dia 27 de julho a 2 de agosto de 2009

Dia 27 de julho

Mt 13, 31-35

31Outra parábola lhes propôs, dizendo: É semelhante o Reino dos Céus a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo, 32o qual é a mais pequenina de todas as sementes, mas, em crescendo, é maior que as hortaliças e faz-se árvore, de modo que as aves do céu vêm poisar nos seus ramos. 33Expôs-lhes ainda outra parábola: O Reino dos Céus é semelhante ao fermento, que uma mulher tomou e meteu em três medidas de farinha, até que a fermentou toda. 34Todas estas coisas disse Jesus à multidão em parábolas e, sem parábolas, não lhe falava, 35para se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: “abrirei, em parábolas, a minha boca; proferirei coisas ocultas desde o princípio do mundo”.

Comentário

31-32. O homem é Jesus Cristo; o campo, o mundo. O grão de mostarda entende-se da pregação do Evangelho e da Igreja: com uns princípios muito pequenos chega a estender-se por todo o mundo.

A parábola alude evidentemente à universalidade e ao crescimento do Reino de Deus: a Igreja, que acolhe todos os homens de qualquer classe e condição e em todas as latitudes e tempos, desenvolve-se constantemente, apesar das contrariedades, em virtude da promessa e assistência divinas.

33. A imagem é tomada agora de uma experiência quotidiana: assim como o fermento vai pouco a pouco fermentando e assimilando toda a massa, da mesma maneira a Igreja vai convertendo todos os povos.

O fermento é também figura do cristão. Vivendo no meio do mundo, sem se desnaturalizar, o cristão conquista com o seu exemplo e com a sua palavra as almas para o Senhor. “A nossa vocação de filhos de Deus, no meio do mundo, exige-nos que não procuremos apenas a nossa santidade pessoal, mas que vamos pelos caminhos da Terra, para convertê-los em atalhos que, através dos obstáculos, levem as almas ao Senhor; que participemos, como cidadãos normais e correntes, em todas as actividades temporais, para sermos levedura que há-de fermentar toda a massa” (Cristo que passa, n.° 120).

34-35. A Revelação, os planos de Deus, ocultam-se (cfr Mt 11,25) aos que não estão bem dispostos para os receber. O Evangelista quer sublinhar a necessidade de ser simples e dóceis ao Evangelho. Ao evocar o Salmo 78, 2 ensina-nos outra vez, sob a luz da inspiração divina, que na pregação do Senhor se cumprem as profecias do Antigo Testamento.

Dia 28 de julho

Mt 13, 36-43

36Então, despedidas as turbas, voltou para casa, e os discípulos acercaram-se d’Ele e disseram: Explica-nos a parábola do joio do campo. 37Respondeu Ele: O que semeia a boa semente é o Filho do homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. 39O inimigo que a semeou é o Demónio. A ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são os Anjos. 40Assim, pois, como se apanha o joio e se queima no fogo, assim será no fim do mundo. 41Enviará o Filho do homem os Seus Anjos, que apanharão do Seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, 42e lançá-los-ão na fornalha do fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. 43Então os justos brilharão como o Sol no Reino de Seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça.

Comentário

36-43. A Igreja, enquanto caminha na terra, está integrada por bons e maus, por justos e pecadores. Todos viverão misturados uns com os outros até ao tempo da sega, o fim do mundo, quando o Filho do Homem, Jesus Cristo, constituído Juiz de vivos e mortos separará os bons dos maus no Juízo Final: aqueles para a glória eterna – herança exclusiva dos santos -; os maus, pelo contrário, para o fogo eterno do inferno. Ainda que agora os justos e os pecadores permaneçam juntos, a Igreja tem o direito e o dever de excluir os escandalosos, especialmente os que atentam contra a sua doutrina e unidade; pode fazê-lo mediante a excomunhão eclesiástica e as penas canónicas. Contudo, a excomunhão tem um fim medicinal e pastoral: a correcção do que se obstina no erro e a preservação dos outros.

