dia 1o a 7 de fevereiro de 2010

Dia 1º de fevereiro

Mc 5, 1-20

1Chegaram ao lado de lá do mar, ao país dos Gerasenos. 2Apenas saído da barca, veio logo dos sepulcros ao Seu encontro um homem possuído do espírito imundo, 3o qual tinha a morada nos sepulcros, e já ninguém mais o podia prender nem com algemas; 4pois que, muitas vezes preso com grilhões e algemas, tinha quebrado as algemas e despedaçado os grilhões, e ninguém conseguia dominá-lo. 5Andava sempre, dia e noite, nos sepulcros e pelos montes, gritando e retalhando-se a si mesmo com pedras. 6Ao ver de longe a Jesus, correu e prostrou-se-Lhe aos pés, 7bradando, em alta voz: Que tens que ver comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Por Deus Te esconjuro que me não atormentes. 8Porque lhe dissera: Espírito imundo, sai desse homem! 9E perguntava-lhe: Como te chamas? Chamo-me Legião, diz-Lhe ele, porque somos muitos. 10E pedia-Lhe instantemente que os não lançasse fora daquele país.

11Ora andava ali pelo monte uma grande vara de porcos a pastar. 12Suplicaram-Lhe, pois: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles. 13Deu-lhes licença: e os espíritos imundos saíram e entraram nos porcos e a vara, cerca de dois mil, despenhou-se, ladeira abaixo, no mar, e no mar se afogou. 14Os guardadores fugiram e espalharam a notícia pela cidade e pelos campos, e acudiram todos a ver o que é que tinha acontecido. 15Chegando perto de Jesus, viram o possesso que tinha tido o Demônio Legião, sentado, vestido e em seu juízo, e tiveram medo. 16Os presentes contaram o que tinha sucedido ao endemoninhado e o caso dos porcos, 17e eles começaram a pedir a Jesus que saísse do seu termo. 18Ao subir para a barca, o que tinha sido possesso pedia-Lhe para ir com Ele. 19Mas Ele não o deixou, antes lhe disse: Vai para tua casa, para os teus, e conta-lhes tudo o que o Senhor te fez e como Se compadeceu de ti. 20Ele partiu e começou a apregoar na Decápole tudo o que Jesus lhe tinha feito, e todos ficavam maravilhados.

Comentário

1-20. Gerasa estava povoada principalmente por pagãos, como se depreende da existência de uma vara de porcos tão numerosa, que pertenceria sem dúvida a muitos donos. Para os Judeus era proibida a criação destes animais e o comer da sua carne (Lev 11,7).

Este milagre põe em relevo, uma vez mais, a existência do demônio e o seu influxo na vida dos homens: pode causar dano – se Deus o permite – não só aos homens, mas também aos animais. Quando Cristo permite que entrem nos porcos, fica patente a malícia dos demônios: estes consideram um grande tormento não poder causar dano aos homens e por isso rogam-Lhe que, pelo menos, possam fazer mal aos animais. Cristo permite isto para indicar que com a mesma violência e conseqüências com que entraram nos porcos, o fariam nos homens, se Deus não lhes pusesse obstáculo.

É claro que a intenção de Jesus não foi castigar os donos com a perda da vara de porcos, pois os donos, como pagãos, não estavam sujeitos aos preceitos da Lei judaica. A morte dos porcos é o sinal visível de que o demônio tinha saído daquele homem.

Jesus permitiu a perda de uns bens materiais porque eram incomparavelmente inferiores ao bem espiritual que supunha a cura do endemoninhado.

15-20. Contrasta a diferente atitude diante de Jesus Cristo: os gerasenos pedem a Jesus que Se afaste da cidade; o que foi libertado do demônio quer ficar junto de Jesus e segui-Lo. Os habitantes de Gerasa tiveram perto de si o Senhor, puderam ver os Seus poderes divinos, mas fecharam-se sobre si mesmos, pensando apenas no prejuízo material que constituiu a perda dos porcos; não se dão conta da Obra admirável que Jesus fez. Cristo passou junto deles, oferecendo-lhes a Sua graça, mas não corresponderam e rejeitaram Jesus. O que esteve endemoninhado quer segui-Lo com os outros discípulos. Mas Jesus não o admite; dá-lhe um encargo que mostra a misericórdia sem limites do Senhor para com todos os homens, inclusive para com os que O rejeitam: ele deve ficar em Gerasa e anunciar a todos os seus habitantes o que o Senhor fez com ele. Talvez reconsiderem e se dêem conta de quem é O que os visitou e saiam do pecado em que estão sumidos por avareza. Estas duas atitudes dão-se sempre que Cristo passa. E também a misericórdia e o chamamento contínuo do Senhor, que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cfr Ez 18,23).

