dia 20 a 26 de abril de 2009

Dia 20 de abril

Jo 3, 1-8

Havia, entre os Fariseus, um homem visita chamado Nicodemos, um dos principais dos Judeus. 2Veio ele ter com Jesus. e disse-Lhe: Rabi, sabemos que vieste da parte de Deus, como mestre, pois ninguém pode fazer esses milagres que Tu fazes, se Deus não estiver com ele. 3Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. 4Disse-Lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Po­derá entrar segunda vez no seio de sua mãe e renascer? 5Jesus retorquiu: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. 6Aquilo que nasceu da carne é carne, e aquilo que nasceu do Espírito é espírito. 7Não te admires de Eu te haver dito: «Vós tendes de nascer de novo». 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.

Comentário

1-21. Nicodemos era membro do Sinédrio de Jerusalém (cfr Ioh7,50). Devia ser também homem culto, provavelmente escriba ou doutor da Lei: Jesus dirigindo-Se a ele, chama-lhe mestre em Israel. Poderíamos qualificá-lo, portanto, como intelectual: é um homem que raciocina, que indaga, que busca a verdade como uma das tarefas funda­mentais da sua vida. Fá-lo naturalmente, movendo-se dentro das proposições próprias da mentalidade judaica do seu tempo. Para entender as coisas divinas, porém, faz falta a humildade, não basta a razão. Cristo vai, em primeiro lugar, elevar Nicodemos ao plano dessa virtude; por isso Jesus não responde imediatamente às suas perguntas, mas faz-lhe ver quão longe está ainda da verdadeira sabedoria: «Tu és mestre em Israel e não o sabes?». Nicodemos deve reco­nhecer que, não obstante os seus estudos, é ainda ignorante nas coisas de Deus. Como comenta São Tomás de Aquino, «o Senhor não o repreende para o injuriar, mas porque con­fiava ainda na sua ciência; por isso quis, fazendo-o passar pela humilhação, convertê-lo em morada do Espírito Santo» (Comentário sobre S. João, ad loc.). Pelo desenvolvimento da conversa é evidente que Nicodemos deu esse passo de humil­dade, e colocou-se diante de Jesus como um discípulo diante do Mestre. Então o Senhor descobre-lhe os mistérios da fé. Nicodemos seria desde esse momento muito mais sábio que todos os seus colegas que não deram esse passo.

A ciência humana, por muito grande que seja, é minúscula diante das verdades — simplesmente enunciadas mas pro­fundíssimas — dos artigos da fé (cfr Eph 3,15-19; l Cor 2;9). As verdades divinas devem ser recebidas com a simplicidade de uma criança (sem a qual não podemos entrar no Reino dos Céus), para depois serem meditadas durante toda a vida, e estudadas com a admiração do que sabe que a realidade divina sempre supera a nossa pobre inteligência.

1-2. Ao longo do diálogo íntimo daquela noite, Nico­demos mostra grande delicadeza: dirige-se a Jesus com respeito e chama-Lhe Rabbi, meu Mestre. Possivelmente tinha sido movido pelos milagres e pela pregação de Cristo, e tinha necessidade de saber. Diante do ensinamento do Senhor, a sua maneira de refletir e de pensar é ainda pouco sobrenatural, mas é humanamente nobre. A sua visita de noite,« por temor dos judeus» (Ioh19,39), é muito compreen­sível dada a sua condição de membro do Sinédrio; de todos os modos, arrisca-se e vai.

Quando os fariseus tentaram deter Jesus (Ioh7,32), fra­cassando no seu propósito por causa da admiração do povo, Nicodemos opôs-se àquela maneira injusta de atuar, que condenava um homem antes de o julgar, e opôs-se com fortaleza de ânimo aos outros (Ioh7,50-53); também não teve medo, na hora mais difícil, de honrar o Corpo morto do Senhor (Ioh19,39).

3-8. A pergunta inicial de Nicodemos, que mostra ainda a sua dúvida acerca de Jesus (um profeta ou o Messias?), o Senhor responde-lhe de maneira inesperada: Nicodemos espe­rava que lhe falasse d’Ele, da Sua missão, e, pelo contrário, Jesus revela-lhe uma verdade assombrosa: há que nascer de novo. Trata-se de um nascimento espiritual pela água e pelo Espírito Santo: é um mundo novo que se abre diante dos olhos de Nicodemos.

