In Evangelho do dia

Dia 6 de julho

Mt 9, 18-26

18Enquanto assim lhes falava, aproximou-se um chefe e, prostrando-se diante d’Ele, disse: Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem impor a Tua mão sobre ela, e viverá. 19Jesus levantou-Se e seguiu-o com os discípulos. 20Nisto, uma mulher que, havia doze anos, padecia de fluxo de sangue, chegou-se por detrás e tocou-Lhe na franja do manto, 21porque dizia consigo mesma: “se eu tocar, ainda que seja só no manto, ficarei curada”. 22Mas Jesus voltou-Se e, olhando para ela, disse: Confiança, filha. A tua fé te salvou. E desde aquele momento ficou a mulher curada. 23Quando Jesus chegou a casa do chefe e viu os tocadores de flauta e a gente em grande alarido, disse: 24Retirai-vos, que a menina não morreu, mas dorme. E riam-se d’Ele. 25Ele, porém, depois de terem feito sair a gente, entrou, pegou-lhe na mão, e a menina levantou-se. 26E correu esta fama por toda aquela região.

Comentário

18-26. Estamos perante dois milagres que se realizaram quase simultaneamente. É clara a relevância dos dois factos prodigiosos. A ressurreição da filha deste personagem, juntamente com a ressurreição do filho da viúva de Naím e a de Lázaro, são as três ressurreições operadas por Jesus que narram os Evangelhos. Pelos passos paralelos de Marcos (5, 21-43) e Lucas (8, 40-56) sabemos que este homem principal era chefe da sinagoga e se chamava Jairo. Assim pois, nos três casos ficam claramente identificadas as pessoas que receberam o benefício de tais prodígios.

O relato evangélico mostra-nos, uma vez mais, a função que a fé desempenha nas acções salvadoras de Jesus. No caso da doente de fluxo de sangue, deve sublinhar-se que Jesus atende sobretudo à sinceridade e à fé que demonstra a mulher ao superar os obstáculos para chegar a Ele. E também é semelhante o caso de Jairo: deixando a um lado todo o tipo de respeito humano, este homem, relevante na cidade, humilha-se visivelmente diante de Jesus.

18. “Prostrando-se”: É o uso oriental para manifestar o respeito a Deus ou a pessoas de categoria. Os gestos de reverência nos actos litúrgicos, especialmente perante a Santíssima Eucaristia, são legítima e apropriada manifestação externa da atitude interior de fé e adoração.

23. “Os tocadores de flauta”: O texto original diz “flautistas”, que eram os que normalmente acompanhavam com a sua música as honras fúnebres.

24. “Retirai-vos, a menina não morreu, mas dorme”: O mesmo dirá o Senhor a propósito de Lázaro: “Lázaro, nosso amigo, está adormecido, mas vou despertá-lo” (Ioh 11,11).

Ainda que Jesus fale de sono, não há a menor dúvida de que a menina – como mais tarde Lázaro – tinha morrido. Para o Senhor não há morte verdadeira que não seja a do castigo eterno (cfr Mt 10, 28).

Dia 7 de julho

Mt 9, 32-38

32Quando estes iam a sair, apresentaram-Lhe um mudo e endemoninhado. 33E, expulso o Demónio, falou o mudo, e a multidão admirada dizia: Nunca se viu coisa assim em Israel. 34Os Fariseus, porém, diziam: É pelo Príncipe dos Demónios que Ele expulsa os Demónios. 35E Jesus andava por todas as cidades e aldeias, a ensinar nas sinagogas, a pregar o Evangelho do Reino e a curar todas as doenças e todas as enfermidades. 36Ao ver a multidão, condoeu-Se dela, porque andavam maltratados e abatidos, como ovelhas sem pastor. 37Então disse aos discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores, poucos. 38Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a Sua messe.

Comentário

27-34. O Evangelista sublinha a reacção diferente que produzem os milagres. Toda a gente admite o poder divino em tais factos, excepto os fariseus que, perante a evidência dos prodígios, atribuem estes a poderes diabólicos. A atitude farisaica endurece de tal modo o homem que a adopta, que o fecha para toda a possibilidade de salvação. Talvez o reconhecimento de Jesus como o Messias (chama-lhe: Filho de David, v. 27) por parte dos cegos tenha exasperado a paixão dos fariseus que, não obstante a doutrina sublime e os milagres de Jesus, continuam recalcitrantes na sua oposição.

