dia 22 a 28 de junho de 2009

Dia 22 de junho

Mt 7, 1-5

1Não julgueis, para não serdes julgados. 2Porque, com o juízo com que julgardes, sereis julgados e com a medida com que medirdes, vos será medido. 3Por que vês o argueiro no olho do teu irmão e não advertes na trave que tens no teu? 4Ou como ousas dizer a teu irmão: deixa-me tirar o argueiro do teu olho, tu que tens uma trave no teu? 5Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e então verás bem, para tirar o argueiro do olho de teu irmão.

Comentário

1-2. Como noutros lugares, os verbos na voz passiva (“serdes julgados”, “vos será medido”) têm como sujeito Deus, ainda que não esteja explicitamente dito: “Não julgueis os outros e não sereis julgados por Deus”. E claro que o juízo de que se fala aqui é sempre um juízo condenatório; portanto, se não queremos ser condenados por Deus, não condenemos nunca o próximo. “Pois Deus mede como medimos e perdoa como perdoamos, e socorre-nos da maneira e com as entranhas com que nos vê socorrer” (Exposição do livro de Jó, cap. 29).

1. Jesus condena aqui o juízo que fazemos temerariamente acerca dos nossos irmãos, quando por ligeireza ou por malvadez julgamos pejorativamente acerca do seu comportamento, dos seus sentimentos ou das suas intenções. O malicioso dito “pensa mal e acertarás” está contra a doutrina de Jesus Cristo.

São Paulo, ao falar da caridade cristã, assinala como notas salientes: “a caridade é paciente, é benigna… não pensa mal… tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera” (l Cor 13, 4.5.7.). Por isso: “Não admitas um mau pensamento acerca de ninguém, mesmo que as palavras ou obras do interessado dêem motivo para assim julgares razoavelmente” (Caminho, n° 442).

“Não queiramos julgar. – Cada qual vê as coisas do seu ponto de vista… e com o seu entendimento, bem limitado quase sempre, e com os olhos obscuros ou enevoados, com trevas de exaltação muitas vezes” (Caminho, n° 451).

3-5. O que tem a vista deformada vê deformadas as coisas, ainda que estas sejam correctas. Já Santo Agostinho dava este conselho: “Procurai adquirir as virtudes que credes que faltam nos vossos irmãos, e já não vereis os seus defeitos, porque não os tendes vós” (Enarrationes in Psalmos, 30, 2, 7). Neste caso, o refrão popular “julga o ladrão que todos são da sua condição” concorda com esta doutrina de Jesus Cristo.

Por outro lado: “Fazer crítica, destruir, não é difícil: o último aprendiz de pedreiro sabe assestar a sua ferramenta na pedra nobre e bela de uma catedral. – Construir: eis o trabalho que exige mestres” (Caminho, nº 456).

Dia 23 de junho

Mt 7, 6.12-14

6Não deis as coisas santas aos cães, nem deiteis as vossas pérolas aos porcos, não seja caso que eles as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem. 12Tudo aquilo, pois, que quereis que os outros vos façam a vós, fazei-o também vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas. 13Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa a via que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. 14Quão estreita é a porta, e apertada a via que leva à vida! E são poucos os que dão com ela.

Comentário

6. Nesta breve fórmula, a modo de sentença, Jesus ensina um discernimento prudente na pregação da palavra de Deus e na entrega dos meios de santificação. A Igreja, já desde o princípio, teve em conta esta advertência, que se manifesta especialmente no respeito com que rodeou a administração dos sacramentos e, de modo singular, a Santíssima Eucaristia. A confiança filial não exime do sincero e profundo respeito com que se deve tratar tanto Deus como as coisas santas.

12. A sentença de Jesus, chamada “regra de ouro”, oferece um critério prático para reconhecer o alcance das nossas obrigações e da nossa caridade para com os outros. Mas uma consideração superficial correria o risco de mudá-lo num móbil egoísta do nosso comportamento: não se trata, evidentemente, de um do ut des (“dou-te para que me dês”), mas de fazer o bem aos outros sem pôr condições, como em boa lógica as não pomos no amor a nós mesmos. Esta regra prática ficará completada com o “mandamento novo” de Jesus Cristo (Ioh 13, 34), onde nos ensina a amar os outros como Ele mesmo nos amou.

