In Evangelho do dia

Dia 4 de maio

Jo 10, 1-10

1Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra pela porta no recinto das ovelhas, mas sobe por outro lado, esse é ladrão e salteador. 2Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3É a esse que o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelos nomes e leva-as para fora. 4Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, põe-se a caminho à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque lhe conhecem a voz. 5A um estranho, porém, não o seguirão, mas hão-de fugir dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.

6Tal foi o paralelo que Jesus lhes expôs. Eles, porém, não entenderam o que lhes estava a dizer.

7Jesus continuou: Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. 8Todos quantos vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. 9Eu sou a porta. Se alguém entrar por Mim, estará salvo; há-de entrar e sair, e achará pastagem. 10O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para terem a vida e a terem abundantemente.

Comentário

1-18. A imagem do Bom Pastor evoca um tema preferido da pregação profética no Antigo Testamento: o povo escolhido é chamado o rebanho, e Yahwéh é seu pastor (cfr Ps 23). O nome de pastores aplicava-se também aos reis e aos sacerdotes. Jeremias dirige uma dura ameaça a estes pastores que deixam que se percam as ovelhas, e promete em nome de Deus novos pastores que de verdade apascentem as ovelhas de modo que nunca mais sejam angustiadas nem afligidas (cfr 23,1-6; cfr também 2,8; 3,15; 10,21; Is 40,1-11). Ezequiel censura os pastores pelos seus delitos e pela sua preguiça, pela avidez e pelo esquecimento dos seus próprios deveres: Yahwéh tirar-lhes-á o rebanho e Ele mesmo cuidará das Suas ovelhas. Mais ainda: suscitará um Pastor único, descendente de David, que as apascentará, e estarão seguras (Ez 34). Jesus apresenta-Se como esse Bom Pastor que cuida das Suas ovelhas, busca a extraviada, cura a ferida e carrega aos ombros a extenuada (cfr Mt 18,12-14; Lc 15,4-7), cumprindo-se n’Ele as antigas profecias.

A arte cristã inspirou-se cedo nesta figura comovente do Bom Pastor e deixou assim representado o amor de Cristo por cada um de nós.

Além do título de Bom Pastor, Cristo aplica-Se a Si mesmo a imagem da porta pela qual se entra no aprisco das ovelhas que é a Igreja. “A Igreja – ensina o Concilio Vaticano II – é o redil, cuja única porta e necessário pastor é Cristo (cfr Ioh 10,1-10). É também o rebanho do qual o próprio Deus predisse que seria o pastor (cfr Is 40,11; Ez 34,11-15), e cujas ovelhas, ainda que governadas por pastores humanos, são contudo guiadas e alimentadas sem cessar pelo próprio Cristo, bom pastor e príncipe dos pastores (cfr Ioh 10,11; 1 Pet 5,4), o qual deu a vida pelas Suas ovelhas (cfr Ioh 10,11-15)” (Lumen gentium, n. 6).

1-2. Pode prejudicar-se o rebanho caladamente e às escondidas, ou então de forma descarada e com abuso de poder. Os inimigos do rebanho de Cristo – assim o atesta a História da Igreja – empregaram ambos os sistemas: umas vezes introduzem-se no redil ocultando-se para fazer mal a partir de dentro; outras fazem-no de fora, aberta e violentamente. “Quem é o bom pastor? O que entra pela porta da fidelidade à doutrina da Igreja; o que não se comporta como um mercenário, que, ao ver vir o lobo, deixa as ovelhas e foge; e o lobo arrebata-as e faz dispersar o rebanho” (Cristo que passa, n° 34).

3-5. Naqueles tempos era costume reunir ao escurecer vários rebanhos num mesmo recinto. Ali permaneciam toda a noite sob a custódia de um guarda. Ao amanhecer, cada pastor abria-lhe a porta e chamava as suas ovelhas, que se incorporavam e saiam do aprisco atrás dele; fazia-lhes ouvir freqüentemente a sua voz para que não se perdessem, e caminhava à frente para as conduzir aos pastos. O Senhor faz uso desta imagem, tão familiar aos Seus ouvintes, para lhes mostrar um ensinamento divino: diante de vozes estranhas, é necessário reconhecer a voz de Cristo – actualizada continuamente pelo Magistério da Igreja – e segui-Lo, para encontrar o alimento abundante das nossas almas.

“Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça dos Sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente o caminho. Dispomos de um tesouro infinito de ciência: a Palavra de Deus, guardada pela Igreja; a graça de Cristo, que se administra nos Sacramentos; o testemunho e o exemplo dos que vivem com rectidão ao nosso lado e sabem fazer das suas vidas um caminho de fidelidade a Deus” (Cristo que passa, n° 34).

6. Cristo, com pedagogia divina, desenvolve e interpreta a imagem do pastor e do rebanho, para que todos os homens, se têm boas disposições, possam chegar a entender. Mas os judeus não entenderam o alcance das palavras do Senhor, como aconteceu quando lhes prometeu a Eucaristia (Ioh 6,41-43) ou lhes falou da “água viva” (Ioh 7,40-43), ou por ocasião da ressurreição de Lázaro (Ioh 11,45-46).

7. Depois de ter prefigurado a Igreja como um redil, Jesus desenvolve a comparação e chama-Se a Si mesmo “porta das ovelhas”. No redil entram os pastores e as ovelhas. Tanto uns como outras hão-de entrar pela porta, que é Cristo. “Eu – pregava Santo Agostinho – querendo chegar até vós, isto é, ao vosso coração, prego-vos Cristo: se pregasse outra coisa, quereria entrar por outro lado. Cristo é para mim a porta para entrar em vós: por Cristo entro não nas vossas, casas, mas nos vossos corações. Por Cristo entro gozosamente e escutais-me ao falar d’Ele. Por quê? Porque sois ovelhas de Cristo e fostes compradas com o Seu Sangue” (In Ioann. Evang., 47,2.3).

8. A severa censura que Jesus faz a quantos vieram antes d’Ele não inclui Moisés, nem os profetas (cfr Ioh 5,39.45; 8,56; 12,41), nem o Baptista (cfr Ioh 5,33), porque estes anunciaram o futuro Messias e prepararam-Lhe o caminho. A quem alude é aos falsos profetas e enganadores do povo, entre eles alguns doutores da Lei, cegos e guias de cegos (cfr Mt 23,16-24), que impediam ao povo o acesso a Cristo, como o tinham mostrado pouco antes quando da cura do cego de nascença (cfr Ioh 9).

Dia 5 de maio

Jo 10, 22-30

22Celebrou-se então, em Jerusalém, a festa da Dedicação. Era Inverno, 23e Jesus andava a passear no Templo, no pórtico de Salomão. 24Ora os Judeus rodearam-No e começaram a perguntar-Lhe: Até quando nos trarás em suspenso? Se Tu és o Messias, dize-no-lo abertamente! 25Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não acreditais!… As obras que Eu faço em nome de Meu Pai é que dão testemunho de Mim; 26mas vós não acreditais, porque não sois das Minhas ovelhas. 27As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz; Eu conheço-as, e elas seguem-Me. 28Dou-lhes a vida eterna, e elas não perecerão nunca, nem ninguém as há-de arrebatar da Minha mão. 29Meu Pai, que foi quem Mas deu, é maior do que todos, e ninguém as pode arrebatar da mão de Meu Pai. 30Eu e o Pai somos um só.

Comentário

22. Esta festa comemora um episódio da história de Israel (cfr 1Mach 4,36-59; 2 Mach 1-2,19; 10,1-8). Judas Macabeu, no ano 165 a.C., depois de ter libertado Jerusalém da dominação dos reis da dinastia Selêucida da Síria, purificou o Templo das profanações de Antíoco Epifanes (1 Mach 1,54). Desde então, no dia 25 do mês de Kisleu (Novembro-Dezembro) e durante a semana seguinte, celebrava-se em toda a Judeia o aniversário da dedicação do altar. Costumava chamar-se também “Festa das luzes” porque era costume acender lâmpadas, símbolo da Lei, e pô-las nas janelas das casas (cfr 2 Mach 1,18).