As palavras do Senhor também constituem um horizonte sem limites para o progresso espiritual de qualquer alma cristã, que se deixa documente conduzir pela graça divina e pelos dons do Espírito Santo, infundidos no Batismo e corroborados pelos Sacramentos; junto com a aber­tura da alma a Deus, o cristão deve igualmente afastar as apetências egoístas e as inclinações da soberba, para poder ir entendendo o que Deus lhe ensina no seu interior. «Por isso há-de desnudar-se a alma (…) do seu entender, saborear e sentir, para que arremessado tudo o que é dissimil e desconforme com Deus, venha a receber semelhança de Deus (…); e7assim se transforma em Deus. Porque, ainda que seja verdade que, como dissemos, Deus está sempre na alma dando e conservando nela o ser natural com a Sua assis­tência, todavia nem sempre lhe comunica o ser sobrenatural. Porque este não se comunica senão por amor e graça, na qual nem todas as almas estão; e ainda essas não estão em igual grau, porque umas (estão) em maior, outras em menor grau de amor. Donde Deus comunica-se mais àquela alma que está mais avantajada em amor, o que é ter mais con­forme a sua vontade com a de Deus. E a que totalmente a tem conforme e semelhante, totalmente está unida e transformada em Deus sobrenaturalmente» (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 5).

Jesus sublinha com força a nova condição do homem: já não se trata de nascer da carne, da linhagem de Abraão (cfr Ioh1,13), mas de renascer por obra do Espírito Santo, por meio da água. O Senhor fala aqui pela primeira vez do Batismo cristão, confirmando a profecia de João Baptista (cfr Mt 3,11; Ioh1,33): veio para instituir um Batismo no Espírito Santo.

« Nicodemos — diz Santo Agostinho — não saboreava ainda nem este espírito nem esta vida (…). Não conhece outro nascimento senão o de Adão e Eva, e ignora o que se origina de Cristo e da Igreja. Só entende da paternidade que gera para a vida. Existem dois nascimentos; mas ele só tem notícia de um. Um é da terra e outro é do Céu; um da carne e outro do Espírito; um da mortalidade, outro da eternidade; um de homem e mulher, e outro de Cristo e da Igreja. Os dois são únicos. Nem um nem outro se podem repetir» (In Ioann. Evang., 11,6).

O Senhor fala dos efeitos maravilhosos que a força do Espírito Santo produz na alma do batizado. Assim como quando sopra o vento nos damos conta da sua presença, ouvimos o seu silvo mas não sabemos donde surgiu nem onde terminará, assim sucede também com o Espírito Santo, que é «sopro» (pneuma) divino, e que nos é dado no novo nascimento do Batismo: não se sabe por que caminho o Espírito penetra, no coração, mas dá a conhecer a Sua presença pela mudança no comportamento do que O recebe.

Dia 21 de abril

Jo 3, 7b-15

7bVós tendes de nascer de novo. 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.

9Nicodemos interveio, para Lhe dizer: Como pode ser isso? 10Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Tu és mestre em Israel e não o sabes?! 11Em verdade, em verdade te digo: Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12Se vos disse coisas da Terra e as não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu?13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

Comentário

3-8. À pergunta inicial de Nicodemos, que mostra ainda a sua dúvida acerca de Jesus (um profeta ou o Messias?), o Senhor responde-lhe de maneira inesperada: Nicodemos esperava que lhe falasse d’Ele, da Sua missão, e, pelo contrário, Jesus revela-lhe uma verdade assombrosa: há que nascer de novo. Trata-se de um nascimento espiritual pela água e pelo Espírito Santo: é um mundo novo que se abre diante dos olhos de Nicodemos.

As palavras do Senhor também constituem um horizonte sem limites para o progresso espiritual de qualquer alma cristã, que se deixa docilmente conduzir pela graça divina e pelos dons do Espírito Santo, infundidos no Batismo e corroborados pelos Sacramentos; junto com a abertura da alma a Deus, o cristão deve igualmente afastar as apetências egoístas e as inclinações da soberba, para poder ir entendendo o que Deus lhe ensina no seu interior. “Por isso há-de desnudar-se a alma (…) do seu entender, saborear e sentir, para que arremessado tudo o que é dissimil e desconforme com Deus, venha a receber semelhança de Deus (…); e assim se transforma em Deus. Porque, ainda que seja verdade que, como dissemos, Deus está sempre na alma dando e conservando nela o ser natural com a Sua assistência, todavia nem sempre lhe comunica o ser sobrenatural. Porque este não se comunica senão por amor e graça, na qual nem todas as almas estão; e ainda essas não estão em igual grau, porque umas (estão) em maior, outras em menor grau de amor. Donde Deus comunica-se mais àquela alma que está mais avantajada em amor, o que é ter mais conforme a sua vontade com a de Deus. E a que totalmente a tem conforme e semelhante, totalmente está unida e transformada em Deus sobrenaturalmente” (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 5).

