dia 31 de maio a 6 de junho de 2010

Dia 31 de maio

Lc 1, 39-56

39Por aqueles dias, pôs-se Maria a caminho e dirigiu-se à pressa para a serra, em direcção a uma cidade de Judá. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, saltou-lhe o menino no seio; Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e, erguendo a voz, num grande brado, exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. 43E donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? 44Pois, logo que me chegou aos ouvidos o eco da tua saudação, saltou de alegria o menino no meu seio. 45Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!

46Maria disse então:

“A minha alma enaltece ao Senhor,

47e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador,

48porque olhou para a humilde condição da Sua serva.

De facto, desde agora, me hão-de chamar ditosa todas as gerações,

49porque me fez grandes coisas o Omnipotente.

É santo o Seu Nome,

50e a Sua misericórdia vai de geração em geração para aqueles que O temem.

51Exerceu a força com o Seu braço,

dispersou os que se elevavam no seu próprio conceito.

52Derrubou os poderosos de seus tronos,

e exaltou os humildes.

53Encheu de bens os famintos,

e aos ricos despediu-os sem nada.

54Tomou a Seu cuidado Israel, Seu servo,

recordando a Sua misericórdia

55– conforme tinha dito a nossos pais –

em favor de Abraão e sua descendência, para sempre”.

56Ficou Maria com Isabel uns três meses, voltando depois para sua casa.

Comentário

39-56. Contemplamos este episódio da visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel no segundo mistério gozoso do santo Rosário: “(…) Acompanha alegremente José e Santa Maria… e ficarás a par das tradições da Casa de David. (…) Caminhamos apressadamente em direcção às montanhas, até uma aldeia da tribo de Judá (Lc 1,39).

“Chegamos. – É a casa onde vai nascer João Baptista. – Isabel aclama, agradecida, a Mãe do Redentor: Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! A que devo eu tamanho bem, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc I, 42-43). “O Baptista, ainda por nascer, estremece… (Lc I,41). A humildade de Maria derrama-se no Magnificat… – E tu e eu, que somos – que éramos – uns soberbos, prometemos ser humildes” (Santo Rosário, segundo mistério gozoso).

39. Nossa Senhora ao conhecer pela revelação do anjo a necessidade em que se achava a sua prima Santa Isabel, próxima já do parto, apressa-se a prestar-lhe ajuda, movida pela caridade. A Santíssima Virgem não repara em dificuldades. Embora não saibamos o lugar exacto onde se achava Isabel (hoje supõe-se que é Ayn Karim), em qualquer caso o trajeto desde Nazaré até à montanha da Judéia supunha na antiguidade uma viagem de quatro dias. Este facto da vida da Santíssima Virgem tem um claro ensinamento para os cristãos: devemos aprender d’Ela a solicitude pelos outros. ” Não podemos conviver fílialmente com Maria e pensar apenas em nós mesmos, nos nossos problemas. Não se pode tratar com a Virgem e ter, egoisticamente, problemas pessoais” (Cristo que passa, n.° 145).

42. Comenta São Beda que Isabel bendiz Maria com as mesmas palavras usadas pelo Arcanjo “para que se veja que deve ser honrada pelos anjos e pelos homens e que com razão se deve antepor a todas as mulheres” (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.). Na recitação da Ave Maria repetimos estas saudações divinas com as quais nos alegramos com Maria Santíssima pela sua excelsa dignidade de Mãe de Deus e bendizemos o Senhor e agradecemos-Lhe ter-nos dado Jesus Cristo por meio de Maria” (Catecismo Maior, n.° 333).

43. Isabel, ao chamar a Maria “mãe do meu Senhor”, movida pelo Espírito Santo, manifesta que a Virgem Santíssima é Mãe de Deus.

44. São João Baptista, ainda que tenha sido concebido em pecado – o pecado original – como os outros homem, todavia, nasceu sem ele, porque foi santificado nas entranhas de sua mãe Santa Isabel pela presença de Jesus Cristo (então no seio de Maria) e da Santíssima Virgem. Ao receber este benefício divino São João manifesta a sua alegria saltando de gozo no seio materno. Estes factos foram o cumprimento da profecia do arcanjo São Gabriel (cfr. Lc 1,15).

