In Evangelho do dia

Dia 24 de maio

Mc 10, 17-27

17Ao sair para Se pôr a caminho, correu a Ele um que, de joelhos, Lhe perguntou: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? 18Respondeu-lhe Jesus: Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. 19Sabes os mandamentos: Não matar, não adulterar, não roubar, não levantar falsos testemunhos, não defraudar, honrar pai e mãe.

20Mas ele respondeu-Lhe: Mestre, tudo isso tenho eu observado desde a minha mocidade.21Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: Uma só coisa te falta. Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me, tomando a cruz. 22Ouvindo ele estas palavras, anuviou-se-lhe o rosto e afastou-se triste, porque tinha muitos haveres. 23Então Jesus, volvendo em torno o olhar, disse aos discípulos: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas! 24Ficaram os discípulos pasmados com as Suas palavras. Mas Jesus tornou a repetir: Meus filhos, como é difícil entrarem no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus! 26Eles mais assombrados ficaram e diziam uns para os outros: Então quem se pode salvar? 27Jesus olhou para eles e disse: Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.

Comentário

17-18. O jovem – assim o especifica Mt 19,16 – recorre a Jesus como a um mestre autorizado na vida espiritual, com a esperança de que o guie para a vida eterna. Não é que Jesus Cristo rejeite o louvor de que é objeto, mas explica a causa profunda dessas palavras do jovem: Ele é bom, não como o é um homem bom, mas por ser Deus, que é a própria bondade. Portanto, o moço disse uma verdade, mas uma verdade a meias. Aí está o enigmático da resposta de Jesus e a sua profundidade absoluta. Jesus trata, portanto, de fazer remontar o jovem desde urna consideração honesta, mas humana, a uma visão inteiramente sobrenatural. Para que este homem consiga realmente a vida eterna tem de ver em Jesus Cristo, não só um bom mestre, mas o Salvador divino, o único Mestre, o único que, como Deus, é a própria Bondade.

19. O Senhor não veio abolir a Lei, mas dar-lhe plenitude (Mt 5,17). Os mandamentos são o núcleo fundamental da Lei. O cumprimento destes preceitos é necessário para alcançar a vida eterna. Cristo dá plenitude a estes mandamentos num duplo sentido. Primeiro, porque nos ajuda a descobrir todas as exigências que estes têm na vida dos homens. A luz da revelação leva-nos ao conhecimento fácil e seguro dos preceitos do Decálogo, que a razão humana pelas suas próprias forças muito dificilmente conseguiria alcançar. Em segundo lugar, a sua graça põe em nós a fortaleza para fazer frente à inclinação má que é fruto do pecado original. Os mandamentos conservam, pois, na vida cristã toda a sua vigência e são como os marcos que assinalam o caminho que conduz ao Céu.

Dia 25 de maio

Mc 10, 28-31

28Começou Pedro a dizer-Lhe: Nós deixámos tudo e seguimos-Te. 29E Jesus: Em verdade vos digo que não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por Minha causa e por causa do Evangelho, 30que não receba o cêntuplo já no tempo presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, pais, filhos e campos, juntamente com perseguições, e no século futuro a vida eterna. 31Muitos, porém, dos primeiros serão últimos, e os últimos primeiros.

Comentário

28-30. Jesus Cristo exige a virtude da pobreza a todo o cristão; também exige a austeridade real e efectiva na posse e’ uso dos bens materiais. Mas aos que receberam um chamamento específico para o apostolado – como é aqui o caso dos Doze -, exige um desprendimento absoluto de bens, riquezas, tempo, família, etc., em razão da sua disponibilidade para o serviço apostólico, à imitação de Jesus Cristo que, sendo o Senhor de todo o universo, Se fez pobre até não ter onde reclinar a cabeça (cfr Mt 8,20). A entrega de todos esses bens pelo Reino dos Céus, traz consigo a libertação do peso deles: é como o soldado que se despoja de um impedimento ao entrar em combate para estar mais ágil de movimentos. Isto produz um certo domínio sobre todas as coisas: já se não é escravo delas e experimenta-se aquela sensação a que aludia São Paulo: “como nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Cor 6,10). O cristão que dessa maneira se despojou do egoísmo, adquiriu a caridade, e com ela todas as coisas são suas: “Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo de Deus” (l Cor 3,22-23).

