dia 28 de setembro a 4 de outubro de 2009

Dia 28 de setembro

Lc 9, 46-50

46Veio-lhes então este pensamento: qual deles seria o maior? 47Mas Jesus, que conhecia o íntimo pensar deles, tomou um menino, colocou-o junto de Si 48e disse-lhes: Quem acolher em Meu nome este menino é a Mim que acolhe; e quem Me acolher acolhe Aquele que Me enviou, pois quem for o mais pequeno entre vós todos, esse é que é grande!

49João tomou a palavra e disse: Mestre, nós vimos alguém a expulsar Demónios em Teu nome e impedimo-lo, porque não anda connosco. 50Respondeu-lhe Jesus: Não impeçais, pois quem não é contra vós é a vosso favor.

Comentário

46-48. Jesus toma uma criança nos Seus braços para a oferecer como exemplo aos Apóstolos e corrigir as ambições demasiado humanas que tinham então no seu coração. Nos Apóstolos ensinou-nos a todos nós, corrigindo a nossa inclinação para buscar o que nos torna importantes, adultos.

“Não queiras ser grande. – Criança, criança sempre, ainda que morras de velho. – Quando um menino tropeça e cai, ninguém estranha…; seu pai apressa-se a levantá-lo.

Quando quem tropeça e cai é adulto, o primeiro movimento é de riso. – Às vezes, passado esse primeiro ímpeto, o ridículo cede o lugar à piedade. – Mas os adultos têm de se levantar sozinhos.

A tua triste experiência quotidiana está cheia de tropeços e quedas. Que seria de ti se não fosses cada vez mais pequeno?

Não queiras ser grande, mas menino. Para que, quando tropeçares, te levante a mão de teu Pai-Deus” (Caminho, nº 870).

49-50. O Senhor corrige a atitude exclusivista e intolerante dos Apóstolos. São Paulo tinha aprendido esta lição e por isso pode exclamar quando está na sua prisão romana: “É verdade que há alguns que pregam Cristo por espírito de inveja e de rivalidade, enquanto outros o fazem com boa intenção (…). Mas, que importa? Desde que, de qualquer modo, Cristo seja anunciado, quer seja por algum pretexto quer por um verdadeiro zelo, alegro-me e alegrar-me-ei sempre” (Phil 1,15.18).

“Alegra-te quando vires que outros trabalham em bons campos de apostolado. – E pede, para eles, graça de Deus abundante e correspondência a essa graça.

Depois, tu – segue o teu caminho; persuade-te de que não tens outro” (Caminho, nº 965).

Dia 29 de setembro

Jo 1, 47-51

47Jesus, vendo Natanael, que vinha ao Seu encontro, diz acerca dele: Aí está um autêntico israelita, em quem não há fingimento! 48Diz-Lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Antes de Filipe te haver chamado, quando estavas debaixo da figueira, Eu vi-te! 49Volveu-Lhe Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel. 50Retorquiu-lhe Jesus, nestes termos: Porque te disse: “Eu vi-te debaixo da figueira”, acreditas? Verás coisas maiores do que estas. 51E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo: Heis-de ver o Céu aberto e os Anjos de Deus subir e descer por sobre o Filho do homem.

Comentário

47-51. Natanael, homem sincero (v. 47), acompanha Filipe até Jesus. Estabelece-se o contacto pessoal com o Senhor (v. 48). E o resultado é a fé do novo discípulo, fruto do seu bom acolhimento da graça, que lhe chega através da Humanidade de Cristo (v. 49).

Segundo podemos deduzir dos Evangelhos, Natanael é o primeiro Apóstolo que faz uma confissão explícita de fé em Jesus como Messias e como Filho de Deus. Mais tarde São Pedro, de modo mais solene, reconhecerá a divindade do Senhor (cfr Mt 16,16). Aqui (v. 51) Jesus evoca um texto de Daniel (7,13) para confirmar e dar profundidade às palavras que pronunciou o novo discípulo.

