dia 19 a 25 de outubro de 2009

Dia 19 de outubro

Lc 12, 13-21

13Disse-Lhe alguém do meio da multidão: Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança. 14Mas Ele respondeu-lhe: Homem, quem Me constituiu juiz ou repartidor entre vós? 15Depois, disse-lhes: Olhai bem e guardai-vos de toda a cobiça, pois não é por alguém ter em abundância que a vida lhe depende dos seus bens. 16E referiu-lhes esta parábola: Teve bom rendimento a fazenda de certo rico. 17Ele pôs-se a discorrer, dizendo consigo: “Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita?” 18Disse então: “Eis o que hei-de fazer: vou deitar abaixo os meus celeiros, para construir uns maiores, e lá guardarei todo o meu trigo e os meus bens. 19Depois, direi à minha alma: Ò alma, tens muitos bens em depósito para largos anos; descansa, come, bebe, regala-te”. 20Deus, porém, disse-lhe: “Insensato! Esta noite, hão-de reclamar-te a tua alma; e o que preparaste para quem será?” 21Assim é o que entesoira para si e não é rico em relação a Deus.

Comentário

13-14. Aquele homem só está interessado nos seus próprios problemas; só vê em Jesus um mestre de reconhecida autoridade e prestígio para resolver o seu caso (cfr Dt 21,17). O personagem pode muito bem representar aqueles que recorrem à autoridade religiosa não para pedir uma orientação na sua vida espiritual mas para resolver os assuntos materiais. Jesus, decididamente, desinteressa-Se de semelhante petição. E não é por insensibilidade diante de uma situação de possível injustiça familiar, mas porque intervir em tais assuntos não é próprio da Sua missão redentora. O Mestre ensina-nos, com a Sua actuação e com as Suas palavras, que a Sua obra salvífica não se dirige a resolver os muitos conflitos familiares e sociais que se dão entre os homens; Jesus veio dar os princípios e os critérios morais que deverão informar a justa acção dos homens nos assuntos temporais, mas não resolvê-los tecnicamente; para isto dotou-nos de inteligência e de liberdade.

15-21. Depois da sentença do v. 15 Jesus expõe a parábola do rico insensato: que loucura é pôr a confiança na acumulação de bens materiais para assegurar a vida cá de baixo, enquanto se esquecem os bens do espírito, que são os que nos asseguram, de verdade e para sempre, pela misericórdia divina, a vida eterna!

Assim explicava Santo Atanásio estas palavras do Senhor: “Quem vive como se tivesse de morrer cada dia – visto que é incerta a nossa vida por natureza – não pecará, já que o bom temor extingue grande parte da desordem dos apetites; pelo contrário, quem julga que vai ter uma vida longa, facilmente se deixa dominar pelos prazeres” (Contra Antígono).

19. A insensatez deste homem consiste em que considerou a posse de bens materiais como o único fim da sua existência e a garantia da sua segurança. É legítima a aspiração do homem a possuir o necessário para a sua vida e o seu desenvolvimento, mas ter como bem absoluto a posse de bens materiais acaba por destruir o homem e a sociedade.

“Tanto para os povos como para as pessoas, possuir mais não é o fim último. Qualquer crescimento é ambivalente. Embora necessário para permitir ao homem ser mais homem, torna-o contudo prisioneiro no momento em que se transforma no bem supremo que impede de ver mais além. Então os corações endurecem e os espíritos fecham-se, os homens já não se reúnem pela amizade, mas pelo interesse, que bem depressa os opõe e os desune. A busca exclusiva do ‘ter’ forma, então, um obstáculo ao crescimento do ‘ser’ e opõe-se à sua verdadeira grandeza: tanto para as nações como para as pessoas, a avareza é a forma mais evidente do subdesenvolvimento moral” (Populorum progressio, n. 19).

Dia 20 de outubro

Lc 12, 35-38

35Estejam cingidos os vossos rins e a arder as vossas lâmpadas. 36E vós, sede como os homens que esperam o seu senhor, ao voltar do noivado, para, quando vier e bater, lhe abrirem logo a porta. 37Felizes daqueles servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo que se há-de cingir e mandar que se ponham à mesa e, passando diante deles, servi-los-á. 38E felizes deles, se, vindo na segunda ou na terceira vigília, assim os encontrar.

