dia 21 a 27 de junho de 2010

Dia 21 de junho

Mt 7, 1-5

1Não julgueis, para não serdes julgados. 2Porque, com o juízo com que julgardes, sereis julgados e com a medida com que medirdes, vos será medido. 3Por que vês o argueiro no olho do teu irmão e não advertes na trave que tens no teu? 4Ou como ousas dizer a teu irmão: deixa-me tirar o argueiro do teu olho, tu que tens uma trave no teu? 5Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e então verás bem, para tirar o argueiro do olho de teu irmão.

Comentário

1-2. Como noutros lugares, os verbos na voz passiva (“serdes julgados”, “vos será medido”) têm como sujeito Deus, ainda que não esteja explicitamente dito: “Não julgueis os outros e não sereis julgados por Deus”. E claro que o juízo de que se fala aqui é sempre um juízo condenatório; portanto, se não queremos ser condenados por Deus, não condenemos nunca o próximo. “Pois Deus mede como medimos e perdoa como perdoamos, e socorre-nos da maneira e com as entranhas com que nos vê socorrer” (Exposição do livro de Jó, cap. 29).

1. Jesus condena aqui o juízo que fazemos temerariamente acerca dos nossos irmãos, quando por ligeireza ou por malvadez julgamos pejorativamente acerca do seu comportamento, dos seus sentimentos ou das suas intenções. O malicioso dito “pensa mal e acertarás” está contra a doutrina de Jesus Cristo.

São Paulo, ao falar da caridade cristã, assinala como notas salientes: “a caridade é paciente, é benigna… não pensa mal… tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera” (l Cor 13, 4.5.7.). Por isso: “Não admitas um mau pensamento acerca de ninguém, mesmo que as palavras ou obras do interessado dêem motivo para assim julgares razoavelmente” (Caminho, n° 442).

“Não queiramos julgar. – Cada qual vê as coisas do seu ponto de vista… e com o seu entendimento, bem limitado quase sempre, e com os olhos obscuros ou enevoados, com trevas de exaltação muitas vezes” (Caminho, n° 451).

3-5. O que tem a vista deformada vê deformadas as coisas, ainda que estas sejam correctas. Já Santo Agostinho dava este conselho: “Procurai adquirir as virtudes que credes que faltam nos vossos irmãos, e já não vereis os seus defeitos, porque não os tendes vós” (Enarrationes in Psalmos, 30, 2, 7). Neste caso, o refrão popular “julga o ladrão que todos são da sua condição” concorda com esta doutrina de Jesus Cristo.

Por outro lado: “Fazer crítica, destruir, não é difícil: o último aprendiz de pedreiro sabe assestar a sua ferramenta na pedra nobre e bela de uma catedral. – Construir: eis o trabalho que exige mestres” (Caminho, nº 456).

Dia 22 de junho

Mt 7, 6.12-14

6Não deis as coisas santas aos cães, nem deiteis as vossas pérolas aos porcos, não seja caso que eles as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem. 12Tudo aquilo, pois, que quereis que os outros vos façam a vós, fazei-o também vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas. 13Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa a via que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. 14Quão estreita é a porta, e apertada a via que leva à vida! E são poucos os que dão com ela.

Comentário

6. Nesta breve fórmula, a modo de sentença, Jesus ensina um discernimento prudente na pregação da palavra de Deus e na entrega dos meios de santificação. A Igreja, já desde o princípio, teve em conta esta advertência, que se manifesta especialmente no respeito com que rodeou a administração dos sacramentos e, de modo singular, a Santíssima Eucaristia. A confiança filial não exime do sincero e profundo respeito com que se deve tratar tanto Deus como as coisas santas.

