dia 3 a 9 de agosto de 2009

Dia 3 de agosto

Mt 14, 13-21

13Jesus, ao ouvir isto, retirou-Se dali numa barca, a sós, para um lugar deserto. O povo, porém, soube-o e das cidades foi, por terra, em Seu seguimento. 14Ao desembarcar, viu uma grande multidão: condoeu-Se dela e curou-lhe os enfermos. 15Sobre a tarde, vieram ter com Ele os discípulos e disseram-Lhe: Este lugar é deserto, e a hora já passou. Despede, pois, as turbas para que vão às aldeias comprar comestíveis. 16Mas Jesus disse-lhes: Não precisam de ir, dai-lhes vós mesmos de comer. 17Tornaram-Lhe eles: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes. 18Disse Ele: Trazei-Mos cá. 19E deu ordem para que a multidão se sentasse sobre a relva. Depois tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e pronunciou a fórmula da bênção, partiu os pães e deu-os aos discípulos, e os discípulos às turbas. 20Comeram todos, até se saciarem; e dos pedaços que sobejaram, levantaram doze cestos cheios. 21Ora, os que comeram eram uns cinco mil homens, afora mulheres e crianças.

Comentário

14-21. Devia ser em plena Primavera porque a erva estava verde (Mc 6,40; Ioh 6,10). Os pães no próximo Oriente costumam ter a forma de tortas delgadas, que se partem facilmente com as mãos e se distribuem aos comensais. Uma e outra coisa costumava fazê-las o pai de família ou o que presidia à mesa. O Senhor segue aqui este mesmo costume. O milagre deste relato consiste em que os pedaços de pão se multiplicam nas mãos de Jesus. Logo, os discípulos distribuiam-nos à multidão.

Outra vez mais sobressai a maneira de actuar do Senhor: busca a livre cooperação do homem; no momento de fazer o milagre quer que os discípulos levem os pães e os peixes, e ofereçam a sua própria actividade.

Dia 4 de agosto

Mt 14, 22-36

22E Ele obrigou logo os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto despedia as turbas. 23Despedidas as turbas, subiu sozinho ao monte, a orar. Ao cair da noite, estava ali sozinho. 24Entretanto, a barca afastara-se já muitos estádios da terra, açoitada pelas ondas, porque o vento era contrário. 25Na quarta vigília da noite, veio Jesus ter com eles, caminhando sobre o mar. 26Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se e disseram: É um fantasma! E gritaram de terror. 27Mas logo Jesus lhes falou, dizendo: Tende confiança! Sou Eu, não temais. 28Tornou-Lhe Pedro: Senhor, se és Tu, manda-me ir ter contigo, por cima das águas. 29Vem! disse Ele. Saltou Pedro da barca e começou a andar por cima das águas, dirigindo-se para Jesus. 30Vendo, porém, um vento forte, amedrontou-se; e, começando a afundar-se, gritou: Senhor, acode-me! 31E Jesus, imediatamente, estendendo-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, porque duvidaste? 32Apenas subiram para a barca, cessou o vento. 33E os que estavam na barca adoraram-No, exclamando: És verdadeiramente o Filho de Deus. 34Feita a travessia, saíram em terra, em Genesaré. 35Reconheceram-No os homens daquele lugar e mandaram aviso a toda a região circunvizinha: trouxeram-Lhe todos os doentes. 36E rogavam-Lhe que os deixasse tocar sequer na franja do Seu manto. E quantos tocaram cobraram perfeita saúde.

