dia 27 de abril a 3 de maio de 2009

Dia 27 de abril

Jo 6, 22-29

22No dia seguinte, a multidão que se encontrava. do outro lado do mar verificou que ali não estivera outra embarcação além duma só e que Jesus não entrara no barco com os discípulos, mas só estes se haviam retirado. 23Todavia, tinham vindo outras embarcações de Tiberíade para junto do local em que haviam comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. 24Quando a multidão viu que Jesus não estava lá, nem os discípulos, subiram todos para as embarcações e vieram para Cafarnaum, em busca de Jesus. 25E quando O encontraram do outro lado do mar, disseram-Lhe: Rabi, quando chegaste aqui?

26Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Em verdade, em verdade vos digo: Vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas por haverdes comido dos pães e vos terdes saciado. 27Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que se conserva até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará; pois a Este é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o Seu selo. 28Disseram-Lhe então: Que havemos de fazer para trabalhar nas obras de Deus? 29Respondeu-lhes Jesus: É esta a obra de Deus: que acrediteis No que Ele enviou.

Comentário

26. O Senhor começa por corrigir a falta de retidão de intenção que os movia a segui-Lo, preparando-os assim para compreender a doutrina do discurso eucarístico. “Procurais-Me, comenta Santo Agostinho, por motivos da carne, não do espírito. Quantos há que buscam Jesus, guiados apenas por interesses temporais! (…). Quase não se busca Jesus por Jesus” (In Ioann. Evang., 25,10).

Começa neste versículo o chamado Discurso do Pão da Vida, que se prolonga até ao versículo 59. Inicia-se com uma introdução a modo de diálogo entre Jesus e os Judeus (vv. 26-34), onde o Senhor Se revela como Aquele que vem trazer os dons messiânicos. Segue-se a primeira parte do discurso (vv. 35-47), em que Jesus Se apresenta como o Pão da Vida, enquanto a fé n’Ele é alimento para a vida eterna. Na segunda parte (vv. 48-59) Cristo revela o mistério da Eucaristia: Ele é o Pão da Vida que Se dá sacramentalmente como verdadeira comida.

27. O alimento corporal serve para a vida neste mundo, o espiritual sustenta e desenvolve a vida sobrenatural, que continua para sempre no Céu. Este alimento, que só Deus nos pode dar, consiste principalmente no dom da fé e na graça santificante. Inclusive, por infinito amor divino, na Santíssima Eucaristia é-nos dado como alimento da alma o próprio autor desses dons: Jesus Cristo.

“A Este é que o Pai marcou com o Seu selo”: Com esta frase o Senhor alude à autoridade, pela qual só Ele pode dar aos homens os dons mencionados: porque sendo Deus e homem, a natureza humana de Jesus é o instrumento pelo qual actua a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São Tomás de Aquino comenta assim esta frase: “O que o Filho do Homem dará, possui-o enquanto supera todos os outros homens pela sua singular e eminente plenitude de graça (…). Quando um selo se imprime na cera, esta recebe toda a forma do selo. Assim o Filho recebeu toda a forma do Pai. E isto de dois modos: um eterno (geração eterna), do qual não se fala aqui porque o selo e o selado são de natureza diferente. O outro, que é o que se deve entender aqui, é o mistério da Encarnação, pela qual Deus Pai imprimiu na natureza humana o Verbo, que é resplendor e selo da Sua substância, como diz Hebreus 1,3” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

Dia 28 de abril

Jo 6, 30-35

30Disseram-Lhe eles: Que milagre então fazes Tu, para nós vermos e acreditarmos em Ti? Que obra realizas? 31Os nossos pais, no deserto, comeram o maná, conforme está escrito: Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu. 32Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão que vem do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do Céu, 33pois o pão de Deus é o que desce do Céu e dá a vida ao mundo. 34Disseram-Lhe então: Senhor, dá-nos sempre desse pão! 35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede.

