dia 2 a 8 de março de 2009

Dia 2 de março

Mt 25, 31-46

31Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os Anjos com Ele, então sentar-Se-á no Seu trono de glória, 32e comparecerão perante Ele todas as gentes, e Ele separá-los-á uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, 33e porá as ovelhas à Sua direita e os cabritos à Sua esquerda. 34Dirá então o Rei aos da Sua direita: “Vinde benditos de Meu Pai, entrai na herança do Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo; 35pois tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e agasalhastes-Me, 36andava nu e vestistes-Me, estava doente e visitastes-Me, estava no cárcere e fostes ver-Me.” 37Então os justos responder-Lhe-ão: “Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? 38Quando é que Te vimos peregrino e Te agasalhamos, ou nu e Te vestimos? 39Quando Te vimos doente ou no cárcere e Te fomos ver?” 40E o rei responder-lhes-á: “Em verdade vos digo: Tudo o que fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.” 41Então dirá aos da Sua esquerda: “Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Demônio e seus Anjos, 42pois tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber; 43era peregrino e não Me agasalhastes, estava nu e não Me vestistes, doente e no cárcere e não Me visitastes.” 44Então responderão também eles: “Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente ou no cárcere e não Te assistimos?” 45E Ele responder-lhes-á: “Em verdade vos digo: Tudo o que não fizestes a um destes mais pequeninos, nem a Mim o fizestes.” 46E irão estes para o Suplício eterno; os justos, porém, para a Vida eterna.

Comentário

31-46. As três parábolas precedentes (Mt 24,42-51; 25,1-13 e 25,14-30) terminam com o anúncio de um juízo rigoroso e definitivo. Contemplamos agora a cena grandiosa deste acto final, que fará entrar todas as coisas na ordem da justiça. A tradição cristã dá-lhe o nome de Juízo Final, para o distinguir do juízo particular a que cada um deverá ser submetido imediatamente depois da morte. A sentença ditada no fim dos tempos não será senão a confirmação pública e solene da sorte cabida já a eleitos e réprobos.

Neste passo torna-se claro o ensino de algumas verdades fundamentais da nossa fé: 1) A existência de um juízo universal no fim dos tempos. 2) A identificação que Cristo faz de Si mesmo com a pessoa de qualquer necessitado: faminto, sequioso, nu, doente, encarcerado. 3) Finalmente, a realidade de um suplício eterno para os maus e de uma felicidade eterna para os justos.

31-33. Nos testemunhos dos Profetas e no Apocalipse representa-se o Messias, como os juízes, num trono. Assim virá Jesus no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos.

A verdade do Juízo Universal, que consta já nos primeiros símbolos da Igreja, é um dogma de fé definido solenemente por Bento XII na Constituição Benedictus Deus, de 29 de Janeiro de 1336.

35-46. Todas as facetas enumeradas no passo – dar de comer, dar de beber, vestir, visitar – são obras de amor cristão quando ao fazê-las a estes “pequeninos” se vê neles o próprio Cristo.

Daqui a importância do pecado de omissão. O não fazer uma coisa que se deve fazer supõe deixar Cristo desprovido de tais serviços.

“É preciso reconhecer Cristo que nos sai ao encontro nos nossos irmãos, os homens. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; entrelaça-se com as outras. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade” (Cristo que passa, n° 111).

Seremos julgados sobre o amor (cfr Avisos e sentenças espirituais, n° 57). O Senhor pedir-nos-á contas não só do mal que tenhamos feito mas, além disso, do bem que tenhamos deixado de fazer. Desta forma, os pecados de omissão aparecem em toda a sua gravidade, e o amor ao próximo no seu fundamento último: Cristo está presente no mais pequeno dos nossos irmãos.

Escreve Santa Teresa de Jesus: “Cá, só estas duas coisas nos pede o Senhor: amor de Sua Majestade e do próximo; é no que devemos trabalhar. Guardando-as com perfeição é como fazemos a Sua vontade… O sinal mais certo que, segundo o meu parecer, há de que guardamos estas duas coisas, é guardando bem a do amor do próximo; porque se amamos a Deus, não se pode saber, ainda que haja indícios grandes para entender que O amamos; mas o amor do próximo, sim. E estai certas que quanto mais vos vejais aproveitadas neste, mais o estais no amor de Deus; porque é tão grande o que Sua Majestade nos tem, que em paga do que temos ao próximo, fará que cresça o que temos a Sua Majestade por mil maneiras: nisto eu não posso duvidar” (Moradas, V, 3).

Pela parábola vemos com clareza que o cristianismo não pode ser reduzido a uma sociedade de mera beneficência. O que dá valor sobrenatural a toda a ajuda em favor do próximo é prestá-la por amor de Cristo, vendo-O a Ele no próprio necessitado. Por isso São Paulo afirma que “ainda que repartisse todos os meus bens…, se não tenho caridade, de nada me serve” (1 Cor 13,3). Errada será, portanto, qualquer interpretação deste ensinamento de Jesus sobre o Juízo Final que pretenda dar-lhe um sentido materialista, ou que confunda a mera filantropia com a autêntica caridade cristã.