13-14. “Entrai”: Este verbo no Evangelho de São Mateus tem freqüentemente como termo o “Reino dos Céus” ou as suas expressões equivalentes (a Vida, o banquete nupcial, o gozo do Senhor, etc.). Podemos interpretar que “entrai” constitui um convite imperioso.

A senda do pecado é momentaneamente prazenteira e não requer esforço, mas a sua meta é a perdição eterna. Pelo contrário, percorrer o caminho de uma vida cristã generosa, sincera e dura, é custoso – daí que Jesus fale de porta estreita e caminho estreito -, mas a sua meta é a Vida ou salvação eterna.

A senda do cristão é levar a Cruz. “Se o homem se determina a sujeitar-se a levar esta cruz, que é um determinar-se a querer de veras achar e levar trabalho em todas as coisas por Deus, em todas elas achará grande alívio e suavidade para andar este caminho assim, despido de tudo, sem querer nada. Porém, se pretende ter algo, quer de Deus, quer de outra coisa, com alguma propriedade, não vai despido nem abnegado em tudo; e assim, nem caberá nem poderá subir por esta senda estreita” (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 7, n° 7).

Dia 24 de junho

Lc 1, 57-66.80

57Entretanto, chegou o tempo de Isabel dar à luz e teve um filho. 58E souberam os vizinhos e parentes que o Senhor havia tido para com ela grande misericórdia e com ela se congratulavam. 59Ao oitavo dia, vieram circuncidar o menino e iam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio, dizendo: Não, João é que há-de chamar-se. 61Disseram-lhe eles: Não há ninguém da tua família que tenha esse nome. 62E perguntavam ao pai por sinais como queria que se chamasse. 63Ele, pedindo uma placa, respondeu por escrito: João é que é o seu nome. E ficaram todos admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e pôs-se a falar, bendizendo a Deus. 65Encheram-se de temor todos os que eram seus vizinhos e na Judeia, por toda a serra, se divulgaram todos aqueles factos. 66Quantos os ouviam conservavam-nos na memória e diziam: Quem virá então a ser este menino? E, de facto, a mão do Senhor estava com ele! 80Entretanto, o menino crescia e robustecia-se no espírito. E esteve no deserto até no dia da sua apresentação a Israel.

Comentário

59. No Antigo Testamento a circuncisão era um rito instituído por Deus para assinalar como com uma marca e contra-senha os que pertenciam ao povo eleito. Deus mandou a circuncisão a Abraão como sinal da Aliança que estabelecia com ele e com toda a sua descendência (cfr Gen 17,10-14), e prescreveu que se realizasse no oitavo dia do nascimento. O rito realizava-se na casa paterna ou na sinagoga, e além da operação sobre o corpo do menino, incluía bênçãos e a imposição do nome.

Com a instituição do Baptismo cristão cessou o mandamento da circuncisão. Os Apóstolos, no concílio de Jerusalém (cfr Act 15,1 ss.), declararam definitivamente abolida a necessidade do antigo rito para os que se incorporassem na Igreja.

É bem eloqüente o ensinamento de São Paulo (Gal 5,2 ss.; 6,12 ss.; Col 2,11 ss.) acerca da inutilidade da circuncisão depois da Nova Aliança estabelecida por Cristo.

60-63. Com a imposição do nome de João cumpriu-se o que tinha mandado Deus a Zacarias por meio do anjo e que nos relatou São Lucas pouco antes (1,13).

64. Neste facto miraculoso cumpriu-se exatamente o que tinha profetizado o anjo Gabriel a Zacarias quando lhe anunciou a concepção e o nascimento do Baptista (Lc l, l9-20). Observa Santo Ambrósio: “Com razão se soltou em seguida a sua língua, porque a fé desatou o que tinha atado a incredulidade” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

É um caso semelhante ao do apóstolo São Tomé, que tinha resistido a crer na Ressurreição do Senhor, e acreditou depois das provas evidentes que lhe deu Jesus ressuscitado (cfr Ioh 20, 24-29). Com estes dois homens Deus faz o milagre e vence a sua incredulidade; mas ordinariamente Deus “exige-nos fé e obediência sem realizar novos milagres. Por isso repreendeu e castigou Zacarias, e censurou o apóstolo Tomé: “Porque Me viste acreditaste; bem-aventurados os que sem ter visto acreditaram” (Ioh 20,29).