São João Crisóstomo admirava-se na contemplação desta cena do Evangelho: “Vede que novo e admirável é este mistério. Ainda não saiu do seio e já fala mediante saltos, ainda não lhe é permitido clamar e já é escutado pelos factos (…); ainda não vê a luz e já indica qual é o Sol; ainda não nasceu e já se apressa a fazer de Precursor. Estando presente o Senhor não se pode conter nem suporta esperar os prazos da natureza, mas procura romper o cárcere do seio materno e busca dar testemunho de que o Salvador está prestes a chegar” (Sermo apud Metaphr, mense Julio).

45. Adiantando-se ao coro de todas as gerações vindouras, Isabel, movida pelo Espírito Santo, proclama bem-aventurada a Mãe do Senhor e louva a sua fé. Não houve fé como a de Maria; n’Ela temos o modelo mais acabado de quais devem ser as disposições da criatura diante do seu Criador: submissão completa, acatamento pleno. Com a sua fé, Maria é o instrumento escolhido pelo Senhor para levar a cabo a Redenção como Mediadora universal de todas as graças. Com efeito, a Santíssima Virgem está associada à obra redentora de seu Filho: ” Esta associação da mãe com o Filho na obra da Salvação, manifesta-se desde a conceição virginal de Cristo até à Sua morte. Primeiro, quando Maria, tendo partido solicitamente para visitar Isabel, foi por ela chamada bem-aventurada, por causa da Fé com que acreditara na salvação prometida, e o precursor exultou no seio de sua mãe (…). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com o seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr. Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera “(Lumen gentium, nn. 57-58). O novo texto latino recolhe de modo literal o original grego ao dizer “quae credidit”,em vez de “quae credidisti”, como fazia a Vulgata, que neste caso é mais fiel ao sentido que à letra. Assim traduzem a maioria dos autores e assim traduzimos nós: “Feliz daquela que acreditou”.

46-55. O cântico Magnificat que Nossa Senhora pronuncia em casa de Zacarias é de uma singular beleza . Evoca alguns passos do Antigo Testamento que a Virgem Santíssima tinha meditado (recorda especialmente l Sam 2,1-10).

Neste cântico podem distinguir-se três estrofes: na primeira (vv. 46-50) Maria glorifica a Deus por a ter feito Mãe do Salvador, faz ver o motivo pelo qual a chamarão bem-aventurada todas as gerações e mostra como no mistério da Encarnação se manifestam o poder, a santidade e a misericórdia de Deus. Na segunda (vv. 51-53) a Virgem Santíssima ensina-nos como em todo o tempo o Senhor teve predilecção pelos humildes, resistindo aos soberbos e arrogantes. Na terceira (vv. 54-55) proclama que Deus, segundo a Sua promessa, teve sempre especial cuidado do povo escolhido, ao qual vai dar o maior título de glória: a Encarnação de Jesus Cristo, judeu segundo a carne (cfr Rom l ,3).

“A nossa oração pode acompanhar e imitar essa oração de Maria. Tal como Ela, sentiremos o desejo de cantar, de proclamar as maravilhas de Deus, para que a Humanidade inteira e todos os seres participem da nossa felicidade”. (Cristo que passa, n.° 144).

46-47. “Os primeiros frutos do Espírito Santo são a paz e a alegria. E a Santíssima Virgem tinha reunido em si toda a graça do Espírito Santo…” (In Psalmos homiliae, in Ps 32). Os sentimentos da alma de Maria derramam-se no Magnificat. A alma humilde diante dos favores de Deus sente-se movida ao gozo e ao agradecimento. Na Santíssima Virgem o benefício divino ultrapassa toda a graça concedida a qualquer criatura. “Virgem Mãe de Deus, o que não cabe nos Céus, feito homem, encerrou-Se no teu seio” (Antífona da Missa do Comum das festas de Santa Maria). A Virgem humilde de Nazaré vai ser a Mãe de Deus; jamais a omnipotência do Criador se manifestou de um modo tão pleno. E o Coração de Nossa Senhora manifesta de modo desbordante a sua gratidão e a sua alegria.