12. A sentença de Jesus, chamada “regra de ouro”, oferece um critério prático para reconhecer o alcance das nossas obrigações e da nossa caridade para com os outros. Mas uma consideração superficial correria o risco de mudá-lo num móbil egoísta do nosso comportamento: não se trata, evidentemente, de um do ut des (“dou-te para que me dês”), mas de fazer o bem aos outros sem pôr condições, como em boa lógica as não pomos no amor a nós mesmos. Esta regra prática ficará completada com o “mandamento novo” de Jesus Cristo (Ioh 13, 34), onde nos ensina a amar os outros como Ele mesmo nos amou.

13-14. “Entrai”: Este verbo no Evangelho de São Mateus tem freqüentemente como termo o “Reino dos Céus” ou as suas expressões equivalentes (a Vida, o banquete nupcial, o gozo do Senhor, etc.). Podemos interpretar que “entrai” constitui um convite imperioso.

A senda do pecado é momentaneamente prazenteira e não requer esforço, mas a sua meta é a perdição eterna. Pelo contrário, percorrer o caminho de uma vida cristã generosa, sincera e dura, é custoso – daí que Jesus fale de porta estreita e caminho estreito -, mas a sua meta é a Vida ou salvação eterna.

A senda do cristão é levar a Cruz. “Se o homem se determina a sujeitar-se a levar esta cruz, que é um determinar-se a querer de veras achar e levar trabalho em todas as coisas por Deus, em todas elas achará grande alívio e suavidade para andar este caminho assim, despido de tudo, sem querer nada. Porém, se pretende ter algo, quer de Deus, quer de outra coisa, com alguma propriedade, não vai despido nem abnegado em tudo; e assim, nem caberá nem poderá subir por esta senda estreita” (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 7, n° 7).

Dia 23 de junho

Mt 7, 15-20

15Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós com veste de ovelhas mas, por dentro, são lobos rapaces. 16Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? 17Assim, toda a árvore boa dá frutos bons, e a árvore ruim dá frutos maus. 18Não pode a árvore boa dar frutos maus nem a árvore ruim dar frutos bons. 19Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e deita-se no fogo. 20Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.

Comentário

15-20. No Antigo Testamento alude-se com freqüência aos “falsos profetas”; é célebre o passo de Ier 23, 9-40. Denuncia-se ali a impiedade desses profetas que “profetizam por Baal e fazem errar o Meu povo Israel”; que “vos estão a enganar, vos contam as suas próprias fantasias, não coisa da boca de Yahwéh… Eu não enviei esses profetas e eles foram. Não lhes falei, e eles profetizaram”; que “desencaminham o Meu povo com as suas mentiras e as suas jactâncias, sendo verdade que Eu não os enviei, nem lhes dei missão alguma, nem fizeram ao Meu povo bem algum”.

Na vida da Igreja a figura dos falsos profetas, de que fala Jesus, foi entendida pelos Santos Padres referindo-a aos herejes, que, embora se revistam de um hábito exterior de piedade e de reforma, todavia o seu coração não tem os sentimentos de Cristo (cfr Comm. in Matth., 7). São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 23) aplicava-o aos que aparentam virtudes que não têm, e com esta aparência enganam os que não os conhecem.

Como distinguir os falsos profetas dos verdadeiros? Pelos frutos. As coisas de Deus têm um sabor especial, feito de rectidão natural e de inspiração divina. O que verdadeiramente fala das coisas de Deus semeia fé, esperança, caridade, paz, compreensão; pelo contrário, o falso profeta na Igreja de Deus é o que com a sua pregação e o seu comportamento ou actuação semeia divisão, ódio, ressentimento, orgulho, sensualidade (cfr Gal 5, 16-25). Mas o fruto mais característico do falso profeta é afastar o povo de Deus do Magistério da Igreja, através do qual ressoa no mundo a doutrina de Cristo. O fim destes enganadores está também assinalado pelo Senhor: a perdição eterna.