Todavia, o prêmio de tudo pôr em Cristo, não será recebido plenamente só na vida eterna, mas já nesta vida. Jesus Cristo fala de uma maneira simples do cem por um, que já receberá aqui quem abandone generosamente as suas coisas.

O Senhor acrescenta “com perseguições” (v. 30), porque estas também são recompensa da fé com que abandonamos as coisas por amor de Jesus Cristo; pois a glória de um cristão é a de se conformar com a imagem do Filho de Deus, tomando parte na Sua Cruz para participar depois da Sua glória: “Desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados” (Rom 8,17); “porque todos os que querem viver com piedade em Cristo Jesus terão de sofrer perseguições” (2 Tim 3,12).

29. Estas palavras do Senhor cumprem-se especialmente naqueles que por vocação divina abraçam o celibato, renunciando a constituir uma família na terra. Jesus, ao dizer “por Minha causa e por causa do Evangelho”, está a indicar que o Seu exemplo e as exigências da Sua doutrina dão pleno sentido a este modo de vida: “E, pois, o mistério da novidade de Cristo, de tudo o que Ele é e significa; é a suma dos mais altos ideais do Evangelho e do Reino; é uma manifestação especial da graça que brota do mistério pascal do Redentor, que torna desejável e digna a escolha da virgindade por parte dos chamados pelo Senhor Jesus, com a intenção não só de participar do Seu ofício sacerdotal, mas também de compartilhar com Ele o Seu próprio estado de vida” (Sacerdotalis caelibatus, n. 23).

Dia 26 de maio

Mc 10, 32-45

32Entretanto iam de caminho subindo para Jerusalém. Jesus ia diante deles, do que eles se assombravam, e os outros que O seguiam tinham medo. Tomando, de novo, consigo, os doze, começou a declarar-lhes o que Lhe havia de acontecer: 33Olhai: Subimos a Jerusalém e o Filho do homem vai ser entregue aos Príncipes dos sacerdotes e aos Escribas, e eles condená-Lo-ão à morte e entregá-Lo-ão aos gentios, 34que O hão-de escarnecer, cuspir, flagelar e matar; mas depois de três dias ressuscitará.

35Nisto acercam-se d’Ele Tiago e João e dizem-Lhe: Mestre, queremos que nos faças tudo o que Te pedirmos. 36Disse-lhes Ele: Que quereis que vos faça? 37Responderam-Lhe: Concede-nos que nos assentemos um à Tua direita e outro à Tua esquerda, na Tua glória. 38Mas Jesus disse-lhes: Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo? Ou ser baptizados com o baptismo com que estou para ser baptizado? 39Podemos – responderam eles. E Jesus: O cálice que Eu bebo, bebê-lo-eis, e no baptismo com que Eu sou baptizado, sereis baptizados também vós. 40Mas o sentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda, não Me toca a Mim concedê-lo: é para aqueles para quem está preparado. 41Ao ouvirem isto, os dez começaram a indignar-se com Tiago e João.42Jesus, porém, chamou-os e disse-lhes: Sabeis que os que são reconhecidos por soberanos das nações as tratam como senhores, e os seus grandes lhes fazem sentir o seu poder. 43Mas entre vós não é assim; pelo contrário, o que entre vós quiser ser grande faça-se vosso servo; 44e quem quiser entre vós ser o primeiro faça-se escravo de todos: 45porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos.

Comentário

32. Jesus caminhava para Jerusalém com o desejo ardente de que se cumprisse n’Ele tudo o predito acerca da Sua Paixão e Morte. Já tinha anunciado aos Seus discípulos que subia para padecer; por isso não compreendiam a atitude do Senhor. Jesus Cristo ensina-nos na Sua vida a carregar amorosamente com a cruz, sem lhe fugir, sem a escamotear, excedendo-nos, abraçando-a sem medo.

35-44. É admirável a humildade dos Apóstolos que não dissimularam os seus momentos anteriores de fraqueza e de miséria, mas as contaram com sinceridade aos primeiros cristãos. Deus quis também que no Santo Evangelho ficasse notícia histórica daquelas primeiras debilidades dos que iam ser colunas inamovíveis da Igreja. São as maravilhas que opera nas almas a graça de Deus. Nunca deveremos ser pessimistas ao considerar as nossas próprias misérias: “Tudo posso n’Aquele que me conforta” (Phil 4,13).

