dia 29 de março a 4 de abril de 2010

Dia 29 de março

Jo 12, 1-11

1Seis dias antes da Páscoa, veio Jesus a Betânia, onde se encontrava Lázaro, que Jesus havia ressuscitado dos mortos. 2Ofereceram-Lhe lá um jantar. Marta andava a servir, e Lázaro era um dos que estavam com Ele à mesa. 3Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo genuíno, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os seus cabelos. E a casa encheu-se com o cheiro do perfume. 4Disse Judas Iscariotes, um dos discípulos, aquele que O ia entregar: 5Por que motivo se não vendeu este perfume por trezentos denários, para se dar aos pobres? 6Disse isto, não por se importar com os pobres, mas porque era ladrão e porque, andando com a bolsa, tirava o que nela se metia. 7Respondeu Jesus: Deixa-a lá; foi para reservar o perfume para o dia da Minha sepultura; 8pois que pobres, sempre os haveis de ter convosco, mas a Mim nem sempre Me tereis.

9Soube então um grande número de Judeus que Ele ali Se encontrava e vieram, não só por causa de Jesus, mas também para verem Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. 10Ora os Sumos Sacerdotes haviam deliberado dar a morte a Lázaro também, 11porque muitos dos Judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus.

Comentário

1. Jesus visita de novo os Seus amigos de Betânia. Comove ver como o Senhor tem esta amizade, tão divina e tão humana, que se manifesta num convívio freqüente.

“E verdade que chamo sempre Betânia ao nosso Sacrário… – Faz-te amigo dos amigos do Mestre: Lázaro, Marta, Maria. – E depois já me não perguntarás por que chamo Betânia ao nosso Sacrário” (Caminho, n° 322).

2-3. Parece que houve duas unções do Senhor em ocasiões diferentes e por motivos diversos: a primeira, no princípio do Seu ministério público, na Galileia, relatada por São Lucas (7,36-50); a segunda, no fim da Sua vida, em Betânia, narrada aqui por São João, e que sem dúvida é a mesma que relatam São Mateus (26,6-13) e São Marcos (14,3-9). Tanto pelo tempo em que sucederam, como pelas circunstâncias particulares, ambas as unções se distinguem com clareza: no primeiro caso tratou-se de uma manifestação de arrependimento a que se seguiu o perdão; no segundo caso foi uma mostra delicada de amor, que Jesus interpretou, além disso, como antecipação da Sua unção para a sepultura (v. 7).

Ainda que as unções de que foi objecto Jesus tenham tido uma relevância muito especial, devem ser consideradas dentro dos usos da hospitalidade entre os orientais.

A libra era uma medida de peso equivalente a uns trezentos gramas: o denário, como indicamos noutras ocasiões, era a paga diária de um operário agrícola; portanto, o valor do frasco de perfume equivaleria ao salário de um ano completo.

“Que prova tão clara de magnanimidade o excesso de Maria! Judas lamenta que se tenha desperdiçado um perfume que valia – com a sua avareza fez muito bem as contas – pelo menos trezentos dinheiros.

O verdadeiro desprendimento leva-nos a ser muito generosos com Deus e com os nossos irmãos (…). Não sejais mesquinhos nem tacanhos com quem tão generosamente Se excedeu connosco, até Se entregar totalmente, sem medida. Pensai quanto vos custa – também no domínio econômico – ser cristão! Mas, sobretudo, não esqueçais que Deus ama quem dá com alegria (2 Cor IX, 7-8)” (Amigos de Deus, n° 126).

4-6. Por este passo e por Ioh 13,29 sabemos que Judas era o que administrava o dinheiro. Com pequenos roubos – não daria para mais a exígua bolsa de Jesus e dos Doze – tinham-se ido preparando em Judas as disposições que contribuíram para a traição final; esta queixa em relação à generosidade da mulher é uma hipocrisia. “Com freqüência os servidores de Satanás se disfarçam de servidores da justiça (cfr 2 Cor 11,14-15). Por isso (Judas) ocultou a sua malícia sob capa de piedade” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

7-8. Além de louvar o gesto magnânimo de Maria, o Senhor anuncia veladamente a proximidade da Sua morte, e até se vislumbra que será tão inesperada que mal haverá tempo para embalsamar o Seu corpo tal como costumavam fazê-lo os Judeus (Lc 23,56). Jesus não nega o valor da esmola que tantas vezes recomendou (cfr Lc 11,41; 12,33), nem a preocupação pelos pobres (cfr Mt 25,40), mas descobre a hipocrisia daqueles que, como Judas, aduzem falsamente motivos nobres para não dar a Deus a honra devida.

9-11. A notícia da ressurreição de Lázaro teve grande eco entre a gente da Judeia e os que subiam a Jerusalém pela Páscoa; muitos creram em Jesus (Ioh 11,45), outros procuravam-No (Ioh 11,56) quiçá mais por curiosidade (Ioh 12,9) que por fé. Seguir a Cristo exige de cada um de nós muito mais que um entusiasmo superficial e passageiro. Recordemo-nos daqueles “que, quando ouvem a palavra, naquele momento a recebem com alegria, contudo não têm raiz em si mesmos, mas são inconstantes; e depois, ao vir uma tribulação ou perseguição por causa da palavra, escandalizam-se logo” (Mc 4,16-17).

Dia 30 de março

Jo 13, 21-33.36-38

21Dito isto, perturbou-Se Jesus interiormente e asseverou: Em verdade, em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me. 22Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem a quem Se referia. 23Ora um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa junto do seio de Jesus. 24Então Simão Pedro faz-lhe sinal e diz-lhe: Pergunta lá de quem é que fala. 25Ele, inclinando-se sem mais sobre o peito de Jesus, pergunta-Lhe: Quem é, Senhor? 26Jesus responde: É aquele a quem Eu der o pedaço de pão que vou ensopar. E, depois de ensopar o pedaço de pão, toma-o e entrega-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. 27Nessa altura, depois do pedaço de pão, entrou nele Satanás. Diz-lhe então Jesus: O que tens a fazer, fá-lo sem demora. 28Isto, porém, não soube nenhum dos convivas por que lho disse, 29pois alguns, por Judas andar com a bolsa, pensavam que Jesus lhe dizia: Vai comprar aquilo de que precisamos para a festa; ou então que desse alguma coisa aos pobres. 30Tendo, pois, tomado o pedaço de pão, saiu imediatamente. E era noite…

31Depois de ele sair, diz Jesus: Agora é que foi glorificado o Filho do homem e Deus foi n’Ele glorificado. 32Uma vez que Deus foi n’Ele glorificado, também Deus O há-de glorificar em Si mesmo e glorificá-Lo-á sem demora.

33“Filhinhos, ainda estou um pouco convosco. Haveis de procurar-Me e, assim como disse aos Judeus: “Vós não podeis vir para onde Eu vou “, também vo-lo digo agora.

36Diz-Lhe Simão Pedro: Para onde vais, Senhor? Para onde Eu vou – respondeu-lhe Jesus – não podes tu seguir-Me por agora; seguir-Me-ás depois. 37Diz-Lhe Pedro: Senhor, por que motivo não posso agora seguir-Te? Eu darei a minha vida por Ti! 38Darás a tua vida por Mim?! responde Jesus. – Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem tu Me haveres negado por três vezes!

Comentário

21. A dor de Cristo é proporcionada à gravidade da ofensa. Judas era um dos escolhidos por Jesus para ser Apóstolo: durante três anos tinha tido uma convivência familiar e íntima com Ele, tinha-O seguido para toda a parte, tinha visto os Seus milagres, ouvido a Sua doutrina divina e experimentado a ternura do Seu coração… E depois de tudo isto, no momento decisivo, Judas não só abandona o Mestre mas atraiçoa-O e vende-O. A traição de um íntimo é muito mais dolorosa e cruel que a de um estranho, porque supõe uma falta de lealdade. Também a vida espiritual do cristão é verdadeira amizade com Cristo; por isso assenta sobre a lealdade, à honradez e a fidelidade à palavra dada.

Judas tinha decidido entregar Jesus e pôs-se de acordo cornos príncipes dos sacerdotes (cfr Mt 26,14; Mc 14,10-11; Lc 22,3-6). A tentação, consumada já no coração de Judas, vinha-se preparando desde há tempos, como vemos na unção de Betânia quando protestou contra o gesto de amor de Maria; São João comenta então que o fez não por amor aos pobres mas porque era ladrão (cfr Ioh 12,6).

23. Naquele tempo, nas ocasiões solenes costumavam comer recostados sobre uma espécie de divão, chamado triclínio. Apoiavam-se sobre o lado esquerdo para comer com a mão direita. Deste modo era fácil reclinar-se naquele que estava à esquerda e falar de forma confidencial. O que lemos neste versículo é um pormenor que indica a intimidade e confiança que o Mestre e o discípulo amado tinham entre si (cfr Ioh 19,27; 20,2; 21,23), modelo do amor de Jesus por todos os Seus verdadeiros discípulos, e destes pelo Mestre.

26-27. O bocado que lhe oferece Jesus é mostra de amizade e, portanto, convite a emendar as suas perversas maquinações. Judas, porém, desperdiça esta oportunidade. “Bom é o que recebeu – comenta Santo Agostinho -, mas recebeu-o para a sua perdição, porque aquele que era mau recebeu com má disposição o que era bom” (In Joann. Evang., 61,6). A entrada de Satanás indica que desde esse momento Judas se abandona completamente à tentação diabólica.

29. “Todos estes pormenores foram conservados para nos dizer: se alguém vos ultraja, não vos indigneis. Pensai no culpável e chorai a sua violência natural. Aquele que lesa o bem de outro, o caluniador, que interesses fere primeiro? Os seus próprios, sem dúvida (…). Jesus Cristo enche dos Seus benefícios Judas o traidor, lava os seus pés, repreende-o sem acrimónia, censura-o com discrição, procura ganhar o seu coração, honra-o até comer com ele, até o abraçar; e inclusivamente quando Judas não recapacita, Jesus Cristo não cessa no Seu bom empenho” (Hom. sobre S. João, 71,4).

30. A indicação de que “era noite” não é só uma simples referência cronológica, mas alude às trevas como imagem do pecado, do poder tenebroso que naquele instante iniciava a Sua hora (cfr Lc 22,53). O contraste entre luz e trevas, oposição do mal ao bem, é muito freqüente na Bíblia, especialmente no quarto Evangelho, onde, já desde o Prólogo, nos é dito que Cristo é a Luz verdadeira que as trevas não receberam (cfr Ioh 1,5).

31-32. Esta glorificação refere-se sobretudo à glória que Cristo receberá a partir da Sua exaltação na Cruz (Ioh 3,14; 12,32). São João sublinha que a morte de Cristo é o começo do Seu triunfo; tanto é assim que a própria crucifixão poderia considerar-se como o primeiro passo da subida para o Pai. Ao mesmo tempo é glorificação do Pai, pois Cristo, aceitando voluntariamente a morte por amor, como ato supremo de obediência à Vontade divina, realiza o maior sacrifício com que o homem pode dar glória a Deus. O Pai corresponderá a esta glorificação que Cristo Lhe tributa glorificando-O a Ele, como Filho do Homem, isto é, na Sua Santíssima Humanidade, através da Ressurreição e exaltação à Sua direita. Desta forma a glória que o Filho dá ao Pai é ao mesmo tempo glória para o Filho.

Assim também o discípulo de Cristo encontrará o seu maior motivo de glória na identificação com a atitude obediente do Mestre. São Paulo indica-o claramente ao dizer: “Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14).

33. A partir deste versículo o Evangelista relata o que costuma chamar-se o discurso da Ceia. Nele podem distinguir-se três partes. Na primeira, o Senhor começa por proclamar o Mandamento Novo (vv. 33-35) e anuncia as negações de Pedro (vv, 36-38). Explica-lhes depois que a Sua Morte vai ser o trânsito para o Pai (cap. 14), com Quem é um por ser Deus (vv. 1-14). Também lhes anuncia que depois da Sua Ressurreição lhes enviará o Espírito Santo, que os guiará ensinando-lhes e recordando-lhes tudo o que lhes tinha dito (vv. 15-31).

