In Evangelho do dia

Dia 28 de junho

Mt 8, 18-22

18Vendo Jesus grandes multidões de povo à volta de Si, mandou ir para o lado de lá. 19E, aproximando-se um escriba disse-lhe: Mestre, seguir-Te-ei para onde quer que fores. 20Disse-lhe Jesus: As raposas têm covas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 21Outro de entre os discípulos disse-Lhe: Senhor, dá-me primeiro licença de ir sepultar meu pai. 22Jesus, porém, disse-lhe: Segue-Me e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.

Comentário

18-22. Desde os começos da Sua pregação messiânica, Jesus mal permanece num mesmo lugar; vai sempre a caminho, passando. “Não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Quem quiser estar com Ele tem de “O seguir”. A expressão “seguir Jesus” adquire no Novo Testamento um alcance preciso: seguir Jesus é ser Seu discípulo (cfr Mt 19, 28). Ocasionalmente as multidões “seguem-nO”. Mas os verdadeiros discípulos são “os que O seguem” de modo permanente, sempre; de tal modo que existe uma equivalência entre “ser discípulo de Jesus” e “segui-Lo”. Depois da Ascensão do Senhor, “segui-Lo” identifica-se com ser cristão (cfr Act 8, 26). Pelo facto simples e sublime do nosso Baptismo, todo o cristão é chamado, com vocação divina, a ser plenamente discípulo do Senhor com todas as suas conseqüências.

O Evangelista recolhe aqui dois casos concretos de seguimento de Jesus. No primeiro – o do escriba -, Nosso Senhor explica as exigências do chamamento à fé àqueles que descobrem que são chamados. No segundo – o do homem que já disse sim a Jesus – recorda-lhe as exigências do seu compromisso. O soldado que não abandona o seu posto na frente de batalha para enterrar o pai, deixando esse trabalho para os da retaguarda, cumpre o seu dever. Se o serviço da pátria pode ter tais exigências, com maior razão pode tê-las o serviço a Jesus Cristo e á sua Igreja.

O seguimento de Cristo, com efeito, leva consigo uma disponibilidade rendida, uma entrega imediata do que Jesus pede, porque essa chamada é um seguir Cristo ao ritmo do Seu próprio passo, que não admite ficar para trás: Jesus ou se segue, ou se perde. Em que consiste o seguimento de Cristo, ensinou-o Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5-7), e é-nos resumido pelos catecismos mais elementares da doutrina cristã: cristão quer dizer homem que crê em Jesus Cristo – fé que recebeu no Baptismo – e que está obrigado ao Seu santo serviço. Cada cristão deve procurar, na oração e intimidade com o Senhor, quais sãos as exigências pessoais e concretas da sua vocação cristã.

20. “Filho do Homem”: É uma das expressões para designar o Messias no Antigo Testamento. Este título aparece pela primeira vez em Dan 7, 14 e era utilizado na literatura judaica do tempo de Jesus. Até a pregação do Senhor não tinha sido entendido em toda a sua profundidade. O título de “Filho do Homem” estava menos comprometido com as aspirações judaicas de um Messias terreno; por esta causa foi preferido por Jesus para Se designar a Si mesmo como Messias, sem reavivar o nacionalismo hebraico. De tal título messiânico, que na mencionada profecia de Daniel reveste um carácter transcendente, se servia o Senhor para proclamar de um modo discreto o Seu messianismo prevenindo falsas interpretações políticas. Os Apóstolos, depois da Ressurreição de Jesus, compreenderam que “Filho do Homem” equivalia precisamente a “Filho de Deus”.

22. “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos”: Esta frase, à primeira vista tão dura, corresponde à linguagem que por vezes empregava Jesus. Nessa linguagem entende-se bem que sejam chamados “mortos” os que procuram com afã as coisas perecedouras, excluindo do seu horizonte a aspiração pelas perenes.

“Se Jesus o proibiu – comenta São João Crisóstomo -, não é porque nos mande descurar a honra devida àqueles que nos geraram, mas para nos dar a entender que nada há-de haver para nós mais necessário que procurar as coisas do Céu, que a elas nos havemos de entregar com todo o fervor e que nem por um momento podemos diferi-las, por mais iniludível e urgente que seja o que poderia afastar-nos delas” (Hom. sobre S. Mateus, 27).

