dia 5 a 11 de outubro de 2009

Dia 5 de outubro

Lc 10, 25-37

25Nisto, levantou-se um legista com esta pergunta, para O experimentar: Mestre, que hei-de fazer para herdar a vida eterna? 26Disse-lhe Jesus: Que está escrito na Lei? Como é que lês? 27Ele disse-Lhe, em resposta: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda a tua mente, e ao teu próximo, como a ti mesmo. 28Disse-lhe Jesus: Respondeste bem: faz isso e viverás. 29Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

30Jesus, tomando-lhe a palavra, respondeu: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em poder dos salteadores, os quais, depois de o despojarem e espancarem, se foram, deixando-o meio morto. 31Ora, por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote, que, ao vê-lo, passou do lado oposto. 32Do mesmo modo, também um levita, que veio por aquele lugar, ao vê-lo, passou do lado oposto. 33Mas um samaritano, que ia de viagem, veio por junto dele e, quando o viu, encheu-se de compaixão. 34Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando azeite e vinho, e, depois de o erguer para cima da própria montada, levou-o para uma estalagem e prestou-lhe assistência. 35No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro e disse: “Presta-lhe assistência, e o que dispenderes a mais eu to pagarei, quando voltar”. 36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu em poder dos salteadores? 37Ele respondeu: O que usou de compaixão para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai e faz tu também do mesmo modo.

Comentário

25-28. O Senhor ensina que o caminho para conseguir a vida eterna consiste no cumprimento fiel da Lei de Deus. Os Dez Mandamentos, que Deus entregou a Moisés no monte Sinai (Ex 20,1-17), são a expressão concreta e clara da Lei natural. Faz parte da doutrina cristã a existência da Lei natural, que é a participação da Lei eterna na criatura racional, e que foi impressa na consciência de cada homem ao ser criado por Deus (cfr Libertas praestantissimum – do Papa Leão XIII) É evidente, portanto, que a Lei natural, expressada nos Dez Mandamentos, não pode mudar, nem passar de moda, já que não depende da vontade do homem nem das circunstâncias, mutáveis dos tempos.

Neste passo Jesus louva e aceita o resumo da Lei que faz o escriba judeu. A resposta é tirada do Deuteronómio (6, 4 ss.) e era uma oração que os judeus repetiam com freqüência. Esta mesma resposta dá o Senhor quando Lhe perguntam qual é o mandamento principal da Lei, para terminar dizendo: “Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,40), (cfr também Rom 13,8-9; Gal 5,14).

Há uma hierarquia e uma ordem nestes dois mandamentos que constituem o duplo preceito da caridade: antes de mais e sobretudo amar a Deus por Si mesmo; em segundo lugar, e como consequência do anterior, amar o próximo, porque essa é a vontade explícita de Deus (l Ioh 4,21).

Neste passo do Evangelho encerra-se também outro ensinamento fundamental: a Lei de Deus não é algo negativo, “não fazer”, mas algo claramente positivo, é amor; a santidade, a que todos os baptizados estão chamados, não consiste tanto em não pecar, mas em amar, em fazer coisas positivas, em dar frutos de amor de Deus. Quando o Senhor nos descreve o Juízo Final realça esse aspecto positivo da Lei de Deus (Mt 25,31-46). O prémio da vida eterna será concedido aos que fizeram o bem.

27. “Sem dúvida, a nossa única ocupação aqui na terra é a de amar a Deus: ou seja, começar a praticar o que faremos durante toda a eternidade. Por que temos de amar a Deus? Porque a nossa felicidade consiste, e não pode consistir noutra coisa, no amor de Deus. De maneira que se não amamos a Deus, seremos constantemente infelizes; e se queremos desfrutar de alguma consolação e de alguma suavidade nas nossas penas, somente o conseguiremos recorrendo ao amor de Deus. Se quereis convencer-vos disso, ide buscar o homem mais feliz segundo o mundo; se não ama a Deus, vereis como na realidade não deixa de ser um grande desgraçado. E, pelo contrário, se vos encontrais com o homem mais infeliz aos olhos do mundo, vereis como, amando a Deus, é ditoso em todos os conceitos. Meu Deus! Abri-nos os olhos da alma, e assim buscaremos a nossa felicidade onde realmente podemos achá-la!” (Sermões escolhidos, 12º Domingo depois de Pentecostes – de São João B. Maria Vianney, o Cura d’Ars)