40-45. O Concílio Vaticano II, ao explicar as exigências da caridade cristã, que dá sentido à chamada assistência social, diz: “Vindo a conclusões práticas e mais urgentes, o Concílio recomenda a reverência para com o homem, de maneira que cada um deve considerar o próximo, sem excepção, como um ‘outro eu’, tendo em conta, antes de mais, a sua vida e os meios necessários para a levar dignamente, não imitando aquele homem rico que não fez caso algum do pobre Lázaro (cfr Lc 16,18-31). Sobretudo em nossos dias, urge a obrigação de nos tornarmos o próximo de todo e qualquer homem, e de o servir efectivamente quando vem ao nosso encontro – quer seja o ancião, abandonado de todos, ou o operário estrangeiro injustamente desprezado, ou o exilado, ou o filho duma união ilegítima que sofre injustamente por causa dum pecado que não cometeu, ou o indigente que interpela a nossa consciência, recordando a palavra do Senhor: ‘todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes'” (Gaudium et spes, n. 27).

46. A existência de um castigo eterno para os réprobos e de um prêmio eterno para os eleitos é um dogma de fé definido solenemente pelo Magistério da Igreja no IV Concílio de Latrão do ano 1215: “Jesus Cristo (…) há-de vir no fim do mundo, para julgar os vivos e os mortos, e dar a cada um segundo as suas obras, tanto aos réprobos como aos eleitos: todos eles ressuscitarão com os seus próprios corpos que agora têm, para receberem segundo as suas obras – boas ou más -: aqueles, com o diabo, castigo eterno; e estes, com Cristo, glória sempiterna”.

Dia 3 de março

Mt 6, 7-15

7E, na oração, não sejais palavrosos como os gentios, pois imaginam que hão-de ser ouvidos pela sua verbosidade. 8Náo vos pareçais, pois, com eles, porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de Lho pedirdes. 9Vós, pois, orai assim: Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome. 10Venha o Teu Reino. Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu. 11O pão nosso de cada dia nos dá hoje. 12E perdoa-nos as nossas dívidas, como também nós perdoamos aos nossos devedores. 13E não nos metas em tentação. Mas livra-nos do mal.” 14Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará a vós. 15Se, porém, não perdoardes aos homens, nem o Pai celeste perdoará as vossas ofensas.

Comentário

7-8. Jesus corrige os exageros supersticiosos de crer que são necessárias longas orações para que Deus nos escute. A verdadeira piedade não consiste tanto na quantidade de palavras como na freqüência e no amor com que o cristão se volta para Deus nos acontecimentos, grandes ou pequenos, de cada dia. A oração vocal é boa e necessária, mas as palavras só têm valor enquanto exprimem o sentir do coração.

9-13. O “Pai-nosso” é, sem dúvida, a página mais comentada de toda a SE. Os grandes escritores da Igreja deixaram-nos explicações cheias de piedade e sabedoria. Já os primeiros cristãos, “fiéis à recomendação do Salvador e seguindo os Seus divinos ensinamentos”, centraram a sua oração nesta fórmula sublime e simples de Jesus. E também os últimos cristãos elevarão o seu coração para dizer pela última vez o Pai-nosso quando estiverem prestes a ser levados para o Céu. Entretanto, desde criança até que deixa este mundo, o Pai-nosso é a oração que enche de consolação e de esperança o coração do homem. Bem sabia Jesus Cristo a eficácia que ia ter esta oração Sua. Graças sejam dadas a Nosso Senhor porque a compôs para nós, e também aos Apóstolos por no-la terem transmitido, e às nossas mães porque no-la ensinaram nas nossas primeiras balbuciadelas. É tão importante esta oração dominical, que desde os tempos apostólicos foi utilizada como base da catequese cristã, juntamente com o Credo ou Símbolo da fé, o Decálogo e os Sacramentos. A vida de oração era ensinada aos catecúmenos comentando o Pai-nosso. E, daí este costume passou para os nossos catecismos.

Santo Agostinho diz que esta oração do Senhor é tão perfeita, que em poucas palavras compendia tudo o que o homem possa pedir a Deus (cfr Sermo 56). Normalmente distinguem-se nela uma invocação e sete pedidos: três relativos à glória de Deus e quatro às necessidades dos homens.