Dia 30 de setembro

Lc 9, 57-62

57Indo eles no caminho, disse-Lhe alguém: Seguir-Te-ei para onde quer que fores. 58Retorquiu-lhe Jesus: As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 59Disse a outro: Segue-Me. Este respondeu: Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. 60Mas Ele replicou-lhe: Deixa os mortos sepultar os seus mortos, e tu vai anunciar o Reino de Deus. 61Disse outro ainda: Seguir-Te-ei, Senhor, mas antes deixa que vá despedir-me dos meus. 62Mas Jesus respondeu-lhe: Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.

Comentário

57-62. Nosso Senhor exprime claramente as exigências que comporta o segui-Lo. Ser cristão não é tarefa fácil nem cómoda; é necessária a abnegação e pôr o amor a Deus antes de tudo.

Aparece aqui o caso daquele homem que quis seguir Cristo mas com uma condição: despedir-se dos de sua casa. O Senhor vê nele pouca decisão, e dá-lhe uma resposta que nos alcança a todos, visto que todos recebemos a chamada a segui-Lo e devemos procurar não receber essa graça de Deus em vão.

“Nós recebemos a graça de Deus em vão quando a recebemos à porta do coração sem lhe permitir a entrada. Recebemo-la sem a recebermos; recebemo-la sem fruto, pois de nada serve sentir a inspiração se não se consente nela (…). Sucede por vezes que inspirados a fazer muito não aceitamos toda a inspiração, mas apenas algo, como aqueles personagens do Evangelho que, aconselhados pelo Senhor a que O seguissem, um pediu-Lhe autorização para enterrar o pai, e o outro para se despedir dos parentes” (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 11).

A nossa lealdade e fidelidade à tarefa que Deus nos confia deve superar todo o obstáculo: “Nunca existe razão suficiente para voltarmos atrás (cfr. Lc IX,62): o Senhor está ao nosso lado. Temos de ser fiéis, leais, encarar as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e superar os nossos próprios erros” (Cristo que passa, nº 160).

Dia 1º de outubro

Lc 10, 1-12

1Depois disto, designou o Senhor outros setenta e dois e mandou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide e olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem saco, nem sandálias. Não cumprimenteis ninguém pelo caminho. 5Em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: “Paz a esta casa”. 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de voltar. 7Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: “Está perto de vós o Reino de Deus”. 10Mas, se em qualquer cidade em que entrardes vos não receberem, saí às suas praças e dizei: 11“Até o pó que, da vossa cidade, se pegou aos nossos pés, sacudimos sobre vós”. No entanto, ficai sabendo isto: Está perto o Reino de Deus. 12Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para aquela cidade.

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele (cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles contavam-se com toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).

De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9, 1-5), desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamado por Cristo a cumprir uma missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor “pede instantemente a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais novos tomem como dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado Concílio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d’Ele (cfr Phil 2,5), se associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, trabalhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr l Cor 15, 28)” (Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por isso diz “Eu vos envio”, que São João Crisóstomo comenta: “Isto basta para vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos atacam” (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus: actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome de Jesus Cristo Nazareno, “pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual podemos salvar-nos” (Act 4,12).

“E continua o Senhor – acrescenta São Gregório Magno – ‘Não leveis bolsa nem saco nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho’. Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas” (In Evangelia homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-3), disse: “Não tenho ouro nem prata” (Ibid., 3,6), “não tanto para se gloriar na pobreza – assinala Santo Ambrósio – como da sua obediência ao mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me deu: ‘Em nome de Jesus, levanta-te e anda’ (Act 3,6) ” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é urgente.

“Não cumprimenteis ninguém pelo caminho”: “Como pode ser – pergunta-se Santo Ambrósio – que o Senhor queira eliminar um costume tão cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas ‘não cumprimenteis ninguém’, mas que acrescenta ‘pelo caminho’. E isto não é supérfluo.

“Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo caminho (2 Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por um atraso” (Ibid.).

6. “Homem de paz” é todo o homem que está disposto a receber a doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a acção apostólica dos cristãos: “O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria” (Cristo que passa, n.° 124).

O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): “Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. – Não é de Deus o que rouba a paz da alma.

Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação” (Caminho, n.° 258).

7. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento dos bens materiais há-de ser uma das principais características do apóstolo (vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a sua retribuição. Por isso o Concílio Vaticano II recorda a obrigação que todos temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam ao serviço da Igreja: “Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (l Cor 9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira a justa remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para que levem uma vida digna e honesta” (Presbyterorum ordinis, n. 20).

Dia 2 de outubro

Mt 18, 1-5.10

1Naquela mesma hora, chegaram-se os discípulos a Jesus e disseram-Lhe: Quem é, pois, o maior no Reino dos Céus? 2Chamou Ele um menino, pô-lo no meio deles 3e disse: Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser como meninos, não entrareis no Reino dos Céus. 4Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, esse é o maior no Reino dos Céus. 5E quem receber um menino como este em Meu nome, é a Mim que recebe.

10Vede lá não desprezeis um só destes pequeninos, pois Eu vos digo que os seus Anjos, nos Céus, estão incessantemente a contemplar a face de Meu Pai que está nos Céus.

Comentário

1-6. É claro que os discípulos ainda abrigavam ambições terrenas ao pedir o primeiro lugar para quando Cristo instaure na terra o Seu Reino (cfr Act 1,6). Para corrigir o seu orgulho, o Senhor coloca diante deles um menino, exigindo-lhes que se querem entrar no Reino dos Céus, sejam por vontade o que as crianças são por idade. As crianças caracterizam-se pela sua incapacidade de ódio, e vê-se nelas uma total inocência no que diz respeito aos vícios, e principalmente ao orgulho, que é o maior de todos. São simples e abandonam-se confiadamente.

A humildade é um dos pilares mestres da vida cristã: “Se me perguntais – dizia Santo Agostinho – que é o mais essencial na religião e na disciplina de Jesus Cristo, responder-vos-ei: o primeiro a humildade, o segundo a humildade e o terceiro a humildade” (Epístola 118).

3-4. Aplicando estas palavras às virtudes de Nossa Senhora, Frei Luís de Granada sublinha que a humildade é mais excelente que a virgindade: “Se não podes imitar a virgindade da humilde, imita a humildade da virgem. Louvável é a virgindade, mas mais necessária é a humildade. Àquela nos aconselham, a esta nos obrigam; àquela nos convidam, a esta nos forçam (…). De maneira que aquela é galardoada como sacrifício voluntário, esta pedida como sacrifício obrigatório. Finalmente, podes salvar-te sem virgindade, mas não sem humildade” (Suma da vida cristã, livro 3, parte 2, cap. 10).

5. Acolher um menino em nome de Jesus é acolher o próprio Jesus. Porque as crianças são reflexo da inocência, da simplicidade, da pureza, da ternura do Senhor; “para uma alma enamorada, as crianças e os doentes são Ele” (Caminho, n.° 419).

10. Dar escândalo aos pequenos é coisa grave: Jesus adverte-o com energia. Pois estes pequenos têm os seus anjos que os guardam e defendem, e que acusarão diante de Deus aqueles que os tenham induzido ao pecado.

No contexto fala-se dos anjos da guarda dos pequenos, visto que é a estes que se está a referir o passo. Mas todos os homens, grandes ou pequenos, têm o seu anjo da guarda. “A Providência de Deus deu aos anjos a missão de guardar a linhagem humana, e de socorrer cada homem (…). O Nosso Pai deu-nos, a cada um de nós, anjos para que sejamos fortalecidos com o seu poder e auxílio” (Catecismo Romano, IV, 9,4).

