dia 28 a 31 de dezembro de 2009

Dia 28 de dezembro

Mt 2, 13-18

l3Partidos que foram, eis que um anjo do Senhor aparece em sonhos a José e diz-lhe: Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e foge para o Egipto, e fica lá, até eu te avisar, porque Herodes vai procurar o Menino para O matar.

14Ele levantou-se, tomou, de noite, o Menino e Sua Mãe e retirou-se para o Egipto, 15onde ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: «Do Egipto chamei o meu Filho».

I6Então Herodes, ao ver-se iludido pelos Magos, enfureceu-se em extremo e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e todo o seu termo, de dois anos para baixo, segundo o tempo que tinha averiguado dos Magos. 17Cumpriu-se então a palavra do profeta Jeremias, que disse: porque Herodes vai procurar o Menino para O matar.

14Ele levantou-se, tomou, de noite, o Menino e Sua Mãe e retirou-se para o Egipto, 15onde ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: «Do Egipto chamei o meu Filho».

I6Então Herodes, ao ver-se iludido pelos Magos, enfureceu-se em extremo e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e todo o seu termo, de dois anos para baixo, segundo o tempo que tinha averiguado dos Magos. 17Cumpriu-se então a palavra do profeta Jeremias, que disse: I8« — Ouviu-se uma voz em Ramá, Choro e pranto grande: É Raquel a chorar seus filhos, inconsolável, porque já não existem.»

Comentário

14. São João Crisóstomo, a propósito deste passo, sub­linha a fidelidade e obediência de José: «Ao ouvir isto, José não se escandalizou nem disse: isto parece um enigma. Tu mesmo dizias-me não há muito que Ele salvaria o Seu povo, e agora não é capaz nem sequer de Se salvar a Si mesmo, mas temos necessidade de fugir, de empreender uma viagem, uma longa deslocaçáo… Mas nada disto diz, porque José é um varão fiel. Tão-pouco pergunta pelo tempo do regresso, apesar de o anjo O ter deixado indeterminado, pois lhe tinha dito: E está ali até que eu te diga. Não obstante, nem por isso ficou paralisado, mas obedece e crê e suporta todas as provas com.alegria» (Hom.sobre S. Mateus, 8).

É de notar também o ‘claro-escuro’ da acção de Deus relativamente aos eleitos: juntamente com as maiores alegrias hão-de suportar sofrimentos intensos. «É bem verdade que Deus, amigo dos homens, misturava trabalhos e doçuras, estilo que segue com todos os santos. Nem os perigos nem as consolações no-las dá contínuos, mas de uns e de outros vai entretecendo a vida dos justos. Assim fez com José» (Ibidem).

15. O texto de Oseias 11,1 fala de um menino que sai do Egipto e que é filho de Deus. Refere-se em primeiro lugar ao povo de Israel, que Deus tirou do Egipto por meio de Moisés. Mas esse acontecimento era uma figura de Jesus, cabeça do novo Povo de Deus, que é a Igreja. Nele se Cumpre princi­palmente esta profecia. O texto sagrado apresenta uma citação do Antigo Testamento à luz da sua plenitude, Jesus Cristo. O Antigo Testamento tem o seu sentido pleno em Cristo e, segundo São Paulo, lê-lo sem ter em conta Jesus é ter os olhos cobertos com um véu (cfr. 2 Cor 3,12-18).

16-17. Sobre a figura de Herodes cfr nota a Mt 2, l.

Deus permite a maldade e crueldade de Herodes, que procura dar a morte ao Menino ao mesmo tempo que no seu agir cruel se cumpre a profecia de ler 31, 15. A Igreja viu nestes meninos os primeiros mártires que dão a sua vida por Cristo. O martírio justificou-os e operou neles a mesma graça que confere o Baptismo: é o Baptismo de sangue.

São Tomás comenta o passo deste modo: «Visto que não podiam fazer uso da sua liberdade, como se pode dizer que morreram por Cristo? (…) Deus não teria permitido esse morticínio se não tivesse sido útil para aqueles meninos. Santo Agostinho diz que duvidar de que tal morticínio foi útil para esses meninos é o mesmo que duvidar de que o Baptismo seja útil para as crianças. Pois os inocentes sofreram como mártires e confessaram Cristo — non loquendo, séd moriendo — não falando, mas morrendo» (Comentário sobre S. Mateus, 2,16).

18. Rama foi a cidade em que Nabucodonosor, rei da Babilônia, reuniu os prisioneiros israelitas. Por estar situada na tribo de Benjamim, Jeremias põe na boca de Raquel, mãe de Benjamim e José, as lamentações pelos filhos de Israel.

A magnitude da desgraça dos desterrados para a Babi­lônia era tal, que Jeremias exprime poeticamente que a dor de Raquel é demasiado grande para aceitar consolação.

«Quando morreu Raquel foi enterrada no hipódromo próximo de Belém. Como o sepulcro estava próximo e a herdade pertencia a seu filho Benjamim — Rama era da tribo de Benjamim —, pelo cabeça da tribo e pelo lugar do sepulcro, pôde razoavelmente chamar filhos de Raquel aos meninos degolados em Belém» (Hom. sobre S. Mateus, 9).

Dia 29 de dezembro

Lc 2, 22-35

22Quando chegaram os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-No a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, 23conforme está escrito na Lei do Senhor, que todo o primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor, 24e para oferecerem em sacrifício, segundo o que se diz na lei, um par de rolas ou duas pombinhas.

