dia 25 a 31 de janeiro de 2010

Dia 25 de janeiro

Mc 16, 15-18

15E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acreditar e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem acompanhá-los-ão estes milagres: em Meu nome expulsarão Demônios, falarão novas línguas, 18pegarão em serpentes e, se beberem peçonha, não lhes fará mal, imporão as mãos aos doentes, e eles recobrarão saúde.

Comentário

15. Este versículo contém o chamado mandato apostólico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Apóstolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda “a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efectivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a actividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo” (Apostolicam actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus actua directamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: “A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra” (Ibid., n. 3).

16. Como conseqüência da proclamação da Boa Nova ensina-se neste versículo que a fé e o Baptismo são requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. A conversão à fé de Jesus Cristo há-de levar directamente ao Baptismo, que nos “confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original e também os actuais, se os houver; remete toda a pena por eles devida; imprime o carácter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos” (Catecismo Maior, n. 553).

O Baptismo é absolutamente necessário para o homem se salvar, como se depreende destas palavras do Senhor. Mas a impossibilidade física do rito baptismal pode ser suprida ou pelo martírio, que é chamado baptismo de sangue, ou por um acto perfeito de amor de Deus ou de contrição, unidos ao desejo, pelo menos implícito, de ser baptizado; a isto chama-se baptismo de desejo (cfr Ibid., n. 567-568).

Relativamente ao Baptismo das crianças, já Santo Agostinho ensinava que “de nenhum modo se pode rejeitar nem considerar como desnecessário o costume da Santa Madre Igreja de baptizar as crianças; antes pelo contrário, há que admiti-lo forçosamente por ser tradição apostólica” (De Gen. ad litt., 10,23,39). O novo Código de Direito Canónico assinala a necessidade de que as crianças sejam baptizadas: “Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam baptizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nascimento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramente para o filho e preparem-se devidamente para ele” (cân. 867 § 1).

Outra conseqüência ligada intimamente à anterior é a necessidade da Igreja, como declara o Concilio Vaticano II: “Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr Mc 16,16; Ioh 3,5), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar” (Lumen gentium, n. 14; cfr Presbyterorum ordinis, n. 4; Ad gentes, nn. 1.3; Dignitatis humanae, n. 11).

17-18. Nos primeiros tempos da expansão da Igreja, estes factos miraculosos que Jesus anuncia cumpriram-se de modo freqüente e visível. Os testemunhos históricos destes acontecimentos são abundantíssimos no Novo Testamento (cfr, p. ex. Act 3,1-11; 28,3-6) e noutros escritos cristãos antigos. Era muito conveniente que assim sucedesse para mostrar ao mundo de uma maneira palpável a verdade do cristianismo. Mais tarde, continuaram a realizar-se milagres deste tipo, mas em menor número, como casos excepcionais. Também é conveniente que assim seja porque, por um lado, a verdade do Cristianismo está já suficientemente atestada; e, por outro, para dar lugar ao mérito da fé. “Os milagres – comenta São Jerónimo – foram precisos ao princípio para confirmar com eles a fé. Mas, uma vez que a fé da Igreja está confirmada, os milagres não são necessários” (Comm. in Marcum, ad loc.). De qualquer modo, Deus continua a realizar milagres através dos santos de todos os tempos, também dos actuais.

Dia 26 de janeiro

Lc 10, 1-9

1Depois disto, designou o Senhor outros setenta e dois e mandou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Dizia-lhes Ele: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide e olhai que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem saco, nem sandálias. Não cumprimenteis ninguém pelo caminho. 5Em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: “Paz a esta casa”. 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele irá repousar a vossa paz. Senão, a vós há-de voltar. 7Ficai nessa mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade onde entrardes e vos receberem, comei o que vos servirem, 9curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: “Está perto de vós o Reino de Deus”.

Comentário

1-12. Entre os que seguiam o Senhor e tinham sido chamados por Ele (cfr Lc 9,57-62), além dos Doze, havia numerosos discípulos (cfr Mc 2,15). Os nomes da maioria são para nós desconhecidos; não obstante, entre eles contavam-se com toda a segurança aqueles que estiveram com Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão do Senhor: por exemplo, José chamado Barsabas e Matias (cfr Act 1,21-26). De modo semelhante podemos incluir Cléofas e o seu companheiro, aos quais Cristo ressuscitado apareceu no caminho de Emaús (cfr Lc 24,13-35).