Comentário

35-39. A exortação a estar vigilantes repete-se com frequência na pregação de Cristo e na dos Apóstolos (cfr Mt 24,42; 25,13; Mc 14,34). Por um lado, porque o inimigo está sempre à espreita (cfr 1 Pet 5,8), e, por outro, porque quem ama nunca dorme (cfr Cant 5,2). Manifestações concretas dessa vigilância são o espírito de oração (cfr Lc 21,36; 1 Pet 4,7) e a fortaleza na fé (cfr l Cor 16,13).

35. As vestes amplas que usavam os judeus cingiam-se à cinta para poder realizar determinados trabalhos. “Ter as roupas cingidas” é uma imagem clara para indicar que alguém se prepara para o trabalho, a luta, as viagens, etc. (cfr Ier 1,17; Eph 6,14; 1 Pet 1,13). Do mesmo modo, “ter as lâmpadas acesas” indica a atitude própria do que vigia e espera a vinda de alguém.

Dia 21 de outubro

Lc 12, 39-48

39Ficai sabendo isto: Se o dono da casa tivesse sabido a que hora viria o ladrão, não teria deixado arrombar a casa. 40Preparai-vos vós, também, porque na hora em que menos pensais é que vem o Filho do homem.

41Disse-Lhe Pedro: Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou para todos? 42Respondeu o Senhor: Quem será então o administrador fiel e prudente que o senhor porá à frente do seu pessoal, para dar, a seu tempo, a ração alimentar? 43Feliz daquele servo a quem o senhor, quando vier, assim achar fazendo. 44Digo-vos, na verdade, que o porá à frente de todos os seus bens. 45Mas, se aquele servo disser de si para consigo: “tarda em vir o meu senhor”, e começar a bater em criados e criadas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46o senhor daquele servo chegará em dia que não espera e a hora que não sabe; então pô-lo-á de parte e fá-lo-á partilhar a sorte dos infiéis.47Aquele servo que, sabendo o que o senhor queria, o não tiver preparado ou não tiver cumprido a vontade dele, levará muitas vergastadas. 48Aquele, porém, que não tiver sabido, mas tiver feito coisas que mereçam vergastadas, levará algumas. A todo aquele a quem muito foi dado muito será exigido, e àquele a quem muito se entregou mais se pedirá.

Comentário

40. Deus quis ocultar o momento da morte de cada um e do fim do mundo. Imediatamente depois da morte, todo o homem comparece para o juízo particular: “Assim, está estabelecido que os homens morram uma só vez; e depois disto, o juízo” (Heb 9,27). Do mesmo modo, no fim do mundo terá lugar o juízo universal.

41-48. Depois da exortação do Senhor à vigilância, Pedro faz uma pergunta (v. 41) cuja resposta é a chave para compreender esta parábola. Por um lado, Jesus insiste no imprevisível do momento em que Deus nos há-de chamar para dar contas; por outro, precisamente como resposta à pergunta de Pedro, Nosso Senhor explica que o seu ensinamento se dirige a todos. Deus pedirá contas a cada um segundo as suas circunstâncias pessoais: todo o homem tem nesta vida uma missão para cumprir; dela teremos de responder diante do tribunal divino e seremos julgados segundo os frutos, abundantes ou escassos, que tenhamos dado.

“Mas, como não sabemos o dia nem a hora, é preciso que, segundo a recomendação do Senhor, vigiemos continuamente, a fim de que no termo da nossa vida sobre a terra, que é só uma (cfr Heb 9,27), mereçamos entrar com Ele para o banquete de núpcias e ser contados entre os eleitos (cfr Mt 25,31-46), e não sejamos lançados, como servos maus e preguiçosos (cfr Mt 25,26), no fogo eterno (cfr Mt 25,41)” (Lumen gentium, n. 48).

Dia 22 de outubro

Lc 12, 49-53

49Eu vim lançar fogo sobre a Terra, e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado? 50Tenho um baptismo para receber e que angústias não sinto até que ele se realize! 51Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, vos digo Eu, foi antes a divisão. 52Haverá, efectivamente, a partir de agora, cinco divididos numa só casa: três contra dois, e dois contra três; 53dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.