Jesus sublinha com força a nova condição do homem: já não se trata de nascer da carne, da linhagem de Abraão (cfr Ioh 1,13), mas de renascer por obra do Espírito Santo, por meio da água. O Senhor fala aqui pela primeira vez do Batismo cristão, confirmando a profecia de João Baptista (cfr Mt 3,11; Ioh1,33): veio para instituir um Batismo no Espírito Santo.

“Nicodemos – diz Santo Agostinho – não saboreava ainda nem este espírito nem esta vida (…). Não conhece outro nascimento senão o de Adão e Eva, e ignora o que se origina de Cristo e da Igreja. Só entende da paternidade que gera para a vida. Existem dois nascimentos; mas ele só tem notícia de um. Um é da terra e outro é do Céu; um da carne e outro do Espírito; um da mortalidade, outro da eternidade; um de homem e mulher, e outro de Cristo e da Igreja. Os dois são únicos. Nem um nem outro se podem repetir” (In Ioann. Evang., 11,6).

O Senhor fala dos efeitos maravilhosos que a força do Espírito Santo produz na alma do batizado. Assim como quando sopra o vento nos damos conta da sua presença, ouvimos o seu silvo mas não sabemos donde surgiu nem onde terminará, assim sucede também com o Espírito Santo, que é “sopro” (pneuma) divino, e que nos é dado no novo nascimento do Batismo: não se sabe por que caminho o Espírito penetra, no coração, mas dá a conhecer a Sua presença pela mudança no comportamento do que O recebe.

10-12. Ante a perplexidade de Nicodemos, Jesus ratifica o valor das Suas palavras, e explica-lhe que fala das coisas do Céu porque procede do Céu, e para Se fazer compreender usa comparações e imagens terrenas. Não obstante, esta linguagem não é suficiente para aqueles que adotam uma posição de incredulidade.

Comenta o Crisóstomo: “Com razão Cristo não disse: não compreendeis, mas: não credes. Porque se alguém não quer admitir aquilo que se pode perceber com a mente, este seria acusado com razão de estupidez; contudo, se alguém não admite aquilo que não se percebe com a mente mas com a fé, este já não peca por estupidez, mas por incredulidade” (Hom. sobre S. João, 27,1).

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeitamente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que encarnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testamento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressurreição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este fato com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mt 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr 1 Ioh 5,1), participar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; 1 Ioh 3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acrescente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, “aumenta-nos a fé” (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer atos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

Dia 22 de abril

Jo 3, 16-21

16De fato, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu intermédio. 18Quem n’Ele acredita não é condenado; mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. 19É esta a causa da condenação: veio a Luz ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a Luz, pois eram más as suas obras. 20E que todo aquele que pratica más acções odeia a Luz e não se aproxima da Luz, para não serem postas a descoberto as suas obras. 21Quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, para se tornar bem claro que as suas obras estão realizadas em Deus.

Comentário

16-21. Com estas palavras carregadas de sentido sintetiza-se como a Morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens (cfr Introdução ao Evangelho segundo São João, parágrafo sobre A caridade, pp 1101-1105). “De tal maneira Deus amou o mundo que lhe entregou Seu Filho Unigênito para a sua salvação. Toda a nossa religião é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. ‘Deus é amor’ (cfr 1 Ioh 4,16), isto é, amor que se difunde e se prodigaliza; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É necessário ver a história de Jesus a esta luz. ‘Ele amou-me’, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repeti-lo a si mesmo: Ele amou-me, e sacrificou-Se por mim (Gal 2,20)” (Homilia do Corpus Christi).

A entrega de Cristo constitui o chamamento mais premente a corresponder ao Seu grande amor: “Se Deus nos criou, se nos redimiu, se nos ama ao ponto de entregar por nós o Seu Filho Unigênito (Ioh III, 16), se nos espera – todos os dias! – como aquele pai da parábola esperava o filho pródigo (cfr Lc XV, 11-32), como não há-de desejar que O tratemos com amor? O que seria estranho era não falar com Deus, afastar-se d’Ele, esquecê-Lo, dedicar-se a atividades estranhas a esses toques ininterruptos da graça” (Amigos de Deus, n° 251).

