dia 30 de março a 5 de abril de 2009

Dia 30 de março

Jo 11, 1-45

1Estava doente certo homem, Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. 2Maria era aquela que ungiu o Senhor com perfume e Lhe enxugou os pés com os cabelos; seu irmão Lázaro é que estava doente. 3Mandaram-Lhe, pois, dizer as irmãs: Senhor, olha que está doente aquele de quem és amigo! 4Quando ouviu isto, Jesus observou: Essa doença não é de morte, é antes para a glória de Deus, para o Filho de Deus ser glorificado por ela.

5Ora Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. 6Mas, tendo ouvido dizer que ele estava doente, ainda ficou dois dias no sítio em que Se encontrava. 7Só depois é que disse aos discípulos: Vamos outra vez para a Judeia. 8Rabi – observam-Lhe os discípulos – ainda há pouco procuravam os Judeus apedrejar-Te, e Tu vais outra vez para lá?! 9Jesus retorquiu: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz consigo. 11Assim falou, declarando-lhes depois disso: O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo. 12Disseram-Lhe então os discípulos: Senhor, se está a dormir, salvar-se-á. 13Jesus referia-Se à morte dele, mas eles pensaram que falava do sono natural. 14Disse-lhes então Jesus abertamente: Lázaro morreu, 15e Eu, por vossa causa, estou contente por lá não ter estado, para que vós acrediteis. Mas vamos ter com ele. 16Disse então Tomé, que é chamado Dídimo, aos companheiros: Vamos nós também, para morrermos com Ele!

17E assim Jesus, ao chegar, encontrou-o já com quatro dias de túmulo. 18Ora Betânia era perto de Jerusalém, cerca duns quinze estádios; 19e muitos Judeus tinham vindo até junto de Marta e de Maria, para as consolarem pela morte do irmão.

20Quando Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, foi-Lhe ao encontro, enquanto Maria ficava em casa. 21Disse então Marta a Jesus: Se cá estivesses, Senhor, não teria morrido meu irmão! 22Ainda agora eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus To há-de conceder. 23Diz-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. 24Responde-Lhe Marta: Eu sei que há-de ressuscitar na altura da Ressurreição, no último dia! 25Eu sou a Ressurreição e a Vida – volveu-lhe Jesus. – Quem acredita em Mim, ainda que venha a morrer, viverá; 26e todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá jamais. Acreditas nisto? 27Acredito, Senhor- Lhe diz ela – eu já acreditava que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo!

28Dito isto, retirou-se e foi chamar sua irmã Maria, dizendo em segredo: Está ali o Mestre e manda-te chamar! 29Ela, ao ouvir isto, levanta-se prontamente e vai ter com Ele. 30Jesus, de facto, ainda não tinha entrado na aldeia, mas conservava-Se no sítio em que Marta Lhe tinha vindo ao encontro. 31Então os Judeus que estavam com Maria em casa a consolá-la, quando a viram levantar-se apressadamente e sair, foram atrás dela, pensando que ia ao túmulo, para aí chorar. 32Maria, ao chegar aonde estava Jesus, caiu-Lhe aos pés, quando O viu, dizendo-Lhe: Se cá estivesses, Senhor, não teria morrido meu irmão! 33Então Jesus, quando a viu a soluçar e os Judeus que tinham vindo com ela a soluçar também, teve um frêmito na alma e perturbou-Se; 34depois perguntou: Onde o pusestes? Responderam-Lhe: Vem ver, Senhor. 35Jesus chorou. 36Diziam então os Judeus: Olha como Ele o estimava! 37Mas alguns deles observavam: Não podia Ele, que abriu os olhos do cego, ter feito igualmente com que este não tivesse morrido?

38Então Jesus, tendo um novo frêmito no íntimo, chega ao túmulo. Era uma furna e nela estava colocada uma pedra. 39Diz Jesus: Tirai a pedra. Responde-Lhe Marta, irmã do morto: Já cheira, Senhor, pois está no quarto dia. 40Diz-lhe Jesus: Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus? 41Tiraram, pois, a pedra. Então Jesus ergueu os olhos ao alto e disse: Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. 42Eu bem sabia que sempre Me ouves, mas foi por causa da multidão dos circunstantes que o disse, para que acreditem que Tu Me enviaste. 43Dito isto, bradou em alta voz: Lázaro, vem cá para fora! 44O morto saiu, atado de pés e mãos com ligaduras e a cara envolta num lençol. Diz-lhes Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. 45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele.

Comentário

1-45. Este capítulo relata um dos milagres mais relevantes de Jesus. Recolheu-o o quarto Evangelho, confirmando assim o poder de Jesus sobre a morte, que os evangelhos sinópticos tinham mostrado com a ressurreição da filha de Jairo (Mt 9,25 par.) e do filho da viúva de Naim (Lc 7,12).

O Evangelista apresenta em primeiro lugar as circunstâncias do facto (vv. 1-16); depois o diálogo de Jesus com as irmãs de Lázaro (vv. 17-37); finalmente a ressurreição deste, quatro dias após a sua morte (vv. 38-45). Betânia distava apenas uns três quilômetros de Jerusalém (v. 18). Jesus, nos dias anteriores à Sua Paixão, freqüentou a casa desta família, com que tinha grande amizade. São João faz notar os sentimentos de afecto de Jesus (vv. 3.5.36) ao descrever a Sua emoção e dor pela morte do amigo.

A ressurreição de Lázaro é ocasião para que o Senhor mostre o Seu poder divino sobre a morte, e dê assim uma prova da Sua Divindade, para confirmar a fé dos Seus discípulos e manifestar-Se como a Ressurreição e a Vida. A maior parte dos judeus, excepto os saduceus (cfr Mt 22,23), criam na futura ressurreição dos mortos. Essa é a fé que confessa também Marta (cfr v. 24).

A volta de Lázaro à vida, além de ser um facto real, histórico, é um sinal da nossa ressurreição futura. Mas Cristo, com a Sua ressurreição gloriosa, pela qual é o “primogênito de entre os mortos” (1Cor 15,20; Col 1,18; Apc 1,5), é também a causa da nossa ressurreição e modelo da mesma. Nisso se distingue a Sua ressurreição da de Lázaro, visto que “Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morre mais” (Rom 6,9), enquanto Lázaro só volta à vida terrena para ter de morrer outra vez.

2. Nos Evangelhos aparecem várias mulheres com o nome de Maria. Aqui trata-se de Maria de Betânia, a irmã de Lázaro (v. 2), a mesma que depois ungiu o Senhor, também em Betânia, em casa de Simão o leproso (cfr Ioh 12,1-8; Mc 14,3): o indefinido ou aoristo “ungiu” exprime uma acção passada relativamente ao tempo em que escreve o Evangelista, embora a unção fosse posterior à ressurreição de Lázaro.

Maria de Betânia, Maria Madalena e a mulher “pecadora” que ungiu os pés do Senhor na Galileia (cfr Lc 7,36), são uma, duas ou três mulheres? Ainda que às vezes se tenda a identificar as três, parece mais provável que se trate de pessoas diferentes. Em primeiro lugar, deve distinguir-se a unção da Galileia (Lc 7,36) realizada pela “pecadora”, da unção de Betânia levada a cabo pela irmã de Lázaro (Ioh 12,1); tanto pelo tempo em que têm lugar, como pelos pormenores específicos, são claramente diferentes. Por outro lado, nos Evangelhos não há nenhum indício positivo de que Maria de Betânia fosse a mesma que a “pecadora” da Galileia. Também não há base firme para identificar Maria Madalena com a “pecadora”, da qual não se dá o nome; a Madalena aparece entre as mulheres que seguem Jesus na Galileia, da qual tinha expulsado sete demônios (cfr Lc 8,2) e que Lucas apresenta na sua narração como um personagem ainda não conhecido, nem dá nenhum outro elemento que permita relacionar ambas as mulheres.

Por último, Maria de Betânia e Maria Madalena também não se podem identificar, pois João distingue as duas mulheres: nunca chama à irmã de Lázaro Maria Madalena, nem a esta, que está junto da Cruz (Ioh 19,25), que acorre ao sepulcro e a quem o Senhor ressuscitado aparece (Ioh 20,1.11-18), a relaciona para nada com Maria de Betânia.

A razão de que algumas vezes se tenha confundido Maria de Betânia com Maria Madalena deve-se, por um lado, à identificação desta com a “pecadora” da Galileia, por relacionar a possessão diabólica da Madalena com a condição pecadora da que fez a unção da Galileia; e, por outro lado, à confusão das duas unções: a irmã de Lázaro seria a “pecadora” protagonista da única unção. Deste modo concluiu-se, sem base sólida, na confusão das três mulheres numa, ainda que a interpretação melhor fundada e mais comum entre os exegetas seja a de que se trata de três mulheres diferentes.

4. A glória de que fala aqui Cristo, diz Santo Agostinho, “não foi um ganho para Jesus, mas proveito para nós. Portanto, diz Jesus que a doença não é de morte, porque aquela morte não era para morte, mas antes em ordem a um milagre, pelo qual os homens cressem em Cristo e evitassem assim a verdadeira morte” (In Ioann. Evang., 49,6).

8-10. A lapidação era a pena capital que se aplicava aos blasfemos (cfr Lev 24,16). Vimos que pelo menos duas vezes intentaram lapidar Jesus. A primeira porque tinha proclamado a Sua filiação divina e a Sua existência eterna ao afirmar que “era” antes de Abraão (Ioh 8,58-59). A segunda por manifestar a Sua unidade com o Pai (cfr Ioh 10,30-31).

Estes intentos das autoridades judaicas falharam porque ainda não tinha chegado a hora de Jesus, isto é, o tempo designado pelo Pai para a Sua Morte e Ressurreição. Quando chegar a Crucifixão será a hora dos Seus inimigos “e o poder das trevas” (Lc 22,53). Mas até esse momento é o tempo da luz, em que o Senhor podia caminhar sem perigo de morte.

16. As palavras de Tomé recordam as dos Apóstolos no Cenáculo, dispostos a tudo, inclusivamente a morrer pelo seu Mestre (cfr Mt 26,31-35). Já por ocasião do discurso do Pão da Vida, quando muitos dos discípulos abandonaram o Senhor, os Doze permaneceram fiéis (cfr Ioh 6,67-71), e seguiram-No apesar das suas debilidades. Mas quando Jesus, depois da traição de Judas Iscariotes, Se deixar prender em Getsemani sem resistência alguma, proibindo inclusivamente a defesa pelas armas (cfr Ioh 18,11), desconcertar-se-ão e abandonarão o Mestre. Só São João permanecerá fiel na hora suprema do Calvário.

18. “Quinze estádios”: Uns três quilômetros.

21-22. Segundo interpreta Santo Agostimho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, “não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressuscites meu irmão (…). Somente disse: Sei que tudo podes e fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos” (In Ioann. Evang., 49,13). O mesmo se deve dizer acerca das palavras de Maria que São João relata pouco mais adiante (v. 32).

24-26. Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo, e que São João nos transmite com fidelidade (cfr Ioh 10,9.14; 14-16; 15,1): Jesus é a Ressurreição e a Vida. É a Ressurreição porque com a Sua vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é um sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar também um dia, como Cristo (cfr 1 Cor 15,23; Col 1,18). Por isso para o crente a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada como diz um dos Prefácios da Liturgia de defuntos: “A vida daqueles que cremos em Ti, Senhor, não termina, transforma-se; e, ao desfazer-se a nossa morada terrena, adquirimos uma mansão eterna no céu”.

Ao dizer que é a Vida, Jesus refere-Se não só à que começa no mais além, mas também à vida sobrenatural que a graça opera na alma do homem que ainda se encontra a caminho.

“Esta vida, prometida e proporcionada a cada homem pelo Pai em Jesus Cristo, eterno e unigênito Filho, encarnado e nascido da Virgem Maria ‘ao chegar a plenitude dos tempos’ (cfr Gal 4,4), é o complemento final da vocação do homem; é, de alguma maneira, o cumprir-se daquele ‘destino’ que, desde toda a eternidade, Deus lhe preparou. Este ‘destino divino’ torna-se via, por sobre todos os enigmas, as incógnitas, as tortuosidades e as curvas, do ‘destino humano’ no mundo temporal. Se, de facto, tudo isto, não obstante toda a riqueza da vida temporal, leva por inevitável necessidade à fronteira da morte e à meta da destruição do corpo humano, apresenta-se-nos Cristo para além desta meta: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim… não morrerá jamais’. Em Jesus Cristo crucificado, deposto no sepulcro e depois ressuscitado, ‘brilha para nós a esperança da feliz ressurreição… a promessa da imortalidade futura’ (Missal Romano, Prefácio de defuntos I), em direcção à qual o homem caminha, através da morte do corpo, partilhando com tudo o que é criado e visível esta necessidade a que está sujeita a matéria” (Redemptor hominis, n. 18).

33-36. Podemos contemplar a profundidade e delicadeza dos sentimentos de Jesus. Se a morte corporal do amigo arranca lágrimas ao Senhor, que não fará a morte espiritual do pecador, causa da sua condenação eterna? “Cristo chorou: chore também o homem sobre si mesmo. Por que chorou Cristo senão para ensinar o homem a chorar?” (In Ioann. Evang., 49,19). Choremos nós também, mas pelos nossos pecados, para que voltemos à vida da graça pela conversão e pelo arrependimento. Não desprezemos as lágrimas do Senhor, que chora por nós, pecadores:

“Jesus é teu amigo. – O Amigo. – Com coração de carne, como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro…

– E tanto como a Lázaro, quere-te a ti” (Caminho, n° 422).

41-42. A Humanidade Santíssima de Jesus está a exprimir a Sua Filiação divina natural, não adoptiva como a dos outros homens. Daí brotam estes sentimentos de Jesus Cristo que nos ajudam a compreender que quando Ele diz “Pai”, o afirma com uma intensidade e autenticidade inefáveis e únicas. Assim, quando os Evangelhos apresentam Jesus em oração, sempre põem em realce que começa com a invocação “Pai”, reflectindo o Seu amor e confiança singulares (cfr Mt 11,25 e par.). Esses sentimentos devem dar-se também, de algum modo, na nossa própria oração, visto que pelo Baptismo nos unimos a Cristo e n’Ele tornamo-nos filhos de Deus (cfr Ioh 1,12; Rom 6,1-11; 8,14-17). Daqui que devamos orar sempre com espírito filial e com gratidão pelos muitos benefícios recebidos de Nosso Pai Deus.