Comentário

49-50. O fogo exprime frequentemente na Bíblia o amor ardente de Deus pelos homens (cfr Dt 4,24; Ex 13,22; etc.). No Filho de Deus feito homem alcança esse amor divino a sua máxima expressão: “De tal maneira amou Deus o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito” (Ioh 3,16). Jesus entrega voluntariamente a Sua vida por amor de nós, e “ninguém tem maior amor que o de dar a vida pelos seus amigos” (Ioh 15,13).

Com as palavras que nos transmite São Lucas, Jesus Cristo revela as ânsias irreprimíveis de dar a Sua vida por amor. Chama Baptismo à Sua morte, porque dela vai sair ressuscitado e vitorioso para nunca mais morrer. O nosso Baptismo é um submergir-nos nessa morte de Cristo, na qual morremos para o pecado e renascemos para a nova vida da graça: “Pois fomos sepultados juntamente com Ele por meio do Baptismo em ordem à morte, para que, assim como Cristo ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova” (Rom 6,4).

Nós, os cristãos, devemos ser, com essa nova vida, fogo que acende como Jesus acendeu os Seus discípulos: “Com a maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa derrama-se em afã apostólico: ardia-me o coração dentro do peito, ateava-se o fogo na minha meditação (Ps XXXVIII, 4). Que fogo é esse senão aquele de que fala Cristo: Vim trazer fogo à Terra: e que quero eu, senão que se acenda? (Lc XII,49). Fogo de apostolado que se robustece na oração: não há meio melhor do que este para desenvolver através de todo o mundo essa batalha pacífica em que cada cristão está chamado a participar: cumprir o que falta padecer a Cristo (cfr Col I, 24)” (Cristo que passa, n° 120).

51-53. Deus veio ao mundo com uma mensagem de paz (cfr Lc 2,14), de reconciliação (cfr Rom 5,11). Mas, ao resistirmos pelo nosso pecado à obra redentora de Cristo, opomo-nos a Ele. A injustiça e o erro provocam a divisão e a guerra. “Na medida em que os homens são pecadores, o perigo da guerra ameaça-os e continuará a ameaçá-los até à vinda de Cristo; mas na medida em que, unidos em caridade, superam o pecado, superadas ficam também as lutas” (Gaudium et spes, n. 78).

Na Sua própria vida na terra, Cristo foi sinal de contradição (cfr Lc 2,34). O Senhor previne os discípulos das lutas e divisões que acompanharão a difusão do Evangelho (cfr Lc 6,20-23; Mt 10,34).

Dia 23 de outubro

Lc 12, 54-59

54Dizia também às multidões: Quando vedes uma nuvem levantar-se no Poente, dizeis logo: “vem lá chuva”, e assim sucede. 55E quando é o vento Sul a soprar, dizeis: “vai haver muito calor”, e há. 56Hipócritas! O cariz da terra e do céu sabeis vós interpretá-lo, e este tempo, como é que o não interpretais? 57Por que não discernis também, por vós mesmos, o que é justo?

58Por isso, quando fores com o teu adversário ao magistrado, dá-te ao cuidado, no caminho, de te veres livre dele, não vá ele arrastar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça, e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59Eu to digo: De lá não sairás enquanto não pagares até ao último tostão.

Comentário

56. Os que escutavam Jesus sabiam por experiência predizer o tempo. Todavia, conhecendo os sinais anunciados pelos profetas sobre a vinda do Messias, escutando agora os Seus ensinamentos e vendo os Seus milagres, não querem reconhecê-los nem tirar as consequências; falta-lhes boa vontade e rectidão de intenção e fecham voluntariamente os olhos à luz do Evangelho (cfr Rom 1,18 ss.).

Essa posição não foi exclusiva de muitos dos contemporâneos de Jesus Cristo, volta-se a produzir de modo muito especial nos nossos dias, revestindo algumas das formas do ateísmo reprovadas pelo Concílio Vaticano II: “Sem dúvida que não estão imunes de culpa todos aqueles que procuram voluntariamente expulsar Deus do seu coração e evitar os problemas religiosos, não seguindo o ditame da própria consciência” (Gaudium et spes, n. 19).

