In Evangelho do dia

Dia 30 de novembro

Mt 4, 18-22

18Passeando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão chamado Pedro e André, seu irmão, a deitarem a tarrafa ao mar, pois eram pescadores, 19e disse-lhes: Vinde após Mim, e far-vos-ei pescadores de homens.

20E eles imediatamente, deixadas as redes, seguiram-No.

21Prosseguindo dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, na barca, com o pai Zebedeu, a consertarem as redes e chamou-os. 22E eles imediatamente, deixando a barca e o pai, seguiram-No.

Comentário

18-22. Os quatro discípulos conheciam já o Senhor (Ioh l, 35-42). A breve convivência com Jesus deve ter produzido uma atracção imperiosa nas suas almas. Cristo preparava assim a vocação destes homens. Agora trata-se já daquela vocação eficaz, que os moveu a abandonar todas as suas coisas para O seguir e ser Seus discípulos. Por cima dos defeitos humanos – que os Evangelhos não dissimulam – ressalta, sem dúvida e de modo exemplar, a generosidade e prontidão com que os Apóstolos corresponderam ao chamamento divino.

O leitor atento poderá descobrir e admirar a terna simplicidade com que os evangelistas relataram, para sempre, as circunstâncias da vocação destes homens no meio dos seus afazeres quotidianos.

“Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminho incerto entre os acontecimentos da história e chama-nos com voz forte, como um dia o fez com Pedro e André” (Cristo que passa, n° 45).

“Diálogo divino e_humano, que transformou a vida de João e de André, de Pedro, de Tiago e de tantos outros; que preparou os seus corações para escutarem a palavra imperiosa que Jesus lhes dirigiu junto ao mar da Galileia” (Cristo que passa, n° 108).

São de salientar as palavras com que a Sagrada Escritura descreve a entrega imediata destes apóstolos. Pedro e André deixaram imediatamente as redes e seguiram-No. Do mesmo modo, Tiago e João deixaram imediatamente a barca e o pai e seguiram-No. Deus passa e chama. Se não se Lhe responde imediatamente, Ele pode continuar o Seu caminho e nós podemos perdê-Lo de vista. A passagem de Deus pode ser rápida; seria triste que ficássemos para trás, por querermos segui-Lo levando connosco muitas coisas que não serão senão peso e estorvo.

Dia 1º de dezembro

Lc 10, 21-24

21Na mesma ocasião, estremeceu de alegria no Espírito Santo e disse: Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos hábeis, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do Teu agrado. 22Tudo Me foi entregue por Meu Pai. E ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

23E, voltando-Se em particular para os discípulos, disse: Felizes os olhos que vêem o que estais a ver; 24pois vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais a ver e não viram, e ouvir o que estais a ouvir e não ouviram.

Comentário

21. A este passo do Evangelho se costuma chamar “o hino de júbilo” do Senhor. Também se encontra em São Mateus (11,25-27). É um dos momentos em que Jesus manifesta a Sua alegria ao ver como os humildes entendem e aceitam a palavra de Deus.

Nosso Senhor mostra, além disso, uma consequência da humildade: a infância espiritual. Assim, diz noutro lugar: “Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser como meninos, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3). Mas a infância espiritual não comporta debilidade, frouxidão ou ignorância.

“Tenho meditado com frequência na vida de infância espiritual, que não se contrapõe à fortaleza, porque requer uma vontade rija, uma maturidade bem temperada, um carácter firme e aberto (…). Tornar-nos meninos… Renunciar à soberba, à auto-suficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque necessitamos da graça, do poder do nosso Pai, Deus, para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Ser pequeno exige abandonar-se como se abandonam as crianças, crer como crêem as crianças, pedir como pedem as crianças” (Cristo que passa, nos 10 e 143).

22. “Esta é uma expressão maravilhosa para a nossa fé – comenta Santo Ambrósio – porque quando lês ‘tudo’ compreendes que Cristo é todo-poderoso, que não é inferior ao Pai, nem menos perfeito; quando lês ‘foi-me entregue’, confessas que Cristo é o Filho, ao qual tudo pertence de direito pela consubstancialidade de natureza e não por graça de doação” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Cristo aparece aqui Onipotente, Senhor e Deus, consubstancial com o Pai, e o único que pode revelar quem é o Pai. Ao mesmo tempo só podemos conhecer a natureza divina de Jesus, se o Pai – como fez com São Pedro (cfr Mt 16,17) – nos dá a graça da fé.