25Vivia então em Jerusalém um homem chamado Simeão; esse homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26Revelara-lhe o Espírito Santo que não veria a morte antes de ter visto o Messias do Senhor; 27e veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o Menino Jesus, a fim de procederem conforme o uso da Lei que Lhe dizia respeito, 28ele recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, exclamando:

29“Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo

em paz segundo a Tua palavra,

30porque viram os meus olhos a Salvação

31que preparaste ao alcance de todos os povos:

32luz para se revelar aos pagãos

e glória de Israel, Teu povo”.

33Seu pai e Sua mãe estavam admirados com as coisas que d’Ele se diziam. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: Olha que Ele está aqui para a queda e o ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição – 35uma espada te há-de traspassar a tua própria alma – a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espíritos.

Comentário

22-24. A Sagrada família sobe a Jerusalém com o fim de dar cumprimento a duas prescrições da Lei de Moisés: purificação da mãe, e apresentação e resgate do primogênito. Segundo Lev 12,2-8, a mulher ao dar à luz ficava impura. A mãe de filho varão aos quarenta dias do nascimento terminava o tempo de impureza legal com o rito da purificação. Maria Santíssima, sempre virgem, de facto não estava compreendida nestes preceitos da Lei porque nem tinha concebido por obra de varão, nem Cristo ao nascer rompeu a integridade virginal de Sua Mãe. Não obstante, Maria Santíssima quis submeter-se à Lei, embora não estivesse obrigada.

“Aprenderás com este exemplo, meu pateta, a cumprir a Santa Lei de Deus, apesar de todos os sacrifícios pessoais?

Purificação! Tu e eu, sim; nós realmente é que precisamos de purificação! – Expiação, e, além da expiação, o Amor. – Um amor que seja cautério, que abrase a sujidade da nossa alma, que incendeie com chamas divinas a miséria do nosso coração” (Santo Rosário, quarto mistério gozoso – São Josemaria Escrivá).

Igualmente, em Ex 13,2.12-13 indica-se que todo o primogénito pertence a Deus e deve ser-Lhe consagrado, isto é, dedicado ao culto divino. Não obstante, desde que este foi reservado à tribo de Levi, aqueles primogênitos que não pertenciam a esta tribo não eram dedicados ao culto e para mostrar que continuavam a ser propriedade especial de Deus, realizava-se o rito do resgate.

A Lei mandava também que os israelitas oferecessem para os sacrifícios uma rês menor, por exemplo, um cordeiro, ou se eram pobres um par de rolas ou dois pombinhos. O Senhor que “sendo rico Se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a Sua pobreza” (2 Cor 8,9), quis que fosse oferecida por Ele a oferenda dos pobres.

25-32. Simeão, qualificado como homem justo e temente a Deus, atento à vontade divina, dirige-se ao Senhor na sua oração como um vassalo ou servidor leal que depois de ter estado vigilante durante toda a sua vida, à espera da vinda do seu Senhor, vê agora por fim chegado esse momento, que deu sentido à sua existência. Ao ter o Menino nos seus braços, conhece não por razão humana mas por graça especial de Deus, que esse Menino é o Messias prometido, a Consolação de Israel, a Luz dos povos.

O cântico de Simeão (vv. 29-32) é, além disso, uma verdadeira profecia. Tem este cântico duas estrofes: a primeira (vv. 29-30) é uma acção de graças a Deus, trespassada de profundo gozo, por ter visto o Messias. A segunda (vv. 31-32) acentua o carácter profético e canta os benefícios divinos que o Messias traz a Israel e a todos os homens. O cântico realça o carácter universal da Redenção de Cristo, anunciada por muitas profecias do AT (cfr Gen 22,18; Is 42,6; Is 60,3; Ps 98,2).

Podemos compreender o gozo singular de Simeão ao considerar que muitos patriarcas, profetas e reis de Israel anelaram ver o Messias e não O viram, e ele, pelo contrário, tem-No nos seus braços (cfr Lc 10,24; 1 Pet 1,10).

33. A Virgem Santíssima e São José admiravam-se não porque desconhecessem o mistério de Cristo, mas pelo modo como Deus o ia revelando. Uma vez mais nos ensinam a saber contemplar os mistérios divinos no nascimento de Cristo.

34-35. Depois de os abençoar, Simeão, movido pelo Espírito Santo, profetiza de novo sobre o futuro do Menino e de Sua Mãe. As palavras de Simeão tornaram-se mais claras para nós ao cumprirem-se na Vida e na Morte do Senhor.

Jesus, que veio para a salvação de todos os homens, não obstante, será sinal de contradição porque alguns obstinar-se-ão em rejeitá-Lo, e para estes Jesus será a sua ruína. Para outros, porém, ao aceitá-Lo com fé, Jesus será a sua salvação, livrando-os do pecado nesta vida e ressuscitando-os para a vida eterna.

As palavras dirigidas à Santíssima Virgem anunciam que Maria teria de estar intimamente unida à obra redentora do seu Filho. A espada de que fala Simeão expressa a participação de Maria nos sofrimentos do Filho; é uma dor inenarrável, que traspassa a alma. O Senhor sofreu na Cruz pelos nossos pecados; também são os pecados de cada um de nós que forjaram a espada de dor da nossa Mãe. Por conseguinte, temos um dever de desagravo não só com Deus, mas também com a Sua Mãe, que é igualmente nossa Mãe. As últimas palavras da profecia, “a fim de se revelarem os pensamentos de muitos espíritos”, enlaçam com o v. 34: na aceitação ou rejeição de Cristo manifesta-se a rectidão ou a perversão dos corações.

