dia 29 de junho a 5 de julho de 2009

Dia 29 de junho

Mt 8, 18-22

18Vendo Jesus grandes multidões de povo à volta de Si, mandou ir para o lado de lá. 19E, aproximando-se um escriba disse-lhe: Mestre, seguir-Te-ei para onde quer que fores. 20Disse-lhe Jesus: As raposas têm covas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 21Outro de entre os discípulos disse-Lhe: Senhor, dá-me primeiro licença de ir sepultar meu pai. 22Jesus, porém, disse-lhe: Segue-Me e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.

Comentário

18-22. Desde os começos da Sua pregação messiânica, Jesus mal permanece num mesmo lugar; vai sempre a caminho, passando. “Não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Quem quiser estar com Ele tem de “O seguir”. A expressão “seguir Jesus” adquire no Novo Testamento um alcance preciso: seguir Jesus é ser Seu discípulo (cfr Mt 19, 28). Ocasionalmente as multidões “seguem-nO”. Mas os verdadeiros discípulos são “os que O seguem” de modo permanente, sempre; de tal modo que existe uma equivalência entre “ser discípulo de Jesus” e “segui-Lo”. Depois da Ascensão do Senhor, “segui-Lo” identifica-se com ser cristão (cfr Act 8, 26). Pelo facto simples e sublime do nosso Baptismo, todo o cristão é chamado, com vocação divina, a ser plenamente discípulo do Senhor com todas as suas conseqüências.

O Evangelista recolhe aqui dois casos concretos de seguimento de Jesus. No primeiro – o do escriba -, Nosso Senhor explica as exigências do chamamento à fé àqueles que descobrem que são chamados. No segundo – o do homem que já disse sim a Jesus – recorda-lhe as exigências do seu compromisso. O soldado que não abandona o seu posto na frente de batalha para enterrar o pai, deixando esse trabalho para os da retaguarda, cumpre o seu dever. Se o serviço da pátria pode ter tais exigências, com maior razão pode tê-las o serviço a Jesus Cristo e á sua Igreja.

O seguimento de Cristo, com efeito, leva consigo uma disponibilidade rendida, uma entrega imediata do que Jesus pede, porque essa chamada é um seguir Cristo ao ritmo do Seu próprio passo, que não admite ficar para trás: Jesus ou se segue, ou se perde. Em que consiste o seguimento de Cristo, ensinou-o Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5-7), e é-nos resumido pelos catecismos mais elementares da doutrina cristã: cristão quer dizer homem que crê em Jesus Cristo – fé que recebeu no Baptismo – e que está obrigado ao Seu santo serviço. Cada cristão deve procurar, na oração e intimidade com o Senhor, quais sãos as exigências pessoais e concretas da sua vocação cristã.

20. “Filho do Homem”: É uma das expressões para designar o Messias no Antigo Testamento. Este título aparece pela primeira vez em Dan 7, 14 e era utilizado na literatura judaica do tempo de Jesus. Até a pregação do Senhor não tinha sido entendido em toda a sua profundidade. O título de “Filho do Homem” estava menos comprometido com as aspirações judaicas de um Messias terreno; por esta causa foi preferido por Jesus para Se designar a Si mesmo como Messias, sem reavivar o nacionalismo hebraico. De tal título messiânico, que na mencionada profecia de Daniel reveste um carácter transcendente, se servia o Senhor para proclamar de um modo discreto o Seu messianismo prevenindo falsas interpretações políticas. Os Apóstolos, depois da Ressurreição de Jesus, compreenderam que “Filho do Homem” equivalia precisamente a “Filho de Deus”.

22. “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”: Esta frase, à primeira vista tão dura, corresponde à linguagem que por vezes empregava Jesus. Nessa linguagem entende-se bem que sejam chamados “mortos” os que procuram com afã as coisas perecedouras, excluindo do seu horizonte a aspiração pelas perenes.

“Se Jesus o proibiu – comenta São João Crisóstomo -, não é porque nos mande descurar a honra devida àqueles que nos geraram, mas para nos dar a entender que nada há-de haver para nós mais necessário que procurar as coisas do Céu, que a elas nos havemos de entregar com todo o fervor e que nem por um momento podemos diferi-las, por mais iniludível e urgente que seja o que poderia afastar-nos delas” (Hom. sobre S. Mateus, 27).