Esta doutrina deve levar-nos a uma intimidade confiante com o nosso anjo da guarda. “Tem confiança com o teu Anjo da Guarda. – Trata-o como amigo íntimo – é-o efectivamente – e ele saberá prestar-te mil e um serviços nos assuntos correntes de cada dia” (Caminho, n.° 562).

Dia 3 de outubro

Lc 10, 17-24

17Ora os setenta e dois voltaram cheios de alegria. Senhor – diziam eles – até os Demónios se nos sujeitam em Teu Nome! 18Disse-lhes Ele: Eu via Satanás cair do céu como um raio!… 19Olhai que vos dei o poder não só de andar em cima de serpentes e de escorpiões, mas também sobre toda a força do inimigo; e nada vos causará dano. 20Entretanto, não vos alegreis com o facto de se vos sujeitarem os espíritos, alegrai-vos antes por estarem inscritos nos Céus os vossos nomes.

21Na mesma ocasião, estremeceu de alegria no Espírito Santo e disse: Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos hábeis, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do Teu agrado. 22Tudo Me foi entregue por Meu Pai. E ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

23E, voltando-Se em particular para os discípulos, disse: Felizes os olhos que vêem o que estais a ver; 24pois vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais a ver e não viram, e ouvir o que estais a ouvir e não ouviram.

Comentário

20. O Senhor corrige a atitude dos discípulos, fazendo-lhes ver que os verdadeiros motivos de alegria estão na esperança do Céu, e não no poder de fazer milagres que lhes tinha dado para essa missão. Jesus tinha dado noutra ocasião um ensinamento parecido: “Muitos hão-de dizer-Me naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizámos nós em Teu nome e em Teu nome expulsámos demónios e em Teu nome fizemos muitos milagres?’ Então lhes direi abertamente: ‘Nunca vos conheci: apartai-vos de Mim, obreiros da iniquidade!'” (Mt 7,22-23). Com efeito, mais importante aos olhos de Deus do que fazer milagres é cumprir em cada momento a Sua Vontade santíssima.

21. A este passo do Evangelho se costuma chamar “o hino de júbilo” do Senhor. Também se encontra em São Mateus (11,25-27). É um dos momentos em que Jesus manifesta a Sua alegria ao ver como os humildes entendem e aceitam a palavra de Deus.

Nosso Senhor mostra, além disso, uma consequência da humildade: a infância espiritual. Assim, diz noutro lugar: “Em verdade vos digo que, se não voltardes a ser como meninos, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3). Mas a infância espiritual não comporta debilidade, frouxidão ou ignorância.

“Tenho meditado com frequência na vida de infância espiritual, que não se contrapõe à fortaleza, porque requer uma vontade rija, uma maturidade bem temperada, um carácter firme e aberto (…). Tornar-nos meninos… Renunciar à soberba, à auto-suficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque necessitamos da graça, do poder do nosso Pai, Deus, para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Ser pequeno exige abandonar-se como se abandonam as crianças, crer como crêem as crianças, pedir como pedem as crianças” (Cristo que passa, nos 10 e 143).

22. “Esta é uma expressão maravilhosa para a nossa fé – comenta Santo Ambrósio – porque quando lês ‘tudo’ compreendes que Cristo é todo-poderoso, que não é inferior ao Pai, nem menos perfeito; quando lês ‘foi-me entregue’, confessas que Cristo é o Filho, ao qual tudo pertence de direito pela consubstancialidade de natureza e não por graça de doação” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Cristo aparece aqui Onipotente, Senhor e Deus, consubstancial com o Pai, e o único que pode revelar quem é o Pai. Ao mesmo tempo só podemos conhecer a natureza divina de Jesus, se o Pai – como fez com São Pedro (cfr Mt 16,17) – nos dá a graça da fé.