48-49. Diante desta manifestação de humildade de Nossa Senhora, exclama São Beda: “Convinha, pois, que assim como tinha entrado a morte no mundo pela soberba dos nossos primeiros pais, se manifestasse a entrada da Vida pela humildade de Maria” (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

” Que grande é o valor da humildade! – ‘Quia respexit humilitatem…’. Acima da fé, da caridade, da pureza imaculada, reza o hino jubiloso da nossa Mãe em casa de Zacarias: ‘Porque viu a minha humildade, eis que por isto me chamarão bem-aventurada todas as gerações'” (Caminho, nº 598).

Deus premia a humildade da Virgem Santíssima com o reconhecimento por parte de todos os homens da sua grandeza: “Me hão-de chamar ditosa todas as gerações”. Isto cumpre-se sempre que alguém pronuncia as palavras da Ave Maria. Este clamor de louvor à Nossa Mãe é ininterrupto em toda a terra. O Concílio Vaticano II recorda estas palavras da Virgem Santíssima ao falar-nos do culto a Nossa Senhora: “Desde os tempos mais antigos a Santíssima Virgem é honrada com o título de ‘Mãe de Deus’, e sob a sua proteção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessidades. Foi sobretudo a partir do Concílio de Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiravelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação, segundo as suas proféticas palavras: ‘Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque realizou em mim grandes coisas Aquele que é poderoso'” (Lumen gentium, n. 66).

50. “A sua misericórdia vai de geração em geração”. Estas palavras, “já desde o momento da Encarnação, abrem nova perspectiva da história da salvação. Após a ressurreição de Cristo, esta nova perspectiva passa para o plano histórico e, ao mesmo tempo, reveste-se de sentido escatológico novo. Desde então sucedem-se sempre novas gerações de homens na imensa família humana, em dimensões sempre crescentes; sucedem-se também novas gerações do Povo de Deus, assinaladas pelo sinal da Cruz e da Ressurreição e ‘seladas’ com o sinal do mistério pascal de Cristo, revelação absoluta daquela misericórdia que Maria proclamou à entrada da casa da sua parente: ‘A sua misericórdia estende-se de geração em geração’ (…).

“Maria, portanto, é aquela que conhece mais profundamente o mistério da misericórdia divina. Conhece o seu preço e sabe quanto é elevado. Neste sentido chamamos-lhe Mãe da misericórdia, Nossa Senhora da Misericórdia, ou Mãe da divina misericórdia. Em cada um destes títulos há um profundo significado teológico, porque exprimem a particuíar preparação da sua alma e de toda a sua pessoa, para torná-la capaz de descobrir, primeiro, através dos complexos acontecimentos de Israel e, depois, daqueles que dizem respeito a cada um dos homens e à humanidade inteira, a misericórdia da qual todos se tornam participantes, segundo o eterno desígnio da Santíssima Trindade, ‘de geração em geração'” (Dives in misericordia, n. 9).

51. “Os que se elevavam no seu próprio conceito”: São os que querem aparecer como superiores aos outros, a quem desprezam. E também alude à condição daqueles que na sua arrogância projectam planos de ordenação da sociedade do mundo de costas ou contra a Lei de Deus. Embora possa parecer que de momento têm êxito, no fim cumprem-se estas palavras do cântico da Virgem Santíssima, pois Deus dispersá-los-á como já fez com os que tentaram edificar a torre de Babel, que pretendiam chegasse até ao Céu (cfr Gen 11,4).

“Quando o orgulho se apodera da alma, não é estranho que atrás dele, como pela arreata, venham todos os vícios: a avareza, as intemperanças, a inveja, a injustiça. O soberbo procura inutilmente arrancar Deus – que é misericordioso com todas as criaturas – do Seu trono para se colocar lá ele, que actua com entranhas de crueldade.

“Temos de pedir ao Senhor que não nos deixe cair nesta tentação. A soberba é o pior dos pecados e o mais ridículo. (…) A soberba é desagradável, mesmo humanamente, porque o que se considera superior a todos e a tudo está continuamente a contemplar-se a si mesmo e a desprezar os outros, que lhe pagam na mesma moeda, rindo-se da sua fatuidade” (Amigos de Deus, n.° 100).