Comentário

28-34. O diálogo entre Jesus e os Seus ouvintes recorda o episódio da mulher Samaritana (cfr Ioh 4,11-15). Ali fala-se de uma água que jorra para a vida eterna; aqui de um pão que desce do Céu para dar a vida ao mundo. Ali a mulher perguntava-se se Jesus podia ser superior a Jacob, aqui as pessoas se Ele Se pode comparar com Moisés (cfr Ex 16,13). “O Senhor apresentava-Se de tal forma, que aparecia superior a Moisés: jamais teve Moisés a audácia de dizer que ele dava um alimento que não perecia, que permanecia até à vida eterna. Jesus promete muito mais que Moisés. Este prometia um reino, uma terra de arroios de leite e mel, uma paz temporal, filhos numerosos, a saúde corporal e todos os outros bens temporais (…); encher o seu ventre aqui na terra, mas de manjares que perecem; Cristo, pelo contrário, prometia um manjar que, na verdade, não perece mas permanece eternamente” (In Ioann. Evang., 25,12).

Os interlocutores de Jesus sabiam que o maná – alimento que os Judeus recolhiam diariamente no seu caminhar pelo deserto (cfr Ex 16,13 ss. – era símbolo dos bens messiânicos; por isso pedem ao Senhor que realize um portento semelhante. Mas não podiam nem sequer suspeitar que o maná era figura de um grande dom messiânico sobrenatural que Cristo traz aos homens: a Santíssima Eucaristia. Jesus, com este diálogo e a primeira parte do discurso eucarístico (vv. 35-47), procura levá-los antes de mais a um acto de fé n’Ele, para depois lhes revelar abertamente o mistério da Santíssima Eucaristia. Com efeito, Ele é o pão “que desceu do Céu e dá a vida ao mundo” (v. 33). Também São Paulo explica que o maná e os outros prodígios que aconteceram no deserto eram prefiguração clara de Jesus Cristo (cfr 1 Cor 10, 3-4).

A atitude incrédula daqueles judeus incapacitava-os para aceitar a revelação de Jesus. Para reconhecer o mistério da Eucaristia é necessária a fé, como voltou a pôr em realce o Papa Paulo VI: “Antes de mais, queremos recordar uma verdade, por vós bem sabida, mas muito necessária para eliminar todo o veneno de racionalismo, verdade que muitos católicos selaram com o seu próprio sangue e que célebres Padres e Doutores da Igreja professaram e ensinaram constantemente, isto é, que a Eucaristia é um altíssimo mistério, mais ainda, falando com propriedade, como diz a Sagrada Liturgia, o mistério da fé (…). É, pois, necessário que nos aproximemos particularmente deste mistério, com humilde reverência, não buscando razões humanas, que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina” (Mysterium fidei).

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem:

“Que bela é a nossa Fé Católica! – Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração” (Caminho, n° 582).

Dia 29 de abril

Jo 6, 35-40

35Disse-lhes Jesus: Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a Mim nunca terá fome, e aquele que acredita em Mim nunca terá sede. 36No entanto, Eu bem vos disse: Vós vedes-Me, e não acreditais. 37Tudo o que o Pai Me dá há-de vir a Mim, e aquele que vem a Mim não o hei-de repelir, 38porque desci do Céu, não para fazer a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou. 39Ora é esta a vontade d’Aquele que Me enviou: que daquilo que Me deu, Eu nada perca, mas o ressuscite no último dia. 40De facto, é esta a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tenha a vida eterna; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.

Comentário

35. Ir a Jesus é crer n’Ele, porque do Senhor aproximamo-nos pela fé. Com a imagem da comida e da bebida expressa Jesus que Ele é quem realmente sacia todas as nobres aspirações do homem:

“Que bela é a nossa Fé Católica! – Dá solução a todas as nossas ansiedades, e aquieta o entendimento, e enche de esperança o coração” (Caminho, n° 582).

37-40. Jesus revela com clareza que Ele é o Enviado do Pai. Já antes o tinha anunciado São João Baptista (Ioh 3,33-36), e o próprio Jesus o afirmou no diálogo com Nicodemos (Ioh 3,17-21) e o proclamou diante dos Judeus em Jerusalém (Ioh 5,20-30). Visto que Jesus é o enviado do Pai, o pão da vida que desceu do Céu para dar a vida ao mundo, todo aquele que acreditar n’Ele tem a vida eterna, pois a Vontade de Deus é que todos se salvem por meio de Jesus Cristo. Nas palavras de Jesus estão contidos três mistérios: 1) o da fé em Jesus Cristo, que é ir a Jesus aceitando os Seus milagres (sinais) e as Suas palavras; 2) o da ressurreição dos crentes, que se inicia nesta vida pela fé e se cumprirá plenamente no Céu; 3) o da predestinação, que é o desígnio da Vontade de nosso Pai do Céu, de que todos os homens possam salvar-se. Estas palavras solenes do Senhor enchem de esperança o crente.

