dia 22 a 28 de março de 2010

Dia 22 de março

Jo 8, 12-20

I2Jesus falou-lhes novamente, nestes termos: Eu sou a Luz do mundo. Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. 13Disseram-Lhe então os Fariseus: Tu dás testemunho de Ti mesmo: o Teu testemunho não é verídico! 14Respondeu-lhes Jesus: Ainda que Eu dê testemunho de Mim mesmo, é verídico o Meu testemunho, porque sei donde vim e para onde vou! Vós, porém, não sabeis donde venho nem para onde vou. 15Vós julgais segundo a carne, Eu não julgo nin­guém. 16E, ainda que Eu julgue, é verdadeiro o Meu juízo, porque não sou Eu só, sou Eu e o Pai, que Me enviou. 17Ora, na vossa Lei, está escrito que é verídico o testemunho de duas pessoas. 18Sou Eu a dar testemunho de Mim mesmo, e dá testemunho de Mim o Pai, que Me enviou. 19Perguntaram-Lhe então: Onde está Teu Pai? Jesus respondeu: Nem a Mim Me conheceis, nem a Meu Pai. Se Me conhecêsseis, também conheceríeis a Meu Pai.

Comentário

12. Começa agora outra disputa entre Jesus e os fariseus. O cenário é o recinto do Templo, mais exatamente o pátio chamado «átrio das mulheres», que precedia o dos israelitas e o dos sacerdotes, onde estava o altar dos holocaustos (cfr a nota a Lc l .21).

A ocasião é a mesma festa dos Tabernáculos (cfr Ioh 7,2), na qual, durante a primeira noite, se iluminava intensamente o átrio das mulheres com quatro enormes lâmpadas que davam certa claridade por toda Jerusalém. Com isso recordava-se a nuvem luminosa, sinal da presença de Deus, que guiou os Israelitas pelo deserto à sua saída do Egito. Foi provavelmente nesta festa que Jesus falou de Si mesmo como «a Luz». Por outro lado, a imagem da luz é freqüente no Antigo Testamento para designar o Messias: o profeta Isaías predisse que uma grande luz iluminaria os povos que estavam mergulhados em trevas, começando pelas tribos do Norte (Is 9,1-6; cfr Mt 4,15-16); que o Messias havia de ser não só o Rei de Israel, mas luz das gentes (Is 42,6; 49,6); e David falava de Deus como luz que ilumina a alma do justo e lhe dá fortaleza (Ps 27,1). Esta imagem era, pois, muito conhecida no tempo de Jesus Cristo: empregam-na Zacarias (Lc 1,78) e o velho Simeão (Lc 2,30-32) para manifestar a sua alegria ao ver que se estavam a cumprir as profecias antigas.

O Senhor aplica a Si mesmo esta imagem sob um duplo aspecto: é luz que ilumina a inteligência por ser a plenitude da Revelação divina (cfr Ioh 1,9.18); e é também luz que ilumina o interior do homem para que possa aceitar essa Revelação e fazê-la vida sua (cfr Ioh 1,4-5). Jesus pede, portanto, que O sigam para chegarem a ser filhos da luz (cfr Ioh 12,36), embora saiba que muitos O rejeitarão para que não sejam descobertas as suas obras más (cfr Ioh 3,20).

«Vede, pois, a conformidade perfeita entre as palavras do Senhor e o que diz o Salmo: ‘Em ti está a fonte da vida, e com a tua luz veremos a luz’ (Ps 36,10). O salmista une a luz com a fonte da vida, e o Senhor fala de uma ‘luz de vida’. Quando temos sede, buscamos uma fonte, quando estamos às escuras, buscamos uma luz (…). Com Deus é diferente: é a luz e é a fonte. Aquele que te ilumina para que vejas, esse mesmo é o manancial para que bebas» (In Ioann. Evang., 34,6).

13-18. Os fariseus procuram desvirtuar a força dos argumentos de Jesus: segundo eles apoia-Se apenas sobre a Sua própria palavra, e ninguém dá testemunho válido em seu próprio favor; portanto, o Seu testemunho não tem força alguma, pensam eles.

Numa circunstância parecida (cfr Ioh 5,31 ss.), Jesus tinha aduzido um quádruplo testemunho em Seu favor: a pregação de João Baptista, os milagres que Ele mesmo realizava, as palavras do Pai no momento do Batismo no Jordão, e a Sagrada Escritura. Aqui Jesus afirma o valor do Seu testemunho (v. 14) porque está unido ao do Pai. Isto equivale a dizer que o Seu testemunho é mais que um testemunho humano. «Fala para dizer que vem de Deus, que é Deus, e que é Filho de Deus, mas não o diz abertamente, porque une sempre a humildade com a profundidade. Deus merece que se tenha fé n’Ele» (Hom. sobre S. João, 51).

19. Os fariseus, que resistiam a admitir a origem divina de Jesus, pedem agora uma prova que confirme a veracidade das Suas palavras. A .pergunta que fazem a Jesus é insidiosa e mal-intencionada, pois eles pensam que não lhes pode mostrar o Pai.

Conhecer Jesus, ou seja, crer n’Ele e aceitar o mistério da Sua divindade, é conhecer também o Pai. Ioh 12,44-45 repete o mesmo ensinamento com outras palavras. Neste mesmo sentido dirá o Senhor a Filipe em tom de censura: «Há tanto tempo que estou convosco e não me conhecestes? Aquele que Me viu a Mim viu o Pai» (Ioh 14,9). Jesus é a manifestação visível de Deus invisível, a revelação máxima e definitiva de Deus aos homens (cfr Heb 1,1-3). Jesus Cristo «com toda a Sua presença e manifestação da Sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a Sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está conosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna» (Dei Verbum, n. 4).

20. «Tesouro» ou «gazofilácio»: Era como a caixa das esmolas das nossas igrejas, e achava-se situado no átrio das mulheres. Para mais pormenores veja-se a nota a Lc 21,1-4.

Dia 23 de março

Jo 8, 21-30

21Disse-lhes ainda: Eu vou-Me embora; haveis de procurar-Me, mas morrereis no vosso pecado. Vós não podeis vir para onde Eu vou. 22Ele foi-lhes dizendo: Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. 24Ora Eu disse-vos: “Morrereis nos vossos pecados, visto que, se não acreditardes que Eu sou, haveis de morrer nos vossos pecados”.

25Perguntaram-Lhe então: Tu quem és? Disse-lhes Jesus: Precisamente aquilo que vos digo! 26Tenho, a vosso respeito, muito que dizer e que julgar. Mas Aquele que Me enviou é verídico e Eu, o que Lhe ouvi, ao mundo o comunico. 27Eles não perceberam que lhes falava do Pai. 28Disse então Jesus: Quando elevardes o Filho do homem, então sabereis que Eu sou e que por Mim nada faço, mas conforme o Pai Me ensinou é que falo. 29Aquele que Me enviou está comigo: não Me deixou só, porque Eu sempre faço o que é do Seu agrado. 30Enquanto assim falava, muitos acreditaram n’Ele.

Comentário

21-24. Ao começar o Seu ministério público, Jesus apresentou-Se com os traços próprios do Messias prometido; alguns reconhecem-No como tal e aderem a Ele (cfr Ioh 1,12-13; 4,42; 6,69; 7,41); mas as autoridades hebreias, apesar de esperarem a vinda do Messias (cfr Ioh 1,19 ss.), persistem na sua atitude de repulsa perante Jesus. Daí a advertência que agora lhes dirige: Ele vai aonde eles não podem ir, isto é, irá para o Céu donde procede (cfr Ioh 6,41 ss.) e eles continuarão a esperar o Messias anunciado pelos profetas; mas nem encontrarão o Messias, porque o buscam fora de Jesus, nem agora O podem seguir, porque não crêem n’Ele. Vós sois deste mundo – vem o Senhor dizer-lhes -, não por estardes na terra mas por viverdes sob o influxo do príncipe deste mundo (cfr Ioh 12,31; 14,30; 16,11), por serdes vassalos e realizardes as suas obras (cfr 15,19); por isto morrereis nos vossos pecados. “Todos nascemos com pecado – comenta Santo Agostinho -; todos durante a vida acrescentamos outros ao pecado de origem, e temo-nos feito mais do mundo do que éramos quando nascemos dos nossos pais. Onde estaríamos se aquele que não tem sombra de pecado não tivesse vindo para destruir todo o pecado? Os judeus, por não crerem n’Ele, foram justamente sentenciados: Morrereis nos vossos pecados” (In Ioann. Evang., 38,6).

A salvação que Cristo traz será aplicada a todos os que crêem na Sua divindade. A divindade é declarada quando Jesus diz “Eu sou”, porque esta expressão, repetida noutras ocasiões (cfr Ioh 8,28; 13,19), estava reservada a Yahwéh no Antigo Testamento (cfr Dt 32,39; Is 43,10-11), onde Deus, ao revelar o Seu Nome, e com ele a Sua essência, diz a Moisés: “Eu sou o que sou” (Ex 3,14). Com esta expressão tão profunda Deus diz de Si mesmo que é o Ser supremo em sentido absoluto e pleno, que não depende de nenhum outro ser, e do qual todos dependem no seu ser e no seu existir. Assim, pois, Jesus ao dizer de Si mesmo “Eu sou” revela que é Deus.

25. Pouco antes Jesus tinha falado da Sua origem celeste e da Sua natureza divina (cfr vv. 23-24); mas os judeus resistem a aceitar essa revelação; por isso buscam agora uma declaração ainda mais explícita: “Tu quem és?”. A resposta do Senhor pode entender-se de diversas maneiras, pois o texto grego admite dois sentidos: 1) o Senhor confirma o que tinha proclamado imediatamente antes (cfr vv. 23-24) ou ao longo do Seu ensino em Jerusalém, e assim pode traduzir-se “absolutamente”, ou então, “em primeiro lugar o que vos estou a dizer”. Esta é a interpretação da Neo-vulgata. 2) Jesus indica que Ele é o “Princípio”, termo que São João utiliza também no Apocalipse para designar o Verbo, causa de toda a criatura (Apc 3,14; cfr Apc 1,8). Com isso exprime Jesus a Sua origem divina: esta é a interpretação da Vulgata. Em qualquer dos casos, Cristo manifesta de novo a Sua divindade, reafirmando o que disse antes, mas sem voltar a repetir as palavras que já escutaram.

Esta mesma pergunta dos judeus põe-se a muitos homens do nosso tempo: “Quem era Jesus? A nossa fé exulta e grita: é Ele, é Ele, o Filho de Deus feito homem; o Messias que esperávamos: é o Salvador do mundo, é, finalmente, o Mestre da nossa vida; é o Pastor que conduz os homens aos seus pastos no tempo, aos seus destinos mais além do tempo; é a alegria do mundo; a imagem do Deus invisível; o Caminho, a Verdade e a Vida; é o Amigo íntimo, o que nos conhece inclusivamente de longe e penetra os nossos pensamentos; é o que nos pode perdoar, consolar, curar, inclusivamente ressuscitar; e é Aquele que voltará, juiz de todos e de cada um, na plenitude da Sua glória e da nossa felicidade eterna” (Paulo VI, Audiência geral, 11-XII-1974.

26-27. “Aquele que Me enviou”: Expressão que se encontra muito freqüentemente no Evangelho de São João para se referir a Deus Pai (cfr 5,37; 6,44; 7,28; 8,16).

Os judeus que escutavam Jesus não compreendiam a quem Se estava a referir ao dizer “Aquele que Me enviou”; mas São João explica, ao narrar este episódio, que Cristo fala de Deus Pai, de Quem procede.

“Lhes falava do Pai”: Esta é a leitura da maioria dos códices gregos, entre eles os mais importantes. Outros códices gregos e algumas versões, como a Vulgata, lêem “chamava Deus a Seu Pai”.

“O que Lhe ouvi”: Jesus tem um conhecimento conatural do Pai, e segundo este conhecimento fala aos homens; não conhece por revelação ou por inspiração como os profetas ou os hagiógrafos, mas de um modo infinitamente superior. Por isso podia dizer que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho queira revelá-lo (cfr Mt 11,27).

28. O Senhor refere-Se à Sua Paixão e Morte: “E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim. Dizia isto assinalando de que morte ia morrer” (Ioh 12,32-33). Completando os Sinópticos e as Cartas de São Paulo, o quarto Evangelho apresenta a Cruz, sobretudo como um trono real em que Cristo “posto no alto” oferece a todos os homens os frutos da salvação (cfr Ioh 3,14-15; cfr também Num 21,9 ss.; Sap 16,6).

Jesus diz que, chegado aquele momento, os judeus conheceriam quem era Ele e a estreita união que tinha com o Pai, porque muitos deles descobririam, mercê da Sua Morte seguida da Ressurreição, que era o Messias, o Filho de Deus (cfr Mc 15,39; Lc 23,47 s.). Depois da vinda do Espírito Santo serão milhares as pessoas que crerão n’Ele (cfr Act 1,41; 4,4).

Dia 24 de março

Jo 8, 31-42

31Dizia então Jesus aos Judeus que n’Ele tinham acreditado: Se permanecerdes na Minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos, 32conhecereis a verdade, e a verdade libertar-vos-á. 33Eles responderam-Lhe: Nós somos a descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; como é que Tu dizes: “ficareis livres”? 34Retorquiu–lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado. 35Ora o escravo não fica na casa para sempre; o filho é que fica para sempre. 36Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas vós procurais matar-Me, porque a Minha palavra não tem cabimento em vós.

38Eu digo o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai. 39Retorquiram-Lhe eles: O nosso pai é Abraão! Se fôsseis filhos de Abraão – disse-lhes Jesus – faríeis as obras de Abraão. 40Mas vós procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus! Isso não fez Abraão! 41Vós fazeis as obras do vosso pai. Disseram-Lhe eles: Nós não nascemos da prostituição; só temos um Pai, que é Deus! 42Disse-lhes Jesus: Se fosse Deus o vosso Pai, vós amar-Me-íeis, pois de Deus é que eu saí e venho. É que Eu não vim de Mim próprio, mas foi Ele que Me enviou.

