: e quanto mais tiver desta semelhança, tanto mais perfeita será. E é certo também que uma das coisas que mais propriamente convém a Deus é a misericórdia, como o significa a Igreja naquela oração que diz: Senhor Deus, de quem é próprio ter misericórdia e perdoar. E diz ser isto próprio de Deus, porque assim como à criatura, enquanto criatura, pertence ser pobre e necessitada (e por isto a ela pertence receber e não dar), assim pelo contrário, como Deus é infinitamente rico e poderoso, só a Ele por excelência pertence dar e não receber, e por isto d’Ele é próprio ter misericórdia e perdoar” (Livro da oração e meditação, terceira parte, tratado terceiro).

O comportamento do cristão há-de seguir esta norma: compadecer-se das misérias alheias como se fossem próprias, e procurar remediá-las. Neste mesmo sentido a nossa Santa Mãe a Igreja concretizou-nos uma série de obras de misericórdia tanto corporais (visitar e cuidar os doentes, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sequioso…), como espirituais (ensinar aquele que não sabe, corrigir o que erra, perdoar as injúrias…) (cfr Catecismo Maior, nos 944-945).

Também perante quem está no erro temos de ter compreensão: “Este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve distinguir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual conserva sempre a dignidade própria da pessoa, mesmo quando atingido por ideias religiosas falsas ou menos exactas. Só Deus é juiz e penetra os corações; por esse motivo, proibe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de qualquer pessoa” (Gaudium et spes, n. 28).

38. Lemos na Sagrada Escritura a generosidade da viúva de Sarepta, à qual Deus pediu que alimentasse o profeta Elias com o pouco que lhe restava; depois premiou a sua generosidade multiplicando-lhe a farinha e o azeite que tinha (1 Reg 17,9 ss.). De maneira semelhante aquele menino que forneceu os cinco pães e os dois peixes, para que o Senhor os multiplicasse e alimentasse uma grande multidão (cfr Ioh 6,9), é um exemplo vivo do que o Senhor faz quando entregamos o que temos, ainda que seja pouco.

Deus não Se deixa vencer em generosidade: “Vamos! Diz-Lhe com generosidade e como um menino: Que me irás dar quando me exiges ‘isso’?” (Caminho, n° 153). Por muito que demos a Deus nesta vida, mais nos dará o Senhor como prémio na vida eterna.

Dia 11 de setembro

Lc 6, 39-42

39Disse-lhes também uma parábola: Pode um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos nalguma cova? 40Não está o discípulo acima do mestre, mas todo o discípulo bem formado ficará como o seu mestre. 41Porque olhas para o argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que tens no teu? 42Como podes dizer a teu irmão: “irmão, deixa que eu extraia o argueiro que está no teu olho”, tu que não vês a trave que tens no teu? Hipócrita, extrai primeiro a trave do teu olho, e então verás bem, para extraíres o argueiro que está no olho de teu irmão.

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Dia 12 de setembro

Lc 6, 43-49

43De facto, não há árvore boa que dê mau fruto, nem tão-pouco árvore má que dê bom fruto, 44pois cada árvore se conhece pelo próprio fruto. Não se colhem, efectivamente, figos dos espinheiros, nem se apanham uvas duma silva. 45O homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira o que é bom, e o mau, do mau tesouro, tira o que é mau, pois da abundância do coração é que fala a sua boca.

46Porque Me chamais: “Senhor, Senhor”, e não fazeis o que Eu digo? 47Mostrar-vos-ei a quem é semelhante todo aquele que vem ter comigo, ouve as Minhas palavras e as põe em prática. 48É semelhante a um homem que, para construir uma casa, escavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. E, sobrevindo uma inundação, irrompeu a torrente contra aquela casa e não conseguiu abalá-la, por ter sido bem construída. 49Mas aquele que as ouve e as não põe em prática é semelhante a um homem que construiu uma casa sobre a terra, sem alicerces. Irrompeu a torrente contra ela, e logo ruiu. E foi grande o desmoronamento daquela casa.

