dia 23 de fevereiro a 1º de março de 2009

Dia 23 de fevereiro

Mc 9, 14-29

14Ao chegarem junto dos discípulos, viram uma grande multidão que os rodeava e uns escribas a disputarem com eles. 15Apenas, porém, aquela multidão O viu, ficou surpreendida e correu a saudá-Lo. 16E Ele perguntou-lhes: Que estais a discutir com eles? 17Respondeu-Lhe um da multidão: Mestre, trouxe-Te o meu filho, que tem um espírito mudo: 18onde quer que dele se apodera, lança-o por terra, e ele espuma e range os dentes e fica hirto. Disse aos Teus discípulos que o expulsassem, mas não puderam. 19Respondeu-lhes Ele e disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-Mo! 20Trouxeram-Lho. Mal ele viu a Jesus, logo o espírito o agitou com violência, até o fazer cair por terra, e começou a rebolar espumando. 21Perguntou Jesus ao pai: Há quanto tempo é que isto lhe acontece? Desde a infância – respondeu ele – 22e muitas vezes o tem atirado ao fogo e à água para o matar; mas, se podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos! 23Disse-lhe Jesus: Se podes!… Tudo é possível a quem crê. 24Imediatamente o pai do pequeno gritou: Creio! Ajuda a minha pouca fé! 25Vendo Jesus que nova gente acorria, imperou ao espírito imundo e disse-lhe: Espírito mudo e surdo, Eu te mando, sai desse pequeno e não tornes a entrar nele. 26E o espírito, gritando e contorcendo-o violentamente, saiu. O pequeno ficou como morto, tanto que muitos diziam: Morreu. 27Mas Jesus, pegando-lhe na mão, levantou-o, e ele pôs-se em pé. 28Quando entrou em casa, perguntaram-Lhe em particular os discípulos: Porque é que nós o não pudemos expulsar? 29Respondeu-lhes: Esta casta de Demônios com nada se pode expulsar, a não ser com oração e jejum.

Comentário

17. O demônio que possuía este rapaz é qualificado como “espírito mudo”, por ser a mudez a manifestação principal desta possessão.

19-24. Como noutras ocasiões, antes de realizar o milagre, Jesus exige uma fé submissa. O texto original possui um matiz muito difícil de traduzir e que requer uma explicação; a expressão “se podes” do v. 23 literalmente deveria traduzir-se por “o se podes!”. Trata-se de uma exclamação de Jesus relativa à petição do pai do rapaz (v. 22), a qual supunha uma certa dúvida sobre a omnipotência de Cristo. O Senhor corrige este modo de pedir e exige-lhe uma fé sólida. No v. 24 vê-se como o pai do menino mudou profundamente as suas disposições de fé: o Senhor faz então o milagre. Esta fé robustecida converteu-se em omnipotente, porque o homem de fé não se apoia em si mesmo mas em Jesus Cristo. Deste modo, pela fé, tornamo-nos participantes da omnipotência divina. Mas a fé é um dom de Deus, que o homem, sobretudo nos seus momentos de vacilação, deve pedir com humildade e constância, como o pai do menino endemoninhado: “Creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade”, e como os Apóstolos: “Aumenta-nos a fé!” (Lc 17,5).

28-29. “O Senhor, ao ensinar aos Apóstolos como deve ser expulso este demônio tão maligno, ensina-nos a todos como devemos viver, e que a oração é o meio de que temos de nos valer para superar mesmo as maiores tentações dos espíritos imundos ou dos homens. A oração não consiste apenas nas palavras com que invocamos a clemência divina, mas também em tudo o que fazemos em obséquio do nosso Criador movidos pela fé. Disso é testemunha o Apóstolo quando diz: ‘Orai sem cessar’ (1 Thes 5,17)” (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Dia 24 de fevereiro

Mc 9, 30-37

30Partindo dali, iam a atravessar a Galileia, e Ele não queria que ninguém o soubesse, 31porque entretanto ia instruindo os discípulos e dizia-lhes: O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens que O hão-de matar, mas três dias depois de morto ressuscitará. 32Eles, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de O interrogar. 33Chegaram a Cafarnaum. Quando estava já em casa, perguntou-lhes: Que é que discutíeis no caminho? 34Mas eles calaram-se, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. 35Então, assentando-Se, chamou os doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro há-de ser o último de todos e o servo de todos. 36E, tomando um menino, pô-lo em frente deles e, estreitando-o nos braços disse-lhes: 37Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou.