“O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor (…) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é – se assim é lícito exprimir-se – a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (…). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apropriar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se atuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se ‘mereceu ter um tal e tão grande Redentor’ (Missal Romano, Hino Exultet da Vigília Pascal), se ‘Deus deu o Seu Filho’, para que ele, o homem, ‘não pereça, mas tenha a vida eterna’.

(…) A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em considerável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição” (Redemptor hominis, n. 10).

Jesus Cristo exige como primeiro requisito para participar do Seu amor a fé n’Ele. Com ela passamos das trevas para a luz e entramos em caminho de salvação. “Quem não acredita já está condenado” (v. 18). “As palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. É que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus (…). Por si mesmo e pelas próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De fato, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz” (Ad gentes, n. 8).

Dia 23 de abril

Jo 3, 31-36

31Aquele que vem do Alto está acima de todos; aquele que é da terra, à terra pertence e da terra fala. Aquele que vem do Céu está acima de todos. 32Ele dá testemunho do que viu e ouviu, mas ninguém recebe o Seu testemunho. 33Quem recebe o Seu testemunho atesta que Deus é verídico. 34Aquele que Deus enviou refere as palavras de Deus, pois Este não dá o Espírito por medida. 35O Pai ama o Filho e tudo entregou na Sua mão. 36Quem acredita no Filho tem a vida eterna. Quem se nega a crer no Filho não verá a Vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.

Comentário

31-36. Este parágrafo revela-nos a divindade de Cristo, a Sua relação com o Pai e com o Espírito Santo, e a participação na vida eterna e divina dos que crêem em Jesus Cristo. Fora da fé não há vida nem margem para a esperança.

Dia 24 de abril

Jo 6, 1-15

1Depois disto, retirou-Se Jesus para outro lado do Mar da Galileia, ou de Tiberíade. 2Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que fazia nos enfermos. 3Jesus subiu ao monte e lá Se sentou com os discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos Judeus. 5Erguendo então os olhos e vendo que vinha ter com Ele numerosa multidão, Jesus diz a Filipe: Onde havemos de comprar pão para eles comerem? 6Dizia isto para o experimentar, pois bem sabia o que ia fazer. 7Respondeu-Lhe Filipe: Não lhes chegam duzentos denários de pão, para receber cada qual um poucochinho. 8Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9Está aqui um pequeno que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tanta gente? 10Jesus, porém, respondeu: Fazei com que eles se recostem. Ora havia muita erva no local. Recostaram-se, pois, os homens, em número de cerca de cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães, e, depois de dar graças, distribuiu-os aos convivas; e o mesmo fez dos peixes, tanto quanto lhes apetecia. 12Quando ficaram saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. 13Recolheram-nos, pois, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que haviam sobrado aos que tinham estado a comer.

14Ao verem aqueles homens o milagre que Ele fizera, começaram a dizer: Este é, na verdade, o Profeta que está para vir ao mundo. 15Mas Jesus, percebendo que viriam arrebatá-Lo, para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho para o monte.

Comentário

1. Refere-se ao segundo lago formado pelo Jordão. Nos Evangelhos costuma chamar-se-lhe umas vezes “Lago de Genesaré” (Lc 5,1), pela localidade do mesmo nome situada na margem Noroeste do lago; outras, “Mar da Galileia” (Mt 4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31), pelo nome da região em que se encontra. São João chama-lhe também “Mar de Tiberíades” (cfr 21,1), devido à cidade desse nome fundada por Herodes Antipas em honra do imperador Tibério. No tempo de Jesus Cristo havia à volta deste lago várias cidades: Tiberíades, Magdala, Cafarnaum, Betsaida, etc.; as suas margens foram com freqüência cenário da pregação do Senhor.

2. Ainda que São João não refira mais que sete milagres e não mencione outros que narram os Sinópticos, neste versículo, e mais expressamente no fim do seu Evangelho (20,30; 21,25), diz que foram muitos os milagres realizados pelo Senhor; a seleção desses sete é devida a que o Evangelista, querendo mostrar algumas facetas do mistério de Cristo, escolhe – inspirado por Deus – aqueles que estão mais em harmonia com o seu propósito. Narra agora o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que está em relação direta com os discursos de Cafarnaum, em que Jesus Se apresenta a Si mesmo como “o pão da vida” (6,35.48).