Dia 30 de dezembro

Lc 2, 36-40

36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada e tinha vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, 37e viúva, até aos oitenta e quatro. Não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. 38Vindo nessa mesma ocasião, pôs-se a louvar a Deus por sua vez e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39Depois de terem cumprido tudo o que ordenava a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o Menino crescia e robustecia-Se, enchendo-Se de sabedoria, e a graça de Deus estava n’Ele.

Comentário

36-38. O testemunho de Ana é muito parecido ao de Simeão: como este, também ela tinha estado à espera da vinda do Messias durante a sua longa vida, num serviço fiel a Deus; e também é premiada com o gozo de O ver. “Pôs-se a falar”, isto é, do Menino: louvava a Deus em oração pessoal, e exortava os outros a que cressem que aquele Menino era o Messias.

Assim, pois, o nascimento de Cristo manifesta-se por três espécies de testemunhas e de três modo diferentes: primeiro, pelos pastores, depois do anúncio do anjo; segundo, pelos Magos, guiando-os a estrela; terceiro, por Simeão e Ana, movidos pelo Espírito Santo.

Quem, como Simeão e Ana, persevera na piedade e no serviço a Deus, por muito pouca valia que pareça ter a sua vida aos olhos dos homens, converte-se em instrumento apto do Espírito Santo para dar a conhecer Cristo aos outros. Nos Seus planos redentores, Deus vale-Se destas almas simples para conceder muitos bens à humanidade.

39. Antes da volta a Nazaré aconteceram os factos da fuga e permanência no Egipto que São Mateus relata em 2,13-23.

40. “Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto criança, isto é, revestido da fragilidade da natureza humana, devia crescer e fortalecer-Se; mas enquanto Verbo eterno de Deus não necessitava de Se fortalecer nem de crescer. Donde muito bem é descrito cheio de sabedoria e de graça” (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

Dia 31 de dezembro

Jo 1, 1-18

1No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus!

2Ele estava, no princípio, com Deus.

3Tudo, por meio d’Ele, começou a existir e, sem Ele, coisa alguma começou a existir.

4N’Ele, o que existe era Vida e a Vida era a Luz dos homens.

5A Luz brilha nas trevas e as trevas não A dominaram.

6Surgiu um homem enviado de Deus, cujo nome era João.

7Veio como testemunha, para dar testemunho da Luz, a fim de todos crerem por seu intermédio.

8Ele não era a Luz, mas devia dar testemunho da Luz.

9O Verbo era a Luz verdadeira, que a todo o homem ilumina, vindo ao mundo.

10Estava no mundo, e o mundo, por meio d’Ele, começou a existir, mas o mundo não O conheceu.

11Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram.

12Mas a quantos O receberam deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus, a eles que crêem no Seu nome,

13que nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

14E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. E nós vimos a Sua glória, glória como de um Filho único que vem do Pai, cheio de graça e de verdade.

15João dá testemunho d’Ele e clama, nestes termos:

“Era d’Este que eu dizia:

O que vem depois de mim

Passou à minha frente,

porque era antes de mim”.

16E da Sua plenitude

todos nós recebemos,

graça por graça.

17É que a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.

18A Deus ninguém jamais O viu. Um Deus, Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.

Comentário

1-18. Estes versículos constituem o prólogo ou introdução ao quarto Evangelho; são um belo canto que, antes do relato da vida terrena de Jesus Cristo, engrandece e proclama a Sua divindade e eternidade. Jesus é o Verbo Incriado, o Deus Unigénito que assume a nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de ser filhos de Deus, isto é, de participar real e sobrenaturalmente da própria vida divina.

O apóstolo João sublinha particularmente em todo o seu Evangelho a divindade do Senhor: não começou a existir ao fazer-Se homem, mas antes de tomar carne nas entranhas virginais de Maria, antes de todas as criaturas, existia na eternidade divina como Verbo consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo. Esta é a verdade luminosa, graças à qual se podem apreciar as palavras e os factos de Jesus recolhidos ao longo do quarto Evangelho.

São João chega a contemplar a divindade de Jesus Cristo e a exprimi-la como o Verbo de Deus, depois de ter sido testemunha do Seu ministério público e das Suas aparições depois da Ressurreição. Ao pôr este poema como prólogo do Evangelho, o Apóstolo oferece-nos a chave para compreender com profundidade tudo quanto vai escrever a seguir; tem uma função semelhante aos dois primeiros capítulos dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, que nos introduzem na contemplação da vida de Jesus, narrando o nascimento virginal e alguns episódios relevantes da Sua infância, embora se pareça mais, pela sua estrutura e conteúdo, com os passos introdutórios de outros livros do NT, como Col 1,15-20, Eph 1,3-14 e 1 Ioh 1,1-4.

É evidente que o prólogo constitui um grandioso hino a Cristo. Não sabemos se São João o compôs quando escreveu o Evangelho, ou se se serviu de algum hino litúrgico existente, que adaptaria para que servisse de introdução ao seu livro. O certo é que na documentação cristã só aparece como prólogo do quarto Evangelho.