Comentário

30-32. Aos judeus que então crêem em Jesus pede-lhes muito mais que a fé momentânea produzida por um entusiasmo superficial; trata-se de ser verdadeiros discípulos, de modo que as palavras de Jesus informem as suas vidas para sempre. O fruto dessa fé profunda será o conhecimento da verdade e uma vida autenticamente livre.

O conhecimento da verdade de que fala Cristo não é só intelectual, mas antes o amadurecimento na alma da semente da Revelação divina. Esta culmina nas palavras de Cristo, e é uma verdadeira comunicação de vida sobrenatural (cfr Ioh 5,24): aquele que crê em Jesus, e através d’Ele no Pai, recebe o maravilhoso dom da vida eterna. Conhecer a verdade, em última análise, é conhecer o próprio Cristo, Deus encarnado para a nossa salvação, sentir que o Deus inacessível Se fez homem, nosso Amigo, nossa vida.

Esse conhecimento é o único que realmente nos torna livres, porque nos tira do estado de afastamento de Deus, do pecado, e, portanto, da escravidão do demônio e de todas as ataduras da nossa natureza caída, e nos introduz na senda da amizade divina, da graça, do Reino de Deus. Por isso esta liberdade não só é luz que nos marca o caminho, mas graça, força que nos dá a possibilidade de o percorrer apesar das nossas limitações.

“Jesus Cristo vai ao encontro do homem de todas as épocas, também do da nossa época, com as mesmas palavras que disse alguma vez: ‘conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Estas palavras encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo tempo, uma advertência: a exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade; e a advertência, ademais, para que seja evitada qualquer verdade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que despedaça essa liberdade nas próprias raízes, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência. Que confirmação estupenda disto mesmo deram e não cessam de dar aqueles que, graças a Cristo e em Cristo, alcançaram a verdadeira liberdade e a manifestaram até em condições de constrangimento exterior!” (Redemptor hominis, n. 12).

“O próprio Cristo une, de modo particular, a libertação com o conhecimento da verdade: ‘Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’ (Ioh 8,32). Esta frase atesta sobretudo o íntimo significado da liberdade com que Cristo nos liberta. Libertação significa transformação interior do homem, conseqüência do conhecimento da verdade. A transformação é, portanto, um processo espiritual no qual o homem progride ‘na justiça e na santidade verdadeiras’ (Eph 4,24) (…). A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, tornando mais profunda deste modo a vida interior do homem; a verdade tem também um significado e uma força profética; ela constitui o conteúdo do testemunho e exige um testemunho. Encontramos esta força profética da verdade nos ensinamentos de Cristo: Como Profeta, como testemunha da verdade, Cristo opõe-Se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão, e a miúde não duvida em censurar o falso” (João Paulo II, Audiência geral de 21-II-1979).

São Tomás de Aquino explica o profundo conteúdo destas palavras do Senhor do seguinte modo: “Libertar neste passo não se refere a tirar qualquer angústia (…), mas propriamente significa tornar livre, e isto de três modos: primeiro, a verdade da doutrina tornar-nos-á livres do erro da falsidade (…); segundo, a verdade da graça livrará da escravidão do pecado: ‘A lei do espírito de vida que está em Cristo Jesus libertou-me da lei do pecado e da morte’ (Rom 8,2); terceiro, a verdade da eternidade em Cristo Jesus livrar-nos-á da corrupção (cfr Rom 8,21)” (Comentário sobre S. João, ad loc.)

“A verdade libertar-vos-á”: “Que verdade é esta que inicia e consuma o caminho da liberdade em toda a nossa vida? Resumi-la-ei com a alegria e com a certeza que nascem da relação de Deus com as Suas criaturas: saber que saímos das mãos de Deus, que somos objecto da predilecção da Santíssima Trindade, que somos filhos de tão grande Pai. Eu peço ao meu Senhor que nos decidamos a ter isso sempre em consideração, a saboreá-lo dia-a-dia; assim actuaremos como pessoas livres. Não o esqueçais: quem não sabe que é filho de Deus desconhece a sua verdade mais íntima e carece, na sua actuação, do domínio e do senhorio próprios dos que amam o Senhor acima de todas as coisas” (Amigos de Deus, n.° 26).

33-34. Durante séculos o povo de Israel tinha estado sujeito a outras nações (Egipto, Babilônia, Pérsia…), e naquele momento encontrava-se sob a dominação de Roma. Por isso estes judeus entenderam que Jesus Se referia a uma escravidão ou domínio político, ao qual tinham estado submetidos de facto, embora nunca o tivessem aceitado. Além disso, por pertencer ao povo escolhido por Deus, consideravam-se livres dos erros e aberrações morais dos povos pagãos.

Eles pensavam que a verdadeira liberdade estava baseada no facto de pertencer ao povo eleito. O Senhor responde que ser da linhagem de Abraão não basta, mas que a verdadeira liberdade consiste em não ser escravos do pecado. Tanto judeus como pagãos estavam submetidos à escravidão do pecado original e dos pecados pessoais (cfr Rom 5,12; 6,20 e 8,2). Só Cristo, o Filho de Deus, podia libertar desta triste situação (cfr Gal 4,21-51); mas os judeus que O escutavam não entenderam a obra redentora que Cristo estava a realizar e que culminaria com a Sua Morte e Ressurreição.

“O Salvador – comenta Santo Agostinho – manifestou com estas palavras, não que ficaríamos livres dos povos dominadores, mas do demônio; não do cativeiro do corpo, mas da malícia da alma” (Sermo 48).

35-36. As palavras escravo e filho evocam os dois filhos de Abraão: Ismael, nascido da escrava (Agar), que não terá parte na herança; e Isaac, nascido da livre (Sara), que será herdeiro das promessas de Deus (cfr Gen 21,10-12; Gal 4,28-31). Não basta a descendência carnal de Abraão para herdar as promessas de Deus e salvar-se, mas é preciso identificar-se, pela fé e pela caridade, com Jesus Cristo, o verdadeiro e próprio Filho do Pai, o único que pode tornar-nos filhos de Deus e deste modo trazer-nos a verdadeira liberdade (cfr Rom 8,21; Gal 4,31). Cristo dá “poder para ser filhos de Deus, aos que crêem no Seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem do querer do homem, mas de Deus” (Ioh 1,12-13). Assim, o homem que se identifica com Cristo torna-se filho de Deus e obtém a liberdade própria dos filhos.

“A liberdade adquire o seu sentido autêntico quando se exerce ao serviço da verdade que resgata, quando se gasta a procurar o amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões. Aumentam cada dia mais os meus desejos de anunciar em altos brados esta insondável riqueza do cristão: a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rom VIII,21) (…). Donde nos vem esta liberdade? De Cristo, Nosso Senhor. Esta é a liberdade com que Ele nos redimiu (cfr Gal IV,31). Por isso ensina: se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres (Ioh VIII,36). Nós, os cristãos, não temos de pedir emprestado a ninguém o verdadeiro sentido deste dom, porque a única liberdade que salva o homem é a cristã (Amigos de Deus, nos 27 e 35).

37-41. O Senhor responde à objecção dos judeus: efectivamente são filhos de Abraão, mas só em sentido natural, segundo a carne, circunstância carecida já de valor, pois o que agora conta é a aceitação de Jesus como Enviado do Pai. Espiritualmente os interlocutores de Jesus estão muito longe de terem a verdadeira filiação de Abraão: este alegrou-se ao ver o Messias (cfr Ioh 8,56); pela sua fé foi justificado (cfr Rom 4,1 ss.), e a sua fé moveu-o a levar uma conduta conseqüente (cfr Iac 2,21-24); por isto chegou a alcançar o gozo da eterna bem-aventurança (cfr Mt 8,11; Lc 16,24). Pelo contrário, aqueles judeus “eram seus descendentes carnais, mas tinham degenerado não imitando a fé daquele de quem eram filhos” (In Ioann. Evang., 42,1). Os que vivem da fé – diz São Paulo – são os verdadeiros filhos de Abraão e junto com ele serão abençoados por Deus (cfr Gal 3,7-9). Mais ainda, os que agora discutem com o Senhor não só rejeitam a Sua doutrina, mas as suas obras denunciam outra filiação radicalmente diferente: “Vós fazeis as obras de vosso pai”, expressão que contém de forma velada a acusação de serem filhos do diabo (cfr v. 44).

A falsa segurança que sentiam os judeus por descenderem de Abraão pode ter o seu paralelismo num cristão que se contentasse com ser baptizado e com fazer algumas práticas religiosas, abandonando as exigências que traz consigo a fé em Jesus Cristo.

Dia 25 de março

Lc 1, 26-38

26Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, chamado José, e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. 29A estas palavras, ela perturbou-se e ficou a pensar que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. 31Hás-de conceber e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, 33reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu reinado não terá fim. 34Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? 35Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. 36E também Isabel, tua parenta, concebeu um filho, na sua velhice, e é este o sexto mês dessa que chamavam estéril, 37porque, da parte de Deus, nada é impossível. 38Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra. E retirou-se o Anjo de junto dela.

Comentário

26-38. Aqui contemplamos Nossa Senhora que, “enriquecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como cheia de graça (cfr Lc 1,28); e responde ao mensageiro celeste: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc l ,38). Deste modo, Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus omnipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens” (Lumen gentium, n. 56).

A Anunciação a Maria e a Encarnação do Verbo é o facto mais maravilhoso, o mistério mais entranhável das relações de Deus com os homens e o acontecimento mais transcendente da História da humanidade. Que Deus Se faça Homem e para sempre! Até onde chegou a bondade, a misericórdia e o amor de Deus por nós, por todos nós! E, não obstante, no dia em que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a débil natureza humana das entranhas puríssimas de Maria Santíssima, nada extraordinário acontecia, aparentemente, sobre a face da terra.

Com grande simplicidade narra São Lucas o magno acontecimento. Com quanta atenção, reverência e amor temos de ler estas palavras do Evangelho, rezar piedosamente o Angelus cada dia, seguindo a divulgada devoção cristã, e contemplar o primeiro mistério gozoso do santo Rosário.

27. Deus quis nascer de uma mãe virgem. Assim o tinha anunciado séculos antes por meio do profeta Isaías (cfr Is 7,14; Mt 1,22-23). Deus, “desde toda a eternidade, escolheu-A e indicou-A como Mãe para que o Seu Unigênito Filho tomasse carne e nascesse d’Ela na plenitude ditosa dos tempos; e em tal grau A amou por cima de todas as criaturas, que só n’Ela se comprazeu com assinaladíssima complacência” (Ineffabilis Deus). Este privilégio de ser virgem e mãe ao mesmo tempo, concedido a Nossa Senhora, é um dom divino, admirável e singular. Deus “engrandeceu tanto a Mãe na concepção e no nascimento do Filho, que Lhe deu fecundidade e A conservou em perpétua virgindade” (Catecismo Romano, I,4,8). Paulo VI recordava-nos novamente esta verdade de fé: “Cremos que a bem-aventurada Maria, que permaneceu sempre Virgem, foi a Mãe do Verbo encarnado, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo” (Credo do Povo de Deus, n° 14).

Ainda que se tenham proposto muitos significados do nome de Maria, os autores de maior relevância parecem estar de acordo em que Maria significa Senhora. Não obstante, a riqueza que contém o nome de Maria não se esgota com um só significado.

28. “Salve!”: Literalmente o texto grego diz: alegra-te! É claro que se trata de uma alegria totalmente singular pela notícia que Lhe vai comunicar a seguir.

“Cheia de graça”: O Arcanjo manifesta a dignidade e a honra de Maria com esta saudação desusada. Os Padres e Doutores da Igreja “ensinaram que com esta singular e solene saudação, jamais ouvida, se manifestava que a Mãe de Deus era assento de todas as graças divinas e que estava adornada de todos os carismas do Espírito Santo”, pelo que “jamais esteve sujeita a maldição”, isto é, esteve imune de todo o pecado. Estas palavras do arcanjo constituem um dos textos em que se revela o dogma da Imaculada Conceição de Maria (cfr Ineffabilis Deus; Credo do Povo de Deus, n° 14).

“O Senhor está contigo”: Estas palavras não têm um mero sentido deprecatório (o Senhor esteja contigo), mas afirmativo (o Senhor está contigo), e em relação muito estreita com a Encarnação. Santo Agostinho glosa a frase “o Senhor está contigo” pondo na boca do arcanjo estas palavras: “Mais que comigo, Ele está no teu coração, forma-Se no eu ventre, enche a tua alma, está no teu seio” (Sermo de Nativitate Domini, 4).

Alguns importantes manuscritos gregos e versões antigas acrescentam no fim: “Bendita tu entre as mulheres”: Deus exaltá-La-ia assim sobre todas as mulheres. Mais excelente que Sara, Ana, Débora, Raquel, Judit, etc., pelo facto de que só Ela tem a suprema dignidade de ter sido escolhida para ser Mãe de Deus.

29-30. Perturbou-se Nossa Senhora pela presença do Arcanjo e pela confusão que produzem nas pessoas verdadeiramente humildes os louvores dirigidos a elas.

30. A Anunciação é o momento em que Nossa Senhora conhece com clareza a vocação a que Deus A tinha destinado desde sempre. Quando o Arcanjo A tranqüiliza e Lhe diz “não temas, Maria”, está a ajudá-La a superar esse temor inicial que, ordinariamente, se apresenta em toda a vocação divina. O facto de que isto tenha acontecido à Santíssima Virgem indica-nos que não há nisso nem sequer imperfeição: é uma reacção natural diante da grandeza do sobrenatural. Imperfeição seria não o superar, ou não nos deixarmos aconselhar por aqueles que, como São Gabriel e Nossa Senhora, podem ajudar-nos.

31-33. O arcanjo Gabriel comunica à Santíssima Virgem a sua maternidade divina, recordando as palavras de Isaías que anunciavam o nascimento virginal do Messias e que agora se cumprem em Maria Santíssima (cfr Mt 1,22-23; Is 7,14).