24-25. Quando aqueles judeus perguntaram a Jesus se é o Messias, “falavam assim, comenta Santo Agostinho, não pelo desejo de conhecer a verdade, mas para preparar o caminho da calúnia” (In Ioann. Evang., 48,3). Já noutras ocasiões Jesus Se tinha manifestado com as Suas palavras e com as Suas obras como o Filho Único de Deus (5,19 ss; 7,16 ss.; 8,25 ss.). Também Se tinha dado a conhecer explicitamente como Messias e Salvador à samaritana (4,26) e ao cego de nascença (9,37) diante das boas disposições destes. Agora repreende os Seus interlocutores por resistirem a reconhecer as obras que Ele realiza de parte de Seu Pai (cfr 5,36; 10,38). Outras vezes Jesus Cristo tinha aludido às obras como meio para distinguir os verdadeiros profetas dos falsos: “Pelas suas obras os conhecereis” (Mt 7,16; cfr Mt 12,33).

26-29. É certo que a fé e a vida eterna não se podem merecer só pelas forças naturais do homem: são um dom gratuito de Deus. Mas o Senhor a ninguém nega a Sua graça para crer e para se salvar, porque “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tim 2,4). Ora bem, se alguém põe obstáculos ao dom da fé, é culpável da sua incredulidade. A este propósito ensina São Tomás de Aquino: “Posso ver graças à luz do sol; mas se fecho os olhos, não vejo: isto não é por culpa do sol mas por minha culpa, porque ao fechar os olhos impeço que me chegue a luz solar” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Pelo contrário, os que não opõem resistência à graça divina chegam a crer em Jesus, são conhecidos e amados pelo Senhor, entram sob a Sua protecção e permanecem fiéis ajudados pela Sua graça, penhor da vida eterna que finalmente receberão do Bom Pastor. É verdade que neste mundo terão de lutar e sofrerão feridas; mas se se mantêm unidos ao Bom Pastor ninguém nem nada arrebatará das mãos de Cristo as Suas ovelhas, porque mais forte que o Maligno é o nosso Pai Deus. A esperança de que o Senhor nos concederá a perseverança final baseia-se não nas nossas próprias forças mas na misericórdia divina; tal esperança deve constituir um motivo contínuo de luta para corresponder à graça e ser fiéis cada dia às exigências da nossa fé.

30. Jesus manifesta a identidade substancial entre Ele e o Pai. Antes tinha proclamado Deus como Seu Pai “tornando-Se igual a Deus”; por isto os judeus tinham pensado várias vezes em dar-Lhe morte (cfr 5,18; 8,59). Agora fala acerca do mistério de Deus, que nós os homens só podemos conhecer por revelação. Depois voltará a desvelar esse mistério, sobretudo na Última Ceia (14,10; 17,21-22). O Evangelista já o contempla no começo do Prólogo (cfr Ioh 1,1).

“Escuta – convida-nos Santo Agostinho – o próprio Filho: ‘Eu e o Pai somos um’. Não disse ‘Eu sou o Pai’, nem ‘Eu e o Pai é um mesmo’. Mas na expressão ‘Eu e o Pai somos um’ há que fixar-se nas duas palavras: ‘somos’ e ‘um’ (…). Porque se são um então não são diversos, e se ‘somos’, então há um Pai e um Filho” (In Ioann. Evang., 36,9). Jesus revela a Sua unidade substancial com o Pai quanto à essência ou natureza divina, mas ao mesmo tempo manifesta a distinção pessoal entre o Pai e o Filho. “Cremos, pois, em Deus, que desde toda a eternidade gera o Filho; cremos no Filho, Verbo de Deus, que é gerado desde a eternidade; cremos no Espírito Santo, Pessoa incriada, que procede do Pai e do Filho como Amor sempiterno deles. Assim, nas três Pessoas divinas, que são eternas entre si e iguais entre si, a vida e felicidade de Deus inteiramente uno abundam sobremaneira e consumam-se com excelência máxima e glória própria da Essência incriada; e sempre há que venerar a unidade na Trindade e a Trindade na unidade” (Credo do Povo de Deus, n° 10).

Dia 6 de maio

Jo 12, 44-50

44Jesus ergueu a voz e disse: Quem acredita em Mim não é em Mim que acredita, mas n’Aquele que Me enviou; 45e quem Me vê vê Aquele que Me enviou. 46Eu vim como luz ao mundo, a fim de que todo aquele que acredita em Mim não fique nas trevas. 47Se alguém ouve as Minhas palavras e as não guarda, não sou Eu que o condeno, que Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar. 48Quem Me rejeita e não acolhe as Minhas palavras tem quem o condene. A palavra que eu anunciei é que há-de condená-lo no último dia. 49De facto, Eu não falei por Mim mesmo; foi o Pai, que Me enviou, que Me deu pessoalmente uma ordem sobre o que hei-de dizer e anunciar. 50E Eu sei que a Sua ordem é vida eterna! Portanto, as coisas que digo, digo-as como o Pai Mas disse a Mim.