O milagre da ressurreição de Lázaro, realmente extraordinário, é uma prova de que Jesus é o Filho de Deus, enviado ao mundo pelo Pai. E assim, quando Lázaro ressuscita, aumenta a fé dos discípulos (v. 15), de Marta e de Maria (vv. 26.40) e da multidão (vv. 36.45).

43. Jesus chama Lázaro pelo seu nome. Embora estivesse verdadeiramente morto, não tinha perdido a sua identidade pessoal: os defuntos continuam a existir mas de outro modo, pois passam da vida mortal para a vida eterna. Por isso, Jesus Cristo afirma que Deus “não é Deus de mortos mas de vivos”, pois para Ele todos vivem (cfr Mt 22,32; Lc 20,38).

Este passo pode aplicar-se à ressurreição espiritual da alma em pecado que recobra a graça. Deus quer a nossa salvação (cfr 1 Tim 2,4), portanto, jamais havemos de desanimar no nosso afã e esperança por alcançar essa meta:

“Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: ‘jam foetet, quatriduanus est enim’ – já fede, porque há quatro dias que está enterrado, diz Marta a Jesus.

Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires (‘Lazare, veni foras!’ – Lázaro vem para fora!), voltarás à Vida” (Caminho, n° 719).

44. Os Judeus amortalhavam lavando e ungindo o corpo do defunto com aromas para retardar algo a decomposição e atenuar o fedor; depois envolviam o cadáver com tecidos e ligaduras, cobrindo-lhe a cabeça com um sudário. Era um sistema parecido ao que se empregava no Egipto, mas sem proceder a um embalsamamento completo, que implicava a extracção de certas vísceras.

O túmulo de Lázaro devia consistir num aposento subterrâneo que comunicava com a superfície por uma escadaria, cuja porta estava tapada com uma lousa. Lázaro foi movido por uma força sobrenatural até à entrada. Como já tinha acontecido na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,42-43), devido ao assombro, ninguém se moveu até que as palavras do Senhor romperam o ambiente de silêncio e temor que se tinha criado.

Santo Agostinho vê na ressurreição de Lázaro uma figura do sacramento da Penitência: como Lázaro do túmulo “sais tu quando te confessas. Pois, que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária. E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse o Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desatardes na terra, será desatado também no céu” (In Ioann. Evang., 49,24). A arte cristã recolhe esta comparação, já desde os primeiros séculos, nas catacumbas, onde encontramos umas cincoenta e três representações da ressurreição de Lázaro, simbolizando assim o dom da vida da graça por meio do sacerdote, que repete de novo diante do pecador: “Lázaro, vem cá para fora”.

Dia 31 de março

Jo 8, 21-30

21Disse-lhes ainda: Eu vou-Me embora; haveis de procurar-Me, mas morrereis no vosso pecado. Vós não podeis vir para onde Eu vou. 22Ele foi-lhes dizendo: Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. 24Ora Eu disse-vos: “Morrereis nos vossos pecados, visto que, se não acreditardes que Eu sou, haveis de morrer nos vossos pecados”.

25Perguntaram-Lhe então: Tu quem és? Disse-lhes Jesus: Precisamente aquilo que vos digo! 26Tenho, a vosso respeito, muito que dizer e que julgar. Mas Aquele que Me enviou é verídico e Eu, o que Lhe ouvi, ao mundo o comunico. 27Eles não perceberam que lhes falava do Pai. 28Disse então Jesus: Quando elevardes o Filho do homem, então sabereis que Eu sou e que por Mim nada faço, mas conforme o Pai Me ensinou é que falo. 29Aquele que Me enviou está comigo: não Me deixou só, porque Eu sempre faço o que é do Seu agrado. 30Enquanto assim falava, muitos acreditaram n’Ele.

Comentário

21-24. Ao começar o Seu ministério público, Jesus apresentou-Se com os traços próprios do Messias prometido; alguns reconhecem-No como tal e aderem a Ele (cfr Ioh 1,12-13; 4,42; 6,69; 7,41); mas as autoridades hebreias, apesar de esperarem a vinda do Messias (cfr Ioh 1,19 ss.), persistem na sua atitude de repulsa perante Jesus. Daí a advertência que agora lhes dirige: Ele vai aonde eles não podem ir, isto é, irá para o Céu donde procede (cfr Ioh 6,41 ss.) e eles continuarão a esperar o Messias anunciado pelos profetas; mas nem encontrarão o Messias, porque o buscam fora de Jesus, nem agora O podem seguir, porque não crêem n’Ele. Vós sois deste mundo – vem o Senhor dizer-lhes -, não por estardes na terra mas por viverdes sob o influxo do príncipe deste mundo (cfr Ioh 12,31; 14,30; 16,11), por serdes vassalos e realizardes as suas obras (cfr 15,19); por isto morrereis nos vossos pecados. “Todos nascemos com pecado – comenta Santo Agostinho -; todos durante a vida acrescentamos outros ao pecado de origem, e temo-nos feito mais do mundo do que éramos quando nascemos dos nossos pais. Onde estaríamos se aquele que não tem sombra de pecado não tivesse vindo para destruir todo o pecado? Os judeus, por não crerem n’Ele, foram justamente sentenciados: Morrereis nos vossos pecados” (In Ioann. Evang., 38,6).

A salvação que Cristo traz será aplicada a todos os que crêem na Sua divindade. A divindade é declarada quando Jesus diz “Eu sou”, porque esta expressão, repetida noutras ocasiões (cfr Ioh 8,28; 13,19), estava reservada a Yahwéh no Antigo Testamento (cfr Dt 32,39; Is 43,10-11), onde Deus, ao revelar o Seu Nome, e com ele a Sua essência, diz a Moisés: “Eu sou o que sou” (Ex 3,14). Com esta expressão tão profunda Deus diz de Si mesmo que é o Ser supremo em sentido absoluto e pleno, que não depende de nenhum outro ser, e do qual todos dependem no seu ser e no seu existir. Assim, pois, Jesus ao dizer de Si mesmo “Eu sou” revela que é Deus.

25. Pouco antes Jesus tinha falado da Sua origem celeste e da Sua natureza divina (cfr vv. 23-24); mas os judeus resistem a aceitar essa revelação; por isso buscam agora uma declaração ainda mais explícita: “Tu quem és?”. A resposta do Senhor pode entender-se de diversas maneiras, pois o texto grego admite dois sentidos: 1) o Senhor confirma o que tinha proclamado imediatamente antes (cfr vv. 23-24) ou ao longo do Seu ensino em Jerusalém, e assim pode traduzir-se “absolutamente”, ou então, “em primeiro lugar o que vos estou a dizer”. Esta é a interpretação da Neo-vulgata. 2) Jesus indica que Ele é o “Princípio”, termo que São João utiliza também no Apocalipse para designar o Verbo, causa de toda a criatura (Apc 3,14; cfr Apc 1,8). Com isso exprime Jesus a Sua origem divina: esta é a interpretação da Vulgata. Em qualquer dos casos, Cristo manifesta de novo a Sua divindade, reafirmando o que disse antes, mas sem voltar a repetir as palavras que já escutaram.

Esta mesma pergunta dos judeus põe-se a muitos homens do nosso tempo: “Quem era Jesus? A nossa fé exulta e grita: é Ele, é Ele, o Filho de Deus feito homem; o Messias que esperávamos: é o Salvador do mundo, é, finalmente, o Mestre da nossa vida; é o Pastor que conduz os homens aos seus pastos no tempo, aos seus destinos mais além do tempo; é a alegria do mundo; a imagem do Deus invisível; o Caminho, a Verdade e a Vida; é o Amigo íntimo, o que nos conhece inclusivamente de longe e penetra os nossos pensamentos; é o que nos pode perdoar, consolar, curar, inclusivamente ressuscitar; e é Aquele que voltará, juiz de todos e de cada um, na plenitude da Sua glória e da nossa felicidade eterna” (Paulo VI, Audiência geral, 11-XII-1974.

26-27. “Aquele que Me enviou”: Expressão que se encontra muito freqüentemente no Evangelho de São João para se referir a Deus Pai (cfr 5,37; 6,44; 7,28; 8,16).

Os judeus que escutavam Jesus não compreendiam a quem Se estava a referir ao dizer “Aquele que Me enviou”; mas São João explica, ao narrar este episódio, que Cristo fala de Deus Pai, de Quem procede.

“Lhes falava do Pai”: Esta é a leitura da maioria dos códices gregos, entre eles os mais importantes. Outros códices gregos e algumas versões, como a Vulgata, lêem “chamava Deus a Seu Pai”.

“O que Lhe ouvi”: Jesus tem um conhecimento conatural do Pai, e segundo este conhecimento fala aos homens; não conhece por revelação ou por inspiração como os profetas ou os hagiógrafos, mas de um modo infinitamente superior. Por isso podia dizer que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho queira revelá-lo (cfr Mt 11,27).

28. O Senhor refere-Se à Sua Paixão e Morte: “E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim. Dizia isto assinalando de que morte ia morrer” (Ioh 12,32-33). Completando os Sinópticos e as Cartas de São Paulo, o quarto Evangelho apresenta a Cruz, sobretudo como um trono real em que Cristo “posto no alto” oferece a todos os homens os frutos da salvação (cfr Ioh 3,14-15; cfr também Num 21,9 ss.; Sap 16,6).

Jesus diz que, chegado aquele momento, os judeus conheceriam quem era Ele e a estreita união que tinha com o Pai, porque muitos deles descobririam, mercê da Sua Morte seguida da Ressurreição, que era o Messias, o Filho de Deus (cfr Mc 15,39; Lc 23,47 s.). Depois da vinda do Espírito Santo serão milhares as pessoas que crerão n’Ele (cfr Act 1,41; 4,4).

Dia 1º de abril

Jo 8, 31-42

31Dizia então Jesus aos Judeus que n’Ele tinham acreditado: Se permanecerdes na Minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos, 32conhecereis a verdade, e a verdade libertar-vos-á. 33Eles responderam-Lhe: Nós somos a descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; como é que Tu dizes: “ficareis livres”? 34Retorquiu–lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado. 35Ora o escravo não fica na casa para sempre; o filho é que fica para sempre. 36Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas vós procurais matar-Me, porque a Minha palavra não tem cabimento em vós.

38Eu digo o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai. 39Retorquiram-Lhe eles: O nosso pai é Abraão! Se fôsseis filhos de Abraão – disse-lhes Jesus – faríeis as obras de Abraão. 40Mas vós procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus! Isso não fez Abraão! 41Vós fazeis as obras do vosso pai. Disseram-Lhe eles: Nós não nascemos da prostituição; só temos um Pai, que é Deus! 42Disse-lhes Jesus: Se fosse Deus o vosso Pai, vós amar-Me-íeis, pois de Deus é que eu saí e venho. É que Eu não vim de Mim próprio, mas foi Ele que Me enviou.

Comentário

30-32. Aos judeus que então crêem em Jesus pede-lhes muito mais que a fé momentânea produzida por um entusiasmo superficial; trata-se de ser verdadeiros discípulos, de modo que as palavras de Jesus informem as suas vidas para sempre. O fruto dessa fé profunda será o conhecimento da verdade e uma vida autenticamente livre.

O conhecimento da verdade de que fala Cristo não é só intelectual, mas antes o amadurecimento na alma da semente da Revelação divina. Esta culmina nas palavras de Cristo, e é uma verdadeira comunicação de vida sobrenatural (cfr Ioh 5,24): aquele que crê em Jesus, e através d’Ele no Pai, recebe o maravilhoso dom da vida eterna. Conhecer a verdade, em última análise, é conhecer o próprio Cristo, Deus encarnado para a nossa salvação, sentir que o Deus inacessível Se fez homem, nosso Amigo, nossa vida.

Esse conhecimento é o único que realmente nos torna livres, porque nos tira do estado de afastamento de Deus, do pecado, e, portanto, da escravidão do demônio e de todas as ataduras da nossa natureza caída, e nos introduz na senda da amizade divina, da graça, do Reino de Deus. Por isso esta liberdade não só é luz que nos marca o caminho, mas graça, força que nos dá a possibilidade de o percorrer apesar das nossas limitações.

“Jesus Cristo vai ao encontro do homem de todas as épocas, também do da nossa época, com as mesmas palavras que disse alguma vez: ‘conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Estas palavras encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo tempo, uma advertência: a exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade; e a advertência, ademais, para que seja evitada qualquer verdade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que despedaça essa liberdade nas próprias raízes, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência. Que confirmação estupenda disto mesmo deram e não cessam de dar aqueles que, graças a Cristo e em Cristo, alcançaram a verdadeira liberdade e a manifestaram até em condições de constrangimento exterior!” (Redemptor hominis, n. 12).

“O próprio Cristo une, de modo particular, a libertação com o conhecimento da verdade: ‘Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Esta frase atesta sobretudo o íntimo significado da liberdade com que Cristo nos liberta. Libertação significa transformação interior do homem, conseqüência do conhecimento da verdade. A transformação é, portanto, um processo espiritual no qual o homem progride ‘na justiça e na santidade verdadeiras’ (Eph 4,24) (…). A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, tornando mais profunda deste modo a vida interior do homem; a verdade tem também um significado e uma força profética; ela constitui o conteúdo do testemunho e exige um testemunho. Encontramos esta força profética da verdade nos ensinamentos de Cristo: Como Profeta, como testemunha da verdade, Cristo opõe-Se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão, e a miúde não duvida em censurar o falso” (João Paulo II, Audiência geral de 21-II-1979).

São Tomás de Aquino explica o profundo conteúdo destas palavras do Senhor do seguinte modo: “Libertar neste passo não se refere a tirar qualquer angústia (…), mas propriamente significa tornar livre, e isto de três modos: primeiro, a verdade da doutrina tornar-nos-á livres do erro da falsidade (…); segundo, a verdade da graça livrará da escravidão do pecado: ‘A lei do espírito de vida que está em Cristo Jesus libertou-me da lei do pecado e da morte’ (Rom 8,2); terceiro, a verdade da eternidade em Cristo Jesus livrar-nos-á da corrupção (cfr Rom 8,21)” (Comentário sobre S. João, ad loc.)

