dia 4 a 10 de janeiro de 2010

Dia 4 de janeiro

Mt 4, 12-17.23-25

12Quando ouviu que João fora entregue, retirou-se para a Galileia. 13E, deixando Nazaré, passou a morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulão e de Neftalim, 14para se cumprir o que fora anunciado pelo profeta Isaías, que diz: 15Terra de Zabulão e terra de Neftalim, para os lados do mar, terra de Além-Jordão, Galileia dos Gentios:

16O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz, e a luz amanheceu aos que jaziam na região caliginosa da morte“.

17Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus.

23E Jesus discorria por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todas as doenças e todas as enfermidades no povo. 24A Sua fama espalhou-se por toda a Síria, e traziam-Lhe todos os doentes, atormentados de várias enfermidades e padecimentos, possessos, lunáticos e paralíticos, e Ele curava-os. 25E seguiam-No grandes multidões da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia.

Comentário

13-16. São Mateus cita aqui a profecia de Isaías 8,23-9,1. A região, que é mencionada com diversas referências (Zabulão, Neftalim, para os lados do mar, terra de Além-Jordão), foi invadida pelos assírios pelos anos 734-721 a.C., sobretudo no tempo de Teglatfalasar III. Parte da população hebraica da região foi deportada, ao mesmo tempo que foram trazidos grandes grupos de populações estrangeiras para colonizar o país. Por esta causa, a partir dessa data, na Bíblia é costume chamar-se-lhe “Galileia dos gentios”.

O Evangelista, inspirado por Deus, viu o cumprimento da profecia de Isaías nesta vinda de Jesus à Galileia. Com efeito, esta terra devastada e maltratada em tempo de Isaías, será a primeira a receber a luz da vida e da pregação de Jesus Cristo. Portanto, o sentido messiânico da profecia é claro.

17. O versículo indica a transcendência do momento inicial da pregação pública de Jesus, que começa pela proclamação da iminência do Reino de Deus. Jesus entronca na proclamação de João Baptista: pode apreciar-se uma coincidência até literal entre a segunda frase deste versículo e Mt 3,2. Esta coincidência sublinha a função que teve São João Baptista como profeta e precursor de Jesus. Tanto o Baptista como Nosso Senhor exigem o arrependimento, a penitência, como condição prévia para o acolhimento do Reino de Deus que começa.

O reinado de Deus sobre os homens é tema central da Revelação de Jesus Cristo, como o tinha sido no AT. Mas então, o Reino de Deus tinha tido uma matização que se pode chamar teocrática: Deus reinava sobre Israel tanto no espiritual como no temporal, e, por meio dele, submeteria ao Seu domínio as outras nações. Agora Jesus irá explicando de modo progressivo a renovada natureza deste Reino de Deus, que chegou à sua plenitude, situando-o no seu plano espiritual de amor e santidade, e purificando-o dos desvios nacionalistas dos judeus.

Este Reino, para o qual o Rei convida todos sem excepção (cfr Mt 22, 1-14), tem na terra o seu Banquete, que exige certas condições, que os propagadores deste Reino hão-de pregar. “Portanto, o banquete eucarístico é o centro da assembléia dos fiéis a que o presbítero preside. Por isso, os presbíteros ensinam os fiéis a oferecer a Deus Pai a vítima divina no sacrifício da missa, e a fazer, com ela, a oblação da sua vida; com o espírito de Cristo Pastor, ensinam-nos a submeter de coração contrito à Igreja no sacramento da Penitência os próprios pecados, de tal modo que se convertam cada vez mais no Senhor, lembrados das Suas palavras: ‘Fazei penitência, porque o reino dos céus está próximo'” (Presbyterorum ordinis, n. 5).

23. “Sinagoga”: E um nome de origem grega que designa o edifício onde se reúnem os judeus, no dia de Sábado e noutros dias festivos, para celebrar os cultos religiosos, exceptuados os sacrifícios, que só podiam realizar-se no Templo de Jerusalém. A sinagoga era também o lugar onde se atendia à formação religiosa dos judeus. Eram também indicadas com este nome as pequenas comunidades judaicas dentro da Palestina ou no estrangeiro.