Comentário

30-32. Jesus Cristo, que Se comove ao ver as multidões como ovelhas sem pastor (Mt 9,36), deixa-as, porém, para Se dedicar a uma instrução esmerada dos Apóstolos. Retira-Se com eles para lugares afastados e ali, pacientemente, explica-lhes aqueles pontos que não tinham compreendido na pregação ao povo (Mt 13,36). Concretamente aqui, pela segunda vez, anuncia-lhes o acontecimento próximo da Sua Morte redentora na Cruz, seguida da Sua Ressurreição. Na Sua convivência com as almas Jesus actua da mesma forma: chama o homem ao retiro da oração e, ali, instrui-o sobre os Seus desígnios mais íntimos e sobre os aspectos mais exigentes da vida cristã. Depois, como os Apóstolos, os cristãos terão de semear esta doutrina até aos confins da terra.

34-35. Partindo de uma discussão mantida atrás de Si, Jesus Cristo doutrina os discípulos sobre o modo de exercer a autoridade na Igreja não como quem domina, mas como quem serve. Ele, no desempenho da Sua missão de fundar a Igreja de que é Cabeça e Legislador supremo, veio servir e não ser servido (Mt 20,28).

Quem não busca esta atitude de serviço abnegado, além de carecer de uma das melhores disposições para o recto exercício da autoridade, expõe-se a ser arrastado pela ambição do poder, pela soberba e pela tirania. “Estar à frente de uma obra de apostolado é o mesmo que estar disposto a sofrer tudo de todos, com infinita caridade”. (Caminho, n° 951).

36-37. Jesus, para ensinar graficamente aos Seus Apóstolos a abnegação e a humildade de que necessitam no exercício do seu ministério, toma uma criança, abraça-a e explica-lhes o significado deste gesto: acolher em nome e por amor de Cristo os que, como essa criança, não têm relevo aos olhos do mundo, é acolher o próprio Cristo e o Pai que O enviou. Nessa criança que Jesus abraça estão representadas todas as crianças do mundo, e também todos os homens necessitados, desprotegidos, pobres, doentes, nos quais nada há de brilhante e destacado para admirar.

Dia 25 de fevereiro

Mt 6, 1-6.16-18

1Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos deles. De outra sorte, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos Céus. 2Portanto, quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique secreta, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará. 5E quando orardes, não sejais como os hipócritas que gostam de orar de pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta à chave e ora a teu Pai que está em lugar secreto. E teu Pai que vê em lugar secreto, te recompensará. 16E quando jejuais, não andeis tristes, como os hipócritas pois desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuas, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para não mostrares aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está em lugar secreto, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

Comentário

1-18. “Justiça”: Aqui quer dizer boas obras. Nosso Senhor ensina com que espírito se hão-de fazer os actos de piedade pessoal. A esmola, o jejum e a oração constituíam os actos fundamentais da piedade individual no povo escolhido; daqui que se centre nesses três temas. Jesus Cristo, como quem tem a autoridade máxima, ensina que a verdadeira piedade deve viver-se com rectidão de intenção, em intimidade com Deus e fugindo da ostentação. Esta piedade, assim vivida, supõe um exercício da fé em Deus que nos vê, e da esperança de que premiará os que vivem uma piedade sincera.

5-6. A Igreja, seguindo esta doutrina de Jesus, sempre nos ensinou a rezar desde crianças no nosso aposento. Esse “tu” do Senhor (v. 6) está a indicar inequivocamente a necessidade da oração pessoal; cada um, a sós com Deus, como um filho que fala com o Pai.

A oração pública em que participam todos os fiéis é santa e necessária; mas não pode nunca substituir este terminante preceito do Senhor; tu, no teu aposento, fechada a porta, ora a teu Pai.

O Concílio Vaticano II recolhe os ensinamentos e a prática da Igreja na sua Liturgia, que é “a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte donde promana toda a sua força (…). A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, e até, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (l Thes 5,17) (Sacrosanctum Concilium, nn. 10.12).