Dia 29 de julho

Jo 11, 19-27

19Muitos Judeus tinham vindo até junto de Marta e de Maria, para as consolarem pela morte do irmão. 20Quando Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, foi-Lhe ao encontro, enquanto Maria ficava em casa. 21Disse então Marta a Jesus: Se cá estivesses, Senhor, não teria morrido meu irmão! 22Ainda agora eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus To há-de conceder. 23Diz-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. 24Responde-Lhe Marta: Eu sei que há-de ressuscitar na altura da Ressurreição, no último dia! 25Eu sou a Ressurreição e a Vida – volveu-lhe Jesus. – Quem acredita em Mim, ainda que venha a morrer, viverá; 26e todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá jamais. Acreditas nisto? 27Acredito, Senhor- Lhe diz ela – eu já acreditava que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo!

Comentário

21-22. Segundo interpreta Santo Agostimho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, “não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressuscites meu irmão (…). Somente disse: Sei que tudo podes e fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos” (In Ioann. Evang., 49,13). O mesmo se deve dizer acerca das palavras de Maria que São João relata pouco mais adiante (v. 32).

24-26. Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo, e que São João nos transmite com fidelidade (cfr Ioh 10,9.14; 14-16; 15,1): Jesus é a Ressurreição e a Vida. É a Ressurreição porque com a Sua vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é um sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar também um dia, como Cristo (cfr 1 Cor 15,23; Col 1,18). Por isso para o crente a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada como diz um dos Prefácios da Liturgia de defuntos: “A vida daqueles que cremos em Ti, Senhor, não termina, transforma-se; e, ao desfazer-se a nossa morada terrena, adquirimos uma mansão eterna no céu”.

Ao dizer que é a Vida, Jesus refere-Se não só à que começa no mais além, mas também à vida sobrenatural que a graça opera na alma do homem que ainda se encontra a caminho.

“Esta vida, prometida e proporcionada a cada homem pelo Pai em Jesus Cristo, eterno e unigênito Filho, encarnado e nascido da Virgem Maria ‘ao chegar a plenitude dos tempos’ (cfr Gal 4,4), é o complemento final da vocação do homem; é, de alguma maneira, o cumprir-se daquele ‘destino’ que, desde toda a eternidade, Deus lhe preparou. Este ‘destino divino’ torna-se via, por sobre todos os enigmas, as incógnitas, as tortuosidades e as curvas, do ‘destino humano’ no mundo temporal. Se, de facto, tudo isto, não obstante toda a riqueza da vida temporal, leva por inevitável necessidade à fronteira da morte e à meta da destruição do corpo humano, apresenta-se-nos Cristo para além desta meta: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim… não morrerá jamais’. Em Jesus Cristo crucificado, deposto no sepulcro e depois ressuscitado, ‘brilha para nós a esperança da feliz ressurreição… a promessa da imortalidade futura’ (Missal Romano, Prefácio de defuntos I), em direcção à qual o homem caminha, através da morte do corpo, partilhando com tudo o que é criado e visível esta necessidade a que está sujeita a matéria” (Redemptor hominis, n. 18).

Dia 30 de julho

Mt 13, 47-53

47É também semelhante o Reino dos Céus a uma rede lançada ao mar e que apanha toda a sorte de peixes. 48Logo que se enche, tiram-na para a praia, sentam-se e escolhem os bons para as canastras e os ruins deitam-nos fora. 49Assim será no fim do mundo: sairão os Anjos, tirarão os maus do meio dos justos 50e lançá-los-ão na fornalha do fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. 51Entendeste tudo isto? Dizem eles: Sim. 52E Ele disse-lhes: Por isso, todo o escriba versado nas coisas do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas. 53E aconteceu que, quando Jesus terminou estas parábolas, partiu dali.

Comentário

47. “Toda a sorte de coisas”: Assim se deve traduzir com a quase totalidade de manuscritos gregos e das versões antigas. Em algumas versões lê-se: “toda a sorte de peixes”. A rede de arrasto é muito longa e de uns dois metros de largura; ao estendê-la entre duas barcas forma dentro da água uma parede de dupla ou tripla malha, que ao ser arrastada recolhe, juntamente com toda a sorte de peixes, muitas outras coisas: algas, ervas, diversos objectos…

Na parábola está claramente ensinada a verdade dogmática do juízo: no fim dos tempos Deus julgará e separará os bons dos maus. É significativa a reiterada alusão do Senhor às realidades últimas, especialmente ao juízo e ao inferno; com a Sua divina pedagogia vem ao encontro da facilidade do homem para se esquecer destas verdades. “Todas estas coisas se dizem para que ninguém possa desculpar-se baseado na sua ignorância, que unicamente teria lugar se se tivesse falado com ambiguidade sobre o suplício eterno” (In Evangelia homiliae, 11).