Dia 30 de junho

Mt 8, 23-27

23Subindo depois para a barca, seguiram-No os discípulos. 24E eis que se levantou no mar uma tempestade tão violenta, que as ondas cobriam a barca. Ele, entretanto, dormia. 25Chegaram-se os discípulos e despertaram-No, dizendo: Senhor, salva-nos, que estamos perdidos! 26Disse-lhes Ele: Porque estais com medo, homens de pouca fé? Então ergueu-Se, imperou aos ventos e ao mar e fez-se uma grande bonança. 27Ficaram os homens assombrados e diziam: Quem é Este, que até os ventos e o mar Lhe obedecem?

Comentário

23-27. Este notável milagre da vida de Jesus deve ter deixado profunda impressão nos Seus discípulos, do que pode ser índice o facto de os três primeiros Evangelhos no-lo relatarem. A Tradição, partindo da realidade histórica deste maravilhoso acontecimento, fez algumas aplicações à própria vida da Igreja, e até mesmo de cada alma. Desde tempos antigos a literatura e a arte cristã viram na barca uma imagem da Igreja que, de modo semelhante, faz a sua travessia no meio de grandes perigos, que parecem que vão afundá-la. Com efeito, bem depressa os cristãos se viram assediados pelas perseguições dos judeus daquele tempo, e incompreendidos pela opinião pública da sociedade pagã que, de modo paulatino, iniciava as suas futuras perseguições. O facto de que Jesus tivesse permanecido adormecido no meio da tempestade tem sido aplicado a esse silêncio em que Deus, por vezes, parece permanecer perante as dificuldades da Igreja. Os cristãos, seguindo o exemplo dos Apóstolos que iam na barca, devem recorrer a Jesus Cristo com as mesmas palavras: “Senhor, salva-nos, que estamos perdidos”. E quando a situação parece insustentável, então Jesus mostra o Seu poder: “Ergueu-se, imperou aos ventos e ao mar e fez-se uma grande bonança”, não sem antes nos ter feito a censura de termos sido homens de pouca fé. E é que a história evangélica tem muitas vezes um valor exemplar, de aplicação à vida, e de pré-anúncio da futura história da Igreja e de cada alma cristã.

Dia 1º de julho

Mt 8, 28-34

28Chegado ao lado de lá, ao país dos Gadarenos, vieram-Lhe ao encontro dois possessos, saídos dos sepulcros, e tão furiosos, que ninguém se arriscava a passar por aquele caminho. 29Os quais em alta voz diziam: Que tens que ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo? 30Ora, a certa distância deles, andava uma grande vara de porcos a pastar, 31e os Demónios suplicaram: Se nos expulsas, manda-nos para estes porcos. 32Disse-lhes Ele: Ide! Eles saíram e foram-se para os porcos. E logo toda a vara se despenhou do precipício no mar e se afogou nas águas. 33Os guardadores fugiram e, chegando à cidade, contaram tudo e também o caso dos possessos. 34E eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, apenas O viram, pediram-Lhe que Se retirasse do seu termo.

Comentário

28. A maioria dos códices gregos e a Neo-vulgata dizem gadarenos; a Vulgata, porém, e os textos paralelos de Mc e Lc transcrevem gerasenos. Ambos os nomes são possíveis, pois dependem respectivamente das duas cidades, Gerasa e Gádara, as mais importantes desta zona. O acontecimento pode ter-se dado nos limites entre ambas, um tanto imprecisos, embora a precipitação dos porcos no lago ou mar da Galileia dê alguma maior possibilidade a Gádara. Gergesenos procede de uma conjectura de Orígenes.

28-34. Neste episódio Jesus Cristo mostra o Seu poder, uma vez mais, sobre o demónio e as forças diabólicas. Que o facto suceda em terra de gentios (Gerasa e Gádara estavam na Decápole, a Este do Jordão), fica atestado porque entre os Judeus era proibida a criação de porcos, declarados impuros segundo a Lei de Moisés. Esta expulsão de demónios, e outras mais que nos narram os evangelistas, vêm resumidas no livro dos Actos dos Apóstolos, no discurso de São Pedro diante de Cornélio e da sua família: “Passou fazendo o bem e curando todos os que tinham caído sob o poder do diabo” (Act 10,38). É uma prova de que o Reino de Deus começou (cfr Mt 12, 28).