De entre todos aqueles discípulos, o Senhor escolhe setenta e dois para uma missão concreta. Exige-lhes, tal como aos Apóstolos (cfr Lc 9, 1-5), desprendimento total e abandono completo à Providência divina.

Desde o Baptismo cada cristão é chamado por Cristo a cumprir uma missão. Com efeito, a Igreja, em nome do Senhor “pede instantemente a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. Os mais novos tomem como dirigido a si de modo particular este chamamento, e recebam-no com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste sagrado Concílio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e sentindo como próprio o que é d’Ele (cfr Phil 2,5), se associem à Sua missão salvadora. É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há-de chegar (cfr Lc 10,1); para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, trabalhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cfr l Cor 15, 28)” (Apostolicam actuositatem, n. 33).

3-4. Cristo quer inculcar nos Seus discípulos a audácia apostólica; por isso diz “Eu vos envio”, que São João Crisóstomo comenta: “Isto basta para vos dar ânimo, isto basta para que tenhais confiança e não temais os que vos atacam” (Hom. sobre S. Mateus, 33). A audácia dos Apóstolos e dos discípulos vinha desta confiança segura de terem sido enviados pelo próprio Deus: actuavam, como explicou com firmeza o próprio Pedro ao Sinédrio, em nome de Jesus Cristo Nazareno, “pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual podemos salvar-nos” (Act 4,12).

“E continua o Senhor – acrescenta São Gregório Magno – ‘Não leveis bolsa nem saco nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho’. Tanta deve ser a confiança que há-de ter em Deus o pregador, que ainda que não se proveja das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que não lhe hão-de faltar, não seja que enquanto se ocupa em prover-se das coisas temporais, deixe de procurar para os outros as eternas” (In Evangelia homiliae, 17). O apostolado exige uma entrega generosa que leva ao desprendimento: por isso, Pedro, o primeiro a pôr em prática o mandamento do Senhor, quando o mendigo da Porta Formosa lhe pediu uma esmola (Act 3,2-3), disse: “Não tenho ouro nem prata” (Ibid., 3,6), “não tanto para se gloriar na pobreza – assinala Santo Ambrósio – como da sua obediência ao mandamento do Senhor, como dizendo: vês em mim um discípulo de Cristo, e pedes-me ouro? Ele deu-nos algo muito mais valioso que o ouro, o poder de agir em Seu nome. Não tenho o que Cristo não me deu, mas tenho o que me deu: ‘Em nome de Jesus, levanta-te e anda’ (Act 3,6) ” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). O apostolado exige, portanto, desprendimento dos bens materiais; e também exige estar sempre dispostos, porque a tarefa apostólica é urgente.

“Não cumprimenteis ninguém pelo caminho”: “Como pode ser – pergunta-se Santo Ambrósio – que o Senhor queira eliminar um costume tão cheio de humanidade? Considera, porém, que não diz apenas ‘não cumprimenteis ninguém’, mas que acrescenta ‘pelo caminho’. E isto não é supérfluo.

“Também Eliseu, quando enviou o seu servo a impor o seu bastão sobre o corpo do menino morto, lhe mandou que não cumprimentasse ninguém pelo caminho (2 Reg 4,29): deu-lhe ordem de se apressar para cumprir com rapidez a tarefa e realizar a ressurreição, não acontecesse que, por se entreter a falar com algum transeunte, atrasasse o seu encargo. Aqui não se trata então de evitar a urbanidade de cumprimentar, mas de eliminar um possível obstáculo ao serviço; quando Deus manda, o humano deve ser deixado a um lado, pelo menos por algum tempo. Cumprimentar é uma coisa boa, mas melhor é executar quanto antes uma ordem divina que ficaria muitas vezes frustrada por um atraso” (Ibid.).

6. “Homem de paz” é todo o homem que está disposto a receber a doutrina do Evangelho, que traz a paz de Deus. A recomendação do Senhor aos discípulos de que anunciem a paz há-de ser uma constante em toda a acção apostólica dos cristãos: “O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural; significa a difusão do bem, o contágio do desejo de amar, uma sementeira concreta de paz e de alegria” (Cristo que passa, n.° 124).