Comentário

43-44. Para distinguir entre a árvore boa e a má temos de nos fixar nos frutos, nas obras, e não nas folhas, não nas palavras. “Porque não faltam na terra muitos que, quando as pessoas se aproximam deles, só apresentam folhas: grandes, reluzentes, lustrosas. Só folhagem, exclusivamente, e nada mais. E as almas olham para nós com a esperança de saciar a sua fome, que é fome de Deus! Não é possível esquecer que contamos com todos os meios para isso, ou seja, com a doutrina suficiente e com a graça do Senhor, apesar das nossas misérias” (Amigos de Deus, n. 51)

45. Jesus Cristo põe uma dupla comparação: a da árvore que, se é boa, dá frutos bons, e a do homem que fala das coisas que tem no seu coração. “O tesouro do coração é o mesmo que a raiz da árvore – afirma São Beda. A pessoa que tem um tesouro de paciência e de perfeita caridade no seu coração produz excelentes frutos: ama o seu próximo e reúne as outras qualidades que Jesus ensina: ama os inimigos, faz o bem a quem o odeia, abençoa a quem o amaldiçoa, reza pelo que o calunia, não se rebela contra quem lhe bate ou o despoja, dá sempre quando lhe pedem, não reclama o que lhe tiraram, deseja não julgar e não condenar, corrige com paciência e com carinho os que erram. Mas a pessoa que tem no seu coração um tesouro da maldade faz exatamente o contrário: odeia os seus amigos, fala mal de quem o ama, e todas as outras coisas condenadas pelo Senhor”. (In Lucae Evangelium expositio, II, 6).

46. Jesus pede que o nosso comportamento seja coerente com a condição de cristãos e que não haja separação entre a fé que professamos e a nossa forma de viver: “Não está o negócio em ter hábito de religião ou não; mas em procurar exercitar as virtudes e submeter a nossa vontade à de Deus em tudo e que o concerto da nossa vida seja o que Sua Majestade ordenar dela, e não queiramos nós que se faça a nossa vontade, mas a Sua” (Moradas, moradas terceiras, cap. 2, n.° 6).

Dia 13 de setembro

Mc 8, 27-35

27Partiu dali Jesus com os discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe e, no caminho, perguntava aos discípulos: Quem dizem os homens que Eu sou? 28Responderam-Lhe eles: João Baptista, outros Elias, outros que um dos profetas. 29E Ele perguntou-lhes: E vós quem dizeis que Eu sou? Respondeu Pedro e disse-Lhe: Tu és o Cristo. 30E Ele intimou-lhes que não dissessem nada d’Ele a ninguém.

31E começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de padecer muito, e ser rejei­tado pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas, e ser morto, e ressuscitar depois de três dias. 32Falava com toda a clareza. Então Pedro, tomando-O à parte, começou a estranhar-Lho. 33Voltou-Se Ele e, olhando para os discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: Tira-te de diante de Mim, satanás, pois não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens.

34E, chamando o povo com os Seus discí­pulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 35Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á.

Comentário

29. A profissão de fé de Pedro é relatada aqui de uma maneira mais breve que em Mt 16,18-19. Pedro parece limi­tar-se a afirmar que Jesus é o Cristo, o Messias. Já Eusébio de Cesareia, no s. IV, explicava a sobriedade do Evangelista pela sua condição de intérprete de São Pedro, que na sua pregação costumava omitir tudo o que pudesse aparecer como louvor próprio. O Espírito Santo, ao inspirar São Marcos, quis que ficasse reflectida no seu Evangelho a pregação do Príncipe dos Apóstolos, deixando para outros Evangelhos o completar alguns pormenores importantes do mesmo epi­sódio da confissão de Pedro nos confins de Cesareia de Filipe.

Dentro da simplicidade do relato fica claro o papel de Pedro: adianta-se a todos os outros afirmando o messia­nismo de Jesus. Esta pergunta do Senhor, «e vós quem dizeis que Eu sou?», assinala o que Jesus pede aos Apóstolos: não uma opinião, mais ou menos-favorável, mas a firmeza da fé. São Pedro é quem manifesta esta fé (cfr a nota a Mt 16,13-20).