O prólogo de São João recorda-nos o primeiro capítulo do Gênesis por vários motivos: 1) a coincidência nas primeiras palavras, No princípio…, que no Evangelho se referem ao princípio absoluto, isto é, à eternidade, enquanto no Gênesis se referem ao princípio concreto da Criação e do tempo. 2) O paralelismo na função que desempenha o Verbo: no Gênesis Deus vai criando todos os seres mediante a Sua palavra; no Evangelho diz-se que tudo foi feito pelo Verbo (Palavra) de Deus. 3) No Gênesis a obra criadora de Deus culmina com a criação do homem à imagem e semelhança de Deus; no Evangelho, a obra do Verbo Encarnado culmina na elevação do homem – como uma nova criação – à dignidade de filho de Deus.

Como ensinamentos principais que aparecem no prólogo podem apreciar-se: 1) a divindade e eternidade do Verbo; 2) a Encarnação do Verbo e a Sua manifestação como homem; 3) a intervenção do Verbo na Criação e na obra salvífica da humanidade; 4) o comportamento diverso dos homens diante da vinda do Salvador: uns aceitam-No com fé e outros rejeitam-No; 5) por último, João Baptista é a testemunha da presença do Verbo no mundo.

A Igreja deu sempre especial importância a este prólogo. Foram muitos os Santos Padres e escritores da antiguidade cristã que o comentaram amplamente, e durante séculos leu-se no fim da Santa Missa, como instrução e meditação permanentes.

Este prólogo tem forma de poema. A doutrina vai-se expondo em versos, agrupados em estrofes (vv. 1-5; 6-8; 9-13; 14-18). Como uma pedra lançada a um tanque produz umas ondas que se vão ampliando, assim a idéia expressada ao princípio de cada estrofe costuma ir-se ampliando nos versos sucessivos sem perder o ponto de partida. É um modo de explicar as coisas muito típico dos antigos povos, que favorece a compreensão progressiva dos conceitos, e que Deus quis utilizar para nos facilitar a penetração nestes mistérios centrais da nossa fé.

1. O texto sagrado chama Verbo ao Filho de Deus. Uma analogia ou comparação com as coisas humanas pode ajudar-nos a compreender a noção de “Verbo” ou “Palavra”: assim como um homem ao conhecer-se forma na sua mente uma imagem de si mesmo, assim Deus Pai ao conhecer-Se gera o Verbo Eterno. Este Verbo de Deus é um e único, não pode existir outro porque n’Ele se exprime toda a essência de Deus. Por isso o Evangelho não Lhe chama simplesmente “Verbo”, mas “o Verbo”. Do Verbo afirmam-se três verdades: que é eterno, que é diferente do Pai, e que é Deus. “Afirmar que existia no princípio equivale a dizer que existia antes de todas as coisas” (De Trinitate, 6,2). Por outro lado, ao assinalar que estava junto de Deus, isto é, junto do Pai, ensina-nos que a pessoa do Verbo é diferente da do Pai, e indica, ao mesmo tempo, a Sua relação de intimidade com Ele, tão grande que tem a mesma natureza divina: é consubstancial ao Pai (cfr Símbolo Niceno).

O Papa Paulo VI, por ocasião do Ano da Fé (1967-1968), resumiu a verdade acerca da Santíssima Trindade no chamado Credo do Povo de Deus (n° 11) com estas palavras: “Cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele é o Verbo Eterno, nascido do Pai antes de todos os séculos e consubstancial ao Pai, isto é, homoousios to Patri; por Quem foram feitas todas as coisas. E encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem, e Se fez homem: portanto, igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade, completamente um não por confusão da substância (que não pode fazer-se), mas pela unidade da pessoa”.

“No princípio”: “Não significa senão que foi sempre e é eterno (…). Porque se é Deus, como de verdade o é, não há nada antes d’Ele; se é Criador de todas as coisas, então Ele mesmo é o primeiro; se é Dominador e Senhor de tudo, tudo é posterior a Ele: as criaturas e os séculos” (Hom. sobre S. João, 2,4).

3. O prólogo, depois de mostrar que o Verbo está no seio do Pai, passa a tratar da Sua relação com as criaturas. Já no Antigo Testamento a Palavra de Deus aparece como força criadora (cfr Is 55,10-11), como Sabedoria que estava presente na criação do mundo (cfr Prv 8,22-26). Aqui dá-se um progresso na Revelação divina: é-nos manifestado que a Criação foi realizada pelo Verbo; isto não quer dizer que o Verbo seja um instrumento subordinado e inferior ao Pai, mas que é princípio activo juntamente com o Pai e o Espírito Santo. A acção criadora é comum às três Pessoas divinas da Santíssima Trindade: “O Pai que gera, o Filho que nasce, e o Espírito Santo que procede são consubstanciais, co-iguais e co-eternos: são um só princípio de todas as coisas; Criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis, das espirituais e das corporais” (IV Concílio de Latrão, De fide catholica, Dz-Sch, n. 800). Disso se deduzem, entre outras coisas, os vestígios da Trindade na criação e, portanto, a bondade radical das coisas criadas.

4. A seguir expõem-se as verdades fundamentais sobre o Verbo: que é a Vida e que é a Luz. Aqui trata-se da vida divina, fonte primeira de toda a vida, da natural e da sobrenatural. E essa Vida é luz dos homens, porque recebemos de Deus a luz da razão, a luz da fé e a luz da glória, que são participação da Inteligência divina. Só a criatura racional é capaz de conhecer Deus neste mundo, e de O contemplar depois gozosamente no Céu por toda a eternidade. Também a Vida (o Verbo) é luz dos homens enquanto os ilumina tirando-os das trevas, isto é, do mal e do erro (cfr Is 8,23; 9,1.2; Mt 4,15-16; Lc l, 74). Jesus dirá mais adiante: “Eu sou a luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Ioh 8,12; cfr 12,46).

