dia 3 a 9 de maio de 2010

Dia 3 de maio

Jo 14, 6-4

6Responde-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai, senão por Mim. 7Uma vez que Me conheceis, conhecereis também a Meu Pai. Agora ficais a conhecê-Lo e já O vistes. 8Diz-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. 9Responde-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e não Me conheceis, Filipe? Quem Me viu viu o Pai. Como é que tu dizes: “Mostra-nos o Pai”? 10Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as profiro por Mim mesmo; e o Pai, permanecendo em Mim, é que faz as obras. 11Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Ao menos, acreditai-o por causa das mesmas obras. 12Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fá-las-á maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai; 13e o que quer que pedirdes em Meu nome, fá-lo-ei, para o Pai ser glorificado no Filho. 14Se Me pedirdes alguma coisa em Meu nome, fá-lo-ei.

Comentário

8-11. As palavras do Senhor continuam a ser misteriosas para os Apóstolos, que não acabam de entender a unidade do Pai e do Filho. Daí a insistência de Filipe. Por isso Jesus repreende o apóstolo porque ainda O não conhece, quando é claro que as Suas obras são próprias de Deus: caminhar sobre as ondas, dar ordens aos ventos, perdoar pecados, ressuscitar os mortos. Este é o motivo da repreensão: o não ter conhecido a Sua condição de Deus através da Sua natureza humana” (De Trinitate, liv. 7).

É certo que a visão do Pai a que se refere Jesus Cristo neste passo é uma visão de fé, pois a Deus nunca ninguém O viu tal como é (cfr Ioh 1,18; 6,46). Todas as manifestações de Deus ou teofanias foram mediatas, só um reflexo da grandeza divina. A manifestação suprema de Deus Pai temo-la em Cristo Jesus, o Filho de Deus enviado aos homens. “Ele, com toda a Sua presença e manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna” (Dei Verbum, n. 4).

12-14. Antes de partir deste mundo, o Senhor promete aos Apóstolos que os fará participantes dos Seus poderes para que a salvação de Deus se manifeste por meio deles. As obras que realizarão são os milagres feitos em nome de Jesus Cristo (cfr Act 3,1-10; 5,15-16; etc.), e sobretudo, a conversão dos homens à fé cristã e a sua santificação, mediante a pregação e a administração dos sacramentos. Podem considerar-se obras maiores que as de Jesus enquanto pelo ministério dos Apóstolos o Evangelho não só foi pregado na Palestina, mas se difundiu até aos extremos da terra; mas este poder extraordinário da palavra apostólica procede de Jesus Cristo, que subiu para o Pai: depois de passar pela humilhação da Cruz, Jesus foi glorificado e do Céu manifesta o Seu poder actuando através dos Apóstolos.

O poder dos Apóstolos dimana, pois, de Cristo glorificado. O Senhor exprime-o ao dizer: “E o que pedirdes ao Pai em Meu nome isso farei…”. “Não será maior que Eu aquele que crê em Mim; mas Eu farei então coisas maiores que as que agora faço; realizarei mais por meio daquele que crer em Mim, do que agora realizo por Mim mesmo” (In Ioann. Evang., 72,1).

Jesus Cristo é o nosso intercessor no Céu, por isso nos promete que tudo o que pedirmos em Seu Nome, Ele o fará. Pedir em Seu nome (cfr 15,7.16; 16,23-24) significa apelar para o poder de Cristo ressuscitado, crendo que Ele é omnipotente e misericordioso porque é verdadeiro Deus; e significa também pedir aquilo que convém à nossa salvação, porque Jesus Cristo é o Salvador. Assim “o que pedirdes” entende-se como o que é bom para o que pede. Quando o Senhor não concede o que se pede é porque não convém para a nossa salvação. Desse modo mostra-Se igualmente Salvador quando nos nega o que Lhe pedimos e quando no-lo concede.

Dia 4 de maio

Jo 14, 27-31a

27Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz. Não é como o mundo a dá que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração, nem se torne pusilânime. 28Ouvistes que vos disse: “Eu vou, mas volto para junto de vós”. Se Me amasseis, alegrar-vos-íeis por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 29Pois bem, disse-vo-lo antes de acontecer, para que acrediteis quando isso acontecer. 30Já não falarei muito convosco, pois vai chegar o Príncipe do Mundo. Ele nada pode contra Mim, 31mas é para que o mundo saiba que amo o Pai, que faço como o Pai Me mandou.