Comentário

44-50. Com estes versículos termina São João o relato da pregação pública do Senhor. Recopila alguns temas fundamentais desenvolvidos em capítulos anteriores: necessidade da fé em Cristo (v. 44); unidade e distinção entre o Pai e o Filho (v. 45); Jesus como Luz e Vida do mundo (vv. 46-50); julgamento dos homens segundo a sua aceitação ou rejeição do Filho de Deus (vv. 47-49). Nos capítulos seguintes recolhe os ensinamentos de Jesus aos Seus Apóstolos na Última Ceia, e os relatos da Paixão e da Ressurreição.

45. Cristo, o Verbo Encarnado, é um com o Pai (cfr Ioh 10,30); é “o esplendor da Sua glória” (Heb 1,3), “a imagem perfeita do Deus invisível” (Col 1,15). Em Ioh 14,9 Jesus exprime-Se quase com as mesmas palavras ao dizer: “Aquele que Me viu a Mim viu o Pai”. Ao mesmo tempo que fala da unidade com o Pai, aparece de forma clara a distinção entre as Pessoas divinas: o Pai, que envia, e o Filho, que é enviado.

Na Santíssima Humanidade de Cristo está como que escondida a Sua Divindade, que possui com o Pai na unidade do Espírito Santo (cfr Ioh 14,7-11). Em teologia costuma chamar-se “circuminsessão” a realidade divina pela qual, em virtude da unidade entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, “o Pai está todo no Filho, todo no Espírito Santo; o Filho está todo no Pai, todo no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo no Pai, todo no Filho” (Pro Iacobitis, Dz-Sch, n. 1331).

47. Cristo veio salvar o mundo oferecendo-Se em sacrifício pelos nossos pecados e trazendo-nos a vida sobrenatural (cfr Ioh 3,17). Mas, ao mesmo tempo, foi constituído Juiz de vivos e mortos (cfr Act 10,42): dá a Sua sentença no juízo particular que acontece imediatamente depois da morte, e no fim dos tempos; na Sua segunda vinda ou Parusia, no juízo universal (cfr Ioh 5,22 e 8,15-16).

Dia 7 de maio

Jo 13, 16-20

16Em verdade, em verdade vos digo: Não é o servo maior que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o mandou. 17Uma vez que sabeis isto, felizes sereis, se o puserdes em prática. 18Não o digo de vós todos, – Eu conheço os que escolhi, – mas é para se cumprir a Escritura: O que come do Meu pão levantou contra Mim o calcanhar. 19Desde já vo-lo digo antes que aconteça, para, quando acontecer, acreditardes que Eu sou. 20Em verdade, em verdade vos digo: Quem acolhe aquele que Eu enviar é a Mim que acolhe; e quem Me acolhe acolhe Aquele que Me enviou.

Comentário

15-17. Toda a vida de Jesus foi exemplo de serviço aos homens, cumprindo a Vontade do Pai até à morte na Cruz. Aqui o Senhor promete-nos que, imitando-O a Ele, o Mestre, num serviço desinteressado que sempre implica sacrifício encontraremos a verdadeira felicidade que ninguém nos poderá arrebatar (cfr 16,22; 17,13). “Dei-vos o exemplo, insiste Jesus, falando aos Seus discípulos na noite da Ceia, depois de lhes ter lavado os pés. Afastemos do coração o orgulho, a ambição, os desejos de domínio e, à nossa volta e dentro de nós, reinarão a paz e a alegria, enraizadas no sacrifício pessoal” (Cristo que passa, n° 94).

18. Levantar o calcanhar ou talão do pé indica a acção de bater brutalmente. Daí o sentido metafórico de inimizade violenta. Na traição de Judas cumprem-se as palavras do Ps 41,10, onde o salmista se queixa amargamente da traição de um amigo. Uma vez mais o Antigo Testamento prefigura as realidades que têm a sua plenitude no Novo.