Dia 24 de outubro

Lc 13, 1-9

1Nessa ocasião, apareceram alguns a dar-Lhe a notícia dos Galileus, cujo sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrifícios deles. 2Disse-lhes Ele, em resposta: Julgais que esses Galileus, por terem sofrido tal pena, eram mais pecadores que todos os outros Galileus? 3Não, digo-vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos igualmente. 4E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloá e os matou! Julgais que eles eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Não, digo-vos Eu; mas, se vos não arrependerdes, perecereis todos de maneira semelhante.

6Expôs-lhes então a seguinte parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi buscar a fruta que nela houvesse, mas não a encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: “Há já três anos que venho buscar a fruta que haja nesta figueira e não a encontro. Corta-a. Para que está ela a tornar a terra inútil?” 8Mas este diz-lhe, em resposta: “Senhor, deixa-a mais este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe estrume; 9talvez venha a dar fruto no futuro! Senão, mandá-la-ás cortar”.

Comentário

1-5. O Senhor servia-Se dos acontecimentos com actualidade para dar doutrina às multidões. O caso dos galileus poderia ser o mesmo episódio a que alude o livro dos Actos (Act 5,37), e reflecte o ambiente do tempo de Jesus, em que Pilatos reprimia com dureza cruel qualquer tentativa de revolta política. A propósito do acidente de Siloé não temos mais notícias que as que nos dá aqui o Evangelho.

O facto de aquelas pessoas padecerem tais desgraças não se devia a que fossem piores que os outros, porque Deus nem sempre castiga nesta vida os pecadores (cfr Ioh 9,3). Todos somos pecadores e merecemos um castigo pior que o das desgraças terrenas: o castigo eterno; mas Cristo veio reparar pelos nossos pecados e abriu-nos as portas do Céu. Nós temos de nos arrepender dos nossos pecados porque só assim Deus nos livrará do castigo merecido. “Quando vier o sofrimento, o desprezo…, a Cruz, considera: que é isto, para o que eu mereço?” (Caminho, n° 690).

3. “Ele diz-nos que, sem o santo Baptismo, ninguém entrará no Reino dos Céus (cfr Ioh 3,5); e noutro lugar, que se não fizermos penitência todos pereceremos (Lc 13,3). Tudo se compreende facilmente. Desde que o homem pecou, todos os seus sentidos se rebelaram contra a razão; por conseguinte, se quisermos que a carne esteja submetida ao espírito e à razão, é necessário mortificá-la; se quisermos que o corpo não faça a guerra à alma, é preciso castigá-lo a ele e a todos os sentidos; se quisermos ir a Deus, é necessário mortificar a alma com todas as suas potências” (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas).

6-9. O Senhor insiste na necessidade de produzir frutos abundantes (cfr Lc 8,11-15) correspondendo às graças recebidas (cfr Lc 12,48). Junto a este imperativo profundo, Jesus Cristo põe em relevo a paciência de Deus na espera desses frutos. Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 33,11) e, como ensina São Pedro, “usa de paciência convosco, não querendo que alguns pereçam mas que todos cheguem à conversão” (2 Pet 3,9). Esta clemência divina, porém, não nos pode levar a descuidar os nossos deveres, adoptando uma posição de preguiça e de comodidade que tornaria estéril a própria vida. Deus ainda que seja misericordioso também é justo, e castigará as faltas de correspondência à Sua graça.

“Há um caso que nos deve doer sobremaneira: o daqueles cristãos que podiam dar mais e não se decidem; que podiam entregar-se totalmente vivendo todas as consequências da sua vocação de filhos de Deus, mas resistem a ser generosos. Deve-nos doer, porque a graça da Fé não se nos dá para ficar oculta, mas para brilhar diante dos homens (cfr Mt V, 15-16); porque, além disso, está em jogo a felicidade temporal e eterna dos que procedem assim. A vida cristã é uma maravilha divina, com promessa de imediata satisfação e serenidade, mas com a condição de sabermos apreciar o dom de Deus (cfr Ioh IV, 10), sendo generosos sem medida” (Cristo que passa, n° 147).