Santo Agostinho, comentando os vv. 37 e 38, exalta o valor da humildade de Jesus, modelo perfeito da humildade do cristão, ao não querer fazer a Sua vontade, mas a do Pai que O enviou: “Que mistério há aqui tão grande! (…). Eu vim humilde, Eu vim ensinar a humildade; Eu sou o mestre da humildade. Aquele que vem a Mim, incorpora-se a Mim; aquele que vem a Mim torna-se humilde, e aquele que adere a Mim será humilde, porque não faz a sua vontade, mas a de Deus” (In Ioann. Evang., 25,15 e 16).

Dia 30 de abril

Jo 6, 44-51

44Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, o não atrair; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 45Está escrito nos Profetas: Serão todos instruídos por Deus. Todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai vem a Mim. 46Não é que alguém tenha visto o Pai, senão Aquele que vem de Deus; Esse é que viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que acredita possui a vida eterna!

48Eu sou o Pão da Vida. 49Vossos pais, no deserto, comeram o maná, e morreram. 50Tal é o pão que desce do Céu: quem dele comer não morrerá. 51Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer este pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo.

Comentário

44-45. O ir a Cristo até O encontrar é um dom gratuito que nenhum homem pode conseguir só com as suas próprias forças, embora todos devam estar bem dispostos para O receber. O Magistério da Igreja voltou a recordar esta doutrina no Concilio Vaticano II: “Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá ‘a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade'” (Dei Verbum, n. 5).

Jesus ao dizer que “serão todos instruídos por Deus”, evoca Is 54,13 e Ier 31,33 ss., onde ambos os profetas se referem à futura Aliança que Deus estabelecerá com o Seu povo quando chegar o Messias, com cujo Sangue ficará selada para sempre, e que Deus escreverá nos seus corações (cfr Is 53,10-12; Ier 31,31-34).

“Que ouviu e aprendeu do Pai”: Pode traduzir-se também “o que vem do Pai”. Refere-se à Revelação de Deus pelos profetas e especialmente por Jesus Cristo.

46. Nós, os homens, só podemos conhecer a Deus Pai através de Jesus Cristo, porque Ele é o único que O viu e veio para no-Lo revelar. Já tinha dito São João no prólogo: “A Deus ninguém O viu jamais; o Deus Unigênito, O que está no seio do Pai, Ele mesmo O deu a conhecer” (Ioh 1,18). Mais tarde dirá Jesus a Filipe na Última Ceia: “Aquele que Me viu a Mim viu o Pai” (Ioh 14,9), porque Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele (cfr Ioh 14,6).

Com efeito, em Jesus Cristo culmina a Revelação de Deus aos homens: “Pois enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr Ioh 1,1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado ‘como homem para os homens’, ‘fala, portanto, as palavras de Deus’ (Ioh 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cfr Ioh 5,36; 17,4). Por isso, quem vê a Jesus Cristo vê o Pai (cfr Ioh 14,9)” (Dei Verbum, n. 4).

48. Com esta solene declaração repetida diante das dúvidas dos ouvintes (cfr Ioh 6,35.41.48), Jesus começa a segunda parte do Seu discurso, em que directamente revela o grande mistério da Santíssima Eucaristia. As palavras de Cristo são de um realismo tão forte que excluem qualquer interpretação em sentido figurado: se Cristo não estivesse realmente presente sob as espécies do pão e do vinho, este discurso careceria absolutamente de sentido e de força. Por outro lado, aceite pela fé a presença real de Cristo na Eucaristia, as Suas palavras são inequívocas e mostram o infinito e íntimo amor de Cristo por nós.