24. “Lunático”: De modo muito genérico aplicava-se este nome aos que padeciam de afecções de tipo epiléptico, que segundo a opinião vulgar dependiam das fases da lua.

23-25. Encontramos aqui um magnífico sumário, onde o Evangelista resume em poucas linhas amplos aspectos da actividade de Jesus. A pregação do evangelho ou “boa nova” do Reino, as curas de doenças e as expulsões de demônios são sinais específicos da actividade do Messias, conforme as profecias do Antigo Testamento (Is 35,5-6; 61, 1; 40,9; 52,7).

Dia 5 de janeiro

Mc 6, 34-44

34Ao desembarcar, viu uma grande multidão e condoeu-Se dela, porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas. 35Quando a hora ia já muito adiantada, chegaram-se a Ele os discípulos e disseram-Lhe: Este lugar é deserto e a hora vai adiantada; 36despede-os, para que vão aos campos e aldeias circunvizinhas comprar alguma coisa de comer. 37Mas Ele respondeu-lhes: Dai-lhes vós mesmos de comer. Tornaram-Lhe eles: Queres então que vamos comprar duzentos dinheiros de pão para lhes darmos de comer? 38E Ele: Quantos pães tendes? Ide ver. Informaram-se e disseram-Lhe: Cinco e dois peixes.

39Ordenou-lhes então que os mandassem sentar a todos, em grupos, sobre a relva verde. 40E eles sentaram-se, repartidos em grupos de cem e de cinqüenta. 41Então tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a fórmula da bênção, partiu os pães e ia-os dando aos discípulos para que lhos servissem e repartiu também os dois peixes por todos. 42Comeram todos, até se saciarem. 43E recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e de restos dos peixes. 44Ora os que tinham comido dos pães eram cinco mil homens.

Comentário

34. O Senhor fez planos para descansar algum tempo, juntamente com os Seus discípulos, das absorventes tarefas apostólicas (Mc 6, 31-32). Mas não os pode levar a cabo pela presença de um grande número de gente que acorre a Ele ávida da Sua palavra. Jesus Cristo não só não Se aborrece com eles, mas sente compaixão ao ver a necessidade espiritual que têm. “Morre o Meu povo por falta de doutrina” (Os 4, 6). Necessitam de instrução e o Senhor quer satisfazer esta necessidade por meio da pregação. “A fome e a dor comovem Jesus, mas sobretudo comove-O a ignorância” (Cristo que passa, n° 109).

37. O salário normal de um jornaleiro era um denário. Os discípulos devem ter pensado, portanto, que era pouco menos que impossível cumprir a ordem do Mestre, pois não levariam consigo tanto dinheiro.

41. Este milagre é uma figura da Santíssima Eucaristia: Cristo realizou-o pouco antes da promessa deste sacramento (cfr Ioh 6, 1 ss.), e é constante esta doutrina nos Santos Padres. No milagre Jesus dá prova do Seu poder sobrenatural e do Seu amor aos homens. Poder e amor que tornarão também possível que o único Corpo de Cristo esteja presente nas espécies consagradas, para alimentar as multidões dos fiéis através da história. Como se diz na seqüência que compôs São Tomás de Aquino para a Missa do Corpus Christi: “Sumit unus, sumunt mille; quantum isti, tantum ille, nec sumptus consumitur” (Quer O tome um ou O tomem mil, tomam o mesmo estes que aquele, não se esgota por ser tomado).

O próprio gesto do Senhor – elevar os olhos ao céu – é recordado pela Liturgia da Igreja no cânon romano da Santa Missa: “Et elevatis oculis in caelum, ad Te Deum Patrem suum omnipotentem…”. Ao recordá-lo preparamo-nos para assistir a um milagre maior que a multiplicação dos pães: a conversão do pão no Seu próprio Corpo, que é oferecido sem medida como alimento a todos os homens.

42-44. Cristo quis que fossem recolhidas as sobras daquela refeição (cfr Ioh 6, 12), para que aprendamos a não esbanjar os bens que Deus nos dá e para que servisse como prova tangível do milagre realizado.

A recolha do que sobrou é um modo pedagógico de nos mostrar o valor das coisas pequenas feitas com amor de Deus: a ordem nos pormenores materiais, a limpeza, o acabar as tarefas até ao fim. Também a alma crente se compraz em adivinhar neste facto o sumo cuidado na reserva das espécies eucarísticas.