A alma que realmente vive a sua fé cristã sabe que necessita de se retirar freqüentemente para orar a sós com seu Pai Deus. Jesus, que nos dá este ensinamento acerca da oração, praticou-o na Sua vida terrena: o santo Evangelho refere-nos as muitas vezes que o Senhor Se retirava sozinho para orar: “As vezes, passava a noite inteira ocupado em colóquio íntimo com o Pai. Como cativou os primeiros discípulos a figura de Cristo em oração!” (Cristo que passa. n° 119) (cfr Mt 14, 23; Mc 1,35; Lc 5,16; etc.). Os Apóstolos seguiram o exemplo do Mestre, e assim vemos Pedro que sobe ao terraço da casa em que se aloja em Jope, para se retirar a orar a sós, e ali recebe uma revelação (cfr Act 10, 9-16). “A vida de oração tem de fundamentar-se, além disso, em pequenos espaços de tempo, dedicados exclusivamente a estar com Deus. São momentos de colóquio sem ruído de palavras” (Cristo que passa, n° 119).

16-18. Partindo da prática tradicional do jejum, o Senhor inculca-nos o espírito com que devemos viver a necessária mortificação dos sentidos: temos de fazê-la sem ostentação, evitando o aplauso dos homens, discretamente; assim não poderão aplicar-se contra nós essas palavras de Jesus: “Já receberam a sua recompensa”, pois seria um triste negócio. “O mundo só admira o sacrifício com espetáculo, porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso” (Caminho, n° 185).

Dia 26 de fevereiro

Lc 9, 22-25

22E acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacerdotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar. 23Então pôs-Se a dizer para todos: Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, esse há-de salvá-la. 25De facto, que vantagem tem um homem em ganhar o mundo inteiro, se se perder a si mesmo ou causar a própria ruína?

Comentário

22. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. “Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6,14)” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc).

23. “Cristo repete-o a cada um de nós, ao ouvido, intimamente: a Cruz de cada dia. Não só – escreve São Jerónimo – em tempo de perseguição ou quando se apresente a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as actividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo que antes éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo (Epístola 121,3) (…). Vedes? A cruz de cada dia. Nulla dies sine cruce, nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o Seu jugo” (Cristo que passa, nos 58 e 176).

“E muito certo que aquele que ama os prazeres, que busca as suas comodidades, que foge das ocasiões de sofrer, que se inquieta, que murmura, que repreende e se impacienta porque a coisa mais insignificante não corre segundo a sua vontade e o seu desejo, tal pessoa, de cristão só tem o nome; somente serve para desonrar a sua religião, pois Jesus Cristo disse: aquele que queira vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias da vida, e siga-Me” (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas – São João B. Maria Vianney).

A Cruz não só deve estar presente na vida de cada cristão, mas também em todas as encruzilhadas do mundo: “Que formosas essas cruzes no cimo dos montes, no alto dos grandes monumentos, no pináculo das catedrais!… Mas também é preciso inserir a Cruz nas entranhas do mundo. Jesus quer ser levantado ao alto, aí: no ruído das fábricas e das oficinas, no silêncio das bibliotecas, no fragor das ruas, na quietude dos campos, na intimidade das famílias, nas assembléias, nos estádios… Onde quer que um cristão gaste a sua vida honradamente, aí deve colocar, com o seu amor, a Cruz de Cristo, que atrai a Si todas as coisas” (Via Sacra, XI, n° 3).

25. Esta afirmação categórica de Jesus ensina-nos a necessidade de fazer tudo tendo em vista a vida eterna; para ganhar esta bem podemos gastar a vida terrena. “É certo que nos é lembrado que de nada serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se a si mesmo se vem a perder. A expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer, mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro. Por conseguinte, embora o progresso terreno se deva cuidadosamente distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao reino de Deus” (Gaudium et spes, n. 39).

Dia 27 de fevereiro

Mt 9, 14-15

14Então acercam-se d’Ele os discípulos de João e perguntam: Porque é que nós e os Fariseus jejuamos com frequência e os Teus discípulos não jejuam? 15Disse-lhes Jesus: Podem acaso os convidados das bodas entristecer-se enquanto está com eles o esposo? Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão.