23-24. Sem dúvida que o ter visto Jesus pessoalmente foi uma sorte maravilhosa para aqueles que creram n’Ele. Não obstante, o Senhor dirá a Tomé: “Bem-aventurados os que sem terem visto creram” (Ioh 20,29). São Pedro, por sua parte, diz-nos: “Amai-Lo sem O terdes visto; credes n’Ele igualmente agora, ainda que não O vejais; mas porque credes, regozijar-vos-eis com júbilo indizível e cheio de glória quando alcançardes o fim da nossa fé, a salvação das almas” (1 Pet 1,8-9).

Dia 4 de outubro

Mc 10, 2-16

2Aproximaram-se uns Fariseus e perguntaram-Lhe, para O tentarem: É lícito ao marido repudiar a mulher? 3Respondeu-lhes Ele: Que vos ordenou Moisés? 4Disseram: Moisés permitiu escrever um libelo de repúdio e desquitá-la. 5Disse-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração vos escreveu ele essa lei. 6Mas, desde o princípio da criação, fê-los Deus homem e mulher. 7Por isso deixará o homem pai e mãe e unir-se-á com sua mulher e 8formarão os dois uma só carne. Portanto, já não são dois, mas uma só carne. 9Não separe, pois, õ homem o que Deus juntou. 10Depois, em casa, interrogaram-No os discípulos sobre este assunto, 11e Ele disse-lhes: Todo o que se desquitar de sua mulher e casar com outra, comete adultério contra ela. t2E, se a mulher se desquitar de seu marido e casar com outro, comete adultério.

13Apresentaram-Lhe umas criancinhas para que as tocasse. Mas os discípulos ralhavam com elas. 14Quando Jesus advertiu, indignou–Se e disse-lhes: Deixai vir a Mim as crian­cinhas; não as estorveis, porque dos que são como elas é o Reino de Deus. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele. 16E, estreitando-as nos braços, abençoava-as, im­pondo-lhes as mãos.

Comentário

1-12. O enquadramento em que se situa a cena é freqüente no Evangelho. A atitude mal-intencionada 1-12. O enquadramento em que se situa a cena é freqüente no Evangelho. A atitude mal-intencionada dos fariseus contrasta com a simplicidade da multidão que escuta com atenção os ensinamentos de Jesus. A pergunta dos fariseus pretendia armar-Lhe uma cilada, enfrentando Jesus com a Lei de Moisés. Mas Jesus Cristo, Messias e Filho de Deus, é o que conhece perfeitamente o sentido de tal Lei. Moisés tinha permitido o divórcio condescendendo com a dureza daquele antigo povo: a condição da mulher era ignominiosa naquelas tribos bárbaras — era considerada quase um animal ou um escravo — e por isso Moisés protege contra estes abusos a dignidade da mulher, conseguindo o avanço social de um documento que a tutelava (o libelo de repúdio). Era este um escrito pelo qual o marido declarava a rejeição e, portanto, a liberdade da mulher repudiada. Jesus devolve à sua pureza original a dignidade do homem e da mulher no matrimônio, segundo o instituirá Deus no prin­cípio da criação: «Deixará o homem seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher e serão uma só carne» (Gen 2,24). Por isso Deus estabeleceu no princípio a unidade e a indissolubilidade do matrimônio. O Magistério da Igreja, único intérprete autorizado do Evangelho e da lei natural, guar­dou e defendeu constantemente esta doutrina (pense-se, por exemplo, nos casos da história, quando se negou a admitir o divórcio de Henrique VIII de Inglaterra), e ensinou-a solene­mente em inumeráveis documentos (Pró Armeniis; De Sacram. matr.; Casti connubii; Gaudium et spes, n. 48).

Um bom resumo desta doutrina são as seguintes pala­vras: «A indissolubilidade do matrimônio não é um capricho da Igreja e nem sequer uma mera lei positiva eclesiástica. É de lei natural, de direito divino, e responde perfeitamente à nossa natureza e à ordem sobrenatural da graça» (Temas Actuais do Cristianismo, n.° 97). Cfr a nota a Mt 5,31-32.