“A verdade libertar-vos-á”: “Que verdade é esta que inicia e consuma o caminho da liberdade em toda a nossa vida? Resumi-la-ei com a alegria e com a certeza que nascem da relação de Deus com as Suas criaturas: saber que saímos das mãos de Deus, que somos objecto da predilecção da Santíssima Trindade, que somos filhos de tão grande Pai. Eu peço ao meu Senhor que nos decidamos a ter isso sempre em consideração, a saboreá-lo dia-a-dia; assim actuaremos como pessoas livres. Não o esqueçais: quem não sabe que é filho de Deus desconhece a sua verdade mais íntima e carece, na sua actuação, do domínio e do senhorio próprios dos que amam o Senhor acima de todas as coisas” (Amigos de Deus, n.° 26).

33-34. Durante séculos o povo de Israel tinha estado sujeito a outras nações (Egipto, Babilônia, Pérsia…), e naquele momento encontrava-se sob a dominação de Roma. Por isso estes judeus entenderam que Jesus Se referia a uma escravidão ou domínio político, ao qual tinham estado submetidos de facto, embora nunca o tivessem aceitado. Além disso, por pertencer ao povo escolhido por Deus, consideravam-se livres dos erros e aberrações morais dos povos pagãos.

Eles pensavam que a verdadeira liberdade estava baseada no facto de pertencer ao povo eleito. O Senhor responde que ser da linhagem de Abraão não basta, mas que a verdadeira liberdade consiste em não ser escravos do pecado. Tanto judeus como pagãos estavam submetidos à escravidão do pecado original e dos pecados pessoais (cfr Rom 5,12; 6,20 e 8,2). Só Cristo, o Filho de Deus, podia libertar desta triste situação (cfr Gal 4,21-51); mas os judeus que O escutavam não entenderam a obra redentora que Cristo estava a realizar e que culminaria com a Sua Morte e Ressurreição.

“O Salvador – comenta Santo Agostinho – manifestou com estas palavras, não que ficaríamos livres dos povos dominadores, mas do demônio; não do cativeiro do corpo, mas da malícia da alma” (Sermo 48).

35-36. As palavras escravo e filho evocam os dois filhos de Abraão: Ismael, nascido da escrava (Agar), que não terá parte na herança; e Isaac, nascido da livre (Sara), que será herdeiro das promessas de Deus (cfr Gen 21,10-12; Gal 4,28-31). Não basta a descendência carnal de Abraão para herdar as promessas de Deus e salvar-se, mas é preciso identificar-se, pela fé e pela caridade, com Jesus Cristo, o verdadeiro e próprio Filho do Pai, o único que pode tornar-nos filhos de Deus e deste modo trazer-nos a verdadeira liberdade (cfr Rom 8,21; Gal 4,31). Cristo dá “poder para ser filhos de Deus, aos que crêem no Seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem do querer do homem, mas de Deus” (Ioh 1,12-13). Assim, o homem que se identifica com Cristo torna-se filho de Deus e obtém a liberdade própria dos filhos.

“A liberdade adquire o seu sentido autêntico quando se exerce ao serviço da verdade que resgata, quando se gasta a procurar o amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões. Aumentam cada dia mais os meus desejos de anunciar em altos brados esta insondável riqueza do cristão: a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rom VIII,21) (…). Donde nos vem esta liberdade? De Cristo, Nosso Senhor. Esta é a liberdade com que Ele nos redimiu (cfr Gal IV,31). Por isso ensina: se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres (Ioh VIII,36). Nós, os cristãos, não temos de pedir emprestado a ninguém o verdadeiro sentido deste dom, porque a única liberdade que salva o homem é a cristã (Amigos de Deus, nos 27 e 35).

37-41. O Senhor responde à objecção dos judeus: efectivamente são filhos de Abraão, mas só em sentido natural, segundo a carne, circunstância carecida já de valor, pois o que agora conta é a aceitação de Jesus como Enviado do Pai. Espiritualmente os interlocutores de Jesus estão muito longe de terem a verdadeira filiação de Abraão: este alegrou-se ao ver o Messias (cfr Ioh 8,56); pela sua fé foi justificado (cfr Rom 4,1 ss.), e a sua fé moveu-o a levar uma conduta conseqüente (cfr Iac 2,21-24); por isto chegou a alcançar o gozo da eterna bem-aventurança (cfr Mt 8,11; Lc 16,24). Pelo contrário, aqueles judeus “eram seus descendentes carnais, mas tinham degenerado não imitando a fé daquele de quem eram filhos” (In Ioann. Evang., 42,1). Os que vivem da fé – diz São Paulo – são os verdadeiros filhos de Abraão e junto com ele serão abençoados por Deus (cfr Gal 3,7-9). Mais ainda, os que agora discutem com o Senhor não só rejeitam a Sua doutrina, mas as suas obras denunciam outra filiação radicalmente diferente: “Vós fazeis as obras de vosso pai”, expressão que contém de forma velada a acusação de serem filhos do diabo (cfr v. 44).

A falsa segurança que sentiam os judeus por descenderem de Abraão pode ter o seu paralelismo num cristão que se contentasse com ser baptizado e com fazer algumas práticas religiosas, abandonando as exigências que traz consigo a fé em Jesus Cristo.

Dia 2 de abril

Jo 8, 51-59

51Em verdade, em verdade vos digo: Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experimentará a morte. 52Disseram-Lhe os Judeus: Agora sabemos nós que estás possesso do Demônio. Abraão morreu, os profetas também, e Tu dizes: “Se alguém guardar a Minha palavra, nunca mais experimentará a morte”. 53Serás Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas morreram também! Quem pretendes ser? 54Jesus replicou: Se Eu Me glorificar a Mim mesmo, nada será a Minha glória. É Meu Pai que Me glorifica, Ele de quem dizeis: “É o nosso Deus”. 55Vós, porém, não O conheceis; Eu é que O conheço. E se dissesse que O não conhecia, seria, como vós, mentiroso. Mas Eu conheço-O e guardo a Sua palavra. 56O vosso pai Abraão exultou com a idéia de ver o Meu dia; viu-o e rejubilou. 57Disseram-Lhe então os Judeus: Ainda não tens cinqüenta anos e viste Abraão? 58Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Antes de Abraão existir, Eu sou! 59Então apanharam pedras para Lhas atirarem. Mas Jesus ocultou-Se e saiu do Templo.

Comentário

51-53. “Nunca mais experimentará a morte”: O Senhor promete a vida eterna àqueles que acolherem o Seu ensinamento e permanecerem fiéis a ele.

O pecado, como ensina o quarto Evangelho, é morte da alma; e a graça santificante, vida (cfr Ioh 1,4.13; 3,15.16.36; etc.). Pela graça temos o começo da vida eterna, o penhor da Glória que alcançaremos para além desta vida terrena e que é a Vida verdadeira. Os judeus, obcecados na sua hostilidade, não querem escutar as palavras do Senhor e por isso não O entendem.

55. O conhecimento de que fala o Senhor implica algo mais que um mero saber ou compreender. Deste conhecimento já se fala no Antigo Testamento, onde o verbo “conhecer” denota amor, fidelidade, entrega generosa. O amor a Deus é conseqüência do conhecimento certo que d’Ele tenhamos e, ao mesmo tempo, conhecemos melhor a Deus à medida que O amamos mais.

Jesus, cuja Humanidade Santíssima estava unida intimamente – ainda que sem confusão – com a Sua Divindade na única Pessoa do Verbo, não podia deixar de afirmar o Seu conhecimento singular e inefável do Pai. Mas esta linguagem verdadeira de Jesus tornava-se absolutamente incompreensível para aqueles que se fechavam à fé, até ao ponto de O considerarem como blasfemo (cfr v. 59).

56. Jesus apresenta-Se como o cumprimento das esperanças dos patriarcas do Antigo Testamento. Eles mantiveram-se fiéis anelando ver o dia da Redenção. Referindo-se à fé dos patriarcas exclama São Paulo: “Todos eles morreram na fé, sem terem recebido os bens que lhes tinham sido prometidos, mas contemplando-os de longe e saudando-os, e confessando ao mesmo tempo ser peregrinos e hóspedes na terra” (Heb 11,1-2.13). Entre eles sobressai Abraão, nosso pai na fé (cfr Gal 3,7), que recebe a promessa de ser pai de um povo numeroso, o povo escolhido, de que nascerá o Messias.

O futuro cumprimento das promessas messiânicas foi já para Abraão causa de imensa alegria: “Abraão, nosso pai, tendo a certeza de que se cumpriria a antiga promessa e esperando contra toda a esperança, recebeu no nascimento do seu filho Isaac as primícias proféticas da alegria messiânica. Tal alegria encontra-se como que transfigurada através de uma prova de morte, quando o seu filho único lhe é devolvido vivo, prefigurando a Ressurreição do Filho Único de Deus que havia de vir, prometido para um sacrifício em que se realizaria a Redenção. Abraão exultou ao pensar que veria o dia de Jesus Cristo, o dia da Salvação: ‘viu-o e alegrou-se’ (Gaudete in Domino, II).

Jesus move-Se num plano superior ao dos patriarcas, pois estes só viram profeticamente, “de longe”, o dia de Cristo, isto é, o acontecimento da Redenção, enquanto Ele é que leva a cabo.

58. A resposta de Jesus à observação céptica dos judeus encerra uma revelação da Sua divindade. Ao dizer “antes de Abraão existir, Eu sou”, o Senhor está a referir-Se à Sua eternidade, própria da natureza divina. Por isso exclama Santo Agostinho: “Reconhecei o Criador, distingui a criatura. Quem falava era descendente de Abraão, mas para que Abraão fosse feito, antes de Abraão Ele era” (In Ioann. Evang., 43,17).

Os Santos Padres evocam, em relação com as palavras de Cristo, a solene teofania do Sinai: “Eu sou o que sou” (Ex 3,14), e também a distinção que São João faz no prólogo do seu Evangelho entre um mundo que “foi feito” e o Verbo que “era” desde toda a eternidade (cfr Ioh 1,1-3). A expressão “Eu sou”, empregada por Jesus de maneira absoluta, equivale, pois, a afirmar a Sua eternidade e a Sua divindade.

Dia 3 de abril

Jo 10, 31-42

31De novo os Judeus trouxeram pedras para O apedrejarem. 32Jesus dirigiu-lhes a palavra: Tenho-vos apresentado muitas boas obras devidas ao Pai. Por qual dessas obras Me quereis apedrejar? 33Replicaram-Lhe os Judeus: Não é por uma boa obra que Te queremos apedrejar, é por blasfêmia; e porque Tu, sendo homem, Te fazes Deus. 34Jesus respondeu-lhes: Não está escrito na vossa Lei: Eu disse: Vós sois deuses? 35Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus – e a Escritura não pode abolir-se – 36de Mim, a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, vós dizeis: “estás a blasfemar!” por Eu ter dito: “sou Filho de Deus”? 37Se não faço as obras de Meu Pai, não acrediteis em Mim. 38Mas, se as faço, embora não queirais acreditar em Mim, dai crédito às obras, para que reconheçais e fiqueis a saber que o Pai está em Mim e Eu estou no Pai.

39Procuravam então novamente prendê-Lo, mas Ele escapou-Se-lhes das mãos.

40Depois retirou-Se novamente para o outro lado do Jordão, para o lugar onde João tinha estado primeiro a baptizar, e por lá Se conservou. 41Muitos foram ter com Ele e diziam: João, é certo, não fez qualquer milagre, mas tudo quanto disse acerca d’Este era verdade. 42E muitos, ali, acreditaram n’Ele.

Comentário

31-33. Os judeus compreendem que Jesus afirma ser Deus, mas interpretam as Suas palavras como uma blasfêmia. Chamaram-Lhe blasfemo quando perdoou os pecados do paralítico (Mt 9,1-8) e acusando-O de blasfemo condená-Lo-ão também quando confessar solenemente a Sua divindade diante do Sinédrio (Mt 26,63-65). Nosso Senhor manifestou, pois, a Sua natureza divina; mas aqueles ouvintes rejeitaram esta revelação do mistério de Deus Encarnado, fechando-se diante das provas que Jesus lhes oferecia. Por isso O acusam de que, sendo homem, Se faz Deus. A fé apóia-se em argumentos razoáveis – milagres e profecias – para crer que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ainda que o nosso entendimento limitado nos impeça de compreender como isto pode ser. Na verdade, o Senhor, para reafirmar a Sua divindade, recorre a dois argumentos que os Seus adversários não poderão rebater: o testemunho da Sagrada Escritura – profecias – e o das Suas próprias obras – milagres -.

34-36. O Evangelho mostrou-nos já várias respostas do Senhor a objecções dos judeus. Agora Jesus recorre com paciência a uma argumentação que para eles tinha força decisiva: a autoridade da Sagrada Escritura. Cita o Salmo 82 em que Deus censura uns juizes pela sua actuação injusta, apesar de lhes ter recordado: “Sois deuses, todos vós, filhos do Altíssimo” (Ps 82,6). Se, segundo este Salmo, os filhos de Israel são chamados deuses e filhos de Deus, com quanta maior razão há-de ser chamado Deus Aquele que foi santificado e enviado por Deus. Com efeito, a natureza humana de Cristo ao ser assumida pelo Verbo fica santificada plenamente e vem ao mundo para santificar os homens. “Os Santos Padres constantemente proclamam nada estar remido que não tivesse sido primeiro assumido por Cristo. Ora Ele assumiu por inteiro a natureza humana tal qual ela existe em nós, pobres e miseráveis, rejeitando dela apenas o pecado. De Si mesmo disse Cristo que era Aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo” (Ad gentes, n. 3).

Com o uso que faz Jesus da Sagrada Escritura (cfr Mt 4,4.7.10; Lc 4,1.17, etc.) ensina-nos o carácter divino desta. Por isto a Igreja crê e afirma que “as coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa Madre Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (Ioh 20,31; 2 Tim 3,16; 2 Pet 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (…). E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras” (Dei Verbum, n. 11).

37-38. As obras a que Se refere o Senhor são os Seus milagres, em que se manifesta o poder de Deus. Jesus apresenta as Suas palavras e as Suas obras como uma unidade, em que os milagres confirmam as Suas palavras e estas explicam o sentido dos milagres. Por isso, quando afirma que é o Filho de Deus, confirma esta revelação com os milagres que realiza. Assim pois, se ninguém pode negar o facto dos milagres, justo é reconhecer a veracidade das Suas palavras.