20. Decápole, ou “país das dez cidades”. Entre elas as mais conhecidas são: Damasco, Filadélfia, Citópola ou Beisân, Gadara, Pella e Gerasa. A região estava situada a este do lago de Genesaré e era habitada principalmente por pagãos de origem grega e Síria. O governador romano da Síria era quem exercia a jurisdição sobre este território.

Dia 2 de fevereiro

Lc 2,22-32

22Quando chegaram os dias da purificação, de segundo a Lei de Moisés, levaram-No a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, do Menino conforme está escrito na Lei do Senhor, que todo o primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor, 24e para oferecerem em sacrifício, segundo o que se diz na lei, um par de rolas ou duas pombinhas. 25Vivia então em Jerusalém um homem chamado Simeão; esse homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26Revelara-lhe o Espírito Santo que não veria a morte antes de ter visto o Messias do Senhor; 27e veio ao Templo, movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o Menino Jesus, a fim de procederem conforme o uso da Lei que Lhe dizia respeito, 28ele recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, exclamando: 29«Agora, Senhor, podes despedir o Teu servo em paz segundo a Tua palavra, 30porque viram os meus olhos a Salvação 3lque preparaste ao alcance de todos os povos: 32luz para se revelar aos pagãos e glória de Israel, Teu povo».

Comentário

22-24. A Sagrada família sobe a Jerusalém com o fim de dar cumprimento a duas prescrições da Lei de Moisés: purificação da mãe, e apresentação e resgate do primogênito. Segundo Lev 12,2-8, a mulher ao dar à luz ficava impura. A mãe de filho varão aos quarenta dias do nascimento terminava o tempo de impureza legal com o rito da purifi­cação. Maria Santíssima, sempre virgem, de facto não estava compreendida nestes preceitos da Lei porque nem tinha concebido por obra de varão, nem Cristo ao nascer rompeu a integridade virginal de Sua Mãe. Não obstante, Maria Santíssima quis submeter-se à Lei, embora não estivesse obrigada.

«Aprenderás com este exemplo, meu pateta, a cumprir a Santa Lei de Deus, apesar de todos os sacrifícios pessoais?

«Purificação! Tu e eu, sim; nós realmente é que preci­samos de purificação! — Expiação, e, além da expiação, o Amor. — Um amor que seja cautério, que abrase a sujidade da nossa alma, que incendeie com chamas divinas a miséria do nosso coração» (Santo Rosário, quarto mistério gozoso).

Igualmente, em Ex 13,2.12-13 indica-se que todo o primogênito pertence a Deus e deve ser-Lhe consagrado, isto é, dedicado ao culto divino. Não obstante, desde que este foi reservado à tribo de Levi, aqueles primogênitos que não pertenciam a esta tribo não eram dedicados ao culto e para mostrar que continuavam a ser propriedade especial de Deus, realizava-se o rito do resgate.

A Lei mandava também que os israelitas oferecessem para os sacrifícios uma rês menor, por exemplo, um cordeiro, ou se eram pobres um par de rolas ou dois pombinhos. O Senhor que «sendo rico Se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a Sua pobreza» (2 Cor 8,9), quis que fosse (oferecida por Ele a oferenda dos pobres.

25-32. Simeão, qualificado como homem justo e temente a Deus, atento à vontade divina, dirige-se ao Senhor na sua oração como um vassalo ou servidor leal que depois de ter estado vigilante durante toda a sua vida, à espera da vinda do seu Senhor, vê agora por fim chegado esse momento, que deu sentido à sua existência. Ao ter o Menino nos seus braços, conhece não por razão humana mas por graça especial de Deus, que esse Menino é o Messias prometido, a Consolação de Israel, a Luz dos povos.

O cântico de Simeão (vv. 29-32) é, além disso, uma verda­deira profecia. Tem este cântico duas estrofes: a primeira (vv. 29-30) é uma acção de graças a Deus, trespassada de profundo gozo, por ter visto o Messias. A segunda (vv. 31-32) acentua o caracter profético e canta os benefícios divinos que o Messias traz a Israel e a todos os homens. O cântico realça o caracter universal da Redenção de Cristo, anunciada por muitas profecias do AT (cfr Gen 22,18; Is 42,6; Is 60,3; Ps 98,2).