O sentir a paz na nossa alma e à nossa volta é sinal inequívoco de que Deus vem a nós, e um fruto do Espírito Santo (cfr Gal 5,22): “Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. – Não é de Deus o que rouba a paz da alma.

Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação” (Caminho, n.° 258).

7. Está claro que o Senhor considera que a pobreza e o desprendimento dos bens materiais há-de ser uma das principais características do apóstolo (vv. 3-4). Não obstante, consciente das necessidades materiais dos Seus discípulos, deixa assente o princípio de que o ministério apostólico merece a sua retribuição. Por isso o Concílio Vaticano II recorda a obrigação que todos temos de contribuir para a sustentação dos que generosamente se entregam ao serviço da Igreja: “Entregues ao serviço de Deus, pelo desempenho do cargo que lhes foi confiado, os presbíteros são merecedores da justa recompensa, visto que o operário é digno do seu salário (Lc 10,7) e o Senhor ordenou àqueles que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho (l Cor 9,14). Por isso, onde não se tiver providenciado de outra maneira a justa remuneração dos presbíteros, os mesmos fiéis, em cujo benefício eles trabalham, têm verdadeira obrigação de procurar os meios necessários para que levem uma vida digna e honesta” (Presbyterorum ordinis, n. 20).

Dia 27 de janeiro

Mc 4, 1-20

1E Jesus começou outra vez a ensinar à beira-mar. Juntou-se logo à volta d’Ele uma grandíssima multidão, tanto que teve de subir e sentar-Se numa barca, no meio da água, enquanto todo o povo estava em terra, ao longo do mar. 2Ensinava-lhes então muitas coisas em parábolas e dizia-lhes na Sua exposição: 3Ouvi: Saiu o semeador a semear. 4E sucedeu que, ao semear, uma semente caiu ao longo do caminho, e vieram os pássaros e comeram-na. 5Outra caiu em terreno pedregoso, onde não tinha muita terra; e logo brotou, porque a terra era pouco funda. 6Mas, quando nasceu o sol, ficou queimada e, como não tinha raiz, secou. 7Outra ainda caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na, e não deu fruto. 8Outras enfim caíram em terra boa e, crescendo e vicejando, davam fruto e produziam a trinta, a sessenta e a cem por um. 9E dizia: Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.

10Quando, depois, Se encontrou sozinho, os discípulos com os doze interrogaram-No sobre as parábolas, 11e Ele dizia-lhes: A vós foi-vos dado o mistério do Reino de Deus. Mas àqueles que são de fora tudo se propõe em parábolas, 12para que, olhando, olhem e não vejam; ouvindo, oiçam e não compreendam; não seja que se convertam e que se lhes perdoe.

13E acrescentou: Não entendeis esta parábola? E como podereis compreender todas as parábolas? 14O semeador semeia a palavra. 15Os que estão ao longo do caminho onde é semeada a palavra, são aqueles que apenas ouvem, logo vem Satanás e tira a palavra neles semeada. 16Do mesmo modo, os que recebem a semente em terreno pedregoso são os que apenas ouvem a palavra, logo a recebem com alegria, 17mas não têm raiz em si mesmos, pois são volúveis; sobrevindo depois alguma tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam. 18Outros são os que recebem a semente entre os espinhos. Estes são os que ouvem a palavra, 19mas os cuidados do século e a alucinação das riquezas e as outras paixões a que dão entrada sufocam a palavra, e fica infrutuosa. 20Os que recebem a semente em terra boa são aqueles que ouvem a palavra e a acolhem e dão fruto a trinta, a sessenta e a cem por um.

Comentário

1-34. As parábolas são um modo peculiar da pregação de Jesus Cristo. Por meio delas, o Senhor vai descobrindo paulatinamente os mistérios do Reino de Deus aos Seus ouvintes. O capítulo 4 de São Marcos, ainda que mais reduzido, é o equivalente do capítulo 13 de São Mateus, e do capítulo 8, 4-18 de São Lucas, que é o mais breve dos Sinópticos relativamente a este grupo de parábolas do Reino.