Dia 29 de junho

Mt 8, 23-27

23Subindo depois para a barca, seguiram-No os discípulos. 24E eis que se levantou no mar uma tempestade tão violenta, que as ondas cobriam a barca. Ele, entretanto, dormia. 25Chegaram-se os discípulos e despertaram-No, dizendo: Senhor, salva-nos, que estamos perdidos! 26Disse-lhes Ele: Porque estais com medo, homens de pouca fé? Então ergueu-Se, imperou aos ventos e ao mar e fez-se uma grande bonança. 27Ficaram os homens assombrados e diziam: Quem é Este, que até os ventos e o mar Lhe obedecem?

Comentário

23-27. Este notável milagre da vida de Jesus deve ter deixado profunda impressão nos Seus discípulos, do que pode ser índice o facto de os três primeiros Evangelhos no-lo relatarem. A Tradição, partindo da realidade histórica deste maravilhoso acontecimento, fez algumas aplicações à própria vida da Igreja, e até mesmo de cada alma. Desde tempos antigos a literatura e a arte cristã viram na barca uma imagem da Igreja que, de modo semelhante, faz a sua travessia no meio de grandes perigos, que parecem que vão afundá-la. Com efeito, bem depressa os cristãos se viram assediados pelas perseguições dos judeus daquele tempo, e incompreendidos pela opinião pública da sociedade pagã que, de modo paulatino, iniciava as suas futuras perseguições. O facto de que Jesus tivesse permanecido adormecido no meio da tempestade tem sido aplicado a esse silêncio em que Deus, por vezes, parece permanecer perante as dificuldades da Igreja. Os cristãos, seguindo o exemplo dos Apóstolos que iam na barca, devem recorrer a Jesus Cristo com as mesmas palavras: “Senhor, salva-nos, que estamos perdidos”. E quando a situação parece insustentável, então Jesus mostra o Seu poder: “Ergueu-se, imperou aos ventos e ao mar e fez-se uma grande bonança”, não sem antes nos ter feito a censura de termos sido homens de pouca fé. E é que a história evangélica tem muitas vezes um valor exemplar, de aplicação à vida, e de pré-anúncio da futura história da Igreja e de cada alma cristã.

Dia 30 de junho

Mt 8, 28-34

28Chegado ao lado de lá, ao país dos Gadarenos, vieram-Lhe ao encontro dois possessos, saídos dos sepulcros, e tão furiosos, que ninguém se arriscava a passar por aquele caminho. 29Os quais em alta voz diziam: Que tens que ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo? 30Ora, a certa distância deles, andava uma grande vara de porcos a pastar, 31e os Demónios suplicaram: Se nos expulsas, manda-nos para estes porcos. 32Disse-lhes Ele: Ide! Eles saíram e foram-se para os porcos. E logo toda a vara se despenhou do precipício no mar e se afogou nas águas. 33Os guardadores fugiram e, chegando à cidade, contaram tudo e também o caso dos possessos. 34E eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, apenas O viram, pediram-Lhe que Se retirasse do seu termo.

Comentário

28. A maioria dos códices gregos e a Neo-vulgata dizem gadarenos; a Vulgata, porém, e os textos paralelos de Mc e Lc transcrevem gerasenos. Ambos os nomes são possíveis, pois dependem respectivamente das duas cidades, Gerasa e Gádara, as mais importantes desta zona. O acontecimento pode ter-se dado nos limites entre ambas, um tanto imprecisos, embora a precipitação dos porcos no lago ou mar da Galileia dê alguma maior possibilidade a Gádara. Gergesenos procede de uma conjectura de Orígenes.

28-34. Neste episódio Jesus Cristo mostra o Seu poder, uma vez mais, sobre o demónio e as forças diabólicas. Que o facto suceda em terra de gentios (Gerasa e Gádara estavam na Decápole, a Este do Jordão), fica atestado porque entre os Judeus era proibida a criação de porcos, declarados impuros segundo a Lei de Moisés. Esta expulsão de demónios, e outras mais que nos narram os evangelistas, vêm resumidas no livro dos Actos dos Apóstolos, no discurso de São Pedro diante de Cornélio e da sua família: “Passou fazendo o bem e curando todos os que tinham caído sob o poder do diabo” (Act 10,38). É uma prova de que o Reino de Deus começou (cfr Mt 12, 28).

A atitude dos habitantes da cidade perante o milagre recorda-nos que o encontro com Deus e a vida cristã exigem a subordinação dos planos pessoais aos planos divinos. Uma atitude egoísta ou materialista fecha o horizonte dos bens eternos. Por este caminho podemos expulsar Deus da nossa vida, como o expulsaram da sua terra os habitantes de Gerasa.