31-33. Esta é a primeira ocasião em que Jesus anuncia aos discípulos os sofrimentos e a morte que terá de padecer. Mais tarde fá-lo-á outras duas vezes (cfr Mc 9,31 e 10,32). Perante esta revelação os Apóstolos ficam surpreendidos, porque não podem nem querem compreender que o Messias tenha de passar pelo sofrimento e pela morte, e muito menos que isto Lhe seja imposto «pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas». Pedro, com a sua espontaneidade habitual, levanta imediatamente um protesto. E Jesus res­ponde-lhe usando as mesmas palavras que dirigiu ao diabo quando este O tentou (cfr Mt 4,10) para afirmar/uma vez mais, que a Sua missão não é terrena mas espiritual, e que por isso não pode ser compreendida com meros critérios humanos, mas segundo os desígnios de Deus. Estes eram que Jesus Cristo nos redimisse mediante a Sua Paixão e Morte. Por sua vez, o sofrimento do cristão, unido ao de Cristo, é também meio de salvação.

34. Quando Jesus disse « se alguém quer vir após Mim…», tinha presente que o cumprimento da Sua missão O levaria à morte de cruz; por isso fala claramente da Sua Paixão (w. 31-32). Mas também a vida cristã, vivida como se deve viver, com todas as suas exigências, é uma cruz que se deve levar em seguimento de Cristo.

As palavras de Jesus, que devem ter parecido assusta­doras àqueles que as escutavam, dão a medida do que Cristo exige para O seguir. Jesus não pede um entusiasmo passa­geiro, nem uma dedicação momentânea; o que pede é a renúncia de si mesmo, o carregar cada um com a sua cruz e o segui-Lo, Porque a meta que o Senhor quer para os homens é a vida eterna. Todo este passo evangélico está contem­plando precisamente o destino eterno do homem. À luz dessa vida eterna é que deve ser avaliada a vida presente: esta não tem um caracter definitivo nem absoluto, mas é transitória, relativa; é um meio para conseguir aquela vida definitiva do Céu. «Tudo isso, que te preocupa de momento, é mais ou menos importante. — O que importa acima de tudo é que sejas feliz, que te salves» (Caminho, n.° 297).

«Há no ambiente uma espécie de medo da Cruz, da Cruz do Senhor. Tudo porque começaram a chamar cruzes a todas as coisas desagradáveis que acontecem na vida, e não sabem aceitá-las com sentido de filhos de Deus, com visão sobrenatural. Até tiram as cruzes que os nossos avós levan­taram nos caminhos!…

« Na Paixão, a Cruz deixou de ser símbolo de castigo para se converter em sinal de vitória. A Cruz é o emblema do Redentor, in quo est salus, vita et resurrectio nostra, ali está a nossa salvação, a nossa vida e a nossa ressurreição» (Via Sacra, II, n.° 5).

35. «Vida»; O texto original e a Neo-vulgata dizem literalmente «alma». Mas neste, como noutros muitos casos, «alma» e «vida» são equivalentes. A palavra «vida» é empregada, como é claro, num duplo significado: vida terrena e vida eterna, a vida do homem aqui na terra, e a felicidade eterna do homem no Céu. A morte pode pôr fim à vida terrena, mas não pode destruir a vida eterna (cfr Mt 10,28), a vida que só pode dar Aquele que vivifica os mortos.

Entendido isto capta-se bem o sentido paradoxal da frase do Senhor: quem quiser salvar a sua vida (terrena), perderá a sua vida (eterna). Mas quem perder a sua vida (terrena) por Mim e pelo Evangelho, salvá-la-á (a eterna). Que significa, pois, salvar a vida (terrena)? Significa viver esta vida como se tudo acabasse aqui na terra: deixando-se dominar pela concupiscência da carne, pela concupiscência dos olhos, e pela soberba da vida (cfr l Ioh2,16). Por contraposição, compreende-se bem que significa «perder a vida» (terrena): fazer morrer, por meio de uma luta ascética continuada, aquela tripla concupiscência — isto é tomar sobre si a cruz (v. 34) — e viver, por conseguinte, buscando e saboreando as coisas que são de Deus e não as da terra (cfr Col 3,1-2).

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