9. É grande consolação poder chamar “Pai nosso” a Deus. Se Jesus, o Filho de Deus, ensina os homens a que invoquem Deus como Pai é porque neles se dá esta realidade consoladora, a de ser e sentir-se filhos de Deus. “O Senhor (…) não é um dominador tirânico, nem um juiz rígido e implacável: é nosso Pai. Fala-nos dos nossos pecados, dos nossos erros, da nossa falta de generosidade, mas é para nos livrar deles e nos prometer a Sua amizade e o Seu amor (…). Um filho de Deus trata o Senhor como Pai. Não servilmente, nem com uma reverência formal, de mera cortesia, mas cheio de sinceridade e de confiança” (Cristo que passa, n° 64). “Santificado seja o Teu nome”: Na Bíblia o nome equivale à própria pessoa. Aqui nome de Deus é o próprio Deus. Que sentido tem pedir que Deus seja santificado? Não pode sê-lo à maneira humana: afastando-se progressivamente do mal e aproximando-se do bem, visto que Deus é a própria santidade. Pelo contrário, Deus é santificado quando a Sua santidade é reconhecida e honrada pelas Suas criaturas. Este é o sentido que tem o primeiro pedido do “Pai-nosso” (cfr Catecismo Romano, IV, 10).

10. “Venha o Teu Reino”: Chegamos aqui outra vez à idéia central do evangelho de Jesus Cristo: a vinda do Reino. O Reino de Deus identifica-se tão plenamente com a obra de Jesus Cristo, que o Evangelho é chamado indiferentemente evangelho de Jesus Cristo ou evangelho do Reino (Mt 9, 35). O advento do Reino de Deus é a realização do desígnio salvador de Deus no mundo. O Reino de Deus estabelece-se em primeiro lugar no mais íntimo do homem, elevando-o à participação da própria vida divina. Esta elevação tem como que duas etapas: a primeira na terra, que se realiza pela graça; e a segunda, definitiva, na vida eterna, que será a plenitude da elevação sobrenatural do homem. Tudo isso exige de nós uma submissão espontânea, amorosa e confiada a Deus.

“Seja feita a Tua vontade”: Este terceiro pedido exprime um desejo duplo. Primeiro, a identificação do homem com a vontade de Deus, de modo rendido e incondicional; é a expressão do abandono nas mãos de seu Pai Deus. Segundo, o cumprimento daquela vontade divina, que reclama a livre cooperação humana. Este é o caso, por exemplo, da lei divina no aspecto moral, pela qual Deus manifesta a Sua vontade, mas sem a impor à força. Uma das manifestações da vinda do Reino de Deus é o cumprimento amoroso da vontade divina por parte do homem. A segunda parte da frase “assim na Terra como no Céu” quer dizer: assim como no céu os anjos e os santos estão totalmente identificados com a vontade de Deus, de modo semelhante se deseja que isso aconteça já aqui na terra.

A luta por cumprir a vontade de Deus é o sinal de que somos sinceros quando pronunciamos as palavras: “venha o Teu Reino”. Porque diz o Senhor: “Nem todo o que Me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus” (Mt 7, 21). “Quem de veras tiver dito esta palavra: ‘Fiat voluntas tua’, tem de ter feito tudo, com a determinação pelos menos” (Caminho de perfeição, cap. 63, n° 2).

11. Neste quarto pedido, o que ora tem em conta em primeiro lugar as necessidades da vida presente. A importância desta súplica consiste em que os bens materiais, necessários para viver, são declarados lícitos. Exprime-se um profundo sentido religioso da manutenção da vida: o que o discípulo de Cristo alcança com o seu próprio trabalho também o deve implorar de Deus e recebê-lo como um dom divino; Deus é quem mantém a vida. Ao pedir a Deus o próprio sustento e considerar que este vem das mãos divinas, o cristão afasta de si a angustiosa preocupação pelas necessidades materiais. Jesus quer que peçamos não a riqueza ou o gozo desses bens, mas a posse austera do necessário. Daí que, tanto em Mateus como em Lucas (Lc 11,2), se fale do alimento suficiente para cada dia. O quarto pedido dirige-se, pois, a uma moderação do alimento e dos bens necessários, afastada dos extremos de opulência e miséria, como já tinha ensinado Deus no AT: “Não me dês pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário, para que, saciado, não te renegue, e não diga: ‘Quem é o Senhor’? Ou, empobrecido, não roube e não profane o nome do meu Deus” (Prv 30,8-9) Os Santos Padres interpretaram o pão que aqui se pede, não só como o alimento material, mas também viram significada a Santíssima Eucaristia, sem a qual não pode viver o nosso espírito. Segundo o Catecismo Romano (cfr IV, 13,21), as razões para que se chame à Eucaristia pão nosso quotidiano são: que cada dia se oferece a Deus na Santa Missa, e que devemos recebê-lo dignamente, sendo possível todos os dias, segundo o conselho de Santo Ambrósio: “Se o pão é diário, por que o recebes tu apenas uma vez por ano? Recebe todos os dias o que todos os dias te é proveitoso; vive de modo que diariamente sejas digno de o receber” (De Sacramentis, V, 4).