Comentário

22-23. O dia tinha sido intenso, como outros tantos de Jesus. Depois de ter feito muitas curas (14, 14), tem lugar o impressionante milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que é figura antecipada da Santíssima Eucaristia. Aquela multidão que O tinha seguido encontrava-se faminta de pão, de palavra e de consolação. Jesus “condoeu-Se dela” (14,14), curou os seus doentes e reconfortou a todos com a Sua palavra e com o pão. Isto não era senão uma antecipação da contínua acção amorosa de Jesus, ao longo dos séculos, com todos nós, necessitados e reconfortados com a Sua palavra e o alimento do Seu próprio Corpo. Tinham sido, pois, muitas as coisas daquele dia e muito intensa a emoção da alma de Jesus, que conhecia a acção vivificante que tinha de exercer o Santíssimo Sacramento na vida dos cristãos: Sacramento que é um mistério de vida, de fé e de amor. Por tudo isso podemos razoavelmente pensar que Jesus sentia necessidade de ter umas horas de recolhimento íntimo para falar com o Pai. A oração a sós de Jesus, entre a actividade de um trabalho e outro, ensina-nos a necessidade deste recolhimento da alma cristã, que acorre a falar com seu Pai Deus, entre os afazeres quotidianos da vida. Sobre a frequente oração pessoal de Jesus, vejam-se, entre outros: Mc 1, 35; 6,47; Lc 5,16; 6,12.

24-33. O impressionante episódio de Jesus a caminhar sobre as águas deve ter feito pensar muito os Apóstolos, e ter ficado gravado vivissimamente entre as suas recordações da vida com o Mestre. Não só São Mateus, mas também São Marcos (6, 45-52), que o deve ter ouvido de São Pedro, e São João (6, 14-21) incluem-no nos seus respectivos Evangelhos.

As tempestades no lago de Genesaré são frequentes e redemoinham as águas, constituindo um grave perigo para as embarcações pesqueiras. Desde o alto do monte, Jesus em oração não esquece os Seus discípulos. Vê-os a esforçar-se na luta com o vento que lhes era contrário e com as ondas. E terminada a oração aproxima-Se deles para os ajudar.

O episódio ilumina a vida cristã. Também a Igreja, como a barca dos Apóstolos, se vê combatida. Jesus, que vela por ela, acode a salvá-la, não sem antes tê-la deixado lutar para fortalecer a têmpera dos seus filhos. E anima-os: “Tende confiança! Sou Eu, não temais” (14,27). E vêm as provas de fé e de fidelidade: a luta do cristão por manter-se firme, e o grito de súplica do que vê que as suas próprias forças fraquejam: “Senhor, salva-me!” (14, 30); palavras de Pedro que volta a repetir toda a alma que acorre a Jesus como ao seu verdadeiro Salvador. Depois, o Senhor salva-nos. E, no fim, brota a confissão da fé, que então como agora deve proclamar: “És verdadeiramente o Filho de Deus” (14,33).

29-31. São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 50) comenta que neste episódio Jesus ensinou a Pedro a conhecer, por experiência própria, que toda a sua fortaleza lhe vinha do Senhor, enquanto de si mesmo só podia esperar fraqueza e miséria. Por outro lado, o Crisóstomo chega a dizer que “quando falta a nossa cooperação cessa também a ajuda de Deus”. Daí a repreensão “homem de pouca fé” (14, 31). Por isso quando Pedro começou a temer e a duvidar, começou também a afundar-se até que, de novo, cheio de fé, gritou: “Senhor, salva-me!”.

Se como Pedro fraquejamos nalgum momento, esforcemo-nos também como ele na nossa fé e gritemos a Jesus para que venha salvar-nos.

34-36. Com a fé com que aqueles homens da ribeira do lago de Genesaré se aproximavam de Jesus, deve aproximar-se todo o cristão da Humanidade adorável do Salvador. Cristo, Deus e Homem, é acessível para nós no Sacramento da Eucaristia.

“Quando te aproximes do Sacrário, pensa que Ele… há vinte séculos que te espera” (Caminho, n.° 537).