A segunda parte do discurso está contida nos capítulos 15 e 16. Jesus Cristo promete que aqueles que crerem terão uma nova vida de união com Ele, tão íntima como a que têm as varas com a videira (15,1-8). Para conseguir essa união é necessário praticar o Mandamento Novo do Senhor (vv. 9-18). Previne-os das contradições que terão de sofrer, e anima-os com a promessa do Espírito Santo, que os defenderá e consolará (vv. 18-27). A ação do Paráclito ou Consolador conduzi-los-á eficazmente ao cumprimento da missão que Jesus lhes confiou (16,1-15). Fruto da presença do Espírito Santo será a plenitude do gozo (vv. 16-33).

A terceira parte (cap. 17) recolhe a oração sacerdotal de Jesus, em que roga ao Pai pela Sua glorificação através da Cruz (vv. 1-5). Pede também pelos Seus discípulos (vv. 6-19) e por todos os que por meio deles crerão n’Ele, para que, permanecendo no mundo sem serem do mundo, esteja neles o amor de Deus e dêem testemunho de que Cristo é o enviado do Pai (vv. 20-26).

36-38. Uma vez mais Pedro fala ao seu Mestre com simplicidade e sincera disposição de O seguir até à morte. Mas ainda não estava preparado. O Senhor, comenta Santo Agostinho, “estabelece aqui uma dilação; não destrói a esperança, mas confirma-a dizendo ‘seguir-Me-ás mais tarde’. Para que te apressas, Pedro? Ainda não te tinha fortalecido a pedra com a dureza da sua entranha: não te desequilibres agora com a tua presunção. Agora não podes seguir-Me, mas não desesperes, depois fá-lo-ás” (In Ioann. Evang., 66,1). Com efeito, nesses momentos o entusiasmo de Pedro é ardente, mas pouco firme. Mais tarde adquirirá a fortaleza que se apoia na humildade. Então, quando não se considerar digno de morrer como o Mestre, morrerá numa cruz, de cabeça para baixo, cravando na terra de Roma essa pedra sólida que continua a viver nos que lhe sucedem e que é o fundamento sobre o qual se edifica, indefectível, a Igreja.

As negações de Pedro, sinal da sua debilidade, foram amplamente compensadas pelo seu profundo arrependimento. “Que cada um tome exemplo de contrição e se caiu não desespere, mas confie sempre em que pode tornar-se digno do perdão” (S. Beda, In Ioann. Evang. expositio, ad loc.).

Dia 31 de março

Mt 26, 14-25

14Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os Príncipes dos sacerdotes 15e disse-lhes: Que me quereis dar para eu vo-Lo entregar? E eles deram-lhe em paga trinta moedas de prata. 16E desde então buscava uma ocasião oportuna para O entregar.

17No primeiro dia dos ázimos, aproximaram-se de Jesus os discípulos e disseram-Lhe: Onde queres que Te façamos os preparativos para comer a Páscoa? 18E Ele disse: Ide à cidade, a casa de um tal e dizei-lhe: “O Mestre manda dizer: O Meu tempo está próximo: quero celebrar a Páscoa com os Meus discípulos em tua casa”. 19Fizeram os discípulos como o Senhor lhes ordenara e prepararam a Páscoa.

20Ao anoitecer, estava Jesus à mesa com os doze; 21e durante a ceia disse: Em verdade vos digo que um de vós Me há-de entregar. 22Entristeceram-se eles profundamente e cada um começou a perguntar-Lhe: Porventura sou eu, Senhor? 23Ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse Me há-de entregar. 24O Filho do homem vai, conforme está escrito d’Ele; mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue. Melhor lhe fora a esse homem não ter nascido. 25Tomou aqui a palavra Judas, o que O traíra, e disse: Porventura sou eu, Rabi? E Ele respondeu: Tu o disseste.

Comentário

15. Desconcerta e põe de sobreaviso pensar como Judas Iscariotes chegou a vender quem ele tinha considerado como Messias e de quem tinha recebido o chamamento para o ministério apostólico. Trinta ciclos ou moedas de prata era o preço de um escravo (cfr Ex 21,32), a mesma quantia pela qual Judas vendeu o Mestre.

17. Ázimos são os pães sem fermento que deviam comer-se durante sete dias, em recordação do pão sem fermentar que os Israelitas tiveram de tomar apressadamente ao sair do Egipto (cfr Ex 12,34). No tempo de Jesus a ceia de Páscoa celebrava-se no primeiro dia da semana de Ázimos.

18. Embora a expressão indique uma pessoa, cujo nome não se diz, é de supor que o Senhor o tenha designado concretamente. Em qualquer caso, sabemos pelos outros evangelistas (Mc 14,13; Lc 22,10) que Jesus deu indicações suficientes para que os discípulos pudessem encontrar a casa.

22. Embora não tivessem sucedido ainda os acontecimentos gloriosos da Páscoa, que dariam aos Apóstolos um conhecimento superior sobre Jesus, contudo, no seu convívio com o Senhor e pela graça divina, que já tinham vindo a receber (cfr Mt 16,17), os Apóstolos, ao longo do ministério público, tinham robustecido e aprofundado a sua fé em Jesus (cfr Ioh 2,11; 6,68-69). Neste momento estão persuadidos de que o Senhor conhece as próprias disposições interiores deles e o que vão fazer. Por isso, cada um faz-Lhe a inquietante pergunta acerca da sua própria fidelidade futura.

24. Jesus alude a que Ele próprio Se entregará voluntariamente à Paixão e à Morte. Com isso, também cumpria a Vontade divina, anunciada desde tempos antigos (cfr Ps 41,10; Is 53,7). Ainda que Nosso Senhor vá para a morte por própria vontade, não por isso diminui o pecado do traidor.

25. O anúncio da traição de Judas passou despercebido aos outros apóstolos (cfr Ioh 13, 26-29).

Dia 1º de abril

Lc 4, 16-21

16Veio a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o Seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-Se para ler. 17Foi-Lhe entregue o Livro do Profeta Isaías e, ao abri-lo, deparou com a passagem em que estava escrito:

18O Espírito do Senhor está sobre Mim,

por isso que Me ungiu.

A anunciar a Boa Nova aos pobres Me enviou,

a proclamar a libertação aos cativos

e o recobrar da vista aos cegos,

a mandar em liberdade os oprimidos,

19a proclamar um ano de graça do Senhor.

20E, depois de enrolar o livro, entregou-o ao empregado e sentou-Se. Estavam cravados n’Ele os olhos de quantos se encontravam na sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir.

Comentário

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20, 8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei – o Pentateuco – e outro dos Profetas. O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes, levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra de cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfr Lc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfr Act 13, 5.14.42.44; 14,1, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: “Amen” (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61, l-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. “Segundo São Lucas (vv. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os fatos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho. Mediante tais fatos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens” (Dives in misericordia, n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por “pobres” deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus, não tanto uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os pobres é anunciar-lhes a “boa notícia” de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem sobretudo um sentido espiritual e transcendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demónio. “O cativeiro é sensível – ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 – quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cativeiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo” (Catena Aurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais necessitados. “De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo” (Lumen gentium, n. 8).

18-19. As palavras de Isaías, que Cristo leu nesta ocasião, descrevem de modo gráfico a finalidade para que Deus enviou o Seu Filho: a redenção do pecado, a libertação da escravidão do demônio e da morte eterna. É certo que Cristo durante o Seu ministério público, movido pela Sua misericórdia, fez algumas curas, livrou alguns endemoninhados, etc. Mas não curou todos os doentes do mundo, nem suprimiu todas as penalidades desta vida, porque a dor, introduzida no mundo pelo pecado, tem um irrenunciável valor redentor unida aos sofrimentos de Jesus. Por isso, o Senhor realizou alguns milagres, que constituem não tanto o remédio das dores em tais casos concretos, mas a mostra da Sua missão divina de redenção universal e eterna.

A Igreja continua esta missão de Cristo: “Ide, pois, e fazei discípulos todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. E sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao Fim do mundo” (Mt 28,19-20). São as palavras simples e sublimes do fim do Evangelho de São Mateus: aí está assinalada “a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida sacramental, a promessa da assistência contínua de Cristo à Sua Igreja. Não se é fiel ao Senhor se se desatendem essas realidades sobrenaturais: a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos. Com este mandato Cristo funda a Sua Igreja (…). E a Igreja só pode dar a salvação às almas se permanece fiel a Cristo na sua constituição, nos seus dogmas, na sua moral.

“Rejeitemos, portanto, o pensamento de que a Igreja – esquecendo o Sermão da Montanha – busca a felicidade humana na terra, porque sabemos que a sua única tarefa consiste em levar as almas à glória eterna do paraíso; rejeitemos qualquer solução naturalista, que não aprecie o papel primordial da graça divina; rejeitemos as opiniões materialistas, que procuram fazer perder a sua importância aos valores espirituais na vida do homem; rejeitemos de igual modo as teorias secularizantes, que pretendem identificar os fins da Igreja de Deus com os dos Estados terrenos: confundindo a essência, as instituições, a atividade, com características semelhantes às da sociedade temporal” (J. Escrivá de Balaguer, Hom. O fim sobrenatural da Igreja).

18. Os Santos Padres vêem designadas neste versículo as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Espírito (Espírito Santo) do Senhor (o Pai) está sobre Mim (o Filho) (cfr Orígenes, Homilia 32). O Espírito Santo habitava na alma de Cristo desde o instante da Encarnação, e desceu visivelmente em forma de pomba quando foi baptizado por João (cfr Lc 3, 21-22).

“Por isso que Me ungiu”: Refere-se à unção que Jesus Cristo recebeu no momento da Encarnação, principalmente pela graça da união hipostática. “Esta unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente” (Catecismo Maior, n.° 77). Desta união hipostática deriva a plenitude de todas as graças. Para a significar diz-se que Jesus Cristo foi ungido pelo próprio Espírito Santo, e não só recebeu as graças e os dons do Espírito Santo, como os santos.

19. “Ano de graça”: Alude ao ano jubilar dos judeus, estabelecido pela Lei de Deus (Lev 25,8 ss.) cada cinqüenta anos, para simbolizar a época de redenção e liberdade que trará o Messias. A época inaugurada por Cristo, o tempo da Nova Lei até ao fim deste mundo, é o “ano de graça”, o tempo da misericórdia e da redenção, que se alcançarão completamente na vida eterna.

De maneira semelhante, a instituição do Ano Santo na Igreja Católica tem este sentido de anúncio e recordação da Redenção trazida por Cristo e da sua plenitude na vida futura.

20-22. As palavras do versículo 21 mostram-nos a autoridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: “Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir”. Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfr Lc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser rectamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfr Lc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfr Act 2,4).

Dia 2 de abril

Jo 18, 1 – 19-42

1Dito isto, saiu Jesus com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron, onde havia um jardim, em que Ele entrou com os discípulos. 2Ora Judas, o que O ia entregar, conhecia também aquele sítio, por Jesus Se ter lá reunido muitas vezes com os discípulos. 3Judas, portanto, depois de tomar a coorte e alguns dos guardas dos Sumos Sacerdotes e dos Fariseus, vem ali ter, com archotes, lanternas e armas.

4Então Jesus, que sabia tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e disse-lhes: A quem buscais? 5Responderam-Lhe: A Jesus de Nazaré! Sou Eu! – retorquiu-lhes Jesus. Judas, o que O ia entregar, também se encontrava com eles. 6Mas quando lhes disse: “sou Eu”, recuaram e caíram por terra. 7Perguntou-lhes então novamente: A quem buscais? A Jesus de Nazaré! 8Já vos disse que sou Eu, replicou-lhes Jesus; se é, pois, a Mim que buscais, deixai que estes se retirem. 9Isto, para se cumprir a palavra que havia proferido: “Daqueles que Me deste, não perdi nenhum!”