23-24. Sem dúvida que o ter visto Jesus pessoalmente foi uma sorte maravilhosa para aqueles que creram n’Ele. Não obstante, o Senhor dirá a Tomé: “Bem-aventurados os que sem terem visto creram” (Ioh 20,29). São Pedro, por sua parte, diz-nos: “Amai-Lo sem O terdes visto; credes n’Ele igualmente agora, ainda que não O vejais; mas porque credes, regozijar-vos-eis com júbilo indizível e cheio de glória quando alcançardes o fim da nossa fé, a salvação das almas” (1 Pet 1,8-9).

Dia 2 de dezembro

Mt 15, 29-37

29Partindo daquela terra, foi Jesus para junto do mar da Galileia e, subindo ao monte, assentou-Se ali. 30Acorreu a Ele grande multidão, que trazia consigo coxos, tolhidos, cegos, mudos e muitos outros, que Lhe lançavam aos pés, e Ele curou-os, 31de modo que a gente se maravilhava, ao ver os mudos a falar, os tolhidos sãos e escorreitos, os coxos a andar, os cegos a ver. E glorificavam o Deus de Israel.

32Depois Jesus, chamando os Seus discípulos, disse-lhes: Tenho compaixão deste povo, porque há já três dias que anda comigo e não tem que comer. Ora, Eu não quero despedi-lo em jejum, para que não venha a desfalecer no caminho. 33Dizem-Lhe os discípulos: E onde encontramos nós, no deserto, pão bastante, para saciar tamanha multidão? 34Diz-lhes Jesus: Quantos pães tendes? Responderam: Sete e alguns peixitos. 35Então mandou sentar o povo no chão 36e tomando os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os e foi-os dando aos discípulos, e os discípulos ao povo.

37Comeram todos até se saciarem e dos pedaços que sobejaram recolheram sete cabazes cheios.

Comentário

29-31. Neste passo resume São Mateus a actividade de Jesus naquela região limítrofe da Galileia, onde viviam misturados judeus e pagãos. Como de costume, Jesus ensina e cura doentes; no relato do Evangelho é clara a ressonância da profecia de Isaías, que o próprio Cristo empregou como prova de que Ele era o Messias (Lc 7,22): “os cegos vêem, os surdos ouvem…” (Is 35,5).

“Glorificavam o Deus de Israel”: Sem dúvida refere-se aos gentios que supunham que Deus podia outorgar o poder de fazer milagres unicamente aos Israelitas. Novamente a fé dos gentios supera a dos judeus.

32. Os Evangelhos falam muitas vezes da misericórdia e compaixão do Senhor diante das necessidades dos homens: agora preocupa-Se com as multidões que O seguem e não têm que comer. Sempre tem uma palavra de consolação, de alento, de perdão: nunca passa indiferente. Mas, sobretudo, causam-Lhe pena os pecadores que caminham pelo mundo sem conhecer a luz e a verdade, e aos quais espera sempre nos sacramentos do Baptismo e da Penitência.

33-38. Como na primeira multiplicação (14, 13-20), os Apóstolos põem os pães e os peixes à disposição do Senhor. Era tudo o que tinham. Também Se serve dos Apóstolos para fazer chegar o alimento – já fruto do milagre – à gente. Na distribuição das graças de salvação Deus quer contar com a fidelidade e generosidade dos homens. “Não te esqueças: muitas coisas grandes dependem de que tu e eu vivamos como Deus quer” (Caminho, n° 755).

É de notar que nas duas multiplicações milagrosas Jesus dá o alimento em abundância, ao mesmo tempo que não se desperdiça nada do que sobra. Os milagres de Jesus, além do facto real e concreto que cada um deles é, têm também um carácter de sinal de realidades sobrenaturais. Neste caso a abundância do alimento corporal significa ao mesmo tempo a abundância dos dons divinos no plano da graça e da glória, na ordem dos meios e na ordem do prêmio eterno: Deus dá aos homens mais graças das que estritamente necessitariam. Esta é a experiência cristã desde os primeiros tempos. São Paulo diz-nos que onde “abundou o pecado superabundou a graça” (Rom 5, 20); por isso dirá aos Efésios que “a graça superabunda em nós com toda a sabedoria” (Eph l, 8); e ao seu discípulo Timóteo: “Superabundou a graça de Nosso Senhor com a fé e caridade que está em Cristo Jesus” (l Tim 1,14).