A atitude dos habitantes da cidade perante o milagre recorda-nos que o encontro com Deus e a vida cristã exigem a subordinação dos planos pessoais aos planos divinos. Uma atitude egoísta ou materialista fecha o horizonte dos bens eternos. Por este caminho podemos expulsar Deus da nossa vida, como o expulsaram da sua terra os habitantes de Gerasa.

Dia 2 de julho

Mt 9, 1-8

1E Ele, subindo para uma barca, refez a travessia e voltou para a Sua cidade. 2Senão quando, apresentaram-Lhe um paralítico estendido num leito. Vendo Jesus a sua fé, disse ao paralítico: Tem confiança, filho, os teus pecados estão perdoados. 3Pelo que alguns Escribas disseram de si para consigo: Este blasfema. 4Jesus, que lhes via os pensamentos, disse: Para que pensais mal em vossos corações? 5Qual é mais fácil, dizer: “os teus pecados estão perdoados “, ou dizer: “levanta-te e anda”? 6Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder para perdoar pecados, – aqui diz ao paralítico: levanta-te! toma o teu leito e vai para tua casa. 7Ele levantou-se e foi para casa. 8Vendo isto, a multidão, cheia de temor, glorificou a Deus, que deu tal poder aos homens.

Comentário

1. Como se pode ver por Mt 4, 13 e Mc 2, l, trata-se de Cafarnaum.

2-6. O doente e os que o levam pedem a Jesus a cura do corpo, movidos pela fé nos Seus poderes sobrenaturais. Nosso Senhor, como noutros milagres, interessa-se mais pelo remédio das causas profundas do mal, isto é, o pecado. Na Sua grandeza divina, dá mais do que Lhe é pedido, ainda que a limitação humana não o saiba apreciar. Diz São Tomás que Jesus Cristo faz como o bom médico: cura a causa da doença (cfr Comentário sobre S. Mateus, 9,1-6).

2. A leitura do passo paralelo de São Marcos conservou-nos um pormenor que nos ajuda a entender melhor a cena e que, em concreto, explica a expressão “a sua fé”: em Mc 2, 2-5 conta-se-nos que foi tanta a aglomeração de gente à volta de Jesus, que não podiam aproximar-se d’Ele com a enxerga do paralítico. Perante isto, tiveram a feliz ideia de subir ao alto da casa e dependurar a enxerga com o paralítico, abrindo um buraco pelo tecto leve, diante donde estava Jesus. Assim se explica a frase “vendo Jesus a sua fé”.

O Senhor fica gratamente impressionado por tal audácia, fruto de uma fé operativa que não se detém perante os obstáculos. Por sua vez, esta simpática ousadia ilustra o modo prático de viver a caridade e como Jesus Se sente inclinado para aqueles que se preocupam sinceramente com os outros; curou o paralítico por ocasião da intrepidez dos seus amigos e parentes, da qual também participava o próprio doente, que não teve medo nesta acção arriscada.

São Tomás comenta assim o versículo: “Este simboliza o pecador que jaz no pecado; assim como o paralítico não se pode mover, também o pecador não pode valer-se por si mesmo. Os que levam o paralítico representam os que com os seus conselhos conduzem o pecador para Deus” (Comentário sobre S. Mateus, 9,2). Para aproximar-se de Jesus é necessário também ser santamente audazes e atrevidos, como vemos que o foram os santos. O que não actua assim nunca tomará decisões importantes na sua vida de cristão.

3-7. Aqui “dizer” significa evidentemente “dizer com verdade”, “dizer eficazmente, realizando o que se expressa”. 0 Senhor argumenta desta forma: Qual destas duas coisas é mais fácil, sarar o corpo de um paralítico, ou perdoar os pecados da alma? Não há dúvida que curar um paralítico; pois a alma é mais excelente que o corpo e por isso as doenças daquela são mais difíceis de curar que as deste. Não obstante, a cura da alma é uma coisa oculta, enquanto a do corpo é visível e patente. Jesus demonstra a verdade do que está oculto pelo que aparece manifesto.

Por outro lado, os judeus pensavam que todas as doenças eram efeito de pecados pessoais (cfr Ioh 9, l-3); assim quando ouviram dizer ao Senhor “os teus pecados estão perdoados”, faziam internamente este raciocínio: só Deus pode perdoar os pecados (cfr Lc 5, 21); este homem diz que tem poder para os perdoar; logo está a usurpar a Deus um poder que é exclusivamente Seu; portanto é um blasfemo. Mas o Senhor sai-lhes ao encontro partindo dos seus próprios princípios: ao curar o paralítico só com a Sua palavra faz-lhes ver que, visto que tem poder para curar os efeitos do pecado – segundo eles julgavam -, tem também poder para curara causa, isto é, o pecado; por conseguinte tem poder divino.