O cristão, pelo Baptismo, foi feito filho de Deus e chamado a compartilhar os bens divinos, não só no Céu, mas já na Terra: recebeu a graça, participa do Banquete eucarístico… compartilha com os seus irmãos, os cristãos, a amizade de Jesus. Por isso, o pecado de quem foi regenerado pelo Baptismo não deixa de ser em certo modo uma traição semelhante à de Judas. Resta-nos, porém, o arrependimento, que, confiando na misericórdia divina, nos encaminhará para recobrar a amizade de Deus perdida.

“Reage. – Ouve o que te diz o Espírito Santo: ‘Si inimicus meus maledixisset mihi, sustinuissem utique’ – que o meu inimigo me ofenda, não é estranho, e é mais tolerável. Mas, tu… ‘tu vero homo unanimis, dux meus, et notus meus, qui simul mecum dulces capiebas cibos’ – tu, meu amigo, meu apóstolo, que te sentas à minha mesa e comes comigo doces manjares!” (Caminho, n° 244).

19. Jesus anuncia de antemão aos Apóstolos a traição de Judas. Assim eles, quando viram verificadas as predições de Cristo, puderam compreender que tinha ciência divina e que, efectivamente, n’Ele se tinham cumprido as Escrituras do Antigo Testamento (cfr Ioh 2,22).

Dia 8 de maio

Jo 14, 1-6

1Não se perturbe o vosso coração. Acreditai em Deus, acreditai também em Mim. 2Em casa de Meu Pai há muitas habitações. Se assim não fora, ter-vo-lo-ia dito, pois vou preparar-vos um lugar. 3E, quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e levar-vos-ei para junto de Mim, a fim de que, onde Eu estiver, vós estejais também. 4E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho. 5Diz-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como é que sabemos o caminho? 6Responde-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai, senão por Mim.

Comentário

1-3. Segundo parece, o anúncio das negações de Pedro entristeceu os discípulos. Jesus anima-os dizendo que vai partir para lhes preparar uma morada nos Céus, pois, apesar das suas misérias e claudicações, finalmente perseverarão. A volta a que Se refere Jesus inclui a Sua segunda vinda no fim do mundo ou Parusia (cfr 1 Cor 4,5; 11,26; 1 Thes 4,16-17; 1 Ioh 2,28) e o encontro com cada alma depois da morte: Cristo preparou-nos a morada celeste mediante a Sua obra redentora. Por isso, as Suas palavras podem considerar-se dirigidas não só aos Doze, mas a todos os que crerem n’Ele ao longo dos tempos. O Senhor levará consigo até à Sua glória todos os que tiverem acreditado n’Ele e Lhe tiverem sido fiéis.

4-7. Os Apóstolos não compreendiam com profundidade o que Jesus lhes estava a ensinar; daí a pergunta de Tomé. O Senhor explica que Ele é o caminho para o Pai. “Era necessário dizer-lhes ‘Eu sou o Caminho’ para lhes demonstrar que na realidade sabiam o que julgavam ignorar, porque O conheciam a Ele” (In Ioann. Evang., 66,2).

Jesus é o caminho para o Pai: pela Sua doutrina, pois observando o Seu ensinamento chegaremos ao Céu; pela fé que suscita, porque veio a este mundo para que “todo o que crer tenha vida eterna n’Ele” (Ioh 3,15); pelo Seu exemplo, já que ninguém pode ir ao Pai senão imitando o Filho; pelos Seus méritos, com que nos possibilita a entrada na pátria celeste; e sobretudo é o caminho porque revela o Pai com Quem é um pela Sua natureza divina.

“As crianças pequenas, à força de ouvir falar as mães e de balbuciar vocábulos com elas, aprendem a falar; nós, permanecendo junto ao nosso Salvador, mediante a meditação, considerando as Suas palavras, as Suas acções e os Seus afectos, aprenderemos, mediante a Sua graça, a falar, a actuar e a amar como Ele. – É necessário deter-se aqui (…); não poderemos chegar até Deus Pai senão por este caminho (…); também a Divindade não poderia ser bem contemplada por nós neste baixo mundo se não se tivesse unido à Humanidade sagrada do Salvador, cuja vida e morte são o objecto mais proporcionado, suave, delicioso e útil que podemos escolher para as nossas meditações” (Introdução à vida devota, p. II, c. 1,2).