Dia 5 de agosto

Mt 15, 21-28

21Saindo dali, retirou-Se Jesus para os lados de Tiro e Sidónia. 22Ora uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a bradar: Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim! A minha filha é cruelmente atormentada do Demónio. 23Mas Ele não lhe respondeu palavra. Aproximando-se então os discípulos, começaram a pedir-Lhe: Despacha-a, porque nos persegue com os seus gritos. 24Respondeu Ele: Não fui enviado senão às ovelhas desgarradas da Casa de Israel. 25Mas ela veio, prostrou-se por terra e exclamou: Vale-me, Senhor! 26Respondeu-lhe Ele: Não é bonito tomar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorros. 27E ela: É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem das migalhas que caem da mesa dos donos. 28Então Jesus disse-lhe: Ó mulher, é grande a tua fé! Faça-se como desejas. E, desde aquela hora, ficou a filha curada.

Comentário

21-22. Tiro e Sidónia são duas cidades fenícias, na costa do Mediterrâneo, actualmente pertencentes ao Líbano. Nunca fizeram parte da Galileia, mas encontram-se perto da fronteira noroeste desta região. Portanto, no tempo de Jesus estavam fora dos domínios de Herodes Antipas. Para ali Se retira o Senhor para evitar a perseguição deste e dos judeus, e atender de modo mais intenso à formação dos Seus Apóstolos.

Na região de Tiro e Sidónia a maioria dos habitantes eram pagãos. São Mateus chama a esta mulher “cananeia”; segundo o Génesis (10, 15) esta zona foi uma das primeiras colónias dos Cananeus; São Marcos chama sirio-fenícia a esta mulher (Mc 7, 26). Ambos os Evangelhos põem em realce a sua condição de pagã, com o que adquire maior relevo a sua fé no Senhor, como aconteceu também no caso do centurião (Mt 8, 5-13).

A oração da cananeia é perfeita: reconhece Jesus como Messias (Filho de David) perante a incredulidade dos judeus, expõe a sua necessidade com palavras claras e simples, insiste sem desanimar diante dos obstáculos e exprime humildemente a sua petição: Tem compaixão de mim. A nossa oração também deve ir acompanhada destas qualidades: fé, confiança, perseverança e humildade.

24. Esta frase não é contrária à universalidade da doutrina de Jesus (cfr Mt 28, 19-20; Mc 16, 15-16). O Senhor veio trazer o Seu Evangelho ao mundo inteiro, mas directamente Ele só pregaria aos judeus; os Apóstolos, por mandato de Cristo, encarregar-se-ão mais tarde de evangelizar os pagãos. O próprio São Paulo, nas suas frequentes correrias, pregou primeiro aos judeus (Act 13,46).

25-28. O diálogo é de uma beleza incomparável. Com aparente dureza Jesus consegue assegurar a fé da Cananeia, que chega a merecer um dos maiores elogios que saíram da boca de Jesus: “é Grande a tua fé!”. Assim deve ser o nosso diálogo com o Senhor: “Persevera na oração. – Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. – A oração é sempre fecunda” (Caminho, n.° 101).

Dia 6 de agosto

Mc 9, 2-10

2Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os só a eles à parte a um monte alto e transfigurou-Se diante deles. 3Os vestidos tornaram-se resplandecentes e alvíssimos, tanto que nenhuma lavadeira sobre a Terra os poderia assim branquear. 4E apareceu-lhes Elias com Moisés, que estavam a conversar com Jesus. 5Tomando Pedro a palavra, disse a Jesus: Rabi, bom é estarmos aqui. Façamos três guaridas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias; 6pois não sabia o que havia de dizer, visto estarem tomados de medo. 7Formou-se então uma nuvem que os envolveu, e da nuvem saiu uma voz: Este é o Meu Filho amado. Ouvi-O. 8E, de repente, olhando à volta de si, não viram a mais ninguém, senão só a Jesus com eles. 9Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do homem ter ressuscitado dos mortos. 10Eles guardaram o facto para si, mas perguntavam-se que seria aquilo de: “ressuscitar dos mortos”.