Revela-se que o Menino será “grande”: a grandeza vem-Lhe da Sua natureza divina, porque é Deus, e depois da Encarnação não deixa de sê-lo, mas assume a pequenez da humanidade. Revela-se também que Jesus será o Rei da dinastia de David, enviado por Deus segundo as promessas de Salvação; que o Seu Reino “não terá fim”: porque a Sua humanidade permanecerá para sempre indissoluvelmente unida à Sua divindade; que “chamar-se-á Filho do Altíssimo”: indica ser realmente Filho do Altíssimo e ser reconhecido publicamente como tal, isto é, o Menino será o Filho de Deus.

No anúncio do Arcanjo evocam-se, pois, as antigas profecias que anunciavam estas prerrogativas. Maria, que conhecia as Escrituras Santas, entendeu claramente que ia ser Mãe de Deus.

34-38. O Papa João Paulo II comentava assim este passo: “Virgo fidelis, Virgem fiel. Que significa esta fidelidade de Maria? Quais são as dimensões dessa fidelidade? A primeira dimensão chama-se busca. Maria foi fiel, antes de mais, quando com amor se pôs a buscar o sentido profundo do desígnio de Deus n’Ela e para o mundo. ‘Quomodo fiet? Como acontecerá isto?‘, perguntava Ela ao anjo da Anunciação (…). Não haverá fidelidade se não houver na raiz esta ardente, paciente e generosa busca (…). A segunda dimensão da fidelidade chama-se acolhimento, aceitação. O quomodo fiet transforma-se, nos lábios de Maria, em um fiat. Que se faça, estou pronta, aceito: este é o momento crucial da fidelidade, momento em que o homem percebe que jamais compreenderá totalmente o como; que há no desígnio de Deus mais zonas de mistério que de evidência; que, por mais que faça, jamais conseguirá captar tudo (…). Coerência é a terceira dimensão da fidelidade. Viver de acordo com o que se crê. Ajustar a própria vida ao objecto da própria adesão. Aceitar incompreensões, perseguições antes que permitir rupturas entre o que se vive e o que se crê: esta é a coerência (…). Mas toda a fidelidade deve passar pela prova mais exigente: a da duração. Por isso a quarta dimensão da fidelidade é a constância. É fácil de ser coerente por um dia ou por alguns dias. Difícil e importante é ser coerente toda a vida. É fácil de ser coerente na hora da exaltação, difícil sê-lo na hora da tribulação. E só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete aos pés da cruz” (Homilia Catedral México).

34. A fé de Maria nas palavras do Arcanjo foi absoluta; não duvida como duvidou Zacarias (cfr 1,18). A pergunta da Santíssima Virgem “como será isso” exprime a sua prontidão para cumprir a Vontade divina diante de uma situação que parece à primeira vista contraditória: por um lado Ela tinha a certeza de que Deus lhe pedia para conservar a virgindade; por outro lado, também da parte de Deus, é-lhe anunciado que vai ser mãe. As palavras imediatas do arcanjo declaram o mistério do desígnio divino e o que parecia impossível, segundo as leis da natureza, explica-se por uma singularíssima intervenção de Deus.

O propósito de Maria de permanecer virgem foi certamente algo singular, que interrompia o modo ordinário de proceder dos justos do Antigo Testamento, no qual, como expõe Santo Agostinho, “atendendo de modo particularíssimo à propagação e ao crescimento do Povo de Deus, que era o que tinha de profetizar e donde havia de nascer o Príncipe e Salvador do mundo, os santos tiveram de usar do bem do matrimônio” (De bono matrimonii, 9,9). Houve, porém, no Antigo Testamento alguns homens que por desígnio de Deus permaneceram célibes, como Jeremias, Elias, Eliseu e João Baptista. A Virgem Santíssima, inspirada de modo muito particular pelo Espírito Santo para viver plenamente a virgindade, é já uma primícia do Novo Testamento, no qual a excelência da virgindade sobre o matrimônio adquirirá todo o seu valor, sem diminuir a santidade da união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, n. 48).

35. A “sombra” é um símbolo da presença de Deus. Quando Israel caminhava pelo deserto, a glória de Deus enchia o Tabernáculo e uma nuvem cobria a Arca da Aliança (Ex 40,34-36). De modo semelhante quando Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei, uma nuvem cobria a montanha do Sinai (Ex 24,15-16), e também na Transfiguração de Jesus se ouve a voz de Deus Pai no meio de uma nuvem (Lc 9,35).

No momento da Encarnação o poder de Deus enroupa com a Sua sombra Nossa Senhora. É a expressão da acção omnipotente de Deus. O Espírito de Deus – que, segundo o relato do Gênesis (1,2), pairava sobre as águas dando vida às coisas – desce agora sobre Maria. E o fruto do seu ventre será obra do Espírito Santo. A Virgem Maria, que foi concebida sem mancha de pecado (cfr Ineffabilis Deus), fica depois da Encarnação constituída em novo Tabernáculo de Deus. Este é o Mistério que recordamos todos os dias na recitação do Angelus.

38. Uma vez conhecido o desígnio divino, Nossa Senhora entrega-se à Vontade de Deus com obediência pronta e sem reservas. Dá-se conta da desproporção entre o que vai ser – Mãe de Deus – e o que é – uma mulher -. Não obstante, Deus o quer e nada é impossível para Ele, e por isto ninguém é capaz de pôr dificuldades ao desígnio divino. Daí que, juntando-se em Maria a humildade e a obediência, pronunciará o sim ao chamamento de Deus com essa resposta perfeita: “Eis a escrava do Senhor, seja-me feito segundo a tua palavra”.

“Ao encanto destas palavras virginais, o Verbo se fez carne” (Santo Rosário, primeiro mistério gozoso). Das puríssimas entranhas da Santíssima Virgem, Deus formou um corpo, criou do nada uma alma, e a este corpo e alma uniu-Se o Filho de Deus; desta sorte o que antes era apenas Deus, sem deixar de o ser, ficou feito homem. Maria já é Mãe de Deus. Esta verdade é um dogma da nossa santa fé definido no Concilio de Éfeso (ano 431). Nesse mesmo instante começa a ser também Mãe espiritual de todos os homens. O que um dia ouvirá de lábios de seu Filho moribundo, “eis aí o teu filho (…), eis aí a tua mãe” (Ioh 19,26-27), não será senão a proclamação do que silenciosamente tinha acontecido em Nazaré. Assim, “com o seu fiat generoso converteu-se, por obra do Espírito, em Mãe de Deus e também em verdadeira Mãe dos vivos, e converteu-se também, ao acolher no seu seio o único Mediador, em verdadeira Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus” (Marialis cultus, n. 6).

O Evangelho faz-nos contemplar a Virgem Santíssima como exemplo perfeito de pureza (“não conheço homem”); de humildade (“eis a escrava do Senhor”); de candura e simplicidade (“como será isso”); de obediência e de fé viva (“seja-me feito segundo a tua palavra”). “Procuremos aprender, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obedecem, sim, mas como insensatas. Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe. Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra (Lc I, 38). Vedes esta maravilha? Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois nos move interiormente a descobrir a liberdade dos filhos de Deus (cfr Rom VIII, 21)” (Cristo que passa, n° 173).

Dia 26 de março

Jo 10, 31-42

31De novo os Judeus trouxeram pedras para O apedrejarem. 32Jesus dirigiu-lhes a palavra: Tenho-vos apresentado muitas boas obras devidas ao Pai. Por qual dessas obras Me quereis apedrejar? 33Replicaram-Lhe os Judeus: Não é por uma boa obra que Te queremos apedrejar, é por blasfêmia; e porque Tu, sendo homem, Te fazes Deus. 34Jesus respondeu-lhes: Não está escrito na vossa Lei: Eu disse: Vós sois deuses? 35Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus – e a Escritura não pode abolir-se – 36de Mim, a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, vós dizeis: “estás a blasfemar!” por Eu ter dito: “sou Filho de Deus”? 37Se não faço as obras de Meu Pai, não acrediteis em Mim. 38Mas, se as faço, embora não queirais acreditar em Mim, dai crédito às obras, para que reconheçais e fiqueis a saber que o Pai está em Mim e Eu estou no Pai.

39Procuravam então novamente prendê-Lo, mas Ele escapou-Se-lhes das mãos.

40Depois retirou-Se novamente para o outro lado do Jordão, para o lugar onde João tinha estado primeiro a baptizar, e por lá Se conservou. 41Muitos foram ter com Ele e diziam: João, é certo, não fez qualquer milagre, mas tudo quanto disse acerca d’Este era verdade. 42E muitos, ali, acreditaram n’Ele.

Comentário

31-33. Os judeus compreendem que Jesus afirma ser Deus, mas interpretam as Suas palavras como uma blasfêmia. Chamaram-Lhe blasfemo quando perdoou os pecados do paralítico (Mt 9,1-8) e acusando-O de blasfemo condená-Lo-ão também quando confessar solenemente a Sua divindade diante do Sinédrio (Mt 26,63-65). Nosso Senhor manifestou, pois, a Sua natureza divina; mas aqueles ouvintes rejeitaram esta revelação do mistério de Deus Encarnado, fechando-se diante das provas que Jesus lhes oferecia. Por isso O acusam de que, sendo homem, Se faz Deus. A fé apóia-se em argumentos razoáveis – milagres e profecias – para crer que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ainda que o nosso entendimento limitado nos impeça de compreender como isto pode ser. Na verdade, o Senhor, para reafirmar a Sua divindade, recorre a dois argumentos que os Seus adversários não poderão rebater: o testemunho da Sagrada Escritura – profecias – e o das Suas próprias obras – milagres -.

34-36. O Evangelho mostrou-nos já várias respostas do Senhor a objecções dos judeus. Agora Jesus recorre com paciência a uma argumentação que para eles tinha força decisiva: a autoridade da Sagrada Escritura. Cita o Salmo 82 em que Deus censura uns juizes pela sua actuação injusta, apesar de lhes ter recordado: “Sois deuses, todos vós, filhos do Altíssimo” (Ps 82,6). Se, segundo este Salmo, os filhos de Israel são chamados deuses e filhos de Deus, com quanta maior razão há-de ser chamado Deus Aquele que foi santificado e enviado por Deus. Com efeito, a natureza humana de Cristo ao ser assumida pelo Verbo fica santificada plenamente e vem ao mundo para santificar os homens. “Os Santos Padres constantemente proclamam nada estar remido que não tivesse sido primeiro assumido por Cristo. Ora Ele assumiu por inteiro a natureza humana tal qual ela existe em nós, pobres e miseráveis, rejeitando dela apenas o pecado. De Si mesmo disse Cristo que era Aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo” (Ad gentes, n. 3).

Com o uso que faz Jesus da Sagrada Escritura (cfr Mt 4,4.7.10; Lc 4,1.17, etc.) ensina-nos o carácter divino desta. Por isto a Igreja crê e afirma que “as coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa Madre Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (Ioh 20,31; 2 Tim 3,16; 2 Pet 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (…). E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras” (Dei Verbum, n. 11).

37-38. As obras a que Se refere o Senhor são os Seus milagres, em que se manifesta o poder de Deus. Jesus apresenta as Suas palavras e as Suas obras como uma unidade, em que os milagres confirmam as Suas palavras e estas explicam o sentido dos milagres. Por isso, quando afirma que é o Filho de Deus, confirma esta revelação com os milagres que realiza. Assim pois, se ninguém pode negar o facto dos milagres, justo é reconhecer a veracidade das Suas palavras.

41-42. Em contraste com a oposição de uns (cfr Ioh 10,20.31.39), está a adesão de outros, que O vão buscar ao lugar para onde Se retirou. A actividade preparatória de São João Baptista continua a dar os seus frutos: aqueles que tinham aceitado a pregação do Baptista agora buscam Cristo, e crêem ao verem que n’Ele se cumprem as palavras do Precursor quando anunciava que Jesus era o Messias, o Filho de Deus (Ioh 1,34).

O labor que se faz em nome do Senhor nunca é inútil. “Assim, meus queridos irmãos, mantei-vos firmes, inamovíveis, progredindo sempre na obra do Senhor, sabendo que o nosso trabalho não é vão no Senhor” (1 Cor 15,58). Assim como a palavra e o exemplo do Baptista serviram para que mais tarde muitos cressem em Jesus, o exemplo apostólico dos cristãos nunca será de balde, ainda que às vezes não se veja imediatamente o resultado. “Semear. – Saiu o semeador… – Semeia aos punhados, alma de apóstolo. – O vento da graça arrastará a tua semente, se o sulco onde caiu não for digno… Semeia, e está certo de que a semente vingará e dará o seu fruto” (Caminho, n° 794).

Dia 27 de março

Jo 11, 45-56

45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele. 46Alguns deles, porém, foram ter com os Fariseus e disseram-lhes o que Jesus havia feito. 47Os Sumos Sacerdotes e os Fariseus reuniram conselho. Que havemos de fazer— diziam eles — uma vez que este homem realiza tantos milagres? 48Se O deixarmos assim, todos acreditarão n’Ele, e os Romanos virão destruir-nos o Lugar e a Nação. 49Mas um deles, Caifás, sendo Sumo Sacer­dote nesse ano, disse-lhes: Vós não sabeis nada 50nem discorras que vos interessa que morra um só homem pelo povo e não pereça a Nação inteira! 51Isto, porém, não o disse por si próprio, mas sendo Sumo Sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus ia morrer pela Nação, 52e não só pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos. 53A partir, pois, desse dia, ficaram decididos a dar-Lhe a morte. 54Jesus, por isso, já não andava abertamente entre os Judeus, mas retirou–Se dali para uma região junto do deserto, para uma cidade chamada Efraim, e por lá Se conservou com os discípulos. 55Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e muitos subiram da província a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem. 56Procuravam eles a Jesus e diziam entre si, estacionando no Templo: Que vos parece? Que Ele não virá à festa?

