dia 21 a 27 de setembro de 2009

Dia 21 de setembro

Mt 9, 9-13

9Seguindo Jesus dali, viu sentado ao telónio um homem chamado Mateus e disse-lhe: Segue-Me. E ele levantou-se e seguiu-O.

10Ora, sucedeu que, estando à mesa em sua casa, vieram muitos publicanos e pecadores pôr-se à mesa com Jesus e Seus discípulos. 11Ao verem isto os Fariseus, diziam aos discípulos: Porque é que o vosso Mestre come com os publicanos e pecadores? 12Mas Ele, que os ouviu, disse: Não precisam de médico os que têm boa saúde, mas os doentes.

13Ide, pois, aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifício, porque não vim Eu chamar os justos, mas os pecadores.

Comentário

9. “Telónio”: Posto público para o pagamento de tributos. Acerca do “seguir Jesus” veja-se a nota a Mt 8,18-22.

Este Mateus, a quem Jesus chama, é o apóstolo do mesmo nome e autor humano do primeiro Evangelho. É o mesmo que em Mc 2,14 e em Lc 5,27 é chamado Levi o de Alfeu ou simplesmente Levi.

Deus é quem chama. Para seguir Jesus de modo permanente não basta a própria determinação do homem, mas requer-se, absolutamente, o chamamento individual por parte do Senhor; isto é, a graça da vocação (cfr Mt 4,19-21; Mc 1, 17-20; Ioh 1, 39; etc.). Esse chamamento implica a prévia escolha divina. Por outras palavras, não é o homem quem toma a iniciativa; pelo contrário, é Jesus quem chama primeiro e o homem corresponde a esse chamamento com a sua livre decisão pessoal: “Não fostes vós que Me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi a vós” (Ioh 15,16).

Deve pôr-se em relevo a prontidão com que Mateus “segue” o chamamento de Jesus. Diante da voz de Deus pode entrar na alma a tentação de responder: “Amanhã, ainda não estou preparado”. No fundo esta e outras razões não são mais que egoísmo e medo, além de que o medo pode ser um sintoma mais do chamamento (cfr Ioh 1). Amanhã corre-se o risco de ser demasiado tarde.

Como o dos outros apóstolos, o chamamento de São Mateus dá-se no meio das circunstâncias normais da sua vida:

“- Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão?

Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos…

E – assombra-te! – Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos” (Caminho, n.° 799).

10-11. A mentalidade desses fariseus, tão inclinada a julgar os outros e classificar facilmente como justos e pecadores, não concorda com a atitude e ensinamentos de Jesus. Já tinha dito: “Não julgueis e não sereis julgados” (Mt 7, 1), e acrescentou ainda: “Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe urna pedra” (Ioh 8, 7). A realidade é que todos os homens são pecadores e o Senhor veio para remir a todos. Não há, pois, razão para que se dê entre os cristãos o escandalizar-se pelos pecados de outros, visto que qualquer de nós é capaz de cometer as maiores vilezas se não for assistido pela graça de Deus.

12. Ninguém deve desanimar ao ver-se cheio de misérias: reconhecer-se pecador é a única atitude justa diante de Deus. Ele veio buscar a todos, mas o que se considera justo, por esse mesmo facto, está a fechar as portas a Deus, porque na realidade todos somos pecadores.

13. A frase de Jesus, tomada de Os 6, 6, conserva a expressão hiperbólica do estilo semítico. Uma tradução mais fiel ao sentido seria: “quero mais misericórdia que sacrifício” . Não é que o Senhor não queira os sacrifícios que Lhe são oferecidos, mas insiste em que estes hão-de ir sempre acompanhados pela bondade do coração, visto que a caridade há-de informar toda a actividade do cristão e com maior razão o culto a Deus (vid. l Cor 13,1-13; Mt 5, 23-24).

Dia 22 de setembro

Lc 8, 19-21

19Vieram então ter com Ele Sua mãe e Seus irmãos, mas não podiam abeirar-se d’Ele por causa da multidão. 20Foi-Lhe anunciado: Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem ver-Te. 21Disse-lhes Ele, em resposta: Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.

Comentário

19-21. Estas palavras do Senhor ensinam-nos que o cumprimento da Vontade de Deus está por cima dos laços do sangue e que, portanto, Nossa Senhora está mais unida ao Seu Filho pelo perfeito cumprimento do que Deus lhe pediu, que por o Espírito Santo ter formado d’Ela o corpo de Cristo.