Jesus Cristo transmitiu o poder de perdoar os pecados aos Apóstolos e aos seus sucessores no ministério sacerdotal: “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Ioh 20, 22-23). “Garanto-vos que tudo o que ligardes na terra ficará ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra, ficará desligado no Céu” (Mt 18, 18). Os sacerdotes exercem o poder do perdão dos pecados no sacramento da Penitência não em virtude própria, mas em nome de Cristo – in persona Christi – como instrumentos nas mãos do Senhor.

Daqui o respeito, veneração e agradecimento com que devemos aproximar-nos da Confissão: no sacerdote devemos ver o próprio Cristo, Deus, e receber as palavras da absolvição com a fé firme de que é o próprio Cristo quem as diz pela boca do sacerdote. Por esta razão, o ministro não diz: “Cristo te absolva…”, mas “eu te absolvo dos teus pecados…”, na primeira pessoa, numa identificação plena com o próprio Jesus Cristo (cfr Catecismo Romano, II, 5,10).

Dia 3 de julho

Jo 20, 24-29

24Ora Tomé, um dos doze, a quem chamavam Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Diziam-lhe os outros discípulos: Vimos o Senhor! Ele, porém, respondeu-lhes: Se não Lhe vir nas mãos a marca dos cravos, se não chegar com o dedo ao sítio dos ‘cravos e levar a mão ao Seu lado, não acreditarei. 26Oito dias depois, estavam os discípulos novamente lá dentro, e Tomé com eles. Veio Jesus, com as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: A paz seja convosco! 27A seguir, disse a Tomé: Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima a tua mão e chega com ela ao Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. 28Respondeu-Lhe Tomé, dizendo: Meu Senhor e meu Deus! 29Jesus replicou-lhe: Porque Me viste acreditaste? Felizes os que, sem terem visto, acreditam!

Comentário

24-28. A dúvida do Apóstolo Tomé leva o Senhor a dar-lhe uma prova especial da realidade do Seu corpo ressuscitado. Assim confirma, ao mesmo tempo, a fé daqueles que mais tarde haviam de crer n’Ele. “Será que pensais – comenta São Gregório Magno – que aconteceu por pura casualidade que estivesse ausente então aquele discípulo escolhido, que ao voltar ouvisse relatar a aparição, e que ao ouvir duvidasse, duvidando palpasse e palpando cresse? Não foi por casualidade, mas por disposição de Deus. A divina clemência actuou de modo admirável para que tocando o discípulo duvidador as feridas da carne no seu Mestre, sarasse em nós as feridas da incredulidade (…). Assim o discípulo, duvidando e palpando, converteu-se em testemunha da verdadeira ressurreição” (In Evangelia homiliae, 26,7).

A resposta de Tomé não é uma simples exclamação, é uma afirmação: um maravilhoso acto de fé na Divindade de Jesus Cristo: “Meu Senhor e meu Deus!”. Estas palavras constituem uma jaculatória que repetiram com frequência os cristãos, especialmente como acto de fé na presença real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia.

29. O mesmo São Gregório Magno explica estas palavras do Senhor: “São Paulo ao dizer que ‘a fé é o fundamento das coisas que se esperam e uma convicção das que não se vêem’ (Heb 11,1), torna evidente que a fé versa sobre as coisas que não se vêem, pois as que se vêem já não são objecto da fé, mas da experiência. Ora bem, porque é dito a Tomé quando viu e tocou: Porque viste, acreditaste? Porque uma coisa é o que se viu e outra o que se creu. É certo que o homem mortal não pode ver a divindade; portanto, ele viu o Homem e reconheceu-O como Deus, dizendo: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Em conclusão, vendo creu, porque contemplando atentamente este homem verdadeiro exclamou que era Deus, a quem não podia ver” (In Evangelia homiliae, 27,8).

Tomé, como todos os homens, necessitou da graça de Deus para crer, mas, além disso, recebeu uma prova singular; teria sido mais meritória a sua fé se tivesse aceitado o testemunho dos Apóstolos. As verdades reveladas transmitem-se normalmente pela palavra, pelo testemunho de outros homens que, enviados por Cristo e assistidos pelo Espírito Santo, pregam o depósito da fé (cfr Mc 16,15-16). “Por conseguinte a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo” (Rom 10,17). A pregação, pois, do Evangelho tem as garantias suficientes de credibilidade, e o homem ao aceitá-lo “oferece a Deus a homenagem total da sua inteligência e da sua vontade prestando voluntário assentimento à Sua revelação” (Dei Verbum, n. 5).