Por outro lado, o esplendor do milagre é uma mostra da plenitude messiânica. Os Santos Padres fazem notar que Moisés distribuía “o maná” segundo as necessidades de cada um, de modo que o que sobrava se enchia de vermes (Ex 16, 16-20). Elias deu à viúva o que era indispensável para o seu sustento (1 Reg 17, 13-16). Jesus, porém, dá com generosidade, com abundância.

Dia 6 de janeiro

Mc 6, 45-52

45E Ele obrigou logo os Seus discípulos a embarcar e ir adiante para o outro lado, para Betsaida, enquanto Ele despedia o povo. 46Depois de os mandar embora, retirou-Se para o monte, a orar.

47Ao cair da noite, estava o barco a meio do mar, e Ele sozinho em terra. 48Vendo-os afadigados a remar, pois o vento era-lhes contrário, cerca da quarta vigília da noite, vem ter com eles, caminhando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante. 49Eles, ao verem-No caminhar sobre o mar, julgaram que era um fantasma e gritaram; 50porque todos O tinham visto e ficaram assustados. Mas logo Ele lhes falou, dizendo: Tende confiança, sou Eu, não temais. 51E subiu para junto deles, no barco e cessou o vento. Com isto ficavam ainda muitíssimo mais assombrados, 52pois nem com os pães tinham compreendido, por terem a inteligência obtusa.

Comentário

48. A noite, segundo o uso romano, dividia-se em quatro partes ou vigílias, cuja duração variava em cada época do ano. São Marcos dá o nome popular das quatro em 13, 35; entardecer, meia noite, canto do galo e aurora. O Senhor, portanto, dirigiu-se aos discípulos pelo amanhecer.

Com este inolvidável acontecimento quis ensinar-lhes que no meio das situações mais apertadas e inexplicáveis da vida, Ele está próximo de nós para nos ajudar a seguir para a frente, não sem antes nos ter deixado lutar para que se fortaleça a nossa esperança e se forge o nosso carácter, como diz um antigo comentador grego: “O Senhor permitiu que os Seus discípulos corressem perigo para que se tornassem pacientes, e não lhes acudiu imediatamente, mas deixou-os no perigo toda a noite, a fim de os ensinar a esperar com paciência e para que não se acostumassem a receber imediatamente o socorro nas tribulações” (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.).

52. Os discípulos não acabam de entender os milagres de Jesus como sinais da Sua divindade. Assim acontece diante dos milagres da multiplicação dos pães e dos peixes (Mc 6, 33-44) e da segunda multiplicação dos pães (Mc 8, 17). Diante destas maravilhas sobrenaturais, os Apóstolos têm ainda o seu coração e a sua inteligência endurecidos; não chegam a descobrir em toda a sua profundidade o que Jesus lhes está a ensinar com os Seus feitos: que Ele é o Filho de Deus. Jesus Cristo é compreensivo e paciente com estes defeitos dos Seus discípulos: também não entenderão quando Jesus lhes falar da Sua própria Paixão (Lc 18, 34). O Senhor multiplicará os Seus ensinamentos e milagres para iluminar as inteligências dos discípulos, e mais tarde enviará o Espírito Santo, que lhes ensinará todas as coisas e lhes recordará os Seus ensinamentos (cfr Ioh 14,26).

São Beda o Venerável faz o seguinte comentário a todo o episódio (Mc 6, 45-52): “Em sentido místico, o trabalho dos discípulos a remar e o vento contrário assinalam os trabalhos da Igreja santa que, entre as vagas do mundo inimigo e a exalação dos espíritos imundos, se esforça por chegar ao descanso da pátria celeste. Com razão, pois, se diz que a barca estava no meio do mar e Ele só em terra, porque a Igreja nunca foi tão intensamente perseguida pelos gentios que parecesse que o Redentor a tivesse abandonado de todo. Mas o Senhor vê os Seus a lutar no mar e, para que não desfaleçam nas tribulações, fortalece-os com o seu olhar de misericórdia e algumas vezes livra-os do perigo com a Sua clara ajuda” (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Dia 7 de janeiro

Lc 4, 14-22a

14Voltou Jesus com a força do Espírito para a Galileia, e a Sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava pessoalmente nas sinagogas daquela gente, sendo elogiado por todos.