Comentário

2-10. Contemplamos admirados esta manifestação da glória do Filho de Deus a três dos Seus discípulos. Desde a Encarnação, a Divindade de Nosso Senhor estava habitualmente oculta por detrás da Humanidade. Mas Cristo quis manifestar precisamente a estes três discípulos predilectos, que iam ser colunas da Igreja, o esplendor da Sua glória divina com o fim de que se animassem a seguir o caminho difícil e áspero que lhes restava para percorrer, fixando o olhar na meta gozosa que os esperava no fim. Por esta razão, como comenta São Tomás (cfr Suma Teológica, III, q. 45, a. 1), foi conveniente que Cristo tenha manifestado a clareza da sua glória. As circunstâncias da Transfiguração imediatamente depois do primeiro anúncio da Sua Paixão, e das palavras proféticas de que os Seus seguidores também teriam de tomar a Sua Cruz, fazem-nos compreender que “precisamos de passar por meio de muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (Act 14,22).

Em que consistiu a Transfiguração do Senhor? Para poder compreender de algum modo este facto miraculoso da vida de Cristo deve ter-se em conta que o Senhor, para nos redimir com a Sua Paixão e Morte, renunciou voluntariamente à glória divina e encarnou com carne passível, não gloriosa, fazendo-se semelhante em tudo a nós menos no pecado (cfr Heb 4,15). Neste momento da Transfiguração, Jesus Cristo quer que a glória que Lhe correspondia por ser Deus, e que a Sua alma tinha desde o momento da Encarnação, apareça miraculosamente no Seu corpo. “Aprendamos desta atitude de Jesus: durante a Sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo (cfr Phil II, 6)” (Cristo que passa, n° 62). Tendo em conta Quem encarna (a dignidade da pessoa e a glória da Sua alma), era conveniente a glória do corpo de Jesus. Mas tendo em conta para que encarna (a finalidade da Encarnação), não era conveniente, de modo habitual, tal glória. Cristo mostra a Sua glória na Transfiguração para nos mover ao desejo da glória divina que nos será dada, e assim, com esta esperança, compreendamos “que os padecimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que se há-de manifestar em nós” (Rom 8,18).

2. Segundo o Deuteronómio (19,15), para atestar um facto eram necessárias duas ou três testemunhas. Talvez por isso Jesus Cristo quis que estivessem presentes três Apóstolos. Deve notar-se que estes três Apóstolos foram os predilectos, que O acompanharam também na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), e estiveram mais perto d’Ele nos momentos tremendos de Getsémani (Mc 14,33).

7. Deste modo explica São Tomás o significado da Transfiguração: “Assim como no baptismo de Jesus, onde foi declarado o mistério da primeira regeneração, se mostrou a acção de toda a Trindade, já que ali esteve o Filho Encarnado, apareceu o Espírito Santo em forma de pomba, e ali se escutou a voz do Pai; assim também na Transfiguração, que é como que o sacramento da segunda regeneração (a ressurreição), apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem; porque assim como Deus Trino dá a inocência no Baptismo, da mesma maneira dará aos Seus eleitos o fulgor da glória e o alívio de todo o mal na Ressurreição…” (Suma Teológica, III, q. 45, a. 4 ad 2). Porque, na verdade, a Transfiguração foi um certo sinal ou antecipação não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa. Pois, como diz São Paulo: “O próprio Espírito dá testemunho juntamente com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. E se somos filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo; desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados” (Rom 8,16-17).

“O Amado”: Com esta expressão revela-se que Cristo é o Filho Unigênito do Pai, cumprindo as profecias do Antigo Testamento. Frei Luís de León comenta: “É Cristo O Amado, isto é, o que antes foi, e agora é e será para sempre a coisa mais amada de todas (…) porque nem uma criatura sozinha, nem as criaturas todas juntas, são de Deus tão amadas, e porque só Ele é o que tem verdadeiros adoradores de Si” (Os nomes de Cristo, livro 3, Amado).