10Então Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o criado do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O criado chamava-se Malco. 11Jesus, porém, disse a Pedro: Mete a espada na bainha. Não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?

12Então a coorte, o tribuno e os guardas dos Judeus apoderaram-se de Jesus, e ligaram-No.

13E levaram-No a Anás em primeiro lugar, por ser o sogro de Caifás, que era o Sumo Sacerdote desse ano. 14Tinha sido Caifás que havia dado este conselho aos Judeus: “Interessa que morra um só homem pelo povo!”

15Entretanto, Simão Pedro ia seguindo a Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e entrou juntamente com Jesus no pátio do Sumo Sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Saiu então o outro discípulo, conhecido do Sumo Sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17Diz a Pedro a criada que servia de porteira: Tu não és também dos discípulos desse homem? Ele responde: Não sou! 18Achavam-se ali presentes os criados e os guardas, que, por estar frio, tinham feito um brasido e estavam a aquecer-se. Pedro encontrava-se igualmente ali com eles a aquecer-se.

19O Sumo Sacerdote interrogou Jesus sobre os Seus discípulos e a Sua doutrina. 20Jesus respondeu-lhe: Eu falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no Templo, onde todos os Judeus se reúnem, e não falei de nada em segredo. 21Porque Me interrogas? Pergunta aos que ouviram aquilo que Eu lhes falei; eles bem sabem o que Eu disse.

22A estas palavras, um dos guardas, que ali estava, deu uma bofetada a Jesus, dizendo: É assim que respondes ao Sumo Sacerdote? 23Jesus respondeu-lhe: Se falei mal, mostra onde está o mal. Mas se falei bem, porque Me bates? 24Então Anás mandou-O ligado ao Sumo Sacerdote Caifás.

25Entretanto, Simão Pedro estava ali a aquecer-se. Disseram-lhe então: Tu não és também dos discípulos d’Ele? Pedro negou, dizendo: Não sou! 26Replicou um dos criados do Sumo Sacerdote, que era parente daquele a quem Pedro cortara a orelha: Então eu não te vi com Ele no jardim? 27Pedro negou novamente, e logo um galo cantou.

28Levam, então, Jesus de Caifás ao pretório. Era de manhã. Eles, porém, não entraram no pretório, para não contraírem impureza e poderem comer a páscoa. 29Pilatos, então, veio cá fora ter com eles e disse: Que acusação trazeis contra este homem? 30Responderam-lhe: Se Ele não fosse malfeitor, não t’O haveríamos entregado. 31Retorquiu-lhes Pilatos: Tomai-O vós e julgai-O segundo a vossa Lei! Replicaram-lhe os Judeus: Não nos é permitido dar morte a ninguém. 32Isto, para se cumprir a palavra que Jesus dissera, ao indicar de que morte ia morrer.

33Então Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e disse-Lhe: Tu és o Rei dos Judeus? 34Jesus respondeu-lhe: É por ti mesmo que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim? 35Porventura sou eu judeu? replicou Pilatos. A Tua nação e os Sumos Sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste? 36Jesus retorquiu: O Meu Reino não é deste mundo. Se o Meu Reino fosse deste mundo, os Meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue aos Judeus. Mas, de fato, o Meu Reino não é daqui. 37Disse-Lhe então Pilatos: Logo Tu és Rei? É como dizes – retorquiu Jesus – sou Rei! Para isso é que Eu nasci e para isso é que vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a Minha voz. 38Diz-Lhe Pilatos: Que é a verdade?

Dito isto, foi novamente lá fora ter com os Judeus e disse-lhes: Eu não encontro n’Ele culpa alguma. 39Vós tendes, porém, como um costume que eu vos solte alguém pela Páscoa. Quereis, pois, que vos solte o Rei dos Judeus? 40Então eles gritaram de novo: Esse não! Antes Barrabás. Ora Barrabás era um salteador.

Capítulo 19

1Então Pilatos mandou que tomassem a Jesus e O açoitassem. 2Os soldados, depois de tecerem uma coroa de espinhos, colocaram-Lha na cabeça e envolveram-No com um manto de púrpura. 3Depois, avançavam com Ele e diziam: Salve, ó Rei dos Judeus! E davam-Lhe bofetadas.

4Pilatos, então, foi novamente lá fora e disse-lhes: Olhai que vo-Lo trago cá fora, para saberdes que não encontro n’Ele culpa alguma. 5Veio, pois, Jesus cá fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Aqui está o homem! lhes diz Pilatos. 6Quando O viram, os Sumos Sacerdotes e os guardas disseram a gritar: Crucifica-O, crucifica-O! Tomai-O vós mesmos e crucificai-O, lhes diz Pilatos, que eu não encontro n’Ele culpa. 7Responderam-lhe os Judeus: Nós temos uma lei e, segundo essa lei, Ele deve morrer, por Se ter feito Filho de Deus!

8Quando Pilatos ouviu tais palavras, mais se assustou. 9Voltou a entrar no pretório e disse a Jesus: Donde és Tu? Mas Jesus não lhe deu resposta. 10Diz-Lhe então Pilatos: Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e poder para Te crucificar? 11Jesus respondeu: Não terias qualquer poder sobre Mim, se Te não fora dado lá do Alto! Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado. 12A partir de então, procurava Pilatos libertá-Lo. Mas os Judeus disseram a gritar: Se O libertares, não és amigo de César: todo aquele que se faz rei declara-se contra César.

13Então Pilatos, ao ouvir tais palavras, trouxe Jesus cá para fora e veio sentar-se no tribunal, num lugar que se chamava Lajeado, em hebraico Gabatá. 14Era a Preparação da Páscoa e por volta da hora sexta. Disse ele aos Judeus: Aí está o vosso Rei! 15Mas eles gritaram: À morte, à morte. Crucifica-O! Disse-lhes Pilatos: Hei-de crucificar o vosso Rei? Retorquiram os Sumos Sacerdotes: Não temos como rei senão a César! 16Então, entregou-lh’O para ser crucificado.

17Levaram, pois, Jesus consigo. Este, carregando com a cruz, saiu para o chamado lugar do Crânio, que em hebraico se diz Gólgota. 18Lá O crucificaram e, com Ele, mais dois: um de cada lado e Jesus no meio. 19Pilatos escreveu também um letreiro e colocou-o na cruz. Tinha escrito: “Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus”. 20Este letreiro, leram-no muitos dos Judeus, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado estava perto da cidade. Estava escrito em hebraico, em latim e em grego. 21Diziam então a Pilatos os Sumos Sacerdotes dos Judeus: Não escrevas: “O Rei dos Judeus”, mas que “Ele afirmou: Eu sou o Rei dos Judeus”. 22Pilatos retorquiu: O que escrevi está escrito!

23Quando os soldados crucificaram Jesus, tomaram as Suas vestes, – de que fizeram quatro lotes, um para cada soldado, – e também a túnica. A túnica era sem costura, tecida toda inteira de alto a baixo. 24Disseram, pois, entre si: Não a rasguemos, vamos antes tirá-la à sorte, para ver de quem será. Isto, para se cumprir a Escritura, que diz: Repartiram entre si as Minhas vestes e sobre a Minha túnica deitaram sortes. Assim fizeram, pois, os soldados.

25Estavam junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria de Magdala. 26Jesus, ao ver a mãe e o discípulo que amava, ali presente, diz à mãe: Senhora, eis o teu filho. 27A seguir, diz ao discípulo: Eis a tua mãe. E a partir daquele momento, recebeu-a o discípulo em sua casa.

28Depois disto, sabendo Jesus que tudo estava consumado, exclama, para se cumprir plenamente a Escritura: Tenho sede! 29Estava ali um recipiente cheio de vinagre. Aplicando, pois, a uma haste numa esponja embebida em vinagre, levaram-Lha à boca. 30Depois de tomar o vinagre, Jesus disse: Tudo está consumado! E, inclinando a cabeça, expirou.

31Então os Judeus, visto ser a Preparação, para os corpos não ficarem na cruz ao sábado, pois era um grande dia aquele sábado, pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Vieram, pois, os soldados e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com Ele. 33Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, 34mas um dos soldados perfurou-Lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água. 35Aquele que o viu é que o atesta, e é verdadeiro o seu testemunho; ele sabe que diz a verdade, para vós também acreditardes. 36É que isto sucedeu para se cumprir a Escritura: Nem um só dos seus ossos se há-de quebrar! 37Diz ainda outro passo da Escritura: Hão-de olhar para Aquele que trespassaram!

38Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, ainda que oculto por medo dos Judeus, pediu a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, tirar-Lhe o corpo. 39Veio, também Nicodemos, aquele que anteriormente tinha ido ter com Ele de noite; trazia uma mistura de cerca de cem libras de mirra e aloés. 40Tomaram, pois, o corpo de Jesus, e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, segundo é costume sepultar entre os Judeus. 41No lugar onde Ele tinha sido crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, no qual ainda ninguém fora depositado. 42Foi, pois, ali que, por causa da Preparação dos Judeus e por o túmulo ficar perto, depositaram Jesus.

Comentário

Capítulo 18

1. O capítulo anterior, em que se fala da glória do Filho de Deus (cfr Ioh 17,1.4.10.22.24), é um pórtico esplêndido com que São João apresenta a Paixão e Morte do Senhor como uma glorificação: sublinha a liberdade de Jesus ao aceitar a Sua Morte (14,31) e permitir que os Seus inimigos O prendam (18,4.11). O relato mostra a superio­ridade do Senhor sobre os que O julgam (18,20-21) ou O condenam (19,8.12); e a serenidade majestosa perante a dor física, que faz pensar, mais que nos tormentos que Jesus padece, na Redenção e no triunfo da Cruz.

Os capítulos 18 e 19 narram a Paixão e Morte de Nosso Senhor. São acontecimentos tão importantes e decisivos que todos os escritos do Novo Testamento, de uma forma ou de outra, tratam deles. Assim, os Evangelhos sinópticos rela­tam-nos extensamente. No livro dos Atos, juntamente com a Ressurreição, constituem o núcleo dos discursos dos Após­tolos. São Paulo explica o valor redentor do sacrifício de Jesus Cristo, e as epístolas católicas falam da Sua Morte salvadora. O mesmo acontece no Apocalipse, onde o grande Triunfador, o que está no trono celeste, é o Cordeiro sacrifi­cado, Cristo Jesus. Há que dizer, além disso, que os escri­tores sagrados sempre que falam da Morte do Senhor se referem a seguir à Sua gloriosa Ressurreição.

No Evangelho de São João citam-se cinco lugares ou cenários dos fatos passados. O primeiro (18,1-12) é Getsemani, onde prendem Jesus. Depois (18,13-27) o Senhor é levado a casa de Anás, onde começa o processo religioso, e Pedro O nega diante dos criados do Pontífice. O terceiro lugar é o Pretório (18,28-19,16), onde se desenvolve o processo diante do procurador romano, que São João narra com amplitude, pondo em realce o verdadeiro caráter da realeza de Cristo, assim como a rejeição dos judeus que pedem a crucifixão do Senhor. A seguir (19,17-37) narram-se os fatos passados depois da sentença injusta do procura­dor, centrando-se nos episódios do Calvário. Por último (19,31-42), como fazem os outros Evangelhos, São João relata a sepultura do Senhor no sepulcro sem estrear, que José de Arimateia tinha próximo do Calvário.

Todos estes acontecimentos culminam com a glorifi­cação de Jesus a que Ele próprio Se tinha referido (cfr Ioh 17,1-5): a Ressurreição e a exaltação junto do Pai (caps. 20-21).