29-37. Nesta comovente parábola, que apenas São Lucas recolhe, o Senhor dá uma explicação concreta de quem é o próximo e de como há que viver a caridade com ele, ainda que seja nosso inimigo.

Santo Agostinho, seguindo outros Santos Padres (De verb. Dom. serm., 37), identifica o Senhor com o bom samaritano, e o homem assaltado pelos ladrões com Adão, origem e figura de toda a humanidade caída. Levado por essa compaixão e misericórdia, desce à terra para curar as chagas do homem, fazendo-as suas próprias (Is 53,4; Mt 8,17; 1 Pet 2,24; 1 Ioh 3,5). Assim, em mais de uma ocasião, vemos como Jesus Se compadece e Se comove diante do sofrimento do homem (cfr Mt 9,36; Mc 1,41; Lc 7,13). Com efeito, diz São João: “Nisto se demonstrou o amor de Deus para connosco, em que enviou o Seu Filho Unigénito ao mundo para que por Ele tenhamos a vida. E nisto consiste o Seu amor, que não é porque nós tenhamos amado a Deus, mas porque Ele nos amou primeiro a nós, e enviou o Seu Filho para ser vítima de propiciação pelos nossos pecados. Queridos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 Ioh 4,9-11).

Esta parábola deixa claro quem é o nosso próximo: quem quer que esteja perto de nós – sem distinção alguma de raça, de amizade, etc. – e necessite da nossa ajuda. De igual modo fica claro como há que amar o próximo: tendo misericórdia com ele, compadecendo-nos da sua necessidade espiritual ou corporal; e esta disposição tem de ser eficaz, concreta, deve manifestar-se em obras de entrega e de serviço, não pode ficar apenas em sentimento.

Essa mesma compaixão e amor de Jesus Cristo temos de sentir nós, os cristãos, que devemos ser discípulos Seus, para não passar nunca do lado oposto perante as necessidades alheias. Uma concretização do amor ao próximo está plasmada nas Obras de Misericórdia, que se chamam assim porque não são devidas por justiça. São catorze, sete espirituais e sete corporais. As espirituais abarcam: ensinar a quem não sabe, dar bom conselho a quem dele tenha necessidade, corrigir a quem erra, perdoar as injúrias, consolar o triste, sofrer com paciência as adversidades e as fraquezas do próximo, e rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos. As corporais são: visitar os doentes, dar de comer no faminto, dar de beber ao que tem sede, redimir o cativo, vestir o nu, dar pousada ao peregrino, e enterrar os mortos.

31-32. É muito provável que Nosso Senhor tenha corrigido também com esta parábola uma das deformações e exageros a que tinha chegado a falsa piedade judaica entre os Seus contemporâneos. Segundo a Lei de Moisés, o contato com os cadáveres fazia contrair a impureza legal, que se reparava com diversas abluções ou lavagens (cfr Num 19, 11-22; Lev 21,1-4,11-12). Essas disposições não estavam dadas para impedir o auxílio aos feridos ou doentes, mas para outros fins secundários higiénicos e de respeito aos cadáveres. A aberração no caso do sacerdote e do levita da parábola consistiu em que, diante da dúvida de se o homem assaltado pelos ladrões estava morto ou não, antepuseram uma má interpretação de um preceito secundário e ritual da Lei, perante o mandamento mais importante: o amor ao próximo e a ajuda que lhe deve ser prestada.