10. A verdade da ressurreição dos mortos estava já revelada no Antigo Testamento (cfr Dan 12,2-3; 2 Mach 7,9; 12,43), e os judeus piedosos criam nela (cfr Ioh 11,23-25). Não obstante, não eram capazes de compreender a verdade profunda da Morte e Ressurreição do Senhor, porque apenas consideravam o aspecto glorioso e triunfador do Messias, apesar de que também estavam profetizados os Seus sofrimentos e a Sua morte (cfr Is 53). Daí as disquisições dos Apóstolos que não se atrevem a perguntar directamente ao Senhor pela Sua Ressurreição.

Dia 7 de agosto

Mt 16, 24-28

24Jesus disse então aos discípulos: Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 25Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á. 26Pois, de que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma? Ou que dará o homem em resgate da sua alma? 27Porque o Filho do homem há-de vir na glória de Seu Pai, com os Seus Anjos, e então remunerará a cada um segundo as suas obras. 28Em verdade vos digo: há alguns aqui que não experimentarão a morte, antes de verem o Filho do homem no Seu Reino.

Comentário

24. “O amor de Deus que ‘foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado’ (Rom 5, 5), torna os leigos capazes de exprimir em verdade, na própria vida, o espírito das Bem-aventuranças. Seguindo a Cristo pobre, nem se deixam abater com a falta dos bens temporais nem se exaltam com a sua abundância; imitando a Cristo humilde, não são cobiçosos da glória vã (cfr Gal 5, 26), mas procuram mais agradar a Deus que aos homens, sempre dispostos a deixar tudo por Cristo (cfr Lc 14, 25) e a sofrer perseguição pela justiça (cfr Mt 5, 10), lembrados da palavra do Senhor: ‘se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me’ (Mt 16, 24)” (Apostolicam actuositatem, n. 4).

25. O cristão não pode passar por alto estas palavras de Jesus Cristo. Deve arriscar-se, jogar a vida presente em troca de conseguir a eterna. “Que pouco é uma vida para oferecê-la a Deus!…” (Caminho, n° 420).

A exigência do Senhor inclui renunciar à própria vontade para a identificar com a de Deus, não aconteça que, como comenta São João da Cruz, tenhamos a sorte de muitos “que queriam que Deus quisesse o que eles querem, e entristecem-se de querer o que Deus quer, e têm repugnância em acomodar a sua vontade à de Deus. Disto vem que muitas vezes, no que não acham a sua vontade e gosto, pensam não ser da vontade de Deus e, pelo contrário, quando se satisfazem, crêem que Deus Se satisfaz, medindo também a Deus por si, e não a si mesmos por Deus” (Noite Escura, liv. I, cap. 7, n.° 3).

26-27. As palavras de Cristo são de uma clareza meridiana: situam cada homem, individualmente, diante do Juízo Final. A salvação tem, pois, um carácter radicalmente pessoal: “remunerará a cada um segundo as suas obras” (v. 27).

O fim do homem não é ganhar os bens temporais deste mundo, que são apenas meios ou instrumentos; o fim último do homem é o próprio Deus, que é possuído como antecipação aqui na terra pela graça, e plenamente e para sempre na Glória. Jesus indica qual é o caminho para conseguir esse fim: negar-se a si mesmo (isto é, tudo o que é comodidade, egoísmo, apego aos bens temporais) e levar a cruz. Porque nenhum bem terreno, que é caduco, é comparável à salvação eterna da alma. Como explica com precisão teológica São Tomás, “o menor bem da graça é superior a todo o bem do universo” (Suma Teológica, I-II, q. 113, a. 9).