Eis os conselhos que dá Frei Luis de Granada para meditar a história da Paixão de Nosso Senhor: «Há outras cinco coisas a que podemos ter respeito quando pensamos na sagrada Paixão (…). O primeiro, aqui podemos inclinar o nosso coração para a dor e o arrependimento dos nossos pecados, para o que nos é dado um grande motivo na Paixão do Salvador, pois é certo que tudo o que padeceu pelos pecados padeceu-o, de tal maneira que, se não houvesse pecados no mundo, não seria necessário tão custoso remédio. De maneira que os pecados, tanto os teus como os meus, como os de todo o mundo, foram os verdugos que O ataram, e O açoitaram, e O coroaram de espinhos, e O puseram na Cruz. Por isto verás quanta razão tens aqui para sentir a grandeza e a malícia dos teus pecados, pois realmente eles foram a causa de tantas dores, não porque eles levassem necessariamente o Filho de Deus a padecer, mas porque deles tomou ocasião a justiça divina para pedir tão grande satisfação.

«E não só para aborrecer o pecado, mas também para o amor das virtudes, temos aqui grandes motivos nos exemplos das virtudes deste Senhor, que assinaladamente resplan­decem na Sua sagrada Paixão, nas quais também devemos pôr os olhos para nos provocarmos à imitação delas, e particularmente na grandeza da Sua humildade, obediência, mansidão e silêncio, com todas as outras, porque esta é uma das mais altas e proveitosas maneiras que há de meditar a sagrada Paixão, que é por via de imitação.

«Outras vezes devemos pôr os olhos na grandeza do benefício que o Senhor aqui nos fez, considerando o muito que nos amou, e o muito que nos deu, e o muito que Lhe custou o que nos deu (…). Outras vezes convém levantar por aqui os olhos para o conhecimento de Deus, isto é, para considerar a grandeza da Sua bondade, da Sua misericórdia, da Sua justiça e da Sua benignidade, e assinaladamente da Sua ardentíssima caridade, a qual em nenhuma outra obra resplandece mais que na Sua sagrada Paixão. Porque como é maior argumento de amor padecer males pelo amigo do que fazer-lhe bens, e Deus podia uma coisa e outra (…), aprouve à Sua divina bondade vestir-Se de natureza em que pudesse padecer males, e tão grandes males, para que ficasse o homem de todo certificado deste amor, e assim se movesse a amar quem tanto o amou.

«Outras vezes, finalmente, pode considerar por aqui a alteza do conselho divino e a conveniência deste meio, que a sabedoria de Deus escolheu, para remédio do gênero humano; isto é, para satisfazer pelas nossas culpas, para inflamar a nossa caridade, para fortalecer a nossa paciência, para confirmar a nossa esperança, para curar a nossa soberba, a nossa avareza e os nossos regalos, e para inclinar as nossas almas para a virtude da humildade (…), para o aborrecimento do pecado e para o amor da Cruz» (Vida de Jesus Cristo, 15).

1-2. «Dito isto» é uma fórmula freqüente no quarto Evangelho para indicar que começa um novo episódio relacionado com o que se acaba de narrar (cfr Ioh 2,12; 3,22; 5,1:6.1; 13,21…).

O Cédron (etimologicamente turvo, negro) é o fundo de um vale que só leva água na época das chuvas; separava Jeru­salém do monte das Oliveiras, em cuja falda se encontrava o horto de Getsemani (cfr Mt 26,32; Lc 21,37; 22,39). A distância do Cenáculo ao horto de Getsemani era de uns mil e duzentos metros.

3. Como a Judeia estava sob o domínio dos Romanos, havia em Jerusalém uma guarnição, composta de uma coorte (600 soldados) aquartelada na torre Antonia, ao mando de um tribuno. O Evangelista, ao dizer que Judas tomou «a coorte», exprime-se de um modo popular, que toma o todo pela parte; não quer dizer, portanto, que os 600 soldados foram em busca do Senhor. É de supor que os judeus, que tinham a sua própria guarda do Templo — os chamados «servidores dos pontífices» —, tinham solicitado algum apoio da coorte. Judas interveio para indicar ao chefe da guarda o lugar e a pessoa que iam prender.

4-9. Só o quarto Evangelho recolhe este episódio acontecido antes da prisão, e que nos recorda aquelas palavras do Salmo: «Retrocederão os meus inimigos no dia em que eu clame» (Ps 56,10). Resplandece a majestade do Senhor que Se entrega voluntária e livremente. Isto, porém, não quer dizer que aqueles judeus fiquem isentos de culpa. Santo Agostinho comenta assim este passo: «Os perseguidores, que vinham com o traidor para prender Jesus, encon­traram O que buscavam e ouviram-No dizer Eu sou. Por que não O prenderam, mas retrocederam e caíram? Porque assim o quis quem podia fazer o que queria. Se não o tivesse permitido, nunca teriam realizado o intento de O pren­derem, mas também Ele não teria cumprido a Sua missão. Eles buscavam com ódio O que queriam matar; Jesus, pelo contrário, buscava-nos com amor querendo morrer. E assim, depois de manifestar o Seu poder àqueles que sem poderem fazê-lo queriam prendê-Lo, prendê-lo-ão e deste modo cum­prirá o Seu desejo por meio daqueles que o ignoravam» (In Ioann. Evang., 112,3).

Por outro lado, emociona contemplar Jesus com cuida­dos pelos Seus discípulos, quando era Ele quem corria perigo. Tinha prometido que nenhum dos Seus se perderia, exceto Judas Iscariotes (cfr Ioh 17,12; 6,39): ainda que aquela promessa se referisse antes a preservá-los da conde­nação eterna, o Senhor preocupa-Se aqui também da sorte imediata dos Seus discípulos, que ainda não estavam prepa­rados para enfrentar o martírio.

10-11. Uma vez mais se manifesta o temperamento impetuoso e a lealdade de Pedro que, com o risco da própria vida, defende o Mestre. Pedro, porém, não tinha compreen­dido ainda os planos salvíficos de Deus; continua a resistir à idéia do sacrifício de Cristo, como já o tinha feito no momento do primeiro anúncio da Paixão (Mt 16,21-22). Cristo não aceitou aquela defesa violenta. As Suas palavras aludem à oração no horto (cfr Mt 26,39), em que tinha aceitado livremente a Vontade do Pai, entregando-Se sem resistência para levar a cabo a Redenção pela Cruz.

Devemos acatar a Vontade de Deus com a docilidade e prontidão com que Jesus enfrenta a Paixão. «Gradação: resignar-se com a Vontade de Deus; conformar-se com a Vontade de Deus; querer á Vontade de Deus; amar a Vontade de Deus» (Caminho, n.° 774).

13-18. Jesus é levado a casa de Anás, que, embora já não fosse Sumo Pontífice, conservava uma grande influência religiosa e política no povo (cfr a nota a Lc 3,2). Os dois discípulos, Simão Pedro e outro, provavelmente o próprio João, estão desconcertados; não sabem que fazer e seguem–No de longe. A sua adesão e afecto a Jesus não eram ainda suficientemente sobrenaturais; à coragem e lealdade de antes sucede agora o desânimo. Esta situação desembocará na tripla negação de Pedro. O cristão, por mais nobres que sejam os seus sentimentos, também não terá a fortaleza para ser fiel às exigências da fé se não fundamentar a sua vida numa piedade profunda.

19-21. Neste primeiro interrogatório durante a noite — preparação do julgamento posterior diante do Sinédrio (Lc 22,66-71) — Jesus insiste no caráter público e notório da Sua pregação e do Seu comportamento: todo o povo pôde escutar as Suas palavras e contemplar os Seus milagres; daí que, por vezes, O tenham aclamado como Messias (cfr Ioh 12,12-19e par.). Os próprios pontífices tinham vigiado a Sua atividade no Templo e nas sinagogas; mas, como não querem ver (cfr Ioh 9,39-41), nem crer (cfr Ioh 10,37-38), atribuem algo oculto e sinistro aos planos de Jesus.

22-23. Uma vez mais vemos como Jesus Se mostra sereno e dono de Si durante toda a Paixão. Diante da agressão injusta daquele servo, o Senhor responde com mansidão, mas sem deixar de defender a legitimidade do Seu comportamento e de assinalar a injustiça de que é objeto. Essa há-de ser a nossa reação diante daqueles que nos firam de algum modo. A defesa ponderada dos próprios direitos é compatível com a mansidão e a humildade (cfr Act 22,25).

25-27. As negações de Pedro aparecem narradas com mais brevidade que nos Evangelhos sinópticos. Mas em todos vemos esta mostra da humildade e sinceridade dos Apóstolos, que os leva a contar as suas próprias debilidades. Não se fala aqui acerca do arrependimento de Pedro, ainda que se dê como suposto ao mencionar o canto do galo: da própria brevidade do relato deduz-se que o acontecimento era muito conhecido pelos primeiros cristãos. Depois da Ressurreição ficará mais claro o alcance do perdão de Jesus, que confirma Pedro na sua missão de Príncipe dos Apóstolos (cfr Ioh 21,15-17).

«Neste torneio de amor não devem entristecer-nos as quedas, nem sequer as quedas graves, se recorremos a Deus no sacramento da Penitência, com dor e com um bom propósito. O cristão não é um maníaco colecionador de folhas imaculadas de bons serviços. Jesus compreende a nossa debilidade e atrai-nos a Si como em plano inclinado, desejando que saibamos insistir no esforço de subir cada dia um pouco? (Cristo que passa, n.° 75).

28. Os Sinópticos relatam também o processo diante de Pilatos, mas São João dá-lhe maior relevo e amplitude: a secção de Ioh 18,28-19,16 ocupa o centro das cinco partes em que o Evangelho divide o relato da Paixão (cfr a nota a 18,1). Vai descrevendo com pormenor e de forma harmônica o acontecido no pretório, pondo em realce a majestade de Jesus Cristo, como Rei messiânico e, ao mesmo tempo, a rejeição por parte dos judeus.

São sete episódios marcados pelas saídas e entradas de Pilatos no pretório. Primeiro (vv. 29-32) os judeus propõem de modo genérico a acusação: é um malfeitor. Segue-se o diálogo de Pilatos com Jesus (vv. 36-37), que culmina com a afirmação de Cristo: «Eu sou Rei». A seguir Pilatos procura salvar o Senhor (vv. 38^0), perguntando se querem que solte o «Rei dos Judeus».

O momento central do relato (19,1-3) recolhe a coroação de espinhos, em que os soldados saúdam Cristo em tom de zombaria como «Rei dos Judeus». Narra-se a seguir que o Senhor sai fora coroado de espinhos e com o manto de púrpura (vv. 4-7). É a cena dilaceradora do Ecce Homo. Agora a acusação dos judeus centra-se no fato de Jesus Se fazer Filho de Deus. De novo Pilatos, dentro do pretório, dialoga com Jesus (vv. 8-12) e procura averiguar algo mais sobre a Sua origem divina. Então os judeus concentram o seu ódio numa acusação diretamente política: «O que se faz rei vai contra César» (Ioh 19,12). Por último (vv. 13-16), de modo solene, com indicação do lugar e da hora. São João narra como Pilatos aponta para Jesus e diz:« Eis aqui o vosso Rei». Os representantes dos Judeus rejeitam abertamente quem era e é verdadeiro Rei anunciado pelos profetas.

«Pretório»: Assim chamavam os romanos a residência oficial do Pretor, ou à de outros altos magistrados das pro­víncias do Império, como o caso do Procurador ou Prefeito na Palestina. A residência habitual de Pilatos estava em Cesareia marítima, mas nas grandes solenidades costumava transferir-se para Jerusalém com um forte contingente de tropas para poder intervir com eficácia se se produzia algum motim. Em Jerusalém, nos anos de Cristo e seguintes, o Procurador alojava-se no Palácio de Herodes (na parte ocidental da cidade alta), ou então na torre Antonia (forta­leza encostada ao ângulo noroeste da explanada do Templo). Não se sabe com certeza qual de ambos os edifícios é o Pretório que o Evangelho menciona ainda que o mais pro­vável seja tratar-se da torre Antonia.