4. O Evangelho de São João costuma mencionar as festas judaicas quando refere muitos dos acontecimentos do ministério público do Senhor. Aqui estamos diante de um destes casos (cfr Duração do Ministério Público, pp. 81 s.; Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1088 s.). Pouco antes desta Páscoa, Jesus realiza o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, prefigurando a Páscoa cristã e o mistério da Santíssima Eucaristia, como Ele próprio explica no discurso que começa no v. 26, onde promete dar-Se como alimento da nossa alma.

5-9. Jesus é sensível às necessidades espirituais e materiais dos homens. Aqui vemo-Lo a tomar a iniciativa para satisfazer a fome daquela multidão que O segue.

Com estes diálogos e o milagre que vai realizar, Jesus ensina também aos Seus discípulos a confiar n’Ele perante as dificuldades que encontrarão nas suas futuras tarefas apostólicas, empreendendo-as com os meios que tiverem, ainda que sejam insuficientes, como neste caso o eram os cinco pães e os dois peixes. Ele entrará com o que falta. Na vida cristã há que pôr ao serviço do Senhor o que temos, ainda que nos pareça muito pouco. O Senhor saberá multiplicar a eficácia desses meios tão insignificantes.

“Tenhamos, pois, Fé, sem permitir que o desalento nos domine; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para superar os obstáculos, há que começar a trabalhar, metendo-nos em cheio, nessa tarefa, de maneira que o nosso próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos” (Cristo que passa, n° 160).

10. O Evangelista transmite um pormenor à primeira vista intranscendente: “Naquele lugar havia muita erva”. Isto indica que o milagre aconteceu em plena Primavera da Palestina, em dias muito próximos da Páscoa, como disse no v. 4. Ainda que na Palestina sejam muito escassos os prados, existe, mesmo hoje, uma verdadeira pradaria na margem oriental do lago de Genesaré, chamada el-Batihah, onde podiam sentar-se os cinco mil homens e onde, portanto, pode ter-se verificado este milagre.

11. O relato do milagre começa quase com as mesmas palavras com que os Sinópticos e São Paulo narram a instituição da Eucaristia (cfr Mt 26,26; Mc 14,22; Lc 22,19; 1 Cor 11,25). Tal coincidência indica que o milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia de Jesus para com os necessitados, é figura da Santíssima Eucaristia, da qual o Senhor falará pouco depois (cfr Ioh 6,26-59).

12-13. A abundância de pormenores reflete o realismo da narração: o nome dos Apóstolos que falam com o Senhor (vv. 5.8), a espécie dos pães que eram de cevada (v. 9), o rapaz que levava essas provisões (v. 9) e, por último, Jesus que manda recolher os pedaços.

O milagre denota o poder divino de Jesus sobre a matéria, e a liberalidade com que o realiza evoca a abundância dos bens messiânicos que os profetas tinham predito (cfr. Ier 31,14).

O mandato de recolher os pedaços que sobram ensina que os bens materiais, por serem dons de Deus, não se devem desperdiçar, mas hão-de ser usados com espírito de pobreza (cfr a nota a Mc 6,42). Neste sentido explica Paulo VI que “depois de ter alimentado com liberalidade a multidão, o Senhor recomenda aos Seus discípulos que recolham o que sobrou para que nada se perca (cfr Ioh 6,12). Que formosa lição de economia, no sentido mais nobre e mais pleno da palavra, para a nossa época dominada pelo esbanjamento! Além disso, leva consigo a condenação de toda uma concepção da sociedade em que até o próprio consumo tende a converter-se no seu próprio bem, desprezando os que se vêem necessitados e em detrimento, em última análise, dos que julgam ser os seus beneficiários, incapazes já de perceber que o homem é chamado a um destino mais alto” (Discurso aos participantes na Conferência mundial da Alimentação, 9-XI-1974).

14-15. A fé que o milagre suscita naqueles homens é ainda muito imperfeita: reconhecem-No como o Messias prometido no Antigo Testamento (cfr Dt 18,15), mas pensam num messianismo terreno e nacionalista, querem fazê-Lo rei porque consideram que o Messias os há-de livrar da dominação romana.

O Senhor, que mais adiante (vv. 26-27) explicará o verdadeiro sentido da multiplicação dos pães e dos peixes, limita-Se a fugir daquele lugar, para evitar uma proclamação popular alheia à Sua verdadeira missão. No diálogo com Pilatos (cfr Ioh 18,36) explicará que o Seu Reino “não é deste mundo”.