28. Ao dizer isto, Jesus não se refere à Sua última vinda de que fala no versículo anterior, mas está a referir-Se a outros factos que aconteceriam antes e que constituiriam um sinal da Sua glorificação depois da morte. Assim, a vinda de que fala aqui o Senhor pode referir-se em primeiro lugar à Sua Ressurreição e aparições. Também poderia estar relacionada com a Transfiguração, que mostra já a glória de Cristo. Finalmente, essa vinda de Cristo no Seu Reino poderia ver-se manifestada na destruição de Jerusalém, em que é significado o fim do antigo povo de Israel como realização do Reino de Deus e a sua substituição pela Igreja, novo Reino.

Dia 8 de agosto

Mt 17, 14-20

14Ao chegarem junto do povo, acercou-se d’Ele um homem, que, lançando-se de joelhos diante d’Ele, 15disse: Senhor, tem compaixão de meu filho, que é lunático e está muito mal; pois muitas vezes se atira ao fogo e outras à água. 16Apresentei-o aos Teus discípulos, e não puderam curá-lo. 17Respondeu-lhe Jesus: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco! Até quando vos hei-de suportar? Trazei-Mo cá. 18E Jesus imperou ao Demónio, que saiu dele; e, desde aquele momento, ficou o pequeno curado. 19Então chegaram-se os discípulos a Jesus, em particular, e disseram-Lhe: Porque é que nós não o pudemos expulsar? 20E Ele disse-lhes: Por causa da vossa pouca fé. Em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: “muda-te daqui para ali”, e ele mudar-se-á e nada vos será impossível.

Comentário

14-21. No episódio da cura deste rapaz manifesta-se, por um lado, a omnipotência de Jesus Cristo, e, por outro, o poder da oração feita com fé. O cristão, em virtude da união profunda com Cristo, pela fé participa, de alguma maneira, da própria Omnipotência de Deus, até ao ponto de Jesus chegar a dizer noutra ocasião: “Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fá-las-á maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai” (Ioh 14,12).

O Senhor diz aos Apóstolos que se tivessem fé realizariam prodígios, mudariam as montanhas do seu lugar. Ao falar de “mudar de lugar as montanhas” provavelmente empregava uma maneira de dizer já proverbial. Deus concederia sem dúvida ao crente mudar de lugar uma montanha se tal facto fosse necessário para a Sua glória e para a edificação do próximo; mas entretanto, a palavra de Cristo cumpre-se todos os dias num sentido muito superior. Alguns Padres da Igreja (São Jerónimo, Santo Agostinho) indicaram que se cumpre o facto de “mudar de lugar uma montanha”, sempre que alguém por virtude divina chega onde as forças humanas não chegam. Tal sucede, de modo claro, na obra da nossa santificação pessoal, que o Paráclito vai realizando na alma quando somos dóceis e recebemos com espírito de fé e de amor a graça que nos é dada nos sacramentos: estes podem ser aproveitados em maior ou menor grau segundo as disposições com que são recebidos, isto é, na medida da nossa fé e do nosso amor. É um facto muito mais sublime que o de mudar de lugar montanhas e que se opera cada dia em tantas almas santas, ainda que passe inadvertido à maioria.

De facto, os Apóstolos e muitos santos ao longo dos séculos fizeram milagres admiráveis na ordem física; mas os milagres maiores e mais importantes foram, são e serão os das almas que, tendo estado sumidas na morte do pecado e da ignorância, renascem e crescem na nova vida dos filhos de Deus.

20. A força da comparação, aqui como na parábola de Mt 13, 31-32, estriba-se em que a semente de mostarda é um grãozinho sumamente pequeno e, não obstante, produz uma grande planta que chega a atingir mais de três metros de altura. Assim, o acto mais pequeno de fé verdadeira pode produzir efeitos surpreendentes.