Comentário

45-48. Uma vez mais Jesus, tal como o velho Simeão tinha predito, aparece como sinal de contradição (cfr Lc 2,34; Ioh 7,12.31.40; 9,16; etc.): diante do milagre da ressur­reição de Lázaro uns crêem n’Ele (v. 45) e outros denunciam-No aos Seus inimigos (w. 46-47). Estas atitudes di­versas confirmam o dito na parábola do rico avarento: «Também não se convencerão mesmo que um dos mortos ressuscite» (Lc 16,31).

«O Lugar»: Com esta expressão, ou outras semelhantes («o lugar», «este lugar»), designava-se o Templo, lugar sagrado por excelência e, por extensão, toda a Cidade Santa, Jerusalém (cfr 2 Mach 5,19; Act 6,14).

49-53. Caifás exerceu o sumo pontificado do ano 18 ao 36 d. C. (cfr Começo do Ministério Público, p. 80). Caifás é o instrumento de Deus para profetizar a Morte redentora do Salvador, pois uma das funções do sumo sacerdote era consultar Deus para guiar o povo (cfr Ex 28,30; Num 27,21; l Sam 23,9; 30,7-8). Neste caso as palavras de Caifás têm um duplo sentido: um, pretendido por ele mesmo, é a sua intenção de dar morte a Cristo com o pretexto de garantir a tranqüilidade e sobrevivência política de Israel; outro, que­rido pelo Espírito Santo, é o anúncio da fundação do novo Israel, a Igreja, mediante a Morte de Cristo na Cruz; Caifás não captou este sentido. Desta maneira o último pontífice da Antiga Aliança profetiza a investidura do Sumo Sacerdote da Nova, selada com o Seu próprio Sangue.

Quando o Evangelista afirma que Cristo ia morrer «para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos» (v. 52), refere-se ao que o Senhor tinha dito acerca dos efeitos salvíficos da Sua morte (cfr Ioh 10,14-15). Já os profetas tinham anunciado a futura congregação dos Israelitas fiéis a Deus para formar o novo povo de Israel (cfr Is 43,5; ler 23,3-5; Ez 34,23; 37,21-24). Estes vaticínios cumpriram-se com a Morte de Cristo, que, ao ser exaltado na Cruz, atrai e reúne o verdadeiro Povo de Deus, formado por todos os crentes, sejam ou não Israelitas. O Concilio Vaticano II apoia-se neste passo ao falar da universalidade da Igreja: «Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos/para se cumprir o desígnio da vontade de Deus, que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os Seus filhos que estavam dispersos (cfr Ioh 11,52). Foi para isto que Deus enviou o Seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas; (cfr Heb 1,2), para ser mestre, rei e sacerdote universal, cabeça do novo e universal Povo dos filhos de Deus» (Lumen gentium, n. 13).

No século IV, São João Crisóstomo explicava aos seus fiéis a catolicidade da Igreja com estas palavras: «Que quer dizer ‘para reunir os que estavam próximo’ e ‘os que esta­vam dispersos’? Que os fez um só corpo. Quem reside em Roma sabe que os cristãos da índia são seus membros» (Hom. sobre S. João, 65,1).

54. Ainda não tinha chegado a hora da Sua morte; por isso Jesus actua com prudência, pondo os meios humanos para não precipitar os acontecimentos.

55. Sendo a Páscoa a festa mais solene dos Judeus, os fiéis chegavam uns dias antes a Jerusalém para se prepa­rarem para a sua celebração por meio de abluções, jejuns e oferendas: práticas que não eram tanto exigidas pela lei mosaica como pela piedade do povo. Os próprios ritos da Páscoa, com a imolação do cordeiro, serviam de purificação e de expiação pelos pecados. A Páscoa dos Judeus era figura da Páscoa cristã, pois, como nos ensina o Apóstolo São Paulo, o nosso cordeiro pascal é Cristo (cfr l Cor 5,7), o qual Se ofereceu de uma vez para sempre ao eterno Pai na Cruz para expiar pelos nossos pecados. Paulo VI recordava esta verdade gozosa da nossa fé: «Sacrificou-Se? Mas, será que existe ainda uma religião que se exprima em sacrifícios? Não, os sacrifícios da antiga lei e das religiões pagas já não têm razão de ser; mas de um sacrifício, um sacrifício válido, único e perene, sem dúvida que tem sempre necessidade o mundo para a redenção do pecado humano; (…) e é o sacrifício de Cristo sobre a cruz, o que apaga o pecado do mundo; sacrifício que a Eucaristia actualiza no tempo, dando aos homens desta terra a possibilidade de participar nele» (Alocução de 17-VI-1976).

Se os Judeus se preparavam com tantos ritos e abluções para celebrar a Páscoa, que não devemos fazer nós para celebrar ou participar na Santa Missa e receber Cristo — nossa Páscoa — na Eucaristia! «Quando na Terra se recebem pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala. Para albergar Cristo na nossa alma, como devemos pre­parar-nos? Já teremos por acaso pensado como nos compor­taríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?» (Cristo que passa, n,° 91).

Dia 28 de março (Domingo de Ramos)

Lc 22, 14 – 23, 56

14Quando chegou a hora, pôs-Se à mesa; e com Ele os Apóstolos. 15Disse-lhes então: Eu Tenho ardentemente desejado comer convosco esta páscoa, antes de padecer, 16pois vos digo que já não a comerei até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus. 17Tomando uma taça, deu graças e disse: Tomai e reparti entre vós, 18pois vos digo que não beberei doravante do produto da videira até que venha o Reino de Deus. 19Tomou então um pão e, depois de dar graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o Meu corpo, que vai ser dado por vós; fazei isto em Minha memória. 20Depois de jantar, fez o mesmo com o cálice, dizendo: Este cálice é a nova Aliança no Meu sangue, que por vós se vai derramar.

21Entrètanto, a mão de quem Me vai entregar está à mesa comigo. 22Parte o Filho do homem, como está determinado; contudo, ai daquele por meio de quem vai ser entregue! 23Eles começaram a discutir entre si qual deles seria então o que iria fazer isso.

24Levantou-se também entre eles uma disputa sobre qual deles devia considerar-se o maior. 25Mas Jesus disse-lhes: Os reis das nações fazem sentir o seu domínio sobre elas e os que nelas exercem autoridade tomam o nome de benfeitores. 26Quanto a vós, não deve ser assim; mas que o maior entre vós seja como o mais novo, e aquele que manda como aquele que serve. 27Pois quem é maior, o que está à mesa, ou aquele que serve? Não é o que está à mesa? Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve.

28Sois vós que vos tendes mantido a Meu lado nas Minhas provações; 29e Eu lego-vos, como a Mim Me legou Meu Pai, uma digni­dade real, 30a fim de que comais e bebais à Minha mesa, no Meu Reino, e vos senteis em tronos a julgar as doze tribos de Israel.

31Simão, Simão, olha que Satanás vos reclamou para vos joeirar como ao trigo. 32Mas Eu roguei por ti, a fim de que a tua fé de Pedro não desfaleça. E tu, quando voltares, fortalece os teus irmãos. 33Ele respondeu-Lhe: Senhor, estou pronto a ir contigo até para a prisão e para a morte, 34Digo-te, Pedro — retorquiu-lhe Jesus — não cantará hoje o galo sem que, por três vezes, tu negues conhecer-Me!

35Depois, disse-lhes a eles: Quando vos enviei sem bolsa, nem saco, nem sandálias, faltou-vos alguma coisa? Nada — respon­deram eles. 36Mas agora — replicou-lhes — quem tem uma bolsa que a tome; o mesmo digo de um saco; e quem não tem espada venda a capa e compre uma. 37E que, vos digo Eu, deve cumprir-se em Mim o que está escrito: Foi contado entre os delinqüentes! E, de facto, o que Me diz respeito toca o seu termo. 38Senhor — disseram eles — aqui estão duas espadas. Mas Ele respondeu-lhes: Basta!

39Saindo então, foi, como de costume, para o monte das Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele. 40Quando chegou ao local, disse-lhes: Orai para que não entreis em tentação. 41Depois, afastou-Se bruscamente deles, até à distância de cerca de um tiro de pedra, e, de joelhos, começou a orar: 42Pai — dizia Ele — se quiseres, desvia de Mim este cálice; todavia, não seja a Minha vontade que se taça, mas a Tua. 43Apare­ceu-Lhe então, do Céu, um Anjo para O confortar. 44Entrando numa luta angustiosa, pôs-Se a orar mais instantemente è o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. 45Erguendo-Se da oração, veio ter com os discípulos e encontrou-os a dormir, com a tristeza. 46Porque estais a dormir? — lhes disse Ele. — Levantai-vos e orai para que não entreis em tentação.

47Ainda Ele estava a falar, quando surgiu uma multidão. Vinha-os precedendo o chamado Judas, um dos doze, que se aproximou d’Ele para O beijar. 48Disse-lhe Jesus: Judas, é com um beijo que entregas o Filho do homem? 49Vendo aqueles que O cercavam o que ia suceder, perguntaram: Senhor, have­mos de feri-los à espada? 50E um deles feriu o criado do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. 51Mas Jesus interveio, dizendo: Deixai-os lá! E, tocando-lhe na orelha, curou-o. 52Disse então Jesus aos que tinham vindo ao Seu encontro, Sumos Sacerdotes, chefes da guarda do Templo e Anciãos: Vós saístes com espadas e varapaus, como se fora ao encontro dum salteador? 53Estando Eu todos os dias convosco no Templo, não Me deitastes as mãos!… Mas é esta a vossa hora e o domínio das trevas.

54Apoderando-se então de Jesus, levaram-No e introduziram-No em casa do Sumo Sacerdote. Pedro seguia-os de longe. 55Como houvessem acendido uma fogueira no meio do pátio e se tivessem sentado todos juntos, Pedro sentou-se no meio deles. 56Ora uma criada, ao vê-lo sentado ao lume, fitou nele o olhar e disse: Esse também estava com Ele! “Mas Pedro negou, dizendo: Não O conheço, mulher! 58Pouco depois, disse outro, ao vê-lo: Tu também és dos tais! Mas Pedro retorquiu: Homem, não sou! 59Depois dum inter­valo de cerca de uma hora, asseverava outro com insistência: Esse, com certeza, também estava com Ele; pois até é galileu! 60Homem — disse Pedro — não sei o que dizes! E ime­diatamente, estando ele ainda a falar, can­tou um galo. 6lVoltando-Se o Senhor, fitou os olhos em Pedro e este recordou-se da palavra do Senhor ao afirmar-lhe: «Antes de um galo cantar, Me negarás hoje três vezes». 62E, vindo para tora, chorou amargamente.

63Entretanto, os homens que O tinham prisioneiro troçavam d’Ele e maltratavam-No; 64cobrindo-O com um véu, interrogavam-No, dizendo: Adivinha! Quem é que Te bateu? 65E muitas outras coisas proferiam insultuosarnente contra Ele.

66Quando se fez dia, reuniu-se o Conselho dos Anciãos do povo, Sumos Sacerdotes e Escribas, os quais O levaram ao seu tribunal. 67Se Tu és o Messias — disseram eles — declara-no-lo. Mas Ele retorquiu-lhes: Se vo-lo disser, não acreditareis, 68e, se fizer qualquer pergunta, não respondereis. 69Mas doravante estará o Filho do homem sentado à direita do Poder de Deus. 70Disseram todos: Tu és então o Filho de Deus? Ele respondeu-lhes: É como dizeis: Sou! 7lEntão exclamaram: Que necessidade temos de mais testemunhos? Nós próprios, de facto, o ouvimos da Sua boca!

Levantando-se todos em massa, levaram-No a Pilatos. 2Começaram então a acusá-Lo, dizendo: Encontramos este homem a sublevar o nosso país, a impedir que se desse o tributo a César e a dizer-Se Ele próprio o Messias-Rei. 3Pilatos interrogou-O, nestes termos: Tu és o rei dos Judeus? Ele respondeu-lhe: É como dizes. 4Pilatos disse então aos Sumos Sacerdotes e à multidão: Nada encontro de culpável neste homem! 5Mas eles insistiam, dizendo: Subleva o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui.

6Ao ouvir isto, perguntou Pilatos se o homem era galileu; 7e, ao saber que era da jurisdição de Herodes, remeteu-O a Herodes, que também estava nesses dias em Jerusalém. ?Herodes, ao ver Jesus, ficou imensamente satisfeito, pois havia bastante tempo que O queria ver, pelo que ouvia dizer a respeito d’Ele, e tinha esperança de Lhe ver operar algum milagre. 9Fez-Lhe bastantes pergun­tas, mas Ele nada lhe respondeu. 10Lá estavam os Sumos Sacerdotes e os Escribas a acusa-Lo insistentemente. 11Herodes, com os seus oficiais, tratou-O com desprezo, vestiu-Lhe por troça uma pomposa veste e remeteu-O a Pilatos. 12Herodes e Pilatos ficaram nesse dia amigos um do outro, pois antes viviam em mútua inimizade.

13Püatos convocou os Sumos Sacerdotes, os chefes e o povo, 14e disse-lhes: Trouxestes este homem à minha presença como andando a revoltar o povo, mas olhai que O interroguei diante de vós e não encontrei n’Ele nenhum dos crimes de que O acusais. 15Herodes tão-pouco, pois O remeteu para nós; e, como vedes, Ele nada praticou que seja digno de morte. 16Vou, portanto, libertá-Lo, depois de O castigar. 17Ora ele tinha obriga­ção de lhes soltar um preso no dia da festa.

18Puseram-se todos em massa a gritar, dizendo: Dá-Lhe a morte e solta-nos Barrabás! 19Fora este metido na cadeia por causa de certa insurreição que tinha havido na cidade e por um assassínio.