52. “Escriba”: No povo judaico era o homem que se dedicava ao estudo da Sagrada Escritura e à sua aplicação à vida; tinha uma missão de ensino religioso. Aqui o Senhor emprega esta velha palavra para designar os Apóstolos que vão ser os novos mestres na Igreja. Assim, os Apóstolos e os seus sucessores, os Bispos, são os que constituem a chamada Igreja docens, isto é, a Igreja que ensina, e têm portanto a missão de ensinar com autoridade. Não obstante, é claro que o Papa e os Bispos, além de exercerem este poder de ensinar de modo directo, exercem-no ajudados pelos sacerdotes. Os outros membros da Igreja constituem a chamada Igreja discens, isto é a Igreja que aprende. Mas o discípulo de Cristo, o cristão que recebeu o ensino, deve ajudar, por sua vez, os outros com a doutrina recebida, exposta numa linguagem acessível, e portanto deve conhecer a fundo a doutrina cristã. O tesouro da Revelação é tão rico, que dele se pode tirar ensinamentos práticos para todos os tempos e para todas as circunstâncias da vida. São estes tempos e estas circunstâncias que devem ser iluminados e ordenados de acordo com a palavra de Deus, e não ao contrário. Assim, pois, a Igreja e os seus pastores não pregam novidades, mas a única verdade contida no tesouro da Revelação: o Evangelho, desde há dois mil anos, continua a ser a “boa nova”.

Dia 31 de julho

Mt 13, 54-58

54E foi para a sua terra. Ali ensinava na sinagoga, de modo que eles, admirados, diziam: Donde a Este tal sabedoria e tais milagres? 55Não é Ele o filho do carpinteiro? Não se chama Sua Mãe Maria, e Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56E as Suas irmãs não vivem todas entre nós? Donde Lhe vieram, pois, todas estas coisas? 57E escandalizavam-se d’Ele. Jesus, porém, disse-lhes: O profeta não é desconsiderado senão na sua terra e entre os seus. 58E não fez ali muitos milagres, por causa da sua incredulidade.

Comentário

53-58. A estranheza das gentes de Nazaré em parte talvez se explique pela dificuldade que o homem experimenta em reconhecer o extraordinário e o sobrenatural naqueles com quem conviveu familiarmente. Daí o provérbio “ninguém é profeta na sua terra”. À estranheza juntava-se, nos vizinhos de Nazaré, a inveja: Donde lhe vem esta sabedoria? Quem é este mais que nós? Eles não conheciam o mistério da conceição sobrenatural de Jesus. A estranheza e a inveja levam-nos a escandalizar-se, a desprezá-Lo e a não crer n’Ele: “veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram” (Ioh 1,11).

“Filho do carpinteiro”: É o único lugar do Evangelho onde aparece a profissão de São José – em Mc 6,3, carpinteiro é aplicado ao próprio Jesus -. Provavelmente era o carpinteiro que na aldeia de Nazaré realizava muito diversos tipos de ofícios manuais: tanto forjava ferro como construía móveis ou alfaias agrícolas.

Sobre a explicação de “irmãos de Jesus” veja-se a nota a Mt 12, 46-47.

Dia 1º de agosto

Mt 14, 1-12

1Naquele tempo, o tetrarca Herodes ouviu falar de Jesus 2e disse para os seus cortesãos: É João Baptista. É Ele que ressuscitou dos mortos, e é por isso que as forças milagrosas operam n ‘Ele. 3De facto, Herodes prendera a João, pusera-o a ferros e lançara-o numa prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão. 4Porque João lhe dizia: “Não te é lícito tê-la”. 5Quisera matá-lo, mas temia o povo, que o tinha por profeta. 6Veio, entretanto, o aniversário de Herodes, e a filha de Herodíade dançou em público e agradou a Herodes 7tanto que lhe prometeu, com juramento, dar-lhe o que pedisse. 8Ela, instigada pela mãe: Dá-me, disse, aqui, num prato, a cabeça de João Baptista. 9Entristeceu-se o rei; porém, por causa do juramento e dos convivas, deu ordem para que lhe fosse entregue 10e mandou decapitar João no cárcere. 11A sua cabeça foi trazida num prato e dada à jovem que a levou à mãe. 12Os discípulos foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois vieram dar a notícia a Jesus.