“Os Evangelhos mostram claramente como para Jesus era uma tentação o que alterasse a Sua missão de Servidor de Yahwéh (cfr Mt 4,8; Lc 4,5). Não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com atitudes meramente políticas (cfr Mt 22,21; Mc 12,17; Ioh 18,36) (…). A perspectiva da Sua missão é muito mais profunda. Consiste na salvação integral por um amor transformante, pacificador, de perdão e de reconciliação. Não há dúvida, por outro lado, que tudo isto é muito exigente para a atitude do cristão que quer servir de verdade os irmãos mais pequenos, os pobres, os necessitados, os marginalizados; numa palavra, todos os que refletem nas suas vidas o rosto dorido do Senhor (cfr Lumen gentium, n. 8)” (Discurso episcopado latinoamericano, n° I,4).

Não se pode, pois, confundir o cristianismo com uma ideologia social ou política, por mais nobre que seja.

“Não penso na tarefa dos cristãos na Terra como o nascer duma corrente político-religiosa – seria uma loucura – nem mesmo com o bom propósito de difundir o espírito de Cristo em todas as atividades dos homens. O que é preciso é pôr em Deus o coração de cada um, seja ele quem for. Procuremos falar a todos os cristãos, para que no lugar onde estiverem (…) saibam dar testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professam.

O cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceita que no seu coração habite Cristo, que reine Cristo, em todo o seu trabalho humano encontrar-se-á – bem forte – a eficácia salvadora do Senhor” (Cristo que passa, n° 183).

Dia 25 de abril

Mc 16, 15-20

15E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acreditar e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17Aos que crerem acompanhá-los-ão estes milagres: em Meu nome expulsarão Demônios, falarão novas línguas, 18pegarão em serpentes e, se beberem peçonha, não lhes fará mal, imporão as mãos aos doentes, e eles recobrarão saúde.

19E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi assumido ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.

20Eles partiram a pregar por toda a parte, cooperando o Senhor com eles e confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

Comentário

15. Este versículo contém o chamado mandato apostólico universal, que é paralelo ao de Mt 28,19-20 e ao de Lc 24,46-48. É um mandato imperativo de Cristo aos Seus Apóstolos para que preguem o Evangelho a todas as nações. Essa mesma missão apostólica incumbe, de modo especial, aos sucessores dos Apóstolos, que são os Bispos em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro.

Não só eles, porém, mas toda “a Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, por eles, ordenar efetivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o Seu Reino para glória de Deus Pai. Toda a atividade do Corpo místico que a este fim se oriente, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. (…). Existe na Igreja diversidade de funções, mas unidade de missão. Aos Apóstolos e seus sucessores, confiou Cristo a missão de ensinar, santificar e governar em Seu nome e com o Seu poder. Mas os leigos, dado que são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, têm um papel próprio a desempenhar na missão do inteiro Povo de Deus, na Igreja e no mundo” (Apostolicam actuositatem, n. 2).

É verdade que Deus atua diretamente na alma de cada pessoa por meio da Sua graça, mas, ao mesmo tempo, deve afirmar-se que é vontade de Cristo, expressa neste e noutros textos, que os homens sejam instrumento ou veículo de salvação para os outros homens.

Neste sentido também o Concilio Vaticano II ensina: “A todos os fiéis incumbe, portanto, o glorioso encargo de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens em toda a terra” (Ibid., n. 3).

16. Como conseqüência da proclamação da Boa Nova ensina-se neste versículo que a fé e o Batismo são requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. A conversão à fé de Jesus Cristo há-de levar diretamente ao Batismo, que nos “confere a primeira graça santificante, pela qual se perdoa o pecado original e também os atuais, se os houver; remete toda a pena por eles devida; imprime o caráter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos” (Catecismo Maior, n. 553).

O Batismo é absolutamente necessário para o homem se salvar, como se depreende destas palavras do Senhor. Mas a impossibilidade física do rito batismal pode ser suprida ou pelo martírio, que é chamado batismo de sangue, ou por um ato perfeito de amor de Deus ou de contrição, unidos ao desejo, pelo menos implícito, de ser batizado; a isto chama-se batismo de desejo (cfr Ibid., n. 567-568).

Relativamente ao Batismo das crianças, já Santo Agostinho ensinava que “de nenhum modo se pode rejeitar nem considerar como desnecessário o costume da Santa Madre Igreja de batizar as crianças; antes pelo contrário, há que admiti-lo forçosamente por ser tradição apostólica” (De Gen. ad litt., 10,23,39). O novo Código de Direito Canônico assinala a necessidade de que as crianças sejam batizadas: “Os pais têm obrigação de procurar que as crianças sejam batizadas dentro das primeiras semanas; logo após o nascimento, ou até antes deste, vão ter com o pároco, peçam-lhe o sacramente para o filho e preparem-se devidamente para ele” (cân. 867 § 1).