1-9. O cristão corrente, que busca a santidade através do seu trabalho ordinário, não pode deixar de comover-se diante da freqüência com que o Senhor recorre nas Suas parábolas a exemplos tomados desse mesmo trabalho: “O próprio Jesus, nas Suas parábolas sobre o Reino de Deus, refere-Se constantemente ao trabalho humano: ao trabalho do pastor (por ex. Ioh 10,1-6), do agricultor (cfr Mc 12,1-12), do médico (cfr Lc 4,23), do semeador (cfr Mc 4,1-9), do patrão (cfr Mt 13,52), do servo (cfr Mt 24,45; Lc 12,42-48), do feitor (cfr Lc 16,1-8), do pescador (cfr Mt 13,47-50), do comerciante (cfr Mt 13,45-46) e do operário (cfr Mt 20,1-16). Fala também das diversas actividades das mulheres (cfr Mt 13,33; Lc 15,8-9). Apresenta o apostolado sob a imagem do trabalho braçal dos ceifeiros (cfr Mt 9,37; Ioh 4,35-38) ou dos pescadores (cfr Mt 4,19). Refere-Se, enfim, também ao trabalho dos estudiosos (cfr Mt 13,52)” (Laborem exercens, n. 26).

3-9. Com a parábola do semeador Jesus quer mover os que O escutam a que abram generosamente o seu coração à palavra de Deus e a ponham em prática (cfr Lc 11,28). Essa mesma docilidade é a que Deus espera também de cada um de nós:

“A cena é actual. O semeador divino lança agora, também, a sua semente. A obra da salvação continua a cumprir-se e o Senhor quer servir-Se de nós: deseja que nós, os cristãos, abramos ao Seu amor todos os caminhos da Terra; convida-nos a propagar a mensagem divina, com a doutrina e com o exemplo, até aos últimos recantos do mundo (…). Se olharmos à nossa volta, para este mundo que amamos porque foi feito por Deus, dar-nos-emos conta de que se verifica a parábola: a palavra de Jesus Cristo é fecunda, suscita em muitas almas desejos de entrega e de fidelidade. A vida e o comportamento dos que servem Deus mudaram a história e inclusivamente muitos dos que não conhecem o Senhor regem-se – talvez sem sequer o advertirem – por ideais nascidos do Cristianismo.

Vemos também que parte da semente cai em terra estéril, ou entre espinhos e abrolhos: há corações que se fecham à luz da fé. Os ideais de paz, de reconciliação, de fraternidade, são aceites e proclamados, mas – não poucas vezes – são desmentidos com os factos. Alguns homens empenham-se inutilmente em afogar a voz de Deus, impedindo a sua difusão com a força bruta ou então com uma arma, menos ruidosa, mas talvez mais cruel, porque insensibiliza o espírito: a indiferença” (Cristo que passa, n° 150).

A parábola do semeador ensina também a admirável economia da Providência divina, que distribui graças diversas entre os homens, mas a todos as suficientes para conseguir a salvação:

“A divina Providência concedeu uma graça incomparável à Rainha das rainhas, Mãe do Amor Formoso, singularmente perfeita. Também concedeu favores extraordinários a outros seres. Depois, esta Bondade soberana derramou abundantes bênçãos sobre o gênero humano e sobre a natureza angélica (…). Todos receberam a sua parte como de sementeira que cai não só no terreno bom, mas também pelo caminho, entre os espinhos e as pedras, a fim de que todos fiquem inescusáveis diante do Redentor se não empregam redenção tão superabundante para a sua própria salvação eterna” (Tratado do amor de Deus, livro 2, cap. 7).

11-12. O Reino de Deus é um mistério. Se os Doze o conheceram, foi por pura concessão da misericórdia de Deus, não porque eles pelas suas próprias luzes tenham compreendido melhor que os outros as parábolas.

Foi muito conveniente que Jesus Cristo tenha falado em parábolas: em primeiro lugar por ser este um modo de conhecer do entendimento humano, que chega ao inteligível através do sensível, já que todos os nossos conhecimentos começam nos sentidos, mas não ficam aí: a nossa inteligência vai mais além. Por isso, na pregação de Cristo propõem-se com freqüência as coisas espirituais envolvidas em imagens de coisas corpóreas. Em segundo lugar, a Sagrada Escritura foi escrita para todos, segundo aquelas palavras de São Paulo: “Sou devedor de sábios e de ignorantes” (Rom 1,14); por isso foi conveniente que Nosso Senhor tivesse proposto as realidades mais profundas através de comparações, para que pelo menos deste modo as pudessem conseguir todos os homens com mais facilidade (cfr Suma Teológica, I, q. l, a. 9).