Podemos compreender o gozo singular de Simeão ao considerar que muitos patriarcas, profetas e reis de Israel anelaram ver o Messias e não O viram, e ele, pelo contrário, tem-No nos seus braços (cfr Lc 10,24; l Pet 1,10). 33. A Virgem Santíssima e São José admiravam-se não porque desconhecessem o mistério de Cristo, mas pelo modo como Deus o ia revelando. Uma vez mais nos ensinam a saber contemplar os mistérios divinos no nascimento de Cristo.

Dia 3 de fevereiro

Mc 6, 1-6

Partindo depois dali, foi à Sua terra, e os discípulos acompanharam-No. 2Vindo o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e os muitos que O ouviam exclamavam admi­rados: Donde Lhe vieram todas estas coisas? E que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E os prodígios como esses que opera com Suas mãos? 3Porventura não é Este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E Suas irmãs não vivem aqui entre nós? 4E escandalizavam-se d’Ele. Mas Jesus dizia-lhes: O profeta não é descon­siderado senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa. 5E não pôde fazer ali nenhum milagre. Apenas curou um pequeno número de enfermos, impondo-lhes as mãos. 6E admirava-Se da incredulidade daquela gente.

Comentário

1-3. Jesus é designado aqui pelo Seu trabalho e por ser «o filho de Maria». Indicará isto que São José já tinha morrido? Não o sabemos, ainda que seja provável. Em qualquer caso, é de sublinhar esta expressão: nos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas tinha-se narrado a concepção virginal de Jesus. O Evangelho de São Marcos não refere a infância do Senhor, mas talvez possa ver-se uma alusão à concepção e nascimento virginais, na designação «o filho de Maria».

«José, cuidando daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, fez de Jesus um artesão: transmitiu-Lhe o seu ofício. Por isso, os vizinhos de Nazaré falavam de Jesus chamando-Lhe indistintamente faber e fabrí filius: artesão e filho de artesão» (Cristo que passa, n.° 55). Desta maneira o Senhor fez-nos saber que a nossa vocação profissional não é alheia aos Seus desígnios divinos.

«Esta verdade, segundo a qual o homem mediante o trabalho participa na obra do próprio Deus, seu Criador, foi particularmente posta em relevo por Jesus Cristo, aquele Jesus com Quem muitos dos Seus primeiros ouvintes em Nazaré ‘ficavam admirados e exclamavam: ‘Donde Lhe veio tudo isso? E que sabedoria é esta que lhe foi dada?… Porventura não é Ele o carpinteiro’…?’ (Mc 6,2-3). Com efeito, Jesus não só proclamava, mas sobretudo punha em prática com obras as palavras da Sabedoria eterna, o ‘Evangelho’ que Lhe tinha sido confiado. Tratava-se verdadeiramente do ‘evangelho do trabalho’ pois Aquele que o proclamava era Ele próprio homem do trabalho, do trabalho artesanal como José de Nazaré (cfr Mt 13, 55). Ainda que não encontremos nas Suas palavras o preceito especial de trabalhar — antes pelo contrário, uma vez, a proibição da preocupação excessiva com o trabalho e com os meios de subsistência (Mt 6, 25-34) — contudo, a eloqüência da vida de Cristo é inequívoca: Ele pertence ao ‘mundo do trabalho’ e tem apreço e respeito pelo trabalho humano. Pode-se até afirmar: Ele encara com amor este trabalho, bem como as suas diversas expressões, vendo em cada uma delas uma linha particular da semelhança do homem com Deus, Criador e Pai» (Laborem exercens, n. 26). São Marcos dá uma lista de irmãos de Jesus, e fala genericamente da existência de umas irmãs. Mas a palavra «irmão» não significava necessariamente filho dos mesmos pais. Podia indicar também outros graus de parentesco: primos, sobrinhos, etc. Assim em Gen 13, 8 e 14, 14.16 chama-se a Lot irmão de Abraão, enquanto por Gen 12,5e 14, 12 sabemos que era sobrinho, filho de Arão, irmão de Abraão. O mesmo acontece com Labão, a quem se chama irmão de Jacob (Gen 29,15), quando era irmão de sua mãe (Gen 29,10); e noutros casos: cfr 1 Chr 23,21-22, etc. Esta confusão deve-se à pobreza da linguagem hebraica e aramaica: carecem de termos diferentes e usam uma mesma palavra, irmão, para designar graus diversos de parentesco.