Dia 6 de outubro

Lc 10, 38-42

38Quando iam no caminho, entrou Jesus em certa povoação. E uma mulher, por nome Marta, recebeu-O em sua casa. 39Tinha esta uma irmã, chamada Maria, a qual, depois de se sentar aos pés do Senhor, se pôs a ouvir a Sua palavra. 40Quanto a Marta, andava atarefada com muito serviço. Estacou então e disse: Senhor, não se Te dá que minha irmã mo tenha deixado só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar. 41Volveu-lhe o Senhor, em resposta: Marta, Marta, andas inquieta e agitada com muita coisa, 42quando uma só é necessária. Maria escolheu, de facto, a melhor parte, que lhe não será tirada.

Comentário

38-42. O Senhor ia para Jerusalém (Lc 9,51), e uns três quilómetros antes passou por Betânia, a aldeia de Lázaro, Marta e Maria, três irmãos aos quais o Senhor amava entranhavelmente, como se vê noutros lugares do Evangelho (cfr Ioh 11,1-45; 12,1-9). O diálogo de Jesus com Marta tem um tom familiar cheio de confiança, que nos faz pensar na grande amizade do Senhor com os três irmãos.

Santo Agostinho comenta esta cena da seguinte maneira: “Murta ocupava-se em muitas coisas, dispondo e preparando a refeição do Senhor. Pelo contrário, Maria preferiu alimentar-se do que dizia o Senhor. Não reparou de certo modo na agitação contínua de sua irmã e sentou-se aos pés de Jesus, sem fazer outra coisa senão escutar as Suas palavras. Tinha compreendido de forma fidelíssima o que diz o Salmo: ‘Descansai e vede que Eu sou o Senhor’ (Ps 46,11). Marta consumia-se, Maria alimentava-se; aquela abarcava muitas coisas, esta só atendia a uma. Ambas as coisas são boas” (Sermo 103).

Marta veio a ser como o símbolo da vida activa, enquanto Maria o é da vida contemplativa. Não obstante, para a maioria dos cristãos, chamados a santificar-se no meio do mundo, não se podem considerar como dois modos contrapostos de viver o cristianismo: uma vida activa que se esqueça da união com Deus é algo inútil e estéril; mas uma suposta vida de oração que prescinda da preocupação apostólica e da santificação das realidades ordinárias também não pode agradar a Deus. A chave está, pois, em saber unir essas duas vidas, sem prejuízo nem de uma nem da outra. Esta união profunda entre acção e contemplação pode viver-se de modos muito diversos, segundo a vocação concreta que cada um recebe de Deus.

O trabalho, longe de ser obstáculo, há-de ser meio e ocasião de uma intimidade afectuosa com Nosso Senhor, que é o mais importante.

O cristão corrente, seguindo este ensinamento do Senhor, deve esforçar-se por conseguir a unidade de vida: vida de piedade intensa e actividade exterior orientada para Deus, feita por amor a Ele e com rectidão de intenção, que se manifestará no apostolado, na tarefa profissional, nos deveres de estado. “Deveis compreender agora -com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares, da vida humana. Deus espera-vos: no laboratório, na sala de operações, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar, e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a sabê-lo: escondido nas situações mais comuns, há algo de santo, de divino, que vos toca a cada um de vós descobrir (…). Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida corrente, ou nunca O encontraremos. Por isso vos posso dizer que a nossa época precisa de restituir à matéria e às situações que parecem mais vulgares o seu nobre e original sentido, colocá-las ao serviço do Reino de Deus, espiritualizá-las fazendo delas o meio e a ocasião do nosso encontro contínuo com Jesus Cristo” (Questões Atuais do Cristianismo, n.° 114).

Dia 7 de outubro

Lc 1, 26-38

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, chamado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se e ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 31Hás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu reinado não terá fim.