É tão grande este mistério que foi sempre pedra de toque da fé cristã. “Eis o mistério da fé”, proclama-se imediatamente depois da Consagração na Santa Missa. Já para certos ouvintes directos de Jesus este discurso foi motivo de escândalo (cfr vv. 60-66). Ao longo da história alguns procuraram mitigar o sentido óbvio das palavras do Senhor. O Magistério da Igreja voltou nos nossos dias a expor a doutrina sobre este excelso mistério: “Realizada a transubstanciação, as espécies de pão e de vinho adquirem sem dúvida um novo significado e um novo fim, visto que já não são o pão ordinário e a bebida ordinária, mas o sinal de uma coisa sagrada, sinal de um alimento espiritual; mas adquirem um novo significado e um novo fim enquanto contêm uma ‘realidade’, que com razão denominamos ontológica; porque debaixo de tais espécies já não existe o que havia antes, mas uma coisa completamente diversa (…), visto que convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, não fica já nada do pão e do vinho, mas apenas as espécies: debaixo delas Cristo todo inteiro está presente na Sua ‘realidade’ física, mesmo corporalmente, ainda que não do mesmo modo como os corpos estão num lugar.

“Por isso os Padres tiveram grande cuidado em advertir os fiéis que ao considerar este augustíssimo Sacramento, confiassem não nos sentidos que se fixam nas propriedades do pão e do vinho, mas nas palavras de Cristo, que têm tal força que mudam, transformam, ‘transelementam’ o pão e o vinho no Seu Corpo e no Seu Sangue; porque, como mais de uma vez o afirmam os mesmos Padres, o poder que realiza isto é a própria força de Deus omnipotente que no princípio do tempo criou o universo do nada” (Mysterium fidei).

49-51. O maná do Êxodo era figura deste Pão – o próprio Jesus Cristo – que alimenta os cristãos no seu peregrinar por este mundo. A comunhão é o maravilhoso banquete em que Cristo Se nos dá a Si mesmo: “O pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo”. Estas palavras são a promessa da instituição da Eucaristia na Última Ceia: “Isto é o Meu Corpo que é entregue por vós” (1 Cor 11,22). As expressões “pela vida do mundo”, “por vós” aludem ao valor redentor da imolação de Cristo na Cruz. Já em alguns sacrifícios do Antigo Testamento, que eram figura do de Cristo, parte da carne oferecida servia de alimento e significava a participação no rito sagrado (cfr Ex 11,3-4). Assim, quando comungamos, participamos do sacrifício de Jesus Cristo. Por isso canta a Igreja na Liturgia das Horas na festa do Corpus Christi: “Oh banquete sagrado em que Cristo é nossa comida, se celebra o memorial da Paixão, a alma se enche de graça e nos é dado um penhor da futura glória” (Antífona do ‘Magnificat’ nas Segundas Vésperas).

Dia 1º de maio

Jo 6, 52-59

52Puseram-se então os Judeus a disputar entre si, dizendo: Como pode Ele dar-nos a carne a comer?! 53Jesus disse-lhes então: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 55É que a Minha carne é verdadeiramente uma comida, e o Meu sangue é verdadeiramente uma bebida. 56Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue fica em Mim e Eu nele. 57Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim, 58Tal é o pão que desceu do Céu: não é como aquele que os nossos pais comeram, e morreram; quem come deste pão viverá eternamente.

59Isto disse Ele, estando a ensinar na sinagoga, em Cafarnaum.

Comentário

52. Os ouvintes compreendem perfeitamente o sentido próprio e directo das palavras do Senhor; mas não crêem que tal afirmação possa ser verdade; se as tivessem entendido em sentido figurado ou simbólico não lhes teria causado tão grande estranheza nem se teria produzido a discussão. Jesus depois insistirá na Sua afirmação confirmando o que eles tinham entendido (cfr vv. 54-56).

53. Jesus reitera com grande força a necessidade de O receber na Eucaristia para participar na vida divina, para que cresça e se desenvolva a vida da graça recebida no Baptismo. Nenhum pai se contenta com dar a existência aos seus filhos, mas proporciona-lhes alimentos e meios para que possam chegar à maturidade. “Recebemos Jesus Cristo na Sagrada Comunhão para que seja alimento das nossas almas, nos aumente a graça e nos dê a vida eterna” (Catecismo da Doutrina Cristã, n° 289).