Comentário

27. Desejar a paz, era, e é também hoje, a forma usual de saudação dos Hebreus e dos Árabes. Essa mesma saudação que empregava Jesus, continuaram a usá-la os Apóstolos, segundo vemos pelas suas cartas (cfr 1 Pet 1,3; 3 Ioh 15; Rom 1,7; etc.), e dela se continua a servir a Igreja na Liturgia; assim, por exemplo, antes da Comunhão o celebrante deseja aos presentes a paz, condição para participar dignamente no Santo Sacrifício (cfr Mt 5,23), e por sua vez, fruto do mesmo.

A saudação ordinária do povo hebreu recupera na boca do Senhor o seu sentido mais profundo; a paz é um dos dons messiânicos por excelência (cfr Is 9,7; 48,18; Mich 5,5; Mt 10,22; Lc 2,14; 19,38). A paz que nos dá Jesus transcende por completo a do mundo, que pode ser superficial e aparente, compatível com a injustiça. Pelo contrário, a paz de Cristo é sobretudo reconciliação com Deus e entre os homens, um dos frutos do Espírito Santo (cfr Gal 5,22-23), “é serenidade da mente, tranqüilidade da alma, simplicidade do coração, vínculo de amor, união de caridade: não pode adquirir a herança de Deus quem não cumpra o Seu testamento de paz, nem pode viver unido a Cristo quem está separado do cristianismo” (De verb. Dom. serm., 58).

“Cristo é ‘a nossa paz’ (Eph 2,14). Hoje e sempre, Ele repete-nos: ‘A paz vos deixo, a Minha paz vos dou’. Nunca na história da humanidade se falou tanto da paz e se tem desejado tanto como nos nossos dias (…). E, não obstante, constata-se mais e mais como a paz é ameaçada e destruída (…). A paz é um resultado de muitas atitudes e realidades convergentes; é o resultado de preocupações morais, de princípios éticos, baseados na mensagem do Evangelho e corroborados por ele.

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1971, o meu venerado predecessor, Paulo VI, o peregrino da paz, dizia: ‘A verdadeira paz deve fundar-se na justiça, no sentido da dignidade inviolável do homem, no reconhecimento de uma igualdade indelével e desejável entre os homens, no princípio básico da fraternidade humana, isto é, no respeito e amor devido a cada homem, porque é homem’. Esta mesma mensagem repeti eu no México e na Polônia. Repito-a aqui na Irlanda. Todo o ser humano tem direitos inalienáveis que devem ser respeitados. Toda a comunidade humana – étnica, histórica, cultural ou religiosa – tem direitos que devem ser respeitados. A paz está ameaçada sempre que um destes direitos é violado. A lei moral, guardiã dos direitos do homem, protectora da dignidade da pessoa humana, não pode ser deixada de lado por nenhuma pessoa, nenhum grupo, nem pelo próprio Estado, por nenhum motivo, nem sequer pela segurança ou no interesse da lei ou da ordem pública. A lei de Deus está muito acima de todas as razões de Estado. Enquanto existirem: injustiças em qualquer campo que diga respeito à dignidade da pessoa humana, quer seja no campo político, social ou econômico, quer seja na esfera cultural ou na religiosa, não haverá verdadeira paz (…). A paz não pode ser estabelecida pela violência, a paz não pode florescer nunca num clima de terror, de intimidação ou de morte. O próprio Jesus disse: ‘Todos os que empregam a espada perecerão à espada’ (Mt 25,52). Esta é a palavra de Deus, a que ordena aos homens desta geração violenta que desistam do ódio e da violência e se arrependam” (Homilia Drogheda).

O gozo e a paz que nos traz Cristo hão-de caracterizar o estado de ânimo de um crente: “Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. – Não é de Deus o que rouba a paz da alma. Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação” (Caminho, n° 258).

28. Jesus Cristo, enquanto Filho Unigênito de Deus, possui a glória divina desde a eternidade, mas durante o tempo da Sua vida na terra essa glória está velada e oculta por detrás da Sua Santíssima Humanidade (cfr 17,5; Phil 2,7). Só se manifesta em algumas ocasiões, como nos milagres (cfr 2,11), ou na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8 e par.). Vai ser agora, mediante a Morte, Ressurreição e Ascensão aos céus, que Jesus vai ser glorificado, também no Seu Corpo, voltando ao Pai e entrando na Sua glória. Por isso, a Sua saída deste mundo devia ser causa de alegria para os discípulos; mas estes não entendem bem as palavras do Senhor, e entristecem-se porque os afecta mais a pena da separação física do Mestre que o pensamento da glória que O espera.