Dia 24 de junho

Lc 1, 57-66.80

57Entretanto, chegou o tempo de Isabel dar à luz e teve um filho. 58E souberam os vizinhos e parentes que o Senhor havia tido para com ela grande misericórdia e com ela se congratulavam. 59Ao oitavo dia, vieram circuncidar o menino e iam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio, dizendo: Não, João é que há-de chamar-se. 61Disseram-lhe eles: Não há ninguém da tua família que tenha esse nome. 62E perguntavam ao pai por sinais como queria que se chamasse. 63Ele, pedindo uma placa, respondeu por escrito: João é que é o seu nome. E ficaram todos admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e pôs-se a falar, bendizendo a Deus. 65Encheram-se de temor todos os que eram seus vizinhos e na Judeia, por toda a serra, se divulgaram todos aqueles factos. 66Quantos os ouviam conservavam-nos na memória e diziam: Quem virá então a ser este menino? E, de facto, a mão do Senhor estava com ele! 80Entretanto, o menino crescia e robustecia-se no espírito. E esteve no deserto até no dia da sua apresentação a Israel.

Comentário

59. No Antigo Testamento a circuncisão era um rito instituído por Deus para assinalar como com uma marca e contra-senha os que pertenciam ao povo eleito. Deus mandou a circuncisão a Abraão como sinal da Aliança que estabelecia com ele e com toda a sua descendência (cfr Gen 17,10-14), e prescreveu que se realizasse no oitavo dia do nascimento. O rito realizava-se na casa paterna ou na sinagoga, e além da operação sobre o corpo do menino, incluía bênçãos e a imposição do nome.

Com a instituição do Baptismo cristão cessou o mandamento da circuncisão. Os Apóstolos, no concílio de Jerusalém (cfr Act 15,1 ss.), declararam definitivamente abolida a necessidade do antigo rito para os que se incorporassem na Igreja.

É bem eloqüente o ensinamento de São Paulo (Gal 5,2 ss.; 6,12 ss.; Col 2,11 ss.) acerca da inutilidade da circuncisão depois da Nova Aliança estabelecida por Cristo.

60-63. Com a imposição do nome de João cumpriu-se o que tinha mandado Deus a Zacarias por meio do anjo e que nos relatou São Lucas pouco antes (1,13).

64. Neste facto miraculoso cumpriu-se exatamente o que tinha profetizado o anjo Gabriel a Zacarias quando lhe anunciou a concepção e o nascimento do Baptista (Lc l, l9-20). Observa Santo Ambrósio: “Com razão se soltou em seguida a sua língua, porque a fé desatou o que tinha atado a incredulidade” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

É um caso semelhante ao do apóstolo São Tomé, que tinha resistido a crer na Ressurreição do Senhor, e acreditou depois das provas evidentes que lhe deu Jesus ressuscitado (cfr Ioh 20, 24-29). Com estes dois homens Deus faz o milagre e vence a sua incredulidade; mas ordinariamente Deus “exige-nos fé e obediência sem realizar novos milagres. Por isso repreendeu e castigou Zacarias, e censurou o apóstolo Tomé: “Porque Me viste acreditaste; bem-aventurados os que sem ter visto acreditaram” (Ioh 20,29).

80. “Deserto”: Seguramente trata-se da zona chamada “deserto da Judeia”, que se estendia desde as margens do noroeste do Mar Morto até ao maciço montanhoso da Judeia. Não é um deserto de areia, mas antes uma zona estépica, árida, com algumas matas e vegetação elementar, enxames de abelhas e de saltões ou gafanhotos silvestres. Havia também abundantes grutas onde se podia encontrar refúgio.

Dia 25 de junho

Mt 8, 1-4

1Ao descer do monte, seguiram-No grandes multidões. 2E eis que um leproso se aproximou e prostrou diante d’Ele, dizendo: Senhor, se quiseres, podes limpar-me. 3E Ele estendeu a mão e tocou-o, dizendo: Quero, sê limpo! E imediatamente ficou limpo da sua lepra. 4Disse-lhe então Jesus: Vê lá, não digas a ninguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote e apresenta a oferenda prescrita por Moisés, para lhes servir de testemunho.