54. Jesus afirma claramente que o Seu Corpo e o Seu Sangue são penhor da vida eterna e garantia da ressurreição corporal. São Tomás de Aquino dá esta explicação: “O Verbo dá a vida às almas, mas o Verbo feito carne vivifica os corpos. Neste Sacramento não se contém só o Verbo com a Sua divindade mas também com a Sua humanidade; portanto, não é só causa da glorificação das almas, mas também dos corpos” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

O Senhor emprega uma expressão mais forte que o mero comer (o verbo original poderia traduzir-se por “mastigar”, exprimindo assim o realismo da Comunhão: trata-se de uma verdadeira refeição. Não há lugar, pois, para uma interpretação simbólica, como se participar na Eucaristia fosse apenas uma metáfora, e não o comer e beber realmente o Corpo e o Sangue de Cristo.

“Estes convites, estas promessas e estas ameaças nascem todas do grande desejo que tem (Jesus) de Se unir a nós neste Sacramento. Mas, por que deseja tanto Jesus Cristo que vamos recebê-Lo na sagrada Comunhão? Eis a razão: o amor (…) sempre aspira e tende à união e, como diz São Tomás, ‘os amigos que se amam de coração quereriam estar de tal modo unidos que não formassem mais que um só’. Isto passou com o imenso amor de Deus aos homens, que não esperou para Se dar por completo no Reino dos Céus, mas ainda nesta terra deixou-Se possuir pelos homens com a mais íntima posse que se possa imaginar, ocultando-Se sob as aparências de pão no Santíssimo Sacramento. Ali está como detrás de um muro, e dali nos contempla como através de gelosias (cfr Cant 2,9). Ainda que nós não O vejamos, Ele olha para nós dali, e ali Se encontra realmente presente, para permitir que o possuamos, embora Se oculte para que O desejemos. E até que cheguemos à pátria celeste, Jesus quer deste modo entregar-Se-nos completamente e viver assim unido connosco” (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

55. Assim como o alimento corporal é necessário para a vida terrena, a sagrada Comunhão é necessária para manter a vida da alma. Por isto a Igreja exortou sempre a receber este Sacramento com freqüência: “Diariamente, como é de desejar, os fiéis em grande número participem activamente no Sacrifício da Missa, alimentem-se com coração puro e santo da sagrada Comunhão, e dêem graças a Cristo Nosso Senhor por tão grande dom. Recordem estas palavras: ‘O desejo de Jesus e da Igreja de que todos os fiéis se aproximem diariamente do sagrado banquete consiste sobretudo nisto: que os fiéis, unidos a Deus em virtude do sacramento, tirem dele força para dominar a sensualidade, para se purificarem das culpas leves quotidianas e para evitar os pecados graves, a que está sujeita a ‘humana fragilidade’ (Decr. da S. Congregação do Concilio de 20-XII-1905)” (Mysterium fidei).

“O Salvador instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, que contém realmente a Sua Carne e o Seu Sangue, para que aquele que comer d’Ele viva eternamente; por isso, todo aquele que usa devota e freqüentemente deste Sacramento assegura de tal maneira a salvação da sua alma, que é quase impossível que qualquer sorte de má afeição lhe ocasione a morte. Não se pode estar alimentado por esta carne de vida e viver dos afectos da morte (…). Os cristãos que se condenarem ficarão sem saber que replicar quando o justo Juiz lhes fizer ver o insensatos que foram morrer espiritualmente, podendo ter conservado com tanta facilidade a saúde da alma comendo do Corpo que Ele lhes deixou para este fim. Miseráveis, dir-lhes-á, como é que estais mortos, tendo-vos mandado comer o fruto e manjar da vida?” (Introdução à vida devota, p. II, c. 20,1).