Os versículos 3 e 4 podem ler-se com outra pontuação, hoje geralmente abandonada, ainda que na antiguidade tenha tido bastantes defensores. Segundo essa pontuação poderia traduzir-se assim:

3Tudo foi feito por Ele

e sem Ele não se fez nada;

4tudo o que foi feito n’Ele, era vida,

e a vida era luz dos homens”.

Esta leitura indicaria que tudo o que foi criado é vida no Verbo, isto é, que todos os seres recebem o ser e o operar, o viver, pelo Verbo, não sendo possível sem Ele a existência.

5. “Dominaram”: O verbo original grego, que o texto latino traduz por comprehenderunt, significa abraçar ou abarcar uma coisa como que rodeando-a com os braços; mas este acto pode fazer-se com intenção de bom acolhimento (abraço amigável), ou de hostilidade (acção de sufocar ou asfixiar outro apertando-o). Há, pois, lugar para duas possíveis traduções do versículo: a de ‘receberam’, ou a que expressaria que as trevas não puderam apagar ou sufocar a luz, que a tradução portuguesa por nós adoptada exprime com a palavra ‘dominaram’. Com esta última interpretação indicar-se-ia que Cristo e o Seu Evangelho continuam a brilhar entre os homens apesar da oposição do mundo, vencendo-o, segundo as palavras de Jesus: “Confiai: Eu venci o mundo” (Ioh 16,33; cfr 12,31; 1 Ioh 5,4). Em qualquer caso, o versículo exprime a resistência, a luta das trevas contra a luz. Que coisa sejam a luz e as trevas São João i-lo-á indicando ao longo do Evangelho; para já, nos versículos 9 a 11 refere-se à luta entre ambas; e posteriormente por trevas designará o mal e as potências do maligno, que obscurecem a mente do homem e obstaculizam o conhecimento de Deus (cfr Ioh 12,15-46; 1 Ioh 5,6).

Santo Agostinho (In Ioann. Evang. 1,19) comenta assim este passo: “Pode ser que haja uns corações insensatos, ainda incapazes de receber essa Luz, porque o peso dos seus pecados os impede de vê-la; que não pensem, porém, que a Luz não existe por não a poderem ver: é que eles mesmos, pelos seus pecados, tornaram-se trevas. Meus irmãos, é como se um cego estivesse diante do sol. O sol está presente, mas o cego está ausente do sol. Assim todo o homem néscio, todo o homem iníquo, todo o homem sem religião, tem um coração cego. Que pode fazer? Que se limpe, e verá Deus; verá a Sabedoria presente, porque Deus é a própria Sabedoria, e está escrito: ‘Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus'”. Não há dúvida que o pecado entenebrece o olhar espiritual do homem, incapacitando-o para ver e apreciar as coisas de Deus.

6-8. Depois de considerar a divindade do Verbo, passa-se a tratar da Encarnação, e começa-se por falar de João Baptista, que aparece num momento histórico concreto como a testemunha directa de Jesus Cristo diante dos homens (Ioh 1,15.19-36; 3,22 ss.). Assim dirá Santo Agostinho: “Porque (o Verbo Encarnado) era homem e ocultava a Sua divindade, precedeu-O um grande homem com a missão de dar testemunho a favor daquele que era mais que homem” (In Ioann. Evang., 2,5).

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas João Baptista, o maior dos nascidos de mulher (cfr Mt 11,11), pôde indicar com o dedo O próprio Messias (cfr Ioh 1,29), sendo o testemunho do Baptista a culminação de todas as profecias anteriores.

A missão de João Baptista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinópticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Actos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (Act 1,22; 10,37; 12,24). O quarto Evangelho menciona-o sete vezes (1,6.15.19.29.35; 3,27; 5,33). Sabemos além disso, que o apóstolo São João tinha sido discípulo do Baptista antes de o ser do Senhor, e que precisamente o Baptista foi quem o encaminhou para Cristo (cfr l,37ss.).

O Novo Testamento, pois, ensina-nos a transcendência da missão do Baptista, ao mesmo tempo que a clara consciência de este não ser senão o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cfr Mc l,7); por isso o Baptista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho ao Messias (cfr Lc 1,15-17; Mt 3,3-12). O testemunho de João Baptista permanece através dos tempos, convidando todos os homens a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira.

9. “Era a luz verdadeira”: Os Santos Padres, as versões antigas e a maioria dos comentadores actuais entendem que o sujeito de “era” é “o Verbo”. Neste caso, a frase poderia traduzir-se: “o Verbo era a luz verdadeira”. Outra interpretação, pela qual se inclinam bastantes autores modernos, põe como sujeito de “era” a Luz. Deste modo, a tradução seria: “Existia a Luz verdadeira”. Em última análise, o conteúdo é quase o mesmo.

“Vindo ao mundo”: Segundo o texto grego não está claro a que se referem estas palavras. Podem aplicar-se quer à “luz”, quer a “todo o homem”. No primeiro caso, é a Luz (o Verbo) que vindo a este mundo ilumina todos os homens. No segundo caso, são os homens que ao virem a este mundo, ao nascerem, são iluminados pelo Verbo. O texto latino da Neo-vulgata optou pela primeira interpretação.