Os discípulos distinguem-se aqui dos “que estão fora”, expressão que para os Judeus significava os gentios, e que agora Jesus aplica aos próprios Judeus, que não querem compreender os sinais que Jesus realiza (cfr Lc 12,41).

Aos discípulos, pois, concede o Senhor uma instrução mais clara ainda acerca do conteúdo das parábolas. Mas, visto que os Judeus não querem aceitar os sinais que Jesus realiza, neles cumprem-se as palavras do profeta Isaías (6,9-10). As parábolas, que são uma manifestação da misericórdia do Senhor, foram ocasião de condenação para os Judeus incrédulos, aos quais não se pode perdoar os seus pecados, já que não querem ver, nem escutar, nem converter-se.

17. “Escandalizam-se”: Escândalo significa originaria-mente a pedra ou obstáculo onde facilmente se tropeça e se cai. Daqui é tomado na linguagem moral para indicar tudo o que induz outros a pecar. Também se chama escândalo em sentido amplo aquilo que pode ser ocasião de pecado, por exemplo, a dor e a tribulação. Neste passo, escandalizar-se significa, pois, desmoralizar-se, tropeçar, sucumbir e cair. Se por malícia, diante de uma acção boa alguém se escandaliza, cai no escândalo chamado farisaico. Neste sentido, diz-nos São Paulo que a Cruz de Cristo foi escândalo para os Judeus, ao não quererem compreender que os planos salvíficos de Deus são levados a cabo através da dor e do sacrifício (cfr 1 Cor 1,23; vid. também Mc 14,27; Mt 16,23).

Dia 28 de janeiro

Mc 4, 21-25

21Dizia-lhes mais: Porventura vem a candeia para se pôr debaixo do alqueire ou debaixo do leito? Não é para se colocar sobre o velador? 22Pois nada há oculto senão para se manifestar, e nada se escondeu senão para que venha a público. 23Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.

24E dizia-lhes mais: Reparai no que ouvis: Com a medida com que medirdes vos será medido, mais ainda a vós que ouvis. 25Porque ao que tem dar-se-lhe-á, e ao que não tem ainda o que tem lhe será tirado.

Comentário

21. “Alqueire”: Era um recipiente que servia para medir cereais e legumes. Tinha uma capacidade de um pouco acima de oito litros.

22. Há nesta parábola um duplo ensinamento. Por um lado, a doutrina de Cristo não deve ficar escondida, mas ser pregada no mundo inteiro. Encontramos o mesmo ensinamento noutros passos dos Evangelhos: “O que ouvis em segredo, apregoai-o nos terraços” (Mt 10,27); “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho…” (Mc 16,15). O outro ensinamento desta parábola é que o Reino que Cristo anuncia tem tal força de penetração em todos os corações que, no fim da história, quando Jesus vier de novo, não ficará uma só acção do homem, a favor ou contra Cristo, que não passe a ser pública e manifesta. Cfr Mt 25,31-46.

24-25. O Senhor não Se cansa de pedir aos Apóstolos, germe da Igreja, que prestem atenção à doutrina que ouvem: estão a receber um tesouro do qual deverão dar contas. “Aquele que tem dar-se-á…”: a quem corresponde à graça dar-se-lhe-á mais graça ainda e abundará cada vez mais; mas o que não faz frutificar a graça divina recebida, ficará cada vez mais empobrecido (cfr Mt 25,14-30). Por isso, a medida das virtudes teologais é não ter medida: “Se dizes basta, já morreste” (Santo Agostinho, Sermo 51). Uma alma que queira progredir no caminho interior fará sua esta oração: “Senhor: que eu tenha peso e medida em tudo… menos no Amor” (Caminho, n° 427).

Dia 29 de janeiro

Mc 4, 26-34

26Dizia também: O Reino de Deus é assim como um homem que lançou a semente à terra, 27e dorme, e levanta-se, de noite e de dia, e a semente germina e cresce sem ele saber como. 28Porque a terra por si mesma produz primeiro o colmo, depois a espiga, depois o trigo grado na espiga. 29E, quando o fruto o permite, logo lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa.