Comentário

1. Herodes o tetrarca, denominado “Antipas” (vid. a nota a Mt 2, 1) é o mesmo que mais tarde aparece na Paixão (cfr Lc 23, 7ss.). Era filho de Herodes o Grande. Antipas governava a região da Galileia e Pereia em nome do imperador romano; estava casado, segundo atesta o historiador Flávio Josefo (Antiquitates iud., XVIII, 5,4), com uma filha de um rei da Arábia. Apesar deste matrimónio, convivia em concubinato com Herodíade, mulher de seu irmão. São João Baptista e o próprio Jesus Cristo repreenderam muitas vezes os costumes imorais do tetrarca, cujas relações ilícitas estavam expressamente proibidas na Lei (Lev 18,16; 20,21) e eram escândalo notório para o povo.

3-12. Em fins do século I Flávio Josefo dá também testemunho destes acontecimentos. Por ele sabemos outros pormenores mais, como o lugar – a fortaleza de Maqueronte – em que esteve encarcerado o Baptista, fortaleza que domina a ribeira oriental do Mar Morto e onde foi o banquete; e o nome, Salomé, da filha de Herodíade.

9. Importantes códices gregos e latinos trazem: “Entristeceu-se o rei; mas pelo juramento e pelos comensais ordenou que lhe fosse dada”. Santo Agostinho comenta assim: “No meio dos excessos e da sensualidade dos convidados, fazem-se temerariamente juramentos, que depois se cumprem de forma ímpia” (Sermo 10). Com efeito, é pecado contra o segundo Mandamento da Lei de Deus fazer um juramento faltando à justiça, como neste caso; tal juramento não obriga. Mais ainda, se se cumpre, como fez Herodes, comete-se um novo pecado. Também nos ensina o Catecismo que se peca contra este preceito se o juramento se faz contra a verdade, ou sem necessidade (cfr Catecismo Romano, III, 3, 24).

Dia 2 de agosto

Jo 6, 24-35

24Quando a multidão viu que Jesus não estava lá, nem os discípulos, subiram todos para as embarca­ções e vieram para Cafarnaum, em busca de Jesus. 25E quando O encontraram do outro lado do mar, disseram-Lhe: Rabi, quando chegaste aqui?

26Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Em verdade, em verdade vos digo: Vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas por haverdes comido dos pães e vos terdes saciado. 27Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que se conserva até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará; pois a Este é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o Seu selo. 28Disseram-Lhe en­tão: Que havemos de fazer para trabalhar nas obras de Deus? 29Respondeu-lhes Jesus: É esta a obra de Deus: que acrediteis No que Ele enviou.

30Disseram-Lhe eles: Que milagre então fazes Tu, para nós vermos e acreditarmos em Ti? Que obra realizas? 31Os nossos pais, no deserto, comeram o maná, conforme está escrito: Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu. 32Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão que vem do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do Céu, 33pois o pão de Deus é o que desce do Céu e dá a vida ao mundo. 34Disseram-Lhe então: Senhor, dá-nos sempre desse pão! 35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede.

Comentário

26. O Senhor começa por corrigir a falta de rectidão de intenção que os movia a segui-Lo, preparando-os assim para compreender a doutrina do discurso eucarístico. «Procurais-Me, comenta Santo Agostinho, por motivos da carne, não do espírito. Quantos há que buscam Jesus, guiados apenas por interesses temporais! (…). Quase não se busca Jesus por Jesus» (In Ioann. Evang., 25,10).

Começa neste versículo o chamado Discurso do Pão da Vida, que se prolonga até ao versículo 59. Inicia-se com uma introdução a modo de diálogo entre Jesus e os Judeus (w. 26–34), onde o Senhor Se revela como Aquele que vem trazer os dons messiânicos. Segue-se a primeira parte do discurso (vv. 35-47), em que Jesus Se apresenta como o Pão da Vida, enquanto a fé n’Ele é alimento para a vida eterna. Na segunda parte (vv. 48-59) Cristo revela o mistério da Euca­ristia: Ele é o Pão da Vida que Se dá sacramentalmente como verdadeira comida.