20De novo Pilatos lhes dirigiu a palavra, querendo libertar Jesus. 21Mas eles clama­vam, dizendo: Crucifica-O, crucifica-O. “Disse-lhes pela terceira vez: Que mal fez Ele então? Nada encontrei n’Ele digno de morte. Vou, portanto, libertá-Lo, depois de O castigar. 23Mas eles insistiam em altos brados, pedindo que fosse crucificado, e os seus brados aumentavam de violência. 24Pilatos, então, sentenciou que fosse satisfeito o pe­dido deles. 25Soltou o que fora metido na cadeia por insurreição e assassínio e que eles reclamavam, e entregou a Jesus para o que eles queriam.

26Quando O iam conduzindo, lançaram mão dum certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e colocaram-lhe a cruz em cima, para a levar atrás de Jesus.

27Seguiam-No uma grande massa de povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. 28Mas Jesus voltou-Se para elas e disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim, chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos; 29porque olhai que virão dias em que se dirá: «Felizes as estéreis, os seios que não deram à luz e os peitos que não amamentaram ».

30Hão-de então começar a dizer aos montes: «caí sobre nós!» e às colinas: «cobri-nos!» 31porque, se fazem isto na madeira verde, que será na seca?!

32Eram levados, além disso, dois malfeitores, para serem executados com Ele.

33E, quando chegaram ao lugar chamado A Crucifixão Calvário, lá O crucificaram a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. 34 Jesus ‘dizia: Perdoa-lhes, ó Pai, que não sabem o que fazem !

Depois, deitaram sortes para repartirem entre si as Suas vestes.

35E o povo lá estava a observar! Os chefes, por seu turno, zombavam: Salvou outros — diziam eles — salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito! 36Também os soldados fizeram troça d’Ele, aproximan­do-se para Lhe oferecerem vinagre. 37Se Tu és o rei dos Judeus — diziam eles — salva-Te a Ti mesmo. 38Além disso, havia uma legenda por cima d’Ele: «Este é o rei dos Judeus».

39Ora um dos malfeitores que tinham sido suspensos na cruz pôs-se a insultá-Lo: Não és Tu o Messias? — dizia ele. Salva-Te a Ti mesmo e a nós também. 40O outro, porém, interveio e disse-lhe severamente: Nem sequer temes a Deus, tu que te encontras no mesmo suplício? 41Quanto a nós, é de justiça, pois estamos a receber o que mereciam as nossas acções; mas Este nada praticou de condenável. 42E acrescentou: Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres na Tua realeza. 43Em verdade te digo — respondeu-lhe Jesus — hoje estarás comigo no Paraíso!

44Era já por volta da hora sexta quando se produziram trevas no país inteiro, até à hora nona, 45por o Sol se haver eclipsado. O véu do Santuário rasgou-se ao meio; 46e Jesus disse, clamando em alta voz: Pai, em Tuas mãos entrego o Meu espírito. Dito isto, expirou.

47Ao ver o que acontecera, o centurião deu glória a Deus, dizendo: Realmente este homem era justo! 48E toda a multidão que tinha concorrido àquele espetáculo, depois de presenciar os factos sucedidos, regressava batendo no peito.

49Lá estavam a distância todos os Seus conhecidos, bem como as mulheres que O acompanhavam desde a Galileia, e que estavam a observar estas coisas.

50Interveio então um homem chamado José, que era membro do Conselho, pessoa reta e justa. 5lEsse não estava de acordo com a decisão e o procedimento dos outros. Era de Arimateia, cidade judaica, e esperava o Reino de Deus. 52Foi ter com Pilatos e pe­diu-lhe o corpo de Jesus. 53E depois de o tirar para baixo, envolveu-o num lençol e depo­sitou-o num sepulcro talhado na rocha, onde ainda ninguém tinha sido depositado. 54Era o dia da Preparação e começava a luzir o sábado. 55Entretanto, as mulheres que tinham vindo com Ele da Galileia haviam seguido a José e observavam o túmulo e como fora depositado o corpo de Jesus. 56Voltaram então e prepararam perfumes e essências. E, no sábado, observaram o descanso, conforme o preceito.

Comentário

Capítulo 22

14. Começa a Última Ceia, em que o Senhor vai instituir a Santíssima Eucaristia, mistério de fé e de amor: «É, pois, necessário que nos aproximemos deste mistério com humilde reverência, não buscando razões humanas que devem estar caladas, mas aderindo firmemente à Revelação divina» (Mysterium fidei).

15. São João, o discípulo amado, sintetiza com uma frase os sentimentos que dominavam a alma de Jesus no momento da Ultima Ceia: «Sabendo Jesus que tinha chegado a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, como amava os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Ioh 13,1). O Senhor exprime o desejo ardente de passar as horas que precedam a Sua morte com as pessoas que mais ama na terra e, como sucede aos que vão partir, profere no momento de Se despedir as palavras mais carinhosas (cfr Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.). O Seu amor não se limita aos Apóstolos, mas pensa em todos os homens. Sabe que aquela Ceia pascal é o começo da Sua Paixão. Vai celebrar antecipa­damente o Sacrifício do Novo Testamento que tanto bene­fício havia de trazer à humanidade.

O cumprimento da Vontade do Pai obriga Jesus a separar-Se dos Seus, mas o Seu amor, que O impele a permanecer com eles, move-O a instituir a Eucaristia, na qual fica realmente presente. «Lembremo-nos — escreve Mons. Escrivá de Balaguer — da experiência tão humana da despedida de duas pessoas muito amigas. Desejariam ficar sempre juntas, mas o dever — ou seja o que for — obriga-as a afastarem-se uma da outra. Não podem, portanto, conti­nuar uma junto da outra, como seria do seu gosto. Nestas ocasiões, o amor humano, que por maior que seja, é sempre limitado, costuma recorrer aos símbolos. As pessoas que se despedem trocam lembranças entre si, talvez uma foto­grafia onde se escreve uma dedicatória tão calorosa, que até admira que não arda o papel. Mas não podem ir além disso, porque o poder das criaturas não vai tão longe como o seu querer.

«Ora, o que não está na nossa mão, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens. Não nos deixará um simples presente que nos faça evocar ‘a Sua memória, alguma imagem que tenda a apagar-se com o tempo, como uma fotografia que a pouco e pouco se vai esvaindo e amarelecendo até perder o sentido para quem não interveio naquele momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o Seu Corpo, o Seu Sangue, a Sua Alma e a Sua Divindade» (Cristo que passa, n.° 83).

16-20. Este texto contém as verdades fundamentais da fé acerca do sublime mistério da Eucaristia: 1) Instituição deste Sacramento e presença real de Jesus Cristo. 2) Insti­tuição do sacerdócio cristão. 3) A Eucaristia, Sacrifício do Novo Testamento ou Santa Missa (cfr a nota a Mt 26,26-29). O relato de São Lucas coincide substancialmente com o do primeiro Evangelho, mas enriquece-o com a descrição de alguns pormenores concretos da Última Ceia (vid. a nota ao v. 17).

Acerca da presença real, a Encíclica Mysterium fidei de Paulo VI afirma: «Apoiado nesta fé da Igreja, o Concilio de Trento confessa ‘aberta e simplesmente que no fortalecedor sacramento da Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, se contém verdadeira, real e substancialmente, Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sob a aparência daquelas coisas sensíveis’ (De SS. Eucharistia, cap. 1). Portanto, o nosso Salvador está presente segundo a Sua humanidade, não só à direita do Pai, conforme ao modo natural de existir, mas ao mesmo tempo também no Sacramento da Eucaristia segundo um modo de existir que, ainda que mal possamos exprimir com palavras, podemos, contudo, alcançar com a razão ilustrada pela fé e devemos crer firmissimamente que é possível para Deus». As almas cristãs, contemplando este inefável mistério, sempre perceberam a grandeza deste Sacramento, que deriva da realidade da presença de Cristo. O Sacramento da Eucaristia não é somente sinal eficaz de uma presença amorosa de Cristo e da Sua íntima união com os fiéis, mas nele Cristo está presente de modo corporal e substancial, como Deus e como homem. Indubitavelmente, para penetrar neste mistério faz falta a fé, porque «não oferece dificuldade alguma que Cristo esteja no Sacramento como sinal: mas que esteja verdadeiramente no Sacramento como no Céu, eis aí a grandíssima dificuldade; crer isto, pois, é muito meritório» (In IVSent., d. 10, q. l, a. 1). Este mistério não se pode perceber com os sentidos, mas só com a fé, a qual se apóia nas palavras do Salvador, que, sendo a Verdade (cfr Ioh 14,6), não pode nem enganar-Se nem enganar-nos. Por isso, num hino que a tradição atribui a São Tomás, o Adoro te, devote, o povo cristão canta: «A vista, o tacto e o gosto, em Ti se enganam; mas só ouvindo se crê com segurança. Creio o que disse o Filho de Deus, pois nada há mais verdadeiro que esta Palavra de verdade».

«Mas para que ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera as leis da natureza e constitui no seu gênero o maior dos milagres, é necessário seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Ora bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no Seu Corpo, e de toda á substância do vinho no Seu Sangue; conversão admirável :è singular a que a Igreja justamente e com propriedade chama5 transubstanciação» (Mysterium fidei).

O Senhor, depois de instituir a Eucaristia, manda aos Apóstolos que perpetuem o que Ele fez, e a Igreja entendeu sempre que com as palavras «fazei isto em Minha memória» Cristo constituiu os Apóstolos e os seus sucessores em sacerdotes da Nova Aliança (cfr De SS. Missae sacrifício, cap. 1; Lumen gentium, n. 26; Mysterium fidei), para que renovassem o Sacrifício do Calvário de maneira incruenta na celebração da Santa Missa.

Com efeito, o que está no centro de toda a actuação de Jesus é o Sacrifício cruento que ofereceu na Cruz: Sacrifício da Nova Aliança, figurado nos sacrifícios da Antiga Lei, na oferenda de Abel (Gen 4,4), de Abraão (Gen 15,10; 22,13), de Melquisedec (Gen 14,18-19; Heb 7,1-28). A Última Ceia é o mesmo Sacrifício do Calvário realizado antecipadamente por meio das palavras da Consagração. Igualmente a Santa Missa renova esse Sacrifício que foi oferecido uma só vez no altar da Cruz: uma só é a vítima e um só o sacerdote, Cristo. Diferem unicamente pelo modo de se oferecer. «Nós cremos que a Missa que é celebrada pelo sacerdote in persona Chrísti, em virtude do poder recebido pelo sacramento da Ordem, e que é oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do Seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário que se torna sacramentalmente presente nos nossos altares» (Credo do Povo de Deus, n.° 24).

16. As palavras «já não a comerei (esta páscoa) até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus», assim como as do v. 18 «não beberei doravante do produto da videira até que venha o Reino de Deus» não querem indicar que Jesus Cristo volte a comer o Cordeiro pascal uma vez instaurado o Seu Reino, mas simplesmente indicam que aquela era a última vez que o Senhor celebrava a páscoa judaica. Enquanto anuncia a Nova Páscoa, já iminente e que durará até à Sua segunda vinda, Jesus substitui de uma vez para sempre o antigo rito com o Seu Sacrifício Redentor, que assinala o começo do Reino.

17. A ceia pascal desenvolvia-se segundo um rito minu­cioso. Antes de comer o cordeiro, a pessoa de mais autoridade explicava, a instância do mais jovem dos assistentes, o sentido religioso do ato que estavam a realizar. A seguir tomavam-se os alimentos, intercalando hinos e Salmos. Finalmente terminava-se com uma solene oração de ação de graças. Ao longo da ceia, em correspondência das fases principais, os comensais tomavam quatro taças de vinho misturado com água. São Lucas menciona duas destas taças, a segunda das quais foi a que o Senhor consagrou.

19. Note-se o rotundo da frase do Senhor: não diz aqui está o Meu corpo, nem isto é o símbolo do Meu corpo, mas isto é o Meu corpo; isto é, este pão já não é pão mas o Meu corpo. «Alguns, não dando suficiente importância a estas palavras — afirma São Tomás —, julgaram que p corpo e o sangue de Cristo não estavam neste Sacramento mais do que como num símbolo. Isto deve ser rejeitado como herético, já que é contrário às palavras de Cristo» (Suma Teológica, III, q. 75. a. 1). Reforçam também o sentido realista destas palavras de Jesus as pronunciadas na promessa da Euca­ristia: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu darei é a Minha carne para a vida do mundo (…). Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue tem vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia» (Ioh 6,51.54).

«Fazei isto em Minha memória»: O Magistério solene da Igreja ensina-nos o sentido e o alcance preciso destas palavras: «Se alguém disser que com as palavras: Fazei isto em Minha memória, Cristo não instituiu sacerdotes os Seus Apóstolos, ou que não lhes ordenou que eles e os outros sacerdotes oferecessem o Seu corpo e o Seu sangue, seja anátema» (De SS. Missae sacrifício, can. 2).

24-30. Não era a primeira vez que entre os Apóstolos surgia a questão de quem seria o maior. Já no caminho para Cafarnaum, depois do segundo anúncio da Paixão, tinham discutido pelo mesmo motivo. Naquela circunstância Jesus pôs-lhes como exemplo de humildade uma criança (cfr Mt 18,1-5; Mc 9,33-37; Lc 9,46). Pouco depois, por ocasião do pedido da mãe de João e Tiago, voltou a surgir a mesma questão: os outros Apóstolos indignaram-se com os filhos de Zebedeu. O Senhor interveio para os acalmar e pôs-Se a Si mesmo como exemplo: «O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos» (Mc 10,45; cfr Mt 20,25-27).

Os Apóstolos não acabavam de entender as explicações de Jesus. Cegos pela sua visão humana voltam agora à mesma discussão. Jesus tinha-os chamado a uma maior responsabilidade na entrega mediante o anúncio da traição de um deles (vv. 21 e 22) e mediante o mandato de renovar o Sacrifício Eucarístico (v. 19). Como noutras ocasiões quando os Apóstolos põem em relevo os seus méritos pessoais, Jesus recorda-lhes de novo o exemplo da Sua própria vida: Ele era o maior entre eles, porque era Mestre e Senhor (cfr Ioh 13.13), e não obstante, actuava como o menor e servia-os. Para corresponder ao chamamento divino é preciso humildade, uma humildade que se manifeste em espírito de serviço. «Queres que te diga tudo o que penso do ‘teu caminho’? — Pois olha: se corresponderes ao chamamento, trabalharás por Cristo como o melhor; se te tomares homem de oração, conseguirás corresponder a esse chamamento e procurarás, com fome de sacrifício, os trabalhos mais duros…

« E serás feliz aqui, e felicíssimo depois, na Vida» (Caminho, n.° 255).