Dia 23 de setembro

Lc 9, 1-6

1Depois de convocar os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os Demónios e para curarem doenças. 2Depois, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos. 3E disse-lhes: Nada leveis para o caminho, nem cajado, nem saco, nem pão, nem dinheiro, e não tenha cada um duas túnicas. 4Em qualquer casa onde entrardes, ficai lá e de lá é que haveis de partir. 5E quanto aos que vos não receberem, ao sair da respectiva cidade, sacudi o pó dos vossos pés, para servir de testemunho contra eles. 6Partindo então, percorriam todas as povoações, a anunciar a Boa Nova e a operar curas por toda a parte.

Comentário

1-4. Trata-se da primeira missão dos Apóstolos. Ao enviá-los quer que se preparem de maneira prática para a sua futura missão depois que Ele suba aos Céus. Encarrega-os de que façam o mesmo que Ele fez: pregar o Reino de Deus e curar doentes.

Dia 24 de setembro

Lc 9, 7-9

7Ouviu o tetrarca Herodes tudo o que se passava, e andava perplexo, porque alguns diziam: João ressuscitou dentre os mortos. 8Outros: Foi Elias que apareceu. E outros ainda: Foi um dos antigos profetas que ressuscitou. 9Disse Herodes: A João mandei-o eu decapitar, mas quem é Este de quem oiço tais coisas? E procurava vê-Lo.

Comentário

7-9. Todos os judeus, se exceptuarmos os saduceus, criam na ressurreição dos mortos, ensinada por Deus nas Sagradas Escrituras (cfr Ez 37,10; Dan 12,2 e 2 Mach 7,9). Por outro lado, era opinião comum entre os judeus contemporâneos de Cristo que Elias ou algum profeta havia de vir de novo (cfr Dt 19,15). Esta poderia ser a razão pela qual Herodes chegou a pensar na possibilidade de que João tivesse ressuscitado (cfr Mt 14, 1-2 e Mc 6,14-16): a esta opinião era induzido ao ouvir que Jesus fazia milagres, pois supunha que os ressuscitados eram os que tinham poderes para os fazer. Não obstante, por outro lado, constava-lhe que Cristo fazia milagres já antes de morrer João (cfr Ioh 2,23) e, por isso, num primeiro momento, não sabia a que ater-se.

Depois, ao crescer a fama dos milagres de Cristo, e para encontrar alguma explicação que o convencesse, decide considerar verdade que João ressuscitou, tal como no-lo contam os outros Evangelhos.

Dia 25 de setembro

Lc 9, 18-22

18Uma vez que rezava em particular, estando os discípulos com Ele, interrogou-os, nestes termos: Quem dizem as multidões que Eu sou? 19Disseram eles, em resposta: João Baptista; outros, Elias, e outros que ressuscitou um dos antigos profetas. 20Disse-lhes Ele: E vós quem dizeis que Eu sou? Pedro tomou então a palavra e respondeu: O Messias de Deus. 21Mas Ele, em tom severo, ordenou-lhes que a ninguém o dissessem, 22e acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacerdotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

Comentário

22. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. “Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6, 14)” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc).

Dia 26 de setembro

Lc 9, 43b-45

43Estando todos admirados com tudo o que fazia, disse Jesus aos Seus discípulos: 44Fixai bem estas palavras nos vossos ouvidos: O Filho do homem vai, de facto, ser entregue nas mãos dos homens. 45Eles, porém, não entendiam aquela linguagem; estava-lhes velada, de sorte que a não atingiam e tinham receio de O interrogar sobre tais palavras.

Comentário

44. Cristo insiste em anunciar a Sua Paixão e Morte. Primeiro veladamente (Ioh 2,19; Lc 5,35) à multidão, e depois com mais clareza aos discípulos (Lc 9,22). Estes, contudo, não entendem as Suas palavras, não porque não sejam claras, mas pela falta das disposições adequadas. Comenta São João Crisóstomo: “Ninguém se escandalize ao contemplar uns Apóstolos tão imperfeitos, porque ainda não tinha chegado a Cruz nem tinha sido dado o Espírito Santo” (Hom. sobre S. Mateus, 65).