Comentário

8 – Os capítulos 8 e 9 de São Mateus contêm uma série de milagres de Nosso Senhor.

Os primeiros cristãos tinham experiência viva de que Jesus glorificado continuava a estar presente no meio da Igreja, confirmando a doutrina com os sinais que a acompanhavam (Mc 16, 20; cfr Act 14, 3). Assim São Mateus, depois de ter exposto um núcleo fundamental do ensino público de Jesus no chamado “Sermão da Montanha” (caps. 5 a 7), agrupa a seguir – caps. 8 e 9 – alguns milagres que vêm apoiar as palavras do Salvador. Alguns comentadores chamam a esta secção dos capítulos 8 e 9 “as obras do Messias”, em paralelismo com a secção anterior – Sermão da Montanha – a que chamam “as palavras do Messias”. Jesus aparece nos capítulos 5 a 7 como supremo legislador e doutor que ensina com autoridade divina, única e superior a como o tinham feito Moisés e os profetas. Agora, nos capítulos 8 e 9, apresenta-Se dotado também de um poder divino sobre as doenças, a morte, os elementos da natureza e os espíritos maus. Tais milagres operados por Jesus abonam a autoridade divina do Seu ensino.

1. O Evangelho sublinha, pela terceira vez, o seguimento de Jesus por parte das multidões. Literalmente diz: “seguiram-nO muitas multidões”. Assim fica a conhecer-se a popularidade que tinha alcançado Jesus Cristo, até ao ponto de o Sinédrio (grande conselho da nação judaica) não se atrever a detê-Lo com medo a que o povo se amotinasse (cfr Mt 21,46; 26,25; Mc 14,2). Do mesmo modo poderiam depois acusá-Lo diante de Pilatos de sublevar o país desde a Judeia até à Galileia. Igualmente, Herodes Antipas tinha uma grande ansiedade por conhecer Jesus, cuja fama lhe tinha chegado (cfr Mt 14, 1). Contra esta imensa maioria popular, foram precisamente os chefes do povo os que se opuseram a Jesus, e enganaram a multidão para que pedisse a morte do Senhor (cfr Mt 27,20-22).

2. Os Santos Padres viram nesta cura o seguinte significado: a lepra, pela sua fealdade e repugnância, pela sua facilidade de contágio, pela dificuldade da sua cura, é uma imagem impressionante do pecado. Todos somos pecadores e todos necessitamos do perdão e da graça de Deus (cfr Rom 3, 23-24). O leproso do Evangelho prostrou-se diante de Jesus com plena humildade e confiança, suplicando que o curasse. Se recorrermos ao Salvador com uma fé semelhante, podemos esperar com segurança a cura das misérias da nossa alma. Quantas vezes deveremos dirigir-nos a Cristo com essa breve oração – jaculatória – do leproso: “Senhor, se quiseres, podes limpar-me”.

4. Segundo a Lei de Moisés (cfr Lev 14), se um leproso se cura da sua doença deve apresentar-se diante do sacerdote, que constata a cura e passa a certidão. Esta é necessária para a reintegração do sarado na vida civil e religiosa de Israel. O Levítico prescreve também as purificações e o sacrifício que deve oferecer. O mandato de Jesus ao leproso corresponde, pois, ao que era normal no cumprimento do estabelecido pelas leis.