41-42. Em contraste com a oposição de uns (cfr Ioh 10,20.31.39), está a adesão de outros, que O vão buscar ao lugar para onde Se retirou. A actividade preparatória de São João Baptista continua a dar os seus frutos: aqueles que tinham aceitado a pregação do Baptista agora buscam Cristo, e crêem ao verem que n’Ele se cumprem as palavras do Precursor quando anunciava que Jesus era o Messias, o Filho de Deus (Ioh 1,34).

O labor que se faz em nome do Senhor nunca é inútil. “Assim, meus queridos irmãos, mantei-vos firmes, inamovíveis, progredindo sempre na obra do Senhor, sabendo que o nosso trabalho não é vão no Senhor” (1 Cor 15,58). Assim como a palavra e o exemplo do Baptista serviram para que mais tarde muitos cressem em Jesus, o exemplo apostólico dos cristãos nunca será de balde, ainda que às vezes não se veja imediatamente o resultado. “Semear. – Saiu o semeador… – Semeia aos punhados, alma de apóstolo. – O vento da graça arrastará a tua semente, se o sulco onde caiu não for digno… Semeia, e está certo de que a semente vingará e dará o seu fruto” (Caminho, n° 794).

Dia 4 de abril

Jo 11, 45-56

45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele. 46Alguns deles, porém, foram ter com os Fariseus e disseram-lhes o que Jesus havia feito. 47Os Sumos Sacerdotes e os Fariseus reuniram conselho. Que havemos de fazer— diziam eles — uma vez que este homem realiza tantos milagres? 48Se O deixarmos assim, todos acreditarão n’Ele, e os Romanos virão destruir-nos o Lugar e a Nação. 49Mas um deles, Caifás, sendo Sumo Sacer­dote nesse ano, disse-lhes: Vós não sabeis nada 50nem discorras que vos interessa que morra um só homem pelo povo e não pereça a Nação inteira! 51Isto, porém, não o disse por si próprio, mas sendo Sumo Sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus ia morrer pela Nação, 52e não só pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos. 53A partir, pois, desse dia, ficaram decididos a dar-Lhe a morte. 54Jesus, por isso, já não andava abertamente entre os Judeus, mas retirou–Se dali para uma região junto do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e por lá Se conservou com os discípulos. 55Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e muitos subiram da província a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem. 56Procuravam eles a Jesus e diziam entre si, estacionando no Templo: Que vos parece? Que Ele não virá à festa?

Comentário

45-48. Uma vez mais Jesus, tal como o velho Simeão tinha predito, aparece como sinal de contradição (cfr Lc 2,34; Ioh 7,12.31.40; 9,16; etc.): diante do milagre da ressur­reição de Lázaro uns crêem n’Ele (v. 45) e outros denunciam-No aos Seus inimigos (w. 46-47). Estas atitudes di­versas confirmam o dito na parábola do rico avarento: «Também não se convencerão mesmo que um dos mortos ressuscite» (Lc 16,31).

«O Lugar»: Com esta expressão, ou outras semelhantes («o lugar», «este lugar»), designava-se o Templo, lugar sagrado por excelência e, por extensão, toda a Cidade Santa, Jerusalém (cfr 2 Mach 5,19; Act 6,14).

49-53. Caifás exerceu o sumo pontificado do ano 18 ao 36 d. C. (cfr Começo do Ministério Público, p. 80). Caifás é o instrumento de Deus para profetizar a Morte redentora do Salvador, pois uma das funções do sumo sacerdote era consultar Deus para guiar o povo (cfr Ex 28,30; Num 27,21; l Sam 23,9; 30,7-8). Neste caso as palavras de Caifás têm um duplo sentido: um, pretendido por ele mesmo, é a sua intenção de dar morte a Cristo com o pretexto de garantir a tranqüilidade e sobrevivência política de Israel; outro, que­rido pelo Espírito Santo, é o anúncio da fundação do novo Israel, a Igreja, mediante a Morte de Cristo na Cruz; Caifás não captou este sentido. Desta maneira o último pontífice da Antiga Aliança profetiza a investidura do Sumo Sacerdote da Nova, selada com o Seu próprio Sangue.

Quando o Evangelista afirma que Cristo ia morrer «para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos» (v. 52), refere-se ao que o Senhor tinha dito acerca dos efeitos salvíficos da Sua morte (cfr Ioh 10,14-15). Já os profetas tinham anunciado a futura congregação dos Israelitas fiéis a Deus para formar o novo povo de Israel (cfr Is 43,5; ler 23,3-5; Ez 34,23; 37,21-24). Estes vaticínios cumpriram-se com a Morte de Cristo, que, ao ser exaltado na Cruz, atrai e reúne o verdadeiro Povo de Deus, formado por todos os crentes, sejam ou não Israelitas. O Concilio Vaticano II apoia-se neste passo ao falar da universalidade da Igreja: «Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos/para se cumprir o desígnio da vontade de Deus, que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os Seus filhos que estavam dispersos (cfr Ioh 11,52). Foi para isto que Deus enviou o Seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas; (cfr Heb 1,2), para ser mestre, rei e sacerdote universal, cabeça do novo e universal Povo dos filhos de Deus» (Lumen gentium, n. 13).

No século IV, São João Crisóstomo explicava aos seus fiéis a catolicidade da Igreja com estas palavras: «Que quer dizer ‘para reunir os que estavam próximo’ e ‘os que esta­vam dispersos’? Que os fez um só corpo. Quem reside em Roma sabe que os cristãos da índia são seus membros» (Hom. sobre S. João, 65,1).

54. Ainda não tinha chegado a hora da Sua morte; por isso Jesus actua com prudência, pondo os meios humanos para não precipitar os acontecimentos.

55. Sendo a Páscoa a festa mais solene dos Judeus, os fiéis chegavam uns dias antes a Jerusalém para se prepa­rarem para a sua celebração por meio de abluções, jejuns e oferendas: práticas que não eram tanto exigidas pela lei mosaica como pela piedade do povo. Os próprios ritos da Páscoa, com a imolação do cordeiro, serviam de purificação e de expiação pelos pecados. A Páscoa dos Judeus era figura da Páscoa cristã, pois, como nos ensina o Apóstolo São Paulo, o nosso cordeiro pascal é Cristo (cfr l Cor 5,7), o qual Se ofereceu de uma vez para sempre ao eterno Pai na Cruz para expiar pelos nossos pecados. Paulo VI recordava esta verdade gozosa da nossa fé: «Sacrificou-Se? Mas, será que existe ainda uma religião que se exprima em sacrifícios? Não, os sacrifícios da antiga lei e das religiões pagas já não têm razão de ser; mas de um sacrifício, um sacrifício válido, único e perene, sem dúvida que tem sempre necessidade o mundo para a redenção do pecado humano; (…) e é o sacrifício de Cristo sobre a cruz, o que apaga o pecado do mundo; sacrifício que a Eucaristia actualiza no tempo, dando aos homens desta terra a possibilidade de participar nele» (Alocução de 17-VI-1976).

Se os Judeus se preparavam com tantos ritos e abluções para celebrar a Páscoa, que não devemos fazer nós para celebrar ou participar na Santa Missa e receber Cristo — nossa Páscoa — na Eucaristia! «Quando na Terra se recebem pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala. Para albergar Cristo na nossa alma, como devemos pre­parar-nos? Já teremos por acaso pensado como nos compor­taríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?» (Cristo que passa, n,° 91).

Dia 5 de abril

Mc 14, 1 – 15, 47

Paixão, morte e ressurreição de Jesus

Dois dias depois era a Páscoa e os Ázimos. E os Príncipes dos sacerdotes e os Escribas procuravam maneira de O prender à traição, para O matarem; 2pois diriam: «Durante a festa não, para não suceder que se levante algum tumulto entre o povo». 3Ora, estando Ele em Betânia, em casa de Simão, o leproso, sentado à mesa, entrou uma mulher com um frasco de alabastro cheio de perfume de nardo genuíno, de grande valor e, quebrando o frasco de ala­bastro, derramou-Lho sobre a cabeça. 4Indignados, alguns diziam entre si: Para quê este desperdício de perfume? 5Podia vender–se por mais de trezentos dinheiros e dar-se aos pobres. E criticavam-na asperamente. 6Mas Jesus disse: Deixai-a. Porque a estais a molestar? Foi uma obra boa que ela praticou comigo. 7Com efeito, pobres sempre os tereis convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; a Mim, porém não Me tereis sempre. 8Ela fez quanto estava em sua mão: antecipou-se a ungir o Meu corpo para a sepultura. 9Em verdade vos digo que, em todo o mundo, onde quer que for pregado o Evangelho, há de também referir-se, em memória dela, o que ela fez. Mas Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os Príncipes dos sacerdotes, para Lho entregar. Eles, ao ouvirem-no, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro; e ele buscava modo de O entregar em ocasião oportuna. 12 No primeiro dia dos Ázimos, quando imolavam a Páscoa, dizem-Lhe os discípulos: Onde queres que vamos fazer os prepa­rativos para comeres a Páscoa? 13Ele manda dois discípulos e diz-lhes: Ide à cidade, e sair-vos-á ao encontro um homem com um cântaro de água. Segui-o 14e dizei ao dono da casa onde entrar: «O Mestre manda dizer: Onde está a Minha sala em que possa comer a Páscoa com os Meus discípulos?». 15 Ele mostrar-vos-á urna grande sala no andar superior, já mobiliada e pronta. Fazei lá os preparativos. 16Partiram os discípulos e, entrando na cidade, encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. 17Ao anoitecer, veio com os doze. 18Ora, quando estavam à mesa a comer, disse Jesus: Em verdade vos digo que um de vós Me há-de entregar; um que está a comer comigo. 19Eles começaram a entristecer-se profundamente e a perguntar um por um: Porventura sou eu? 20Disse-lhes Ele: É um dos doze que mete comigo a mão no prato. 21 Porque o Filho do homem vai, conforme está escrito d’Ele, mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor lhe fora a esse homem não ter nascido! 22Durante a ceia, tomou um pão, pronunciou a fórmula da bênção, partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: Tomai; isto é o Meu corpo. “Tomou depois o cálice, deu graças e passou-lho, e todos beberam dele. 24E disse-lhes: Isto é o Meu sangue do Testamento, derramado por muitos. 25Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o hei-de beber novo no Reino de Deus. 26E, cantados os hinos, saíram para o Monte das Oliveiras. 27E Jesus diz-lhes: Todos vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas. 28Mas, depois de ressuscitar, irei diante de vós para a Galileia. 29Diz-Lhe Pedro: Ainda que todos se escandalizem, eu é que não! 30Diz-lhe Jesus: Em verdade te digo que tu hoje, nesta mesma noite, antes que o galo cante duas vezes, Me negarás três. 31Mas ele insistia com mais força: Ainda que tenha de morrer contigo, não Te hei de negar. Outro tanto diziam todos os mais. 32Entretanto chegam a uma granja, de nome Getsemani, e Jesus diz aos Seus discípulos: Ficai aqui enquanto Eu orar. “Tomou no horto consigo a Pedro, Tiago e João e começou a aterrorizar-Se e a angustiar-Se; 34e disse-lhes: A minha alma sente uma tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai. 35E, adiantando–Se um pouco, prostrou-Se por terra e orava para que, se fosse possível, passasse longe d’Ele aquela hora. 36E dizia: Aba, meu Pai, tudo Te é possível! Afasta de Mim este cálice, mas não se faça o que Eu quero, senão o que Tu queres. 37Vem depois, encontra-os a dormir e diz a Pedro: Simão, dormes? Não foste capaz de vigiar nem uma hora? 38Vigiai e orai para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca. 39Afastou-Se de novo e orou, dizendo as mesmas palavras. 40E, voltando de novo, encontrou-os a dormir, porque tinham os olhos carregados de sono e não sabiam o que Lhe haviam de responder.41 Vem pela terceira vez e diz-lhes: Dormi agora e descansai. Basta. Chegou a hora: eis que o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos peca­dores. 42Levantai-vos! Vamos! Já aí está o que Me entrega. 43E imediatamente, estando ainda a falar, chega Judas, um dos doze, e com ele um tropel de gente com espadas e varapaus, enviada pelos Príncipes dos sacerdotes, Escribas e Anciãos. O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar é Ele. Prendei-O e levai-O com cautela.».45Ao chegar, logo se acerca d’Ele e diz: Rabi! E beijou-O. 46Eles então lançaram-Lhe as mãos e pren­deram-No. 47Mas um dos presentes arrancou da espada e feriu o servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe uma orelha. 48E Jesus, tomando a palavra, disse-lhes: Como a ladrão, saístes a prender-Me com espadas e varapaus. 49Todos os dias estava entre vós no Templo a ensinar, e não Me prendestes. Mas é para que se cumpram as Escrituras. 50Então os discípulos abandonaram-No e fugiram todos. 51 Ia-O seguindo um mancebo envolto apenas num lençol. Deitaram-lhe a mão. 52Mas ele, largando o lençol, fugiu nu. 53Levaram Jesus a casa do Sumo Sacerdote, onde se juntaram todos os Príncipes dos sacerdotes, Anciãos e Escribas. 54Pedro seguiu-O de longe até dentro do átrio do Sumo Sacerdote, onde se sentou ao lume com os criados, para se aquecer. 55Os Príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum testemunho contra Jesus, para O conde­narem à morte, mas não o encontravam, 56pois que, embora muitos depusessem falsamente contra Ele, os seus depoimentos não concor­davam. 57Levantaram-se finalmente alguns e depuseram falsamente contra Ele, dizendo: 58Ouvimo-Lo dizer: «Eu destruirei este santuário feito à mão e em três dias edificarei outro que não será obra de mãos». 59Mas nem assim concordava o seu depoimento. 60Levantou-se então o Sumo Sacerdote no meio do conselho e perguntou a Jesus: Não respondes nada ao que estes depõem contra Ti? 61Mas Ele calava-Se e nada respondia. De novo o Sumo Sacerdote Lhe perguntou: És Tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito? 62Eu O sou. E haveis de ver o Filho do homem sentado à direita da Omnipotência e vir com as nuvens do céu. 63O Sumo Sacerdote, rasgando as suas túnicas, exclama: Que necessidade temos de mais testemunhas? 64Ouvistes a blasfêmia. Que vos parece? E eles todos sentenciaram que era réu de morte. 65Aqui começaram alguns a cuspir-Lhe e a tapar-Lhe o rosto e a dar-Lhe punhadas e a dizer-Lhe: «Adivinha». E os criados rece­beram-No com bofetadas. 66Entretanto Pedro estava em baixo, no pátio. Veio uma das criadas do Sumo Sacerdote 67e, vendo Pedro a aquecer-se, fixou-o e disse-lhe: Também tu estavas com o Naza­reno, com Jesus. 68Ele negou, dizendo: Não sei, não entendo o que dizes. E saiu para o vestíbulo, e cantou o galo. 69A criada, porém, vendo-o, começou a dizer outra vez aos presentes: Este é um deles. 70Mas ele segunda vez negou. Pouco depois os que ali estavam disseram de novo a Pedro: Verdadeiramente tu és um deles, pois és também galileu. 71Ele, porém, começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem que dizeis. 72E logo o galo cantou pela segunda vez. Lembrou-se então Pedro da palavra que Jesus lhe dissera: «Antes que o galo cante duas vezes, três Me hás-de negar». E desatou a chorar.