12. “Dívida” tem aqui claramente o sentido de pecado. Com efeito, no dialecto aramaico do tempo de Jesus utilizava-se a mesma palavra para designar ofensa ou dívida. No quinto pedido reconhecemos, pois, a nossa situação de devedores por termos ofendido a Deus. Na revelação do AT é freqüente a recordação da condição pecadora do homem. Inclusive os “justos” são também pecadores. Reconhecer os nossos pecados é o princípio de toda a conversão a Deus. Não se trata apenas de reconhecer antigos pecados nossos, mas de confessar a nossa actual condição de pecadores. Esta mesma condição faz-nos sentir a necessidade religiosa de recorrer ao único que pode remediá-la, Deus. Daqui a conveniência de rezar insistentemente, com a oração do Senhor, para alcançar da misericórdia divina uma e outra vez o perdão dos nossos pecados.

A segunda parte deste pedido é uma chamada séria a perdoar aos nossos semelhantes: como nos atrevemos a pedir perdão a Deus, se não estamos dispostos a perdoar aos outros! O cristão deve ser consciente das exigências desta oração, que há-de rezar com todas as suas conseqüências: não querer perdoar a outro é condenar-se a si mesmo.

13. “E não nos deixes cair na tentação”: “Não pedimos aqui para não sermos tentados, porque a vida do homem na terra é milícia (Iob 7, 1)… Que é, pois, o que aqui pedimos? Que, sem nos faltar o auxílio divino, não consintamos por erro nas tentações, nem cedamos a elas por desalento; que esteja pronta em nosso favor a graça de Deus, a qual nos console e fortaleça quando nos faltem as próprias forças” (Catecismo Romano, IV, 15,14).

Reconhecemos nesta súplica do Pai-nosso a nossa debilidade para lutar contra a tentação só com as forças humanas. Isto deve levar-nos a recorrer com humildade a Deus, para receber d’Ele a fortaleza necessária. Porque “muito forte é Deus para livrar-te de tudo, e pode fazer-te mais bem do que mal todos os demônios. Deus quer somente que te fies d’Ele, que te arrimes a Ele, que confies n’Ele e desconfies de ti mesmo, e desta maneira há-de ajudar-te e com a Sua ajuda vencerás todo o inferno que venha contra ti. Desta firme esperança não te deixes cair, porque Se irritará com isso, nem porque os demônios sejam muitos e muitas as tentações e bravas e de muitas maneiras. Está sempre arrimado a Ele, porque se este arrimo e força não tens com o Senhor, logo cairás e temerás qualquer coisa” (Sermones 9, Domingo I de Quaresma).

“Mas livra-nos do mal”: Neste pedido, que de algum modo resume todos os anteriores, rogamos ao Senhor que nos livre de tudo aquilo que o nosso inimigo faz contra nós para perder-nos; e não nos poderemos livrar dele se o próprio Deus não nos livra, concedendo a Sua assistência aos nossos rogos.

Igualmente poderia traduzir-se por “mas livra-nos do Mau”, quer dizer, do maligno, do demônio, que é a origem, em última instância, de todos os nossos males.

Ao fazermos este pedido podemos estar seguros de ser ouvidos, porque Jesus Cristo, estando para sair deste mundo, rogava ao Pai pela salvação dos homens com estas palavras: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Ioh 17, 15).

14-15. São Mateus conserva nos vv. 14 e 15 como um comentário de Nosso Senhor à quinta petição do Pai-nosso.

Que maravilha é Deus que perdoa! Mas se Deus, três vezes Santo, tem misericórdia do pecador, quanto mais nós, pecadores, que sabemos por experiência própria da miséria do pecado, devemos perdoar aos outros. Não há ninguém perfeito na terra. Assim como Deus nos ama, mesmo com os nossos defeitos, e nos perdoa, nós também devemos amar os outros, mesmo com os seus defeitos, e perdoar-lhes. Se esperamos amar os que não têm defeitos, nunca amaremos ninguém. Se esperamos que se corrijam ou se desculpem os outros primeiro, quase nunca perdoaremos. Mas então, tambem nós não seremos perdoados. “De acordo: aquela pessoa tem sido má contigo.- Mas não tens sido tu pior com Deus?” (Caminho, n° 686).

Perdoando àqueles que nos têm ofendido tornamo-nos, pois, semelhantes ao nosso Pai Deus: “No facto de amar os inimigos, vê-se claramente certa semelhança com o nosso Pai Deus, que reconciliou consigo o género humano, que era muito inimigo e contrário Seu, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho” (Catecismo Romano, IV, 14,19).

Dia 4 de março

Lc 11, 29-32

29Como as multidões tivessem afluído em massa, começou a dizer: Esta geração é uma geração perversa: pede um sinal, mas não lhe será dado nenhum sinal, a não ser o sinal de Jonas. 30Pois, do mesmo modo que Jonas foi um sinal para os Ninivitas, assim o será também o Filho do homem para esta geração. 31A rainha do Sul há-de surgir na altura do Juízo com os homens desta geração e condená-los-á, porque veio dos confins da Terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e está aqui algo mais do que Salomão. 32Os homens de Nínive hão-de ressuscitar na altura do Juízo com esta geração e hão-de condená-la, porque, à pregação de Jonas, fizeram penitência, e está aqui algo mais do que Jonas.