56. O efeito mais importante da Santíssima Eucaristia é a união íntima com Jesus Cristo. O próprio nome de Comunhão indica esta participação unitiva na Vida do Senhor: se em todos os sacramentos, por meio da graça que nos conferem, se consolida a nossa união com Jesus, esta é mais intensa na Eucaristia, visto que não só nos dá a graça, mas o próprio Autor da graça: “Participando realmente do Corpo do Senhor na fracção do pão eucarístico, somos elevados a uma comunhão com Ele e entre nós. ‘Porque o pão é um, somos muitos um só corpo, pois todos participamos de um único pão’ (1 Cor 10,17)” (Lumen gentium, n. 7). Precisamente por ser a Eucaristia o sacramento que melhor significa a nossa união com Cristo, é ao mesmo tempo onde toda a Igreja mostra e leva a cabo a sua unidade: Jesus Cristo “instituiu na Sua Igreja o admirável sacramento da Eucaristia, pelo qual se significa e se realiza a unidade da Igreja” (Unitatis redintegratio, n. 2).

57. Em Cristo, o Verbo encarnado e enviado ao mundo “habita toda a plenitude da divindade corporalmente” (Col 2,9) pela inefável união da Sua natureza humana com a natureza divina na Pessoa do Verbo. Ao recebermos neste sacramento a Carne e o Sangue de Cristo indissoluvelmente unidos à Sua divindade, participamos na própria vida divina da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Nunca apreciaremos suficientemente a intimidade e a proximidade com o próprio Deus – Pai, Filho e Espírito Santo -, que Se nos oferece no banquete eucarístico.

“Sendo isto assim, devíamos confessar que a alma não pode fazer nem pensar coisa mais agradável a Jesus Cristo do que hospedar no seu coração, com as devidas disposições, hóspede de tanta majestade, porque desta maneira se une a Jesus Cristo, que tal é o desejo de tão enamorado Senhor. Disse que se deve receber a Jesus não com as disposições dignas, mas com as devidas, porque, se fosse necessário ser digno deste sacramento, quem jamais poderia comungar? Só um Deus poderia ser digno de receber um Deus. Digo dignas no sentido em que convém à mísera criatura vestida da pobre carne de Adão. Ordinariamente falando, basta que a alma se encontre em graça de Deus e com vivo desejo de aumentar nela o amor a Jesus Cristo” (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 2).

58. Pela terceira vez (cfr 6,31-32 e 6,49) Jesus compara o verdadeiro pão da vida, o Seu próprio Corpo, com o maná, com que Deus tinha alimentado os Hebreus diariamente durante quarenta anos no deserto. Assim, faz um convite a alimentar freqüentemente a nossa alma com o manjar do Seu Corpo.

“Quantos anos a comungar diariamente! – Outro seria santo – disseste-me – e eu, sempre na mesma!

– Filho – respondi-te – continua com a Comunhão diária, e pensa: que seria de mim, se não tivesse comungado?” (Caminho, n° 534).

Dia 2 de maio

Jo 6, 60-69

60Muitos dos discípulos disseram, depois de O ouvirem: É dura esta linguagem; quem pode escutá-la? 61Conhecendo Jesus interiormente que os discípulos murmuravam do assunto, perguntou-lhes: Isto fere-vos? 62E se virdes o Filho do homem a subir para onde estava anteriormente? 63O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. 64Mas há alguns dentre vós que não acreditam. De facto, Jesus bem sabia desde o início quem eram os que não acreditavam e quem era aquele que O havia de entregar. 65E foi acrescentando: Por isso é que vos disse: “Ninguém pode vir a Mim, se isso lhe não está concedido pelo Pai”. 66A partir de então, muitos dos discípulos se retiraram e já não andavam com Ele.

67Disse então Jesus aos doze: Também vós quereis partir? 68Respondeu-Lhe Simão Pedro: Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! 69E nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!

Comentário

60-62. O mistério eucarístico aparece incompreensível para muitos dos ouvintes. Jesus Cristo exige dos Seus discípulos que aceitem as Suas palavras por ser Ele quem as diz. Nisto consiste o acto sobrenatural da fé: “em que, com inspiração e ajuda da graça de Deus, cremos ser verdadeiro o que por Ele foi revelado, não pela verdade intrínseca das coisas percebidas pela luz natural da razão, mas pela autoridade do próprio Deus que revela, o qual não pode nem enganar-Se nem enganar-nos” (Dei Filius, cap. 3).