Ego sum via: Ele é o único caminho que une o Céu à terra. Declara-o a todos os homens, mas recorda-o especialmente aos que, como tu e eu, Lhe dissemos que estamos decididos a tomar a sério a nossa vocação de cristãos, de modo que Deus Se encontre sempre presente nos nossos pensamentos, nos nossos lábios e em todos os nossos actos, mesmo nos mais normais e correntes.

“Jesus é o caminho. Ele deixou neste mundo as pegadas limpas dos Seus passos, sinais indeléveis que nem o desgaste dos anos nem a perfídia do inimigo conseguiram apagar” (Amigos de Deus, n° 127).

As palavras de Jesus vão para além da pergunta de Tome ao responder “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida “. Ser a Verdade e a Vida é o específico do Filho de Deus feito homem, de quem São João diz no Prólogo do seu Evangelho que está “cheio de graça e de verdade” (1,14). Ele é a Verdade porque com a Sua vinda ao mundo mostra-se a fidelidade de Deus às Suas promessas, e porque ensina verdadeiramente quem é Deus e como a autêntica adoração há-de ser “em espírito e em verdade” (Ioh 4,23). É a Vida por ter desde toda a eternidade a vida divina junto ao Pai (cfr Ioh 1,4), e porque nos faz, mediante a graça, participantes dessa vida divina. Por tudo isso diz o Evangelho: “Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem Tu enviaste” (Ioh 17,3).

Com a Sua resposta, Jesus está “como que a dizer: Por onde queres ir? Eu sou o Caminho. Para onde queres ir? Eu sou a Verdade. Onde queres permanecer? Eu sou a Vida. Todo o homem consegue compreender a Verdade e a Vida; mas nem todos encontram o Caminho. Os sábios do mundo compreendem que Deus é vida eterna e verdade cognoscível; mas o Verbo de Deus, que é Verdade e Vida junto ao Pai, fez-Se Caminho ao assumir a natureza humana. Caminha contemplando a Sua humildade e chegarás até Deus” (De verb. Dom. serm., 54).

Dia 9 de maio

Jo 14, 7-14

7Uma vez que Me conheceis, conhecereis também a Meu Pai. Agora ficais a conhecê-Lo e já O vistes. 8Diz-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. 9Responde-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e não Me conheceis, Filipe? Quem Me viu viu o Pai. Como é que tu dizes: “Mostra-nos o Pai”? 10Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as profiro por Mim mesmo; e o Pai, permanecendo em Mim, é que faz as obras. 11Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Ao menos, acreditai-o por causa das mesmas obras. 12Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fá-las-á maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai; 13e o que quer que pedirdes em Meu nome, fá-lo-ei, para o Pai ser glorificado no Filho. 14Se Me pedirdes alguma coisa em Meu nome, fá-lo-ei.

Comentário

8-11. As palavras do Senhor continuam a ser misteriosas para os Apóstolos, que não acabam de entender a unidade do Pai e do Filho. Daí a insistência de Filipe. Por isso Jesus repreende o apóstolo porque ainda O não conhece, quando é claro que as Suas obras são próprias de Deus: caminhar sobre as ondas, dar ordens aos ventos, perdoar pecados, ressuscitar os mortos. Este é o motivo da repreensão: o não ter conhecido a Sua condição de Deus através da Sua natureza humana” (De Trinitate, liv. 7).

É certo que a visão do Pai a que se refere Jesus Cristo neste passo é uma visão de fé, pois a Deus nunca ninguém O viu tal como é (cfr Ioh 1,18;6,46). Todas as manifestações de Deus ou teofanias foram mediatas, só um reflexo da grandeza divina. A manifestação suprema de Deus Pai temo-la em Cristo Jesus, o Filho de Deus enviado aos homens. “Ele, com toda a Sua presença e manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna” (Dei Verbum, n. 4).

12-14. Antes de partir deste mundo, o Senhor promete aos Apóstolos que os fará participantes dos Seus poderes para que a salvação de Deus se manifeste por meio deles. As obras que realizarão são os milagres feitos em nome de Jesus Cristo (cfr Act 3,1-10; 5,15-16; etc.), e sobretudo, a conversão dos homens à fé cristã e a sua santificação, mediante a pregação e a administração dos sacramentos. Podem considerar-se obras maiores que as de Jesus enquanto pelo ministério dos Apóstolos o Evangelho não só foi pregado na Palestina, mas se difundiu até aos extremos da terra; mas este poder extraordinário da palavra apostólica procede de Jesus Cristo, que subiu para o Pai: depois de passar pela humilhação da Cruz, Jesus foi glorificado e do Céu manifesta o Seu poder actuando através dos Apóstolos.