Chama-se ao Verbo “a luz verdadeira” porque é a luz originária da qual procede toda a outra luz ou revelação de Deus. Ao vir o Verbo ao mundo, este fica plenamente iluminado pela autêntica Luz. Os profetas e todos os outros enviados de Deus, incluído João Baptista, não eram a verdadeira luz, mas o reflexo, as testemunhas da Luz do Verbo. Perante a plenitude desta luz que é o Verbo, interroga-se São João Crisóstomo: “Como é que tantos homens permanecem envoltos em trevas? Porque nem todos os homens crêm em Jesus Cristo nem Lhe rendem o culto augusto que Lhe é devido. Como, pois, pode dizer-se que ilumina todo o homem? Sim. Ele ilumina todos segundo a disposição e a vontade de cada um. Na medida em que depende do Verbo, ilumina todos. Mas se livremente os homens fecham os olhos da sua alma a esta luz, se rejeitam os seus raios, então o facto de permanecerem em trevas não se deve à natureza da luz, mas à maldade de coração de quem se priva deste dom da graça” (Hom. sobre S. João, 8,1).

10. O Verbo está no mundo como o artífice que governa o que fez (cfr In loann. Evang., 2,10). O termo “mundo” no Evangelho de São João indica, além de tudo o que foi criado, o conjunto dos homens; assim Cristo veio para salvar a humanidade inteira; “Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito, para que todo o que crê n’Ele não pereça mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou Seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Ioh 3,16-17). Mas enquanto uma grande parte dos homens rejeitaram a Luz, isto é, Cristo, ” mundo” significa também tudo aquilo que se opõe a Deus (cfr Ioh 17,14-15). Os homens que, obcecados pelas suas culpas, não reconhecem no mundo a obra do Criador (cfr Rom 1,18-20; Sap 13,1-15), ficam apegados só ao mundo e gostam exclusivamente das coisas que são do mundo” (Hom. sobre S. João, 7). Mas o Verbo, “luz verdadeira”, veio para nos revelar a verdade acerca do mundo (cfr Ioh 1,3; 18,37) e para nos salvar.

11. Pelos “Seus” entende-se, em primeiro lugar, o povo judaico, que tinha sido escolhido por Deus como povo da Sua propriedade (Dt 7,6-7) para que nele nascesse Cristo. Também pode entender-se toda a humanidade, pois pertence-Lhe por ter sido criada por Ele e Ele ter estendido a ela a Sua obra redentora. Daí que a censura por não receber o Verbo feito homem há-de entender-se não só dirigida aos judeus mas também a todos os que, chamados por Deus à Sua amizade, O rejeitam. “Cristo veio; mas por uma misteriosa e terrível infelicidade nem todos O conheceram, nem todos O aceitaram (…). É o quadro da humanidade tal como, depois de vinte séculos de cristianismo, se abre diante de nós. Como é possível? Que quer dizer? Não pretenderemos verificar uma realidade imersa em mistérios que nos transcendem: o mistério do bem e do mal. Mas podemos recordar que a economia de Cristo, para que a sua luz se difunda, deve desdobrar-se numa subalterna, mas necessária, cooperação humana: a da evangelização, a da Igreja apostólica e missionária, que se registra resultados incompletos, é mais uma razão para ser ajudada e integrada por todos” (Audiência geral Paulo VI, 4-XII-1974).

12. Receber o Verbo é aceitá-Lo pela fé, porque pela fé Cristo habita em nossos corações (cfr Eph 3,17). Crer no Seu Nome significa crer na Sua Pessoa, em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. Isto é, “os que crêem no Seu nome são aqueles que guardam íntegro o nome de Cristo, de tal maneira que não diminuem nada da Sua divindade ou da Sua humanidade” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

“Deu-lhes poder” equivale a “concedeu-lhes” através de um dom: a graça santificante; “porque não está no nosso poder tornar-nos filhos de Deus” (ibid.). Este dom estende-se pelo Baptismo a todos os homens sem limite de raça, idade, cultura, etc. (cfr. Act 10,45; Gal 3,28). A única condição exigida é a fé.

“O Filho de Deus fez-Se homem – explica Santo Atanásio – para que os filhos do homem, os filhos de Adão, se tornassem filhos de Deus (…). Ele é Filho de Deus por natureza; nós, por graça” (De Incarnatione contra arrianos, 8). Trata-se do nascimento para a vida sobrenatural, na qual “todos gozamos da mesma dignidade: escravos e livres, gregos, bárbaros e asiáticos, sábios e incultos, homens e mulheres, crianças e velhos, ricos e pobres… Tão grande é a força da fé em Cristo, tão poderosa a graça!” (Hom. sobre S. João, 10,2).

“A união de Cristo com o homem é a força e a nascente da força, segundo a incisiva expressão de São João no prólogo do seu Evangelho: ‘O Verbo deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus’. É esta força que transforma interiormente o homem, qual princípio de uma vida nova que não fenece nem passa, mas dura para a vida eterna (cfr Ioh 4,14)” (Redemptor hominis, n. 18).