Comentário

29-32. Jonas foi o profeta que levou os ninivitas à penitência porque na sua pregação e nas suas obras, na sua pessoa e na sua vida, reconheceram o sinal de um enviado de Deus.

Dia 5 de março

Mt 7, 7-12

7Pedi e dar-se-vos-á, buscai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á. 8Porque, todo o que pede recebe, e o que busca encontra e ao que bate, abrir-se-á. 9Haverá entre vós alguém que dê uma pedra ao filho, se ele lhe pedir pão? 10E lhe dê uma serpente, se ele lhe pedir peixe? 11Se, pois, vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos; quanto mais vosso Pai que está nos Céus dará coisas boas aos que Lhe pedirem. 12Tudo aquilo, pois, que quereis que os outros vos façam a vós, fazei-o também vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas.

Comentário

7-11. O Mestre ensina de diversas maneiras a eficácia da oração. A oração é uma elevação da mente para Deus para O adorar, dar-Lhe graças e pedir-Lhe o que necessitamos (cfr Catecismo Maior, n° 255). Jesus insiste na oração de petição, que é o primeiro movimento espontâneo da alma que reconhece Deus como seu Criador e Pai. Como criatura de Deus e como Seu filho, o homem necessita pedir-Lhe humildemente todas as coisas.

Ao falar da eficácia da oração, Jesus não faz restrições: “Todo o que pede, recebe”, porque Deus é nosso Pai. E São Jerónimo comenta: “Está escrito: a todo o que pede se dá; logo, se a ti não se te dá, não se te dá porque não pedes; portanto, pede e receberás” (Comm. in Matth., 7). Não obstante, apesar de a oração ser de si infalível, por vezes não obtemos o que queríamos. Santo Agostinho diz que a nossa oração não é escutada porque pedimos “aut mali, aut male, aut mala”. “Mali”: porque somos maus, porque as nossas disposições pessoais não são boas; “male”: porque pedimos mal, sem fé, sem perseverança, sem humildade; “mala”: porque pedimos coisas más, quer dizer, o que não nos convém, o que pode causar-nos dano (cfr De civitate Dei, XX, 22 e 27; De Serm. Dom. in monte, II, 27,73). Em última análise, a oração não é eficaz quando não é verdadeira oração. Portanto: “Faz oração. Em que negócio humano te podem dar mais garantias de êxito?” (Caminho, n° 96).

12. A sentença de Jesus, chamada “regra de ouro”, oferece um critério prático para reconhecer o alcance das nossas obrigações e da nossa caridade para com os outros. Mas uma consideração superficial correria o risco de mudá-lo num móbil egoísta do nosso comportamento: não se trata, evidentemente, de um do ut des (“dou-te para que me dês”), mas de fazer o bem aos outros sem pôr condições, como em boa lógica as não pomos no amor a nós mesmos. Esta regra prática ficará completada com o “mandamento novo” de Jesus Cristo (Ioh 13,34), onde nos ensina a amar os outros como Ele mesmo nos amou.

Dia 6 de março

Mt 5, 20-26

20Porque Eu vos digo que, se a vossa justiça não sobrepujar a dos Escribas e Fariseus, não entrareis no Reino dos Céus. 21Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás, e quem matar será réu perante o tribunal. 22Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra seu irmão, será réu perante o tribunal. E quem chamar a seu irmão “imbecil”, será réu perante o Sinédrio. E quem lhe chamar “doido”, será réu da Geena do fogo. 23Portanto, se ao apresentares a tua oferenda ao altar, aí te recordares que teu irmão tem algo contra ti, 24deixa aí a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois vem e apresenta a tua oferenda. 25Põe-te de acordo com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho. Não seja caso que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. 26Em verdade te digo: não sairás de lá, enquanto não pagares o último ceitil.

Comentário

20. “Justiça”: O versículo vem esclarecer o sentido dos precedentes. Os escribas e os fariseus tinham chegado a deformar o espírito da Lei, ficando na observância externa e ritual da mesma. Entre eles o cumprimento exacto e minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se transformado numa garantia de salvação do homem diante de Deus: “se eu cumpro isto sou justo, sou santo e Deus tem de me salvar”. Com este modo de conceber a justificação já não é Deus no fundo quem salva, mas é o homem quem se salva pelas obras externas. A falsidade de tal concepção fica patente com a afirmação de Cristo, que poderia exprimir-se com estes termos: para entrar no Reino dos Céus é necessário superar radicalmente a concepção da justiça ou santidade a que tinham chegado os escribas e os fariseus. Por outras palavras, a justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça. Noutros lugares estes ensinamentos ficarão ainda mais claramente explicados por Jesus (cfr Lc 18, 9-14, parábola do fariseu e do publicano). Também dará lugar a uma das grandes batalhas doutrinais de São Paulo perante os “judaizantes” (veja-se Gal 3 e Rom 2-5).

21-26. Nestes versículos temos um exemplo concreto de como Jesus leva à sua plenitude a Lei de Moisés, explicando profundamente o sentido dos mandamentos desta.