Capítulo 15

E, logo pela manhã, os Príncipes dos sacerdotes tiveram conselho com os Anciãos e Escribas e todo o Sinédrio e, manietando Jesus, levaram-No e entregaram-No a Pilatos. 2Perguntou-Lhe Pilatos: És Tu o Rei dos Judeus? Ele respondeu-lhe: Tu o dizes. 3Entretanto os Príncipes dos sacerdotes acusavam-No de muitas coisas. 4Pilatos tornou-Lhe, pois, a perguntar: Não respondes nada? Olha de quantas coisas Te acusam. 5Jesus, porém, nada mais respondeu, de modo que Pilatos estava admirado. 6Ora, por ocasião da festa, costumava soltar-lhes um preso que eles pedissem. 7Havia, pois, um chamado Barrabás, preso com os sediciosos, o qual numa sedição tinha perpetrado um homicídio. 8Subindo, o povo começou a pedir a graça que lhe costumava fazer. 9Respondeu-lhes Pilatos: Quereis que vos solte o Rei dos Judeus? 10Pois sabia que era por inveja que os Prín­cipes dos sacerdotes O tinham entregado. 11 Mas os Príncipes dos sacerdotes levaram o povo a pedir que lhes soltasse antes Barrabás. I2Tomando outra vez a palavra, disse-lhes Pilatos: Que hei-de então fazer d’Aquele que vós chamais o Rei dos Judeus? 13Eles tor­naram a gritar: Crucifica-O! 14Replicou Pi­latos: Mas que mal fez? Eles gritaram com mais força: Crucifica-O! 15Então Pilatos, querendo fazer a vontade ao povo, soltou-hes Barrabás, e a Jesus mandou-O flagelar e entregou-O para ser crucificado. l6Os soldados conduziram-No para o interior do palácio, que é o pretório e convocaram toda a coorte. 17E vestiram-No de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa entretecida de espinhos. l8Começaram então a saudá-Lo: Salve! ó Rei dos Judeus! 19E batiam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando o joelho, prostravam-se diante d’Ele. 20Depois de O terem assim ludibriado, despiram-Lhe a púrpura e vestiram-No com os Seus vestidos e condu­ziram-No para fora, para O crucificarem. 21E requisitaram para Lhe levar a cruz a um tal Simão de Cirene, que voltava do campo, pai de Alexandre e de Rufo. 22E levaram-No ao lugar do Gólgota, que quer dizer «lugar da caveira». 23E queriam dar-Lhe vinho com mirra, mas Ele não o tomou. 24E crucificaram-No e dividiram os Seus vestidos, lançando sortes sobre eles, para ver o que cada um havia de levar. 25Era a hora terceira quando O crucificaram. 26A inscrição com a causa da Sua condenação dizia: «O Rei dos Judeus». 27Com Ele cruci­ficaram dois ladrões, um à direita e outro à esquerda. 28Assim se cumpriu a Escritura, que diz: « Foi contado entre malfeitores». 29Os transeuntes blasfemavam d’Ele, aba­nando a cabeça e dizendo: Olá! Tu que destróis o santuário e o reedificas em três dias, 30salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz! 31 Do mesmo modo também os Príncipes dos sacerdotes com os Escribas zombavam entre si e diziam: Salvou os outros e a Si não Se pode salvar. 32Esse Cristo Rei de Israel desça agora da cruz, para vermos e crermos n’Ele. E até os crucificados com Ele Lhe lançavam impropérios. 33Chegada a hora sexta, a terra inteira cobriu-se de trevas até à hora nona. 34E, à hora nona, bradou Jesus com voz forte: Eloi, Eloi, lama sabacthani? — que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?». 35Ouvindo isto, alguns assistentes diziam: Olha! Chama por Elias. 36Correu logo um a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta de uma cana, dava-Lhe de beber, dizendo: Deixa lá! Vamos a ver se Elias vem descê-Lo da cruz. 37Mas Jesus, soltando um grande brado, expirou. 38 E o véu do santuário rasgou-se em duas parte, de alto a baixo. 39O centurião, que estava defronte dele, vendo que tinha expirado em tal momento, exclamou: Verdadeiramente este homem era Filho de Deus! 40Estavam também umas mulheres a ver de longe; e, entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salome, 41as quais, quando Ele estava na Galileia, O seguiam e serviam, e bem assim muitas outras que com Ele tinham subido a Jerusalém. 42Já ao cair da tarde, porque era a Preparação, ou vigília do sábado, 43chegou José de Arimateia, sinedrita, que também esperava o Reino de Deus, e ousadamente foi ter com Pilatos a pedir-lhe o corpo de Jesus. 44Pilatos admirou-se de que tivesse morrido tão depressa e, chamando o centurião, perguntou-lhe se já tinha morrido há muito. 45Certificado pelo centurião, deu o cadáver a José. 46Comprou ele um lençol, desceu o corpo, envolveu-o no lençol e depô-lo numa sepul­tura que tinha mandado abrir na rocha e rolou uma pedra para a porta do sepulcro. 47Entretanto Maria Madalena e Maria, mãe de José, estavam a ver onde O depositavam.

Comentário

l. A Páscoa judaica era a maior festa religiosa e na­cional. Prolongava-se durante uma semana; nesses dias estava proibido comer pão fermentado; por isso eram chamados os dias dos Ázimos. Inaugurava-se a celebração com a ceia pascal na noite do dia 14 para o dia 15 do mês de Nizan. O rito essencial consistia em comer o cordeiro pascal sacrificado no Templo na tarde anterior. No decorrer da ceia o mais jovem da família perguntava qual era o significado daquela cerimônia. E o chefe da família explicava-o aos convidados: comemorava a libertação dos Israelitas, levada a cabo por Deus quando eram escravos no Egipto, e muito concretamente a passagem do anjo de Yahwéh, sem ferir os primogênitos hebreus e exterminando, pelo contrário, os primogênitos dos Egípcios (cfr Ex 12).

2. Os sumos sacerdotes e os escribas procuravam por todos os meios que a condenação e morte do Senhor fossem antes da Páscoa, já que durante esta Jerusalém estava cheia de peregrinos, e temiam que a popularidade de Jesus lhes trouxesse as complicações de que fala o texto evangélico. Cfr a nota a Mt 26, 3-5.

3-9. Era costume da hospitalidade antiga honrar os hóspedes ilustres com água perfumada. Esta mulher tratou o Senhor com uma delicadeza elegante ao derramar sobre Ele um frasco de perfume de nardo. É evidente que esta ação agradou muito a Jesus. O preço de trezentos denários era aproximadamente o salário de um operário durante todo um ano: a ação foi, pois, muito generosa. O quebrar o frasco para derramar até à última gota do perfume, sem que possa servir já a mais ninguém, sugere que Jesus merece tudo. É importante assinalar o significado que o Senhor dá a este gesto, como antecipação do piedoso costume de embalsamar o corpo para a sepultura. Nunca teria pensado aquela mulher que a sua ação ia ser celebrada em todo o mundo e em todos os tempos, mas Jesus Cristo sabia a transcendência e universalidade mesmo dos mais pequenos episódios da história evangélica. A profecia do Senhor cumpriu-se: «Em todas as igrejas escutamos o elogio desta mulher (…). Em todo o universo se ouve com profundo recolhimento o relato desta bela ação (…). O fato não era extraordinário, nem a pessoa importante, nem havia muitas testemunhas, nem o lugar era atraente, porque não aconteceu num teatro, mas numa casa particular (…). Apesar de tudo, esta mulher tem hoje maior celebridade que todas as rainhas e todos os reis, e o tempo nunca apagará a recordação do que fez» (Adversas Iudaeos, V, 2).

Este episódio ensina a delicadeza com que devemos tratar a Santíssima Humanidade de Jesus e, por outro lado, como a generosidade no culto é sempre louvável como mostra do profundo amor que temos ao Senhor. Cfr a nota a Mt 26,8-11.

10-11. Em contraste com o nobre gesto da unção, o Evangelho apresenta a dolorosa traição de Judas. Em frente da magnanimidade da mulher sobressai ainda mais a cobiça do falso amigo. «Oh loucura, ou antes, ambição do traidor, porque a ambição gera todos os males e escraviza as almas por todos os meios, produz o esquecimento das coisas e a alienação da mente. Judas, escravizado pela loucura da ambição, esqueceu a sua vida ao lado do Senhor e que tinha comido à Sua mesa, que tinha sido Seu discípulo; esqueceu os Seus conselhos e a Sua persuasão» (Hom. de prod. Iudae).

O pecado de Judas será sempre para os cristãos um toque de alerta: «Hoje muitos vêem com horror o crime de Judas, como cruel e sacrílego, que vendeu por dinheiro o seu Mestre e o seu Deus; e, não obstante, não se dão conta de que, quando menosprezam por interesses humanos os direitos da caridade e da verdade, atraiçoam a Deus, que é a caridade e a própria verdade» (Super qui audientes gavisi sunt).

12-16. Os pormenores deste passo podem parecer à primeira vista desusados no comportamento do Senhor. Não obstante, considerado com certa atenção, tudo é coerente: é provável que Jesus quisesse evitar que Judas conhecesse com antecipação o sítio exacto da celebração da Ceia e o comunicasse ao Sinédrio. Assim se cumpriram os planos divinos para aquela noite memorável de Quinta Feira Santa. Judas, com efeito, não parece ter podido comunicar aos sinedritas onde podiam encontrar Jesus antes de celebrarem a Ceia de Páscoa, durante a qual saiu o traidor do Cenáculo (cfr Iohl3,30).

São Marcos descreve com mais pormenor que os outros evangelistas o lugar da Ceia, ao dizer que era uma sala grande e bem mobiliada: tratava-se de um lugar digno. Uma antiga tradição cristã afirma que a casa do Cenáculo era propriedade de Maria, a mãe do próprio São Marcos, à qual parece que pertencia também o Horto das Oliveiras.

17-21. Jesus demonstra que conhece de antemão o que vai suceder e que o cumpre com inteira liberdade, identificando-Se com a Vontade do Pai. As palavras dos w. 18 e 19 são uma nova chamada a Judas para que se arrependa: o Senhor tem a delicadeza de não o denunciar publicamente, facilitando-lhe assim a conversão. Não obstante, não quis guardar silêncio sobre a traição, para que se compreendesse que o Mestre sabia tudo (cfr Ioh13,23 ss.).

22. A palavra «isto» não se refere ao ato de partir o pão, mas à coisa que Jesus apresenta aos Seus discípulos, isto é, ao que diante dos seus olhos aparecia como pão, que já não era pão mas o Corpo de Cristo. «Isto é o Meu corpo. A saber, o que vos dou agora e que agora vós tomais. Porque o pão não é só figura do Corpo de Cristo, mas converte-se neste mesmo Corpo, segundo disse o Senhor: o pão que Eu darei é a Minha própria carne (Ioh6, 51). Por isso o Senhor conserva as espécies de pão e de vinho, mas converte estes na realidade da Sua carne e do Seu sangue» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.). Não corresponde, pois, ao sentido do texto qualquer interpretação que derive para o simbolismo ou para a metá­fora. O mesmo se deve dizer acerca de «este é o Meu sangue» do v. 24. Sobre o realismo destas expressões cfr a nota a Mt 26,26-29, primeira parte.

24. As palavras da consagração do cálice mostram com clareza a natureza de sacrifício que tem a Eucaristia: O Sangue de Cristo derramado que sela a nova e definitiva Aliança de Deus com os homens. Esta Aliança fica selada para sempre com o sacrifício de Cristo na Cruz, no qual Jesus é ao mesmo tempo o Sacerdote e a Vítima. A Igreja definiu esta verdade com as seguintes palavras: «Se alguém disser que no sacrifício da Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício, ou que o oferecê-lo, não é outra coisa senão dar-Se-nos a comer Cristo, seja anátema» (De SS. Missae sacrifício, cap. l, can. t).

Aquelas palavras pronunciadas sobre o cálice devem ter sido muito reveladoras para os Apóstolos, porque nelas aparecia o sentido de preparação e de antecipação que tinham tido os sacrifícios da antiga Aliança. Os Apóstolos compreenderam deste modo como a Aliança do Sinai e os múltiplos sacrifícios do Templo não eram senão uma figura imperfeita do sacrifício definitivo e da Aliança definitiva, que teriam lugar na Cruz e eram antecipados na Ceia.

Uma explicação clara do caráter sacrificial da Eucaristia, pode ver-se no texto inspirado dos capítulos 8 e 9 da Epístola aos Hebreus. Do mesmo modo, a melhor preparação para entender a presença real e a Eucaristia como alimento da alma é a leitura do capítulo 6 do Evangelho de São João.

Na Ultima Ceia, pois, Cristo entrega-Se já voluntariamente a Seu Pai como vítima que vai ser imolada. Tanto a Ceia como a Santa Missa constituem com a Cruz um sacrifício único e perfeito, porque nos três casos a vítima oferecida é a mesma: Cristo; e o mesmo sacerdote: Cristo. A única diferença é que a Ceia, anterior à Cruz, antecipa de modo incruento a morte do Senhor e oferece a vítima que há de ser imolada; enquanto a Santa Missa oferece, também de modo incruento, a vítima já imolada na Cruz, vítima que permanece na eternidade da glória.