Quando Jesus diz que o Pai é maior que Ele, está a considerar a Sua natureza humana; assim, enquanto homem, Jesus vai ser glorificado ascendendo à direita do Pai. Jesus Cristo “é igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade” (Símbolo Atanasiano). Santo Agostinho exorta: “Reconheçamos, pois, a dupla natureza de Cristo: uma, pela qual é igual ao Pai, que é a divina; e a humana, que o torna inferior ao Pai. Uma e outra natureza não constituem dois mas um só Cristo…” (In Ioann. Evang., 78,3). Não obstante, embora o Pai e o Filho sejam iguais em natureza, eternidade e dignidade, também podem entender-se as palavras do Senhor considerando que “maior” se refere à origem: só o Pai é “princípio sem princípio”, enquanto o Filho procede eternamente do Pai por geração também eterna. Jesus Cristo é Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro (cfr Símbolo Niceno-Constantinopolitano).

30. É certo que o mundo é bom porque saiu das mãos do Criador, e que Deus de tal maneira o amou que lhe entregou o Seu Filho Unigênito (cfr Ioh 3,16). Não obstante, por mundo entende-se neste passo o conjunto dos homens que rejeitam Cristo; por isso, príncipe desse mundo é o demônio (cfr Ioh 1,10; 7,7; 15,18-19). Este opõe-se à obra de Jesus já desde o começo da Sua vida pública nas tentações do deserto (cfr Mt 4,1-11 e par.). Agora, na Paixão, volta a aparecer para obter a vitória sobre Cristo, ainda que seja momentânea e aparente. Esta é a hora do poder das trevas, em que, servindo-se do traidor (cfr Lc 22,53; Ioh 13,27), o demônio consegue que prendam o Senhor e O crucifiquem.

Dia 5 de maio

Jo 5, 1-8

Depois disto, houve uma festa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 2Ora existe em Jerusalém, junto à Piscina das Ovelhas, uma que, em hebraico, se chama Bezatá, que tem cinco pórticos. 3Nestes jazia grande número de enfermos, cegos, coxos, entrevados, que esperavam o movimento da água. 4É que o Anjo do Senhor, de tempos a tempos, descia à piscina e agitava a água. E assim, o primeiro que mergulhava, depois da agitação da água, ficava curado de qual­quer mal de que estivesse atingido. 5Estava ali um homem, enfermo havia trinta e oito anos. 6Jesus, ao vê-lo estendido e sabendo que já estava assim havia muito tempo, diz-lhe: Queres ficar são? 7Senhor — responde-Lhe o enfermo — não tenho nin­guém que me lance na piscina, quando a água se agitar; e enquanto eu vou, outro desce antes de mim. 8Diz-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu catre e anda.

Comentário

1. Não é possível determinar com certeza de que festa se trata; provavelmente refere-se à Páscoa, conhecida inclusivamente no mundo greco-romano como a festa nacional do povo judaico. Mas também poderia referir-se a outras festas, como a de Pentecostes. (Sobre esta questão veja-se Cronologia da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, parágrafo 3, Duração do Ministério Público, pp. 88-89).

2. A esta piscina7chama-se também «probática» por estar situada, nos Subúrbios de Jerusalém, junto à porta probática ou das Ovelhas (cfr Neh 3,1-32; 12,39), pela qual entrava o gado quese destinava aos sacrifícios do Templo. Em fins do século XIX encontraram-se vestígios da piscina: escavada em rocha era de forma rectangular e estava rodeada de quatro galerias ou alpendres, e um quinto alpendre dividia o tanque em duas metades quase quadra­das.

3-4. Os Santos Padres ensinam que essa piscina prefigura o Baptismo cristão. Mas assinalam que enquanto na piscina de Bezatá se curavam as doenças do corpo, no Baptismo curam-se as da alma; ali era de vez em quando e para um só doente; no Baptismo é sempre e para todos; em ambos os casos manifesta-se o poder de Deus por meio da água (cfr Hom. sobre S. João, 36,1).