Outra conseqüência ligada intimamente à anterior é a necessidade da Igreja, como declara o Concilio Vaticano II: “Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Batismo (cfr Mc 16,16; Ioh 3,5), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar” (Lumen gentium, n. 14; cfr Presbyterorum ordinis, n. 4; Ad gentes, nn. 1.3; Dignitatis humanae, n. 11).

17-18. Nos primeiros tempos da expansão da Igreja, estes fatos miraculosos que Jesus anuncia cumpriram-se de modo freqüente e visível. Os testemunhos históricos destes acontecimentos são abundantíssimos no Novo Testamento (cfr, p. ex. Act 3,1-11; 28,3-6) e noutros escritos cristãos antigos. Era muito conveniente que assim sucedesse para mostrar ao mundo de uma maneira palpável a verdade do cristianismo. Mais tarde, continuaram a realizar-se milagres deste tipo, mas em menor número, como casos excepcionais. Também é conveniente que assim seja porque, por um lado, a verdade do Cristianismo está já suficientemente atestada; e, por outro, para dar lugar ao mérito da fé. “Os milagres – comenta São Jerônimo – foram precisos ao princípio para confirmar com eles a fé. Mas, uma vez que a fé da Igreja está confirmada, os milagres não são necessários” (Comm. in Marcum, ad loc.). De qualquer modo, Deus continua a realizar milagres através dos santos de todos os tempos, também dos atuais.

19. A Ascensão do Senhor aos Céus e o estar sentado à direita do Pai constituem o sexto artigo da Fé que recitamos no Credo. Jesus Cristo subiu ao Céu em corpo e alma para tomar posse do Reino alcançado com a Sua morte, para nos preparar o nosso lugar na glória (cfr Apc 3,21), e para enviar o Espírito Santo à Sua Igreja (cfr Catecismo Maior, n° 123).

A afirmação “sentou-se à direita de Deus” significa que Jesus Cristo, também na Sua Humanidade, tomou posse eterna da glória e que, sendo igual ao Pai enquanto Deus, ocupa junto d’Ele o lugar de honra sobre todas as criaturas enquanto homem (cfr Catecismo Romano, I, 7,2-3). Já no Antigo Testamento se diz que o Messias estará sentado à direita do Todo-poderoso, exprimindo assim a suprema dignidade do Ungido de Yahwéh (cfr Ps 110,1). O NT recolhe aqui esta verdade, e também noutros muitos lugares (cfr Eph 1,20-22; Heb 1,13).

Segundo amplia o Catecismo Romano, Jesus subiu aos Céus pela Sua própria virtude e não por poder estranho a Ele. Também não ascendeu aos Céus apenas como Deus, mas também como homem.

20. O Evangelista, movido pelo Espírito Santo, dá testemunho de que as palavras de Cristo já se tinham começado a cumprir no tempo em que escrevia o seu Evangelho. Os Apóstolos, com efeito, souberam realizar com fidelidade a missão que o Senhor lhes tinha confiado. Começaram a pregar por todo o mundo então conhecido a Boa Nova da Salvação. A palavra dos Apóstolos era acompanhada pelos sinais e prodígios que o Senhor lhes tinha prometido, dando assim autoridade ao seu testemunho e à sua doutrina. Mas já sabemos que o trabalho apostólico foi sempre duro, cheio de fadigas, perigos, incompreensão, perseguições e até do próprio martírio, seguindo em tudo isso os rastos do Senhor.

Graças a Deus e também aos Apóstolos, chegou até nós a força e a alegria de Cristo Senhor Nosso. Mas cada geração cristã, cada homem, tem de receber essa pregação do Evangelho e por sua vez transmiti-lo. A graça do Senhor não faltará nunca: “Non est abbreviata manus Domini” (Is 59,1), o poder do Senhor não diminuiu.

Dia 26 de abril

Lc 24, 35-48

35E eles puseram-se a contar o que se tinha passado no caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer ao partir do pão.