«Para não contraírem impureza»; As tradições judai­cas do tempo (Mishnáh, tratado Ohalot 7,7) estabeleciam que entrar em casa de um gentio ou pagão causava a impu­reza legal de sete dias (cfr Act 10,28); essa impureza tê-los-ia impedido de celebrar a Páscoa. Não deixa de surpreender que os Pontífices judeus tornem compatível este escrúpulo com a maquinação criminosa contra Jesus. Cumprem-se, uma vez mais, as palavras que o Senhor lhes tinha dito tempos antes: «Guias cegos!, que coais um mosquito e tragais um camelo» (Mt 23,24).

29-32. São João omitiu parte do interrogatório que teve lugar em casa de Caifás, narrado pelos Sinópticos (Mt 26,57–66 e par.). Por estes sabemos que a reunião em casa de Caifás se encerra com a declaração de que Jesus é réu de morte pela pretensa blasfêmia de Se proclamar o Filho de Deus (cfr Mt 26,65-66). Na Lei de Moisés a blasfêmia era castigada com a lapidação (cfr Lev 14,16), mas não procedem a lapidá-Lo — coisa que seguramente podiam fazer, mesmo sob o domínio romano, como poderia ter acontecido com a adúltera (cfr Ioh 8,1-11), e aconteceria pouco depois com Santo Estêvão (cfr Act 7,54-60) — porque necessitavam de contar com a adesão do povo, e sabiam que muitos consideravam Jesus como Profeta e Messias (cfr Mt 24,45-46; Mc 12,12; Lc 20,19). Não se atreveram, pois, a seguir esse procedimento, mas com astúcia maliciosa vão conseguir transformar uma causa religiosa numa questão política, comprometendo nela a autoridade do Império romano; preferiram apresentar denúncia diante do Procurador de que Jesus era um revolu­cionário que conspirava contra César, ao declarar-Se como o Messias e Rei dos Judeus; deste modo evitavam o risco diante do povo, e asseguravam a condenação de Jesus à morte de cruz por parte da autoridade romana.

O Senhor tinha profetizado várias vezes este tipo de morte(cfrloh3,14; 8,28; 12,32-33), e São Paulo explicará que «Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-Se por nós objeto de maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que está pendente num madeiro» (Gal 3,13; cfr Dt 21,23).

33-34. A Pilatos não lhe incumbe intervir em questões religiosas, mas como a acusação que lhe apresentam contra Jesus diz respeito à ordem pública e política, o seu interro­gatório começa obviamente com a averiguação da denúncia fundamental: «Tu és o Rei dos judeus?».

Jesus, ao responder com uma nova pergunta, não evita a resposta, mas quer, como sempre, deixar claro o caráter espiritual da Sua missão. Realmente a resposta não era fácil, pois, na perspectiva de um gentio, um Rei dos Judeus era simplesmente um conspirador contra o Império; pelo con­trário, na perspectiva dos judeus nacionalistas, o Rei Messias era o libertador político-religioso que lhes conseguiria a independência. A verdade do messianismo de Cristo trans­cende por completo ambas as concepções, e é o que Jesus explica ao Procurador, mesmo sabendo a enorme dificul­dade que implica compreender a verdadeira natureza do Reino de Cristo.

35-36. Depois do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus tinha-Se negado a ser proclamado rei, porque a multidão pensava num reino temporal (cfr Ioh 6,15). Não obstante, Jesus entra triunfalmente em Jeru­salém e aceita que O aclamem como Rei-Messias. Agora, na Paixão, reconhece diante de Pilatos que Ele é verdadeiramente Rei, esclarecendo que o Seu reino não é como os da terra. Por isso «aqueles que esperavam do Messias um poderio temporal visível, enganavam-se: porque o Reino de Deus não consiste em comer e beber, mas em paz, justiça e alegria no Espírito Santo (Rom XIV, 17).

«Verdade e justiça, paz e júbilo no Espírito Santo. Esse é o reino de Cristo. A acção divina que salva os homens culminará com o fim da história, quando o Senhor, que Se senta no mais alto do paraíso, vier julgar definitivamente os homens» (Cristo que passa, n.° 180).

37. Este é o sentido profundo da Sua realeza: o Seu reino é «o reino da Verdade e da Vida, o reino da Santidade e da Graça, o reino da Justiça, do Amor e da Paz» (Prefácio da Missa de Cristo Rei). Cristo reina sobre aqueles que aceitam e vivem a Verdade por Ele revelada: o amor do Pai (Ioh 3,16; l Ioh 4,9). Faz-Se carne para manifestar esta Verdade, e para que os homens possam conhecê-la e aceitá-la. E assim os que reconhecem a realeza e a soberania de Cristo submetem-se a Ele, que desse modo reina sobre eles com um reinado eterno e universal.

Por seu lado, «a Igreja, contemplando Cristo que dá testemunho da Verdade, sempre e em toda a parte, deve perguntar a si mesma, e em certo sentido também ao ‘mundo’ contemporâneo, de que modo suscitara bem a partir do homem, como libertar as energias do bem que há no homem, para que seja mais forte que o mal, que qualquer mal moral, social, etc.» (Audiência geral João Paulo II, 21-11-1979).

Os cristãos, «se pretendemos que Cristo reine, temos de ser coerentes, começando por Lhe entregar o nosso coração. Se não o fizéssemos, falar do reino de Cristo seria vozearia sem substância cristã, manifestação exterior de uma fé inexistente, utilização fraudulenta do nome de Deus para compromissos humanos (…). Se deixarmos que Cristo reine na nossa alma, não nos tornaremos dominadores; seremos servidores de todos os homens. Serviço. Como gosto desta palavra! Servir o meu Rei e, por Ele, todos os que foram redimidos com o Seu sangue. Se os cristãos soubessem servir! Vamos confiar ao Senhor a nossa decisão de aprender a realizar esta tarefa de serviço, porque só servindo pode­remos conhecer e amar Cristo e dá-Lo a conhecer e conseguir que os outros O amem mais»(Cristo que passa, n.os 181-182). Jesus, mediante a Sua Morte e Ressurreição, demonstra que o julgamento levado avante contra Ele pelos homens era falso, mentiroso; era Cristo quem dizia a verdade, e não os Seus juízes e acusadores, e Deus apóia a verdade de Jesus, a verdade das Suas palavras, dos Seus fatos, da Sua Reve­lação, mediante o milagre singular da Sua Ressurreição gloriosa. Para os homens, a realeza de Cristo pode parecer um paradoxo: vive para sempre tendo morrido, vence sendo derrotado no julgamento e na Cruz, a verdade, oprimida por uns dias, sai vitoriosa depois da morte. «E o próprio Jesus Cristo, quando compareceu prisioneiro diante do tribunal de Pilatos e por ele foi interrogado (…) porventura não respondeu: ‘Para isto é que Eu nasci e para isto é que Eu vim ao mundo: para dar testemunho da verdade’? Com tais palavras (…) foi como se quisesse confirmar, uma vez mais ainda, o que já havia dito antes: ‘Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’. No decorrer de tantos séculos e de tantas gerações, a começar nos tempos dos Apóstolos, não foi acaso o mesmo Jesus Cristo que tantas vezes compareceu ao lado dos homens julgados por causa da verdade? Cessa Ele, porventura, de continuamente ser o porta-voz e advo­gado do homem que vive ‘em espírito e em verdade?’ (cfr Ioh 4.23 s.). Do mesmo modo que não cessa de sê-lo em relação à história do homem» (Redemptor hominis, n. 12).

38-40. No interrogatório Pilatos convence-se da ino­cência de Jesus (cfr Ioh 19,4.12). Provavelmente deu-se conta de que as acusações são na realidade uma questão interna dos judeus em que querem implicá-lo, mas as autoridades judaicas estão muito sublevadas. A solução não é fácil e intenta a via das concessões. Em primeiro lugar recorre a um indulto pascal, propondo a alternativa entre um crimi­noso e Jesus, mas não dá resultado. Por isso tentará outros caminhos para O salvar, que também não terão êxito. Este comportamento indeciso e cobarde levá-lo-á a ceder diante da pressão dos judeus e a cometer uma injustiça: a conde­nação à morte de um homem de cuja inocência está convencido.

«O mistério da dor inocente é um dos pontos mais obscuros de todo o horizonte da sabedoria humana; aqui fica atestado da maneira mais clara. Inclusivamente antes de descobrir algo deste problema nasce em nós um irreprimível afeto pelo inocente que sofre, por Ele, Jesus (…) e por todos os inocentes, pequenos ou adultos que sofrem igualmente sem que a sua dor tenha para nós um motivo. Na Via Sacra encontramos o primeiro da dolorosa procissão dos inocentes que sofrem. E este primeiro paciente irrepreensível revela–nos finalmente o segredo da Sua Paixão: é um sacrifício» (Paulo VI, Alocução Sexta Feira Santa).

Comentário Capítulo 19

l -3. Cumpre-se à letra o que Cristo tinha anunciado: o Filho do Homem «será entregue aos gentios, e zom­barão d’Ele, será insultado e coberto de escarros, e depois de O açoitarem, matá-Lo-ão, e ao terceiro dia ressuscitará» (Lc 18,32s.;cfrMt20,18s.).

A flagelação era um dos castigos mais duros previstos no Direito romano. Inclinado sobre um lugar de apoio para não cair, o réu oferecia as costas nuas ao látego ou flagelo. Costumava aplicar-se também aos condenados à morte de cruz. Assim extenuava-se o delinqüente e acelerava-se a sua morte.

A coroação de espinhos não fazia parte da pena legal prevista, mas os próprios soldados, levados pela sua cruel­dade e afã de zombaria, acrescentaram-no por sua conta. Foram descobertas no pavimento coberto de lajes que há na torre Antônia umas gravuras que deveriam ser utilizadas para o chamado «jogo do rei». Consistia em deitar sortes com os dados para escolher um rei de zombaria entre os condenados, que todos aclamavam entre troças antes de proceder à sua execução.

São João situa este episódio no centro da narração acerca do acontecido no pretório. Com isso põe em relevo que na coroação de espinhos resplandece a realeza de Cristo: ainda que aqueles soldados só de modo sarcástico O aclamem como Rei dos Judeus (cfr as notas a Mc 15,15.16-19), o Evangelista dá-nos a entender que Jesus Cristo é verdadeira­mente Rei.

5. Cristo, revestido com as insígnias reais, faz-nos vis­lumbrar, sob aquela trágica paródia, a grandeza do Rei de Reis. O próprio São João dirá em Apc 5,12: «O Cordeiro que foi sacrificado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção».

«Contempla como estaria aquele divino rosto: inchado com os golpes, desfigurado com as salivas, arranhado com os espinhos, arroxeado com o sangue, por umas partes recente e fresco, e por outras feio e denegrido. E como o santo Cordeiro tinha as mãos atadas, não podia com elas limpar os fios de sangue que pelos olhos corriam; e assim estavam aquelas duas lumeeiras do Céu eclipsadas e quase cegas e feitas um pedaço de carne. Finalmente, estava tal a Sua figura, que já não parecia quem era, e até mal parecia homem, mas um retábulo de dores pintado por mão daqueles cruéis pintores e daquele mau presidente, a fim de que advogasse por Ele diante dos Seus inimigos esta tão dolorosa figura» (Vida de Jesus Cristo, 24).

6-7. Pilatos, ao ouvir que os judeus acusam Jesus de Se ter proclamado Filho de Deus, sente crescer o temor, que provavelmente se tinha iniciado pelo aviso da mulher, impressionada por um sonho, de que não se misturasse na condenação «desse justo». Não obstante, a chantagem (cfr v. 12) que urdem as autoridades judaicas pode mais que esses sentimentos, e transige com a condenação.