Dia 3 de dezembro

Mt 7, 21.24-27

21Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus.

24Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. 25E caiu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre a rocha. 26E todo o que ouve estas Minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. 27E caiu a chuva e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, e ela desabou, e a sua ruína foi grande.

Comentário

24-27. Estes versículos constituem como que a face positiva do passo anterior. Quem se esforça por levar à prática os ensinamentos de Jesus, ainda que venham as tribulações pessoais, ou períodos de confusão na vida da Igreja, ou se veja rodeado do erro, permanecerá forte na fé, como o homem sábio que edifica a sua casa sobre rocha.

Além disso, para permanecer fortes nos momentos difíceis é necessário, nos tempos de bonança, aceitar com boa cara as pequenas contrariedades, ser delicados no trato com Deus e com os outros, e cumprir com fidelidade e abnegação os próprios deveres de estado. Deste modo se vão lançando os fundamentos, fortalecendo a construção e reparando as fendas que se possam produzir.

Dia 4 de dezembro

Mt 9, 27-31

27Partindo Jesus dali, seguiram-No dois cegos, que diziam aos gritos: Compadece-Te de nós, Filho de David. 28Quando entrou em casa, aproximaram-se d’Ele os cegos, e Jesus disse-lhes: Credes que vo-lo posso fazer? Dizem-lhe: Sim, Senhor. 29Então tocou-lhes os olhos, dizendo: Faça-se-vos segundo a vossa fé. 30E logo os olhos se lhes abriram, e Jesus disse-lhes terminantemente: Vede que ninguém o saiba. 31Eles, porém, saídos dali, espalharam a fama d’Ele por toda aquela terra.

Comentário

27-34. O Evangelista sublinha a reacção diferente que produzem os milagres. Toda a gente admite o poder divino em tais factos, excepto os fariseus que, perante a evidência dos prodígios, atribuem estes a poderes diabólicos. A atitude farisaica endurece de tal modo o homem que a adopta, que o fecha para toda a possibilidade de salvação. Talvez o reconhecimento de Jesus como o Messias (chama-lhe: Filho de David, v. 27) por parte dos cegos tenha exasperado a paixão dos fariseus que, não obstante a doutrina sublime e os milagres de Jesus, continuam recalcitrantes na sua oposição.

Ao considerar este episódio não é difícil dar-se conta de que diante de Deus se dá este paradoxo: há cegos que vêem e videntes que não vêem nada.

30. Por que é que o Senhor não queria que tornassem público o milagre? Porque tinha que seguir um plano progressivo na manifestação de que era o Messias, Filho de Deus. Por isso, não queria precipitar os acontecimentos nem que as multidões entusiasmadas o proclamassem o Rei Messias, com uma mentalidade nacionalista que Ele queria evitar.

Isto não era só um risco, mas uma realidade. Noutro momento, por altura do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Ioh 6, 14-15), “aqueles homens, ao ver o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o Profeta que vem ao mundo. Jesus, conhecendo que viriam para O levarem e O fazerem rei, retirou-Se de novo para o monte Ele sozinho”.

31. Diz São Jerônimo (cfr Comm. in Matth., 9,31)que os cegos divulgaram o acontecimento, não porque se tenham negado a obedecer a Jesus, mas porque não encontraram outro meio de exprimir a sua gratidão.

Dia 5 de dezembro

Mt 9, 35 – 10, 1.6-8

35E Jesus andava por todas as cidades e aldeias, a ensinar nas sinagogas, a pregar o Evangelho do Reino e a curar todas as doenças e todas as enfermidades. 36Ao ver a multidão, condoeu-Se dela, porque andavam maltratados e abatidos, como ovelhas sem pastor. 37Então disse aos discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores, poucos. 38Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a Sua messe.

1E chamando a Si os doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem e para curarem todas as doenças e todas as enfermidades. (…) 6Ide antes às ovelhas desgarradas da Casa de Israel. 7Ide e pregai, dizendo: “Está próximo o Reino dos Céus”. 8Curai enfermos, ressuscitai mortos, limpai leprosos, expulsai Demônios. Dai de graça o que de graça recebeste.