34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, “enriquecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc l ,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens” (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 7,14; Mt 1,22-23). Deus, “desde toda a eternidade, escolheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência” (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus “engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade” (Catecismo Romano, I,4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: “Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encarnado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo” (Credo do Povo de Deus, n° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. “Salve!”: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

“Cheia de graça”: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja “ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo”, pelo que “jamais esteve sujeita a maldição”, isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n° 14).

“O Senhor está contigo”: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase “o Senhor está contigo” pondo na boca do arcanjo estas palavras: “Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no eu ventre, enche a tua alma, está no teu seio” (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: “Bendita tu entre as mulheres”: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranqüiliza e Lhe diz “não temas, Maria”, está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação divina. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaías que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1,22-23; Is 7,14).

Revela-se que o Menino será “grande”: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino “não terá fim”: porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que “chamar-se-á Filho do Altíssimo”: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhecido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas profecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: “Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?‘, perguntava Ela ao anjo da Anunciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…).

A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que há no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…).

Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes que permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…).

Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ou por alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz” (Homilia Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem “como será isso” exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para conservar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certamente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, “atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Príncipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio” (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adquirirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A “sombra” é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40,34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei, uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35).

No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus – que, segundo o relato do Gênesis (1,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas – desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Angelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser – Mãe de Deus – e o que é – uma mulher -. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronunciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: “Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra”.

“Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne” (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das puríssimas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, “eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe” (Ioh 19,26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, “com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus” (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza (“não conheço homem”); de humildade (“eis a escrava do Senhor”); de candura e simplicidade (“como será isso”); de obediência e de fé viva (“seja-me feito segundo a tua palavra”). “Procuremos aprender, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obedecem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc I, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom VIII, 21)” (Cristo que passa, n° 173).

Dia 8 de outubro

Lc 11, 5-13

5Disse-lhes ainda: Se algum de vós tiver um amigo, e for ter com ele à meia-noite e lhe disser: “amigo, empresta-me três pães, 6pois me chegou de viagem um amigo meu e não tenho que lhe dar”, 7e se ele disser, em resposta, lá de dentro: “não me incomodes, a porta já está fechada e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para tos dar”. 8Eu vos digo: Ainda que se não levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á quanto precisa.

9Também Eu vos digo a vós: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. 10Pois todo aquele que pede recebe, quem procura encontra e ao que bate abrir-se-á. 11E, se a algum de vós que seja pai, o filho pedir pão, dar-lhe-á uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, em vez dum peixe, dar-lhe-á uma serpente? 12Ou ainda, se pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? 13Se vós, portanto, maus como sois, sabeis oferecer boas dádivas a vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedirem!

Comentário

5-10. Uma das notas essenciais da oração há-de ser a constância confiada no pedir. Através deste simples exemplo e de outros parecidos (cfr Lc 18,1-7) o Senhor anima-nos a não decair na nossa petição constante a Deus. “Persevera na oração. – Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril – A oração é sempre fecunda” (Caminho, n.° 101),

9-10. “Vedes a eficácia da oração quando se faz nas devidas condições? Não estareis de acordo comigo em que, se não alcançamos o que pedimos a Deus, é porque não oramos com fé, com o coração bastante puro, com uma confiança bastante grande, ou porque não perseveramos na oração como deveríamos? Deus nunca negou nem negará nada aos que Lhe pedem as Suas graças devidamente. A oração é o grande recurso que nos resta para sair do pecado, perseverar na graça, mover o coração de Deus e atrair sobre nós toda a sorte de bênçãos do céu, quer para a alma, quer pelo que respeita às nossas necessidades temporais” (Sermões escolhidos, Quinto Domingo depois de Páscoa – São João B. Maria Vianney).