Comentário

14-17. O interesse da questão que levanta este passo radica, não em saber que jejuns praticavam os judeus contemporâneos de Jesus, e em especial os fariseus e os discípulos de João Baptista, mas em saber qual é a razão pela qual Jesus não obriga os Seus discípulos a tais jejuns. A resposta que dá aqui o Senhor, é, ao mesmo tempo, um ensinamento e uma profecia. O cristianismo não é um mero remendo no antigo traje do judaísmo. A redenção operada por Cristo implica uma total regeneração. O seu espírito é demasiado novo e pujante para ser amoldado às velhas formas penitenciais, cuja vigência caducava. A história da Igreja primitiva ensina-nos até que ponto os costumes de alguns cristãos, procedentes do judaísmo, resistiam a entender a transformação operada por Jesus. É sabido que na época de Nosso Senhor dominava nas escolas judaicas uma complicadíssima casuística de jejuns, purificações etc., que afogavam a simplicidade da verdadeira piedade. As palavras de Jesus apontam para esta simplicidade de coração com que os Seus discípulos devem viver a oração, o jejum e a esmola (cfr Mt 6, 1-18 e notas correspondentes). Será a Igreja que, desde os tempos apostólicos, concretizará em cada época, com os poderes que Deus lhe deu, as formas de jejum, segundo este espírito do Senhor.

15. “Os convidados das bodas”: O texto original diz literalmente “filhos da casa onde se celebram as bodas”, que é uma expressão típica para designar os amigos mais íntimos do esposo. Deve sublinhar-se a marcada construção semítica da frase que o Evangelista conservou na sua fidelidade à expressão original de Jesus.

Por outro lado, esta “casa” a que alude Jesus Cristo tem um profundo sentido: há que pô-la em relação com a parábola dos convidados para as bodas (Mt 22, 1-14), e simboliza a Igreja como casa de Deus e Corpo de Cristo: “Moisés, na verdade, foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para dar testemunho de tudo o que se havia de anunciar. Cristo, porém, é fiel, como Filho, à frente da Sua própria casa, a qual somos nós, se conservarmos firmemente até ao fim a confiança e a esperança de que nos gloriamos” (Heb3, 5-6). A segunda parte do versículo alude à morte violenta do Senhor.

Dia 28 de fevereiro

Lc 5, 27-32

27Depois disto, saiu, viu um publicano chamado Levi, sentado ao posto de cobrança, e disse-lhe: Segue-Me. 28E ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29Ofereceu-Lhe Levi, em sua casa, um grande banquete, e havia grande número de publicanos e de outros, que estavam com eles à mesa. 30Os Fariseus e os seus Escribas murmuravam, dizendo aos discípulos: Por que motivo comeis e bebeis com os publicanos e pecadores? 31Jesus tomou a palavra e disse-lhes: Não são os que têm saúde que precisam de médico, senão os doentes. 32Não foram os justos, mas os pecadores, que Eu vim chamar ao arrependimento.

Comentário

27-29. Levi, mais conhecido pelo nome de Mateus, responde com generosidade e prontidão ao chamamento de Jesus. Para celebrar e agradecer a sua vocação dá um grande banquete. Este passo do Evangelho reflete com clareza que a vocação é um grande bem do qual há que alegrar-se. Se nos fixássemos só na renúncia, no que há que deixar, e não no dom de Deus, no bem que vai fazer em nós e através de nós, poderia sobrevir o abatimento, como ao jovem rico que não quis deixar as suas riquezas e se afastou triste (Lc 18,18). Muito diferente é o comportamento de Mateus, e o dos Magos, que “ao verem a estrela se encheram de imensa alegria” (Mt 2,10), porque apreciaram mais adorar a Deus recém-nascido do que todos os esforços e incomodidades da viagem.

32. Este modo de atuar do Senhor significa que o único título que temos para sermos salvos é reconhecermo-nos com simplicidade pecadores diante de Deus. “Porque Jesus não sabe que fazer da astúcia calculista, da crueldade dos corações frios, da formosura vistosa mas vã. Nosso Senhor ama a alegria dum coração moço, o passo simples, a voz sem falsete, os olhos limpos, o ouvido atento à sua palavra de carinho. E é assim que reina na alma” (Cristo que passa, n° 181).

Dia 1º de março

Mc 1, 12-15

12 Logo o Espírito O impeliu para o deserto, 13e no deserto esteve quarenta dias tentado por Satanás; vivia com os animais selvagens e serviam-No os Anjos. 14Depois que João foi entregue, veio Jesus para a Galiléia a pregar o Evangelho de Deus, 15dizendo: Terminou o prazo e está próximo o Reino de Deus. Fazei penitência e crede no Evangelho.