A recompensa que Jesus promete aos que Lhe perma­necem fiéis supera com vantagens toda a ambição humana: os Apóstolos participarão da amizade divina no Reino dos Céus e sentar-se-ão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. Em qualquer dos casos, o exemplo e as palavras de Cristo são norma fundamental de governo na Igreja; com as seguintes palavras explica o Concilio Vaticano II o mandato do Salvador: «Os Bispos governam as igrejas particulares que lhes foram confiadas como vigários e legados de Cristo, por meio de conselhos, persuasões, exemplos, mas também com autoridade e poder sagrado, que exercem unicamente para edificar o próprio rebanho na verdade e na santidade, lembrados de que aquele que é maior se deve fazer como o menor, e o que preside como aquele que serve (ctr Lc 22,26-27)» (Lumen gentium, n. 27).

25-27. Secundar os ensinamentos de Jesus sobre a humildade e o espírito de serviço possibilita a verdadeira fraternidade entre os homens. Assim o assinalava S.S. Paulo VI no discurso pronunciado diante da ONU: «Permiti-me que vo-lo digamos como representante de uma religião que opera a salvação pela Humanidade do seu divino Fundador: é impossível ser irmão se não se é humilde, já que é o orgulho, por mais inimitável que este possa parecer, o que provoca as tensões e as lutas pelo prestígio, pelo predomínio, pelo colonialismo, pelo egoísmo; é o orgulho que destrói a fraternidade» (Discurso Nações Unidas, n.° 4).

31 -34. Nosso Senhor tinha anunciado a Pedro que ia ter uma missão especialíssima entre todos os Apóstolos: a de ser pedra de apoio, fundamento da Igreja futura. «Tu és Simão, filho de João; chamar-te-ás Cefas (que significa Pedra)» (Ioh l ,42), disse-lhe Jesus nas margens do Jordão. Mais tarde, em Cesareia de Filipe, depois da sua profissão de fé na divindade do Redentor, Cristo voltou a falar-lhe de ser pedra, da sua missão de fortalecer a Igreja: «E Eu digo-te que és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela» (Mt 16,18). Agora, neste momento tão importante, quando se aproxima já a Sua morte .e acaba de instituir o Sacrifício da Nova Aliança, o Senhor renova a Pedro a promessa do Primado: a fé de Pedro, apesar da sua queda, não pode desfalecer porque está apoiada na eficácia da oração do próprio Senhor.

Jesus Cristo concede a Pedro um privilégio que é ao mesmo tempo pessoal e transmissível. Pedro negará publicamente o Senhor em casa do sumo sacerdote, mas não perderá a sua fé. É como se o Senhor dissesse a Pedro, comenta São João Crisóstomo: «Não roguei para que não Me negues, mas para que não desfaleça a tua té» (Hom. sobre S. Mateus, 82,3). E Teofilato acrescenta: «Porque ainda que São Pedro tivesse de sofrer grandes abalos, tinha, con­tudo, escondida a semente da fé (…) e prossegue: ‘E tu, quando te converteres, confirma os teus irmãos’ como dizendo:, ‘Depois de Me teres negado, chorarás e arrepender-te-ás; confirma então os teus irmãos, visto que te constituí chefe dos Apóstolos: isto é o que te toca a ti, que és junto comigo a fortaleza e a pedra da Minha Igreja’. Isto deve entender-se não só relativamente aos discípulos que estavam ali presentes, para que fossem fortalecidos por Pedro, mas também relativamente a todos os fiéis que até ao fim do mundo haverão de existir» (Enarratio in Evangelium Lucae, ad loc.). Efectivamente, com a oração do Senhor, Pedro não desfaleceu na sua fé, levantou-se da sua queda; confirmou os irmãos e foi a pedra angular da Igreja.

A oração de Jesus cumpriu-se não só em Pedro mas também nos seus sucessores: a sua fé não desfalecerá. Esta indefectibilidade da fé do Romano Pontífice, sucessor de São Pedro, manifesta-se na permanência inviolável da verdadeira fé, que está garantida pelo carisma da infalibilidade. «A sé de São Pedro permanece sempre intacta de todo o erro, segundo a promessa do nosso divino Salvador feita ao príncipe dos Seus discípulos (…); assim, pois, este carisma da verdade e da fé nunca deficiente foi divinamente conferido a Pedro e aos seus sucessores nesta cátedra, para que desempenhassem o seu excelso cargo para a salvação de todos» (Pastor aeternus, cap. 3). «Mas esta infalibilidade com que o divino Redentor quis dotar a Sua Igreja, na definição de doutrinas de fé ou costumes, estende-se tanto quanto se estende o depósito da divina Revelação, o qual se deve religiosamente guardar e fielmente expor. Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice, em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé ou costumes (cfr Lc 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes» (Lumen gentium, n. 25). Por isso, quando o Romano Pontífice fala ex cathedra (cfr Pastor aeternus, cap. 4), «goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que estivesse dotada a Sua Igreja (…) e portanto as definições do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas (vid. também o comentário a Mt 16,13-20). «O supremo poder do Romano Pontífice e a sua infali­bilidade, quando fala ex. cathedra, não são uma invenção humana, pois baseia-se na explícita vontade fundacional de Cristo (…). Ninguém na Igreja goza por si mesmo de poder absoluto, enquanto homem; na Igreja não há outro chefe além de Cristo; e Cristo quis constituir um Vigário Seu — o Romano Pontífice — para a Sua Esposa peregrina nesta terra (…). O amor ao Romano Pontífice há-de ser em nós uma formosa paixão, porque nele vemos Cristo» (J. Escrivá de Balaguer, Lealdade à Igreja).

36-38. Jesus anuncia a Sua Paixão aplicando a Si a profecia de Isaías sobre o Servo de Yahwéh (Is 53,12) — foi contado entre os malfeitores — e assinalando o cumprimento n’Ele de todas as outras profecias sobre as dores do Redentor. Aproxima-se o momento da provação e o Senhor emprega uma linguagem figurada: fazer provisões e comprar armas para resistir. Os Apóstolos interpretam as palavras de Cristo à letra, e isto produz no Senhor um gesto de certa com­preensão indulgente: «Basta». «Como quando nós — diz Teofilato — falamos a outro, se vemos que não nos com­preende dizemos: ‘Está bem, deixa lá’ (Enarratio in Evangelium Lucae, ad loc.).

39-71. A Paixão do Senhor é a prova suprema do amor infinito de Deus aos homens: «Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigênito, para que todo o que crê n’Ele não pereça mas tenha vida eterna» (Ioh 3,16); e, ao mesmo tempo, é a prova definitiva do amor de Cristo, Deus e Homem verdadeiro, por nós, segundo Ele mesmo disse: «Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» (Ioh 15,13).

«Queres acompanhar de perto, muito de perto, Jesus?… Abre o Santo Evangelho e lê a Paixão do Senhor. Mas só ler, não: viver. A diferença é grande. Ler é recordar uma coisa que passou; viver é encontrar-se presente num aconteci­mento que agora mesmo sucede, ser uma pessoa mais naquelas cenas.

« Então, deixa que o teu coração se expanda, que se ponha junto do Senhor. E, quando reparares que se escapa — que és cobarde, como os outros —, pede perdão pelas tuas covardias e as minhas» (Via Sacra, IX, n.° 3).

39-40. Jesus costumava retirar-Se para o horto de Getsemani, no monte das Oliveiras, para fazer oração. Assim aparece assinalado por São João (Ioh 18,1) e por São Lucas (Lc 21,37). Isto explica que Judas conhecesse o lugar (Ioh 18,1-2).

Ao chegar ao horto o Senhor dispõe-Se a viver a hora suprema da Sua agonia. Antes de Se afastar um pouco para orar, pede aos discípulos que perseverem também em oração. Avizinha-se para eles uma grave tentação de escân­dalo ao ver que é preso p Senhor (cfr Mt 26,31). Jesus anunciou-lho durante a Última Ceia (Ioh 16,32); agora adverte-os de que se não permanecerem vigilantes e a orar não resistirão à provação. O Senhor quer, além disso, que os Apóstolos O acompanhem enquanto Ele sofre. Por isso, ao voltar a encontrá-los adormecidos, pronuncia a queixa sentida: «Nem sequer fostes capazes de velar uma hora comigo?» (Mt 26,40).

Devemos seguir de perto o Senhor e acompanhá-Lo, mesmo nos momentos de dificuldade e de tribulação; este mandato assinala-nos os meios que devemos empregar: a oração e a vigilância.

41. Jesus orava de joelhos. São muitos os passos dos Evangelhos que nos falam da oração do Senhor, mas só desta vez se descreve a Sua atitude exterior, que se deve ter repetido noutras ocasiões. A posição de joelhos é uma mani­festação da atitude interior de humildade diante de Deus.

42. Jesus Cristo é perfeito Deus e perfeito Homem: igual ao Pai enquanto Deus, menor que o Pai enquanto homem. Por esta razão, enquanto homem, podia e devia fazer oração. Assim o fez durante toda a Sua vida. Agora, quando o padecimento espiritual é tão intenso que O faz entrar em agonia, o Senhor dirige-Se a Seu Pai com uma oração que mostra ao mesmo tempo a Sua confiança e a Sua angústia: chama-O como entranhável nome de «Abbá», Pai, e pede-Lhe que afaste d’Ele este cálice de amargura. Ator­menta o Senhor o conhecimento das imensas dores da Paixão que aceita voluntariamente; pesam sobre Ele todos os pecados do gênero humano, a infidelidade do povo esco­lhido e o escândalo dos Seus discípulos. Todas estas causas de aflição eram captadas em toda a sua intensidade pela alma de Cristo. A angústia do nosso Redentor é tal que chega a suar sangue. Este fenômeno extraordinário é prova da aflição extrema do Senhor; a Sua natureza humana aparece aqui em toda a sua capacidade de sofrimento.

A este propósito comenta São Tomás Moro: «O medo à morte ou aos tormentos nada tem de culpa, mas antes de pena: é uma aflição das que Cristo veio para padecer e não para escapar. Nem se há-de chamar cobardia ao medo e horror diante dos suplícios. Não obstante, fugir por medo à tortura ou à própria morte numa situação em que é neces­sário lutar, ou também, abandonar toda a esperança de vitória e entregar-se ao inimigo, isto, sem dúvida, é um crime grave na disciplina militar. Além disso, não importa quão perturbado e assustado pelo medo esteja o ânimo de um soldado; se apesar de tudo avança quando o manda o capitão, e marcha e luta e vence o inimigo, nenhum motivo tem para temer que aquele seu primeiro medo possa diminuir o prêmio. De fato, deveria receber inclusivamente nem sequer o pecador maior há-de desesperar do perdão: «De fato, comenta São Tomás Moro, inclusivamente ao próprio Judas ofereceu Deus muitas oportunidades de voltar a si e de se arrepender. Não o arrojou da Sua companhia. Não lhe tirou a dignidade que tinha como Apóstolo. Nem lhe tirou a bolsa, e isso apesar de ser ladrão. Admitiu o traidor na última ceia com os Seus discípulos tão queridos. Aos pés do traidor se dignou dobrar-Se para lavar com as Suas inocentes e sacrossantas mãos os pés sujos de Judas, símbolo da sujidade da sua mente (…). Finalmente, ao aproximar-se Judas com a turba para O prender, ofereceu a Cristo um beijo, um beijo que era, de fato, a mostra abominável da sua traição, mas que Cristo recebeu com serenidade e com man­sidão (…).

« Depois de ver de quantas maneiras Deus mostrou a Sua misericórdia com Judas, que de Apóstolo tinha passado a traidor, ao ver com quanta freqüência o convidou ao perdão, e não permitiu que perecesse senão porque ele próprio quis desesperar, não há razão alguma nesta vida para que alguém, ainda que seja como Judas, desespere do per­dão. Seguindo o santo conselho do Apóstolo: ‘Rezai uns pelos outros para ser salvos’ (lac 5,16), se vemos que alguém se desvia do caminho reto, esperamos que voltará algum dia a ele, e entretanto, rezemos sem cessar para que Deus lhe ofereça oportunidades de entrar na razão; para que com a Sua ajuda as acolha, e para que, uma vez acolhidas, não as largue nem rejeite pela malícia, nem as deixe passar ao lado por culpa da sua miserável preguiça» A agonia de Cristo, ad loc.).

51. São Lucas, que era médico (cfr Col 4,15), manifesta no Evangelho por inspiração divina este milagre, que é o último que o Senhor realizou antes da Sua Morte. Jesus, sempre misericordioso, restitui a Malco a orelha cortada por Pedro (cfr Ioh 18,10). Com este milagre manifesta-se que Jesus continua a manter o Seu senhorio mesmo no meio de circunstâncias tão adversas. Sem Se preocupar Consigo atende à cura de quem O foi prender. Por outro lado, o Senhor que morre por obediência ao Pai, nega-Se a que se empregue a violência para O defender. Em cumprimento das profecias aceita a morte sem opor resistência, como ovelha que vai para o matadouro (cfr Is 53,7).

52-53. Os «oficiais do Templo» constituíam um corpo militar encarregado da guarda do recinto sagrado e estavam às ordens do sumo sacerdote. A eles, junto com os sacerdotes e os anciãos, Se dirige o Senhor.