Dia 26 de junho

Mt 8, 5-17

5Apenas entrado em Cafarnaum, veio ter com Ele um centurião, que suplicava 6nestes termos: Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre cruelmente. 7Disse-Ihe Ele: Eu vou lá curá-lo. 8Tornou-Lhe o centurião: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu tecto: mas dize uma só palavra e o meu servo será curado. 9Porque também eu, que sou um subalterno, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: “vai”, e ele vai; e a outro: “vem”, e ele vem; e ao meu servo: “faze isto”, e ele faz. 10Jesus, ao ouvi-lo, admirou-Se e disse aos que O seguiam: Em verdade vos digo que não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé. 11Por isso, vos digo que muitos virão do Oriente e do Ocidente a pôr-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacob no Reino dos Céus, 12ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes. 13Depois Jesus disse ao centurião: Vai, faça-se como tu creste! E naquela mesma hora ficou o servo curado. 14Entrando depois Jesus em casa de Pedro, encontrou a sogra dele de cama com febre. 15Tocou-lhe na mão e a febre deixou-a, e ela levantou-se e pôs-se a servi-Lo. 16Ao anoitecer, apresentaram-Lhe muitos possessos e Ele com a Sua palavra expulsou os espíritos e curou todos os que se sentiam mal, 17para se cumprir o que fora anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.

Comentário

5-13. “Centurião”: Oficial do exército romano que tinha o comando sobre cem soldados. A fé exemplar deste homem atravessou os tempos. No momento solene em que o cristão vai receber o próprio Jesus na Santíssima Eucaristia, a Liturgia da Igreja, para avivar a fé, põe na sua boca e no seu coração precisamente as palavras do centurião de Cafarnaum: “Senhor, não sou digno…”.

Segundo a mentalidade israelita da época, o facto de um judeu entrar em casa de um gentio levava consigo contrair a impureza legal (cfr Ioh 18,28; Act 11,2-3). O centurião tem a deferência de não colocar Jesus numa situação incômoda diante dos Seus concidadãos. Manifesta a sua firme convicção de que a doença está submetida a Jesus. Daí que proponha dar uma simples ordem, uma só palavra, que produzirá o efeito desejado, sem necessidade de entrar em sua casa. O raciocínio do centurião é simples e convincente, tomado da sua própria experiência profissional. Jesus aproveita este encontro com um crente gentio para fazer a solene profecia do destino universal do Evangelho: a ele serão chamados os homens de todas as nações, raças, idades e condições.

14-15. Depois da cura do corpo – ou da alma – vem o “levantar-se” imediato da situação anterior e servir Jesus Cristo. Nada de lamentações, nem de perdas de tempo, mas disponibilidade imediata ao serviço do Senhor.

16-17. A expulsão dos demônios manifesta um dos aspectos importantes do estabelecimento do Reino de Deus (cfr Mt 12, 8). Igualmente, a cura das doenças, que são conseqüência do pecado, é sinal específico das “obras do Messias” anunciadas pelos Profetas (cfr Is 29,18; 35,5-6).

Em poucas palavras o Evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, resume um amplo sector da actividade de Jesus (v. 16), e dá a entender o significado salvífico de tais obras do Messias, assinalando como nelas se cumpre a profecia de Isaías 53,4 que anunciava a missão redentora do “Servo de Yahwéh” (v. 17).

Dia 27 de junho

Lc 9, 51-62

51Como estivessem a chegar os dias de ser levado deste mundo, tomou Jesus a firme resolução de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à Sua frente. 52Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de Samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. 53Mas não O receberam, por ir ostensivamente a caminho de Jerusalém. 54Ao verem isto, disseram os discípulos Tiago e João: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma? 55Mas Ele, voltando-Se, repreendeu-os. 56E foram para outra povoação. 57Indo eles no caminho, disse-Lhe alguém: Seguir-Te-ei para onde quer que fores. 58Retorquiu-lhe Jesus: As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. 59Disse a outro: Segue-Me. Este respondeu: Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. 60Mas Ele replicou-lhe: Deixa os mortos sepultar os seus mortos, e tu vai anunciar o Reino de Deus. 61Disse outro ainda: Seguir-Te-ei, Senhor, mas antes deixa que vá despedir-me dos meus. 62Mas Jesus respondeu-lhe: Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.