Dia 1º de julho

Mt 9, 1-8

1E Ele, subindo para uma barca, refez a travessia e voltou para a Sua cidade. 2Senão quando, apresentaram-Lhe um paralítico estendido num leito. Vendo Jesus a sua fé, disse ao paralítico: Tem confiança, filho, os teus pecados estão perdoados. 3Pelo que alguns Escribas disseram de si para consigo: Este blasfema. 4Jesus, que lhes via os pensamentos, disse: Para que pensais mal em vossos corações? 5Qual é mais fácil, dizer: “os teus pecados estão perdoados “, ou dizer: “levanta-te e anda”? 6Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder para perdoar pecados, – aqui diz ao paralítico: levanta-te! toma o teu leito e vai para tua casa. 7Ele levantou-se e foi para casa. 8Vendo isto, a multidão, cheia de temor, glorificou a Deus, que deu tal poder aos homens.

Comentário

1. Como se pode ver por Mt 4, 13 e Mc 2, l, trata-se de Cafarnaum.

2-6. O doente e os que o levam pedem a Jesus a cura do corpo, movidos pela fé nos Seus poderes sobrenaturais. Nosso Senhor, como noutros milagres, interessa-se mais pelo remédio das causas profundas do mal, isto é, o pecado. Na Sua grandeza divina, dá mais do que Lhe é pedido, ainda que a limitação humana não o saiba apreciar. Diz São Tomás que Jesus Cristo faz como o bom médico: cura a causa da doença (cfr Comentário sobre S. Mateus, 9,1-6).

2. A leitura do passo paralelo de São Marcos conservou-nos um pormenor que nos ajuda a entender melhor a cena e que, em concreto, explica a expressão “a sua fé”: em Mc 2, 2-5 conta-se-nos que foi tanta a aglomeração de gente à volta de Jesus, que não podiam aproximar-se d’Ele com a enxerga do paralítico. Perante isto, tiveram a feliz ideia de subir ao alto da casa e dependurar a enxerga com o paralítico, abrindo um buraco pelo tecto leve, diante donde estava Jesus. Assim se explica a frase “vendo Jesus a sua fé”.

O Senhor fica gratamente impressionado por tal audácia, fruto de uma fé operativa que não se detém perante os obstáculos. Por sua vez, esta simpática ousadia ilustra o modo prático de viver a caridade e como Jesus Se sente inclinado para aqueles que se preocupam sinceramente com os outros; curou o paralítico por ocasião da intrepidez dos seus amigos e parentes, da qual também participava o próprio doente, que não teve medo nesta acção arriscada.

São Tomás comenta assim o versículo: “Este simboliza o pecador que jaz no pecado; assim como o paralítico não se pode mover, também o pecador não pode valer-se por si mesmo. Os que levam o paralítico representam os que com os seus conselhos conduzem o pecador para Deus” (Comentário sobre S. Mateus, 9,2). Para aproximar-se de Jesus é necessário também ser santamente audazes e atrevidos, como vemos que o foram os santos. O que não actua assim nunca tomará decisões importantes na sua vida de cristão.

3-7. Aqui “dizer” significa evidentemente “dizer com verdade”, “dizer eficazmente, realizando o que se expressa”. 0 Senhor argumenta desta forma: Qual destas duas coisas é mais fácil, sarar o corpo de um paralítico, ou perdoar os pecados da alma? Não há dúvida que curar um paralítico; pois a alma é mais excelente que o corpo e por isso as doenças daquela são mais difíceis de curar que as deste. Não obstante, a cura da alma é uma coisa oculta, enquanto a do corpo é visível e patente. Jesus demonstra a verdade do que está oculto pelo que aparece manifesto.

Por outro lado, os judeus pensavam que todas as doenças eram efeito de pecados pessoais (cfr Ioh 9, l-3); assim quando ouviram dizer ao Senhor “os teus pecados estão perdoados”, faziam internamente este raciocínio: só Deus pode perdoar os pecados (cfr Lc 5, 21); este homem diz que tem poder para os perdoar; logo está a usurpar a Deus um poder que é exclusivamente Seu; portanto é um blasfemo. Mas o Senhor sai-lhes ao encontro partindo dos seus próprios princípios: ao curar o paralítico só com a Sua palavra faz-lhes ver que, visto que tem poder para curar os efeitos do pecado – segundo eles julgavam -, tem também poder para curara causa, isto é, o pecado; por conseguinte tem poder divino.