53. Esta Providência divina manifestou-se muitíssimas vezes ao longo da História. Assim, Deus alimentou com o maná o povo de Israel na sua peregrinação pelo deserto durante quarenta anos (Ex 16,4-35); igualmente Elias por meio de um anjo (l Reg 19, 5-8); Daniel no fosso dos leões (Dan 14,31-40); a viúva de Sarepta com o azeite que miraculosamente não se esgotava (l Reg 17,8 ss.). Assim também culminou as ânsias de santidade da Virgem Santíssima com a Encarnação do Verbo.

Deus tinha alimentado com a Sua Lei e a pregação dos Seus Profetas o povo eleito, mas o resto da humanidade sentia a necessidade da palavra de Deus. Agora, com a Encarnação do Verbo, Deus satisfaz a indigência da humanidade inteira. Serão os humildes que acolherão este oferecimento de Deus; os auto-suficientes, ao não desejarem os bens divinos, ficarão privados deles (cfr In Psalmos homiliae, in Ps 33).

54. Deus conduziu o povo israelita como uma criança, como Seu filho a quem amava ternamente: “Yahwéh, teu Deus, conduziu-te por todo o caminho que tendes percorrido, como um homem conduz o seu filho…” (Dt 1,31). Isto fê-lo Deus muitas vezes, valendo-se de Moisés, de Josué, de Samuel, de David, etc., e agora conduz o Seu povo de maneira definitiva enviando o Messias. A origem última deste proceder divino é a grande misericórdia de Deus que Se compadeceu da miséria de Israel e de todo o gênero humano.

55. A misericórdia de Deus foi prometida desde tempos antigos aos Patriarcas. Assim, a Adão (Gen 3,15), a Abraão (Gen 22,18), a David (2 Sam 7,12), etc. A Encarnação de Cristo tinha sido preparada e decretada por Deus desde a eternidade para a salvação da humanidade inteira. Tal é o amor que Deus tem aos homens; o próprio Filho de Deus Encarnado o declarará: “De facto. Deus amou de tal maneira o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigênito, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna” (Ioh 3,16).

Dia 1 de junho

Mc 12, 13-17

13Depois enviam-Lhe alguns dos Fariseus e Herodianos, para O apanharem em palavras. 14Chegados que foram, dizem-Lhe: Mestre, sabemos que és sincero e que não Te preocupas com ninguém, pois não fazes acepção de pessoas, mas ensinas com verdade o caminho de Deus. É ou não é lícito pagar o tributo a César? Devemos pagar, ou não devemos pagar? 15Mas Jesus, que lhes conhecia a hipocrisia, respondeu-lhes: Porque Me tentais? Trazei-Me um dinheiro, para ver. 16Trouxeram-no, e Ele disse-lhes: De quem é esta efígie e a inscrição? De César – responderam-Lhe. 17Disse-lhes então Jesus: Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E ficaram admirados com Ele.

Comentário

13-17. Jesus aproveita a armadilha que procuram estender-lhe os Seus inimigos para ensinar que o homem pertence totalmente ao seu Criador: “Tendes que dar forçosamente a César a moeda que tem impressa a sua imagem; mas vós entregai com gosto todo o vosso ser a Deus, porque está impressa em nós a Sua imagem e não a de César” (Comm. in Marcum, ad loc.).

Ao mesmo tempo, Nosso Senhor estabeleceu um princípio permanente, que há-de guiar a actuação dos cristãos na vida pública. A Igreja reconhece a justa autonomia das realidades terrenas, mas isto não quer dizer que não tenha a responsabilidade de as iluminar com a luz do Evangelho. Os leigos, ao colaborarem lado a lado com os outros cidadãos no desenvolvimento da sociedade, devem infundir um autêntico sentido cristão: “Se o papel da Hierarquia é o de ensinar a interpretar autenticamente os princípios morais que devem ser seguidos neste terreno, aos leigos corresponde, com a sua livre iniciativa, e sem esperar passivamente ordens e diretrizes, penetrar de espírito cristão a mentalidade e os costumes, as leis e as estruturas da comunidade em que vivem. As mudanças são necessárias, as reformas profundas, indispensáveis: devem empenhar-se resolutamente em infundir-lhes o espírito evangélico” (Populorum progressio, n. 81).