“Alegra-nos muito o que se segue: ‘Bem-aventurados os que sem ter visto creram’. Sentença na qual, sem dúvida, estamos assinalados nós, que confessamos com a alma o que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê” (In Evangelia homiliae, 26,9).

Dia 4 de julho

Mt 9, 14-17

14Então acercam-se d’Ele os discípulos de João e perguntam: Porque é que nós e os Fariseus jejuamos com frequência e os Teus discípulos não jejuam? 15Disse-lhes Jesus: Podem acaso os convidados das bodas entristecer-se enquanto está com eles o esposo? Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão. 16Ninguém deita um remendo de pano não pisoado num vestido velho; aliás, o conserto puxa pelo vestido, e o rasgão torna-se ainda maior. 17Nem se deita vinho novo em odres velhos; doutra sorte, rebentam os odres, derrama-se o vinho, e os odres estragam-se. Mas o vinho novo deita-se em odres novos, e ambas as coisas se conservam.

Comentário

14-17. O interesse da questão que levanta este passo radica, não em saber que jejuns praticavam os judeus contemporâneos de Jesus, e em especial os fariseus e os discípulos de João Baptista, mas em saber qual é a razão pela qual Jesus não obriga os Seus discípulos a tais jejuns. A resposta que dá aqui o Senhor, é, ao mesmo tempo, um ensinamento e uma profecia. O cristianismo não é um mero remendo no antigo traje do judaísmo. A redenção operada por Cristo implica uma total regeneração. O seu espírito é demasiado novo e pujante para ser amoldado às velhas formas penitenciais, cuja vigência caducava.

A história da Igreja primitiva ensina-nos até que ponto os costumes de alguns cristãos, procedentes do judaísmo, resistiam a entender a transformação operada por Jesus.

É sabido que na época de Nosso Senhor dominava nas escolas judaicas uma complicadíssima casuística de jejuns, purificações etc., que afogavam a simplicidade da verdadeira piedade. As palavras de Jesus apontam para esta simplicidade de coração com que os Seus discípulos devem viver a oração, o jejum e a esmola (cfr Mt 6, 1-18 e notas correspondentes). Será a Igreja que, desde os tempos apostólicos, concretizará em cada época, com os poderes que Deus lhe deu, as formas de jejum, segundo este espírito do Senhor.

15. “Os convidados das bodas”: O texto original diz literalmente “filhos da casa onde se celebram as bodas”, que é uma expressão típica para designar os amigos mais íntimos do esposo. Deve sublinhar-se a marcada construção semítica da frase que o Evangelista conservou na sua fidelidade à expressão original de Jesus.

Por outro lado, esta “casa” a que alude Jesus Cristo tem um profundo sentido: há que pô-la em relação com a parábola dos convidados para as bodas (Mt 22, 1-14), e simboliza a Igreja como casa de Deus e Corpo de Cristo: “Moisés, na verdade, foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para dar testemunho de tudo o que se havia de anunciar. Cristo, porém, é fiel, como Filho, à frente da Sua própria casa, a qual somos nós, se conservarmos firmemente até ao fim a confiança e a esperança de que nos gloriamos” (Heb3, 5-6). A segunda parte do versículo alude à morte violenta do Senhor.

Dia 5 de julho

Mc 6, 1-6

Partindo depois dali, foi à Sua terra, e os discípulos acompanharam-No. 2Vindo o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e os muitos que O ouviam exclamavam admi­rados: Donde Lhe vieram todas estas coisas? E que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E os prodígios como esses que opera com Suas mãos? 3Porventura não é Este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E Suas irmãs não vivem aqui entre nós? 4E escandalizavam-se d’Ele. Mas Jesus dizia-lhes: O profeta não é descon­siderado senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa. 5E não pôde fazer ali nenhum milagre. Apenas curou um pequeno número de enfermos, impondo-lhes as mãos. 6E admirava-Se da incredulidade daquela gente.