80. “Deserto”: Seguramente trata-se da zona chamada “deserto da Judeia”, que se estendia desde as margens do noroeste do Mar Morto até ao maciço montanhoso da Judeia. Não é um deserto de areia, mas antes uma zona estépica, árida, com algumas matas e vegetação elementar, enxames de abelhas e de saltões ou gafanhotos silvestres. Havia também abundantes grutas onde se podia encontrar refúgio.

Dia 25 de junho

Mt 7, 21-29

21Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. 22Muitos hão-de dizer-Me naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome e em Teu nome expulsamos demônios e em Teu nome fizemos muitos milagres? 23Então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci, apartai-vos de Mim, obreiros da iniqüidade. 24Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. 25E caiu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre a rocha. 26E todo o que ouve estas Minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. 27E caiu a chuva e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, e ela desabou, e a sua ruína foi grande. 28E aconteceu que, quando Jesus terminou este discurso, a multidão estava maravilhada por causa da Sua doutrina, 29porque os ensinava como quem tinha autoridade e não como os seus Escribas e Fariseus.

Comentário

21-23. A oração, para que seja autêntica, deve ir acompanhada pela luta contínua por cumprir a vontade divina. Do mesmo modo, para cumprir essa vontade não basta falar das coisas de Deus, mas é necessário que haja coerência entre o que se pede – o que se diz – e o que se faz: “O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em realidades” (l Cor 4, 20); “Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós próprios” (Iac 1,22).

Os cristãos “fiéis ao Evangelho e graças à sua forca, unidos a quantos amam e promovem a justiça, têm a realizar aqui na terra uma obra imensa, da qual prestarão contas Àquele que a todos julgará no último dia. Nem todos os que dizem ‘Senhor, Senhor’ entrarão no reino dos céus, mas aqueles que cumprem a vontade do Pai e põem seriamente mãos à obra” (Gaudium et Spes, n. 93).

Para entrar no Reino dos Céus, para ser santo, não basta, pois, falar de modo eloqüente da santidade. É necessário levar à prática o que se diz, dar os frutos de acordo com as palavras. Muito graficamente recomenda Frei Luís de Granada: “Olha que não é ser bom cristão somente rezar e jejuar e ouvir Missa, mas que te ache Deus fiel, como a outro Jó e outro Abraão, no tempo da tribulação” (Guia de pecadores, liv. 1, part. 2, cap. 21).

Também o exercício de um ministério eclesiástico não assegura a santidade, visto que deve ir acompanhado da prática das virtudes que se pregam. Por outro lado, a experiência vem ensinar que todo o cristão (seja qual for a sua condição dentro da Igreja) que não se esforça por fazer coincidir os seus actos com as exigências da fé que professa, começa a debilitar-se nesta fé e termina afastando-se dela, não só na prática, mas também na doutrina. Pois todo aquele que não cumpre o que diz, acaba a dizer o que não deve. A autoridade com que Jesus Se exprime nestes versículos revela a Sua condição de Juiz soberano de vivos e mortos. Nunca no AT nenhum profeta tinha falado com essa autoridade.

22. “Naquele dia”: Fórmula técnica na linguagem da Bíblia para designar o dia do Juízo do Senhor ou Juízo Final.

23. “Lhes direi abertamente”: A frase equivaleria a “então eu pronunciarei a sua sentença”. Com efeito, a passagem refere-se ao juízo dos homens que há-de fazer Jesus Cristo. O texto sagrado emprega um verbo que expressa a proclamação pública de uma verdade. Como neste caso quem proclama é Jesus Cristo, tal proclamação é a sentença judicial.

24-27. Estes versículos constituem como que a face positiva do passo anterior. Quem se esforça por levar à prática os ensinamentos de Jesus, ainda que venham as tribulações pessoais, ou períodos de confusão na vida da Igreja, ou se veja rodeado do erro, permanecerá forte na fé, como o homem sábio que edifica a sua casa sobre rocha.

Além disso, para permanecer fortes nos momentos difíceis é necessário, nos tempos de bonança, aceitar com boa cara as pequenas contrariedades, ser delicados no trato com Deus e com os outros, e cumprir com fidelidade e abnegação os próprios deveres de estado. Deste modo se vão lançando os fundamentos, fortalecendo a construção e reparando as fendas que se possam produzir.