Como noutras ocasiões, Jesus Cristo fala de acontecimentos futuros, preparando assim a fé dos Seus discípulos: “Disse-vo-lo agora, antes que suceda, para que quando acontecer creiais” (Ioh 14,29).

63. Jesus diz que não podemos aceitar este mistério pensando de modo carnal, isto é atendendo exclusivamente ao que apreciam os nossos sentidos ou partindo de uma visão das coisas meramente natural. Só quem escuta as Suas Palavras e as recebe como revelação de Deus, que é “espírito e vida”, está disposto a aceitá-las.

66. A promessa da Eucaristia, que tinha provocado naqueles ouvintes de Cafarnaum discussões (v. 52) e escândalo (v. 61), acaba por produzir o abandono de muitos que O tinham seguido. Jesus tinha exposto uma verdade maravilhosa e salvífica, mas aqueles discípulos fechavam-se à graça divina, não estavam dispostos a aceitar algo que superava a sua mentalidade estreita. O mistério da Eucaristia exige um especial acto de fé. Por isso, já São João Crisóstomo aconselhava: “Inclinemo-nos diante de Deus; não O contradigamos, mesmo quando o que Ele diz possa parecer contrário à nossa razão e à nossa inteligência (…). Observemos esta mesma conduta relativamente ao mistério (eucarístico), não considerando somente o que cai debaixo dos sentidos, mas atendendo às Suas palavras. Porque a Sua palavra não pode enganar” (Hom. sobre S. Mateus, 82).

Dia 3 de maio

Jo 10, 11-18

11Eu sou o bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. 12O que é mercenário e não é pastor, ao qual não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa, 13porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. 14Eu sou o bom Pastor: conheço as que são Minhas e elas conhecem-Me, 15assim como o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; e Eu dou a vida pelas Minhas ovelhas. 16Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste aprisco. A essas, também, tenho Eu de conduzir, e elas hão-de ouvir a Minha voz. Então passará a haver um só rebanho, um só Pastor. 17É por isto que Meu Pai Me ama: por Eu dar a Minha vida, para retomá-la. 18Ninguém Ma tira; sou Eu que a dou por Mim mesmo. Tenho o poder de a dar e o poder de a retomar; foi esta a ordem que recebi de Meu Pai.

Comentário

11-15. “O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas”: “Fala aqui Jesus – comenta São João Crisóstomo – da Sua Paixão, e mostra que ia acontecer para salvação do mundo, e que a sofreria voluntária e livremente” (Hom. sobre S. João, 59,3). Antes o Senhor falou de pastos abundantes, agora de dar a Sua própria vida: “Fez o que tinha dito – comenta São Gregório -, deu a Sua vida pelas Suas ovelhas, e entregou o Seu Corpo e Sangue no Sacramento para alimentar com a Sua carne as ovelhas que tinha redimido” (In Evangelia homiliae, 14, ad loc.). Os assalariados, pelo contrário, fogem diante do perigo, e deixam que o rebanho se perca. “Quem é o mercenário? O que vê vir o lobo e foge. O que busca a sua glória, não a glória de Cristo; o que não se atreve a reprovar com liberdade de espírito os pecadores (…) porque te calaste; e calaste-te, porque tiveste medo” (In Ioann. Evang., 46,8).

“Recordem-se estes de que o seu ministério sacerdotal (…) está – de modo particular – ordenado para a grande solicitude do Bom Pastor, que é a solicitude pela salvação de todos os homens. E todos devemos recordar bem isto: que não é lícito a nenhum de nós merecer-se o nome de ‘mercenário’, ou seja, de alguém ‘a quem as ovelhas não pertencem’, de alguém que ‘ao ver chegar o lobo, abandona as ovelhas e foge; e assim o lobo as arrebata e dispersa; porque é mercenário, não se preocupa em nada com as ovelhas’. A solicitude de todo o bom Pastor é por que os homens ‘tenham a vida, e a tenham em abundância’, a fim de que nenhum deles se perca, mas tenham a vida eterna. Façamos com que uma tal solicitude penetre profundamente nas nossas almas: procuremos vivê-la. Que ela caracterize a nossa personalidade e esteja sempre na base da nossa identidade sacerdotal” (Carta a todos os sacerdotes, n.° 7)

O Bom Pastor conhece cada uma das suas ovelhas, chama-as pelo seu nome. Nesta comovente figura entrevê-se uma exortação aos futuros pastores da Igreja, como mais tarde explicará São Pedro: “Que apascenteis a grei de Deus posta ao vosso cuidado, velando sobre ela com afectuosa vontade, segundo Deus, não por sórdido interesse, mas gratuitamente” (1 Pet 5,2).