Ao considerar este episódio não é difícil dar-se conta de que diante de Deus se dá este paradoxo: há cegos que vêem e videntes que não vêem nada.

30. Por que é que o Senhor não queria que tornassem público o milagre? Porque tinha que seguir um plano progressivo na manifestação de que era o Messias, Filho de Deus. Por isso, não queria precipitar os acontecimentos nem que as multidões entusiasmadas o proclamassem o Rei Messias, com uma mentalidade nacionalista que Ele queria evitar.

Isto não era só um risco, mas uma realidade. Noutro momento, por altura do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Ioh 6, 14-15), “aqueles homens, ao ver o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o Profeta que vem ao mundo. Jesus, conhecendo que viriam para O levarem e O fazerem rei, retirou-Se de novo para o monte Ele sozinho”.

31. Diz São Jerônimo (cfr Comm. in Matth.,9, 31) que os cegos divulgaram o acontecimento, não porque se tenham negado a obedecer a Jesus, mas porque não encontraram outro meio de exprimir a sua gratidão.

35. O Concílio Vaticano II recorre a este lugar para assinalar a mensagem de caridade cristã que a Igreja deve levar a toda a parte: “Efectivamente, a caridade cristã a todos se estende sem discriminação de raça, condição social ou religião; não espera qualquer lucro ou agradecimento. Portanto, assim como Deus nos amou com um amor gratuito, assim também os fiéis, pela sua caridade, sejam solícitos para com os homens, amando-os com o mesmo zelo com que Deus veio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino de Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição, de modo especial com os pobres e aflitos, e de bom grado por eles gasta as forças” (Ad gentes, n. 12).

36. “Condoeu-Se dela”: O verbo grego é profundamente expressivo: “comover-se nas entranhas”. Jesus com efeito, comoveu-Se ao ver o povo, porque os seus pastores, em vez de o guiarem e cuidarem dele, o desencaminhavam, comportando-se mais como lobos do que como verdadeiros pastores do seu próprio rebanho. Jesus vê na situação do Seu tempo cumprida a profecia de Ez 34, em que Deus, por meio do profeta, increpa os maus pastores de Israel, em substituição dos quais enviará o Messias.

“Se fôssemos consequentes com a nossa fé, quando olhássemos à nossa volta e contemplássemos o espectáculo da História e do Mundo, não poderíamos deixar de sentir crescer nos nossos corações os mesmos sentimentos que animaram o de Jesus Cristo” (Cristo que passa, n.° 133). Com efeito, a consideração das necessidades espirituais do mundo deve levar-nos a um infatigável e generoso trabalho apostólico.

37-38. À contemplação da multidão abandonada pelos seus pastores, seguem-se as palavras de Jesus que nos apresentam, sob a imagem da messe, essa mesma multidão preparada para que se realize nela a obra da Redenção: “Levantai os vossos olhos e vede os campos que estão dourados para a sega” (Ioh 4, 35). O campo arroteado pelos Profetas, ultimamente por São João Baptista, está já coberto de espigas maduras. Do mesmo modo que nos trabalhos do campo se não se sega no momento oportuno a colheita se perde, assim na Igreja se sente ao longo dos séculos a urgência de colher a messe, que é muita e está preparada.

A dificuldade é que agora, como nos tempos de Jesus, os obreiros são poucos em proporção com a tarefa. A solução é dada pelo próprio Senhor: orar, rogar a Deus, Dono da messe, para que envie os obreiros necessários. Será difícil que um cristão, que se ponha a rezar de verdade, não se sinta urgido a participar pessoalmente neste trabalho apostólico. Ao cumprir este mandato de Jesus Cristo, deve pedir-se de modo especial que não faltem os bons pastores, que dêem aos outros operários da messe os meios de santificação necessários para a tarefa apostólica.

Na verdade, recorda-nos o Papa Paulo VI: “A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos, de todos os que o receberam. O dever missionário recai sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo; mas todos, todos devemos ser solidários no cumprimento deste dever. Assim pois, que a consciência de cada crente se pergunte: Tenho cumprido o meu dever missionário? A oração pelas Missões é o primeiro modo de pôr em prática este dever” (Alocução na recitação do Angelus, 23-X-1977).