Jesus Cristo transmitiu o poder de perdoar os pecados aos Apóstolos e aos seus sucessores no ministério sacerdotal: “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Ioh 20, 22-23). “Garanto-vos que tudo o que ligardes na terra ficará ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra, ficará desligado no Céu” (Mt 18, 18). Os sacerdotes exercem o poder do perdão dos pecados no sacramento da Penitência não em virtude própria, mas em nome de Cristo – in persona Christi – como instrumentos nas mãos do Senhor.

Daqui o respeito, veneração e agradecimento com que devemos aproximar-nos da Confissão: no sacerdote devemos ver o próprio Cristo, Deus, e receber as palavras da absolvição com a fé firme de que é o próprio Cristo quem as diz pela boca do sacerdote. Por esta razão, o ministro não diz: “Cristo te absolva…”, mas “eu te absolvo dos teus pecados…”, na primeira pessoa, numa identificação plena com o próprio Jesus Cristo (cfr Catecismo Romano, II, 5,10).

Dia 2 de julho

Mt 9, 9-13

9Seguindo Jesus dali, viu sentado ao telónio um homem chamado Mateus e disse-lhe: Segue-Me. E ele levantou-se e seguiu-O.

10Ora, sucedeu que, estando à mesa em sua casa, vieram muitos publicanos e pecadores pôr-se à mesa com Jesus e Seus discípulos. 11Ao verem isto os Fariseus, diziam aos discípulos: Porque é que o vosso Mestre come com os publicanos e pecadores? 12Mas Ele, que os ouviu, disse: Não precisam de médico os que têm boa saúde, mas os doentes.

13Ide, pois, aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifício, porque não vim Eu chamar os justos, mas os pecadores.

Comentário

9. “Telónio”: Posto público para o pagamento de tributos. Acerca do “seguir Jesus” veja-se a nota a Mt 8,18-22.

Este Mateus, a quem Jesus chama, é o apóstolo do mesmo nome e autor humano do primeiro Evangelho. É o mesmo que em Mc 2,14 e em Lc 5,27 é chamado Levi o de Alfeu ou simplesmente Levi.

Deus é quem chama. Para seguir Jesus de modo permanente não basta a própria determinação do homem, mas requer-se, absolutamente, o chamamento individual por parte do Senhor; isto é, a graça da vocação (cfr Mt 4,19-21; Mc 1, 17-20; Ioh 1, 39; etc.). Esse chamamento implica a prévia escolha divina. Por outras palavras, não é o homem quem toma a iniciativa; pelo contrário, é Jesus quem chama primeiro e o homem corresponde a esse chamamento com a sua livre decisão pessoal: “Não fostes vós que Me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi a vós” (Ioh 15,16).

Deve pôr-se em relevo a prontidão com que Mateus “segue” o chamamento de Jesus. Diante da voz de Deus pode entrar na alma a tentação de responder: “Amanhã, ainda não estou preparado”. No fundo esta e outras razões não são mais que egoísmo e medo, além de que o medo pode ser um sintoma mais do chamamento (cfr Ioh 1). Amanhã corre-se o risco de ser demasiado tarde.

Como o dos outros apóstolos, o chamamento de São Mateus dá-se no meio das circunstâncias normais da sua vida:

“- Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão?

Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos…

E – assombra-te! – Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos” (Caminho, n.° 799).

10-11. A mentalidade desses fariseus, tão inclinada a julgar os outros e classificar facilmente como justos e pecadores, não concorda com a atitude e ensinamentos de Jesus. Já tinha dito: “Não julgueis e não sereis julgados” (Mt 7, 1), e acrescentou ainda: “Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe urna pedra” (Ioh 8, 7). A realidade é que todos os homens são pecadores e o Senhor veio para remir a todos. Não há, pois, razão para que se dê entre os cristãos o escandalizar-se pelos pecados de outros, visto que qualquer de nós é capaz de cometer as maiores vilezas se não for assistido pela graça de Deus.

12. Ninguém deve desanimar ao ver-se cheio de misérias: reconhecer-se pecador é a única atitude justa diante de Deus. Ele veio buscar a todos, mas o que se considera justo, por esse mesmo facto, está a fechar as portas a Deus, porque na realidade todos somos pecadores.

13. A frase de Jesus, tomada de Os 6, 6, conserva a expressão hiperbólica do estilo semítico. Uma tradução mais fiel ao sentido seria: “quero mais misericórdia que sacrifício” . Não é que o Senhor não queira os sacrifícios que Lhe são oferecidos, mas insiste em que estes hão-de ir sempre acompanhados pela bondade do coração, visto que a caridade há-de informar toda a actividade do cristão e com maior razão o culto a Deus (vid. l Cor 13,1-13; Mt 5, 23-24).