A edição Sixto-Clementina da Vulgata recolhe, como segunda parte do v. 3 e constituindo todo o v. 4, o seguinte passo: 3bexspectantium aquae motum. 4Angelus autem Domini descendebat secundum tempus in piscinam et move-batur aqua. Et qui prior descendisset in piscinam post motionem aquae sanus fiebat a quacumque detinebatur infirmitate» (3b«que aguardavam o movimento da água. 4 Pois um anjo do Senhor descia de vez em quando à piscina e movia a água. O primeiro que se metesse na piscina depois do movimento da água ficava são de qualquer enfermidade que tivesse»). A Neo-vulgata, pelo contrário, omite no seu texto todo este passo, consignando-o apenas em nota de roda-pé. Tal omissão funda-se em que não vem em impor­tantes códices e papiros gregos, nem em muitas versões antigas.

Dia 6 de maio

Jo 15, 9-11

9Assim como o Pai Me amou também Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11Disse-vos isto, para a Minha alegria estar em vós e a vossa alegria ser completa.

Comentário

9-11. O amor de Cristo aos cristãos é reflexo do amor que as três Pessoas divinas têm entre Si e para com os homens: “Amemos a Deus porque Ele nos amou primeiro” (1 Ioh 4,19).

A certeza de que Deus nos ama é a raiz da alegria e do gozo cristão (v. 11), mas ao mesmo tempo exige a nossa correspondência fiel, que deve traduzir-se num desejo fervoroso de cumprir a Vontade de Deus em tudo, isto é, os Seus mandamentos, à imitação de Jesus Cristo que cumpriu a Vontade do Pai (cfr Ioh 4,34).

Dia 7 de maio

Jo 15, 12-17

12É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei a vós. 13Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos. 14Vós sereis Meus amigos, se fizerdes o que Eu vos ordeno. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; Eu cha­mei-vos amigos, porque tudo o que ouvi a Meu Pai vo-lo dei a conhecer. 16Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos estabeleci, para irdes e dardes fruto e o vosso fruto permanecer, de sorte que o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.

Comentário

12-15. Jesus insiste no «mandamento novo», cumprin­do-o Ele mesmo ao dar a Sua vida por nós. Veja-se a nota a Ioh 13,34-35.

A amizade de Cristo com o cristão, que o Senhor manifesta de modo particular neste passo, foi posta em realce na pregação de Mons. J. Escrivá de Balaguer: «A vida do cristão que decide comportar-se de acordo com a grandeza da sua vocação converte-se num eco prolongado daquelas palavras do Senhor: Já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vo-lo dei a conhecer (Ioh XV,15). Estar pronto a seguir documente a Vontade divina abre horizontes insuspeitados (…) ‘não há nada melhor que saber que somos por amor escravos de Deus, porque perdemos a situação de escravos para nos tornarmos amigos, filhos’ (Amigos de Deus, n.° 35).

«Filhos de Deus, Amigos de Deus (…) Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: nosso Irmão, nosso Amigo; se procurarmos criar intimidade com Ele, ‘partici­paremos na dita da amizade divina’ (Ibid., n.° 300); se fizermos o possível por acompanhá-Lo desde Belém até ao Calvário, compartilhando as Suas alegrias e os Seus sofri­mentos, tornar-nos-emos dignos da Sua companhia amistosa: calicem Domini biberunt — canta a Liturgia das Horas — ei amici Dei facti sunt, beberam do cálice do Senhor e torna­ram-se amigos de Deus (Responsório da segunda leitura do ofício da Dedicação das Basílicas dos Apóstolos Pedro e Paulo).

«Filiação e amizade são duas realidades inseparáveis para aqueles que amam a Deus. A Ele acorremos como filhos, num diálogo que há-de encher toda a nossa vida; e como amigos (…). Do mesmo modo, a filiação divina leva a que a abundância de vida interior se traduza em actos de aposto-lado, tal como a amizade com Deus leva a pormo-nos ‘ao serviço de todos: temos de utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrirem Cristo’ (Amigos de Deus, n.° 258)» (Amigos de Deus, Apresentação de Mons. A. Del Portillo, pp. 20-21).