Dia 8 de julho

Mt 10, 1-7

1E chamando a Si os doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem e para curarem todas as doenças e todas as enfermidades. 2Ora, os nomes dos doze Apóstolos são estes: primeiro Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, e Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, 3Filipe e Bartolomeu, Tomé e Mateus, o publicano, Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu, 4Simão, o Cananeu, e Judas, o Iscariotes, o que O entregou. 5A estes doze enviou Jesus, depois de lhes dar as seguintes instruções: Não vades a terra de gentios, nem entreis em cidades de Samaritanos. 6Ide antes às ovelhas desgarradas da Casa de Israel. 7Ide e pregai, dizendo: ” Está próximo o Reino dos Céus”.

Comentário

1-4. Tão essencial é a oração na vida da Igreja, que Jesus chama os Seus Doze Apóstolos depois de lhes ter recomendado que rezassem para que o Senhor enviasse operários para a Sua messe (cfr Mt 9, 38). Toda a actividade apostólica dos cristãos deve ser, pois, precedida e acompanhada por uma intensa vida de oração, visto que não se trata de uma empresa meramente humana mas divina. O Senhor inicia a Sua Igreja chamando Doze homens que vão ser como que os doze patriarcas do Novo Povo de Deus que é a Sua Igreja. Este Novo Povo não se constituirá por uma descendência segundo a carne, mas por uma descendência espiritual. Os seus nomes ficam aqui registrados. A sua escolha é gratuita: não se distinguiram por serem sábios, poderosos, importantes…; são homens normais e correntes que responderam com fé à graça do chamamento de Jesus. Todos serão fiéis ao Senhor, excepto Judas Iscariotes. Inclusive, Jesus antes de morrer e ressuscitar gloriosamente, confere-lhes esses poderes de expulsar os espíritos imundos e de curar enfermidades, como antecipação e preparação da missão salvífica que lhes dará depois.

É comovedor saber os nomes daqueles primeiros. A Igreja venera-os com especial afecto e sente-se orgulhosa de ser continuadora – apostólica – da missão sobrenatural que eles iniciaram, e de ser fiel ao testemunho que souberam dar da doutrina de Cristo. Não há verdadeira Igreja sem a ininterrupta sucessão apostólica e a continuada identificação com o espírito que os Apóstolos souberam encarnar.

“Apóstolo”: Significa enviado, porque Jesus Cristo os enviava a pregar o Seu Reino e a Sua doutrina,

O Concílio Vaticano II, na mesma linha do Vaticano I, confessa e declara que a Igreja está constituída hierarquicamente: “O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-10); e a estes Apóstolos (cfr Lc 6, 13) constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21, 15-17). Enviou-os primeiro aos filhos de Israel e, depois, a todos os povos (cfr Rom l, 16), para que, participando do Seu poder, fizessem de todas as gentes discípulos Seus e as santificassem e governassem (cfr Mt 28,16-20; Mc 16, 15; Lc 24, 45-48; Ioh 20, 21-23) e deste modo propagassem e apascentassem a Igreja, servindo-a, sob a direcção do Senhor, todos os dias até ao fim dos tempos (cfr Mt 28, 28)” (Lumen gentium, n. 19).

1. Neste capítulo 10 São Mateus expõe como Jesus, para levar para a frente no futuro o Reino de Deus que inaugura, tem o propósito de fundar a Igreja, e para isso escolhe, dá poderes e instrui os Doze Apóstolos que são o germe da Sua Igreja.

5-15. De maneira semelhante a como na escolha dos Apóstolos (vv. 1-4) Jesus mostra a Sua vontade de fundar a Igreja, no presente passo (vv. 5-15) manifesta o Seu propósito de formar esses primeiros Apóstolos, já antes da Sua Morte e Ressurreição. Deste modo Jesus Cristo começou a pôr os fundamentos da Sua Igreja desde os começos do Seu ministério público.

Todos temos necessidade de uma formação doutrinal e apostólica para desempenhar a nossa vocação cristã. A Igreja tem o dever de ensinar, e os fiéis têm a obrigação de fazer seu esse ensinamento. Por conseguinte, cada cristão deve aproveitar os meios de formação que a Igreja lhe oferece, nas circunstâncias concretas em que Deus o colocou na vida.