Ainda que juridicamente Jesus seja pregado por um hipotético delito político (cfr a nota a Ioh 18,29-32), na realidade a causa da Sua morte foi por motivo nitidamente religioso.

8-11. Pilatos admira-se do silêncio de Jesus, que não Se defende, e quando o Procurador afirma que tem poder para O condenar ou O salvar, então o Senhor explica-lhe algo que não esperava: que todo o poder na terra tem a sua origem em Deus. Este ensinamento leva consigo que, consideradas as coisas na sua verdade profunda, quando na linguagem corrente (jurídica, política ou social) se fala da soberania do rei ou do povo, estes poderes não se podem tomar como termos absolutos, mas relativos, subordinados à soberania absoluta de Deus: daí que nenhuma lei humana possa ser justa e portanto obrigar em consciência, se não está de acordo com a lei divina.

«Quem Me entregou»: Refere-se a todos aqueles que urdiram a morte do Senhor, isto é, a Judas Iscariotes, Caifás, aos chefes dos Judeus, etc. (cfr 18,30-35). Eles, em última análise, são os que levam Jesus à Cruz. Isto não exime de culpabilidade Pôncio Pilatos.

13. «Litóstrotos»: literalmente significa «lageado», «empedrado», «pavimento coberto de lousas»; devia ser, pois, uma praça ou pátio pavimentado com lousas. O vocá­bulo hebreu «Gabbatá» não é o equivalente exato do grego «Litóstrotos», mas significa «sítio elevado». Mas na prática designava o mesmo lugar. A localização deste «Litóstrotos» é incerta, pela dúvida, já apontada, acerca do lugar onde estava o pretório: cfr a nota a Ioh 18,28.

Gramaticalmente o texto grego permite esta outra tra­dução: «Pilatos (…) tirou para fora Jesus e sentou-O no tri­bunal». Neste caso, o Evangelista insinua que Pilatos, com esse gesto, teria querido pôr a ridículo as autoridades judaicas, fazendo uma espécie de entronização cômica do « Rei dos Judeus». Isso estaria em consonância com a atitude de Pilatos perante os chefes do povo a partir desse momento (vv. 14-22), e com a intencionalidade do autor inspirado, que veria aqui a entronização de Cristo como Rei.

14. Chamava-se «Parasceve» o dia da preparação da Páscoa. A hora sexta começa ao meio-dia. Por essa hora retirava-se das casas todo o pão fermentado, substituía-se pelo pão ázimo que se empregava já na ceia pascal (cfr Ex 12,15 ss.) e sacrificava-se oficialmente no Templo o cordeiro: Cristo é o novo Cordeiro Pascal ou, como diz São Paulo (cfr l Cor 5,7), «Cristo, nossa Páscoa (isto é, o nosso Cordeiro Pascal), foi imolado».

Parece encontrar-se uma dificuldade em conciliar o que diz São João sobre a hora sexta, com o dado de Mc 15,25 acerca de que era a hora tércia quando crucificaram Jesus. Pode explicar-se de várias maneiras. A que parece mais sólida é supor que Marcos se refere ao fim da hora tércia e João ao começo da hora sexta: em ambos os casos trata-se aproximadamente do meio-dia.

15. A história do povo de Israel ajuda a compreender o trágico paradoxo que supõe a atitude das autoridades judaicas neste momento. Os Hebreus foram sempre cons­cientes da sua condição de Povo de Deus. Assim, com orgulho afirmam não ter outro Pai senão Deus (cfr Ioh 8,4). No Antigo Testamento Yahwéh é o verdadeiro Rei de Israel (cfr Dt 33,5; Num 23,21; l Reg 22,19; Is 6,5); quando, se­guindo os usos dos povos limítrofes, pedem um rei a Samuel (cfr l Sam 8,5.20), este resiste, já que Israel só tem um Soberano absoluto, que é Yahwéh (l Sam 8,6-9). Mas, finalmente, Deus acede e designa Ele próprio quem havia de ser rei sobre o Seu povo. O primeiro escolhido, Saul, receberá a unção sagrada, e o mesmo acontecerá com David e os seus sucessores. Com este rito expressava-se claramente o caráter de vigário divino que tinha o rei israelita. Depois daqueles reis terem defraudado as esperanças do povo, este esperava cada vez com maior ansiedade o rei messiânico, o descendente ou «Filho de David», o Ungido por excelência ou Messias, que havia de reger o seu povo, libertá-lo dos seus inimigos e conduzi-lo ao domínio universal (cfr 2 Sam 7,16; Ps 24,7; 43,5; etc.). Por esse ideal lutaram heroicamente durante séculos rejeitando o domínio estrangeiro.

Também nos tempos de Cristo se opuseram a Roma e a Herodes, que consideravam rei ilegítimo por não ser hebreu. Não obstante, nestes momentos da Paixão, aceitam hipocri­tamente o imperador romano como o seu verdadeiro e único rei. Negam-se a aceitar o «suave jugo» de Cristo (cfr Mt 11,30) e põem sobre os seus ombros o peso da dominação romana. «Eles próprios submeteram-se ao suplício; por isso o Senhor os entregou. Assim, porque unanimemente rejei­taram o reino divino, o Senhor deixou-os abater-se na sua própria condenação. Rejeitando, pois, o império de Cristo, atraíram sobre si o de César» (Hom. sobre S. João, 83).

Uma tragédia em certo modo semelhante acontece àqueles que tendo sido batizados, e integrados portanto no novo Povo de Deus, abandonam obstinados no pecado a «carga leve» da soberania de Cristo, para se submeterem à terrível tirania do demônio (cfr 2 Pet 2,21).

17. O nome de Calvário ou Caveira parece aludir à forma de crânio que tem o lugar.

São Paulo estabelece o paralelismo que há entre a deso­bediência de Adão e a obediência de Cristo (cfr Rom 5,12). Por isto a Igreja, na Exaltação da Cruz do Senhor, canta: «Donde veio a morte, dali surgiu a vida» (Prefácio da festa da Exaltação da Santa Cruz), para contrastar que assim como na árvore do paraíso venceu o demônio, na árvore da Cruz foi vencido por Cristo.

São João é o único dos evangelistas que diz claramente que Jesus levou a Cruz às costas. Os outros três mencionam a ajuda de Simão de Cirene. Vejam-se as notas a Mt 27,31 e Lc 23,26.

A atitude decidida de Cristo diante da Cruz deve levar–nos a imitar na nossa vida ordinária o exemplo do Mestre: «É necessário que te decidas a carregar com a cruz volunta­riamente. Senão, dirás com a língua que imitas Cristo, mas os teus atos desmenti-lo-ão; assim não conseguirás tratar com intimidade o Mestre nem O amarás verdadeiramente. E urgente que nós, os cristãos, nos convençamos bem desta realidade: não andamos perto do Senhor, quando não sabemos privar-nos espontaneamente de tantas coisas que o capricho, a vaidade, o prazer, o interesse… reclamam» (Amigos ide Deus, n.° 129).

Como já o velho Simeão tinha profetizado, Jesus ia ser «sinal de contradição» (Lc 2,34): um estandarte levantado ao alto que não deixa lugar para a indiferença, mas que provoca todo o homem a decidir-se a favor ou contra Ele e a Sua Cruz: «Caminhava, pois, Jesus para o lugar onde havia de ser crucificado, levando a Sua cruz. Extraordinário espetáculo: aos olhos da impiedade, grande irrisão; aos olhos da piedade, grande mistério (…); aos olhos da impie­dade, a zombaria de um rei que leva como cetro o madeiro do seu suplício; aos olhos da piedade, um rei que leva a cruz para ser nela cravado, cruz que havia de brilhar na fronte dos reis; nela havia de ser desprezado aos olhos dos ímpios, e nela se haviam de gloriar os corações dos santos; assim diria depois São Paulo: Não quero gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (In Ioann. Evang., 117,3).

18. Conhecer alguns pormenores sobre esta forma de morte empregada na antigüidade ajudar-nos-á a compreen­der melhor o muito que Se humilhou e quis sofrer Jesus Cristo por nosso amor. A crucifixão era uma pena reservada aos escravos e pelos delitos mais graves; era a forma de morte mais dolorosa è horrenda que se podia dar; tinha, além disso, um valor exemplar de castigo público, e por isso costumava fazer-se num sítio bem visível e deixar ali durante dias o corpo do justiçado. Um testemunho da infâmia deste suplício são as palavras de Cícero: «Que um cidadão romano seja atado é um abuso; que seja espancado é um delito; que lhe seja dada morte é quase um parricídio; que direi, então, se é suspendido numa cruz? A fato tão horrível não se lhe pode dar de modo algum um apelativo suficientemente adequado!» (In Verrem, II, 5,66).

A morte para um crucificado chegava depois de uma agonia dolorosíssima em que concorriam a perda de sangue, a febre produzida pelas feridas, a sede e a asfixia, etc. Por vezes os verdugos aceleravam-lhe a morte quebrando-lhe as pernas, ou dando-lhe uma lançada, como no caso do Senhor. Assim se compreendem melhor aquelas palavras com que São Paulo recordava aos Filipenses a humilhação de Cristo na Cruz: «Aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de escravo, fazendo-Se semelhante aos homens (…); humi­lhou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz» (Phil 2,7-8).

São João passa muito rapidamente sobre a circunstância dos outros dois crucificados com Jesus, talvez porque os Evangelhos sinópticos falaram já deste fato (vejam-se as notas a Lc 23,39-43).

19-22. O «títulus» que a versão portuguesa traduziu por «letreiro », era o nome técnico que no Direito romano expres­sava a causa da condenação. Costumava inscrever-se numa tabuinha para conhecimento público e era resumo da ata oficial que se remetia para os arquivos do tribunal de César. Por isso, quando os pontífices judeus pedem a Pilatos que modifique as palavras da inscrição, o Procurador nega-se aduzindo que a sentença já foi ditada e executada e, por­tanto, não pode modificar-se: esse é o sentido das palavras «o que escrevi está escrito». No caso de Cristo, este título escrito em várias línguas proclama a Sua realeza universal, já que o podiam ler todos os que de diversos países tinham vindo para celebrar a Páscoa; assim se confirmam as pala­vras do Senhor: «Eu sou Rei. Para isto nasci, e para isto vim ao mundo» (Ioh 18,37).

O Papa Pio XI, ao instaurar a festa de Cristo Rei, explica: «Chama-se-Lhe Rei da inteligência humana, não tanto pelo sublime e altíssimo grau da Sua ciência, quanto porque Ele é a Verdade e porque os homens necessitam de beber d’Ele e receber documente a Verdade. Diz-se, além disso, que é Rei da vontade humana não só porque n’Ele a vontade humana está submetida à santa e divina vontade, mas também porque com as Suas moções e inspirações influi na nossa livre vontade e acende-a em desejos das mais nobres ações. Finalmente, diz-se com verdade que Cristo é Rei dos corações pela Sua caridade, que excede todo o conhecido, e pelo atrativo que exerce nas almas a Sua mansidão e bondade. Com efeito, de ninguém se pôde dizer até agora, nem poderá dizer-se nunca, que tenha sido amado como Jesus Cristo pela totalidade do gênero humano» (Quas primas).

23-24. Cumpre-se assim a profecia do Salmo 22, que descreve de modo impressionante os sofrimentos do Messias: «As minhas vestes são repartidas e deitam sortes sobre a minha túnica» (Ps 22,19). A túnica sem costuras foi considerada pelos Santos Padres como um símbolo da unidade da Igreja (cfr, por exemplo, Santo Agostinho, In Ioann. Evang., 118,4).

25. Enquanto os Apóstolos, exceto São João, aban­donam Jesus nesta hora de opróbrio, aquelas piedosas mu­lheres, que O tinham seguido durante a Sua vida pública (cfr Lc 8,2-3), permanecem agora junto ao Mestre que morre na Cruz (cfr a nota a Mt 27,55-56).