Comentário

13. São Mateus (4, 1-11) e São Lucas (4, 1-13) narram com mais pormenores as tentações de Jesus. Jesus quis ensinar-nos, submetendo-Se às tentações, que estas não são de temer, mas, pelo contrário, podem ser a ocasião de um progresso na vida interior. «Deus permite as tentações — comenta Santo Afonso Maria de Ligório — em primeiro lugar, para que com elas reconheçamos melhor a nossa debilidade e a necessidade que temos da ajuda de Deus para não cair (…); em segundo lugar, Deus permite-as para que cada um aprenda a viver desprendido das coisas materiais e deseje mais fervorosamente chegar à contemplação de Deus no Céu (…); e, em terceiro lugar, para nos enriquecer de méritos (…). Com efeito/quando a alma começa a ser agitada por tentações e se vê em perigo de cair no pecado, recorre então a Deus, recorre à Mãe divina, renova o propósito de morrer antes que pecar, humilha-se e abandona-se nos braços da misericórdia divina, e assim consegue alcançar mais fortaleza e une-se a Deus mais estreitamente, como atesta a experiência» (Prática do amor a Jesus Cristo, cap. 17).

Por outro lado, como no caso do Senhor, nunca faltará nas tentações a ajuda divina: «Jesus suportou a prova, uma prova verdadeira (…). O Demônio, com retorcida intenção, citou o Antigo Testamento: Deus enviará os seus Anjos para que protejam o Justo em todos os seus caminhos (Ps XC, 11), Mas Jesus, recusando-Se a tentar o Pai, devolve a esse passo bíblico o seu verdadeiro sentido. E, como prêmio da Sua fidelidade, chegado o tempo, apresentam-se os mensageiros de Deus Pai para O servirem (…).

«Devemos encher-nos de ânimo, visto que a graça do Senhor não nos faltará, pois Deus estará a nosso lado e enviar-nos-á os Seus Anjos, para que sejam nossos compa­nheiros de viagem, nossos prudentes conselheiros ao longo do caminho, nossos colaboradores em todos os empreendi­mentos» (Cristo que passa, n.° 63).

14-15. «Evangelho de Deus»: Esta expressão encon­tramo-la em São Paulo (Rom 1, 1; 2 Cor. 11,7; etc.) como equivalente à de «Evangelho de Jesus Cristo» (Phil 1, 1; 2 Thes 1,8; etc.), insinuando-se deste modo a divindade de Jesus Cristo. A chegada iminente do Reino exige uma conversão autêntica do homem a Deus (Mt 4,17; 10,7; Mc 6, 12; etc.). Já os Profetas tinham falado da necessidade de converter-se e de abandonar os maus caminhos que seguia Israel, longe de Deus (ler 3,22; Is 30,15; Os 14^2; etc.). Tanto João Baptista como Cristo e os Seus Apóstolos insistem em que é preciso converter-se, mudar de atitude e de vida como condição prévia para receber o Reino de Deus. Recentemente o Papa João Paulo II realça a importância da conversão perante o Reino de Deus, expressão clara da Sua miseri­córdia: «Portanto, a Igreja professa e proclama a conversão. A conversão a Deus consiste sempre em descobrir a Sua misericórdia, isto é, esse amor que é paciente e benigno (cfr l Cor 13,4) à medida do Criador e Pai: o amor, a que ‘Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (2 Cor l, 3) é fiel até às últimas conseqüências na história da aliança com o homem: até à cruz, até à morte e à ressurreição de Seu Filho. A conversão a Deus é sempre fruto do ‘reencontro’ deste Pai, rico em misericórdia.

«O autêntico conhecimento de Deus, Deus da misericórdia e do amor benigno, é uma fonte constante e inexaurível de conversão, não somente como momentâneo ato interior, mas também como disposição permanente, como estado de espírito. Aqueles que assim chegam ao conhecimento de Deus, aqueles que assim O ‘vêem’, não podem viver de outro modo que não seja convertendo-se a Ele continuamente. Passam a viver in statu conversionis, em estado de conversão; e é este estado que constitui a característica mais profunda da peregrinação de todo o homem sobre a terra in statu viatoris, em estado de peregrino» (Dives in misericórdia, n. 13).