Por outros passos do Evangelho, sabemos que Tiago e José, aqui nomeados, eram filhos de Maria de Cléofas (Mc 15, 40; Ioh 19, 25). De Simão e de Judas temos menos dados. Parece que são os Apóstolos Simão o Zelotes (Mt 10,4; Mc 3, 18) e Judas Tadeu (Lc 6, 16), autor da epístola católica em que se declara «irmão» de Tiago. Por outro lado, ainda que se fale de Tiago, Simão e Judas como irmãos de Jesus, nunca se diz que sejam «filhos de Maria», o que teria sido natural se tivessem sido estritamente irmãos do Senhor. Jesus aparece sempre como filho único; para os de Nazaré. Ele é «o filho de Maria» (Mt 13, 55). Jesus ao morrer confia Sua mãe a São João (cfr Ioh 19,26-27), o que revela que Maria não tinha outros filhos. A isto acrescenta-se a fé constante da Igreja, que considera Maria como a sempre Virgem: «Virgem antes do parto, no parto, e para sempre depois do parto» (Cum quorumdam).

5-6. Jesus não fez ali milagres: não porque Lhe faltasse poder, mas como castigo da incredulidade dos Seus concida­dãos. Deus quer que o homem use da graça oferecida, de sorte que, ao cooperar com ela, se disponha a receber novas graças. Em frase gráfica de Santo Agostinho,« Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti» (Sermo 169).

Dia 4 de fevereiro

Mc 6, 7-13

7Depois chamou a Si os doze e foi-os enviando dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos imundos 8e recomendando-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um simples bordão, nem pão, nem alforge, nem cobres no cinto. 9Calçai sandá­lias, muito embora, mas não vistais duas túnicas. 10E dizia-lhes: Hospedai-vos na casa em que primeiro entrardes e ficai aí até partirdes. 11E, se em algum lugar vos não receberem nem ouvirem, ao sairdes de lá, sacudi o pó que se vos pegou aos pés, em testemunho contra eles. 12Partiram, pois, e pregaram que fizessem penitência; 13expulsavam muitos Demônios e ungiam com azeite muitos enfermos e curavam-nos.

Comentário

8-9. Jesus Cristo exige estar livre de qualquer espécie de ataduras no momento de pregar o Evangelho. O discípulo, que tem o encargo de levar o Reino de Deus às almas mediante a pregação, não deve pôr a sua confiança nos meios humanos, mas na Providência de Deus. Aquilo de que há-de necessitar para viver dignamente como arauto do Evangelho deverá ser procurado pelos próprios beneficiários da pre­gação, pois o operário é digno de sustento (cfr Mt 10, 10).

« Tanta deve ser a confiança em Deus daquele que prega que há-de estar seguro de que não lhe faltará o necessário para viver, ainda que ele o não possa procurar; visto que não se deve ocupar menos das coisas eternas, por se ocupar das temporais» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.). «Daqui se deduz que o Senhor não diz neste preceito que os anunciadores do Evangelho não podem viver de outro modo que do que lhes dêem aqueles a quem o anunciam, mas que lhes dá poder de agir assim, fazendo-lhes saber que têm direito a isso; de outra maneira, o Apóstolo (São Paulo) teria agido contra este preceito, ao querer viver do trabalho das suas mãos» (De consensu Evangelistarum, II, 30).

13. São Marcos é o único Evangelista que fala de uma unção com azeite aos doentes. O azeite utilizava-se freqüen­temente para curar as feridas — cfr Is l, 6; Lc 10, 34 —, e os Apóstolos empregam-no também para curar miraculosamente as doenças corporais, segundo o poder que Jesus lhes conferiu. Daí o uso do azeite como matéria do sacramento da Unção dos Doentes, que cura as feridas da alma e inclusivamente as do corpo, se convém. Como ensina o Concilio de Trento — Doctrina de sacramento extremae unctionis, cap. l —, há que ver «insinuado» neste versículo de São Marcos o sacramento da Unção dos Doentes, que será instituído pelo Senhor, e mais tarde «recomendado e promulgado aos fiéis pelo Apóstolo São Tiago» (cfr lac 5,14 e ss.).