«Esta é a vossa hora», isto é, o tempo em que vós e o príncipe das trevas podereis desafogar contra Mim todo o vosso ódio. Assim indica o Senhor que chegou o momento da Sua morte. As tentativas anteriores de O prender fracas­saram; agora, pelo contrário, vão triunfar. O Senhor explica a razão desta vitória: foi-lhes permitido do Alto. É a hora, segundo a Vontade do Pai, de que se cumpra a Redenção do gênero humano, e por isso Jesus, livremente, deixa-Se prender.

55-62. Pedro, que segue de longe o tropel de gente que conduz o Senhor, entra na casa do sumo sacerdote. Enquanto se desenvolve o primeiro juízo contra Jesus vai ter lugar a cena mais triste da vida do Apóstolo. Os evangelistas descre­vem-na com vivacidade. Pedro está assustado e inquieto. Neste ambiente era inevitável que surgisse várias vezes o mesmo tema de conversa: Jesus e os Seus discípulos.

Pedro diz por três vezes que não conhece Jesus, que não é dos Seus seguidores . Continua a amar o Senhor; mas isto não basta: tem obrigação, apesar do risco evidente, de não dissimular a sua condição de discípulo; por isso a sua negação constitui um grave pecado. Não se pode negar nem dissimular a própria fé, a condição de seguidor de Cristo, de cristão.

Depois do canto do galo cruzam-se os olhares de Jesus e de Pedro. O Apóstolo comove-se: o gesto de Jesus, silencioso e cheio de ternura, é eloqüente. Pedro compreende a gravidade do seu pecado, e o cumprimento da profecia do Senhor relativamente à sua traição. Saindo para fora «chorou amargamente». Estas lágrimas são a reação lógica dos corações nobres, movidos pela graça de Deus. É a dor de amor, a contrição do coração, que, quando é sincera, leva consigo o firme propósito de pôr por obra quanto é neces­sário para apagar o pecado.

66-71. Durante a noite teve lugar um primeiro juízo contra o Senhor, cujo fim era fixar as acusações que se iam apresentar (Mt 26, 59-66; Mc 14,53-64). Agora, ao amanhecer, vai ter lugar o processo diante do Sinédrio, já que o costume judaico proibia tratar assuntos importantes durante a noite e não reconhecia valor legal às decisões tomadas. Procurou-se contra Jesus um delito pelo qual se possa condená-Lo à morte. Pretende-se que seja o de blasfêmia. Mas as acusações são tão inconsistentes que não podem oferecer um pretexto razoável para O condenar. Por isso o Sinédrio induz o Senhor a fazer uma declaração comprometedora.

Jesus Cristo — mesmo conhecendo que com a Sua res­posta oferece aos fariseus o pretexto que buscam — afirma com toda a gravidade, perante a indignação dos assistentes, não só que é o Messias, mas que é o Filho de Deus, igual ao Pai, e sublinha que se cumprem n’Ele as profecias (cfr Dan 7,13; Ps 110,1). Os sinedritas captam a resposta do Senhor na sua profundidade e, rasgando as vestes em sinal de horror, pedem a Sua morte: deve morrer por blasfemo, já que se pôs no mesmo lugar de Deus.

Reconhecê-lo teria levado a retificar a sua conduta anterior diante de Jesus, e a humilhar-se diante do povo. Mas são demasiado soberbos para retificar, e fecham-se para a fé.

Que o orgulho não nos impeça de reconhecer os nossos erros e pecados.

Capítulo 23

1-2. No processo contra Jesus distinguem-se dois juízos: um religioso, segundo o costume judaico; e outro civil, segundo o romano.

No primeiro, as autoridades judaicas condenaram Jesus à pena de morte por motivos religiosos, por Se declarar Filho de Deus. Mas não a podiam executar porque os seus dominadores, os romanos, se tinham reservado esta atri­buição. O Sinédrio inicia um novo julgamento diante de Pilatos para arrancar da autoridade romana a execução desta sentença. Deste modo começa a cumprir-se a profecia de Jesus de que morreria às mãos dos gentios (Lc 18,32).

Como os Romanos eram muito tolerantes em questões religiosas com os povos dominados e não se intrometiam nestes assuntos enquanto não houvesse alvoroços de ordem pública, as autoridades judaicas mudam as acusações contra Jesus, que, a partir de agora, se tornam políticas: instigação à rebelião contra os Romanos e pretensões de Se erigir em rei. E, além disso, apresentam-nas de maneira que uma sentença favorável ao réu possa ser interpretada em Roma como um crime de lesa majestade: «Se soltas esse não és amigo de César, pois todo o que se faz rei vai contra César» (Ioh 19,12).

2. Para urdir as acusações com aparências de verdade recorrem ao procedimento das meias verdades, tiradas do seu contexto e interpretadas tendenciosamente. Jesus Cristo tinha ensinado: « Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21; cfr a nota correspondente), e tinha pregado que a Sua condição de Messias, além de Profeta e Sacerdote, incluía o ser Rei; mas o próprio Jesus tinha precisado reiteradas vezes que esta realeza era espiritual e, por conseguinte, tinha rejeitado com energia todos os intentos do povo para O nomear rei (cfr Ioh 6,15).

3-4. Jesus Cristo confessa abertamente que é e que Se considera Rei; mas pelo modo de o dizer e pelas explicações com que esclarece a natureza espiritual desta realeza (Ioh 18,33-38), Pilatos convence-se (Ioh 18,38; 19,4) de que não há n’Ele nenhum delito e que todas as acusações são capciosas (Mt 27,18). Não obstante, em vez de tomar uma resolução enérgica em defesa do inocente, contemporiza com os acusa­dores; pretende ganhar popularidade à custa do réu e con­tenta-se com manifestar a sua convicção da inocência de Jesus, como convidando a que desistam do seu empenho. Esta debilidade dá azo a que cresça a violência dos acusa­dores e se agrave a situação.

Com esse comportamento Pilatos passa a ser o protótipo dos conformistas: «Um homem, um… cavalheiro transigente tornaria a condenar Jesus à morte» (Caminho, n.° 393).

7. Herodes Antipas costumava subir a Jerusalém pelas festas da Páscoa e hospedava-se no palácio dos Asmoneus, no centro da cidade. Pilatos, ao enviar-lhe Jesus, intenta desin­teressar-se de um pleito aborrecido e negociar uma amizade útil para a sua carreira política.

8-11. A atitude do Senhor diante de Herodes Antipas vai ser muito diferente da que tem com Pilatos. Herodes era um homem supersticioso, sensual e adúltero. Apesar da sua estima por João Baptista, tinha-p, mandado decapitar aten­dendo aos rogos de Salomé (cfr Mc 6,14-29). Agora intenta servir-se de Jesus para seu entretimento. Quer vê-Lo como quem deseja presenciar uma sessão de magia. Jesus não responde às suas perguntas feitas com palavreado adulador. A posição do Salvador é de simplicidade e grandeza e, por outro lado, de severidade. O Seu silêncio eloqüente é o castigo exemplar para este tipo de comportamentos. Herodes reage pondo ao Senhor um vestido branco em sinal de zombaria.

12. No Salmo 2 estava profetizado do Messias: «Levan­taram-se os reis da terra, e reuniram-se os príncipes contra o Senhor e contra o Seu Cristo». Estas palavras têm agora cabal cumprimento, como assim o transmite o livro dos Atos: «Porque verdadeiramente reuniram-se nesta cidade (Jerusalém) contra o Teu santo Filho Jesus, a Quem ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos com os gentios e as tribos de Israel, para fazer o que a Tua mão e o Teu conselho decretaram que se fizesse» (Act 4,27-28).

17. Este versículo: «Necesse autem habebat dimittere eis per diem festum, unum» («pois devia soltar-lhes um pela festa») não foi incluído na Neo-vulgata dado que não se encontra na maioria dos melhores códices gregos.

24-25. Jesus condenado à morte e carregado com a Cruz (cfr Ioh 19,16-17) é contemplado piedosamente pelos cristãos na primeira e segunda estação da Via Sacra. Pilatos, por fim, acede aos pedidos do Sinédrio e aplica ao Senhor o suplício mais ignominioso, o da Cruz.

Era costume que os condenados a esta pena carregassem eles mesmos com o instrumento da sua morte. O Senhor cumpre em Si mesmo o que disse o profeta Isaías: «Com opressão e juízo fui arrebatado (…), fui arrancado da terra dos vivos. Pelos nossos pecados foi entregue à morte. Foi-lhe preparado um túmulo entre os ímpios» (Is 53,8-9).

26. A piedade cristã contempla este episódio da Paixão na quinta estação da Via Sacra. Os soldados obrigaram o Cirineu a levar a Cruz com Jesus, não por compaixão por Nosso Senhor, mas porque estavam a ver que a Sua debili­dade ia aumentando e temiam que pudesse morrer antes de chegar ao Calvário. Segundo nos conta a tradição recolhida na terceira, sétima e nona estação da Via Sacra, Jesus caiu três vezes em terra sob o peso da Cruz; mas levantou-Se e abraçou-Se de novo a ela com amor para cumprir a Vontade de Seu Pai Celeste, vendo na Cruz o altar onde ia entregar a Sua vida como Vítima propiciatória pela Salvação dos homens.

O Senhor quis, porém, ser ajudado pelo Cirineu para nos ensinar que nós — representados em Simão — devemos ser corredentores com Ele. «O amor a Deus convida-nos a levarmos a cruz a pulso, a sentirmos também sobre nós o peso da Humanidade inteira e a cumprirmos, nas circuns­tâncias próprias do estado e do trabalho de cada um, os desígnios, claros e amorosos ao mesmo tempo, da vontade do Pai» (Cristo que passa, n.° 97). Deus Pai, na Sua Provi­dência, decidiu proporcionar ao Seu Filho esta pequena consolação no meio dos mais atrozes sofrimentos, de maneira semelhante a como em Getsemani enviou um anjo para O confortar naquela agonia (Lc 22,43).

Outros aspectos desta cena do Evangelho estão comen­tados nas notas a Mt 27,32 e Mc 15,21.

27-31. O gesto de piedade das mulheres demonstra que, junto com os inimigos de Jesus, iam outras pessoas que estavam a Seu favor. Se tivermos em conta que as tradições judaicas, segundo recolhe o Talmud, proibiam chorar pelos condenados à morte, aperceber-nos-emos da coragem que demonstraram essas mulheres que desataram em pranto ao contemplar o Senhor carregado com a Cruz.

« Nas gentes que contemplam a passagem do Senhor, há umas tantas mulheres que não podem conter a sua com­paixão e rompem em lágrimas, recordando porventura aquelas jornadas gloriosas de Jesus, quando todos excla­mavam maravilhados: bene omnia fecit (Mc VII, 37), fez tudo bem.

«Mas o Senhor quer encaminhar esse pranto para um motivo mais sobrenatural, e convida-as a chorar pelos pecados, que são a causa da Paixão e que atrairão o rigor da justiça divina:

«Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos… Pois, se tratam assim a madeira verde, o que acontecerá ao lenho seco (Lc XXIII.28.31).

«Os teus pecados, os meus, os de todos os homens põem-se de pé. Todo o mal que fizemos e o bem que deixamos de fazer. O panorama desolador dos delitos e infâmias sem conta, que teríamos cometido, se Ele, Jesus, não nos tivesse confortado com a luz do Seu olhar amabilíssimo.

«Que pouco é uma vida para reparar!» (Via Sacra, VIII). A devoção cristã recolhe também na Via Sacra a piedosa tradição de que uma mulher, chamada Verônica (Berenice), se aproximou de Jesus e Lhe enxugou o rosto com um véu. Ela executa com valentia o seu gesto compassivo, apesar da atitude da gente que, com as suas zombarias, escarnecia de Jesus (sexta estação). Igualmente se venera na Via Sacra o encontro de Jesus com Sua Santíssima Mãe, no caminho do Calvário, encontro doloroso em que se cumpre a profecia que o velho Simeão fez à Santíssima Virgem (Lc 2,35) (quarta estação).

No caminho do Calvário as únicas pessoas que acompa­nham e consolam Jesus são as mulheres. É justo, pois, assinalar a sua fortaleza, valentia e piedade nesses momentos duros e difíceis da vida do Senhor. Os homens, pelo contrário, inclusivamente os discípulos do Senhor, não aparecem, à exceção de João.

Apesar do Seu tremendo sofrimento, Jesus pensa nas terríveis provas que se avizinham para o Seu povo. As Suas palavras perante as lamentações das santas mulheres cons­tituem uma profecia da destruição de Jerusalém, que sobreviria pouco depois.

Por «madeira verde» compreende-se o justo e inocente; por madeira «seca», o pecador e culpável. Jesus, Filho de Deus, é o único verdadeiramente justo e inocente.

33. A crucifixão do Senhor contempla-se na décima primeira estação da Via Sacra. Os soldados cravam Jesus na Cruz pregando-Lhe as mãos e os pés no madeiro. Com este suplício pretendia-se que o condenado morresse lentamente, com o máximo sofrimento.

«Agora crucificam o Senhor e, junto d’Ele, dois ladrões, um à direita e outro à esquerda. Entretanto, Jesus diz:

«— Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc XXIII, 34).

«É o Amor que levou Jesus ao Calvário. E já na Cruz, todos os Seus gestos e todas as Suas palavras são de amor, de amor sereno e forte.

«Com gesto de Sacerdote Eterno, sem pai nem mãe, sem genealogia (cfr Heb VII,3), abre os Seus braços à humani­dade inteira.

«Juntamente com as marteladas que cravam Jesus, ressoam as palavras proféticas da Escritura Santa: trespas­saram as Minhas mãos e os Meus pés, contaram todos os Meus ossos. E eles mesmos olham para Mim e contemplam (Ps XXL17-18).

« — Ó Meu Povo! Que te fiz Eu, ou em que te contrístei! Res­ponde-Me (Mich VI,3).

«E nós, desfeita a alma pela dor, dizemos sinceramente a Jesus: sou Teu e entrego-me a Ti, e cravo-me na Cruz gosto­samente, sendo nas encruzilhadas do mundo uma alma entregue a Ti, à Tua glória, à Redenção, à co-redenção da humanidade inteira» (Via Sacra, XI).