O Papa João Paulo II explica que a fidelidade da Virgem Santíssima se manifestou de quatro modo: o primeiro, pela busca generosa do que Deus queria d’Ela (cfr Lc 1,34); o segundo, mediante a aceitação submissa da Vontade divina (cfr Lc l ,38); o terceiro, pela coerência dos atos da vida com a decisão da fé tomada; e, finalmente, mediante a prova da perseverança.« Só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete ao pé da Cruz» (Homília Catedral México).

A Igreja desde sempre reconheceu a dignidade da mulher e a sua importante missão na História da Salvação. Basta recordar o culto que, desde as origens, o povo cristão tributou à Mãe de Cristo, a Mulher por antonomásia, e a criatura mais excelsa e mais privilegiada que jamais saiu das mãos de Deus. O último Concilio, dirigindo uma mensagem especial às mulheres, diz entre outras coisas: «Mulheres que sofreis provações, finalmente, vós que estais de pé junto à cruz, à imagem de Maria, vós que, tantas vezes através da história, tendes dado aos homens a força para lutar até ao fim, de testemunhar até ao martírio, ajudai-os uma vez mais a conservar a audácia dos grandes empreendimentos, ao mesmo tempo que a paciência e o sentido de humildade de tudo o que principia» (Cone. Vaticano II, Mensagem do Concilio à Humanidade. Às mulheres, n.° 9).

26-27. «A pureza limpíssima de toda a vida de João torna-o forte diante da Cruz. — Os outros apóstolos fogem do Gólgota; ele, com a Mãe de Cristo, fica.

«— Não esqueças que a pureza enrijece, viriliza o caráter» (Caminho, n.° 144).

O gesto do Senhor, pelo qual confia Sua Santíssima Mãe ao cuidado do discípulo, tem um duplo sentido (veja-se Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1109-1116). Por um lado, manifesta o amor filial de Jesus à Virgem Maria. Santo Agostinho considera como Jesus nos ensina a cumprir o quarto mandamento: «É uma lição de moral. Faz o que recomenda fazer, e, como bom Mestre, ensina os Seus com o Seu exemplo, a fim de que os bons filhos tenham cuidado dos pais; como se aquele madeiro que sujeitava os Seus membros moribundos fosse também a cátedra do Mestre que ensinava» (In Ioann. Evang., 119,2).

Por outro lado, as palavras do Senhor declaram que Maria Santíssima é nossa Mãe: «Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo» (Lumen gentium, n. 58).

Todos os cristãos, representados em São João, somos filhos de Maria. Ao dar-nos Cristo Sua Mãe por nossa Mãe manifesta o amor aos Seus até ao fim (cfr Ioh 13,1). A Virgem Santíssima ao aceitar o apóstolo João como filho seu mostra o seu amor de Mãe: «A ti, Maria, o Filho de Deus e ao mesmo tempo teu Filho, do alto da Cruz indicou um homem e disse: ‘Eis o teu filho’. E naquele homem confiou-te cada homem, confiou-te todos. E Tu, que no momento da Anunciação, nestas simples palavras: ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38), concentraste todo o programa da tua vida, abraças todos, aproximas-te de todos, buscas maternalmente a todos. Desta ma­neira cumpre-se o que o último Concilio declarou acerca da tua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Perseveras de maneira admirável no mistério de Cristo, teu Filho Unigênito, porque estás sempre onde quer que estão os homens Seus irmãos, onde quer que está a Igreja» (Homília Basílica de Guadalupe ).

«João, o discípulo amado de Jesus, recebe Maria e a introduz em sua casa, na sua vida. Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite diri­gido a todos os cristãos para que Maria entre também nas suas vidas. Em certo sentido, é quase supérfluo este esclare­cimento. Maria quer certamente que a invoquemos, que nos aproximemos d’Ela com confiança, que apelemos para a sua maternidade, pedindo-lhe que se manifeste como nossa Mãe» (Cristo que passa, n.° 140).

Este modo filial de tratar Maria é o que segue constan­temente João Paulo II. Assim, na sua despedida da Virgem de Czestochowa, orava com estas palavras: «Mãe da Igreja de Jasna Gora! Uma vez mais me consagro a Ti na tua maternal escravidão de amor: Totus tuus! Sou todo teu! Consagro-te a Igreja inteira, em toda a parte, até aos confins da terra. Consagro-te a humanidade; consagro-te os homens, meus irmãos. Todos os povos e nações. Consagro-te a Europa e todos os continentes. Consagro-te Roma e a Polônia unidas, através do teu servo, por um novo vínculo de amor. Mãe, aceita! Mãe, não nos abandones! Mãe, guia-nos Tu!» (Alocução de despedida no Santuário de Jasna Gora, 6-VI-1979).

28-29. Também este pormenor estava predito no Antigo Testamento: «Puseram veneno na minha comida, e na minha sede deram-me a beber vinagre» (Ps 69,22). Isto não quer dizer que deram vinagre a Jesus para aumentar os tormentos; era costume oferecer água misturada com vinagre aos crucificados para mitigar a sede. Além da natural desidratação que produzia o suplício da cruz, pode também ver-se na sede de Jesus uma manifestação do Seu desejo ardente por cumprir a vontade do Pai e salvar todas as almas. «Do alto da cruz clamou: sítio!, tenho sede. Sede de nós, do nosso amor, das nossas almas e de todas as almas que lhe devemos levar pelo caminho da Cruz, que é o caminho da imortalidade e da glória do Céu» (Amigos de Deus, n.° 202).

30. Jesus, pregado na Cruz, morre por todos os pecados e vilezas dos homens. Apesar de todos os sofrimentos é uma morte serena, onde resplandece a majestade do Senhor, que inclina a cabeça depois de ter cumprido a missão confiada. «Quem é capaz de morrer quando queira, como Jesus morreu quando quis? Quem pode revestir-se da morte quando queira, como Ele Se despojou da Sua carne quando quis? (…). Quanto deve esperar-se ou temer-se o poder daquele que virá para julgar, quando tão grande apareceu no momento de morrer!» (In Ioann. Evang., 119,6).

«Meditemos no Senhor, chagado dos pés à cabeça por amor de nós. Com frase que se aproxima da realidade, embora não consiga exprimi-la completamente, podemos repetir com um escritor de há séculos: O corpo de Jesus é um retábulo de dores. Á vista de Cristo feito um farrapo, transfor­mado num corpo inerte descido da Cruz e confiado a Sua Mãe, à vista desse Jesus destroçado, poder-se-ia concluir que esta cena é a exteriorização mais clara de uma derrota. Onde estão as massas que O seguiram e o Reino cuja vinda anun­ciava? Contudo, não temos diante dos olhos uma derrota, mas sim uma vitória: está agora mais perto do que nunca o momento da Ressurreição, da manifestação da glória que Cristo conquistou com a Sua obediência» (Cristo que passa, n.° 95).

31-32. Jesus morre no dia da preparação da Páscoa — Parasceve —, isto é, na véspera, quando no Templo eram imolados oficialmente os cordeiros pascais. Ao sublinhar esta coincidência o Evangelista insinua que o sacrifício de Cristo substituía os sacrifícios da antiga Lei e inaugurava a Nova Aliança no Seu sangue (cfr Heb 9,12).

A Lei de Moisés mandava que os justiçados não permanecessem pendurados do madeiro ao chegar a noite (Dt 21,22-23); por isso os judeus pedem a Pilatos que lhes quebrem as pernas para acelerar a morte e podê-los enterrar antes do anoitecer, sobretudo porque no dia seguinte era a solenidade da Páscoa.

Sobre a data da morte de Jesus veja-se Data da Morte, pp. 82 ss.

34, Este fato tem uma explicação natural. O mais provável é que a água que saiu do lado de Cristo fosse o líquido pleural acumulado por causa dos tormentos.

Como noutras ocasiões, o quarto Evangelho, nos fatos históricos que narra, contém um significado profundo. Santo Agostinho e a tradição cristã vêem brotar os sacramentos e a própria Igreja do lado aberto de Jesus: «Ali abria-se a porta da vida, donde manaram os sacramentos da Igreja, sem os quais não se entra na verdadeira vida (…). Este segundo Adão adormeceu na cruz para que dali fosse formada uma esposa que saiu do lado d’Aquele que dormia. Oh morte que dá vida aos mortos! Que coisa mais pura que este sangue? Que ferida mais salutar que esta?» (In Ioann. Evang., 120,2). Por sua vez o Concilio Vaticano II ensinou: «A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Tal começo e crescimento exprimem-nos o sangue e a água que manaram do lado aberto de Jesus crucificado» (Lumen gentium, n. 3).

«Cristo na Cruz, com o Coração trespassado de Amor pelos homens, é uma resposta eloqüente — as palavras não são necessárias — à pergunta sobre o valor das coisas e das pessoas. Pois valem tanto os homens, a sua vida, a sua felicidade, que o próprio Filho de Deus Se entrega para os remir, para os purificar, para os elevar!» (Cristo que passa, n.° 165).

35. O Evangelho de São João apresenta-se como um testemunho veraz acerca dos acontecimentos da vida do Senhor e do seu significado doutrinai e espiritual. Desde as palavras de João Baptista no começo do ministério público de Jesus (1,19) até ao parágrafo conclusivo do Evangelho (21,24-25), tudo fica enquadrado num testemunho da realidade sublime do Verbo de Vida feito carne. Aqui o Evange­lista explicita a sua condição de testemunha directa (cfr também Ioh 20,30-31; l Ioh 1,1-3).

36. Esta citação alude ao preceito da Lei de não quebrar nenhum osso ao cordeiro pascal (cfr Ex 12,46). Uma vez mais o Evangelho de São João ensina-nos que Jesus é o verdadeiro Cordeiro pascal que tira o pecado do mundo (cfr Ioh l ,29).

37. O relato da Paixão termina com a citação de Zach 12,10, que preanunciava a salvação pelo sofrimento e morte misteriosos de um Redentor. O Evangelista evoca com este texto profético a salvação realizada por Jesus Cristo que, pregado na Cruz, cumpriu a promessa divina de redenção (cfr Ioh 12,32). Todo aquele que O contemple com fé recebe os frutos da Sua Paixão. Assim, o bom ladrão, contemplando Cristo na Cruz, reconheceu a Sua realeza, pôs n’Ele a sua confiança e recebeu a promessa do Céu (cfr Lc 23,42-43).

Na liturgia da Sexta Feira Santa a Igreja convida a contemplar e adorar a Cruz com estas palavras: «Contemplai a árvore da Cruz, onde esteve cravada a salvação do mundo», e desde os primeiros tempos da Igreja o Crucifixo é o sinal que recorda aos cristãos o momento supremo do amor de Cristo que, morrendo, nos livra da morte eterna. «O teu Crucifixo. — Como cristão, deverias trazer sempre contigo o teu Crucifixo. E colocá-lo sobre a tua mesa de trabalho. E beijá-lo antes de te entregares ao descanso e ao acordar. E quando o pobre corpo se rebelar contra a tua alma, beija-o também» (Caminho, n.° 302)

38-39. O sacrifício do Senhor começa a produzir os seus frutos. Assim, os que antes tiveram medo agora confessam-se corajosamente discípulos de Jesus, e cuidam do Seu Corpo morto com extremada delicadeza e generosidade. O Evange­lista assinala que José de Arimateia e Nicodemos empregaram uma mistura de mirra e aloés em quantidade verda­deiramente esplêndida. A mirra é uma resina aromática de grande preço; e o aloés era um suco extraído de certas plantas. O seu emprego constituía uma manifestação de piedade pelos defuntos.