Dia 5 de fevereiro

Mc 6, 14-29

14Ouviu o rei Herodes falar de Jesus, pois o Seu nome se tinha tornado célebre, e dizia: João Baptista ressuscitou dos mortos, e é por isso que essas forças milagrosas operam nele. 15Outros, porém, diziam: É Elias; e outros: É um profeta, como um dos antigos profetas. 16Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: É João, a quem eu decapitei, que ressuscitou. 17De facto, Herodes mandara prender a João e pusera-o a ferros numa prisão por causa de Herodiade, mulher de seu irmão Filipe, com a qual tinha casado. 18Porque João dizia a Herodes: Não te é lícito ter a mulher de teu irmão. 19Herodíade perseguia-o e queria fazê-lo condenar à morte, mas não podia. 20É que Herodes, sabendo que João era homem justo e santo, temia-o e protegia–o e, quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com prazer. 21Chegou enfim um dia favorável, quando Herodes, no seu aniversário natalício, deu um banquete aos grandes da sua corte e aos oficiais e aos principais da Galileia. 22A filha da mesma Herodíade apresentou-se a dançar e agradou a Herodes e aos convivas, tanto que o rei disse à moça: Pede-me o que quiseres e dar-to-ei. 23E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino. 24Ela saiu a perguntar à mãe: Que hei-de pedir? Respondeu-lhe: A cabeça de João Baptista. 25Voltou ela, a correr, à presença do rei e fez-lhe assim o pedido: Quero que me dês agora mesmo, num prato, a cabeça de João Baptista. 26Entristeceu-se muito o rei, mas, por causa do juramento e dos convivas, não quis faltar-lhe à palavra. 27E logo o rei mandou um guarda com ordem de trazer a cabeça dele. Este foi e decapitou-o no cárcere; 28e trouxe a cabeça num prato e deu-a à moça, e a moça deu-a à mãe. 29Ao saberem disso, os seus discípulos vieram e levaram o corpo e depuseram-no num sepulcro.

Comentário

14. De acordo com o uso popular, São Marcos chama a Herodes rei; mas com precisão jurídica apenas era tetrarca, como dizem São Mateus (14, 1) e São Lucas (9, 7), isto é, governador de certa importância. Este Herodes, que São Marcos aqui cita, era Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, aquele que era rei dos Judeus nos anos do nascimento de Jesus Cristo. Cfr a nota a Mt 2, l.

16-29. E de notar que se intercala no relato evangélico o extenso episódio da morte de João Baptista. A razão é que São João Baptista tem relevância especial na História da Salvação, porque é o Precursor, encarregado de preparar os caminhos do Messias. Por outro lado, João Baptista tinha um grande prestígio entre o povo: consideravam-no profeta (Mc 11,32) e alguns inclusivamente o Messias (Lc 3, 15; Ioh l, 20) e acorriam a ele de muitos lugares (Mc l, 5). O próprio Jesus chegou a dizer: «Entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João Baptista» (Mt 11,11). Mais tarde, o apóstolo São João voltaria a falar dele no seu Evangelho: « Houve um homem enviado por Deus, que se chamava João» (Ioh l, 6). Mas no texto sagrado esclarece-se, não obstante, que o Baptista, apesar de tanto, não era a luz, mas a testemunha da luz (Ioh l, 6-8). Propriamente apenas era a lâmpada que levava a luz (Ioh 5,35).

De João Baptista é-nos dito aqui que era justo e que pregava a cada qual aquilo de que necessitava: à multidão do povo, aos publicanos, aos soldados (Lc 3,10-14); aos fariseus e aos saduceus (Mt 3, 7-12), ao próprio rei Herodes (Mc 6, 18-20). Este homem humilde, íntegro e austero, garante com a sua vida o testemunho que davam as suas palavras sobre o Messias Jesus (Ioh l, 29.36-37).

26. Os juramentos e as promessas de conteúdo imoral não se devem fazer. E, se se fizeram, não se devem cumprir. Esta é a doutrina da Igreja, resumida pelo Catecismo Maior de São Pio X, n.° 383, da seguinte maneira: «Estamos obrigados a manter o juramento de fazer coisas injustas ou ilícitas? Não só não estamos obrigados, mas, pelo contrário, pecamos ao fazê-las, como coisas proibidas pela Lei de Deus ou da Igreja».