30Dizia ainda: A que havemos de assemelhar o Reino de Deus, ou com que parábola o hemos de representar? 31É como o grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a mais pequenina de todas as sementes que na Terra há. 32Mas, depois de semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças e deita ramos tão grandes, que as aves do céu podem acolher-se à sua sombra.

33E com muitas parábolas como esta lhes expunha a palavra, segundo a sua capacidade de ouvir. 34E sem parábolas não lhes falava; mas, em particular, explicava tudo aos Seus discípulos.

Comentário

26-29. Os agricultores esforçam-se por preparar bem o terreno para a sementeira; mas, uma vez semeado o grão, já não podem fazer por ele nada mais, até ao momento da ceifa; de maneira que o grão se desenvolve pela sua própria força. Com esta comparação, exprime o Senhor o vigor íntimo do crescimento do Reino de Deus na terra, até ao dia da ceifa (cfr Ioel 3,13 e Apc 14,15), ou seja, o dia do Juízo Final.

Jesus fala da Igreja aos Seus discípulos: a pregação do Evangelho, que é a semente generosamente espalhada, dará o seu fruto sem falta, não dependendo de quem semeia ou de quem rega, mas de Deus, que dá o incremento (cfr l Cor 3,5-9). Tudo se realizará “sem que ele saiba como”, sem que os homens se dêem plenamente conta.

Ao mesmo tempo o Reino de Deus indica a operação da graça em cada alma: Deus opera silenciosamente em nós uma transformação, enquanto dormimos ou enquanto velamos, fazendo brotar no fundo da nossa alma resoluções de fidelidade, de entrega, de correspondência, até nos levar à idade “perfeita” (cfr Eph 4,13). Ainda que seja necessário este esforço do homem, em última análise é Deus quem actua, “porque é o Espírito Santo que, com as suas inspirações, vai dando tom sobrenatural aos nossos pensamentos, desejos e obras. É Ele que nos impele a aderir à doutrina de Cristo e a assimilá-la em profundidade; que nos dá luz para tomar consciência da nossa vocação pessoal e força para realizar tudo o que Deus espera de nós. Se formos dóceis ao Espírito Santo, a imagem de Cristo ir-se-á formando, cada vez mais nítida, em nós e assim nos iremos aproximando cada vez mais de Deus Pai. Os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus (Rom VIII,14)” (Cristo que passa, n° 135).

30-32. O sentido principal desta parábola é dado pelo contraste entre o pequeno e o grande. A semente do Reino de Deus na Terra é algo muito pequeno ao princípio (Lc 12,32; Act 1,15); depois será uma árvore grande. Assim vemos como o reduzido grupo inicial dos discípulos cresce nos começos da Igreja (cfr Act 2,47; 6,7; 12,24), se estende ao longo dos séculos e chegará a ser uma multidão imensa “que ninguém poderá contar” (Apc 7,9).

Também se realiza em cada alma esse mistério do crescimento, a que se referem as palavras do Senhor: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21), e que podemos ver anunciado com aquelas outras do Salmo: “O justo multiplicar-se-á como o cedro do Líbano” (Ps 92,13). Para que brilhe a misericórdia do Senhor que nos exalta, que nos faz grandes, é preciso que nos encontre pequenos, humildes (Ez 17, 22-24; Lc 18,9-14).

Dia 30 de janeiro

Mc 4, 35-41

35Naquele dia, à tardinha, disse-lhes: Passemos para o lado de lá. 36E eles, deixando o povo, tomam-No consigo, assim como estava na barca; e outras barcas O acompanhavam. 37Nisto levanta-se um grande ciclone que arrojava as ondas sobre a barca, de tal modo que a barca se ia enchendo. 38Entretanto Ele estava na popa a dormir sobre uma almofada. Despertam-No e dizem-Lhe: Mestre, não Te importa que pereçamos? 39Ele, despertando, imperou ao vento e disse ao mar: Cala-te! Emudece! O vento acalmou e fez-se uma grande bonança. 40Disse-lhe então: Por que estais assim com medo? Como? Não tendes fé? Ficaram eles possuídos de grande temor e diziam uns para os outros:41 Então quem é Este, que até o vento e o mar Lhe obedecem?