13. O nascimento de que se fala aqui é uma verdadeira geração espiritual que se realiza no Baptismo (cfr Ioh 3,6 ss.). Em vez do texto no plural adoptado, que se refere ao nascimento sobrenatural dos homens, alguns Santos Padres e versões antigas apresentam a leitura no singular: “o que não nasceu do sangue…, mas nasceu de Deus”. Neste caso, o texto referir-se-ia à geração eterna do Verbo e ao nascimento virginal de Jesus, por obra do Espírito Santo, das entranhas puríssimas de Maria, isto é, falaria da virgindade de Maria no parto. Ainda que a segunda leitura seja muito sugestiva, contudo a documentação (manuscritos gregos, versões antigas, referências dos escritores eclesiásticos, etc.) mostra que o texto no plural foi o mais comum, impondo-se desde o século IV. Além disso, nos escritos de São João diz-se com freqüência que os crentes nasceram de Deus (cfr Ioh 3,3-6; 1 Ioh 2,29; 3,9; 4,7; 5,1.4.18).

O contraste entre o nascimento natural dos homens (que é pelo sangue e pelo querer humano) e o sobrenatural (que vem de Deus) faz ver que os que crêem em Jesus Cristo são constituídos filhos de Deus não só enquanto criaturas, mas sobretudo pelo dom gratuito da fé e da graça.

14. Este é um texto central acerca do mistério de Cristo. Nele se exprime de maneira concentrada a realidade insondável da Encarnação do Filho de Deus. “Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus o Seu Filho, nascido de mulher” (Gal 4,4).

A palavra “carne” designa o homem na sua totalidade (cfr Ioh 3,6; 17,2; Gen 6,3; Ps 56,5); de modo que a frase “e o Verbo fez-Se carne” é igual a “e o Verbo fez-Se homem”. Precisamente o termo teológico “Encarnação” surgiu sobretudo a partir deste texto. O substantivo carne tem uma poderosa força expressiva perante aquelas heresias que negam a verdadeira natureza humana de Cristo. Por outro lado, “carne” acentua a condição passível e mortal do Salvador, que habitou entre nós tomando a nossa natureza, e evoca o chamado “Canto da consolação” (Is 40,1-11), onde se contrapõe a caducidade da carne à perenidade do Verbo de Deus: “Toda a carne é erva / e todo o seu esplendor como flor do campo /… a erva seca, a flor murcha, / mas a palavra do nosso Deus / permanece eternamente” (Is 40,7-8). Isto não significa que a assunção da Humanidade pelo Verbo seja precária e provisória.

“E habitou entre nós”: O verbo grego que emprega São João correspondente a “habitou” significa etimologicamente “fixar a tenda de campanha” e, daí, habitar num lugar. O leitor atento da Escritura recorda espontaneamente o tabernáculo dos tempos da saída do Egipto, em que Yahwéh mostrava a Sua presença no meio do povo de Israel mediante certos sinais da Sua glória, como a nuvem pousada sobre a tenda (cfr, p. ex., Ex 25,8; 40,34-35). Em muitíssimos passos do Antigo Testamento anuncia-se que Deus “habitará no meio do povo” (cfr, p. ex., Ier 7,3; Ez 43,9; Eccli 24,8). Aos sinais da presença de Deus, primeiro na Tenda do Santuário peregrinante no deserto e depois no Templo de Jerusalém, segue-se a prodigiosa presença de Deus entre nós: Jesus, perfeito Deus e perfeito homem, em Quem se cumpre a antiga promessa mais além do que os homens podiam esperar. Também a promessa feita por meio de Isaías acerca do “Emanuel” ou “Deus-connosco” (Is 7,14; cfr Mt 1,23) se cumpre plenamente neste habitar do Filho de Deus Encarnado entre os homens. Por isso, ao ler com religiosa admiração as palavras do Evangelho “e habitou entre nós”, ou, ao rezar o Angelus, é boa ocasião para fazer um acto de fé profundo e agradecido, e de adorar a Humanidade Santíssima do Senhor.

“Ao recordar que ‘o Verbo Se fez carne’, isto é, que o Filho de Deus Se fez homem, devemos tomar consciência do grande que se torna todo o homem através deste mistério; isto é, através da Encarnação do Filho de Deus! Cristo, efectivamente, foi concebido no seio de Maria e fez-Se homem para revelar o amor eterno do Criador e Pai, assim como para manifestar a dignidade de cada um de nós” (João Paulo II, Alocução na recitação do Angelus, Santuário de Jasna Góra, 5-VI-1979).

Ainda que o aniquilamento do Verbo ao tomar a natureza humana ocultasse em certo modo a Sua natureza divina, de que nunca Se despojou, todavia os Apóstolos viram a glória da Sua divindade através da Sua Santíssima Humanidade, pois manifestou-se na Transfiguração (Lc 9,32-35), nos milagres (Ioh 2,11; 11,40) e especialmente na Ressurreição (cfr Ioh 3,11; 1 Ioh 1,1). A glória de Deus, que resplandecia no antigo Santuário do deserto ou no Templo de Jerusalém, não eram senão uma antecipação imperfeita da realidade da glória divina manifestada através da Santíssima Humanidade do Unigénito do Pai. O apóstolo São João fala com solenidade na primeira pessoa do plural: “vimos a Sua glória”, pois conta-se entre as testemunhas que presenciaram a vida de Cristo e, em particular, a Sua Transfiguração e a glória da Sua Ressurreição.

A palavra “Unigénito” exprime adequadamente a geração eterna e única do Verbo pelo Pai. Os três primeiros Evangelhos tinham sublinhado o nascimento temporal de Cristo; pelo contrário, São João completa a visão pondo em relevo a geração eterna.