40. O quarto Evangelho completa os dados dos Sinópticos sobre a sepultura do Senhor. A Sagrada Escritura não prescrevia um modo determinado de inumação, pelo que os Judeus se atinham aos costumes da época. Provavelmente, depois de descerem o Senhor com piedade da Cruz, lava­ram-No com cuidado (cfr Act 9,37), perfumaram-No e envol­veram-No com um tecido, cobrindo a Sua cabeça com um sudário (cfr Ioh 20,5-6). Mas, diante da iminência do descanso sabático, não puderam ungi-Lo com bálsamo, coisa que pensavam fazer as mulheres depois de passado o sábado (cfr Mc 16,1; Lc 24,1). O próprio Jesus, quando louvou o gesto de Maria na unção de Betânia, tinha anunciado veladamente que o Seu corpo não seria embalsamado (cfr a nota a Ioh 12,7).

41. Os Santos Padres comentaram com freqüência o pormenor do horto em sentido místico. Costumam ensinar que Cristo, preso num horto — o das Oliveiras — e sepul­tado num horto — o do Sepulcro —, redimiu-nos superabundantemente daquele primeiro pecado cometido também num horto — o Paraíso —. Do sepulcro novo comentam que, sendo o corpo de Jesus o único que foi depositado ali, não haveria dúvida de que era Ele quem tinha ressuscitado e não outro. Observa também Santo Agostinho: «Assim como no seio de Maria Virgem nenhum foi concebido antes nem depois d’Ele, assim neste sepulcro ninguém foi sepultado nem antes nem depois d’Ele» (In Ioann. Evang., 120,5). Acerca da morte e sepultura de Cristo a doutrina cristã ensina, entre outras, as duas verdades seguintes: «Uma, que o corpo de Cristo não sofreu corrupção em parte alguma, e sobre isto tinha vaticinado o profeta ‘não permitirás que o Teu Santo experimente a corrupção’ (Ps 16,10; Act 2,31). A outra (…), que a sepultura, a Paixão e a Morte dizem respeito a Jesus Cristo somente quanto à Sua natureza humana, ainda que também se atribuam a Deus, porque é evidente que se pregam com verdade daquela Pessoa que ao mesmo tempo é perfeito Deus e perfeito homem» (Catecismo Romano, I, 5,9).

Dia 3 de abril

Lc 24, 1-12

Mas no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram ao sepulcro, levando os perfumes que haviam preparado. 2Encontraram a pedra removida do túmulo 3e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. 4Estando elas perplexas com o caso, surgiram-lhes dois homens em traje resplandecente. 5Como ficassem amedrontadas e inclinassem os rostos até ao chão, eles disseram-lhes: Porque buscais entre os mortos Aquele que vive? 6Não está aqui; ressuscitou! Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia: 7«O Filho do homem — dizia Ele — tem de ser entregue às mãos dos pecadores, tem de ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia». 8Lembraram-se então das Suas palavras. 9Depois voltaram do túmulo e foram contar tudo isto aos onze e a todos os restantes. 10Eram elas Maria de Magdala, Joana e Maria, mãe de Tiago; e as outras que estavam com elas diziam isto mesmo aos Apóstolos. 11Tais palavras, porém, pareceram-lhes um desvairo e eles não acreditaram nelas. 12Mas Pedro pôs-se a caminho e correu ao túmulo. Debruçando-se, apenas viu as ligaduras e voltou para casa admirado com o sucedido.

Comentário

1-4. O carinho das santas mulheres ao preparar todas as coisas para embalsamar o Corpo de Jesus com toda a veneração foi talvez uma intuição profunda da fé, que a doutrina da Igreja expressaria mais tarde com precisão ao dizer: «Cremos e confessamos firmemente que, separada a alma de Cristo do Seu corpo, a divindade esteve sempre unida tanto ao corpo no sepulcro, como à alma quando desceu aos infernos» (Catecismo Romano, I, 5,6).

5-8. A verdade de fé sobre a Ressurreição de Jesus Cristo ensina que tendo realmente morrido ao separar-se a Sua Alma do Seu Corpo, e tendo sido sepultado, aos três dias, pelo Seu próprio poder voltou a unir-se novamente a Sua Alma ao Seu Corpo, de modo que não se separarão jamais (cfr Catecismo Romano, I, 6,7).

Sendo um mistério estritamente sobrenatural, tem, contudo, uns aspectos exteriores que caem sob a experiência sensível: morte, sepultura, sepulcro vazio, aparições, etc. E neste aspecto é um fato demonstrado e demonstrável (cfr Lamentabili, nn. 36-37).

A Ressurreição de Jesus Cristo completa a obra da nossa Redenção: «Porque assim como pela Morte carregou com os males para nos livrar do mal, de modo semelhante, pela Ressurreição foi glorificado para nos levar ao bem; segundo as palavras da Epístola aos Romanos (4,25); foi entregue à morte pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação» (Suma Teológica, III, q. 53, a. l, c.).

«Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de con­teúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou; triunfou da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. Não temais — foi com esta invocação que um anjo saudou as mulheres que iam ao sepulcro. Não temais. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ressuscitou; não está aqui (Mc XVI, 6). Haec est dies quam fecit Dominus, exultemus et laetemur in ea — este é o dia que o Senhor fez- alegremo-nos (Ps CXVII.24).

«O tempo pascal é tempo de alegria, de uma alegria que não se limita a esta época do ano Litúrgico, mas mora sempre no coração dos cristãos. Porque Cristo vive. Cristo não é uma figura que passou, que existiu em certo tempo e que se foi embora, deixando-nos uma recordação e um exemplo maravilhosos.

«Não. Cristo vive. Jesus é Emanuel: Deus conosco. A Sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os Seus. Pode a mulher esquecer o fruto do seu seio e não se compadecer do filho das suas entranhas? Pois ainda que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti (Is XLIL, 14-15), havia-nos Ele prometido. E cumpriu a promessa. Deus continua a ter as Suas delícias entre os filhos dos homens (cfr Prv VIII, 31)» (Cristo que passa, n.° 102).

Pelo Batismo e pelos outros sacramentos, o cristão fica incorporado ao mistério redentor de Cristo, que compreende a Sua Morte e a Sua Ressurreição: «Postes sepultados com Ele pelo Batismo, e com Ele ressuscitastes pela fé que tendes no poder de Deus que O ressuscitou da morte» (Col 2,12). «Se ressuscitastes com Cristo buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; saboreai as coisas do Céu, não as da terra. Porque estais mortos já e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus» (Col 3,1-3).

9-12. Os primeiros a quem um anjo anuncia o Nasci­mento de Cristo são os pastores de Belém. As primeiras a receber o testemunho divino da Ressurreição de Jesus são estas piedosas mulheres. É uma mostra mais da predileção de Deus pelas almas simples e sinceras, às quais concede uma honra que o mundo não sabe apreciar (cfr Mt 11.25). Mas não é apenas simplicidade e bondade, não é apenas sinceridade; é que os pobres — os pastores — e as mulheres eram desprezados naquele tempo: e Jesus ama aquilo que é humilhado pela soberba dos homens; por isso distingue os pastores e as mulheres. E precisamente porque aquelas mulheres eram simples e boas, recorrem imediatamente a Pedro e aos Apóstolos a comunicar-lhes tudo o que tinham visto e ouvido. Pedro, a quem Jesus tinha prometido que seria o Seu Vigário na terra (cfr Mt 16,18), sente-se movido a tomar a responsabilidade de comprovar os fatos.

Dia 4 de abril

Jo 20, 1-9

1No primeiro dia da semana, vem Maria de Magdala, de manhãzinha, ainda escuro, ao túmulo e vê a pedra retirada do túmulo. 2Corre então e vai ter com Simão Pedro e com o outro discípulo aquele que Jesus amava. Tiraram o Senhor do Túmulo, lhes diz ela, e não sabemos onde O puseram. 3Pedro saiu com o outro discípulo e vieram ambos ao túmulo.

4Corriam os dois juntamente, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao túmulo. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chega também Simão Pedro, que o vinha seguindo, e entrando no túmulo, põe-se a observar as ligaduras que estavam no chão, 7e o lençol que estivera sobre a cabeça de Jesus, não colocado no chão com as ligaduras, mas à parte, enrolado para outro sítio. 8Nessa altura, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao túmulo: então viu e acreditou. 9De fato, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Ele deve ressuscitar dos mortos.

Comentário

1-2. Os quatro Evangelhos narram os primeiros testemunhos das santas mulheres e dos discípulos acerca da Ressurreição gloriosa de Cristo. Tais testemunhos referem-se, num primeiro momento, à realidade do sepulcro vazio (cfr Mt 28,1-15; Mc 16,1 ss.; Lc 24,1-12). Depois relatarão diversas aparições de Jesus Ressuscitado.

Maria Madalena é uma das que assistiam o Senhor nas Suas viagens (Lc 8,1-3); junto com a Virgem Maria seguiu-O corajosamente até à Cruz (Ioh 19,25), e viu onde tinham depositado o Seu Corpo (Lc 23,55). Agora, uma vez passado o repouso obrigatório do Sábado, vai visitar o túmulo. Notemos o pormenor evangélico: “De manhãzinha, ainda escuro”: o amor e a veneração fazem-na ir sem demora junto ao Corpo do Senhor.

4. O quarto Evangelho põe em realce que, ainda que fossem as mulheres, e em concreto Maria Madalena, as primeiras a chegar ao sepulcro, são os Apóstolos os primeiros a entrar e a perceber os pormenores externos que mostram que Cristo ressuscitou (o sepulcro vazio, os tecidos “caídos”, o sudário à parte). Dar testemunho deste fato será ponto essencial da missão que lhes confiará Cristo: “Sereis Minhas testemunhas em Jerusalém… e até aos confins da terra” (Act 1,8; cfr Act 2,32).

5-7. João, que chegou antes – quiçá porque era mais jovem -, não entrou, por deferência para com Pedro. Isto insinua que já então Pedro era considerado como cabeça dos Apóstolos.

As palavras que emprega o Evangelista para descrever o que Pedro e ele viram no sepulcro vazio exprimem com vivo realismo a impressão que lhes causou o que ali encontraram, e como ficaram gravados na sua memória alguns pormenores à primeira vista irrelevantes. As características que apresentava o sepulcro vazio foram até tal ponto significativas que os fizeram intuir de algum modo a Ressurreição do Senhor. Alguns termos que aparecem no relato necessitam de ser explicados; a simples tradução dificilmente pode exprimir todo o conteúdo.

“As ligaduras no chão”: O particípio grego que traduzimos por “caídas” ou “no chão” parece indicar que as ligaduras tinham ficado aplanadas, como vazias ao ressuscitar e desaparecer dali o corpo de Jesus, como se Este tivesse saído dos tecidos e das ligaduras sem ser desenroladas, passando através delas (tal como entrou mais tarde no Cenáculo “estando fechadas as portas”). Por isso, os tecidos estavam “caídos”, “planos”, “jacentes” segundo a tradução literal do grego, ao sair deles o Corpo de Jesus que os tinha mantido antes em forma avultada. Assim se compreende a admiração e a recordação indelével da testemunha.

“O lençol… à parte, ainda enrolado para outro sítio”: A primeira observação é que o sudário, que tinha envolvido a cabeça, não estava em cima dos tecidos, mas ao lado. A segunda, mais surpreendente, é que, como os tecidos, conservava ainda a sua forma de envoltura, mas, de modo diferente daqueles, mantinha certa consistência de volume, à maneira de casquete, provavelmente devido ao endurecimento produzido pelos ungüentos. Tudo isso é o que parece indicar o correspondente particípio grego, que traduzimos por “enrolado”.

Destes pormenores na descrição do sepulcro vazio depreende-se que o corpo de Jesus ressuscitou de maneira gloriosa, isto é, transcendendo as leis físicas. Não se tratava apenas da reanimação do corpo, como por exemplo, no caso de Lázaro, que necessitou de ser desligado das ligaduras e outros tecidos da mortalha para poder andar (cfr Ioh 11,44).