Dia 27 de setembro

Mc 9, 38-43.45.47-48

38Disse-Lhe João: Mestre, vimos um homem que não anda connosco a expulsar os Demô­nios em Teu nome e proibimos-lho, porque não andava connosco. 39Não lho proibais — respondeu Jesus . — Porque não há ninguém que possa fazer um milagre em Meu nome e vá logo falar mal de Mim. 40Pois quem não é contra nós é por nós. 41E quem vos der um copo de água a beber, a título de que sois de Cristo, digo-vos em verdade que náo perderá a sua recompensa.

42E quem escandalizar um destes peque­ninos que crêem em Mim, a esse é melhor que lhe ponham ao pescoço a mo de uma atafona e o lancem ao mar.

43E, se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a, porque é melhor entrares na vida mutilado, do que ires com ambas as mãos para a Geena, para o fogo inextinguível. (…) 45E, se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o, porque melhor é entrares na vida coxo, do que com ambos os pés seres lançado na Geena (…) 47E, se algum dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora, porque melhor é entrares no Reino de Deus com uma só vista, do que com ambos os olhos seres lançado na Geena, 48onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue.

Comentário

38-40. O Senhor previne os Apóstolos, e depois deles todos os cristãos, contra o exclusivismo e o espírito de partido único na tarefa apostólica, que se exprime no falso refrão: «O bem, se não o faço eu, já não é bem». Pelo contrário, devemos assimilar este ensinamento de Cristo, porque o bem é bem, mesmo que o não faça eu. Cfr a nota a Lc 9,49-50.

41. O valor e o mérito das obras boas está princi­palmente no amor a Deus com que se realizam: «Um pequeno acto, feito por Amor, quanto não vale!» (Caminho, n.° 814). Deus recompensa, sobretudo, as acções de serviço aos outros, por pequenas que pareçam: «Vês esse copo de água ou esse pedaço de pão que uma mão caritativa dá a um pobre por amor de Deus? Pouca coisa é na realidade e quase não estimável para o juízo humano; mas Deus recom­pensa-o e concede imediatamente por isso aumento de caridade» (Tratado do amor de Deus, livro 3, cap. 2).

42. «Escândalo é qualquer dito, facto ou omissão que dá ocasião a outro de cometer pecados» (Catecismo Maior, n.° 417). Chama-se diabólico, e é-o, quando o fim intentado por quem produz o escândalo é o pecado do próximo, enquanto ofensa a Deus. Por ser o pecado o maior de todos os males, compreende-se a gravidade do escândalo e, portanto, a decidida condenação de Cristo. Reveste-se de particular gravidade escandalizar as crianças, porque estão mais indefesas contra o mal. A advertência de Cristo vale para todos, mas de modo especial para os pais e educadores, que são responsáveis diante do tribunal de Deus pela alma dos pequenos.

43. «Geena» ou Ge-hinnom, era um pequeno vale ao sul de Jerusalém, fora das muralhas e mais baixo do que a cidade. Durante séculos este lugar foi utilizado para depo­sitar o lixo da povoação. Habitualmente esse lixo era quei­mado para evitar o foco de infecção que constituía e a acumulação do mesmo. Era proverbial como lugar imundo e doentio. Nosso Senhor serve-Se deste facto conhecido para explicar, de modo gráfico, o fogo inextinguível do inferno.

43-48. Jesus, depois de ter ensinado a obrigação de evitar o escândalo aos outros, assenta agora as bases da doutrina moral cristã sobre a ocasião de pecado; a doutrina do Senhor é imperiosa: o homem está obrigado a afastar e evitar a ocasião próxima de pecado, como o próprio pecado, segundo o que já tinha dito Deus no AT: «O que ama o perigo cairá nele» (Eccli 3,26-27). O bem eterno da nossa alma é superior a qualquer estima de bens temporais. Portanto, tudo aquilo que nos põe em perigo próximo de pecado deve ser cortado e arrancado de nós. Esta forma de falar — tão gráfica — do Senhor deixa bem assente a gravidade desta obrigação.

Os Santos Padres, sob a imagem dos membros corporais, vêem aquelas pessoas que obstinadas no mal nos induzem irremediavelmente às más obras ou à má doutrina. É a estes que devemos afastar de nós para que cheguemos à vida, antes que ir com eles para o inferno (De consensu Evangelistarum, IV, 16; Hom. sobre S. Mateus, 60).