Dia 3 de julho (São Tomé)

Jo 20, 24-29

24Ora Tomé, um dos doze, a quem chamavam Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Diziam-lhe os outros discípulos: Vimos o Senhor! Ele, porém, respondeu-lhes: Se não Lhe vir nas mãos a marca dos cravos, se não chegar com o dedo ao sítio dos ‘cravos e levar a mão ao Seu lado, não acreditarei. 26Oito dias depois, estavam os discípulos novamente lá dentro, e Tomé com eles. Veio Jesus, com as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: A paz seja convosco! 27A seguir, disse a Tomé: Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima a tua mão e chega com ela ao Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. 28Respondeu-Lhe Tomé, dizendo: Meu Senhor e meu Deus! 29Jesus replicou-lhe: Porque Me viste acreditaste? Felizes os que, sem terem visto, acreditam!

Comentário

24-28. A dúvida do Apóstolo Tomé leva o Senhor a dar-lhe uma prova especial da realidade do Seu corpo ressuscitado. Assim confirma, ao mesmo tempo, a fé daqueles que mais tarde haviam de crer n’Ele. “Será que pensais – comenta São Gregório Magno – que aconteceu por pura casualidade que estivesse ausente então aquele discípulo escolhido, que ao voltar ouvisse relatar a aparição, e que ao ouvir duvidasse, duvidando palpasse e palpando cresse? Não foi por casualidade, mas por disposição de Deus. A divina clemência actuou de modo admirável para que tocando o discípulo duvidador as feridas da carne no seu Mestre, sarasse em nós as feridas da incredulidade (…). Assim o discípulo, duvidando e palpando, converteu-se em testemunha da verdadeira ressurreição” (In Evangelia homiliae, 26,7).

A resposta de Tomé não é uma simples exclamação, é uma afirmação: um maravilhoso acto de fé na Divindade de Jesus Cristo: “Meu Senhor e meu Deus!”. Estas palavras constituem uma jaculatória que repetiram com frequência os cristãos, especialmente como acto de fé na presença real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia.

29. O mesmo São Gregório Magno explica estas palavras do Senhor: “São Paulo ao dizer que ‘a fé é o fundamento das coisas que se esperam e uma convicção das que não se vêem’ (Heb 11,1), torna evidente que a fé versa sobre as coisas que não se vêem, pois as que se vêem já não são objecto da fé, mas da experiência. Ora bem, porque é dito a Tomé quando viu e tocou: Porque viste, acreditaste? Porque uma coisa é o que se viu e outra o que se creu. É certo que o homem mortal não pode ver a divindade; portanto, ele viu o Homem e reconheceu-O como Deus, dizendo: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Em conclusão, vendo creu, porque contemplando atentamente este homem verdadeiro exclamou que era Deus, a quem não podia ver” (In Evangelia homiliae, 27,8).

Tomé, como todos os homens, necessitou da graça de Deus para crer, mas, além disso, recebeu uma prova singular; teria sido mais meritória a sua fé se tivesse aceitado o testemunho dos Apóstolos. As verdades reveladas transmitem-se normalmente pela palavra, pelo testemunho de outros homens que, enviados por Cristo e assistidos pelo Espírito Santo, pregam o depósito da fé (cfr Mc 16,15-16). “Por conseguinte a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo” (Rom 10,17). A pregação, pois, do Evangelho tem as garantias suficientes de credibilidade, e o homem ao aceitá-lo “oferece a Deus a homenagem total da sua inteligência e da sua vontade prestando voluntário assentimento à Sua revelação” (Dei Verbum, n. 5).

“Alegra-nos muito o que se segue: ‘Bem-aventurados os que sem ter visto creram’. Sentença na qual, sem dúvida, estamos assinalados nós, que confessamos com a alma o que não vimos na carne. Alude-se a nós, desde que vivamos de acordo com a fé; porque só crê de verdade aquele que pratica o que crê” (In Evangelia homiliae, 26,9).