Comentário

35. O Concílio Vaticano II recorre a este lugar para assinalar a mensagem de caridade cristã que a Igreja deve levar a toda a parte: “Efectivamente, a caridade cristã a todos se estende sem discriminação de raça, condição social ou religião; não espera qualquer lucro ou agradecimento. Portanto, assim como Deus nos amou com um amor gratuito, assim também os fiéis, pela sua caridade, sejam solícitos para com os homens, amando-os com o mesmo zelo com que Deus veio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino de Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição, de modo especial com os pobres e aflitos, e de bom grado por eles gasta as forças” (Ad gentes, n. 12).

36. “Condoeu-Se dela”: O verbo grego é profundamente expressivo: “comover-se nas entranhas”. Jesus com efeito, comoveu-Se ao ver o povo, porque os seus pastores, em vez de o guiarem e cuidarem dele, o desencaminhavam, comportando-se mais como lobos do que como verdadeiros pastores do seu próprio rebanho. Jesus vê na situação do Seu tempo cumprida a profecia de Ez 34, em que Deus, por meio do profeta, increpa os maus pastores de Israel, em substituição dos quais enviará o Messias.

“Se fôssemos consequentes com a nossa fé, quando olhássemos à nossa volta e contemplássemos o espectáculo da História e do Mundo, não poderíamos deixar de sentir crescer nos nossos corações os mesmos sentimentos que animaram o de Jesus Cristo” (Cristo que passa, n.° 133). Com efeito, a consideração das necessidades espirituais do mundo deve levar-nos a um infatigável e generoso trabalho apostólico.

37-38. À contemplação da multidão abandonada pelos seus pastores, seguem-se as palavras de Jesus que nos apresentam, sob a imagem da messe, essa mesma multidão preparada para que se realize nela a obra da Redenção: “Levantai os vossos olhos e vede os campos que estão dourados para a sega” (Ioh 4, 35). O campo arroteado pelos Profetas, ultimamente por São João Baptista, está já coberto de espigas maduras. Do mesmo modo que nos trabalhos do campo se não se sega no momento oportuno a colheita se perde, assim na Igreja se sente ao longo dos séculos a urgência de colher a messe, que é muita e está preparada.

A dificuldade é que agora, como nos tempos de Jesus, os obreiros são poucos em proporção com a tarefa. A solução é dada pelo próprio Senhor: orar, rogar a Deus, Dono da messe, para que envie os obreiros necessários. Será difícil que um cristão, que se ponha a rezar de verdade, não se sinta urgido a participar pessoalmente neste trabalho apostólico. Ao cumprir este mandato de Jesus Cristo, deve pedir-se de modo especial que não faltem os bons pastores, que dêem aos outros operários da messe os meios de santificação necessários para a tarefa apostólica.

Na verdade, recorda-nos o Papa Paulo VI: “A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos, de todos os que o receberam. O dever missionário recai sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo; mas todos, todos devemos ser solidários no cumprimento deste dever. Assim pois, que a consciência de cada crente se pergunte: Tenho cumprido o meu dever missionário? A oração pelas Missões é o primeiro modo de pôr em prática este dever” (Alocução na recitação do Angelus, 23-X-1977).

1-4. Tão essencial é a oração na vida da Igreja, que Jesus chama os Seus Doze Apóstolos depois de lhes ter recomendado que rezassem para que o Senhor enviasse operários para a Sua messe (cfr Mt 9, 38). Toda a actividade apostólica dos cristãos deve ser, pois, precedida e acompanhada por uma intensa vida de oração, visto que não se trata de uma empresa meramente humana mas divina. O Senhor inicia a Sua Igreja chamando Doze homens que vão ser como que os doze patriarcas do Novo Povo de Deus que é a Sua Igreja. Este Novo Povo não se constituirá por uma descendência segundo a carne, mas por uma descendência espiritual. Os seus nomes ficam aqui registrados. A sua escolha é gratuita: não se distinguiram por serem sábios, poderosos, importantes…; são homens normais e correntes que responderam com fé à graça do chamamento de Jesus. Todos serão fiéis ao Senhor, excepto Judas Iscariotes. Inclusive, Jesus antes de morrer e ressuscitar gloriosamente, confere-lhes esses poderes de expulsar os espíritos imundos e de curar enfermidades, como antecipação e preparação da missão salvífica que lhes dará depois.