Comentário

35-41. O episódio da tempestade acalmada, cuja recordação deve ter devolvido muitas vezes a serenidade aos Apóstolos no meio das suas lutas e das dificuldades, serve também a cada alma para nunca perder o ponto de mira sobrenatural: a vida do cristão é comparável a uma barca: «Assim como a nave que atravessa o mar, comenta Santo Afonso Maria de Ligório, está sujeita a milhares de perigos, corsários, incêndios, escolhos e tempestades, assim o homem se vê assaltado na vida por milhares de perigos, de tentações, ocasiões de pecar, escândalos ou maus conselhos dos homens, respeitos humanos e, sobretudo, pelas paixões desordenadas (…). Não por isto há que desconfiar nem desesperar-se. Pelo contrário (…), quando alguém se vê assaltado por uma paixão incontrolada (…), ponha os meios humanos para evitar as ocasiões e (…) apoie-se em Deus (…): no furor da tempestade não deixa o marinheiro de olhar para a estrela cuja claridade o terá de guiar para o porto. De igual modo nesta vida temos sempre de ter os olhos fixos em Deus, que é o único que nos há-de livrar de tais perigos» (Sermão n.º 39 para o Dom. IV depois da Epifania).

Dia 31 de janeiro

Lc 4, 21-30

21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir. 22Todos davam testemunho em favor d’Ele e admiravam-se com as graciosas palavras que saíam da Sua boca. Não é Este — diziam — o filho de José? 23Disse-lhes Ele: Dir-Me-eis por certo este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Quanto ouvimos que se realizou em Cafarnaum, fá-lo aqui também na Tua terra. 24E continuou: Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra; 25mas, na realidade, vos digo Eu, muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra, 26e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta de Sidónia. 27E muitos leprosos havia em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã.

28Todos na sinagoga se encheram de furor, ao ouvirem estas coisas. 29Ergueram-se então, lançaram-No fora da cidade e levaram-No até a uma escarpa do outeiro em que estava construída a cidade, a fim de O precipitarem. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho.

Comentário

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20,8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei — o Pentateuco —- e outro dos Profetas, O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra dei cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfr Lc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfr Act 13,5.14.42.44; 14,l, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: «Amen» (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61,1-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. «Segundo São Lucas (w. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os fatos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho. Mediante tais fatos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens» (Dives in misericórdia n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por «pobres» deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus (cfr a nota a Mt 5,3), não tanta! uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os! pobres é anunciar-lhes a «boa notícia» de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem sobretudo um sentido espiritual e transcendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demônio. «O cativeiro é sensível — ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 — quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cativeiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo» (Catena Áurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais neces­sitados. «De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo» (Lumen gentiiim, n. 8).

20-22. As palavras do versículo 21 mostram-nos a autoridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: «Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir». Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfr Lc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser retamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfr Lc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfr Act 2,4).

22-29. Os habitantes de Nazaré escutam ao princípio com agrado as palavras cheias de sabedoria de Jesus. Mas a visão destes homens é muito superficial. Com um orgulho mesquinho sentem-se feridos pelo fato de Jesus, seu concidadão, não ter feito em Nazaré os prodígios que fez noutras cidades. Levados por uma confiança mal entendida, exigem-Lhe com insolência que faça ali milagres para agradar à sua vaidade, mas não para se converterem. Diante desta atitude Jesus não faz nenhum prodígio, seguindo o Seu modo habitual de proceder (veja-se, por exemplo, o encontro com Herodes em Lc 23,7-11); inclusivamente censura a sua posi­ção, explicando-lhes com dois exemplos tomados do AT (cfr 1 Reg 17,9 e 2 Reg 5,14) a necessidade de uma boa disposição a fim de que os milagres possam dar origem à fé. A atitude de Cristo fere-os no seu orgulho até ao ponto de O quererem matar. Todo o episódio é uma boa lição para entender de veras a Jesus: só pode ser entendido na humildade e na séria resolução de nos pormos em Suas mãos.

30. Jesus não foge precipitadamente, mas vai-Se retirando por entre a turba agitada com uma majestade que os deixou paralisados. Como noutras ocasiões, os homens não podem nada contra Jesus: o decreto divino era que o Senhor morresse crucificado (cfr Ioh 18,32) quando chegasse a Sua hora.