22. Jesus ao falar em primeira pessoa (“Eu, porém, digo-vos”) expressa que a Sua autoridade está por cima da de Moisés e dos Profetas; quer dizer: Ele tem autoridade divina. Nenhum homem poderia falar com essa autoridade.

“Imbecil”: Muitíssimas versões deste passo mantiveram a transcrição da palavra original aramaica: “Raca”, pronunciada por Cristo. Não é fácil dar uma tradução exacta. O termo “raca” equivale ao que hoje entendemos por néscio, estúpido, imbecil. Era sinal entre os Judeus de um grande desprezo, que muitas vezes se manifestava não com palavras, mas com a acção de cuspir no chão.

“Doido”, que outras versões traduzem por “fátuo”, “louco”, “renegado”, etc., era um insulto ainda maior que “raca”: referia-se à perda do sentido moral e religioso, até ao ponto da apostasia.

Nosso Senhor indica neste texto três faltas que podemos cometer contra a caridade, nas quais se pode apreciar uma gradação, que vai desde a irritação interna até ao maior dos insultos. A propósito deste passo comenta Santo Agostinho que se devem observar três graus de faltas e de castigos. O primeiro, entrar em cólera por um movimento interno do coração, ao que corresponde o castigo do juízo; o segundo, dizer alguma palavra de desprezo, que leva consigo o castigo do conselho; o terceiro, quando deixando-nos levar pela ira até à obcecação, injuriamos despiedadamente os nossos irmãos, que é castigado com o fogo do inferno (cfr De Serm. Dom. in monte II, 9).

“Geena do fogo”, frase que na linguagem judaica daqueles tempos significava o castigo eterno, o fogo do inferno.

Daqui a gravidade dos pecados externos contra a caridade: murmuração, injúria, calúnia, etc. Não obstante, devemos dar-nos conta de que estes brotam do coração; o Senhor chama a atenção em primeiro lugar para os pecados internos: rancor, ódio, etc., para fazer ver que aí está a raiz, e quanto nos convém refrear os primeiros movimentos da ira.

23-24. O Senhor encontra-Se com umas práticas judaicas do Seu tempo, e em tal ocasião dará uma doutrina de valor moral altíssimo e perene. Naturalmente que no cristianismo estamos noutra situação diferente das práticas cultuais judaicas. Para nós o mandato do Senhor tem uns caminhos determinados por Ele mesmo. Em concreto, na Nova e definitiva Aliança, fundada por Cristo, reconciliar-nos é aproximar-nos do sacramento da Penitência. Neste os fiéis “obtém da misericórdia de Deus o perdão da ofensa feita a Ele, e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, à qual feriram pelo pecado” (Lumen gentium, n. 11).

Do mesmo modo, no Novo Testamento, a oferenda por excelência é a Eucaristia. Ainda que à Santa Missa se deva assistir sempre nos dias de preceito, é sabido que para a recepção da Sagrada Comunhão se requer como condição imprescindível estar em graça de Deus.

Nosso Senhor não quer dizer nestes versículos que se tenha de antepor o amor do próximo ao amor de Deus. A caridade tem uma ordem: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o maior e primeiro mandamento (cfr Mt 22, 37-38). O amor ao próximo, que é o segundo mandamento em importância (cfr Mt 22, 39), recebe o seu sentido do primeiro. Não é concebível fraternidade sem paternidade. A ofensa contra a caridade é, antes de mais, ofensa a Deus.

Dia 7 de março

Mt 5, 43-48

43Ouvistes que foi dito: Ama o teu próximo e odeia o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. 46Porque, se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Porventura não fazem o mesmo também os publicanos? 47E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Porventura não fazem o mesmo também os gentios? 48Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste.

Comentário

43. A primeira parte do versículo “ama o teu próximo”, está em Levítico 19, 18. A segunda parte “odeia o teu inimigo”, não vem na Lei de Moisés. As palavras de Jesus, contudo, aludem a uma interpretação generalizada entre os rabinos da Sua época, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. O Senhor corrige esta falsa interpretação da Lei, entendendo por próximo todo o homem (cfr a parábola do bom samaritano em Lc 10, 25-37).

43-47. O passo recapitula os ensinamentos anteriores. O Senhor chega a estabelecer que o cristão não tem inimigos pessoais. O seu único inimigo é o mal em si, o pecado, mas não o pecador. Esta doutrina foi levada à prática pelo próprio Jesus Cristo com os que O crucificaram, e é a que segue todos os dias com os pecadores que se rebelam contra Ele e O desprezam. Por isso os santos seguiram o exemplo do Senhor, como o primeiro mártir Santo Estêvão, que orava pelos que lhe estavam a dar a morte. Chegou-se ao cume da perfeição cristã: amar e rezar até pelos que nos persigam e caluniem. Este é o distintivo dos filhos de Deus.