Dia 6 de fevereiro

Mc 6, 30-34

3OEntretanto os «apóstolos voltaram a reunir-se com Jesus e contaram-Lhe tudo quanto tinham feito e ensinado. 31E Ele disse-lhes: Vinde vós outros sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco. Eram com efeito muitos os que iam e vinham, e eles nem sequer tinham tempo para comer. 32Partiram, pois, de barco, a sós, para um lugar deserto.

33Viram-nos, porém, partir e muitos perceberam para onde iam; e, por terra, concorreram lá de todas as cidades e chegaram primeiro do que eles. 34Ao desembarcar, viu uma grande multidão e condoeu-Se dela, por­que eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Comentário

30-31. Vê-se aqui a intensidade do ministério público de Jesus. Era tal a dedicação às almas que, por duas vezes, São Marcos faz notar que inclusivamente lhes faltava o tempo para comer (cfr Mc 3, 20). O cristão deve estar disposto a sacrificar o próprio tempo, e inclusivamente o descanso, para serviço do Evangelho. Esta atitude de disponibilidade levar-nos-á a saber mudar os nossos planos quando o exija o bem das almas.

Mas também ensina aqui Jesus a ter senso comum e não pretender fazer loucamente certos esforços, que excedem absolutamente as nossas forças naturais: «O Senhor faz descansar os Seus discípulos para ensinar aos que governam que aqueles que trabalham por obras ou por palavras não podem trabalhar sem interrupção» (In Morei Evangelium expositio, ad loc.). «Quem se entrega a trabalhar por Cristo não há-de ter um momento livre, porque o descanso não é não fazer nada; é distrair-se em atividades que exigem menos esforço» (Caminho, n.° 357).

34. O Senhor fez planos para descansar algum tempo, juntamente com os Seus discípulos, das absorventes tarefas apostólicas (Mc 6, 31-32). Mas não os pode levar a cabo pela presença de um grande número de gente que acorre a Ele ávida da Sua palavra. Jesus Cristo não só não Se aborrece com eles, mas sente compaixão ao ver a necessidade espiritual que têm. «Morre o Meu povo por falta de doutrina» (Os 4, 6). Necessitam de instrução e o Senhor quer satisfazer esta necessidade por meio da pregação. «A fome e a dor comovem Jesus, mas sobretudo comove-O a ignorância» (Cristo que passa, n.°109).

Dia 7 de fevereiro

Lc 5, 1-11

1Uma vez em que a multidão se apertava em torno de Jesus, a ouvir a palavra de Deus, e Ele mesmo de pé junto ao lago de Genesaré, 2viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores, que deles se haviam retirado, lavavam as redes. 3Depois de subir para um dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra para o largo; e, sentando-Se, pôs-Se a ensinar do barco as multidões.

4Quando cessou de falar, disse a Simão: Faz-te ao largo; e vós, largai as redes para a pesca. 5Disse-Lhe Simão, em resposta: Mestre, moirejámos toda a noite e nada apanhamos; todavia, porque o dizes, largarei as redes. 6E, depois de o terem feito, apanharam grande quantidade de peixe. 7Ora as redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que se encontravam no outro barco, para os virem ajudar. Estes vieram; e encheram ambos os barcos, a ponto de se irem afundando. 8Ao ver isso, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus, dizendo: Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. 9De facto, enchera-se de espanto, ele e todos os que com ele estavam, por causa da pesca que tinham feito, 10o mesmo sucedendo a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Disse Jesus a Simão: Não tenhas receio; doravante ficarás a apanhar homens. 11E eles, depois de reconduzirem os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram-No.

Comentário

1. “Tal como hoje! Não estais a ver? Estão desejando ouvir a mensagem de Deus, embora o dissimulem exteriormente. Talvez alguns se tenham esquecido da doutrina de Cristo; talvez outros, sem culpa sua, nunca a tenham aprendido e olhem para a religião como coisa estranha… Mas convencei-vos de uma realidade sempre actual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais; em que não lhe bastam as explicações vulgares; em que não a satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que nem então o admitam, essas pessoas sentem fome, desejam saciar a sua inquietação com os ensinamentos do Senhor” (Amigos de Deus, n.° 260).

3. Os Santos Padres viram nesta barca de Pedro, a que o Senhor sobe, uma imagem da Igreja peregrina nesta terra. “Esta é aquela barca que segundo São Mateus ainda se afunda, e segundo São Lucas se enche de peixes. Reconhecei assim os princípios dificultosos da Igreja e a sua posterior fecundidade” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.). Cristo sobe para a barca para ensinar dali as multidões. De igual modo continua a ensinar da Igreja – a barca de Pedro – todas as gentes.