5-6. Segundo o plano de salvação estabelecido por Deus, ao povo hebraico foram feitas as promessas (a Abraão e aos Patriarcas), conferida a Aliança, dada a Lei (Moisés) e enviados os Profetas. Deste povo, segundo a carne, nasceria o Messias. Compreende-se que o Messias e o Reino de Deus devessem ser anunciados à Casa de Israel primeiro que aos não Judeus. Por isso, nesta primeira aprendizagem de missão apostólica, Jesus restringe o campo da sua actividade só aos Judeus, sem que tal circunstância possa significar um obstáculo ao carácter universal da missão da Igreja. Com efeito, Jesus mandar-lhes-ia mais tarde: “Ide, pois, doutrinai todos os povos” (Mt 28,19); “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15). Também os Apóstolos, na primeira expansão do Cristianismo, ao evangelizar uma cidade em que havia alguma comunidade de judeus, costumavam dirigir-se a estes em primeiro lugar (cfr Act 13,46).

Dia 9 de julho

Mt 10, 7-15

7Ide e pregai, dizendo: “Está próximo o Reino dos Céus”. 8Curai enfermos, ressuscitai mortos, limpai leprosos, expulsai Demónios. Dai de graça o que de graça recebeste. 9Não procureis oiro nem prata nem cobre para vossos cintos, 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas nem calçado nem bordão, porque o trabalhador tem direito ao seu sustento. 11Em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes, informai-vos de alguma pessoa honrada que nela haja e hospedai-vos aí até partirdes. 12E, ao entrar na casa, saudai-a. E, se realmente essa casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; 13se, porém, não for digna, a vossa paz voltará para vós. 14E se alguém vos não receber nem ouvir as vossas palavras, saí dessa casa ou povoação e sacudi o pó dos vossos pés. 15Em verdade vos digo: no dia do Juízo, mais tolerável sorte terá a terra de Sodoma e Gomorra do que essa cidade.

Comentário

7-8. Até então os Profetas tinham anunciado ao povo eleito os bens messiânicos, por vezes em imagens acomodadas à sua mentalidade ainda pouco madura espiritualmente. Agora, Jesus envia os Seus Apóstolos a anunciar que esse Reino de Deus prometido está iminente, manifestando os seus aspectos espirituais. Os poderes mencionados no v. 8 são precisamente o sinal anunciado pelos Profetas acerca do Reino de Deus ou reino messiânico. Primariamente (caps. 8 e 9) estes poderes messiânicos exerce-os Jesus Cristo; agora dá-os aos Seus discípulos para mostrar que essa missão é divina (cfr Is 35, 5-6; 40, 9; 52, 7; 61,1).

9. “Cintos”: Cinturões duplos, cosidos pelas bordas, em que se costumava na antiguidade levar o dinheiro e outros objectos pequenos e pesados.

9-10. Jesus urge aos Seus discípulos a que partam sem demora para o cumprimento da sua missão. Não devem preocupar-se por carecerem de bens materiais, nem dos meios humanos; o que faltar Deus provê-lo-á na medida das suas necessidades. Esta santa audácia em empreender as obras de Deus repete-se uma e outra vez na história da Igreja. Quantas coisas grandes foram empreendidas, mesmo sem ter à disposição os meios humanos mais imprescindíveis! Assim agiram os santos. Se na expansão da Igreja se tivesse esperado por dispor desses meios, muitas almas não teriam recebido a luz de Cristo. Quando o cristão está persuadido de qual é a Vontade de Deus, não deve, com ânimo encolhido, parar a contar os meios de que dispõe. “Nos empreendimentos de apostolado, está bem – é um dever que consideres os teus meios terrenos (2+2 =4). Mas não te esqueças – nunca – de que tens de contar, felizmente, com outra parcela. Deus + 2 + 2… ” (Caminho, n.°471).

De qualquer modo, não pretendamos forçar Deus para que intervenha de modo extraordinário quando podemos remediar as necessidades com o nosso próprio esforço e trabalho. Isto quer dizer que os cristãos devem ajudar com generosidade aqueles que, dedicados totalmente a cuidar dos bens espirituais dos seus irmãos, não têm tempo para se ocuparem do seu próprio sustento. Veja-se a este propósito o que promete o próprio Jesus em Mt 10,40-42.