O poder dos Apóstolos dimana, pois, de Cristo glorificado. O Senhor exprime-o ao dizer: “E o que pedirdes ao Pai em Meu nome isso farei…”. “Não será maior que Eu aquele que crê em Mim; mas Eu farei então coisas maiores que as que agora faço; realizarei mais por meio daquele que crer em Mim, do que agora realizo por Mim mesmo” (In Ioann. Evang., 72,1).

Jesus Cristo é o nosso intercessor no Céu, por isso nos promete que tudo o que pedirmos em Seu Nome, Ele o fará. Pedir em Seu nome (cfr 15,7.16; 16,23-24) significa apelar para o poder de Cristo ressuscitado, crendo que Ele é omnipotente e misericordioso porque é verdadeiro Deus; e significa também pedir aquilo que convém à nossa salvação, porque Jesus Cristo é o Salvador. Assim “o que pedirdes” entende-se como o que é bom para o que pede. Quando o Senhor não concede o que se pede é porque não convém para a nossa salvação. Desse modo mostra-Se igualmente Salvador quando nos nega o que Lhe pedimos e quando no-lo concede.

Dia 10 de maio

Jo 15, 1-8

1Eu sou a verdadeira cepa, e Meu Pai é o agricultor. 2Toda a vara que em Mim não dá fruto, Ele corta-a, e toda aquela que dá fruto, Ele limpa-a, para dar mais fruto. 3Vós já estais limpos devido à palavra que vos expus. 4Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós. Assim como a vara que não pode dar fruto por si mesma, se não permanecer na cepa, assim vós também não, se não permanecerdes em Mim. 5Eu sou a cepa, vós as varas. Aquele que permanece em Mim e em quem Eu permaneço é que dá muito fruto, porque, sem Mim, nada podeis fazer. 6Se alguém não permanece em Mim, é lançado fora, como a vara, e seca. Tais varas, apanham-nas, lançam-nas ao fogo e elas ardem. 7Se permanecerdes em Mim e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e ser-vos-á concedido. 8A glória de Meu Pai é que deis muito fruto; então vos tornareis Meus discípulos.

Comentário

1. A comparação do povo escolhido com uma videira tinha sido utilizada já no Antigo Testamento: no Salmo 80 fala-se da ruína e da restauração da vinha arrancada do Egipto e plantada noutra terra; e no cântico de Isaías (5,1-7) Deus queixa-Se de que a Sua vinha, apesar dos cuidados amorosos, tenha produzido agraços em lugar de uvas. Jesus tinha utilizado estas imagens na parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-43) para significar a rejeição do Filho por parte dos Judeus e o chamamento aos gentios. Aqui, porém, a comparação tem um sentido diferente, mais pessoal: Cristo apresenta-Se como a verdadeira videira, porque à velha videira, ao antigo povo escolhido, sucedeu o novo, a Igreja, cuja cabeça é Cristo (cfr 1 Cor 3,9). É preciso estar unidos à nova e verdadeira Videira, a Cristo, para produzir fruto. Não se trata já apenas de pertencer a uma comunidade, mas de viver a vida de Cristo, vida da Graça, que é a seiva vivificante que anima o crente e o capacita para dar frutos de vida eterna. Esta imagem da videira, por outro lado, ajuda a compreender a unidade da Igreja, Corpo Místico de Cristo, em que todos os membros estão intimamente unidos com a Cabeça, e nela, unidos também uns com os outros (1 Cor 12,12-26; Rom 12,4-5; Eph 4,15-16).

2. O Senhor descreve duas situações: a daqueles que, mesmo estando unidos à videira com vínculos externos, não dão fruto; e a daqueles que, mesmo dando fruto, podem dar mais. Isto ensina-nos também a Epístola de São Tiago ao dizer que não basta a fé (Iac 2,17). Embora seja certo que a fé é o começo da salvação, e sem a fé não podemos agradar a Deus, também é verdade que a fé viva há-de dar o fruto das obras. “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor, mas somente a fé que actua pela caridade” (Gal 5,6). Assim pois, pode dizer-se que para dar frutos agradáveis a Deus não basta ter recebido o Baptismo e professar externamente a fé, mas é preciso participar da vida de Cristo pela graça e colaborar na Sua obra redentora.