16. Três idéias estão contidas nestas palavras do Senhor. Uma, que o chamamento aos Apóstolos e também a todo o cristão não provém de bons desejos, mas da escolha gratuita de Cristo. Não foram os Apóstolos que escolheram o Senhor como Mestre, segundo o costume judaico de escolher para si um rabino, mas foi Cristo quem os escolheu a eles. A segunda idéia é que a missão dos Apóstolos e de todo o cristão consiste em seguir Cristo, buscar a santidade e contribuir para a propagação do Evangelho. O terceiro ensinamento refere-se à eficácia da súplica feita em nome de Cristo; por isso a Igreja costuma terminar as orações da Sagrada Liturgia com a invocação «por Jesus Cristo Nosso Senhor».

As três idéias assinaladas unem-se harmonicamente: a oração é necessária para que a vida cristã seja fecunda, pois é Deus quem dá o incremento (cfr l Cor 3,7); e a obrigação de buscar a santidade e exercer o apostolado deriva de que é o próprio Cristo quem nos chamou a realizar esta missão.

«Lembra-te, meu filho, de que não és somente uma alma que se une a outras almas para fazer uma coisa boa. «Isso é muito…, mas é pouco. — Es o Apóstolo que cumpre uma ordem imperativa de Cristo» (Caminho, n.° 942).

Dia 8 de maio

Jo 15, 18-21

18Se o mundo vos odeia, ficai sabendo que, primeiro do que a vós, Me odiou a Mim. 19Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas porque não sois do mundo e porque Eu, ao contrário, do mundo vos escolhi, é que o mundo vos odeia. 20Lembrai-vos da Palavra que vos disse: “Não é o servo maior que o seu senhor”. Se a Mim Me perseguiriam, também a vós vos hão-de perseguir. Se guardaram a Minha palavra, também a vossa hão-de guardar. 21Mas tudo isto farão contra vós por causa do Meu nome, por não conhecerem Aquele que Me enviou.

Comentário

18-19. Jesus afirma que entre Ele e o mundo como reino do pecado não há possibilidade de acordo: quem vive no pecado aborrece a luz (cfr Ioh 3,19-20). Por isso perseguiram Cristo e perseguirão também os Apóstolos. “A hostilidade dos perversos soa como um louvor para a nossa vida – diz São Gregório -, porque demonstra que temos pelo menos algo de rectidão enquanto somos incômodos para os que não amam a Deus: ninguém pode ser agradável para Deus e para os inimigos de Deus ao mesmo tempo. Demonstra que não é amigo de Deus quem busca agradar aos que se opõem a Ele: e quem se submete à verdade lutará contra o que se opõe à verdade” (In Ezechielem homiliae, 9).

Dia 9 de maio

Jo 14, 23-29

23Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Se alguém Me ama, há-de guardar a Minha palavra; Meu Pai amá-lo-á e nós viremos a ele e estabeleceremos nele habitação. 24Quem Me não ama não guarda as Minhas palavras; e a palavra que estais a ouvir não é Minha, é do Pai, que Me enviou.

25Isto tenho-vos Eu dito na Minha permanência entre vós. 26Mas o Assistente, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em Meu nome, é que vos há-de ensinar tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse. 27Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz. Não é como o mundo a dá que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração, nem se torne pusilânime. 28Ouvistes que vos disse: “Eu vou, mas volto para junto de vós”. Se Me amasseis, alegrar-vos-íeis por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 29Pois bem, disse-vo-lo antes de acontecer, para que acrediteis quando isso acontecer.

Comentário

22-23. Era crença comum entre os Judeus que quando chegasse o Messias Se manifestaria a todo o mundo como Rei e Salvador. Os Apóstolos entendem as palavras de Jesus como uma manifestação reservada só a eles, e admiram-se. Daí a pergunta de Judas Tadeu. Pode observar-se a confiança dos Apóstolos no convívio com o Senhor, como Lhe perguntam o que não sabem e O consultam acerca das suas dúvidas. É um exemplo de como devemos dirigir-nos a quem é também o nosso Mestre e Amigo.

A resposta de Jesus é aparentemente evasiva, mas na realidade, ao indicar o modo dessa manifestação, explica por que não Se manifesta ao mundo: Ele dá-Se a conhecer a quem O ama e guarda os Seus mandamentos. Deus tinha-Se manifestado repetidas vezes no Antigo Testamento e tinha prometido a Sua presença no meio do povo (cfr Ex 29,45; Ez 37,26-27; etc.). Pelo contrário, aqui Jesus fala-nos de uma presença em cada pessoa. A esta presença refere-se São Paulo quando afirma que cada um de nós é templo do Espírito Santo (cfr 2 Cor 6,16-17). Santo Agostinho, ao considerar a proximidade inefável de Deus na alma, exclama: “Tarde Te amei, formosura tão antiga e tão nova, tarde Te amei; eis que Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava (…). Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tinham-me longe de Ti as coisas que, se não estivessem em Ti, não existiriam. Tu chamaste-me claramente e quebraste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira” (Confissões, X, 27,38).