27. O alimento corporal serve para a vida neste mundo, o espiritual sustenta e desenvolve a vida sobrenatural, que continua para sempre no Céu. Este alimento, que só Deus nos pode dar, consiste principalmente no dom da fé e na graça santificante. Inclusive, por infinito amor divino, na Santíssima Eucaristia é-nos dado como alimento da alma o próprio autor desses dons: Jesus Cristo.

«A Este é que o Pai marcou com o Seu selo»: Com esta frase o Senhor alude à autoridade, pela qual só Ele pode dar aos homens os dons mencionados: porque sendo Deus e homem, a natureza humana de Jesus é o instrumento pelo qual actua a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São Tomás de Aquino comenta assim esta frase: «O que o Filho do Homem dará, possui-o enquanto supera todos os outros homens pela sua singular e eminente plenitude de graça (…). Quando um selo se imprime na cera, esta recebe toda a forma do selo. Assim o Filho recebeu toda a forma do Pai. E isto de dois modos: um eterno (geração eterna), do qual não se fala aqui porque o selo e o selado são de natureza diferente. O outro, que é o que se deve entender aqui, é o mistério da Encarnação, pela qual Deus Pai imprimiu na natureza humana o Verbo, que é resplendor e selo da Sua substância, como diz Hebreus 1,3» (Comentário sobre S. João, ad loc.).

28-34. O diálogo entre Jesus e os Seus ouvintes recorda o episódio da mulher Samaritana (cfr Ioh4,11-15). Ali fala-se de uma água que jorra para a vida eterna; aqui de um pão que desce do Céu para dar a vida ao mundo. Ali a mulher perguntava-se se Jesus podia ser superior a Jacob, aqui as pessoas se Ele Se pode comparar com Moisés (cfr Ex 16,13). «O Senhor apresentava-Se de tal forma, que aparecia superior a Moisés: jamais teve Moisés a audácia de dizer que ele dava um alimento que não perecia, que permanecia até à vida eterna. Jesus promete muito mais que Moisés. Este prometia um reino, uma terra de arroios de leite e mel, uma paz temporal, filhos numerosos, a saúde corporal e todos os outros bens temporais (…); encher o seu ventre aqui na terra, mas de manjares que perecem; Cristo, pelo contrário, pro­metia um manjar que, na verdade, não perece mas per­manece eternamente» (In Ioann. Evang., 25,12).

Os interlocutores de Jesus sabiam que o maná — alimento que os Judeus recolhiam diariamente no seu caminhar pelo deserto (cfr Ex 16,13 ss. — era símbolo dos bens messiânicos; por isso pedem ao Senhor que realize um portento semelhante. Mas não podiam nem sequer suspeitar que o maná era figura de um grande dom messiânico sobrenatural que Cristo traz aos homens: a Santíssima Eucaristia. Jesus, com este diálogo e a primeira parte do discurso eucarístico (w. 35-47), procura levá-los antes de mais a um acto de fé n’Ele, para depois lhes revelar abertamente o mistério da Santíssima Eucaristia. Com efeito, Ele é o pão «que desceu do Céu e dá a vida ao mundo» (v. 33). Também São Paulo explica que o maná e os outros prodígios que aconteceram no deserto eram prefiguração clara de Jesus Cristo (cfr l Cor 10,3-4).

A atitude incrédula daqueles judeus incapacitava-os para aceitar a revelação de Jesus. Para reconhecer o mistério da Eucaristia é necessária a fé, como voltou a pôr em realce o Papa Paulo VI: «Antes de mais, queremos recordar uma verdade, por vós bem sabida, mas muito necessária para eliminar todo o veneno de racionalismo, verdade que muitos católicos selaram com o seu próprio sangue e que célebres Padres e Doutores da Igreja professaram e ensinaram cons­tantemente, isto é, que a Eucaristia é um altíssimo mistério, mais ainda, falando com propriedade, como diz a Sagrada Liturgia, o mistério da fé (…). É, pois, necessário que nos aproximemos particularmente deste mistério, com humilde reverência, não buscando razões humanas, que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina» (Mysterium fidei).

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem: «Que bela é a nossa Fé Católica! — Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração» (Caminho, n.° 582).