46. “Publicanos”: Eram os cobradores de impostos. O Império Romano não tinha funcionários próprios para este serviço, mas entregava-o a determinadas pessoas do país respectivo. Estas podiam ter empregados subalternos (daí que por vezes se fale de “chefe de publicanos”, corno é o caso de Zaqueu; cfr Lc 19, 2). A quantidade genérica do imposto para cada região era determinada pela autoridade romana. Os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam, e que se prestava a arbitrariedade; por isso normalmente eram odiados pelo povo. Além disso, no caso dos Judeus, agregava-se a nota intamante de expoliar o povo eleito em favor dos gentios.

48. O versículo 48 resume, de algum modo, todos os ensinamentos do capítulo, incluídas as Bem-aventuranças. Em sentido estrito é impossível que a criatura tenha a perfeição de Deus. Portanto, o Senhor quer dizer aqui que a perfeição divina deve ser o modelo para o qual há-de tender o fiel cristão, sabendo que há uma distância infinita em relação ao seu Criador. Isto, porém, não rebaixa nada a força deste mandamento, mas, pelo contrário, ilumina-o. Juntamente com a exigência deste mandato de Jesus Cristo, há que considerar a magnitude da graça que promete, para que sejamos capazes de tender, nada menos, que à perfeição divina. De qualquer modo a perfeição que havemos de imitar não se refere ao poder e à sabedoria de Deus, que superam por completo as nossas possibilidades, mas nesta passagem, pelo contexto, parece referir-se sobretudo ao amor e à misericórdia. Neste sentido São Lucas refere-nos as seguintes palavras do Senhor: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36).

Como se vê, a “chamada universal à santidade” não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo: “Tens obrigação de te santificar. – Tu, também. – Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos? A todos, sem excepção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito'” (Caminho, n° 291). Doutrina que o Concílio Vaticano II sanciona no cap. 5 da Const. Lumen gentium, n. 40, donde tiramos estas palavras: “Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida,de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos Seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (…). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou condição de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano”.

Dia 8 de março

Mt 9, 2-10

2Senão quando, apresentaram-Lhe um para­lítico estendido num leito. Vendo Jesus a sua fé, disse ao paralítico: Tem confiança, filho, os teus pecados estão perdoados. 3Pelo que alguns Escribas disseram de si para consigo: Este blasfema.4 Jesus, que lhes via os pensa­mentos, disse: Para que pensais mal em vossos corações? 5Qual é mais fácil, dizer: «os teus pecados estão perdoados», ou dizer: «levanta-te e anda»? 6Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder para perdoar pecados, — aqui diz ao paralítico: levanta-te! toma o teu leito e vai para tua casa. 7Ele levantou-se e foi para casa. 8Vendo isto, a multidão, cheia de temor, glorificou a Deus, que deu tal poder aos homens.

9Seguindo Jesus dali, viu sentado ao telónio um homem chamado Mateus e disse-lhe: Segue-Me. E ele levantou-se e seguiu-O. 10Ora, sucedeu que, estando à mesa em sua casa, vieram muitos publicanos e pecadores pôr-se à mesa com Jesus e Seus discípulos.

Comentário

2-6. O doente e os que o levam pedem a Jesus a cura do corpo, movidos pela fé nos Seus poderes sobrenaturais. Nosso Senhor, como noutros milagres, interessa-se mais pelo remédio das causas profundas do mal, isto é, o pecado. Na Sua grandeza divina, dá mais do que Lhe é pedido, ainda que a limitação humana não o saiba apreciar. Diz São Tomás que Jesus Cristo faz como o bom médico: cura a causa da doença (cfr Comentário sobre S. Mateus, 9,1-6).

2. A leitura do passo paralelo de São Marcos conservou–nos um pormenor que nos ajuda a entender melhor a cena e que, em concreto, explica a expressão «a sua fé»: em Mc 2, 2-5 conta-se-nos que foi tanta a aglomeração de gente à volta de Jesus, que não podiam aproximar-se d’Ele com a enxerga do paralítico. Perante isto, tiveram a feliz idéia de subir ao alto da casa e dependurar a enxerga com o paralítico, abrindo um buraco pelo tecto leve, diante donde estava Jesus. Assim se explica a frase «vendo Jesus a sua fé».

O Senhor fica gratamente impressionado por tal audácia, fruto de uma fé operativa que não se detém perante os obstáculos. Por sua vez, esta simpática ousadia ilustra o modo prático de viver a caridade e como Jesus Se sente inclinado para aqueles que se preocupam sinceramente com os outros; curou o paralítico por ocasião da intrepidez dos seus amigos e parentes, da qual também participava o próprio doente, que não teve medo nesta acção arriscada.

São Tomás comenta assim o versículo: «Este simboliza o pecador que jaz no pecado; assim como o paralítico não se pode mover, também o pecador não pode valer-se por si mesmo. Os que levam q paralítico representam os que com os seus conselhos conduzem o pecador para Deus» (Comentário sobre S. Mateus, 9,2). Para aproximar-se de Jesus é necessário também ser santamente audazes e atrevidos, como vemos que o foram os santos. O que não actua assim nunca tomará decisões importantes na sua vida de cristão.