38. Quando pedimos algo na oração devemos estar dispostos a aceitar, por cima de tudo, a vontade de Deus, ainda que não coincida com os nossos desejos: “Sua Majestade sabe melhor o que nos convém; não temos que aconselhá-Lo sobre o que nos há-de dar, pois pode com razão dizer-nos que não sabemos o que pedimos” (Moradas, II, 8).

43-45. O exemplo e as palavras do Senhor são como um impulso para que todos sintamos a obrigação de viver o autêntico espírito de serviço cristão. Só o Filho de Deus que desceu do Céu e Se submeteu voluntariamente às humilhações (Belém, Nazaré, o Calvário, a Hóstia Santíssima), pode pedir ao homem que se faça o último, se quer ser o primeiro.

A Igreja ao longo da história continua a missão de Cristo ao serviço dos homens: “Com a experiência que tem da humanidade, a Igreja, sem pretender de maneira alguma misturar-se na política dos Estados, ‘só deseja uma coisa: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido’ “(…) (Gaudium et spes, n. 3). Tomando parte nas melhores aspirações dos homens e sofrendo ao não os ver satisfeitos, deseja ajudá-los a conseguir o seu pleno desenvolvimento, e isto precisamente porque ela lhes propõe o que ela possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade” (Populorum progressio, n. 13).

A nossa atitude há-de ser a do Senhor: servir a Deus e aos outros com visão nitidamente sobrenatural, sem esperar nada em troca do nosso serviço; servir inclusivamente ao que não agradece o serviço que lhe é prestado. Esta atitude cristã chocará sem dúvida com os critérios humanos. Não obstante, o “orgulho” do cristão, identificado com Cristo, consistirá precisamente em servir. Ao servir os outros, o cristão participa da missão de Cristo e alcança assim a sua verdadeira dignidade: “Esta dignidade exprime-se na disponibilidade para servir, segundo o exemplo de Cristo, o qual ‘não veio para ser servido, mas para servir’. Se, portanto, à luz da atitude de Cristo, se pode verdadeiramente ‘reinar’ somente ‘servindo’, ao mesmo tempo este ‘servir’ exige uma tal maturidade espiritual, que se tem de defini-la precisamente como ‘reinar’. Para se poder servir os outros digna e eficazmente, é necessário saber dominar-se a si mesmo, é preciso possuir as virtudes que tornam possível um tal domínio” (Redemptor hominis, n. 21).

Dia 27 de maio

Mc 10, 46-52

46Chegam a Jericó. E, ao partirem de Jericó Ele e os discípulos e uma grande multidão, estava Bartimeu, filho de Timeu, cego e mendigo, sentado à beira da estrada. 47Ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: Filho de David, Jesus, tem compaixão de mim. 48Muitos increpavam-no para que se calasse. Mas ele gritava muito mais: Filho de David, tem compaixão de mim. 49Parou Jesus e disse-lhe: Chamai-o. Chamam o cego e dizem-lhe: Ânimo! Levanta-te, que te chama. 50Ele, lançando para o lado o manto, levantou-se de um salto e veio ter com Jesus. 51E Jesus perguntou-lhe: Que queres que te faça? Respondeu-Lhe o cego: Raboni, que eu veja. 52E Jesus: Vai! A tua fé te salvou. E logo recuperou a vista e O seguia na viagem.

Comentário

46-52. “Ouvindo aquele grande vozear das pessoas, o cego perguntou: o que é isto? Responderam-lhe: é Jesus de Nazaré. Então inflamou-se-lhe tanto a alma na fé em Cristo, que gritou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.

Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na beira do caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade? Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim? Que bela jaculatória para repetires com freqüência! (…).

Muitos repreendiam-no para o fazer calar. Tal como a ti quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar movido por uma íntima inquietação. E amigos, costumes, comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites! Porque é que hás-de chamar por Jesus? Não O incomodes!

Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim. O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o perseverar na sua oração. Contigo, procede da mesma maneira. Jesus apercebe-Se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos d’Ele: quer que Lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jericó. Imitemo-lo. Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que Lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de Lhe implorar (Hom. sobre S. Mateus, 66).