25. O Senhor, depois de instituir a Santíssima Eucaristia, prolonga aquela Ultima Ceia em comovente conversa com os Seus discípulos, a quem dê novo fala da Sua próxima morte (cfr Iohcaps. 13-17). Jesus alivia a tristeza da Sua despedida prometendo aos Apóstolos que chegará um dia em que voltará a reunir-Se com eles, quando o Reino de Deus tiver chegado à sua plenitude. Com isso refere-Se à vida beatífica nos Céus, tantas vezes comparada a um banquete. Então não haverá necessidade do alimento e bebida normais desta terra, mas de algo diferente. Por isso alude o Senhor a um vinho novo (cfr Is 25, 6). Em última análise, depois da Ressurreição, os Apóstolos e todos os santos poderão ter a dita de estar com Jesus.

O fato de São Marcos apresentar estas palavras depois da instituição da Eucaristia, indica de algum modo que esta é uma antecipação aqui na terra da posse de Deus na bem-aventurança eterna, em que Deus será tudo em todos (cfr l Cor 15, 28). «O Nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do Seu Corpo e do Seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da Cruz, confiando à Igreja, Sua esposa amada, o memorial da Sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura» (Sacrosanctum Concilium, n. 47).

26. «E, cantados os hinos». Segundo o costume dos Judeus, na Ceia Pascal recitavam-se umas orações que se chamavam «Hallel», e que recolhiam os Salmos 113 a 118; a última parte recitava-se no fim da ceia.

30-31. Só Marcos traz o pormenor concreto dos dois» cantos do galo (v. 30), e a insistência de Pedro em repetir que! não O ia atraiçoar (v. 31). É uma mostra mais da relação do= Evangelho de Marcos com a pregação de São Pedro: só este,< cheio de arrependimento e de humildade, contaria aos primeiros cristãos com especial demora aqueles episódios em que a sua altivez e quedas contrastavam com a compre­ensão e misericórdia de Jesus. Os outros evangelistas, certa­mente por respeito à figura de Pedro, passam mais depressa por estes pormenores.

Este relato ensina-nos como o Senhor conta com a debilidade dos que Ele ama para O seguirem e serem Seus Apóstolos. Pedro presume de palavra e, depois, negá-Lo-á. Jesus conhece isso e, apesar de tudo, escolhe-o como cabeça da Igreja. «Assim se comportavam (os discípulos) antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens correntes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus. Sucedeu conosco uma coisa semelhante (…). Mas compreendo também que a nossa lógica humana não serve para explicar as realidades da graça. Deus costuma procurar instrumentos fracos, para que se manifeste com evidente clareza que a obra é sua» (Cristo que passa, n.os 2 e 3).

32-42. Chama a atenção o modo tão humano com que Jesus enfrenta a Sua iminente Paixão e Morte. Sente o que todo o homem sentiria nesses momentos. «Levou consigo apenas os três discípulos que tinham contemplado a Sua glória no monte Tabor, para que aqueles que viram o Seu poder vejam também a Sua tristeza e descubram nessa mesma tristeza que era verdadeiro homem. E, porque tinha tomado toda a humanidade, tomou as propriedades do homem: o temor, a angústia, a natural tristeza; pois é lógico que os homens vão para a morte contra a sua vontade» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.).

A oração do horto mostra-nos, como nenhum outro testemunho dos Santos Evangelhos, que a oração do Senhor era também de petição. Não só pelos outros, mas por Si próprio. Porque havia na unidade da Sua Pessoa duas natu­rezas, a humana e a divina; e, como a vontade humana não era onipotente, convinha que Cristo pedisse ajuda ao Pai para fortalecer tal vontade (cfr Suma Teológica, III, q. 21, a. 1).

Uma vez mais, Jesus ora com um sentido profundo da Sua filiação divina (cfr Mt 11,25; Lc 23, 46; Ioh17,1). Só São Marcos nos conserva na própria língua original a exclamação filial de Jesus ao Pai: «Abbá», que é o nome com que os filhos se dirigem intimamente a seus pais. Uma confiança filial semelhante é a que há-de ter todo o cristão na sua vida, e de modo especial na oração. Neste momento culminante, Jesus volta a retirar-Se para a solidão do diálogo com Seu Pai C J pede aos discípulos que orem para não caírem na tentação. El de notar que os evangelistas, movidos pelo Espírito Santo’ recolhem tanto a oração de Jesus, como o mandato de orar. Não se trata de um acontecimento ocasional, mas de um episódio que é modelo do que devem fazer os cristãos: reza? como meio imprescindível para se manterem fiéis a Deus/J Quem não rezar, que não tenha ilusões de superar as! tentações do demônio: «Se o Senhor nos dissesse somente vigiai, pensaríamos que podíamos fazer tudo sozinhos; mas quando acrescenta orai, mostra-nos que, se Ele não cuidar das nossas almas no tempo da tentação, em vão vigiarão aqueles que cuidam dela (cfr Ps 127, 1)» (Tratado do amor de Deus, livro 2, cap. 1).

34. «Avançou Cristo uns passos e, de repente, sentiu no Seu corpo um ataque tão amargo e agudo de tristeza e de dor, de medo e de abatimento, que, embora estivessem outros junto d’Ele, o levou a exclamar imediatamente palavras que indicam bem a angústia que oprimia q Seu coração: ‘A Minha alma está triste até à morte’. Uma mole esmagadora de pesares começou a ocupar o corpo bendito e jovem do Salvador. Sentia que a prova era agora já algo iminente e que estava a ponto de tombar sobre Ele: o infiel e pérfido traidor, os inimigos enfurecidos, as cordas e as cadeias, as calúnias, as blasfêmias, as falsas acusações, os espinhos e as pancadas, os cravos e a cruz, as torturas horríveis prolongadas durante horas. Mais que tudo isto esmagava-O e doía-Lhe o espanto dos discípulos, a perdição dos Judeus, e inclusivamente o fim desgraçado do homem que perfidamente O atraiçoava. Acrescia, além disso, a inefável dor de Sua Mãe queridíssima. Pesares e sofrimentos revolviam-se como um redemoinho tempestuoso no Seu coração amabilíssimo e inundavam-No como as águas do oceano avançam sem piedade através dos diques destruídos» (A agonia de Cristo, ad loc.).

35. «Sabia Cristo que muitas pessoas de constituição débil se encheriam de terror diante do perigo de serem torturadas, e quis dar-lhes ânimo com o exemplo da Sua própria dor, da Sua própria tristeza, do Seu próprio abati­mento e medo inigualável. De outra maneira, essas pessoas desanimadas ao comparar o seu próprio estado temeroso com a intrépida audácia dos mais fortes mártires, poderiam chegar a conceder sem mais aquilo que temem lhes será de qualquer modo arrebatado pela força. A quem nesta situação estivesse, parece como se Cristo Se servisse da Sua própria agonia para lhe falar com vivíssima voz: ‘Tem coragem, tu que és débil e frouxo, e não desesperes. Estás atemorizado e triste, abatido pelo cansaço e pelo medo ao tormento. Tem confiança. Eu venci o mundo, e apesar disso sofri muito mais pelo medo e estava cada vez mais horrorizado à medida que se aproximava o sofrimento. Deixa que o homem forte tenha como modelo mártires magnânimos, de grande valor e presença de ânimo. Deixa que se encha de alegria imitando-os. Tu, temeroso e enfermiço, toma-Me a Mim como modelo. Descon­fiando de ti, espera em Mim. Olha como caminho diante de ti neste caminho tão cheio de temores. Agarra-te à orla do Meu vestido, e sentirás fluir dele um poder que não permitirá que o sangue do teu coração se derrame em vãos temores e angústias; tornará o teu ânimo mais alegre, sobretudo quando recordares que segues muito de perto os Meus passos — sou fiel, e não permitirei que sejas tentado para além das tuas forças, mas dar-te-ei, junto com a provação, a graça necessária para a suportar —, e alegra também o teu ânimo quando recordares que esta tribulação leve e momentânea se converterá num peso de glória imenso. Porque os sofrimentos daqui abaixo não são comparáveis com a glória futura que se manifestará em ti. Tira força da consideração de tudo isto e arroja o abatimento e a tristeza, o medo e o cansaço, com o sinal da Minha cruz e como se apenas fossem vãos espectros nas trevas. Avança com brio e atravessa os obstáculos firmemente confiado em que Eu te apoiarei e dirigirei a tua causa até que sejas proclamado vencedor. Premiar-te-ei então com a coroa da vitória’» (A agonia de Cristo, ad loc.).

36. «Jesus ora no horto: Pater mi (Mt XXVI, 39), Abba, Pater (Mc XIV, 36)! Deus é meu Pai, ainda que me envie sofrimento. Ama-me com ternura, mesmo quando me bate. Jesus sofre, para cumprir a Vontade do Pai… E eu, que também quero cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderei queixar-me, se encontro por companheiro de caminho o sofrimento?

«Constituirá um sinal certo da minha filiação, porque me trata como ao Seu Divino Filho. E, então, como Ele, poderei gemer e chorar sozinho no meu Getsemani; mas, prostrado em terra, reconhecendo o meu nada, subirá ao Senhor um grito saído do íntimo da minha alma: Pater mi, Abba, Pater,… fiat!»(ViaSacra,l,n.°l).

41-42. «Volta Cristo pela terceira vez onde estão os Apóstolos, e ali os encontra sepultados no sono, apesar do mandato que lhes tinha dado de vigiar e rezar diante do perigo que espreitava. Ao mesmo tempo, Judas, o traidor, mantinha-se bem desperto, e tão concentrado em atraiçoar o seu Senhor que nem sequer a idéia de adormecer lhe passou pela cabeça. Não é este contraste entre o traidor e os Apóstolos como que uma imagem especular, e não menos clara que triste e terrível, do que aconteceu através dos séculos, desde aqueles tempos até aos nossos dias? (…). Pois são muitos os que adormecem na tarefa de semear virtudes entre a gente e de manter a verdadeira doutrina, enquanto os inimigos de Cristo, com o objectivo de semear o vício e de desarreigar a fé (na medida em que podem prender de novo Cristo e crucificá-Lo outra vez), se mantêm bem despertos. Com razão diz Cristo que os filhos das trevas são muito mais astutos que os filhos da luz (cfr Lc 16, 8)» (A agonia de Cristo, ad loc.).

43-50. O Evangelho relata sobriamente o acontecimento da prisão de Jesus. Ele tinha-o esperado e não oferece resistência, dando cumprimento assim às profecias do Antigo Testamento que falavam d’Ele, singularmente aquele passo do poema sobre o Servo de Yahwéh do livro de Isaías: «Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador (…) porque ele próprio entregou a sua vida à morte (.••)» (53,7.12).

Jesus, abatido momentos antes no começo da Sua oração em Getsemani, levanta-Se agora confortado para começar o drama da Paixão. Contemplemos maravilhados estes misté­rios de Nosso Senhor, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

51-52. O pormenor do jovem do lençol é exclusivo de São Marcos. A maioria dos intérpretes vêem nele uma discreta alusão ao próprio Marcos. É provável que o Horto das Oliveiras pertencesse à família de Marcos, o que explicaria a presença noturna do rapaz, que teria despertado repenti­namente perante o bulício da gente.

«Vêem-se homens (mais raramente do que me agradaria, mas vêem-se ainda, graças a Deus) extraordinariamente ricos que prefeririam perder tudo quanto possuem antes que ofender a Deus pelo pecado. Têm muitos vestidos, mas não estão estreitamente ‘apegados’, e assim, quando o perigo os leva a fugir fazem-no com toda a facilidade, simplesmente arrojando os vestidos. Vêem-se também outros — mais do que se quereria — que têm coisas e vestidos de muito pouca qualidade, mas que, todavia, se encontram tão apegados a essas suas pobres riquezas, que mais facilmente se lhes poderia arrancar a pele do corpo que separá-los das suas posses. Um homem assim faria melhor em dar-se à fuga com tempo, pois, mal alguém o agarre pela vestimenta, preferirá morrer antes que abandonar a túnica. Enfim, aprendemos do exemplo deste rapaz que temos de estar sempre preparados diante das contrariedades e das dificuldades que se apresentam de improviso e que podem tornar necessária a fuga; ensina–nos, sem dúvida, que para estar preparados não é bom estar carregado com muitos vestidos, nem tão apertados e abotoados a um só que, quando a ocasião o urja, nos seja quase impossível arrojar o pano e escapar nus» (A agonia de Cristo, ad loc.).

53-65. Esta reunião do Sinédrio em casa do Sumo Sacerdote está cheia de irregularidades. O normal teria sido reunir-se de dia e no Templo. Tudo isso faz pensar num certo caráter de segredo desta sessão, talvez por medo a alborotar o povo e não conseguir os seus propósitos. São também ilegais as intervenções diretas do sumo sacerdote e os ultrajes ao réu antes de ditar a sentença. Os chefes judeus já há tempo que tinham decidido perder Jesus (cfr p. ex., Mc 12, 12; Ioh7, 30; 11, 45-50). Agora trata-se somente de cobrir as aparências legais. Isto é, encontrar umas testemunhas concordes em acusá-Lo de culpas capitais. Visto que o não conseguiam, o sumo sacerdote vai directamente ao fundo da questão: Jesus era o Messias, sim, ou não? A resposta afirmativa por parte de Jesus é considerada como uma blasfêmia. Já estão cobertas as aparências. Com isso podiam condená-Lo à morte e pedir ao procurador romano a ratificação da sentença (cfr a nota a Mt 27, 2). Apesar das irregularidades e de não estarem presentes todos os membros do Sinédrio, a impor­tância desta sessão está em que as autoridades judaicas, representantes oficiais do povo eleito, rejeitam Jesus como Messias e condenam-No à morte.

57-59. Pelo Evangelho de São João (2, 19) sabemos as palavras de Jesus que deram pé a esta acusação: «Destruí este Templo e em três dias o levantarei». Agora acusam-No de ter dito três coisas: que Ele vai destruir o Templo; que o Templo de Jerusalém está feito por mão de homens, não é coisa de Deus; e que em três dias Ele levantará outro novo, não feito por mão de homens. Como se pode ver, isto não é o que disse o Senhor. Eles, primeiro, mudam as palavras: Jesus não tinha dito que Ele ia destruir o Templo; e, segundo, aplicam-nas ao Templo de Jerusalém, sem compreender que Jesus estava a falar do Seu próprio corpo, segundo consta por São João 2, 21-22. Os Apóstolos, depois da Ressurreição, compreenderam a profundidade das palavras de Jesus (Ioh2, 22): o Templo de Jerusalém, onde se manifestava de modo especial a presença de Deus e onde se Lhe prestava o culto devido, não era senão um sinal, uma figura antecipada da realidade plena que era a Humanidade de Cristo, em que habita, por ser Deus, a plenitude da Divindade (cfr Col 2, 9).