Cada um de nós pode ver-se representado nesta barca a que Cristo sobe. Externamente pode não mudar nada: “Que mudança há então? Há mudança na alma, porque nela entrou Cristo, tal como entrou na barca de Pedro. Abrem-se amplos horizontes, maior ambição de servir e um desejo irreprimível de anunciar a todas as criaturas as magnalia Dei (Act 2, 11), as coisas maravilhosas que o Senhor faz, se lho permitimos” (Amigos de Deus, n.° 265).

4. “Quando acabou a Sua catequese, ordenou a Simão: Faz-te mais ao largo e lançai as vossas redes para pescar; é Cristo o dono da barca; é Ele quem prepara para a faina. Para isso é que veio ao mundo: para tratar de que os seus irmãos descubram o caminho da glória e do amor do Pai” (Amigos de Deus, n.° 260). Para levar a cabo esta tarefa, o Senhor ordena a todos que lancem as redes, mas somente a Pedro que dirija a barca mar adentro.

Todo este passo faz referência, em certo modo, à vida da Igreja. Nela o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, “é vigário de Jesus Cristo porque O representa na terra e faz as Suas vezes no governo da Igreja” (Catecismo Maior, n.° 195). Cristo dirige-se também a cada um de nós para que nos sintamos urgidos a um trabalho apostólico audaz: “‘Duc in altum’ – Ao largo! – Repele o pessimismo que te torna cobarde. ‘Et laxate retia vestra in capturam’ – e lança as redes para pescar. Não vês que podes dizer, como Pedro: ‘in nomine tuo, laxabo rete’- Jesus, em Teu nome, procurarei almas?” (Caminho, n.° 792).

“Se cedesses à tentação de perguntar a ti mesmo: quem me manda a mim meter-me nisto?, teria de responder-te: manda-to, pede-to o próprio Cristo. A messe é grande e os operários são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe (Mt IX, 37-38). Não digas, comodamente: eu para isto não sirvo; para isto já há outros. Se tu pudesses falar assim, todos podiam dizer a mesma coisa.

O pedido de Cristo dirige-se a todos e a cada um dos cristãos. Ninguém está dispensado: nem por razões de idade, nem de saúde, nem de ocupação. Não há desculpas de nenhum género. Ou produzimos frutos de apostolado ou a nossa fé será estéril” (Amigos de Deus, n.° 272).

5. Perante a ordem de Cristo, Simão expõe as suas dificuldades. “A resposta de Simão parece razoável. Costumavam pescar de noite, e precisamente aquela noite tinha sido infrutífera. Para que haviam de pescar de dia? Mas Pedro tem fé: Porém, sobre a Tua palavra, lançarei a rede. Resolve proceder como Cristo lhe sugeriu; compromete-se a trabalhar, fiado na Palavra do Senhor” (Amigos de Deus, n.°261).

8. O desejo de Pedro não é que Cristo Se afaste dele, mas, por causa dos seus pecados, declara-se indigno de estar próximo do Senhor. O que disse Pedro recorda a atitude do Centurião que se confessa indigno de que Jesus entre na sua casa (Mt 8,8). A Igreja manda os seus filhos repetir estas mesmas palavras do Centurião antes de receberem a Santíssima Eucaristia. Como também indica a conveniência de manifestar externamente a reverência devida ao Sacramento no acto de comungar: Pedro ensina-nos com o seu gesto, ao prostrar-se diante do Senhor, que também os sentimentos internos de adoração a Deus se devem manifestar exteriormente.

11. A perfeição não consiste em deixar simplesmente todas as coisas, mas em deixá-las para seguir a Cristo. Isto é o que fizeram os Apóstolos: abandonam tudo para estarem disponíveis perante as exigências da vocação divina.

Devemos fomentar no nosso coração esta disponibilidade porque “Jesus não Se satisfaz ‘compartilhando’; quer tudo” (Caminho, n.° 155).

Se falta a entrega generosa encontraremos muitas dificuldades para seguir a Jesus Cristo: “Desprende-te das criaturas até ficares despido delas. Porque – diz o Papa São Gregório – o demónio nada tem de seu neste mundo, e acode nu à contenda. Se vais, vestido, lutar com ele, em breve cairás por terra. Porque terá por onde apanhar-te” (Caminho, n.° 149).