Jesus, parando, mandou chamá-lo. E alguns dos melhores que O rodeiam, dirigem-se ao cego: Tem confiança; levanta-te; Ele chama-te. É a vocação cristã! Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus. O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te – diz-nos – e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Atirou a capa! Não sei se estiveste alguma vez na guerra. Há já muitos anos, tive ocasião de andar por um campo de batalha, algumas horas depois de ter acabado a luta. Lá havia, abandonados pelo chão, mantas, cantis e mochilas cheias de recordações de família: cartas, fotografias de pessoas queridas… E não pertenciam aos derrotados, mas aos vitoriosos! Tudo aquilo lhes sobrava para correrem mais depressa e saltarem as trincheiras do inimigo. Tal como acontecia com Bartimeu, para correr atrás de Cristo.

Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso o sacrifício. Deitar fora tudo o que estorva: manta, mochila, cantil. Tens de proceder da mesma maneira nesta luta pela glória de Deus, nesta luta de amor e paz, com que procuramos difundir o reinado de Cristo. Para servires a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, deves estar disposto a renunciar a tudo o que sobeja (…).

E imediatamente começa um diálogo divino, um diálogo maravilhoso, que abrasa, porque tu e eu somos agora Bartimeu. Da boca divina de Cristo sai uma pergunta: quid tibi vis faciam? Que queres que te faça? E o cego: Mestre, faz que eu veja. Que coisa mais lógica! E tu, vês? Não te aconteceu já, alguma vez, o mesmo que a esse cego de Jericó? Não posso agora deixar de recordar que, ao meditar neste passo há já muitos anos e ao compreender então que Jesus esperava alguma coisa de mim – algo que eu não sabia o que era! – compus para mim, umas jaculatórias: Senhor, que queres? Que me pedes? Pressentia que me procurava para uma realidade nova e o Rabboni, ut videam – Mestre, que eu veja – levou-me a suplicar a Cristo, numa oração contínua: Senhor, que se faça isso que Tu queres.

Rezai comigo ao Senhor: doce me facere voluntatem tuam, quia Deus meus es tu, ensina-me a cumprir a Tua vontade, porque Tu és o meu Deus. Por outras palavras: que brote dos nossos lábios o afã sincero por corresponder, com um desejo eficaz, aos convites do nosso Criador, procurando seguir os Seus desígnios com uma fé inquebrantável, com a convicção de que Ele não pode falhar (…).

Mas voltemos à cena que se desenrola à saída de Jericó. Agora é contigo que Cristo fala. Diz-te: que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja! E Jesus: Vai, a tua fé te salvou. Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-O pelo caminho. Segui-Lo pelo caminho. Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-lo pelo caminho. Tu procuras seguir os Seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé – fé nessa luz que o Senhor te vai dando – deverá ser operativa e sacrificada. Não te iludas, não penses em descobrir novas formas. É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao Seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo” (Amigos de Deus, nos 195-198).

Dia 28 de maio

Mc 11, 11-26

11E entrou em Jerusalém, no Templo; e, depois de ter observado tudo, como era já tarde, saiu para Betânia com os doze.

12No dia seguinte, ao sairem de Betânia, sentiu fome. 13E, vendo ao longe uma figueira coberta de folhas, aproximou-se para ver se encontrava nela alguma coisa, mas, ao chegar junto dela, não encontrou senão folhas, porque não era tempo de figos. l4Tomando então a palavra, disse-lhe: Nunca mais alguém de ti coma fruto! Os discípulos ouviam.

15Chegaram a Jerusalém; e, tendo entrado no Templo, começou a expulsar os que aí vendiam e compravam; derribou as mesas dos cambistas e os bancos dos que vendiam as pombas, 16e não permitia que ninguém levasse nenhum objecto através do Templo. I7E ensinava-os, dizendo: Não está escrito que a Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? Vós, porém, fizestes dela uma caverna de ladrões.

18Ouviram isto os Príncipes dos sacerdotes e os Escribas e procuravam modo de O matar, pois tinham medo d’Ele, porque todo o povo estava maravilhado da Sua doutrina. 19Ao cair da tarde saíram para fora da cidade.