16Veio a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o Seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-Se para ler. 17Foi-Lhe entregue o Livro do Profeta Isaías e, ao abri-lo, deparou com a passagem em que estava escrito:

18O Espírito do Senhor está sobre Mim,

por isso que Me ungiu.

A anunciar a Boa Nova aos pobres Me enviou,

a proclamar a libertação aos cativos

e o recobrar da vista aos cegos,

a mandar em liberdade os oprimidos,

19a proclamar um ano de graça do Senhor.

20E, depois de enrolar o livro, entregou-o ao empregado e sentou-Se. Estavam cravados n’Ele os olhos de quantos se encontravam na sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir. 22Todos davam testemunho em favor d’Ele e admiravam-se com as graciosas palavras que saíam da Sua boca.

Comentário

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20, 8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei – o Pentateuco – e outro dos Profetas. O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes, levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra de cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfr Lc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfr Act 13, 5.14.42.44; 14,1, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: “Amen” (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61, l-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. “Segundo São Lucas (vv. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os factos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho. Mediante tais factos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens” (Dives in misericordia, n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por “pobres” deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus, não tanto uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os pobres é anunciar-lhes a “boa notícia” de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem sobretudo um sentido espiritual e transcendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demónio. “O cativeiro é sensível – ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 – quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cativeiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo” (Catena Aurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais necessitados. “De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo” (Lumen gentium, n. 8).

18-19. As palavras de Isaías, que Cristo leu nesta ocasião, descrevem de modo gráfico a finalidade para que Deus enviou o Seu Filho: a redenção do pecado, a libertação da escravidão do demónio e da morte eterna. É certo que Cristo durante o Seu ministério público, movido pela Sua misericórdia, fez algumas curas, livrou alguns endemoninhados, etc. Mas não curou todos os doentes do mundo, nem suprimiu todas as penalidades desta vida, porque a dor, introduzida no mundo pelo pecado, tem um irrenunciável valor redentor unida aos sofrimentos de Jesus. Por isso, o Senhor realizou alguns milagres, que constituem não tanto o remédio das dores em tais casos concretos, mas a mostra da Sua missão divina de redenção universal e eterna.

A Igreja continua esta missão de Cristo: “Ide, pois, e fazei discípulos todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. E sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao Fim do mundo” (Mt 28,19-20). São as palavras simples e sublimes do fim do Evangelho de São Mateus: aí está assinalada “a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida sacramental, a promessa da assistência contínua de Cristo à Sua Igreja. Não se é fiel ao Senhor se se desatendem essas realidades sobrenaturais: a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos. Com este mandato Cristo funda a Sua Igreja (…). E a Igreja só pode dar a salvação às almas se permanece fiel a Cristo na sua constituição, nos seus dogmas, na sua moral.

“Rejeitemos, portanto, o pensamento de que a Igreja – esquecendo o Sermão da Montanha – busca a felicidade humana na terra, porque sabemos que a sua única tarefa consiste em levar as almas à glória eterna do paraíso; rejeitemos qualquer solução naturalista, que não aprecie o papel primordial da graça divina; rejeitemos as opiniões materialistas, que procuram fazer perder a sua importância aos valores espirituais na vida do homem; rejeitemos de igual modo as teorias secularizantes, que pretendem identificar os fins da Igreja de Deus com os dos Estados terrenos: confundindo a essência, as instituições, a actividade, com características semelhantes às da sociedade temporal” (J. Escrivá de Balaguer, Hom. O fim sobrenatural da Igreja).

18. Os Santos Padres vêem designadas neste versículo as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Espírito (Espírito Santo) do Senhor (o Pai) está sobre Mim (o Filho) (cfr Orígenes, Homilia 32). O Espírito Santo habitava na alma de Cristo desde o instante da Encarnação, e desceu visivelmente em forma de pomba quando foi baptizado por João (cfr Lc 3, 21-22).