Jesus utiliza o mesmo verbo para falar da poda das varas e da limpeza dos discípulos no versículo seguinte; à letra deveria traduzir-se: “A todo o que dá fruto limpa-o para que dê mais fruto”. Fica assim claro que Deus não Se contenta com uma entrega a meias. Por isto purifica os Seus através da contradição e das dificuldades, que são como uma poda, para que dêem mais fruto. Aqui podemos ver uma explicação do porquê do sofrimento:

“Não ouviste dos lábios do Mestre a parábola da videira e das varas? – Consola-te. Ele é exigente porque és vara que dá fruto… E poda-te, ‘ut fructum plus afferas’ – para que dês mais fruto.

É claro: dói esse cortar, esse arrancar. Mas, depois, que louçania nos frutos, que maturidade nas obras!” (Caminho, n° 701).

3. Jesus ao lavar os pés a Pedro já tinha dito que os Seus Apóstolos estavam limpos, ainda que nem todos (cfr Ioh 13,10). Agora volta a referir-Se a essa limpeza interior por virtude dos ensinamentos que aceitaram. “Pois a palavra de Cristo purifica em primeiro lugar dos erros, instruindo (cfr Tit 1,9,) (…); em segundo lugar, purifica os corações dos afectos terrenos, despertando-os para as coisas celestiais (…); finalmente, a palavra purifica pelo vigor da fé: pois ‘purificou os seus corações pela fé’ (Act 15,9)” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

4-5. O Senhor continua a deduzir conseqüências da comparação da videira e das varas. Agora sublinha a inutilidade de quem se afasta d’Ele, tal como a da vara separada da videira. “Reparai nesses sarmentos repletos, porque participam da seiva do tronco. Só assim aqueles minúsculos rebentos de alguns meses antes puderam converter-se em polpa doce e madura, que encherá de alegria a vista e o coração das pessoas (Ps CIII,15). No solo ficam talvez algumas varas toscas, soltas, meias enterradas. Eram sarmentos também, mas secos, estiolados. São o símbolo mais gráfico da esterilidade. Porque, sem Mim, nada podeis fazer” (Amigos de Deus, n° 254).

A vida de união com Cristo transcende necessariamente o âmbito individual do cristão para se projectar em benefício dos outros: daí brota a fecundidade apostólica, já que “o apostolado, seja ele de que tipo for, consiste numa superabundância da vida interior” (Amigos de Deus, n° 239). O Concilio Vaticano II, citando o presente passo de São João, ensina como deve ser o apostolado dos cristãos: “A fonte e origem de todo o apostolado da Igreja é Cristo, enviado pelo Pai. Sendo assim, é evidente que a fecundidade do apostolado dos leigos depende da sua união vital com Cristo, segundo as palavras do Senhor: ‘aquele que permanece em Mim e em quem Eu permaneço, esse produz muito fruto; pois, sem Mim, nada podeis fazer’. Esta vida de íntima união com Cristo na Igreja é alimentada pelos auxílios espirituais comuns a todos os fiéis e, de modo especial, pela participação activa na sagrada Liturgia; e os leigos devem servir-se deles de tal modo que, desempenhando correctamente as diversas tarefas terrenas nas condições ordinárias da existência, não separem da própria vida a união com Cristo, mas antes, realizando a própria actividade segundo a vontade de Deus, nela cresçam” (Apostolicam actuositatem, n. 4).

6. Quem não está unido a Cristo por meio da graça terá, finalmente, o mesmo destino que as varas secas: o fogo. E claro o paralelismo com outras imagens da pregação do Senhor acerca do Inferno: as parábolas da árvore boa e da má (Mt 8,15-20), da rede de arrasto (Mt 13,49-50), do convidado para as bodas (Mt 22,11-14), etc. Santo Agostinho comenta assim este passo: “Os sarmentos da videira são do mais desprezível se não estão unidos à cepa; e do mais nobre se o estão (…). Se se cortam não servem de nada nem para o vinhateiro nem para o carpinteiro. Para os sarmentos uma de duas: ou a videira ou o fogo. Se não estão na videira, vão para o fogo: para não irem para o fogo, que estejam unidos à videira” (In Ioann. Evang., 81,3).

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