Jesus refere-Se à habitação da Santíssima Trindade na alma, renovada pela graça: “O coração sente então a necessidade de distinguir e adorar cada uma das pessoas divinas. De certo modo, é uma descoberta que a alma faz na vida sobrenatural, como as de uma criancinha que vai abrindo os olhos à existência. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à actividade do Paráclito vivificador, que Se nos entrega sem o merecermos: os dons e as virtudes sobrenaturais!” (Amigos de Deus, n° 306).

25-26. Jesus expôs com clareza a Sua doutrina, mas os Apóstolos não podiam entendê-la plenamente; entendê-la-ão depois, quando receberem o Espírito Santo, o Espírito da Verdade que os guiará até à verdade completa (cfr Ioh 16,13). “Com efeito, o Espírito Santo ensinou e recordou: ensinou tudo aquilo que Cristo não tinha dito por superar as nossas forças, e recordou o que o Senhor tinha ensinado e que, quer pela obscuridade das coisas, quer pela rudeza do seu entendimento, eles não tinham podido conservar na memória” (Teofilacto, Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.).

O termo que traduzimos por “recordar” inclui também a idéia de “sugerir”: o Espírito Santo trará à memória dos Apóstolos o que já tinham escutado a Jesus, mas com uma luz tal que os capacitará para descobrir a profundidade e a riqueza do que tinham visto e escutado. Assim, “os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade, gozavam (cfr 2,22), as coisas que Ele tinha dito e feito” (Dei Verbum, n. 18).

“Cristo não deixou os Seus seguidores sem guia na tarefa de compreender e viver o Evangelho. Antes de voltar ao Pai prometeu enviar o Seu Espírito Santo à Igreja: ‘Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará todas as coisas que vos disse’. Este mesmo Espírito guia os sucessores dos Apóstolos, os vossos Bispos unidos ao Bispo de Roma, a quem encarregou de manter a fé e ‘pregar o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16,15). Escutai a sua voz, pois vos transmite a palavra do Senhor” (João Paulo II, Homilia Santuário de Knock).

Nos Evangelhos ficaram escritas, sob o carisma da inspiração divina, as recordações e a compreensão que tinham os Apóstolos, depois do Pentecostes, daquelas coisas de que tinham sido testemunhas. Por isso tais escritos sagrados “narram fielmente o que Jesus, o Filho de Deus, vivendo entre os homens, fez e ensinou realmente até ao dia da Ascensão (cfr Act 1,1-2)” (Dei Verbum, n. 11). Por isso também a Igreja tem recomendado insistentemente a leitura da Sagrada Escritura e especialmente dos Evangelhos. “Oxalá fossem tais as tuas atitudes e as tuas palavras, que todos pudessem dizer quando te vissem ou ouvissem falar: Este lê a vida de Jesus Cristo” (Caminho, n° 2).

27. Desejar a paz, era, e é também hoje, a forma usual de saudação dos Hebreus e dos Árabes. Essa mesma saudação que empregava Jesus, continuaram a usá-la os Apóstolos, segundo vemos pelas suas cartas (cfr 1 Pet 1,3; 3 Ioh 15; Rom 1,7; etc.), e dela se continua a servir a Igreja na Liturgia; assim, por exemplo, antes da Comunhão o celebrante deseja aos presentes a paz, condição para participar dignamente no Santo Sacrifício (cfr Mt 5,23), e por sua vez, fruto do mesmo.

A saudação ordinária do povo hebreu recupera na boca do Senhor o seu sentido mais profundo; a paz é um dos dons messiânicos por excelência (cfr Is 9,7; 48,18; Mich 5,5; Mt 10,22; Lc 2,14; 19,38). A paz que nos dá Jesus transcende por completo a do mundo, que pode ser superficial e aparente, compatível com a injustiça. Pelo contrário, a paz de Cristo é sobretudo reconciliação com Deus e entre os homens, um dos frutos do Espírito Santo (cfr Gal 5,22-23), “é serenidade da mente, tranqüilidade da alma, simplicidade do coração, vínculo de amor, união de caridade: não pode adquirir a herança de Deus quem não cumpra o Seu testamento de paz, nem pode viver unido a Cristo quem está separado do cristianismo” (De verb. Dom. serm., 58).