Dia 25 de outubro

Mc 10, 46-52

46Chegam a Jericó. E, ao partirem de Jericó Ele e os discípulos e uma grande multidão, estava Bartimeu, filho de Timeu, cego e mendigo, sentado à beira da estrada. 47Ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: Filho de David, Jesus, tem compaixão de mim. 48Muitos increpavam-no para que se calasse. Mas ele gritava muito mais: Filho de David, tem compaixão de mim. 49Parou Jesus e disse-lhe: Chamai-o. Chamam o cego e dizem-lhe: Ânimo! Levanta-te, que te chama. 50Ele, lançando para o lado o manto, levantou-se de um salto e veio ter com Jesus. 51E Jesus perguntou-lhe: Que queres que te faça? Respondeu-Lhe o cego: Raboni, que eu veja. 52E Jesus: Vai! A tua fé te salvou. E logo recuperou a vista e O seguia na viagem.

Comentário

46-52. “Ouvindo aquele grande vozear das pessoas, o cego perguntou: o que é isto? Responderam-lhe: é Jesus de Nazaré. Então inflamou-se-lhe tanto a alma na fé em Cristo, que gritou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.

Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na beira do caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade? Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim? Que bela jaculatória para repetires com freqüência! (…).

Muitos repreendiam-no para o fazer calar. Tal como a ti quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar movido por uma íntima inquietação. E amigos, costumes, comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites! Porque é que hás-de chamar por Jesus? Não O incomodes!

Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim. O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o perseverar na sua oração. Contigo, procede da mesma maneira. Jesus apercebe-Se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos d’Ele: quer que Lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jericó. Imitemo-lo. Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que Lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de Lhe implorar (Hom. sobre S. Mateus, 66).

Jesus, parando, mandou chamá-lo. E alguns dos melhores que O rodeiam, dirigem-se ao cego: Tem confiança; levanta-te; Ele chama-te. É a vocação cristã! Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus. O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te – diz-nos – e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Atirou a capa! Não sei se estiveste alguma vez na guerra. Há já muitos anos, tive ocasião de andar por um campo de batalha, algumas horas depois de ter acabado a luta. Lá havia, abandonados pelo chão, mantas, cantis e mochilas cheias de recordações de família: cartas, fotografias de pessoas queridas… E não pertenciam aos derrotados, mas aos vitoriosos! Tudo aquilo lhes sobrava para correrem mais depressa e saltarem as trincheiras do inimigo. Tal como acontecia com Bartimeu, para correr atrás de Cristo.

Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso o sacrifício. Deitar fora tudo o que estorva: manta, mochila, cantil. Tens de proceder da mesma maneira nesta luta pela glória de Deus, nesta luta de amor e paz, com que procuramos difundir o reinado de Cristo. Para servires a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, deves estar disposto a renunciar a tudo o que sobeja (…).

E imediatamente começa um diálogo divino, um diálogo maravilhoso, que abrasa, porque tu e eu somos agora Bartimeu. Da boca divina de Cristo sai uma pergunta: quid tibi vis faciam? Que queres que te faça? E o cego: Mestre, faz que eu veja. Que coisa mais lógica! E tu, vês? Não te aconteceu já, alguma vez, o mesmo que a esse cego de Jericó? Não posso agora deixar de recordar que, ao meditar neste passo há já muitos anos e ao compreender então que Jesus esperava alguma coisa de mim – algo que eu não sabia o que era! – compus para mim, umas jaculatórias: Senhor, que queres? Que me pedes? Pressentia que me procurava para uma realidade nova e o Rabboni, ut videam – Mestre, que eu veja – levou-me a suplicar a Cristo, numa oração contínua: Senhor, que se faça isso que Tu queres.

Rezai comigo ao Senhor: doce me facere voluntatem tuam, quia Deus meus es tu, ensina-me a cumprir a Tua vontade, porque Tu és o meu Deus. Por outras palavras: que brote dos nossos lábios o afã sincero por corresponder, com um desejo eficaz, aos convites do nosso Criador, procurando seguir os Seus desígnios com uma fé inquebrantável, com a convicção de que Ele não pode falhar (…).

Mas voltemos à cena que se desenrola à saída de Jericó. Agora é contigo que Cristo fala. Diz-te: que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja! E Jesus: Vai, a tua fé te salvou. Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-O pelo caminho. Segui-Lo pelo caminho. Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-lo pelo caminho. Tu procuras seguir os Seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé – fé nessa luz que o Senhor te vai dando – deverá ser operativa e sacrificada. Não te iludas, não penses em descobrir novas formas. É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao Seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo” (Amigos de Deus, nos 195-198).