“A santidade da Esposa de Cristo sempre se provou – e continua a provar-se actualmente – pela abundância de bons pastores. Mas a fé cristã, que nos ensina a ser simples, não nos leva a ser ingênuos. Há mercenários que se calam e há mercenários que pregam uma doutrina que não é de Cristo. Por isso, se porventura o Senhor permite que fiquemos às escuras, inclusivamente em coisas de pormenor, se sentimos falta de firmeza na fé, recorramos ao bom pastor, àquele que entra pela porta com toda a legitimidade, àquele que – dando a vida pelos outros – quer ser, na palavra e na conduta, uma alma movida pelo amor; àquele que talvez seja também um pecador, mas que confia sempre no perdão e na misericórdia de Cristo” (Cristo que passa, n° 34).

16. “Um só rebanho, um só pastor”: A missão de Cristo é universal ainda que a Sua pregação se dirigisse de facto, numa primeira etapa, às ovelhas da casa de Israel, como Ele mesmo manifestou à mulher cananeia (cfr Mt 15,24), e enviasse os Apóstolos, na sua primeira missão (cfr Mt 10,6), a pregar aos israelitas. Agora, porém, pensando nos frutos da Sua morte redentora (v. 15), revela que estes se aplicarão a “outras ovelhas que não são deste aprisco”, isto é, de Israel. Na verdade, os Apóstolos, depois da Ressurreição, serão enviados por Cristo a todas as gentes (cfr Mt 28,19) para pregar o Evangelho a todas as criaturas (cfr Mc 16,15), começando por Jerusalém e continuando pela Judeia, Samaria e até aos confins da terra (cfr Act 1,8). Deste modo se cumprirão as antigas promessas sobre o reinado universal do Messias (cfr Ps 2,7; Is 2,2-6; 66,17-19). A universalidade da salvação faz exclamar a São Paulo: “Recordai como noutro tempo vós… estáveis longe de Cristo, excluídos da cidadania de Israel e estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós, os que noutro tempo estáveis longe, tornastes-vos próximos pelo sangue de Cristo” (Eph 2,11-13; cfr Gal 3,27-28; Rom 3,22).

A unidade da Igreja dá-se sob uma só cabeça visível porque “o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança – ensina o Concilio Vaticano II – ao único colégio apostólico, a cuja cabeça está Pedro, com o fim de constituir na terra um só Corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus” (Unitatis redintegratio, n. 3). O desejo constante dos católicos é que todos os homens cheguem à verdadeira Igreja, que sendo “a única grei de Deus, como um sinal levantado entre as nações, peregrina cheia de esperança para a pátria celestial oferecendo o Evangelho da paz a todo o gênero humano” (Ibid., n. 2).

17-18. Jesus explica agora a vontade livre com que Se entrega à morte para bem do Seu rebanho (cfr Ioh 6,51). Cristo, por ter recebido pleno poder, tem liberdade para Se oferecer em sacrifício expiatório, e submete-Se voluntariamente ao mandato do Pai num acto de perfeita obediência.

“Nunca poderemos entender perfeitamente a liberdade de Jesus Cristo, imensa, infinita, como o Seu amor. Mas o tesouro preciosíssimo do Seu generoso holocausto deve levar-nos a pensar: porque me deste, Senhor, este privilégio com que sou capaz de seguir os Teus passos, mas também de Te ofender? E assim acabamos por avaliar o recto uso da liberdade, quando se decide em função do bem; e a sua errada orientação, quando, com essa faculdade, o homem se esquece e se afasta do Amor dos amores” (Amigos de Deus, n° 26).