“Cristo é ‘a nossa paz’ (Eph 2,14). Hoje e sempre, Ele repete-nos: ‘A paz vos deixo, a Minha paz vos dou’. Nunca na história da humanidade se falou tanto da paz e se tem desejado tanto como nos nossos dias (…). E, não obstante, constata-se mais e mais como a paz é ameaçada e destruída (…). A paz é um resultado de muitas atitudes e realidades convergentes; é o resultado de preocupações morais, de princípios éticos, baseados na mensagem do Evangelho e corroborados por ele.

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1971, o meu venerado predecessor, Paulo VI, o peregrino da paz, dizia: ‘A verdadeira paz deve fundar-se na justiça, no sentido da dignidade inviolável do homem, no reconhecimento de uma igualdade indelével e desejável entre os homens, no princípio básico da fraternidade humana, isto é, no respeito e amor devido a cada homem, porque é homem’. Esta mesma mensagem repeti eu no México e na Polônia. Repito-a aqui na Irlanda. Todo o ser humano tem direitos inalienáveis que devem ser respeitados. Toda a comunidade humana – étnica, histórica, cultural ou religiosa – tem direitos que devem ser respeitados. A paz está ameaçada sempre que um destes direitos é violado. A lei moral, guardiã dos direitos do homem, protectora da dignidade da pessoa humana, não pode ser deixada de lado por nenhuma pessoa, nenhum grupo, nem pelo próprio Estado, por nenhum motivo, nem sequer pela segurança ou no interesse da lei ou da ordem pública. A lei de Deus está muito acima de todas as razões de Estado. Enquanto existirem: injustiças em qualquer campo que diga respeito à dignidade da pessoa humana, quer seja no campo político, social ou econômico, quer seja na esfera cultural ou na religiosa, não haverá verdadeira paz (…). A paz não pode ser estabelecida pela violência, a paz não pode florescer nunca num clima de terror, de intimidação ou de morte. O próprio Jesus disse: ‘Todos os que empregam a espada perecerão à espada’ (Mt 25,52). Esta é a palavra de Deus, a que ordena aos homens desta geração violenta que desistam do ódio e da violência e se arrependam” (Homilia Drogheda). O gozo e a paz que nos traz Cristo hão-de caracterizar o estado de ânimo de um crente: “Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. – Não é de Deus o que rouba a paz da alma. Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação” (Caminho, n° 258).

28. Jesus Cristo, enquanto Filho Unigênito de Deus, possui a glória divina desde a eternidade, mas durante o tempo da Sua vida na terra essa glória está velada e oculta por detrás da Sua Santíssima Humanidade (cfr 17,5; Phil 2,7). Só se manifesta em algumas ocasiões, como nos milagres (cfr 2,11), ou na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8 e par.). Vai ser agora, mediante a Morte, Ressurreição e Ascensão aos céus, que Jesus vai ser glorificado, também no Seu Corpo, voltando ao Pai e entrando na Sua glória. Por isso, a Sua saída deste mundo devia ser causa de alegria para os discípulos; mas estes não entendem bem as palavras do Senhor, e entristecem-se porque os afecta mais a pena da separação física do Mestre que o pensamento da glória que O espera.

Quando Jesus diz que o Pai é maior que Ele, está a considerar a Sua natureza humana; assim, enquanto homem, Jesus vai ser glorificado ascendendo à direita do Pai. Jesus Cristo “é igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade” (Símbolo Atanasiano). Santo Agostinho exorta: “Reconheçamos, pois, a dupla natureza de Cristo: uma, pela qual é igual ao Pai, que é a divina; e a humana, que o torna inferior ao Pai. Uma e outra natureza não constituem dois mas um só Cristo…” (In Ioann. Evang., 78,3). Não obstante, embora o Pai e o Filho sejam iguais em natureza, eternidade e dignidade, também podem entender-se as palavras do Senhor considerando que “maior” se refere à origem: só o Pai é “princípio sem princípio”, enquanto o Filho procede eternamente do Pai por geração também eterna. Jesus Cristo é Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro (cfr Símbolo Niceno-Constantinopolitano).