Também no martírio de Santo Estêvão a acusação vem a ser a mesma: «Ouvimos este a dizer que esse Jesus nazareno destruirá este lugar e mudará as tradições que nos deu Moisés» (cfr Act 6, 14). Com efeito, Santo Estêvão tinha compreendido que o verdadeiro Templo já não era o de Jerusalém nas Jesus Cristo; mas eles voltaram a interpretar mal o seu verdadeiro sentido e acusaram-no de maneira semelhante ao Senhor.

61. Jesus, como noutros momentos da Sua Paixão, guarda profundo silêncio. Diante das acusações falsas dos Seus inimigos aparece indefeso. «Deus nosso Salvador — diz São Jerônimo —, que redimiu o mundo levado pela Sua misericórdia, deixa-Se conduzir à morte como um cordeiro sem dizer uma palavra; nem Se queixa nem Se defende. O silêncio de Jesus obtém o perdão do protesto e da desculpa de Adão» (Comm. in Marcum, ad loc.). Este silêncio é um motivo e um estímulo mais para uma pessoa se calar às vezes diante da calúnia ou da crítica. «In silentio et in spe erit fortitudo vestra», no silêncio e na esperança :se fundará a vossa fortaleza, diz o profeta Isaías (30,15).

« Jesus… calado. — « Jesus autem tacebat», — Porque falas tu? Para te consolares ou para te desculpares?

«Cala-te. — Procura alegria nos desprezes; sempre serão menos do que mereces.

«—Porventura podes tu perguntar: «Quid enim mali feci?’ — que mal fiz eu?» (Caminho, n.° 671).

61-64. Sem dúvida, o pontífice procurava encurralar Jesus: se respondia que não, equivalia a contradizer-Se em tudo o que tinha feito e dito; se respondia que sim, seria interpretado como blasfêmia, como vemos depois. Propria­mente chamar-se Messias não constituía uma blasfêmia; tão-pouco chamar-se filho de Deus, entendendo esta frase num sentido amplo. A resposta de Jesus não só dá testemunho de ser o Messias, mas esclarece a transcendência divina do Seu messianismo, ao aplicar-Se a profecia do Filho do Homem de Daniel (7, 13-14). Com esta confissão dá azo ao gesto teatral do sumo sacerdote, que toma como um escárnio a Deus e uma blasfêmia que aquele homem manietado possa ser a figura transcendente do Filho do Homem. Na solenidade singular deste momento, Jesus define-Se com a mais forte de todas as expressões bíblicas que podiam ser compreendidas pelos Seus ouvintes: a que manifesta melhor a divindade da Sua pessoa. Podemos advertir que, se Jesus tivesse dito sem mais «Eu sou Deus», isto teria parecido aos olhos dos Seus ouvintes como algo simplesmente absurdo, e tê-Lo-iam tomado por louco. Neste caso não teria tido lugar o teste­munho solene da Sua divindade diante das autoridades do povo judeu.

63. Rasgar-se as vestes era um costume em Israel para exprimir a indignação e o protesto contra os sacrilégios e as blasfêmias. Os rabinos tinham regulamentado até o pormenor da operação. Costumava-se rasgar por uma espécie de costura, evitando assim estragar o tecido. Com este gesto trágico-cómico encerra Caifás o julgamento e passa por alto todos os trâmites ulteriores que pudessem favorecer o réu e esclarecer a verdade.

64. Por Lc 23, 51 e Ioh7, 45, sabemos que nem todos os membros do Sinédrio condenaram Jesus, visto que José de Arimateia e Nicodemos não consentiram nesta decisão deicida. Pode supor-se, então, que não estiveram presentes nesta reunião do conselho, ou porque não foram convocados, ou porque se abstiveram de assistir.

66-72. Mesmo sendo muito parecidos os relatos dos três Evangelhos Sinópticos, São Marcos apresenta as suas caracte­rísticas narrativas habituais: o texto sagrado descreve pequenos pormenores que dão vivacidade ao episódio. Diz que Pedro estava em baixo (v. 66), o que indica que a sessão do conselho teve lugar numa sala do andar superior; outro pormenor é que menciona os dois cantos do galo (v. 72), de modo coerente com a profecia do Senhor que descreve no v. 30.

Comentário do capítulo 15

1. Ao amanhecer, o Sinédrio celebra uma sessão para ver como conseguiriam de Pilatos a ratificação da sentença de morte. E imediatamente levam Cristo diante de Pilatos.

Não se sabe ao certo qual era a residência do governador naqueles dias. A dúvida está entre o palácio de Herodes, construído sobre a colina ocidental da cidade, ao sul da porta de Jaffa, e a fortaleza Antonia, construída ao noroeste da esplanada do Templo. Muito provavelmente, durante as festas de Páscoa Pilatos residia nesta fortaleza, porque dominava a partir dali a zona exterior do Templo, onde costumavam forjar-se as sedições e motins. No centro desta grandiosa construção abria-se um pátio de 2500 metros quadrados perfeitamente lajeado. Pôde muito bem ser este o pátio onde Pilatos realizou o julgamento do Senhor e a que São João (19,13) chama Lithóstrotos…

Filão, Josefo e outros historiadores pintam Pilatos com os defeitos dos piores governadores romanos. Os evangelistas sublinham sobretudo a sua cobardia e o seu afã de contempo­rizar, confinante com a vileza.

2. A resposta de Jesus, segundo se lê em São Marcos, oferece uma dupla interpretação: tu dizes que sou rei, Eu não digo nada; ou também: com efeito, Eu sou rei. Esta segunda interpretação é a mais comum e lógica, visto que noutros passos evangélicos se afirma de modo categórico a realeza de Jesus (cfr Mt 27,37 e par.; Ioh18,36-38).

No Evangelho de São João (18, 33-38), Jesus explica a Pilatos que é Rei e o caracter peculiar da Sua realeza: o Seu Reino não é deste mundo, mas tem caracter transcendente (cfr as notas a Ioh18,35-37).

3-5. Por três vezes fazem constar os evangelistas que o silêncio foi a atitude de Jesus diante daquelas acusações iníquas: diante do Sinédrio (14,61); aqui, diante de Pilatos; e depois diante de Herodes (Lc 23,9). Sabemos pelo Evangelho de São João que o Senhor disse algumas coisas mais durante este processo. São Marcos diz que não respondeu nada mais, já que se refere só às acusações contra o Senhor, que, por serem falsas, não necessitavam de resposta. Por outro lado era inútil toda a defesa, pois tinham decidida já de antemão a Sua morte. Pelo seu lado, Pilatos também não necessitava de outra resposta, visto que o preocupava mais contentar as autoridades judaicas que julgar rectamente a inocência de Jesus.

6-15. Pilatos, em vez de sair em aberta defesa do inocente, como era seu dever e lhe era ditado pela consciência, não quer enfrentar-se com os sinedritas e pretende que seja o povo que se enfrente e liberte Jesus. Como existia o costume de dar liberdade a um preso a pedido do povo com motivo da Páscoa, Pilatos aproveita a ocasião para lhes oferecer a possibilidade de que escolham Jesus. Os sinedritas, advertindo a manobra, incitam a multidão a pedir a liberdade de Barrabás. Coisa que não foi difícil porque possivelmente alguns se sentiam decepcionados com Jesus Cristo, já que não tinha realizado uma libertação política e terrena. Pilatos não se pode opor ao resultado desta escolha e encontra-se mais débil para tomar uma decisão justa. Agora só lhe resta suplicar ao povo benevolência para: «o Rei dos Judeus». A presença humilde e desprotegida de Jesus exaspera aquela turba que rejeita um rei assim e pede que O crucifiquem. Pilato’s, que no decorrer do processo foi ameaçado com a acusação ao imperador se se inibisse neste assunto (cfr Ioh19, 12), acede aos seus gritos e assina a sentença de crucifixão, para não se enfrentar com a gente nem se criar dificuldades na sua carreira política.

15. Os açoites ou flagelação, tal como a crucifixão, eram castigos infamantes aplicáveis apenas aos escravos. O látego ou flagelo usado para castigar os delitos graves era reforçado com pedaços de ferro nos extremos, de modo que rasgava a carne e até quebrava os ossos. Era um suplício suficiente, por vezes, para causar a morte. Atava-se o condenado a um poste para evitar que caísse. Este suplício aplicava-se aos conde­nados à crucifixão.

Estes padecimentos de Jesus têm um valor redentor. Noutros passos do Evangelho o Senhor põe como condição aos Seus discípulos o levar a cruz. O cristão com a sua mortificação une-se à paixão de Cristo e coopera na obra redentora (cfr Col l, 24). «Atado à coluna. Cheio de chagas. — Ouvem-se os golpes dos azorragues na Sua carne rasgada, na Sua carne sem mancha, que padece pela tua carne pecadora. — Mais vergastadas. Mais ira. Mais ainda… É o cúmulo da crueldade humana.

«Por fim, rendidos, lá desprendem Jesus. — E o corpo de Cristo rende-se também à dor e cai, como um verme, truncado e meio morto.

«Tu e eu não podemos falar. — Não há necessidade de palavras. — Olha para Ele, olha para Ele… devagar.

«Depois, serás capaz de ter medo à expiação?» (Santo Rosário, 2° mistério doloroso).

16-19. A soldadesca toma Jesus como objecto das suas zombarias. E como O acusam de que Se faz passar por rei, coroam-No e vestem-No como tal.

A figura dorida de Jesus, flagelado e coroado de espinhos, com uma cana por ceptro nas mãos e um velho manto de púrpura sobre os ombros, ficou como símbolo vivo da dor humana, sob a invocação do «Ecce homo».

Mas, como ensina São Jerônimo, «os Seus opróbrios apagaram os nossos, as Suas ligaduras tornaram-nos livres, a Sua coroa de espinhos alcançou-nos o diadema do Reino, e as Suas feridas curaram-nos» (Comm. in Marcum, ad loc.).

«Tu e eu não teremos voltado a coroá-Lo de espinhos, a esbofeteá-Lo, a cuspir-Lhe?» (Santo Rosário, 3.° mistério doloroso).

21. «Jesus está extenuado. O Seu passo é cada vez mais cambaleante, e a soldadesca tem pressa de acabar; de modo que, quando saem da cidade pela porta Judiciária, intimam um homem que vinha duma granja, chamado Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigam-no a levar a Cruz de Jesus (cfr Mc XV, 21).

«No conjunto da Paixão, é bem pouco o que significa esta ajuda. Mas a Jesus basta-Lhe um sorriso, uma palavra, um gesto, um pouco de amor para derramar copiosamente a Sua graça sobre a alma do amigo. Anos mais tarde, os filhos de Simão, já cristãos, serão conhecidos e estimados pelos seus irmãos na fé. Tudo começou por um encontro inopinado com a Cruz.

«Apresentei-Me aos que não perguntavam por Mim, encon­traram-Me os que não Me procuravam (Is LXV, 1).

«As vezes, a Cruz aparece sem que a procuremos: é Cristo que pergunta por nós. E se, porventura, ante essa Cruz inesperada, e talvez por isso mais obscura, o coração mos­trasse repugnância… não lhe dês consolações. E, quando as peça, cheio de uma nobre compaixão, diz-lhe devagar, em confidencia: coração, coração na Cruz! coração na Cruz!» (Via Sacra, V). São Marcos detém-se em pormenorizar quem era Simão: era pai de Alexandre e de Rufo. Parece que Rufo, anos depois, se transferiu com sua mãe para Roma; São Paulo envia-lhes saudações carinhosas na Carta aos Romanos (16,13). Pode imaginar-se que a primeira reacção de Simão foi de desagrado por um serviço imposto à força e de si repelente. Mas o contacto com a Santa Cruz — altar onde se ia imolar a Vítima Divina — e a contemplação em primeiro plano dos sofrimentos e morte de Jesus, devem ter tocado o seu coração; e de indiferente, o Cireneu desceu do Calvário discípulo fiel de Cristo. Excelente recompensa a de Jesus. Quantas vezes a divina Providência, através de um desagradável incidente, nos situa diante da dor e se efectua em nós uma conversão mais radical.

Neste passo podemos considerar que, embora o Senhor nos tenha resgatado livremente e os Seus méritos sejam infinitos, todavia pede a nossa colaboração. Cristo carrega com a Cruz, mas temos de O ajudar a levá-la aceitando todas as dificul­dades e contratempos que a divina Providência nos destine. Assim nos santificaremos mais e mais, ao mesmo tempo que expiamos as nossas faltas e pecados.

Pelo Evangelho de São João (19, 17) sabemos que Jesus tomou a Cruz sobre os Seus ombros. Em Cristo carregado com a Cruz vê São Jerônimo, entre outros significados, o cumpri­mento da figura de Abel levado como vítima inocente, e sobretudo a de Isaac (cfr Gen 22,6) que carrega com a lenha do próprio sacrifício (cfr Comm. in Marcum, ad toe.). Depois, extenuado o Senhor pelos açoites, era incapaz de continuar sozinho até ao Calvário: por isso obrigam este homem de Cirene a levar a Cruz.

«Se alguém quiser vir atrás de Mim… Menino amigo: estamos tristes, ao viver a Paixão de Jesus, Nosso Senhor. — Olha com que amor Se abraça à Cruz. — Aprende com Ele. — Jesus leva a Cruz por ti; tu, leva-a por Jesus.

«Mas não leves a Cruz de rastos; leva-a erguida a prumo, porque a tua Cruz, levada dessa maneira, não há-de ser uma Cruz qualquer; será… a Santa Cruz! Não te resignes com a Cruz. Resignação é palavra pouco generosa. Ama a Cruz. Quando a amares, deveras, a tua Cruz será… uma Cruz sem Cruz.

«E, com toda a certeza, tal como Ele, encontrarás Maria no caminho» (Santo Rosário, 4.° mistério doloroso).

22. A situação deste lugar não oferece qualquer dúvida. Trata-se de uma pequena colina despida e pelada que então estava fora da cidade, muito a descoberto e junto a um caminho muito transitado.