«Convém que meditemos naquilo que nos revela a morte de Cristo, sem ficarmos nas formas exteriores ou em frases estereotipadas (…). Aproximemo-nos, em suma, de Jesus morto, dessa Cruz que se recorta sobre o cume do Gólgota. Mas aproximemo-nos com sinceridade, sabendo encontrar o recolhimento interior que é sinal de maturidade cristã. Os acontecimentos, divinos e humanos, da Paixão penetrarão desta forma na alma com palavras que Deus nos dirige para desvelar os segredos do nosso coração e revelar-nos aquilo que espera das nossas vidas» (Cristo que passa, n.° 101).

O terrível suplício de Jesus na Cruz está a ensinar-nos, da maneira mais expressiva, a gravidade do pecado dos homens, do meu pecado. Tal gravidade mede-se pela infinita gran­deza e honra de Deus ofendido. Deus, que é infinitamente misericordioso e, ao mesmo tempo, infinitamente justo, exerceu ambos os atributos: a Sua infinita justiça exigia uma reparação infinita, que o homem por si não podia dar; a Sua infinita misericórdia achou o meio: a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, tomando a natureza humana, fazendo-Se verdadeiro homem sem deixar de ser verdadeiro Deus, sofreu a pena que o homem devia padecer. Assim, os homens, representados na Humanidade santíssima de Jesus, podiam reparar devidamente a infinita justiça de Deus ofendida. Não há palavras para ponderar o amor de Deus por nós manifestado na Cruz. A fé viva no mistério da nossa Redenção conduzir-nos-á a uma correspondência de agrade­cimento e de amor: «Cremos que Nosso Senhor Jesus Cristo nos redimiu, pelo sacrifício da Cruz, do pecado original e de todos os pecados pessoais cometidos por cada um de nós, de modo que se mantenha verdadeira a afirmação do Apóstolo: ‘Onde abundou o delito superabundou a graça’ (Rom 5,20)» (Credo do Povo de Deus, n.° 17).

34. Jesus dirige-Se ao Pai em tom de súplica (cfr Heb 5,7). Podemos distinguir duas partes na oração do Senhor: a petição simples: «Pai, perdoa-lhes», e a desculpa acres­centada: «porque não sabem o que fazem». Em ambas se nos mostra como quem cumpre o que prega (cfr Act l ,1) e como modelo a imitar. Tinha pregado o dever de perdoar as ofensas (cfr Mt 6,12-lb; 18,21-35) e ainda de amar os inimigos (cfr Mt 5,44-45; Rom 12,14.20), porque tinha vindo a este mundo para Se oferecer como Vítima «para remissão dos pecados» (Mt 26,28; cfr Eph l ,7; Col l ,4) e alcançar para nós o perdão.

Surpreendem à primeira vista as desculpas com que Jesus acompanha a petição de perdão: «Porque não sabem o que fazem». São palavras do amor, da misericórdia e da justiça perfeita que apreciam até ao máximo as atenuantes dos nossos pecados. Não há dúvida que os responsáveis diretos tinham consciência clara de que estavam a condenar um inocente, cometendo um homicídio; mas não entendiam, naqueles momentos de paixão, que estavam a cometer um deicídio. Neste sentido São Pedro diz aos Judeus, estimu­lando-os ao arrependimento, que agiram «por ignorância» (Act 3,17), e São Paulo acrescenta que se tivessem conhecido a sabedoria divina «não teriam crucificado o Senhor da Glória» (l Cor 2,8). Nesta advertência Se apoia Jesus, misericordioso, para os desculpar.

Em toda a ação pecaminosa o homem tem zonas mais ou menos extensas de obscuridade, de paixão, de obcecação que, sem anular a sua liberdade e responsabilidade, tornam possível que se execute a ação má atraído pelos aspectos enganosamente bons que apresenta. E isto constitui uma atenuante no mal que fazemos.

Cristo ensina-nos a perdoar e a buscar desculpas para os nossos ofensores, e assim abrir-lhes a porta para a esperança do perdão e do arrependimento, deixando a Deus o juízo definitivo dos homens. Esta caridade heróica foi praticada desde o princípio pelos cristãos. Assim, o primeiro mártir, Santo Estêvão, morre a suplicar o perdão divino para os seus verdugos (Act 7,60). «Esforça-te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofenderem, desde o primeiro instante, já que, por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti» (Caminho, n.° 452).

35-37. Os soldados do Procurador romano escarnecem de Jesus juntamente com o povo e as autoridades judaicas. Deste modo, todos, judeus e gentios, contribuíram para tornar mais amarga a Paixão de Cristo. Mas não esqueçamos que também nós escarnecemos do Senhor sempre que caímos no pecado ou não correspondemos devidamente à Sua graça. Por isso afirma São Paulo que aqueles que pecam «crucificam de novo o Filho de Deus e expõem-No à infâmia pública» (Heb 6,6).

39-43. A cena dos dois ladrões convida-nos a admirar os desígnios da divina Providência, da graça e da liberdade humana. Ambos se encontravam na mesma situação: em presença do Sumo e Eterno Sacerdote, que Se oferecia em Sacrifício por eles e por todos os homens. Um endurece-se, desespera e blasfema, enquanto o outro se arrepende, recorre a Cristo em oração confiada, e obtém a promessa da sua imediata salvação. «O Senhor, comenta Santo Ambrósio, concede sempre mais do que se Lhe pede: o ladrão só pedia que Se recordasse dele; mas o Senhor diz-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso. A vida consiste em habitar com Jesus Cristo, e onde está Jesus Cristo ali está o Seu Reino» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). «Por­que uma coisa é o homem quando julga quem não conhece, e outra coisa é Deus, que penetra nas consciências. Entre os homens, à confissão segue-se o castigo; enquanto diante de Deus, à confissão segue-se a salvação» (De Cruce et latrone). Enquanto caminhamos nesta vida, todos pecamos, mas também todos podemos arrepender-nos. Deus espera-nos sempre com os braços abertos para o perdão. Por isso ninguém deve desesperar, mas fomentar uma firme espe­rança no auxílio divino. Mas ninguém pode presumir da sua própria salvação porque não temos a certeza absoluta da nossa perseverança final (cfr De iustificatione, can. 16). Esta relativa incerteza é um acicate que Deus nos põe para que estejamos sempre vigilantes e possamos assim progredir na tarefa da nossa santificação cristã.

42. «Tenho repetido muitas vezes aquele verso do hino eucarístico: peto quod petivit latro poenitens, e sempre me comovo: pedir como o ladrão arrependido!

«Reconheceu que, ele sim, merecia aquele castigo atroz… E, com uma palavra, roubou o coração de Cristo e abriu, para si, as portas do Céu» (Via Sacra, XII, n.° 4).

43. Ao responder ao bom ladrão Jesus Cristo manifesta que é Deus, porque dispõe da sorte eterna do homem; que é infinitamente misericordioso e não rejeita a alma que se arrepende com sinceridade. De igual modo com essas palavras Jesus revela-nos uma verdade fundamental da nossa fé: «Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo — tanto as que ainda devem ser purificadas com o fogo do Purgatório, como as que são recebidas por Jesus no Paraíso a seguir à sepa­ração do corpo, como o Bom Ladrão —, constituem o Povo de Deus depois da morte, a qual será destruída por completo no dia da Ressurreição, em que estas almas se unirão com os seus corpos» (Credo do Povo de Deus, n.° 28).

45. O obscurecimento do sol manifesta a magnitude e a gravidade da Morte do Senhor (cfr a nota a Mc 15,33). A ruptura do véu do Templo exprime que terminou a Antiga Aliança e começa a Nova, selada com o Sangue de Cristo (cfr a nota a Mc 15,38).

46. A Via Sacra contempla aqui a décima segunda estação: Jesus morre na Cruz. A vida de Cristo está transida desta profunda vivência da Sua condição de Unigênito do Pai: «Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai» (Ioh 16,28). O Seu único afã foi sempre cumprir a Vontade do que O enviou (cfr Ioh 4,34) que, como diz o próprio Cristo, «está Comigo; não Me deixou só porque Eu faço sempre o que Lhe agrada» (Ioh 8,29).

Neste momento culminante da Sua existência terrena, no abandono aparentemente mais absoluto, Jesus Cristo faz um ato de suprema confiança, arroja-Se nos braços do Pai, e livremente entrega a Sua vida. Cristo não morreu forçado nem contra a Sua vontade, mas porque quis. «Em Cristo Nosso Senhor foi coisa singular que morreu quando Ele próprio quis morrer, e que recebeu a morte não tanto produzida por força estranha como voluntariamente. Mas não só escolheu a morte, mas também determinou o lugar e o tempo em que havia de morrer; por isso escreveu Isaías: ‘Ofereceu-se em sacrifício porque ele próprio quis’ (Is 53,7). E o Senhor, antes da Sua Paixão, disse: ‘Dou a Minha vida para a tomar de novo (…).Tenho poder para a dar e tenho poder para a tomar de novo’ (Ioh 10,17-18)» (Catecismo Romano, I, 6,7).

«Saibamos, diz São Paulo, que o nosso homem velho foi crucificado com Jesus, para que seja destruído este corpo pecador e já não sejamos escravos do pecado (…). Assim também vós dai-vos conta de que morrestes para o pecado e de que já não viveis senão para Deus em Cristo Jesus» (Rom 6,6.10.11). Por isso, explicará o Concilio Vaticano II: «Esta obra da redenção dos homens (…), realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão, em que ‘morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida’. Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja» (Sacrosanctum Concilium, n. 5).

47. Os três Evangelhos Sinópticos recolhem a profunda reação do Centurião, própria do homem de bem que, secundando a graça, contempla os acontecimentos aberto ao mistério do sobrenatural. O relato de São Lucas comple­ta-se com os de Mt 27,54 e de Mc 15,39, nos quais se sublinha com mais clareza o reconhecimento da divindade de Jesus4 Cristo. Cfr a nota a Mc 15,39.

48. O sacrifício de Jesus na Cruz começa, desde o primeiro instante, a atrair os homens para Deus mediante o arrependimento: durante o caminho para a Cruz encon­tramos a provável conversão de Simão de Cirene e o pranto dorido das mulheres de Jerusalém; na Cruz, o arrependi­mento do bom ladrão, o toque da graça ao Centurião romano, e a compunção da multidão do povo relatada neste versículo. Jesus tinha profetizado: «Quando for levantado sobre a terra, atrairei todos a Mim» (Ioh 12,32). Esta profecia começa a realizar-se no Gólgota e continuará até ao fim dos tempos.

«Da Cruz pende o corpo — já sem vida — do Senhor. A gente, vendo o que se tinha passado, retira-se batendo no peito (Lc XXIII, 48).

«Agora que estás arrependido, promete a Jesus que, com a Sua ajuda, não vais crucificá-Lo mais. Di-lo com fé, uma e outra vez: amar-Te-ei, meu Deus, porque, desde que nasceste, desde que eras criança, Te abandonaste nos meus braços, inerme, confiando na minha lealdade» (Via Sacra, XII, n.° 5).

49. Importa destacar neste grupo a presença de umas quantas mulheres, alguns de cujos nomes nos transmitiram São Mateus (27,56) e São Marcos (15,40-41): Maria Madalena, Maria, a mãe de Tiago e de José, e Salomé. Estas mulheres, a quem seguramente os soldados não deixaram aproximar-se nos momentos da Crucifixão, perseveram de longe diante da Cruz e aproximam-se depois, para o pé dela (cfr Ioh 19,25) cheias de valentia, por impulso do profundo amor a Jesus Cristo.« Mais forte a mulher do que o homem, e mais fiel na hora da dor. — Maria de Magdala, e Maria Cleofas, e Salomé!

«Com um grupo de mulheres valentes, como essas, bem unidas à Virgem Dolorosa, que apostolado se não faria no mundo!» (Caminho, n.° 982).

50-54. O Evangelho de São João assinala que «Nicodemos, o que antes tinha ido ter com Jesus de noite, veio também trazendo uma mistura de mirra e aloés, como de cem libras» (Ioh 19,39). «José de Arimateia e Nicodemos visitam Jesus ocultamente, em tempo normal e na hora do triunfo.

«Mas são valentes, declarando perante a autoridade o seu amor a Cristo — ‘audacter’ — com audácia, na hora da cobardia. — Aprende» (Caminho, n.° 841). «Eu subirei com eles ao pé da Cruz, apertar-me-ei ao Corpo frio, cadáver de Cristo, com o fogo do meu amor…, despregá-Lo-ei com os meus desagraves e mortificações…, envolvê-Lo-ei com o lençol novo da minha vida limpa e enterrá-Lo-ei no meu peito de rocha viva, donde ninguém mO poderá arrancar; e, aí, Senhor, descansai!

«Mesmo que todos Vos abandonem e desprezem…, ser­viam!, servir-Vos-ei, Senhor» (Via Sacra, XIV, n.° 1).

José de Arimateia e Nicodemos esquecem-se de todos os perigos — ódio dos seus colegas do Sinédrio, represálias dos fanáticos —, porque o amor não repara em obstáculos. Realizam com delicada veneração tudo quanto se requeria para sepultar piedosamente o corpo de Jesus. Exemplo claro para todo o discípulo de Cristo, que por amor a Ele deve arriscar honra, posição e dinheiro. A piedade cristã — nas estações XIII e XIV da Via Sacra — une à contemplação da descida da Cruz e à sepultura do Senhor, a recordação e o agradecimento a estes varões justos, cuja delicadeza quis Deus premiar fazendo que os seus nomes ficassem inscritos no Santo Evangelho (cfr a nota a Mc 15,43-46).

55-56. Aquelas santas mulheres — que conheciam bem a pobreza do Senhor no Seu nascimento em Belém, na Sua vida oculta, no Seu ministério público e na Cruz — não regateiam meios para honrar o Corpo do Senhor. Quando o povo cristão se mostra esplêndido no culto eucarístico, não faz senão aprender bem a lição daqueles primeiros que trataram Cristo na Sua vida terrena.