36Enquanto diziam isto, apresentou-Se Ele próprio no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco. 37Eles ficaram aturdidos e cheios de medo, e julgavam estar a ver um espírito. 38Disse-lhes então: Por que estais perturbados e por que motivo surgem tais hesitações no vosso íntimo? 39Vede as Minhas mãos e os Meus pés; sou Eu mesmo. Palpai-Me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 40E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41Estando eles ainda sem querer acreditar, com a alegria, e cheios de pasmo, perguntou-lhes: Tendes aí alguma coisa que se coma? 42Eles passaram-Lhe uma posta de peixe assado. 43Tomando-a, pôs-Se a comer à vista deles.

44Depois disse-lhes: Foram estas as palavras que vos disse, quando ainda Me achava entre vós: “Tem de cumprir-se tudo o que está escrito a Meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. 45Abriu-lhes então o entendimento, para compreenderem as Escrituras, 46e disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia 47e que se havia de pregar, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48Vós sois as testemunhas destas coisas!

Comentário

36-43. Esta aparição de Jesus ressuscitado é referida por São Lucas e São João (cfr Ioh 20,19-23). São João recolhe a instituição do sacramento da Penitência, ao mesmo tempo que São Lucas sublinha a dificuldade dos discípulos para aceitar o milagre da Ressurreição, apesar do testemunho dos anjos às mulheres (cfr Mt 28,5-7; Mc 16,5-7; Lc 24,4-11) e daqueles que já tinham visto o Senhor ressuscitado (cfr Mt 28,9-10; Mc 16,9-13; Lc 24,13 ss.; Ioh 20,11-18).

Jesus aparece-lhes de improviso, estando as portas fechadas (cfr Ioh 20,19), o que explica a sua surpresa e a sua reação. Santo Ambrósio comenta que “penetrou no recinto fechado não porque a sua natureza fosse incorpórea, mas porque tinha a qualidade de um corpo ressuscitado” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). Entre essas qualidades do corpo glorioso, a subtileza faz que “o corpo esteja totalmente submetido ao império da alma” (Catecismo Romano, I, 12,13), de modo que pode atravessar os obstáculos materiais sem nenhuma resistência.

A cena reveste-se de um encanto especial quando o Evangelista descreve os pormenores de condescendência divina para os confirmar na verdade da Sua Ressurreição.

41-43. Ainda que o corpo ressuscitado seja impassível e, por conseguinte, não necessite já de alimentos para se nutrir, o Senhor confirma os discípulos na verdade da Sua Ressurreição com estas duas provas: convidando-os a que O toquem e comendo na sua presença. “Eu, por minha parte, confessa Santo Inácio de Antioquia, sei muito bem e nisto ponho a minha fé que, depois da Sua Ressurreição, o Senhor permaneceu na Sua carne. E assim, quando Se apresentou a Pedro e aos seus companheiros, disse-lhes: Tocai-Me, palpai-Me e compreendei que não sou um espírito incorpóreo. E prontamente tocaram-No e acreditaram, ficando persuadidos da Sua carne e do Seu espírito (…). Mais ainda, depois da Sua Ressurreição comeu e bebeu com eles, como homem de carne que era, embora espiritualmente estivesse feito uma coisa com Seu Pai” (Carta aos de Esmirna, III, 1-3).

44-49. São Mateus insiste no cumprimento em Cristo das profecias do AT, porque os primeiros destinatários do seu Evangelho eram judeus, para quem isto constituía uma prova manifesta de que Jesus era o Messias prometido e esperado. São Lucas não utiliza habitualmente este argumento, porque escreve para os gentios; não obstante, neste epílogo recolhe sumariamente a advertência de Cristo que declara ter-se cumprido tudo o que estava predito acerca d’Ele. Sublinha-se assim a unidade dos dois Testamentos e que Jesus é verdadeiramente o Messias.

Por outro lado, São Lucas refere a promessa do Espírito Santo (cfr Ioh 14,16-17.26; 15,26; 16,7 ss.), cujo cumprimento no dia de Pentecostes narrará com pormenor no livro dos Atos (cfr Act 2,1-4).

46. São Lucas pôs em realce a falta de inteligência dos Apóstolos quando Jesus anuncia a Sua Morte e Ressurreição (cfr 9,45; 18,34). Agora, cumprida a profecia, recorda a necessidade de que Cristo padecesse e ressuscitasse de entre os mortos (cfr 24,25-27).

A Cruz é um mistério não só na vida de Cristo mas também na nossa: “Jesus sofre para cumprir a Vontade do Pai… E tu, que também queres cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderás queixar-te se encontrares por companheiro de caminho o sofrimento?” (Caminho, n° 213).