É comovedor saber os nomes daqueles primeiros. A Igreja venera-os com especial afecto e sente-se orgulhosa de ser continuadora – apostólica – da missão sobrenatural que eles iniciaram, e de ser fiel ao testemunho que souberam dar da doutrina de Cristo. Não há verdadeira Igreja sem a ininterrupta sucessão apostólica e a continuada identificação com o espírito que os Apóstolos souberam encarnar.

“Apóstolo”: Significa enviado, porque Jesus Cristo os enviava a pregar o Seu Reino e a Sua doutrina,

O Concílio Vaticano II, na mesma linha do Vaticano I, confessa e declara que a Igreja está constituída hierarquicamente: “O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3,13-19; Mt 10,1-10); e a estes Apóstolos (cfr Lc 6, 13) constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21, 15-17). Enviou-os primeiro aos filhos de Israel e, depois, a todos os povos (cfr Rom l, 16), para que, participando do Seu poder, fizessem de todas as gentes discípulos Seus e as santificassem e governassem (cfr Mt 28,16-20; Mc 16, 15; Lc 24, 45-48; Ioh 20, 21-23) e deste modo propagassem e apascentassem a Igreja, servindo-a, sob a direcção do Senhor, todos os dias até ao fim dos tempos (cfr Mt 28, 28)” (Lumen gentium, n. 19).

1. Neste capítulo 10 São Mateus expõe como Jesus, para levar para a frente no futuro o Reino de Deus que inaugura, tem o propósito de fundar a Igreja, e para isso escolhe, dá poderes e instrui os Doze Apóstolos que são o germe da Sua Igreja.

5-15. De maneira semelhante a como na escolha dos Apóstolos (vv. 1-4) Jesus mostra a Sua vontade de fundar a Igreja, no presente passo (vv. 5-15) manifesta o Seu propósito de formar esses primeiros Apóstolos, já antes da Sua Morte e Ressurreição. Deste modo Jesus Cristo começou a pôr os fundamentos da Sua Igreja desde os começos do Seu ministério público.

Todos temos necessidade de uma formação doutrinal e apostólica para desempenhar a nossa vocação cristã. A Igreja tem o dever de ensinar, e os fiéis têm a obrigação de fazer seu esse ensinamento. Por conseguinte, cada cristão deve aproveitar os meios de formação que a Igreja lhe oferece, nas circunstâncias concretas em que Deus o colocou na vida.

5-6. Segundo o plano de salvação estabelecido por Deus, ao povo hebraico foram feitas as promessas (a Abraão e aos Patriarcas), conferida a Aliança, dada a Lei (Moisés) e enviados os Profetas. Deste povo, segundo a carne, nasceria o Messias. Compreende-se que o Messias e o Reino de Deus devessem ser anunciados à Casa de Israel primeiro que aos não Judeus. Por isso, nesta primeira aprendizagem de missão apostólica, Jesus restringe o campo da sua actividade só aos Judeus, sem que tal circunstância possa significar um obstáculo ao carácter universal da missão da Igreja. Com efeito, Jesus mandar-lhes-ia mais tarde: “Ide, pois, doutrinai todos os povos” (Mt 28,19); “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15). Também os Apóstolos, na primeira expansão do Cristianismo, ao evangelizar uma cidade em que havia alguma comunidade de judeus, costumavam dirigir-se a estes em primeiro lugar (cfr Act 13,46).

7-8. Até então os Profetas tinham anunciado ao povo eleito os bens messiânicos, por vezes em imagens acomodadas à sua mentalidade ainda pouco madura espiritualmente. Agora, Jesus envia os Seus Apóstolos a anunciar que esse Reino de Deus prometido está iminente, manifestando os seus aspectos espirituais. Os poderes mencionados no v. 8 são precisamente o sinal anunciado pelos Profetas acerca do Reino de Deus ou reino messiânico. Primariamente (caps. 8 e 9) estes poderes messiânicos exerce-os Jesus Cristo; agora dá-os aos Seus discípulos para mostrar que essa missão é divina (cfr Is 35,5-6; 40,9; 52,7; 61,1).

Dia 6 de dezembro

Lc 3, 1-6

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e da região da Traconítide, e Lisânias tetrarca da Abilena, 2no pontificado de Anás e Caifás, fez-se ouvir a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. 3E ele foi a toda a zona do Jordão, a pregar um baptismo de penitência para a remissão dos pecados. 4como está escrito no Livro dos Oráculos do profeta Isaías:

Voz de um que brada no deserto:

Preparai o caminho do Senhor, endireitai as Suas veredas.