Dia 2 de junho

Mc 12, 18-27

18Vêm depois ter com Ele os Saduceus, que negam a ressurreição, e perguntam-Lhe: 19Mestre, Moisés prescreveu-nos que, se morrer um irmão, deixando a mulher sem filho nenhum, o irmão dele tome essa mulher e suscite descendência ao irmão. 20Havia sete irmãos: o primeiro casou e, morrendo, não deixou descendência. 21O segundo casou com a viúva e morreu sem deixar descendência. Do mesmo modo, o terceiro; 22e assim os sete não deixaram descendência. Por fim, morreu também a mulher. 23Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles será ela mulher, pois os sete a tiveram por mulher? 24Disse-lhes Jesus: Não vedes que por isso errais, porque não compreendeis as Escrituras nem o poder de Deus? 25Quando os mortos ressuscitarem, nem eles nem elas se casam, mas são como Anjos no Céu. 26E, a propósito da ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés, no passo da sarça, como Deus lhe falou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob? 27Não é Deus de mortos, mas de vivos. Andais muito errados.

Comentário

18-27. Jesus, antes de responder à dificuldade proposta pelos saduceus, quer assinalar a raiz donde procede: a tendência do homem a reduzir a grandeza divina aos limites humanos, uma excessiva confiança na razão, menosprezando a doutrina revelada e o poder de Deus. Alguém pode ter dificuldades diante das verdades da fé e isto não pode causar estranheza, pois essas verdades superam a razão. Mas é ridículo tratar de buscar contradições na palavra revelada: esse é o caminho para não resolver as dificuldades e para se extraviar definitivamente. Da Sagrada Escritura e, em geral, das coisas de Deus uma pessoa deve aproximar-se com a humildade que a fé exige. Precisamente na passagem da sarça ardente, que Jesus cita perante os saduceus, Deus disse a Moisés: “Descalça-te, que a terra que estás a pisar é sagrada” (Ex 3,5).

Dia 3 de junho

Lc 9, 11b-17

11bJesus acolheu-as [as multidões] e pôs-Se a falar-lhes do Reino de Deus, dando a saúde àqueles que necessitavam de ser curados. 12Ora o dia começava a declinar. Então os doze aproximaram-se e disseram-Lhe: Manda embora a multidão, para ir ficar e encontrar provisões às aldeias e casais em redor, pois, aqui, estamos num sítio deserto. 13Disse-lhes Ele: Dai-lhes vós de comer. Eles retorquiram: Não temos senão cinco pães e dois peixes…, a não ser que vamos nós mesmos comprar comida para todo este povo! 14Eram efectivamente uns cinco mil homens. Disse Jesus aos Seus discípulos: Fazei-os recostar por grupos de cerca de cinqüenta. 15Assim procederam e fizeram-nos recostar a todos. 16Tomando então os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou sobre eles a bênção; depois partiu-os e foi-os dando aos discípulos, para estes os servirem à multidão. 17Todos comeram e ficaram saciados. Em seguida, apanharam o que lhes tinha sobrado: doze cestos de pedaços.

Comentário

10-17. Jesus responde aos Seus discípulos sabendo bem o que ia fazer (cfr Ioh 6,5-6). Deste modo ensina pouco a pouco aos Apóstolos a confiar na omnipotência divina.

Sobre este milagre vejam-se as notas a Mt 14,14-21; 15,32; 15,33-38; Mc 6,34; 6, 41; 6,42; 8,1-9; e Ioh 6,5-9; 6,10; 6,11; 6,12-13.

Dia 4 de junho

Mc 12, 35-37

35Jesus, continuando a ensinar no Templo, perguntava: Como dizem os Escribas que Cristo é Filho de David? 36O mesmo David, inspirado pelo Espírito Santo, cantou: Disse o Senhor ao Meu Senhor: Senta-Te à Minha direita, até que ponha os Teus inimigos como escabelo dos Teus pés? 37O próprio David chama-Lhe Senhor; donde vem então que é Seu filho? E a numerosa multidão escutava-O com prazer.