Comentário

1-3. Jesus é designado aqui pelo Seu trabalho e por ser «o filho de Maria». Indicará isto que São José já tinha morrido? Não o sabemos, ainda que seja provável. Em qualquer caso, é de sublinhar esta expressão: nos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas tinha-se narrado a concepção virginal de Jesus. O Evangelho de São Marcos não refere a infância do Senhor, mas talvez possa ver-se uma alusão à concepção e nascimento virginais, na designação «o filho de Maria».

«José, cuidando daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, fez de Jesus um artesão: transmitiu-Lhe o seu ofício. Por isso, os vizinhos de Nazaré falavam de Jesus chamando-Lhe indistintamente faber e fabrí filius: artesão e filho de artesão» (Cristo que passa, n.° 55). Desta maneira o Senhor fez-nos saber que a nossa vocação profissional não é alheia aos Seus desígnios divinos.

«Esta verdade, segundo a qual o homem mediante o trabalho participa na obra do próprio Deus, seu Criador, foi particularmente posta em relevo por Jesus Cristo, aquele Jesus com Quem muitos dos Seus primeiros ouvintes em Nazaré ‘ficavam admirados e exclamavam: ‘Donde Lhe veio tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dada?… Porventura não é Ele o carpinteiro’…?’ (Mc 6,2-3). Com efeito, Jesus não só proclamava, mas sobretudo punha em prática com obras as palavras da Sabedoria eterna, o ‘Evangelho’ que Lhe tinha sido confiado. Tratava-se verdadeiramente do ‘evangelho do trabalho’ pois Aquele que o proclamava era Ele próprio homem do trabalho, do trabalho artesanal como José de Nazaré (cfr Mt 13, 55). Ainda que não encontremos nas Suas palavras o preceito especial de trabalhar — antes pelo contrário, uma vez, a proibição da preocupação excessiva com o trabalho e com os meios de subsistência (Mt 6, 25-34) — contudo, a eloqüência da vida de Cristo é inequívoca: Ele pertence ao ‘mundo do trabalho’ e tem apreço e respeito pelo trabalho humano. Pode-se até afirmar: Ele encara com amor este trabalho, bem como as suas diversas expressões, vendo em cada uma delas uma linha particular da semelhança do homem com Deus, Criador e Pai» (Laborem exercens, n. 26). São Marcos dá uma lista de irmãos de Jesus, e fala genericamente da existência de umas irmãs. Mas a palavra «irmão» não significava necessariamente filho dos mesmos pais. Podia indicar também outros graus de parentesco: primos, sobrinhos, etc. Assim em Gen 13, 8 e 14, 14.16 chama-se a Lot irmão de Abraão, enquanto por Gen 12,5e 14, 12 sabemos que era sobrinho, filho de Arão, irmão de Abraão. O mesmo acontece com Labão, a quem se chama irmão de Jacob (Gen 29,15), quando era irmão de sua mãe (Gen 29,10); e noutros casos: cfr 1 Chr 23,21-22, etc. Esta confusão deve-se à pobreza da linguagem hebraica e aramaica: carecem de termos diferentes e usam uma mesma palavra, irmão, para designar graus diversos de parentesco.

Por outros passos do Evangelho, sabemos que Tiago e José, aqui nomeados, eram filhos de Maria de Cléofas (Mc 15, 40; Ioh 19, 25). De Simão e de Judas temos menos dados. Parece que são os Apóstolos Simão o Zelotes (Mt 10,4; Mc 3, 18) e Judas Tadeu (Lc 6, 16), autor da epístola católica em que se declara «irmão» de Tiago. Por outro lado, ainda que se fale de Tiago, Simão e Judas como irmãos de Jesus, nunca se diz que sejam «filhos de Maria», o que teria sido natural se tivessem sido estritamente irmãos do Senhor. Jesus aparece sempre como filho único; para os de Nazaré. Ele é «o filho de Maria» (Mt 13, 55). Jesus ao morrer confia Sua mãe a São João (cfr Ioh 19,26-27), o que revela que Maria não tinha outros filhos. A isto acrescenta-se a fé constante da Igreja, que considera Maria como a sempre Virgem: «Virgem antes do parto, no parto, e para sempre depois do parto» (Cum quorumdam).

5-6. Jesus não fez ali milagres: não porque Lhe faltasse poder, mas como castigo da incredulidade dos Seus concida­dãos. Deus quer que o homem use da graça oferecida, de sorte que, ao cooperar com ela, se disponha a receber novas graças. Em frase gráfica de Santo Agostinho,« Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti» (Sermo 169).