20Na manhã seguinte, ao passarem por ali, repararam que a figueira estava seca até à raiz. 21E Pedro, lembrando-se, disse-Lhe: Mestre, olha, a figueira que amaldiçoaste está seca.22Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus. 23Em verdade vos digo que quem disser a este monte: “tira-te e lança-te ao mar” e não vacilar em seu coração, mas crer que o que diz se fará, ser-lhe-á concedido. 24Por isso Eu vos digo que tudo o que pedirdes na oração, crede que o recebestes, e assim será. 25E, quando vos puserdes a orar, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-lhe, para que também vosso Pai que está nos Céus vos perdoe as vossas ofensas.26

Comentário

12. A fome de Jesus é um sinal entre tantos outros, da Sua verdadeira Humanidade santíssima. Devemos contemplar Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, muito próximo de nós. A fome do Senhor indica-nos que Ele entende perfeitamente e participou das nossas necessidades e limitações. “Generosidade do Senhor que Se humilhou, que aceitou plenamente a condição humana, que não Se serve do Seu poder divino para fugir das dificuldades ou do esforço! E assim nos ensina a ser fortes, a amar o trabalho, a apreciar a nobreza humana e divina de saborear as consequências da entrega, da doação” (Cristo que passa, n.° 61).

13-14. Não há dúvida que Jesus sabia que não era tempo de figos; portanto, é claro que não pretendia comê-los, mas esta acção tem um significado mais profundo. Os Santos Padres, cujo sentir recolhe São Beda no seu comentário à perícopa, ensinam-nos que o milagre de Jesus tem uma intenção alegórica: Jesus tinha vindo aos Seus, ao povo judaico, com fome de encontrar frutos de santidade e de boas obras, mas não encontrou senão as práticas exteriores, que, por não terem o correspondente fruto, ficavam reduzidas a mero folhedo. Do mesmo modo Jesus, ao entrar no Templo lançará à cara dos ali presentes que o Templo de Deus, que é casa de oração – fruto da autêntica piedade -, foi convertido por eles em lugar de mercado – folhedo externo e sem valor -. “Também tu – conclui São Beda – se não queres ser condenado por Cristo, deves procurar evitar ser árvore estéril, para poder oferecer a Jesus, que Se fez pobre, o fruto de piedade de que necessita” (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Deus quer que existam o fruto e as folhas; quando, por falta de rectidão de intenção, só há folhas, o que se vê, a aparência, podemos temer que ali não exista senão uma obra puramente humana, sem relevo sobrenatural, consequência da ambição, da soberba, e do afã de figurar.

“Temos de trabalhar muito na terra e temos de trabalhar bem, porque essa ocupação corrente é a que devemos santificar. Mas nunca nos esqueçamos de a realizar por Deus. Se trabalhássemos por nós mesmos, isto é, por orgulho, só conseguiríamos produzir folhas e nem Deus nem os homens poderiam saborear, numa árvore tão frondosa, a doçura dos frutos” (Amigos de Deus, nº 202).

15-18. O Senhor não transige com um comportamento com falta de fé e de piedade nas coisas que se referem ao culto de Deus. Se Jesus Se comportou assim no que diz respeito ao Templo da Antiga Lei, que não haveremos de fazer nós relativamente ao Templo cristão, em que Ele está real e verdadeiramente presente na Santíssima Eucaristia!: “Há uma urbanidade da piedade. – Aprende-a. – Dão pena esses homens ‘piedosos’, que não sabem assistir à Missa – ainda que a ouçam diariamente – nem benzer-se (fazem uns estranhos trejeitos, cheios de precipitação), nem dobrar o joelho diante do Sacrário (as suas genuflexões ridículas parecem um escárnio), nem inclinar reverentemente a cabeça diante de uma imagem da Senhora” (Caminho, nº 541).

20-25. Diante da figueira seca, Jesus fala-nos do poder da oração. Para que esta seja eficaz requere-se fé e confiança absoluta: “Fé viva e penetrante. Como a fé de Pedro. – Quando a tiveres, disse-o Ele, afastarás os montes, os obstáculos, humanamente insuperáveis, que se oponham aos teus empreendimentos de apóstolo” (Caminho, nº 489).

Para que a oração seja eficaz também é necessário o amor que perdoa ao próximo; assim o nosso Pai Deus nos perdoará também a nós. Já que todos somos pecadores é necessário que o reconheçamos diante de Deus e Lhe peçamos perdão (cfr Lc 18,9-14). Quando Cristo nos ensinou a orar exigiu estas disposições prévias (cfr Mt 6,12; cfr também Mt 5,23). Assim o explica Teofilacto (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.): “Quando orardes, perdoai se tendes alguma coisa contra alguém, para que o vosso Pai que está nos Céus, vos perdoe os vossos pecados…Quem crê com grande afecto, eleva plenamente o seu coração para Deus e, usando palavras de David, abre a sua alma diante de Deus. Quem dilata o seu coração diante de Deus une-se com Ele e o seu coração ardente adquire uma maior certeza de alcançar o que deseja”.