Os termos “graça e verdade” são sinônimos de “bondade e fidelidade”, dois atributos que no Antigo Testamento se aplicam constantemente a Yahwéh (cfr, p. ex., Ex 34,6; Ps 117; Ps 136; Os 2,16-22). Assim, a graça é a manifestação do amor de Deus pelos homens, da Sua bondade, da Sua misericórdia, da Sua piedade. A verdade implica a permanência, a lealdade, a constância, a fidelidade. Jesus, que é o Verbo de Deus feito homem, isto é, o próprio Deus, é por isso “o Unigénito do Pai cheio de graça e de verdade”; é “o pontífice misericordioso e fiel” (Heb 2,17). Estas duas qualidades, o ser bom e fiel, são como o compêndio e a síntese da grandeza de Cristo. E são também, de forma correlativa, ainda que em grau infinitamente menor, as qualidades primordiais de todo o cristão, como expressamente o disse o Senhor quando louvou o “servo bom e fiel” (Mt 25,21).

Como explica o Crisóstomo: “O evangelista, depois de ter dito que aqueles que O receberam nasceram de Deus e são filhos de Deus, indica a causa dessa honra inefável: que o Verbo Se fez carne, e o Senhor tomou a forma de servo. Porque sendo verdadeiro Filho de Deus, fez-Se Filho do Homem, para tornar os homens filhos de Deus” (Hom. sobre S. João, 2,1).

O profundo mistério de Cristo foi expressado pelo Magistério da Igreja mediante uma definição solene, no ano 451, no célebre texto do Concilio Ecumênico de Calcedónia: “Seguindo, pois, os Santos Padres, todos a uma só voz ensinamos que se deve confessar um só e o próprio Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na humanidade, Deus verdadeiramente, e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial com o Pai quanto à divindade, e consubstancial connosco quanto à humanidade – semelhante em tudo a nós, menos no pecado (Heb 4,15) -; gerado do Pai antes dos séculos quanto à divindade, e nos últimos dias, por nós e pela nossa salvação, gerado de Maria Virgem, Mãe de Deus, quanto à humanidade” (Dz-Sch, n. 301).

15. Mais adiante (Ioh 1,19-36) dá-se a conhecer no Evangelho a missão de João Baptista como testemunha do messianismo e da divindade de Jesus, que aqui se resume de modo muito concentrado. Segundo os planos de Deus, assim como os Apóstolos darão testemunho de Jesus depois da Ressurreição, o Baptista será a testemunha escolhida para anunciar Cristo no momento de iniciar o ministério público (cfr a nota a Ioh 1,6-8).

16. “Graça por graça”: Pode entender-se, com São João Crisóstomo e outros Santos Padres, como a substituição da economia salvífica do Antigo Testamento, pela nova economia da graça trazida por Cristo. Também pode indicar uma superabundância de dons outorgados por Jesus: a umas graças acrescentam-se outras, e todas brotam da fonte inesgotável que é Cristo, cuja plenitude de graça nunca acaba. “Ele não tem o dom recebido por participação, mas é a própria fonte, a própria raiz de todos os bens: a própria Vida, a própria Luz, a própria Verdade. E não retém em Si mesmo as riquezas dos Seus bens, mas entrega-os a todos os outros; e tendo-os dispensado permanece cheio; não diminui em nada por tê-los distribuído a outros, mas enchendo e fazendo participar a todos destes bens, permanece na mesma perfeição” (Hom. sobre S. João, 14,1).

17. Aparece aqui, pela primeira vez no Evangelho de São João, o nome de Jesus Cristo, identificado com o Verbo de que nos tem vindo a falar.

Enquanto a Lei dada por Moisés se limitava a indicar o caminho que o homem devia seguir (cfr Rom 8,7-10), a Graça trazida por Jesus Cristo tem o poder de salvar aqueles que a recebem (cfr Rom 7,25). “O pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais sob a Lei mas sob a graça” (Rom 6,14). Pela “graça tornamo-nos agradáveis a Deus não já somente como servos, mas também como filhos e amigos” (Hom. sobre S. João, 14,2).

18. “A Deus ninguém jamais O viu”: Todas as visões que os homens tiveram de Deus neste mundo foram indirectas, já que apenas contemplaram a glória divina, isto é, o resplendor da Sua grandeza: por exemplo, Moisés viu a sarça ardente (Ex 3,6); Elias sentiu a brisa no monte Horeb (1 Reg 19,11-13); Isaías contemplou o esplendor da Sua majestade (Is 6,1-3). Mas, ao chegar a plenitude dos tempos, essa manifestação de Deus torna-se mais próxima e quase directa, já que Jesus Cristo é a imagem visível do Deus invisível (cfr Col 1,15); é a revelação máxima de Deus neste mundo, até o ponto de que assevera: “Aquele que Me viu a Mim viu o Pai” (Ioh 14,9). “Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação” (Dei Verbum, n. 2).

Nenhuma Revelação mais perfeita pode fazer Deus de Si mesmo que a Encarnação do Seu Verbo Eterno. Por isso escreve admiravelmente São João da Cruz: “Em dar-nos, como nos deu, Seu Filho, que é a Sua única Palavra, que não tem outra, tudo nos disse juntamente e de uma vez nesta única Palavra, e não tem mais que falar” (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 22).

“Um Deus, Filho único”: Alguns manuscritos gregos e versões trazem a leitura “o Filho Unigénito”, ou também “o Unigénito”. A primeira leitura é preferível por estar melhor apoiada nos códices. Além disso, ainda que o sentido não mude substancialmente, o texto adoptado tem um conteúdo mais rico, pois manifesta de novo explicitamente a divindade de Cristo.