5Todo o barranco será preenchido e todo o monte e colina serão abatidos;

os lugares tortuosos ficarão direitos

e os escabrosos, caminhos planos.

6E verá toda a criatura a salvação de Deus.

Comentário

1. O Evangelho situa com precisão no tempo e no espaço a aparição pública de João Baptista, o Precursor de Cristo. Tibérío César foi o segundo imperador romano, e o ano décimo quinto do seu Império corresponde ao ano 27 ou ao 29 da nossa era, segundo dois cômputos de tempo possí­veis.

Pondo Pilatos foi Procurador ou praefectus da Judeia desde o ano 26 ao 36 da nossa era. A sua jurisdição estendia-se também à Samaria e à Idumeia.

Este Herodes é Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, a quem sucedeu em parte do seu território, não com o título de rei, mas de tetrarca. Esta última denominação utili­zava-se para assinalar uma autoridade subordinada ao poder romano. Herodes Antipas morreu no ano 39 da nossa era e foi quem mandou degolar São João Baptista. Sobre a identi­ficação dos quatro Herodes, que aparecem no NT, cfr a nota aMt2,l.

Filipe, também filho de Herodes o Grande e irmão de Herodes Antipas, foi tetrarca das regiões indicadas no texto sagrado até ao ano 34 d.C. Casou com Herodíade, de que se fala em Mc 6,17-19.

2. O sumo sacerdote era então Caifás, que exerceu o seu pontificado desde o ano 18 ao 36 d.C. Anás, seu sogro, que tinha sido deposto no ano 15 pela autoridade romana, con­servava ainda tal influência que de facto era considerado como cabeça da política e da religião judaicas. Pôr isso, quando prendem Cristo, o primeiro interrogatório faz-se diante de Anás (Ioh 18,12-24). O texto dá-lhe, pois, com grande propriedade o título de sumo sacerdote.

2-3. São Lucas introduz de forma solene a figura de João Baptista, de quem os Evangelhos falam em repetidas ocasiões. Quando Cristo elogia o Baptista (cfr Mt 11,7-9), realça com clareza a sua vontade firme e o seu empenho em cumprir a missão que Deus lhe tinha confiado. Notas características da personalidade de João são a humildade, a austeridade, a coragem e o espírito de oração. Levar a cabo com perfeição uma missão tão excelsa — ser o Precursor do Messias — merece de Cristo singular louvor: João Baptista é o maior entre os nascidos de mulher (cfr Mt 11,11); «o archote que ardia e alumiava» (Ioh 5,35). Ardia pelo seu amor, brilhava pelo seu testemunho. Cristo «era a luz» (Ioh £,9); o Baptista « veio… para dar testemunho da luz, para que os cressem por ele» (Ioh 1,7).

João Baptista apresenta-se a pregar a necessidade de fazer penitência. Prepara «o caminho do Senhor» E o pregoeiro da Salvação. Mas simples pregoeiro, simples voz que anuncia. O Baptista proclama: «Vem (…) aquele a quem eu pip sou digno de desatar a correia das sandálias» (Ioh L27). Por isso O assinala: «Eis o Cordeiro de Deus» (Ioh 1 ,29.36), eis aí o « Filho de Deus» (Ioh l ,34); e vê com gozo que os seus próprios discípulos vão com Cristo (Ioh 1,37), «é necessário que Ele cresça — diz — e que eu diminua» (Ioh 3,30).

4-6. Na segunda parte do livro de Isaías (caps. 40-55), chamada «Livro da Consolação», anuncia-se ao povo ju­daico que sofrerá com o desterro um novo êxodo, e que será então guiado não por Moisés, mas pelo próprio Deus; cami­nhará de novo através do deserto até chegar à nova terra de promissão. Com a pregação do Baptista, que anuncia a chegada de Jesus Cristo, cumpre-se esta profecia.

Perante a vinda iminente do Senhor, os homens devem dispor-se interiormente, fazer penitência dos seus pecados, retificar a sua vida para receber a graça especial divina que traz o Messias. Tudo isto significa esse aplanar os montes, retificar e suavizar os caminhos de que fala o Baptista.

A Igreja na sua liturgia do Advento anuncia-nos todos os anos a vinda de Jesus Cristo, Salvador nosso, e exorta cada cristão a essa purificação da sua alma mediante uma renovada conversão interior.

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