28-29. O povo que escutava Jesus percebeu com clareza a diferença radical que havia entre o modo de ensinar dos escribas e fariseus, e a segurança e serenidade com que Jesus Cristo expunha a Sua doutrina. As palavras do Senhor nunca são afectadas de insegurança, nem apresentam dúvida, nem expõem uma mera opinião. Jesus falava com domínio absoluto da verdade e com conhecimento perfeito do verdadeiro sentido da Lei e dos Profetas; mais ainda, não poucas vezes falava no Seu próprio nome (cfr Mt 5, 22.28.32.38.44), e com a própria autoridade de Deus (cfr Mc 2, 10; Mt 28, 18). Tudo isso conferia uma singular força e autoridade às Suas palavras, como jamais se tinha ouvido em Israel (cfr Lc 19, 48; Ioh 7, 46).

Dia 26 de junho

Mt 8, 1-4

1Ao descer do monte, seguiram-No grandes multidões. 2E eis que um leproso se aproximou e prostrou diante d’Ele, dizendo: Senhor, se quiseres, podes limpar-me. 3E Ele estendeu a mão e tocou-o, dizendo: Quero, sê limpo! E imediatamente ficou limpo da sua lepra. 4Disse-lhe então Jesus: Vê lá, não digas a ninguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote e apresenta a oferenda prescrita por Moisés, para lhes servir de testemunho.

Comentário

8 – Os capítulos 8 e 9 de São Mateus contêm uma série de milagres de Nosso Senhor.

Os primeiros cristãos tinham experiência viva de que Jesus glorificado continuava a estar presente no meio da Igreja, confirmando a doutrina com os sinais que a acompanhavam (Mc 16, 20; cfr Act 14, 3). Assim São Mateus, depois de ter exposto um núcleo fundamental do ensino público de Jesus no chamado “Sermão da Montanha” (caps. 5 a 7), agrupa a seguir – caps. 8 e 9 – alguns milagres que vêm apoiar as palavras do Salvador. Alguns comentadores chamam a esta secção dos capítulos 8 e 9 “as obras do Messias”, em paralelismo com a secção anterior – Sermão da Montanha – a que chamam “as palavras do Messias”. Jesus aparece nos capítulos 5 a 7 como supremo legislador e doutor que ensina com autoridade divina, única e superior a como o tinham feito Moisés e os profetas. Agora, nos capítulos 8 e 9, apresenta-Se dotado também de um poder divino sobre as doenças, a morte, os elementos da natureza e os espíritos maus. Tais milagres operados por Jesus abonam a autoridade divina do Seu ensino.

1. O Evangelho sublinha, pela terceira vez, o seguimento de Jesus por parte das multidões. Literalmente diz: “seguiram-nO muitas multidões”. Assim fica a conhecer-se a popularidade que tinha alcançado Jesus Cristo, até ao ponto de o Sinédrio (grande conselho da nação judaica) não se atrever a detê-Lo com medo a que o povo se amotinasse (cfr Mt 21,46; 26,25; Mc 14,2). Do mesmo modo poderiam depois acusá-Lo diante de Pilatos de sublevar o país desde a Judeia até à Galileia. Igualmente, Herodes Antipas tinha uma grande ansiedade por conhecer Jesus, cuja fama lhe tinha chegado (cfr Mt 14, 1). Contra esta imensa maioria popular, foram precisamente os chefes do povo os que se opuseram a Jesus, e enganaram a multidão para que pedisse a morte do Senhor (cfr Mt 27,20-22).

2. Os Santos Padres viram nesta cura o seguinte significado: a lepra, pela sua fealdade e repugnância, pela sua facilidade de contágio, pela dificuldade da sua cura, é uma imagem impressionante do pecado. Todos somos pecadores e todos necessitamos do perdão e da graça de Deus (cfr Rom 3, 23-24). O leproso do Evangelho prostrou-se diante de Jesus com plena humildade e confiança, suplicando que o curasse. Se recorrermos ao Salvador com uma fé semelhante, podemos esperar com segurança a cura das misérias da nossa alma. Quantas vezes deveremos dirigir-nos a Cristo com essa breve oração – jaculatória – do leproso: “Senhor, se quiseres, podes limpar-me”.