11-13. A paternidade humana que o homem tem diante dos olhos serve ao Senhor como ponto de comparação para voltar a ensinar-nos a realidade gozosa de que Deus é nosso Pai, porque a verdade é que a paternidade de Deus é a fonte de toda a paternidade nos Céus e na terra (cfr Eph 3,15). “O Deus da nossa fé não é um ser longínquo, que contempla com indiferença a sorte dos homens, os seus afãs, as suas lutas, as suas angústias. É um pai que ama os Seus filhos até ao ponto de enviar o Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a fim de, com a sua encarnação, morrer por nós e nos redimir. É ele ainda o mesmo Pai amoroso que agora nos atrai suavemente para Si, mediante a acção do Espírito Santo que habita nos nossos corações” (Cristo que passa, nº 84).

13. O Espírito Santo é o dom supremo de Deus, a grande promessa que Cristo faz aos discípulos (cfr Ioh 15,26), o fogo divino que desce sobre os Apóstolos no Pentecostes e os enche de fortaleza e liberdade para proclamar a mensagem de Cristo (cfr Act 2). “Eu rogarei ao Pai – anunciou o Senhor aos Seus discípulos – e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco eternamente (Ioh 14,16). Jesus cumpriu as Suas promessas: ressuscitou, subiu aos Céus e, em união com o Eterno Pai, envia-nos o Espírito Santo para nos santificar e nos dar a vida” (Cristo que passa, n.° 128).

Dia 9 de outubro

Lc 11, 15-26

15Disseram, porém, alguns dentre eles: É por Belzebu, Príncipe dos Demônios, que Ele expulsa os Demônios. 16Outros, para O experimentarem, solicitavam da Sua parte um sinal do céu. 17Mas Ele, que conhecia os pensamentos deles, disse-lhes: Todo o reino que se dividiu contra si mesmo ficará devastado, caindo casa sobre casa. 18Então, se Satanás, também, se dividiu contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que por Belzebu é que Eu expulso os Demônios!… 19Mas se Eu expulso os Demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso é que eles mesmos serão vossos juizes! 20Mas, se Eu expulso os Demônios pelo dedo de Deus, é que chegou até vós o Reino de Deus.

21Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, estão em segurança os seus haveres. 22Mas, quando surge um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe o equipamento em que estava confiado e distribui-lhe os despojos.

23Quem não está comigo é contra Mim, e quem não junta comigo dispersa.

24Quando o espírito impuro sai do homem, anda a vaguear por sítios áridos, em busca de repouso. Como o não encontra, diz: “Voltarei para minha casa, donde saí”. 25E, quando chega, encontra-a varrida e arrumada. 26Vai então e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele; e, entrando, ali se instalam. E, o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro.

Comentário

14-23. A obstinação dos inimigos de Jesus não cede nem diante da evidência do milagre. Uma vez que não podem negar o valor extraordinário do facto, atribuem-no a artes demoníacas, com o intento de negar que Jesus é o Messias. O Senhor replica-lhes com um raciocínio que não admite escapatória: as expulsões de demônios que faz são provas evidentes de que com Ele chegou o Reino de Deus. O Concilio Vaticano II recordou de novo esta verdade: “O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras (…). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: “Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus (Lc 11,20; cfr Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se sobretudo na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos (Mc 10,45)” (Lumen gentium, n° 5).

O forte e bem armado é o demônio (v. 21), que com o seu poder tinha escravizado o homem; mas Jesus Cristo, mais forte que ele, veio, venceu-o e está a desalojá-lo de onde se tinha assenhoreado. São Paulo dirá que Cristo “despojou os principados e as potestades, triunfando publicamente sobre eles”(Col 2,15).

Depois da vitória de Cristo, o “mais forte”, as palavras do v. 23 são uma séria advertência aos que O escutavam, e a toda a humanidade: ainda que o não queiram reconhecer Jesus Cristo venceu, e doravante não é admissível a neutralidade diante da Sua causa: quem não estiver com Ele, está contra Ele.

18. O argumento de Cristo é claro. Um dos maiores males que podem sobrevir à Igreja é precisamente a divisão entre os cristãos, a desunião dos crentes. Temos de fazer nossa a oração de Jesus: “Que todos sejam um; como Tu, Pai, em Mim e Eu em Ti, que assim eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Ioh 17,21).