“Por isso que Me ungiu”: Refere-se à unção que Jesus Cristo recebeu no momento da Encarnação, principalmente pela graça da união hipostática. “Esta unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente” (Catecismo Maior, n.° 77). Desta união hipostática deriva a plenitude de todas as graças. Para a significar diz-se que Jesus Cristo foi ungido pelo próprio Espírito Santo, e não só recebeu as graças e os dons do Espírito Santo, como os santos.

19. “Ano de graça”: Alude ao ano jubilar dos judeus, estabelecido pela Lei de Deus (Lev 25,8 ss.) cada cincoenta anos, para simbolizar a época de redenção e liberdade que trará o Messias. A época inaugurada por Cristo, o tempo da Nova Lei até ao fim deste mundo, é o “ano de graça”, o tempo da misericórdia e da redenção, que se alcançarão completamente na vida eterna.

De maneira semelhante, a instituição do Ano Santo na Igreja Católica tem este sentido de anúncio e recordação da Redenção trazida por Cristo e da sua plenitude na vida futura.

20-22. As palavras do versículo 21 mostram-nos a autoridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: “Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir”. Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfr Lc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser rectamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfr Lc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfr Act 2,4).

Dia 8 de janeiro

Lc 5, 12-16

12Estando Ele em uma das cidades, apresentou-se um homem cheio de lepra. Ao ver Jesus, caiu com a face por terra e dirigiu-Lhe esta súplica: Senhor, se quiseres, pode limpar-me. 13Ele, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo. E logo a lepra o deixou. 14Ordenou-lhe então que não dissesse a ninguém: Vai antes mostrar-te ao sacerdote e fazer, pela tua purificação, a oferta, como estabeleceu Moisés, para lhes servir de prova. 15Cada vez se falava mais a Seu respeito, e reuniam-se grandes multidões para O ouvirem e serem curadas de suas enfermidades. 16Mas Ele andava retirado pelas solidões e a orar.

Comentário

12. As palavras do leproso são um modelo de oração. Aparece nela, em primeiro lugar, a fé. “Não disse, se o pedires a Deus…, mas se queres” (Hom. sobre S. Mateus, 25). Completa-se com uma afirmação absoluta, podes: que é uma confissão aberta da omnipotência divina. Esta mesma fé foi expressada pelo salmista: “Deus faz tudo o que quer nos céus, na terra, no mar e em todos os abismos” (Ps 135,6). Juntamente com a fé, a confiança na misericórdia divina. “A Deus, que é misericordioso, não é necessário pedir-Lhe, basta expor-Lhe a nossa necessidade” (Comentário sobre S. Mateus, 8,1). E conclui São João Crisóstomo: “A oração é perfeita quando se unem nela a fé e a confissão; o leproso demonstrou a sua fé e confessou a sua necessidade com as suas palavras” (Hom. sobre S. Mateus, 25).

“‘Domine!’ – Senhor! – ‘si vis, potes me mundare’ – se quiseres, podes curar-me. – Que bela oração para que a digas muitas vezes, com a fé do pobre leproso, quando te acontecer o que Deus, tu e eu sabemos! – Não tardarás a sentir a resposta do Mestre: ‘volo, mundare!’ – Quero, sê limpo!” (Caminho, n° 142).

13. Jesus Cristo atende a súplica do leproso e cura-o da sua doença. Cada um de nós tem doenças na sua alma e o Senhor está à espera de que nos aproximemos d’Ele: “É Médico e cura o nosso egoísmo, se deixarmos que a Sua graça penetre até ao fundo da nossa alma. Jesus disse-nos que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que nos faz dissimular os nossos pecados. Com o Médico é imprescindível, pela nossa parte, uma sinceridade absoluta, explicar-Lhe toda a verdade e dizer: Domine, si vis, potes me mundare, Senhor, se quiseres – e Tu queres sempre – podes curar-me. Tu conheces as minhas fraquezas, tenho estes sintomas e estas debilidades. Mostramos-Lhe também com toda a simplicidade as chagas e o pus, no caso de haver pus. Senhor, Tu, que curaste tantas almas, faz com que, ao ter-Te no meu peito ou ao contemplar-Te no Sacrário, Te reconheça como Médico divino” (Cristo que passa, n° 93).