Comentário

35-37. Jesus testemunha aqui, com a Sua autoridade singular, a inspiração divina da Escritura, ao dizer que David escreveu o Salmo 110 movido pelo Espírito Santo. Pelo passo aprecia-se como o começo desse Salmo era de difícil interpretação para os Judeus. Jesus Cristo expõe o sentido messiânico que têm estas palavras: “Disse o Senhor ao meu Senhor”. Esse segundo “Senhor” é o Messias, e implicitamente Jesus identifica-Se com ele. O carácter misteriosamente transcendente do Messias fica expressado pelo paradoxo de que sendo filho, descendente de David, todavia este chama-lhe seu Senhor.

Dia 5 de junho

Mc 12, 38-44

38E Ele, no Seu ensino, dizia: Guardai-vos dos Escribas, que gostam de passear com vestidos roçagantes, de ser saudados nas praças, 39de ocupar as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; 40que devoram as casas das viúvas e simulam orar longamente. Estes receberão julgamento mais severo. 41Sentando-Se depois defronte do gazofilácio, observava como a gente lá deitava moedas de cobre. Muitos ricos deitavam muito. 42Veio uma pobre viúva e deitou duas pequeninas moedas, que perfaziam um quadrante. 43E Ele, chamando os discípulos disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deitou no gazofilácio mais que todos. 44Pois que todos deitaram do que lhes sobejava, mas esta, da sua indigência, deitou quanto tinha, todo o seu sustento.

Comentário

38-40. O Senhor repreende o afã desordenado das honras humanas: “Deve advertir-se que não proíbe as saudações na praça nem ocupar os primeiros assentos àqueles a quem corresponde pelo seu ofício; mas previne os fiéis de que devem evitar, como homens maus, os que amam indevidamente tais honras” (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

41-44. O pequeno episódio é ocasião para que Nosso Senhor dê um ensinamento em que quer realçar a importância do que aparentemente é insignificante. Usa uma expressão um tanto paradoxal: a pobre viúva deitou mais que s ricos. Diante de Deus o valor das acções consiste mais na rectidão de intenção e na generosidade de espírito, que na quantia do que se dá. “Não viste os fulgores do olhar de Jesus quando a pobre viúva deixou no Templo a sua pequena esmola? – Dá-Lhe tu o que puderes dar; não está o mérito no pouco nem no muito, mas na vontade com que o deres” (Caminho, nº 829).

Por isso mesmo, também são agradáveis a Deus as nossas acções, ainda que não tenham a perfeição que seria de desejar. São Francisco de Sales comenta: “Como no tesouro do Templo foram estimadas as duas moedazinhas da pobre viúva (…), as pequenas obras boas, ainda que cumpridas com um pouco de descuido e não com toda a energia da nossa caridade, não deixam de ser gratas a Deus e de ter o seu mérito diante d’Ele; donde, ainda que elas por si mesmas não valham para aumentar o amor precedente (…), a Providência divina, que toma conta delas e pela Sua bondade as estima, imediatamente as recompensa com aumento de caridade nesta vida e com a atribuição de maior glória no Céu” (Tratado do amor de Deus, livro 3, cap. 2).

Dia 6 de junho

Lc 7, 11-17

11Em seguida, dirigiu-Se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os Seus discípulos e grande multidão. 12Quando Se aproximava da porta da cidade, traziam um defunto a enterrar, filho único de sua mãe. Esta era viúva, e vinha a acompanhá-la bastante gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: Não chores. 14Aproximando-Se, tocou no caixão e estacaram os que o transportavam. Depois disse: Meu rapaz, Eu to digo, levanta-te. 15O morto sentou-se e começou a falar; e Ele entregou-o à mãe. 16Encheram-se todos de temor e davam glória a Deus, dizendo: Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o Seu povo. 17Divulgou-se este dito a Seu respeito na Judéia inteira e em toda a região circunvizinha.

Comentário

11-17. “Jesus vê a angústia daquelas pessoas com quem Se cruza ocasionalmente. Podia ter passado de lado ou ter esperado que O chamassem e Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma Ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava – o filho.

Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu: talvez a Sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais. Supera a morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam, exigindo, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã.

Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não actua com artificialismo, só para praticar um ‘feito’; sente-Se singelamente afectado pelo sofrimento daquela mulher; não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores (Lc VII, 13). Que é como se lhe dissesse: não te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifestação do poder de Cristo, Deus. Mas antes já se dera a comoção da Sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo, Homem” (Cristo que passa, nº 166).