4. Segundo a Lei de Moisés (cfr Lev 14), se um leproso se cura da sua doença deve apresentar-se diante do sacerdote, que constata a cura e passa a certidão. Esta é necessária para a reintegração do sarado na vida civil e religiosa de Israel. O Levítico prescreve também as purificações e o sacrifício que deve oferecer. O mandato de Jesus ao leproso corresponde, pois, ao que era normal no cumprimento do estabelecido pelas leis.

Dia 27 de junho

Mt 8, 5-17

5Apenas entrado em Cafarnaum, veio ter com Ele um centurião, que suplicava 6nestes termos: Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre cruelmente. 7Disse-Ihe Ele: Eu vou lá curá-lo. 8Tornou-Lhe o centurião: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu tecto: mas dize uma só palavra e o meu servo será curado. 9Porque também eu, que sou um subalterno, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: “vai”, e ele vai; e a outro: “vem”, e ele vem; e ao meu servo: “faze isto”, e ele faz. 10Jesus, ao ouvi-lo, admirou-Se e disse aos que O seguiam: Em verdade vos digo que não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé. 11Por isso, vos digo que muitos virão do Oriente e do Ocidente a pôr-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacob no Reino dos Céus, 12ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes. 13Depois Jesus disse ao centurião: Vai, faça-se como tu creste! E naquela mesma hora ficou o servo curado. 14Entrando depois Jesus em casa de Pedro, encontrou a sogra dele de cama com febre. 15Tocou-lhe na mão e a febre deixou-a, e ela levantou-se e pôs-se a servi-Lo. 16Ao anoitecer, apresentaram-Lhe muitos possessos e Ele com a Sua palavra expulsou os espíritos e curou todos os que se sentiam mal, 17para se cumprir o que fora anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.

Comentário

5-13. “Centurião”: Oficial do exército romano que tinha o comando sobre cem soldados. A fé exemplar deste homem atravessou os tempos. No momento solene em que o cristão vai receber o próprio Jesus na Santíssima Eucaristia, a Liturgia da Igreja, para avivar a fé, põe na sua boca e no seu coração precisamente as palavras do centurião de Cafarnaum: “Senhor, não sou digno…”.

Segundo a mentalidade israelita da época, o facto de um judeu entrar em casa de um gentio levava consigo contrair a impureza legal (cfr Ioh 18,28; Act 11,2-3). O centurião tem a deferência de não colocar Jesus numa situação incômoda diante dos Seus concidadãos. Manifesta a sua firme convicção de que a doença está submetida a Jesus. Daí que proponha dar uma simples ordem, uma só palavra, que produzirá o efeito desejado, sem necessidade de entrar em sua casa. O raciocínio do centurião é simples e convincente, tomado da sua própria experiência profissional. Jesus aproveita este encontro com um crente gentio para fazer a solene profecia do destino universal do Evangelho: a ele serão chamados os homens de todas as nações, raças, idades e condições.

14-15. Depois da cura do corpo – ou da alma – vem o “levantar-se” imediato da situação anterior e servir Jesus Cristo. Nada de lamentações, nem de perdas de tempo, mas disponibilidade imediata ao serviço do Senhor.

16-17. A expulsão dos demônios manifesta um dos aspectos importantes do estabelecimento do Reino de Deus (cfr Mt 12, 8). Igualmente, a cura das doenças, que são conseqüência do pecado, é sinal específico das “obras do Messias” anunciadas pelos Profetas (cfr Is 29,18; 35,5-6).

Em poucas palavras o Evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, resume um amplo sector da actividade de Jesus (v. 16), e dá a entender o significado salvífico de tais obras do Messias, assinalando como nelas se cumpre a profecia de Isaías 53,4 que anunciava a missão redentora do “Servo de Yahwéh” (v. 17).

Dia 28 de junho

Mt 16, 13-19

13Em seguida, foi Jesus para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos discípulos: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? 14Responderam-Lhe: Uns, João Baptista: outros, Elias; outros, Jeremias ou algum dos profetas. 15Disse-lhes Jesus: E quem dizeis vós que Eu sou? 16Respondeu Simão Pedro, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. 17E Jesus, respondendo-lhe, disse: Bem-aventurado és tu, Simão, Barjona, porque não foi a carne e o sangue que to revelaram, mas Meu Pai que está nos Céus. 18E Eu digo-te a ti que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na terra, será ligado nos Céus; e tudo o que desligares na terra, será desligado nos Céus.