16. No terceiro Evangelho põe-se em realce com freqüência que Jesus Se retirava, só, para orar: cfr 6,12; 9,18; 11,1. Jesus ensina assim a necessidade de uma oração pessoal nas diversas circunstâncias da vida.

“É muito importante – perdoai a minha insistência – observar os passos do Messias, porque Ele veio mostrar-nos o caminho que nos leva ao Pai: descobriremos, com Ele, como se pode dar relevo sobrenatural às actividades aparentemente mais pequenas; aprenderemos a viver cada instante com vibração de eternidade e compreenderemos com maior profundidade que a criatura precisa desses tempos de conversa íntima com Deus, para privar com Ele na Sua intimidade, para invocá-Lo, para ouvi-Lo ou, simplesmente, para estar com Ele” (Amigos de Deus, n° 239).

Dia 9 de janeiro

Jo 3, 22-30

22Depois disto, foi Jesus com os discípulos para o território da Judeia, onde Se demorou com eles e Se pôs a baptizar. 23Ora João estava também a baptizar em Enon, perto de Salim, porque havia ali muita água e aparecia gente para se baptizar. 24João, de facto, ainda não tinha sido metido no cárcere.

25Houve então uma disputa entre os discípulos de João e um judeu, a propósito da purificação. 26Vieram eles ter com João e disseram-lhe: Rabi, Aquele que estava contigo além-Jordão, de quem deste testemunho, está lá a baptizar, e todos vão ter com Ele. 27Respondeu João, dizendo: Nada pode um homem receber que não lhe seja dado lá do Céu. 28Vós próprios sois testemunhas de que eu disse: “Não sou o Messias; apenas sou enviado à Sua frente”. 29Quem tem a noiva é que é o noivo; e o amigo do noivo, que lhe assiste e o escuta, sente muita alegria com a voz do noivo. Pois essa alegria, que é a minha, é completa. 30Ele deve crescer e eu diminuir!

Comentário

22-24. O Evangelista, um pouco mais adiante (Ioh 4,2), esclarece que não era o próprio Jesus quem baptizava, mas os Seus discípulos. Provavelmente o Senhor quis que desde o primeiro momento se exercitassem na tarefa de exortar à conversão. Aquele rito não era ainda o Baptismo cristão – pois este só começa depois da Ressurreição de Cristo (cfr Ioh 7,39; 16,7; Mt 28,19)-, mas “ambos os baptismos, o de São João Baptista e este dos discípulos do Senhor (…) tinham por finalidade aproximar esses baptizados de Cristo (…) e preparar o caminho para a fé futura” (Hom. sobre S. João, 29,1).

O Evangelho indica o lugar e o momento concreto em que aconteceu este episódio. Enon em aramaico significa “fontes”. Salim estava situada ao Noroeste da Samaria, ao Sul da cidade de Scitópolis ou Betshan, próximo da margem ocidental do Jordão, a uns vinte quilômetros a Sul do lago de Genesaré.

O Evangelho assinala que “João ainda não tinha sido metido no cárcere” (v. 24), completando assim os dados dos Sinópticos (Mt 4,12; Mc 1,14). Sabemos, portanto, que o ministério público de Jesus começou quando ainda continuava o de João Baptista, e sobretudo, que entre eles não havia nenhuma rivalidade; pelo contrário, o Baptista, que preparava a vinda do Senhor, teve a alegria de contemplar pessoalmente como os seus próprios discípulos iam atrás de Jesus (cfr Ioh 1,37).

27-29. João Baptista fala aqui de modo simbólico, como às vezes tinham feito os profetas e também fará Nosso Senhor. O Esposo é Jesus Cristo. Por outros passos do Novo Testamento sabemos que a Igreja é designada com o título de Esposa (cfr Eph 5,24-32; Apc 19,7-9). Este símbolo dos desposórios exprime a união pela qual Cristo incorpora a Si a Igreja, e a comunhão de vida pela qual a Igreja é santificada e participa da própria vida divina. O Baptista alegra-se porque vê que já está a começar a actuação do Messias, e reconhece a infinita distância que há entre a sua condição e a de Cristo. Por isso a sua alegria é completa quando Jesus Cristo vai convocando os homens e estes vão atrás d’Ele.