Inclusivamente estando em pecado, o primeiro que deve fazer o homem é recorrer a Deus na oração. Por isso, Jesus não põe limite algum: “Qualquer que diga…”. Por conseguinte, a nossa indignidade pessoal não deve ser desculpa para deixar de recorrer ao nosso Pai Deus com uma oração confiante. O facto de Deus conhecer as nossas necessidades também não pode ser pretexto para não nos dirigirmos a Ele. Santa Teresa exclamava assim na sua oração: “Oh Senhor meu!, porventura será melhor estar calada com as minhas necessidades à espera de que Vós as remedieis? Não, certamente; que Vós, Senhor meu e deleite meu, sabendo as muitas que tinham de ser e o alívio que para nós é contá-las a Vós, dizeis que Vos peçamos e que não deixareis de dar” (Exclamações, 5).

26. Muitos manuscritos antigos acrescentam o v. 26; mas é claro que se trata de uma adição, tomada literalmente de Mt 6,15. Essa adição foi recolhida pelos editores da antiga Vulgata Sixto-Clementina.

Dia 29 de maio

Mc 11, 27-33

27Chegam outra vez a Jerusalém; e, andando Ele a passear no Templo, vêm ter com Ele os Príncipes dos sacerdotes e os Escribas e os Anciãos 28e dizem-Lhe: Com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem Te deu a autoridade para fazeres isto? 29Mas Jesus disse-lhes: Far-vos-ei só uma pergunta. Respondei-Me e dir-vos-ei com que autoridade faço estas coisas. 30O baptismo de João era do Céu, ou dos homens? Respondei-Me. 31Eles discorriam entre si e diziam: Se dissermos que do Céu, dirá: “Então porque não crestes nele?” 32Diremos antes: “Dos homens…”. Mas temiam o povo, porque todos estavam convencidos que João era realmente profeta. 33Responderam, pois, a Jesus: Não sabemos. E Jesus disse-lhes: Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas.

Comentário

27-33. Os que interrogam o Senhor são os mesmos que, dias antes, buscavam o modo de O perder (cfr Mc 11,18). Neles está representado o judaísmo oficial da época. Jesus tinha dado já provas e sinais do seu messianismo por meio dos milagres e da Sua doutrina ao longo do ministério público. Além disso, São João Baptista tinha cumprido a sua missão de dar testemunho acerca de Jesus. Por esta causa, antes de dar a resposta, Nosso Senhor exige-lhes que reconheçam a verdade proclamada pelo Precursor. Mas eles não querem aceitar a verdade, nem tão-pouco opôr-se publicamente a ela por temor do povo. Diante desse comportamento que não quer rectificar era inútil qualquer explicação de Jesus.

Este episódio é exemplar para muitos outros que acontecem na vida: quem intente pedir contas a Deus ficará confundido.

Dia 30 de maio (Santíssima Trindade)

Jo 16, 12-15

12Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não podeis comportá-las por agora. 13Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, guiar-vos-á para a verdade total. É que Ele não falará por si próprio, mas falará de quanto ouve e anunciar-vos-á o que está para vir. 14Ele há-de glorificar-Me, porque receberá do que é Meu, para vo-lo anunciar. 15Tudo quanto o Pai tem é Meu. Por isso Eu disse que Ele receberá do que é Meu, para vo-lo anunciar.

Comentário

13. O Espírito Santo é quem leva à plena compreensão da verdade revelada por Cristo. Com efeito, como ensina o Concílio Vaticano II, o Senhor “com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação” (Dei Verbum, n. 4).

14-15. Jesus Cristo revela aqui alguns aspectos do mistério da Santíssima Trindade. Ensina a igualdade de natureza das três Pessoas divinas ao dizer que tudo o que tem o Pai é do Filho, que tudo o que tem o Filho é do Pai (cfr Ioh 17,10) e que o Espírito Santo possui também aquilo que é comum ao Pai e ao Filho, isto é, a essência divina. Acção própria do Espírito Santo será glorificar Cristo, recordando e esclarecendo aos discípulos o que o Mestre lhes ensinou (Ioh 16,13). Os homens, ao reconhecerem o Pai através do Filho movidos pelo Espírito, glorificam Cristo; e glorificar Cristo é o mesmo que dar glória a Deus (cfr Ioh 17,1.3-5.10).

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