Dia 9 de agosto

Jo 6, 41-51

41Puseram-se então os Judeus a murmurar a Seu respeito, por ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu», 42e diziam: Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe? Como é que diz agora:« Eu desci do Céu?». 43Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós. 44Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, o não atrair; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 45Está escrito nos Profetas: Serão todos instruídos por Deus. Todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai vem a Mim. 46Não é que alguém tenha visto o Pai, senão Aquele que vem de Deus; Esse é que viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que acredita possui a vida eterna! 48Eu sou o Pão da Vida. 49Vossos pais, no deserto, comeram o maná, e morreram. 50Tal é o pão que desce do Céu: quem dele comer não morrerá. 5lEu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer este pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo.

Comentário

42. E a segunda e a última vez que São João menciona São José no seu Evangelho, deixando notícia da opinião comum, ainda que errada, dos que conheciam Jesus e O consideravam filho de José (cfr Ioh1,45; Lc 3,23; 4,22; Mt 13,55). O Senhor, concebido por obra do Espírito Santo no seio virginal de Maria, só tem como Pai o próprio Deus (cfr a nota a Ioh5,18). Não obstante, São José fez as vezes de pai de Jesus na terra, segundo os planos divinos (cfr as notas a Mt 1,16.18). Por isso se chama a José pai de Jesus e, certamente, cumpriu a sua missão de cuidar do Senhor com singular fidelidade. Santo Agostinho explica assim a pater­nidade de José: «A José não só é devido o nome de pai, mas é-lhe devido mais que a outro qualquer. Como era pai? Tanto mais profundamente pai quanto mais casta foi a sua pater­nidade. Alguns pensavam que era pai de Nosso Senhor Jesus Cristo da mesma forma que são pais os outros, que geram segundo a carne, e não só recebem os seus filhos como fruto do seu afecto espiritual. Por isso diz São Lucas: ‘pensava-se que era pai de Jesus’. Por que diz apenas pensa­va-se ? Porque o pensamento e o juízo humanos referem-se ao que costuma suceder entre os homens. E o Senhor não nasceu do sêmen de José. Não obstante, à piedade e à caridade de José nasceu-lhes um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus» (Sermo 51,20).

Neste versículo, como em algumas outras ocasiões (cfr Ioh7,42; 4,29), São João anota a ignorância da gente, ao mesmo tempo que ele e os leitores do seu Evangelho conhecem a verdade acerca de Jesus. No nosso caso, à objecção dos Judeus não é directamente rebatida, mas fica simplesmente anotada, contando com que para o leitor cristão — a quem dirige o Evangelho — já não constitui dificuldade alguma.

44-45. O ir a Cristo até O encontrar é um dom gratuito que nenhum homem pode conseguir só com as suas próprias forças, embora todos devam estar bem dispostos para O receber. O Magistério da Igreja voltou a recordar esta doutrina no Concilio Vaticano II: «Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá ‘a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade’» (Dei Verbum, n. 5).

Jesus ao dizer que «serão todos instruídos por Deus», evoca Is 54,13 e ler 31,33 ss., onde ambos os profetas se referem à futura Aliança que Deus estabelecerá com o Seu povo quando chegar o Messias, com cujo Sangue ficará selada para sempre, e que Deus escreverá nos seus corações (cfr Is 53,10-12; ler 31,31-34).

«Que ouviu e aprendeu do Pai»: Pode traduzir-se também «o que vem do Pai». Refere-se à Revelação de Deus pelos profetas e especialmente por Jesus Cristo.

46. Nós, os homens, só podemos conhecer a Deus Pai através de Jesus Cristo, porque Ele é o único que O viu e veio para no-Lo revelar. Já tinha dito São João no prólogo: «A Deus ninguém O viu jamais; o Deus Unigênito, O que está no seio do Pai, Ele mesmo O deu a conhecer» (Ioh1,18). Mais tarde dirá Jesus a Filipe na Última Ceia: «Aquele que Me viu a Mim viu o Pai» (Ioh14,9), porque Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele (cfr Ioh14,6).