3-7. Aqui «dizer» significa evidentemente «dizer com verdade», «dizer eficazmente, realizando o que se expressa». O Senhor argumenta desta forma: Qual destas duas coisas é mais fácil, sarar o corpo de um paralítico, ou perdoar os pecados da alma? Não há dúvida que curar um paralítico; pois a alma é mais excelente que o corpo e por isso as doenças daquela são mais difíceis de curar que as deste. Não obstante, a cura da alma é uma coisa oculta, enquanto a do corpo é visível e patente. Jesus demonstra a verdade do que está oculto pelo que aparece manifesto.

Por outro lado, os judeus pensavam que todas as doenças eram efeito de pecados pessoais (cfr Ioh 9,1-3); assim quando ouviram dizer ao Senhor « os teus pecados estão perdoados », faziam internamente este raciocínio: só Deus pode perdoar os pecados (cfr Lc 5, 21); este homem diz que tem poder para os perdoar; logo está a usurpar a Deus um poder que é «exclusivamente Seu; portanto é um blasfemo. Mas o Senhor sai-lhes ao encontro partindo dos seus próprios princípios: ao curar o paralítico só com a Sua palavra faz-lhes ver que, visto que tem poder para curar os efeitos do pecado — segundo eles julgavam —, tem também poder para curar a causa, isto é, o pecado; por conseguinte tem poder divino.

Jesus Cristo transmitiu o poder de perdoar os pecados aos apóstolos e aos seus sucessores no ministério sacerdotal: Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes; ser-lhes-ão retidos» (Ioh 20, 22-23). «Garanto-vos que tudo o que ligardes na terra ficará ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra, ficará desligado no Céu» (Mt 18,18). Os sacerdotes exercem o poder do perdão dos pecados no Sacramento da Penitência não em virtude própria, mas em nome de Cristo — in persona Christi — como instrumentos nas mãos do Senhor.

Daqui o respeito, veneração e agradecimento com que devemos aproximar-nos da Confissão: no sacerdote devemos ver o próprio Cristo, Deus, e receber as palavras da absolvi­ção com a fé firme de que é o próprio Cristo quem as diz pela boca do sacerdote. Por esta razão, o ministro não diz: «Cristo te absolva…», mas «eu te absolvo dos teus pecados…», na primeira pessoa, numa identificação plena com o próprio Jesus Cristo (cfr Catecismo Romano, II, 5,10).

9. «Telónio»: Posto público para o pagamento de tribu­tos. Acerca do «seguir Jesus» veja-se a nota a Mt 8,18-22.

Este Mateus, a quem Jesus chama, é o apóstolo do mesmo nome e autor humano do primeiro Evangelho. É o mesmo que em Mc 2,14 e em Lc 5,27 é chamado Levi o de Alfeu, ou simplesmente Levi.

Deus é quem chama. Para seguir Jesus de modo perma­nente não basta a própria determinação do homem, mas requer-se, absolutamente, o chamamento individual por parte do Senhor; isto é, a graça da vocação (cfr Mt 4, 19-21; Mc l, 17-20; Ioh l, 39; etc.). Esse chamamento implica a prévia escolha divina. Por outras palavras, não é o homem quem toma a iniciativa; pelo contrário, é Jesus quem chama primeiro e o homem corresponde a esse chamamento com a 0tlá livre decisão pessoal: «Não fostes vós que Me escolhestes, filas fui Eu que vos escolhi a vós» (Ioh 15,16). Deve pôr-se em relevo a prontidão com que Mateus «segue» o chamamento de Jesus. Diante da voz de Deus pode entrar na alma a tentação de responder: «Amanhã, ainda não estou preparado». No fundo esta e outras razões não são mais que egoísmo e medo, além de que o medo pode ser um sintoma a mais do chamamento (cfr Ioh 1). Amanhã corre-se o risco de ser demasiado tarde.

Como o dos outros apóstolos, o chamamento de São Mateus dá-se no meio das circunstâncias normais da sua vida: «— Deus foi-te procurar no exercício da tua profissão? ,,, « Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes; Mateus, sentado à mesa dos Impostos…

«E — assombra-te! — Paulo, no seu afã de acabar com a semente dos cristãos» (Caminho, n.° 799). 10-11. A mentalidade desses fariseus, tão inclinada a julgar os outros e classificar facilmente como justos e pecadores, não concorda com a atitude e ensinamentos de Jesus. Já tinha dito: «Não julgueis e não sereis julgados» (Mt 7, 1), e acrescentou ainda: «Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra» (Ioh 8,7).

A realidade é que todos os homens são pecadores e o Senhor veio para remir a todos. Não há, pois, razão para que se dê entre os cristãos o escandalizar-se pelos pecados de outros, visto que qualquer de nós é capaz de cometer as maiores vilezas se não for assistido pela graça de Deus.