5-9. O cristão não se deve deixar impressionar, no momento de recordar o valor perene e universal desta doutrina, pelas dificuldades ou inclusive as mofas que possa encontrar no ambiente. «É dever fundamental da Igreja reafirmar vigorosamente (…) a doutrina da indissolubilidade do matrimônio. A quantos, nos nossos dias, consideram difícil ou mesmo impossível ligar-se a uma pessoa por toda a vida, a quantos, subvertidos por uma cultura que rejeita a indissolubilidade matrimonial e que ridiculariza aberta­mente o compromisso de fidelidade dos esposos, é neces­sário reafirmar o alegre anúncio do caracter definitivo do amor conjugai, que encontra em Jesus Cristo o seu funda­mento e a sua força (cfr Eph 5,25).

«Enraizada na doação pessoal e total dos esposos e exigida pelo bem dos filhos, a indissolubilidade do matri­mônio encontra a sua verdade definitiva no desígnio que Deus manifestou na Revelação. É Ele que quer e concede a indissolubilidade matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente fiel que Deus Pai tem pelo homem e que Cristo manifesta para com a Igreja.

«Cristo renova o desígnio primitivo que o Criador ins­creveu no coração do homem e da mulher, e, na celebração do sacramento do matrimônio, oferece-lhes um ‘coração novo’. Assim os esposos podem não só superar a ‘dureza do coração’ (cfr Mt 19,8), mas também e sobretudo podem partilhar o amor pleno e definitivo de Cristo, nova e eterna Aliança feita carne. Assim como o Senhor Jesus é a ‘teste­munha fiel’ (Apc 3,14), é o ‘sim’ das promessas de Deus (cfr 2 Cor 1,20) e, portanto, a realização suprema da fidelidade incondicional com que Deus ama o Seu povo, da mesma forma os esposos cristãos são chamados a uma participação real na indissolubilidade irrevogável, que liga Cristo à Igreja, Sua esposa, por Ele amada até ao fim (cfr Ioh13,1) (…). «Testemunhar o valor inestimável da indissolubilidade e da fidelidade matrimonial é uma das tarefas mais pre­ciosas e mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo» (Familiaris consortio, n. 20).

13-16. O relato evangélico reflecte uma espontaneidade e uma vivacidade que enamora o leitor e que se pode relacionar com a figura de São Pedro, a quem Marcos o teria ouvido contar. É uma das poucas ocasiões em que se diz nos Santos Evangelhos que Cristo Se indignou. A causa foi a intolerância dos discípulos, que consideravam inoportuna a pretensão daqueles que apresentavam as crianças para que o Senhor as abençoasse, como uma perda de tempo e uma circunstância aborrecida para o Mestre: Cristo tem coisas mais graves em que pensar para Se ocupar destas crianças, talvez tenham podido pensar. O comportamento dos discí­pulos não é mal-intencionado; simplesmente deixam-se levar por critérios humanos, querendo evitar um aborre­cimento ao Senhor. Não penetraram no que lhes disse pouco antes: «Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou» (Mc 9,37).

Por outro lado, o Senhor põe em realce com toda a clareza a necessidade que tem o cristão de se tornar como uma criança para entrar no Reino dos Céus: «Para ser pequeno é preciso crer como os meninos crêem, amar como os meninos amam, abandonar-se como os meninos se aban­donam…, rezar como os meninos rezam» (Santo Rosário, Prólogo). Em última análise, as palavras do Senhor são outra maneira, simples e gráfica, de explicar a doutrina essencial da filiação divina: Deus é nosso Pai e nós Seus filhos; toda a religião se resume na relação de um bom filho com um bom Pai. Esse espírito de filiação divina tem com qualidades: o sentido da dependência do nosso Pai do Céu e o abandono confiante na Sua providência amorosa, do mesmo modo que uma criança confia no seu pai; a humildade de reconhecer que por nós nada podemos; a simplicidade e a| sinceridade, que nos levam a mostrar-nos tal como somos.