Comentário

51. “Os dias de ser levado deste mundo”: Literalmente tempo da Sua assunção. Estas palavras referem-se ao momento em que Jesus Cristo, abandonando este mundo, sobe aos Céus. O próprio Senhor o dirá mais claramente na Última Ceia: “Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai” (Ioh 16,28). Ao encaminhar-Se decididamente para Jerusalém, para a Cruz, Jesus cumpre voluntariamente o que Deus Pai tinha determinado: que pela Sua Paixão e Morte chegasse à Ressurreição e à Ascensão gloriosas.

52-53. Os Samaritanos eram inimigos dos Judeus. Esta inimizade provinha de que aqueles descendiam da fusão dos antigos Hebreus com os gentios que repovoaram a região da Samaria na época do cativeiro assírio (século VIII a.C.). A este motivo acrescentavam-se outros de tipo religioso: os Samaritanos tinham misturado com a religião de Moisés certas práticas supersticiosas, e não reconheciam o Templo de Jerusalém como o único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios. Construíram o seu próprio templo no monte Garizin, que opunham ao de Jerusalém (cfr Ioh 4,20); por esta razão, ao dar-se conta de que Jesus Se dirigia para a Cidade Santa, não quiseram dar-Lhe hospedagem.

54-56. Jesus Cristo corrige o desejo de vingança dos Seus discípulos, oposto à missão do Messias que não veio para perder os homens mas para os salvar (cfr Lc 19,10; Ioh 12,47). Deste modo os Apóstolos vão aprendendo que o zelo pelas coisas de Deus não deve ser áspero e violento.

“O Senhor faz admiravelmente todas as coisas (…). Actua assim com o fim de nos ensinar que a virtude perfeita não guarda nenhum desejo de vingança, e que onde está presente a verdadeira caridade não tem lugar a ira e, enfim, que a debilidade não deve ser tratada com dureza, mas deve ser ajudada. A indignação deve estar longe das almas santas e o desejo de vingança longe das almas grandes” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Deve advertir-se que entre “repreendeu” do v. 55 e “foram” do v. 56, a Vulgata Clementina inclui a cláusula: “dizendo: Não sabeis a que espírito pertenceis. O Filho do Homem não veio para perder os homens mas para os salvar”. Esta cláusula vem em bastantes códices gregos e versões antigas, mas não existe nos melhores e mais antigos códices gregos. Por isso a Neo-vulgata não recolheu este passo.

57-62. Nosso Senhor exprime claramente as exigências que comporta o segui-Lo. Ser cristão não é tarefa fácil nem cómoda; é necessária a abnegação e pôr o amor a Deus antes de tudo.

Aparece aqui o caso daquele homem que quis seguir Cristo mas com uma condição: despedir-se dos de sua casa. O Senhor vê nele pouca decisão, e dá-lhe uma resposta que nos alcança a todos, visto que todos recebemos a chamada a segui-Lo e devemos procurar não receber essa graça de Deus em vão.

“Nós recebemos a graça de Deus em vão quando a recebemos à porta do coração sem lhe permitir a entrada. Recebemo-la sem a recebermos; recebemo-la sem fruto, pois de nada serve sentir a inspiração se não se consente nela (…). Sucede por vezes que inspirados a fazer muito não aceitamos toda a inspiração, mas apenas algo, como aqueles personagens do Evangelho que, aconselhados pelo Senhor a que O seguissem, um pediu-Lhe autorização para enterrar o pai, e o outro para se despedir dos parentes” (Tratado do amor de Deus, liv. 2, cap. 11).

A nossa lealdade e fidelidade à tarefa que Deus nos confia deve superar todo o obstáculo: “Nunca existe razão suficiente para voltarmos atrás (cfr. Lc IX,62): o Senhor está ao nosso lado. Temos de ser fiéis, leais, encarar as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e superar os nossos próprios erros” (Cristo que passa, nº 160).