11-15. A palavra “paz” era e continua a ser a saudação usual entre os Judeus. Mas na boca dos Apóstolos devia adquirir uma significação mais profunda: a manifestação da bênção de Deus, que os discípulos de Jesus, como enviados Seus, derramam sobre aqueles que os acolhem. Este mandato do Senhor não termina naquela missão concreta, mas é como que uma profecia para toda a história posterior. O mensageiro de Cristo não desanima quando a sua palavra não é acolhida. Sabe que a bênção de Deus não fica vazia nem é ineficaz (cfr Is 55, 11) e todo o esforço por parte do cristão sempre dará fruto. Em qualquer caso, a palavra apostólica leva consigo a graça da conversão: “muitos dos que tinham ouvido a Palavra abraçaram a Fé. e o número, só dos homens, elevou-se a uns cinco mil” (Act 4, 4; cfr 10,44; Rom 10, 17).

O homem deve prestar atenção a essa palavra do Evangelho e acreditar nela (Act 13, 48; 15, 7). Se a aceitar e perseverar nela, receberá a consolação da sua alma, a paz do seu espírito (Act 8, 39) e a salvação (Act 11, 4-18). Mas se a rejeitar, não estará isento de culpa e Deus julgá-lo-á por se ter fechado à graça que lhe foi oferecida.

Dia 10 de julho

Mt 10, 16-23

16Olhai que Eu mando-vos, como ovelhas para o meio dos lobos. Sede, portanto, prudentes como as serpentes, e simples, como as pombas. 17Acautelai-vos, porém, dos homens, pois hão-de entregar-vos aos Sinédrios e açoitar-vos nas sinagogas. 18E sereis, por Minha causa, levados à presença dos governadores e à dos reis, para dardes testemunho diante deles e dos gentios. 19Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como ou o que haveis de dizer, pois ser-vos-á dado nessa hora o que haveis de dizer, 20porque não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai, que fala em vós. 21O irmão há-de entregar à morte o irmão, e o pai, ao filho. E levantar-se-ão os filhos contra os pais e far-lhe-ão dar a morte. 22E sereis odiados de todos, por causa do Meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo. 23Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Em verdade vos digo que não terminareis as cidades de Israel até vir o Filho do homem.

Comentário

16-23. Jesus Cristo dá aqui uma série de instruções e advertências, que terão aplicação constante ao longo de toda a história da Igreja. Dificilmente o espírito do mundo compreenderá os caminhos de Deus. Cristo não pode transigir com certas manifestações mundanas, por muito em moda que estejam. Por isso, a vida cristã levará consigo, necessariamente, uma inconformidade diante de tudo o que atente contra a fé e a moral (cfr Rom 12,2). Não se pode estranhar que a vida do cristão se mova, não poucas vezes, entre o heroísmo ou a traição. Perante estas dificuldades não se deve ter medo: não estamos sós, contamos com a ajuda poderosa do nosso Pai Deus, que nos fará ser valentes e audazes.

20. Com estas palavras Jesus ensina o carácter completamente sobrenatural do testemunho que pede aos Seus discípulos. O comportamento de tantos mártires cristãos, conservado documentalmente, prova como se cumpre na vida dos fiéis a promessa de Jesus; é impressionante ao ler esses documentos comprovar a serenidade e a sabedoria de pessoas de escassa cultura, por vezes quase crianças.

A doutrina deste versículo fundamenta a fortaleza e confiança que o cristão deve ter nas situações mais variadas e difíceis da vida, nas quais seja necessário confessar a fé. Não estará só, mas o Espírito Santo porá nele palavras cheias de sabedoria divina.

23. Na interpretação deste texto deve rejeitar-se, antes de mais, a opinião de alguns racionalistas segundo a qual Jesus estaria convencido da Sua próxima vinda gloriosa e do fim do mundo. Tal interpretação contradiz abertamente muitos outros passos do Evangelho e do Novo Testamento. É evidente que com “Filho do Homem” Jesus Se designa a Si próprio, e que anuncia uma manifestação da Sua glória. A interpretação mais razoável é que aqui Jesus alude, em primeiro lugar, à situação histórica da primeira guerra judaica contra Roma, que acabou com a total destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70, e que causou a dispersão do povo Hebreu. Mas este acontecimento, que teria lugar poucos anos depois da morte de Jesus, é uma imagem ou figura profética do fim dos tempos.