Com efeito, em Jesus Cristo culmina a Revelação de Deus aos homens: «Pois enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr Ioh1,1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado ‘como homem para os homens’, ‘fala, portanto, as palavras de Deus’ (Ioh3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cfr Ioh5,36; 17,4). Por isso, Quem vê a Jesus Cristo vê o Pai (cfr Ioh14,9)» (Dei Verbum, n. 4).

48. Com esta solene declaração repetida diante das dúvidas dos ouvintes (cfr Ioh6,35.41.48), Jesus começa a segunda parte do Seu discurso, em que directamente revela o grande mistério da Santíssima Eucaristia. As palavras de Cristo são de um realismo tão forte que excluem qualquer interpretação em sentido figurado: se Cristo não estivesse realmente presente sob as espécies do pão e do vinho, este discurso careceria absolutamente de sentido e de força. Por outro lado, aceite pela fé a presença real de Cristo na Euca­ristia, as Suas palavras são inequívocas e mostram o infinito e íntimo amor de Cristo por nós.

É tão grande este mistério que foi sempre pedra de toque da fé cristã. «Eis o mistério da fé», proclama-se imediatamente depois da Consagração na Santa Missa. Já para certos ouvintes directos de Jesus este discurso foi motivo de escân­dalo (cfr vv. 60-66). Ao longo da história alguns procuraram mitigar o sentido óbvio das palavras do Senhor. O Magis­tério da Igreja voltou nos nossos dias a expor a doutrina sobre este excelso mistério: «Realizada a transubstanciacão, as espécies de pão e de vinho adquirem sem dúvida um novo significado e um novo fim, visto que já não são o pão ordinário e a bebida ordinária, mas o sinal de uma coisa sagrada, sinal de um alimento espiritual; mas adquirem um novo significado e um novo fim enquanto contêm uma ‘realidade’, que com razão denominamos antológica; porque debaixo de tais espécies já não existe o que havia antes, mas uma coisa completamente diversa (…), visto que convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, não fica já nada do pão e do vinho, mas apenas as espécies: debaixo delas Cristo todo inteiro está presente na Sua ‘realidade’ física, mesmo corporalmente, ainda que não do mesmo modo como os corpos estão num lugar.

«Por isso os Padres tiveram grande cuidado em advertir os fiéis que ao considerar este augustíssimo Sacramento, confiassem não nos sentidos que se fixam nas propriedades do pão e do vinho, mas nas palavras de Cristo, que têm tal força que mudam, transformam, ‘transelementam’ o pão e o vinho no Seu Corpo e no Seu Sangue; porque, como mais de uma vez o afirmam os mesmos Padres, o poder que realiza isto é a própria força de Deus omnipotente que no princípio do tempo criou o universo do nada» (Mysterium fidei).

Sobre a Santíssima Eucaristia vejam-se também as notas a Mt 26,26-29; Mc 14,22.24.25 e Lc 22,16-20.

49-51. O maná do Êxodo era figura deste Pão — o próprio Jesus Cristo — que alimenta os cristãos no seu peregrinar por este mundo. A comunhão é o maravilhoso ban­quete em que Cristo Se nos dá a Si mesmo: «O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo». Estas palavras são a promessa da instituição da Eucaristia na Última Ceia: «Isto é o Meu Corpo que é entregue por vós» (l Cor 11,22). As expressões «pela vida do mundo», «por vós» aludem ao valor redentor da imolação de Cristo na Cruz. Já em alguns sacrifícios do Antigo Testamento, que eram figura do de Cristo, parte da carne oferecida servia de alimento e significava a participação no rito sagrado (cfr Ex 11,3-4). Assim, quando comungamos, participamos do sacri­fício de Jesus Cristo. Por isso canta a Igreja na Liturgia das Horas na festa do Corpus Chrísti: «Oh banquete sagrado em que Cristo é nossa comida, se celebra o memorial da Paixão, a alma se enche de graça e nos é dado um penhor da futura glória» (Antífona do ‘Magnificat’ nas Segundas Vésperas).