24-26. O Senhor descobre-nos como o demônio não descansa na sua luta contra o homem; uma vez rejeitado pela graça de Deus, de novo lança as suas ciladas e ataques. Conhecedor de tudo isto, São Pedro recomenda-nos viver com sobriedade e estar vigilantes, “porque o vosso inimigo o diabo dá voltas ao redor de vós como um leão rugidor buscando a quem devorar: resisti-lhe fortes na fé” (1 Pet 5,8-9).

Além disso, Jesus põe-nos de sobreaviso contra uma nova derrota às mãos de Satanás, advertindo-nos de que essa nova situação seria ainda pior que a primeira. Com razão diz o adágio latino que “corruptio optimi, pessima” (a corrupção do melhor é a pior). Também São Pedro, com palavra inspirada, recrimina os cristãos corrompidos, que, com grave e expressiva frase, compara ao “cão que voltou ao seu vômito e à porca que apenas lavada, se revolve na lama” (2 Pet 2,22).

Dia 10 de outubro

Lc 11, 27-28

27Enquanto Ele estava a dizer estas coisas, ergueu a voz uma mulher, do meio da multidão, e disse-Lhe: Felizes as entranhas que Te trouxeram e os peitos a que foste amamentado. 28Ele, porém, retorquiu: Felizes antes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.

Comentário

27-28. Estas palavras são a proclamação da atitude fundamental da alma da Virgem Maria. Assim o expõe o Concílio Vaticano II: “Durante a pregação de Seu Filho, (Maria) acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr Mc 3,35; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr Lc 2,19.51)” (Lumen gentium, n. 58). Portanto, com esta resposta Jesus não rejeita o inflamado galanteio que essa boa mulher dedica a Sua Mãe, mas aceita-o e vai mais além, explicando que Maria Santíssima é bem-aventurada sobretudo por ter sido boa e fiel no cumprimento da palavra de Deus.

“Era o elogio de Sua Mãe, do seu fiat (Lc I,38), do faça-se, sincero, entregue, cumprido até às últimas consequências, que não se manifestou em acções aparatosas, mas no sacrifício escondido e silencioso de cada dia” (Cristo que passa, n° 172).

Dia 11 de outubro

Mc 10, 17-30

17Ao sair para Se pôr a caminho, correu a Ele um que, de joelhos, Lhe perguntou: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? 18Respondeu-lhe Jesus: Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. 19Sabes os mandamentos: Não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falsos testemunhos, não defraudar, honrar pai e mãe.

20Mas ele respondeu-Lhe: Mestre, tudo isso tenho eu observado desde a minha mocidade.21Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: Uma só coisa te falta. Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me, tomando a cruz. 22Ouvindo ele estas palavras, anuviou-se-lhe o rosto e afastou-se triste, porque tinha muitos haveres. 23Então Jesus, volvendo em torno o olhar, disse aos discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas! 24Ficaram os discípulos pasmados com as Suas palavras. Mas Jesus tornou a repetir: Meus filhos, como é difícil entrarem no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus! 26Eles mais assombrados ficaram e diziam uns para os outros: Então quem se pode salvar? 27Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível. 28Começou Pedro a dizer-Lhe: Nós deixámos tudo e seguimos-Te. 29E Jesus: Em verdade vos digo que não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por Minha causa e por causa do Evangelho, 30que não receba o cêntuplo já no tempo presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, pais, filhos e campos, juntamente com perseguições, e no século futuro a vida eterna.