A vinda gloriosa de Cristo terá lugar em data que Deus não revelou. A incerteza do fim dos tempos é um incentivo para a vigilância do cristão e da Igreja.

Dia 11 de julho

Mt 10, 24-33

24O discípulo não é superior ao mestre, nem o servo, superior ao senhor. 25Basta ao discípulo que seja como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor. Se ao Pai de família chamaram Belzebu, quanto mais aos de sua casa! 26Portanto, não tenhais medo deles, porque não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto, que não venha a saber-se. 27O que vos digo nas trevas, dizei-o vós à luz e o que ouvis em segredo, apregoai-o sobre os terraços. 28Não temais os que matam o corpo e que não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode deitar a perder a alma e o corpo na Geena. 29Não se vendem dois pardais por um asse? E, contudo, nem um deles cairá em terra sem permissão do vosso Pai. 30Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. 31Por isso, não temais, que mais valeis vós do que muitos pardais. 32A todo aquele, pois, que Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de Meu Pai, que está nos Céus, 33mas a quem Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de Meu Pai que está nos Céus.

Comentário

24-25. Com dois provérbios Jesus insinua a sorte futura dos discípulos: a sua maior glória será imitar o Mestre, identificar-se com Ele, ainda que isto os leve a ser desprezados e perseguidos como antes o foi o seu Senhor; o exemplo do Mestre é o único que ilumina e guia o comportamento do cristão, pois Ele disse de Si mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Ioh 14,6).

Belzebu ou Beelzebul (Lc 11,15) era o nome do ídolo da antiga cidade filisteia de Acaron. Os judeus denominaram a seguir com este nome depreciativamente o demónio ou o príncipe dos demónios (cfr Mt 12, 24), e o ódio que tinham a Jesus Cristo levou-os ao extremo de denominá-Lo da mesma forma.

Diante das perseguições e incompreensões a que iam estar submetidos os cristãos (Ioh 15, 18), Jesus Cristo anima-os dando-lhes a Sua intimidade. No fim da Sua vida chamar-lhes-á carinhosamente amigos (Ioh 15, 15) e filhos (Ioh 13, 33).

26-27. Jesus Cristo manda aos Seus discípulos que não tenham medo das calúnias ou murmurações. Virá um dia em que chegue ao conhecimento de todos quem é cada um, as suas verdadeiras intenções e a disposição exacta da sua alma. Entretanto, os que são de Deus podem ser apresentados como se não o fossem por aqueles que, por paixão ou por malícia, utilizam a mentira. Esse é o segredo que chegará a saber-se.

Junto a estas recomendações, Cristo manda também que os Apóstolos falem com clareza, abertamente. Por razões de pedagogia divina, Jesus tinha falado às multidões em parábolas e tinha-lhes descoberto gradualmente a Sua verdadeira personalidade. Os Apóstolos, depois da vinda do Espírito Santo (cfr Act l, 8), hão-de pregar às claras, desde os terraços, o que Jesus lhes foi dando a conhecer.

A nós toca-nos hoje também continuar a manifestar sem ambiguidades toda a doutrina de Cristo, sem nos deixarmos levar por falsas prudências humanas ou por medo das consequências.

28. A Igreja, apoiada neste e em muitos outros passos do Evangelho (Mt 5, 22.29; 18,9; Mc 9,43.45.47; Lc 12, 5), ensina com clareza que existe o inferno, onde recebem castigo eterno as almas que morrem em pecado grave (cfr Catecismo Romano, I, 6, 3). Ali os condenados sofrem as penas de dano e de sentido eternamente, de um modo que nós ignoramos nesta vida (cfr O Livro da vida, cap. 32 – de Santa Teresa de Jesus).

Por isso o Senhor previne os Seus discípulos contra o falso medo. Não há por que temer os que somente podem tirar a vida do corpo. Só Deus é quem tem poder de lançar alma e corpo no inferno. Por isso o verdadeiro temor e respeito devemo-lo a Deus, que é o nosso Príncipe e Juiz Supremo, e não aos homens. Os mártires são os que melhor viveram este preceito do Senhor; sabiam que a vida eterna valia muito mais que a vida terrena.