23. Os Judeus, seguindo o conselho dos Provérbios (31,6), costumavam oferecer aos justiçados vinho misturado com mirra ou com incenso, para os adormecer e assim os aliviar do sofrimento.

Jesus Cristo prova-o (segundo Mt 27, 34), mas não o toma. Quer permanecer consciente até ao último momento e oferecer até ao fim o cálice da Paixão, que aceitou na Encarnação (Heb 10, 9) e que não recusou em Getsémani. Santo Agostinho (Ennarrationes in Psalmos, 21,2,8) explica que o Senhor quis sofrer até esse extremo para pagar assim ao máximo o grande preço do nosso resgate (cfr l Cor 6, 20).

Esta generosidade de Cristo em abraçar a dor também foi experimentada pelas almas fiéis. Por isso lemos: «Bebamos até à última gota o cálice da dor na pobre vida presente. — Que importa padecer dez, vinte, cinqüenta anos… se depois vem o Céu para sempre, para sempre… para sempre?

«E sobretudo (melhor do que a razão apontada, ‘propter retributionem’), que importa padecer, se se padece para consolar, para dar gosto a Deus Nosso Senhor, com espírito de reparação, unido a Ele na Sua Cruz… Numa palavra: se se padece por Amor?…» (Caminho, n.° 182).

24-28. A crucifixão, além de ser o suplício mais infamante, era o mais doloroso. Os inimigos de Jesus intentaram com a condenação à morte de Cruz pôr em relevo a derrota humilhante d’Aquele que há poucos dias entrara triunfal-mente em Jerusalém. Era costume deixar os crucificados vários dias no patíbulo para que, ao serem vistos naquele estado horrível, servissem de escarmento à gente. No caso de Jesus Cristo pretendeu-se também que servisse de argumento fidedigno contra o Seu messianismo.

A crucifixão podia fazer-se de diversas formas. A mais usual, e talvez a que Nosso Senhor sofreu, consistia em espetar na terra o madeiro vertical, depois colocar o trans­versal com o réu cravado pelas mãos, e finalmente, cravar os pés na parte inferior do madeiro vertical.

Segundo o Evangelho de São João (19, 23-25) a túnica inconsútil — isto é, toda de uma peça, sem costuras — foi sorteada à parte do resto dos vestidos, que foram distribuídos em quatro lotes, tantos como os soldados. As palavras deste versículo reproduzem as do Ps 22, 19. Para todo o judeu instruído nas Escrituras a leitura do passo evocava imedia­tamente o cumprimento de uma profecia.

São João fá-lo-á notar expressamente (cfr 19, 24). São Marcos, sem perder o fio do relato da Paixão, está a dar implicitamente um argumento de que Jesus Cristo é o Messias prometido, pois n’Ele se cumpre também esta profecia.

Diante de Jesus crucificado convém recordar também que Deus « estabeleceu a salvação do gênero humano na árvore da Cruz, para que, donde viera a morte, daí ressurgisse a vida, e o (demônio) que vencera na árvore do paraíso fosse vencido na árvore da Cruz» (Prefácio da Santa Cruz).

25. «Hora terceira»: Entre as 9 e as 12 da manhã. São Marcos é o único Evangelista que deixa expressa a hora em que cravaram o Senhor na Cruz. Para ver as correspondências das nossas horas com as dos Judeus daquele tempo vid. a nota a Mt 20,3.

26. Esta inscrição costumava pôr-se bem visível para que todos conhecessem a causa da condenação. Pilatos mandou escrever «Jesus Nazareno Rei dos Judeus», em latim, grego e hebraico; São Marcos resume a inscrição.

Levados pela sua malícia, os Judeus imputam a Jesus um crime político, quando o Senhor em toda a Sua vida e doutrina deixou claramente afirmado que a Sua missão não era política mas sobrenatural. Sobre o sentido do título da Cruz e das suas circunstâncias vid. Ioh19, 19-22 e a nota correspondente.

27. Assim aumentava a ignomínia de Jesus Cristo. Os Seus discípulos também conhecerão essa humilhação dos cárceres comuns, como se fossem ladrões e malfeitores.

Mas no caso de Jesus isto foi providencial, pois assim se cumpriu a Escritura que preanunciava que o Messias seria posto entre os malfeitores. A Vulgata, seguindo alguns códices gregos, acrescenta: «E cumpriu-se a Escritura que diz: Foi contado entre os malfeitores» (v. 28; cfr Lc 22, 37). «Colocada a Verdade entre os malvados — ensina São Jerônimo —, deixa um à Sua esquerda e outro à Sua direita, tal como fará no dia do juízo. Assim vemos quão diferente pode ser o fim de uns pecadores semelhantes. Um precede Pedro no paraíso, o outro Judas no inferno: uma breve confissão conseguiu a vida sem termo, uma blasfêmia momen­tânea é castigada com a pena eterna» (Comm. in Marcum, ad loc.}.

O povo cristão deu desde tempos antigos diversos nomes a estes ladrões. Os mais comuns no Ocidente são os de Dimas para o bom ladrão e Gestas para o mau.

29-32. O suplício de Cristo não ficou concluído com a crucifixão mas agora continua num escárnio moral, pior, se é possível, que o da coroação como rei de irrisão. Escarnecem d’Ele os que passam, os sacerdotes fazendo conciliábulos com os escribas, e até os próprios ladrões crucificados (cfr não obstante o esclarecimento de Lc 23, 39-43). Todos coincidem em recriminar a Cristo pela Sua debilidade, como se tivessem sido fictícios os Seus milagres, instigando-O a manifestar o Seu poder.

Na realidade este pedido de um milagre não indica neles o desejo de crer. É que a fé é um dom de Deus que apenas aquele que tem um coração simples recebe. «Pouco pedir— recrimina São Jerônimo aos Judeus —, quando se está a realizar o maior acontecimento. A vossa obcecação não pôde ser sanada nem com milagres muito maiores do que os que vós próprios pedistes» (Comm. in Marcum, ad loc.).

Precisamente porque era o Messias e o Filho de Deus não desceu da Cruz e levou a termo, na dor, a obra que o Pai Lhe tinha encomendado. Cristo ensinou-nos que a dor é o melhor e o maior tesouro que temos: o Senhor não venceu num trono nem com um ceptro na mão, mas estendendo os Seus braços na Cruz. O cristão que, como todo o homem, padecerá dor na sua vida, não deve fugir-lhe nem rebelar-se contra ela mas oferecê-la a Deus, como o Mestre.

33. O Evangelista apresenta este dado como um fenô­meno miraculoso, que indica a magnitude do deicídio que se está a cometer. A expressão «toda a terra» significa todo o horizonte imediato, sem precisar com pormenor as suas fronteiras. A interpretação comum do significado deste acontecimento é dupla e complementar; Orígenes (In Matth. comm., 143) entende, que é manifestação da obscuridade espiritual que sobreviria ao povo judeu em castigo por ter rejeitado — crucificado — O que é a luz verdadeira (cfr Ioh l, 4-9). São Jerônimo (Comm. in Matth., ad loc.) explica que as trevas exprimem antes o luto do universo pelo seu Criador, o protesto da natureza contra a morte injusta do seu Senhor (cfr Rom 8, 19-22).

34. Estas palavras, pronunciadas em aramaico, são o começo do Salmo 22, a oração do justo que, perseguido e encurralado por todas as partes, se vê em extrema solidão, como «um verme, opróbrio dos homens e desprezo do povo» (v. 7). Desde o abismo desta miséria e deste máximo abandono, o justo recorre a Yahwéh: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (…). Na verdade Tu és a minha esperança desde o seio de minha mãe (…). Não atrases o Teu socorro. Apressa-Te a vir em meu auxílio» (vv. 2.10.20). Assim pois, esta interpelação de Cristo, longe de traduzir um momento de desespero, revela a confiança rotunda em Seu Pai Celeste, o único em Quem Se pode apoiar no meio da dor, a Quem Se pode queixar como Filho e em Quem Se abandona sem reservas: « Nas Tuas mãos entrego o Meu espírito» (Lc 23,46; Ps 31, 6).

Uma das situações mais dolorosas para o homem é sentir-se só perante a incompreensão e a perseguição de todos, presa da insegurança e do medo. Deus permite estas provas para que, experimentada a nossa própria pequenez e a caducidade do mundo, ponhamos toda a esperança somente n’Ele, que tira bem dos males para aqueles que O amam (cfr Rom 8, 28).

«Amo tanto Cristo na Cruz, que cada crucifixo é uma recriminação carinhosa do meu Deus: … Eu sofrendo e tu… cobarde. Eu amando-te e tu esquecendo-Me. Eu pedindo-te e tu… negando-Me. Eu, aqui, com gesto de Sacerdote Eterno, padecendo tudo o que posso por teu amor… e tu queixas-te ante a menor incompreensão, ante a humilhação mais pequena…» (Via Sacra, XI, n.°2).

35-36. É possível que os soldados que estavam próximo da Cruz, ao ouvir as palavras do Senhor, pensassem errada­mente que chamava em Seu auxílio por Elias. Não obstante, parece que são os próprios Judeus que, deformando as pala­vras do Senhor, fazem disto uma ocasião para as suas zombarias. Existia a crença de que Elias havia de vir manifestar o Messias, e assim estas palavras servem-lhes para continuar a zombar de Cristo crucificado.

37. O Evangelista concisamente o testemunho do facto: «Jesus, soltando um grande brado, expirou». É como se não se atrevesse a comentar nada, deixando ao leitor que pare a meditar. Dentro deste tremendo mistério da morte de Cristo temos de insistir: Jesus Cristo morreu; não foi uma morte aparente, mas real. Não esqueçamos que a causa da morte do Senhor foi o nosso pecado. Jesus Cristo morre pela força e pela vileza dos nossos pecados. «O abismo de malícia que o pecado encerra foi vencido por uma Caridade infinita. Deus não abandona os homens. Os desígnios divinos preveriam que, para reparar as nossas faltas, para restabelecer a unidade perdida, não bastavam os sacrifícios da Antiga Lei; tornou-se necessária a entrega de um homem que fosse Deus. Podemos imaginar — para nos aproximarmos de algum modo deste mistério insondável — que a Trindade Santíssima se reúne em conselho na Sua contínua relação íntima de amor imenso e, como resultado de uma decisão eterna, o Filho Unigênito de Deus Pai assume a nossa condição humana, carrega sobre Si as nossas misérias e as nossas dores, para acabar pregado com cravos num madeiro (…). Meditemos no Senhor, chagado dos pés à cabeça por amor de nós» (Cristo que passa, n.° 95).

«(…) Agora consumou-se tudo. Cumpriu-se a obra da nossa Redenção. Já somos filhos de Deus, porque Jesus morreu por nós e a Sua morte resgatou-nos.

«Empti enim estis pretio magno (l Cor VI, 20), tu e eu fomos comprados por alto preço.

«Temos de fazer vida nossa a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e a penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir então os passos de Cristo, com afã de co-redimir todas as almas.

«Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus e nos fazemos uma só coisa com Ele» (Via Sacra, XIV).

38. O recinto propriamente sagrado do Templo de Jerusalém tinha duas partes: a primeira chamada «o Santo», onde só podiam entrar os sacerdotes para determinadas funções litúrgicas; a segunda era o chamado «Santo dos santos» (Sancta Sanctorum). Este era o recinto mais sagrado, onde antigamente tinha estado a Arca da Aliança, a qual guardava no seu interior as tábuas da Lei. Sobre a Arca estava o «propiciatório» com duas figuras de querubins. Só uma vez por ano o sumo sacerdote tinha acesso ao Sancta Sanctorum no grande dia da expiação, para realizar o rito da purificação do povo. O véu do Templo refere-se à grande cortina que separava «o Santo» do Sancta Sactorum.

O facto prodigioso de o véu do Templo se rasgar, aparen­temente sem importância, está cheio de sentido teológico. Significa de modo manifesto que com a morte de Cristo caducou o culto da Antiga Aliança (cfr Heb 9, 1-14); já não tem razão de ser o Templo de Jerusalém. O culto que agrada ao Pai — em espírito e em verdade (cfr Ioh4, 23) — é tributado através da Humanidade de Cristo, que é Sacerdote e Vítima ao mesmo tempo.

39. Acerca deste passo diz São Beda que a causa do milagre da conversão deste oficial romano é que, vendo o Senhor morrer daquele modo, não pôde deixar de reconhecer a Sua Divindade; pois ninguém tem o poder de entregar o espírito senão o que é Criador das almas (cfr In Marci Evangelium expositio, ad loc.). Efectivamente, Cristo, enquanto Deus, tinha a faculdade de entregar o Seu espírito; pelo contrário, aos outros homens é-lhes arrebatado o espírito na hora da morte. Mas o homem cristão deve imitar Cristo, também nesta hora suprema; isto é, devemos aceitar com paz e gozo a morte, o momento disposto por Deus para deixar nas Suas mãos o nosso espírito: a diferença está em que Cristo o entrega quando quer (cfr Ioh10, 18), e nós quando Deus o dispõe.

«Não tenhas medo da morte. — Aceita-a, desde agora, generosamente…, quando Deus quiser…, como Deus quiser…, onde Deus quiser. — Não duvides; virá no tempo, no lugar e do modo que mais convenha…, enviada pelo teu Pai Deus. — Benvinda seja a nossa irmã a morte!» (Caminho, n.° 739).

43-46. José de Arimateia, que não tinha dado o seu consentimento à sentença do Sinédrio (cfr Lc 23, 51), em contraste com a fuga dos próprios Apóstolos, tem a valentia e a delicadíssima piedade de se encarregar pessoalmente de todos os trâmites da sepultura de Jesus. A morte de Cristo não tinha debilitado a sua fé. É de notar que o seu gesto se segue imediatamente às afrontas do Calvário e tem lugar antes do triunfo da Ressurreição gloriosa do Senhor. A sua acção terá sido premiada com ser inscrito o seu nome no livro da vida, e foi recolhida no Santo Evangelho e na memória de todas as gerações cristãs.

José de Arimateia pôs ao serviço de Jesus Cristo, sem esperar nenhuma recompensa humana e mesmo com risco da sua própria pessoa, tudo quanto era preciso: a sua posição social, o seu próprio sepulcro ainda sem usar, e todos os outros meios pertinentes. Sempre será um exemplo vivo para todo o cristão, que por Deus deve arriscar dinheiro, posição e honra.