Comentário

17-18. O jovem – assim o especifica Mt 19,16 – recorre a Jesus como a um mestre autorizado na vida espiritual, com a esperança de que o guie para a vida eterna. Não é que Jesus Cristo rejeite o louvor de que é objeto, mas explica a causa profunda dessas palavras do jovem: Ele é bom, não como o é um homem bom, mas por ser Deus, que é a própria bondade. Portanto, o moço disse uma verdade, mas uma verdade a meias. Aí está o enigmático da resposta de Jesus e a sua profundidade absoluta. Jesus trata, portanto, de fazer remontar o jovem desde urna consideração honesta, mas humana, a uma visão inteiramente sobrenatural. Para que este homem consiga realmente a vida eterna tem de ver em Jesus Cristo, não só um bom mestre, mas o Salvador divino, o único Mestre, o único que, como Deus, é a própria Bondade.

19. O Senhor não veio abolir a Lei, mas dar-lhe plenitude (Mt 5,17). Os mandamentos são o núcleo fundamental da Lei. O cumprimento destes preceitos é necessário para alcançar a vida eterna. Cristo dá plenitude a estes mandamentos num duplo sentido. Primeiro, porque nos ajuda a descobrir todas as exigências que estes têm na vida dos homens. A luz da revelação leva-nos ao conhecimento fácil e seguro dos preceitos do Decálogo, que a razão humana pelas suas próprias forças muito dificilmente conseguiria alcançar. Em segundo lugar, a sua graça põe em nós a fortaleza para fazer frente à inclinação má que é fruto do pecado original. Os mandamentos conservam, pois, na vida cristã toda a sua vigência e são como os marcos que assinalam o caminho que conduz ao Céu.

28-30. Jesus Cristo exige a virtude da pobreza a todo o cristão; também exige a austeridade real e efectiva na posse e’ uso dos bens materiais. Mas aos que receberam um chamamento específico para o apostolado – como é aqui o caso dos Doze -, exige um desprendimento absoluto de bens, riquezas, tempo, família, etc., em razão da sua disponibilidade para o serviço apostólico, à imitação de Jesus Cristo que, sendo o Senhor de todo o universo, Se fez pobre até não ter onde reclinar a cabeça (cfr Mt 8,20). A entrega de todos esses bens pelo Reino dos Céus, traz consigo a libertação do peso deles: é como o soldado que se despoja de um impedimento ao entrar em combate para estar mais ágil de movimentos. Isto produz um certo domínio sobre todas as coisas: já se não é escravo delas e experimenta-se aquela sensação a que aludia São Paulo: “como nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Cor 6,10). O cristão que dessa maneira se despojou do egoísmo, adquiriu a caridade, e com ela todas as coisas são suas: “Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo de Deus” (l Cor 3,22-23).

Todavia, o prêmio de tudo pôr em Cristo, não será recebido plenamente só na vida eterna, mas já nesta vida. Jesus Cristo fala de uma maneira simples do cem por um, que já receberá aqui quem abandone generosamente as suas coisas.

O Senhor acrescenta “com perseguições” (v. 30), porque estas também são recompensa da fé com que abandonamos as coisas por amor de Jesus Cristo; pois a glória de um cristão é a de se conformar com a imagem do Filho de Deus, tomando parte na Sua Cruz para participar depois da Sua glória: “Desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados” (Rom 8,17); “porque todos os que querem viver com piedade em Cristo Jesus terão de sofrer perseguições” (2 Tim 3,12).

29. Estas palavras do Senhor cumprem-se especialmente naqueles que por vocação divina abraçam o celibato, renunciando a constituir uma família na terra. Jesus, ao dizer “por Minha causa e por causa do Evangelho”, está a indicar que o Seu exemplo e as exigências da Sua doutrina dão pleno sentido a este modo de vida: “E, pois, o mistério da novidade de Cristo, de tudo o que Ele é e significa; é a suma dos mais altos ideais do Evangelho e do Reino; é uma manifestação especial da graça que brota do mistério pascal do Redentor, que torna desejável e digna a escolha da virgindade por parte dos chamados pelo Senhor Jesus, com a intenção não só de participar do Seu ofício sacerdotal, mas também de compartilhar com Ele o Seu próprio estado de vida” (Sacerdotalis caelibatus, n. 23).