29-31. O “asse” era uma pequena moeda de ínfimo valor. Cristo emprega esta imagem para ilustrar o imenso carinho que Deus tem à Sua criatura. Como diz São Jerónimo (Comm. in Matth., 10, 29-31): “Se os passarinhos, que são de tão vil preço, não deixam de estar sob a providência e cuidado de Deus, como é que vós, que pela natureza da vossa alma sois eternos, podereis temer que não vos olhe com particular cuidado Aquele a quem respeitais como vosso Pai?” De novo Jesus Cristo ensina a paternal Providência de Deus, da qual falou extensamente no Sermão da Montanha (cfr Mt 6,19-34).

32-33. Com estas palavras Jesus está a ensinar-nos que a confissão pública da fé n’Ele – com todas as suas consequências – é condição indispensável para a salvação eterna. Cristo receberá no Céu, depois do Juízo, os que deram testemunho da sua fé, e condenará os que cobardemente se envergonharam d’Ele (cfr Mt 7, 23; 25, 41; Apc 21, 8). Sob o nome de “confessores” a Igreja honra os santos que, sem terem sofrido o martírio de sangue, com a sua vida deram testemunho da fé católica. Embora todo o cristão deva estar disposto para o martírio, a vocação cristã ordinária é a de ser confessores da fé.

Dia 12 de julho

Mc 6, 7-13

7Depois chamou a Si os doze e foi-os enviando dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos imundos 8e recomendando-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um simples bordão, nem pão, nem alforge, nem cobres no cinto. 9Calçai sandá­lias, muito embora, mas não vistais duas túnicas. 10E dizia-lhes: Hospedai-vos na casa em que primeiro entrardes e ficai aí até partirdes. 11E, se em algum lugar vos não receberem nem ouvirem, ao sairdes de lá, sacudi o pó que se vos pegou aos pés, em testemunho contra eles. 12Partiram, pois, e pregaram que fizessem penitência; 13expulsavam muitos Demônios e ungiam com azeite muitos enfermos e curavam-nos.

Comentário

8-9. Jesus Cristo exige estar livre de qualquer espécie de ataduras no momento de pregar o Evangelho. O discípulo, que tem o encargo de levar o Reino de Deus às almas mediante a pregação, não deve pôr a sua confiança nos meios humanos, mas na Providência de Deus. Aquilo de que há-de necessitar para viver dignamente como arauto do Evangelho deverá ser procurado pelos próprios beneficiários da pre­gação, pois o operário é digno de sustento (cfr Mt 10, 10).

« Tanta deve ser a confiança em Deus daquele que prega que há-de estar seguro de que não lhe faltará o necessário para viver, ainda que ele o não possa procurar; visto que não se deve ocupar menos das coisas eternas, por se ocupar das temporais» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.). «Daqui se deduz que o Senhor não diz neste preceito que os anunciadores do Evangelho não podem viver de outro modo que do que lhes dêem aqueles a quem o anunciam, mas que lhes dá poder de agir assim, fazendo-lhes saber que têm direito a isso; de outra maneira, o Apóstolo (São Paulo) teria agido contra este preceito, ao querer viver do trabalho das suas mãos» (De consensu Evangelistarum, II, 30).

13. São Marcos é o único Evangelista que fala de uma unção com azeite aos doentes. O azeite utilizava-se freqüen­temente para curar as feridas — cfr Is l, 6; Lc 10, 34 —, e os Apóstolos empregam-no também para curar miraculosamente as doenças corporais, segundo o poder que Jesus lhes conferiu. Daí o uso do azeite como matéria do sacramento da Unção dos Doentes, que cura as feridas da alma e inclusivamente as do corpo, se convém. Como ensina o Concilio de Trento — Doctrina de sacramento extremae unctionis, cap. l —, há que ver «insinuado» neste versículo de São Marcos o sacramento da Unção dos Doentes, que será instituído pelo Senhor, e mais tarde «recomendado e promulgado aos fiéis pelo Apóstolo São Tiago» (cfr lac 5,14 e ss.).

Recent Posts
Fale conosco

Escreva aqui sua mensagem que responderemos o mais breve possível. Obrigado!

Start typing and press Enter to search