Dia 4 de julho

Mt 16-13-19

13Em seguida, foi Jesus para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos discípulos: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? 14Responderam-Lhe: Uns, João Baptista: outros, Elias; outros, Jeremias ou algum dos profetas. 15Disse-lhes Jesus: E quem dizeis vós que Eu sou? 16Respondeu Simão Pedro, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. 17E Jesus, respondendo-lhe, disse: Bem-aventurado és tu, Simão, Barjona, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas Meu Pai que está nos Céus. 18E Eu digo-te a ti que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na terra, será ligado nos Céus; e tudo o que desligares na terra, será desligado nos Céus.

Comentário

13-20. Neste passo promete-se a São Pedro o Primado sobre toda a Igreja. Primado que Jesus lhe conferirá, depois da Sua Ressurreição, segundo nos relata o Evangelho de São João (cfr Ioh 21, 15-18). Os poderes supremos são dados a Pedro para bem da Igreja. Como esta há-de durar até ao fim dos tempos, esses poderes transmitir-se-ão àqueles que sucedam a Pedro ao longo da história. O Romano Pontífice é em concreto o sucessor de São Pedro.

A doutrina sobre o Primado de Pedro e dos seus sucessores foi definida como dogma de fé pelo Magistério solene da Igreja no Concílio Vaticano I, nos seguintes termos: “Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de jurisdição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido, imediata e directamente, ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor. Porque só a Simão – a quem já antes tinha dito: ‘Tu chamar-te-ás Cefas’ (Ioh l, 42) -, depois de pronunciar a sua confissão: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’, se dirigiu o Senhor com estas solenes palavras: ‘Bem-aventurado és, Simão filho de João, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas Meu Pai que está nos Céus. E Eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na terra ficará ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra, ficará desligado nos Céus’ (Mt 16, 16 ss.). E só a Simão Pedro conferiu Jesus, depois da Sua Ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros. Apascenta as Minhas ovelhas’ (Ioh 21, 15 ss.)… (Cânon). Se alguém disser que o bem-aventurado Pedro Apóstolo não foi constituído por Cristo Senhor príncipe de todos os Apóstolos e cabeça visível de toda a Igreja militante, ou que recebeu directa e imediatamente do próprio Jesus Cristo Senhor Nosso somente o primado de honra, mas não de verdadeira e própria jurisdição, seja anátema”.

Ora bem, “o que Cristo Senhor, príncipe dos pastores e grão pastor das ovelhas, instituiu no bem-aventurado Apóstolo Pedro para perpétua salvação e bem perene da Igreja, é mister que dure perpetuamente por obra do mesmo Senhor na Igreja que, fundada sobre a pedra, tem de permanecer firme até a consumação dos séculos. ‘Para ninguém, na verdade, é duvidoso, antes, para todos os séculos é notório, que o santo e beatíssimo Pedro, príncipe e cabeça dos Apóstolos, coluna da fé e fundamento da Igreja Católica, recebeu as chaves do Reino das mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano; e até ao tempo presente e sempre continua a viver, preside e exerce o juízo nos seus sucessores’ (cfr Concílio de Éfeso), os bispos da Santa Sé Romana, por ele fundada e pelo seu sangue consagrada. Donde se segue que seja quem for o que sucede a Pedro nesta cátedra, esse, segundo a instituição do próprio Cristo, obtém o Primado de Pedro sobre a Igreja universal…

“Por esta causa, foi sempre necessário que a esta Igreja Romana, ‘pela sua mais poderosa principalidade, se unisse toda a Igreja, isto é, quantos fiéis há, de onde quer que sejam’…

“(Cânon.) Se alguém disser que não é de instituição do próprio Cristo, isto é, de direito divino, que o bem-aventurado Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre a lgreja universal; ou que o Romano Pontífice não é sucessor do bem-aventurado Pedro no mesmo primado, seja anátema.

“… Julgamos que é absolutamente necessário afirmar solenemente a prerrogativa que o Unigênito Filho de Deus se dignou juntar com o supremo dever pastoral.

“Assim, pois, Nós, seguindo a tradição recolhida fielmente desde o princípio da fé cristã, para glória de Deus Salvador Nosso, para exaltação da fé católica e salvação dos povos cristãos, com aprovação do sagrado concílio, ensinamos e definimos ser dogma divinamente revelado: Que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra – isto é, quando cumprindo o seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define pela sua suprema autoridade apostólica que uma doutrina sobre a fé e costumes deve ser definida pela Igreja universal -, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que estivesse provista a Sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes; e, por isso, que as definições do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas e não pelo consentimento da Igreja.

“(Cânon.) E se alguém tivesse a ousadia, o que Deus não permita, de contradizer essa definição nossa, seja anátema” (Pastor aeternus, caps 1, 2 e 4).

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