Comentário

13-20. Neste passo promete-se a São Pedro o Primado sobre toda a Igreja. Primado que Jesus lhe conferirá, depois da Sua Ressurreição, segundo nos relata o Evangelho de São João (cfr Ioh 21, 15-18). Os poderes supremos são dados a Pedro para bem da Igreja. Como esta há-de durar até ao fim dos tempos, esses poderes transmitir-se-ão àqueles que sucedam a Pedro ao longo da história. O Romano Pontífice é em concreto o sucessor de São Pedro.

A doutrina sobre o Primado de Pedro e dos seus sucessores foi definida como dogma de fé pelo Magistério solene da Igreja no Concílio Vaticano I, nos seguintes termos: “Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de jurisdição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido, imediata e directamente, ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor. Porque só a Simão – a quem já antes tinha dito: ‘Tu chamar-te-ás Cefas’ (Ioh l, 42) -, depois de pronunciar a sua confissão: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’, se dirigiu o Senhor com estas solenes palavras: ‘Bem-aventurado és, Simão filho de João, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas Meu Pai que está nos Céus. E Eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na terra ficará ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra, ficará desligado nos Céus’ (Mt 16, 16 ss.). E só a Simão Pedro conferiu Jesus, depois da Sua Ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros. Apascenta as Minhas ovelhas’ (Ioh 21, 15 ss.)… (Cânon). Se alguém disser que o bem-aventurado Pedro Apóstolo não foi constituído por Cristo Senhor príncipe de todos os Apóstolos e cabeça visível de toda a Igreja militante, ou que recebeu directa e imediatamente do próprio Jesus Cristo Senhor Nosso somente o primado de honra, mas não de verdadeira e própria jurisdição, seja anátema”.

Ora bem, “o que Cristo Senhor, príncipe dos pastores e grão pastor das ovelhas, instituiu no bem-aventurado Apóstolo Pedro para perpétua salvação e bem perene da Igreja, é mister que dure perpetuamente por obra do mesmo Senhor na Igreja que, fundada sobre a pedra, tem de permanecer firme até a consumação dos séculos. ‘Para ninguém, na verdade, é duvidoso, antes, para todos os séculos é notório, que o santo e beatíssimo Pedro, príncipe e cabeça dos Apóstolos, coluna da fé e fundamento da Igreja Católica, recebeu as chaves do Reino das mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano; e até ao tempo presente e sempre continua a viver, preside e exerce o juízo nos seus sucessores’ (cfr Concílio de Éfeso), os bispos da Santa Sé Romana, por ele fundada e pelo seu sangue consagrada. Donde se segue que seja quem for o que sucede a Pedro nesta cátedra, esse, segundo a instituição do próprio Cristo, obtém o Primado de Pedro sobre a Igreja universal…

“Por esta causa, foi sempre necessário que a esta Igreja Romana, ‘pela sua mais poderosa principalidade, se unisse toda a Igreja, isto é, quantos fiéis há, de onde quer que sejam’…

“(Cânon.) Se alguém disser que não é de instituição do próprio Cristo, isto é, de direito divino, que o bem-aventurado Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre a lgreja universal; ou que o Romano Pontífice não é sucessor do bem-aventurado Pedro no mesmo primado, seja anátema.

“… Julgamos que é absolutamente necessário afirmar solenemente a prerrogativa que o Unigênito Filho de Deus se dignou juntar com o supremo dever pastoral.

“Assim, pois, Nós, seguindo a tradição recolhida fielmente desde o princípio da fé cristã, para glória de Deus Salvador Nosso, para exaltação da fé católica e salvação dos povos cristãos, com aprovação do sagrado concílio, ensinamos e definimos ser dogma divinamente revelado: Que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra – isto é, quando cumprindo o seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define pela sua suprema autoridade apostólica que uma doutrina sobre a fé e costumes deve ser definida pela Igreja universal -, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que estivesse provista a Sua Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes; e, por isso, que as definições do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas e não pelo consentimento da Igreja.

“(Cânon.) E se alguém tivesse a ousadia, o que Deus não permita, de contradizer essa definição nossa, seja anátema” (Pastor aeternus, caps 1, 2 e 4).