O “amigo do noivo” refere-se ao que, segundo o costume dos desposórios judaicos, costumava acompanhar o noivo nos primeiros momentos do seu matrimônio e participava de forma especial nos festejos e na alegria das núpcias. Não obstante, como esclarece o Baptista, havia uma grande diferença entre ele e o esposo, verdadeiro protagonista do gozoso acontecimento.

30. O Baptista compreendeu a sua missão de Precursor, que devia desaparecer ante a chegada do Messias, e cumpriu-a fielmente e com humildade. Do mesmo modo, o cristão há-de evitar em todas as tarefas apostólicas o protagonismo pessoal, e deixar que seja Cristo o objeto da busca dos homens; há-de esvaziar-se cada vez mais de si mesmo para que Cristo encha toda a sua vida. “É necessário que Cristo cresça em ti, para que progridas no Seu conhecimento e amor: porque quanto mais O conheces e O amas, tanto mais cresce Cristo em ti (…). Por isso é necessário que os homens que progridem deste modo diminuam a sua própria estima, porque quanto mais penetra alguém na grandeza divina tanto mais considera pequena a condição humana” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Dia 10 de janeiro

Lc 3, 15-16.21-22

15Éstando o povo na expectativa e todos a pensar intimamente em João, se não seria ele mesmo o Messias, I6tomou João a palavra, dizendo-lhes a todos: Eu batizo-vos em água; mas vai chegar quem é mais forte do que eu, alguém cujas correias das sandálias não sou digno de desatar. Esse batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. (…) 21Tendo sido batizado todo o povo e estando Jesus a orar, depois de batizado, o Céu abriu-se 22e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba, e do Céu veio uma voz: «Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti pus todo o Meu enlevo».

Comentário

15-17. Com o anúncio do Batismo cristão e com expressivas imagens, o Batista proclama que ele não é o Messias, mas que está a chegar e que virá com o poder de Juiz supremo, próprio de Deus, e com a dignidade do Messias, que não tem semelhança humana.

21-22. A Igreja recorda na sua Liturgia as três primeiras manifestações solenes da divindade de Cristo: a adoração dos Magos (Mt 2,11), o Batismo de Jesus (Lc 3,21-22; Mt 3,13-17; Mc 1.9-11) e o primeiro milagre que fez o Senhor nas bodas de Cana (Ioh 2,11). Na adoração dos Magos Deus tinha mostrado a divindade de Jesus Cristo por meio da estrela. No Batismo a voz de Deus Pai, que «veio do Céu», revela a João Baptista e ao povo judeu — e neles a todos os homens — este profundo mistério da divindade de Cristo. Nas bodas de Cana, através de um milagre, Jesus «mani­festou a Sua glória, e os Seus discípulos acreditaram n’Ele» (Ioh 2,11). «Quando chegou à idade perfeita — comenta São Tomás — em que devia ensinar, fazer milagres e atrair os homens para Si, então teve de ser indicada a Sua divin­dade pelo Pai, a fim de que a Sua doutrina se tornasse mais crível. Por isso diz Ele próprio: ‘O Pai que Me enviou, Ele mesmo deu testemunho de Mim’ (Ioh 5,37)» (Suma Teológica, III, q.,39, a. 8 ad 3).

21. No Batismo de Cristo encontra-se refletido o modo como atua e opera o sacramento do Batismo no homem: o Seu batismo foi exemplar do nosso. Assim, no batismo de Cristo manifestou-se o mistério da Santíssima Trindade, e os fiéis, ao receberem o Batismo, ficam consagrados pela invocação e virtude da Trindade Beatíssima. Igualmente o abrir-se dos céus significa que a força deste sacramento, a sua eficácia, vem de cima, de Deus, e que por ele fica expedita para os batizados a via do Céu, fechada pelo pecado original. A oração de Jesus Cristo depois de ser batizado ensina-nos que «depois do Batismo é necessária para o homem a oração assídua para conseguir a entrada no Céu; pois, embora pelo Batismo se perdoem os pecados, fica, todavia, a inclinação para o pecado que interiormente nos combate, e ficam também o demônio e a carne que exteriormente nos impugnam» (Suma Teológica, III, q. 30, a. 5).