In Evangelho do dia

Dia 18 de janeiro

Mc 2, 18-22

18Um dia em que os discípulos de João e os dos Fariseus jejuavam, vêm e dizem-Lhe: Porque é que os discípulos de João e os discípulos dos Fariseus jejuam e os Teus discípulos não jejuam? 19Disse-lhes Jesus: Porventura podem os convidados das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo não podem jejuar. 20Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão naquele dia. 21Ninguém cose um remendo de pano não pisoado num vestido velho, senão o conserto novo puxa pelo velho, e o rasgão torna-se ainda maior. 22Como também ninguém deita vinho novo em odres velhos; aliás o vinho arrebentará os odres, e perde-se o vinho e os odres. Para vinho novo, odres novos.

Comentário

18-22. A resposta de Cristo declara, a propósito de um caso particular, as relações entre o Antigo e o Novo Testamento. No Antigo o Esposo ainda não tinha chegado, no Novo está presente em Cristo. Com Ele começam os tempos messiânicos, uma época nova e diferente da anterior. O jejum dos judeus, portanto, deve ser entendido, dentro do conjunto das suas observâncias religiosas, como preparação de todo o povo para a vinda do Messias. Cristo mostra a diferença entre o espírito que Ele traz e o do judaísmo daquela época. Este espírito novo não será uma peça acrescentada ao velho, mas um princípio vivificante dos ensinamentos perenes da antiga Revelação. A novidade do Evangelho, tal como o vinho novo, não cabe nos moldes da Lei antiga.

Mas este passo diz algo mais: para receber a nova doutrina de Cristo é preciso que os homens se renovem por dentro e, por conseguinte, se desprendam das rotinas de uma vida anquilosada.

19-20. Jesus Cristo designa-Se no v. 19 como o Esposo (cfr também Lc 12,35-36; Mt 25,1-13; Ioh 3,29), cumprindo assim o que tinham dito os profetas relativamente às relações de Deus com o Seu povo (cfr Os 2,18-22; Is 54,5 ss.). Os apóstolos são os companheiros do Esposo nas núpcias, convidados a participar com Ele no banquete nupcial, na alegria do Reino dos Céus (cfr Mt 22,1-14).

No v. 20 Jesus Cristo anuncia que o Esposo lhes será arrebatado: é a primeira alusão que faz Jesus à Sua Paixão e Morte (cfr Mc 8,31; Ioh 2,19; 3,14). A visão de alegria e dor, que encontramos nestes dois versículos, ajuda-nos a compreender também a condição humana enquanto caminhamos na terra.

Dia 19 de janeiro

Mc 2, 23-28

23Sucedeu também que, atravessando Ele por meio de umas searas em dia de sábado, os discípulos começaram a colher espigas enquanto caminhavam. 24E os Fariseus diziam-Lhe: Olha! Como é que eles fazem ao sábado o que não é lícito? 25Diz-lhes Ele: Nunca lestes o que fez David, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os que estavam com ele? 26Como entrou na casa de Deus, no tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, que só os sacerdotes podem comer, e deu também aos que estavam com ele? 27E acrescentou: O sábado fez-se para o homem e não o homem para o sábado. 28Por isso o Filho do homem é também senhor do sábado.

Comentário

26-27. Os pães da proposição eram doze pães que se colocavam todas as semanas na mesa do santuário, como homenagem das doze tribos de Israel ao Senhor (cfr Lev 24,5-9). Os pães substituídos ficavam reservados para os sacerdotes que serviam no culto.

O comportamento de Abiatar antecipou a doutrina que Cristo ensina neste passo. Já no Antigo Testamento Deus tinha estabelecido uma ordem nos preceitos da Lei, de modo que os de menor categoria cedem diante dos principais.

À luz disto explica-se que um preceito cerimonial (como o que comentamos) cedesse diante de um preceito da lei natural. Igualmente o preceito do sábado não está por cima das necessidades elementares da subsistência. O Concilio Vaticano II inspira-se neste passo para sublinhar o valor da pessoa por cima do desenvolvimento econômico e social: “A ordem social e o seu progresso devem, pois, reverter sempre em bem das pessoas, já que a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não ao contrário; foi o próprio Senhor quem o insinuou ao dizer que o sábado fora feito para o homem, não o homem para o sábado. Essa ordem, fundada na verdade, construída sobre a justiça e vivificada pelo amor, deve ser cada vez mais desenvolvida” (Gaudium et spes, n. 26).

Finalmente, neste passo Cristo ensina qual era o sentido da instituição divina do sábado: Deus tinha-o instituído para bem do homem, para que pudesse descansar e dedicar-se com paz e alegria ao culto divino. A interpretação dos fariseus tinha convertido este dia em ocasião de angústia e de preocupação por causa da multiplicidade de prescrições e de proibições.

Ao proclamar-Se “senhor do sábado”, Jesus afirma a Sua divindade e o Seu poder universal. Por esta razão, pode estabelecer outras leis, tal como Yahwéh no Antigo Testamento.

28. O sábado tinha sido feito não só para que o homem descansasse, mas para que desse glória a Deus: este é o autêntico sentido da expressão “o sábado foi feito para o homem”. Jesus bem pode chamar-se senhor do sábado, porque é Deus. Cristo restitui ao descanso semanal toda a sua força religiosa: não se trata do mero cumprimento de uns preceitos legais, nem de preocupar-se apenas dum bem-estar material: o sábado pertence a Deus e é um modo, adaptado à natureza humana, de dar glória e honra ao Todo-poderoso. A Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, transferiu a observância deste preceito para o dia seguinte, domingo – dia do Senhor -, para celebrar a Ressurreição de Cristo (Act 20,7).

“Filho do Homem”: A origem do significado messiânico da expressão “Filho do Homem” aparece sobretudo na profecia de Daniel 7,13 ss., que contempla em visão profética que sobre as nuvens do céu desce um “como Filho de Homem”, que avança até ao tribunal de Deus e recebe o senhorio, a glória e o império sobre todos os povos e nações. Esta expressão foi preferida por Jesus (69 vezes aparece nos Evangelhos Sinópticos) a outras denominações messiânicas, como Filho de David, Messias, etc., para evitar, ao mesmo tempo, a carga nacionalista que os outros títulos tinham então na mente dos Judeus.

Dia 20 de janeiro

Mc 3, 1-6

1Entrou outra vez na sinagoga. Achava-se lá um homem que tinha uma das mãos ressequida. 2E eles estavam-No observando, para ver se o curava ao sábado, com intento de O acusarem. 3Então diz ao homem que tinha a mão seca: Levanta-te e vem para o meio. 4Depois pergunta-lhes: É lícito, em dia de sábado, fazer bem, ou fazer mal? Salvar uma vida, ou tirá-la? Mas eles calaram-se. 5E Jesus, lançando sobre eles um olhar de indignação, contristado por ver aqueles corações tão calejados, diz ao homem: Estende a mão. Ele estendeu-a, e a mão ficou curada. 6Os Fariseus, porém, saindo dali, reuniram imediatamente conselho com os Herodianos contra Ele, para O matarem.

Comentário

5. Os evangelistas falam-nos várias vezes do olhar de Jesus (p. ex. ao jovem rico: Mc 10,21; a São Pedro: Lc 22,61; etc.). Esta é a única vez em que se alude à indignação no olhar de Nosso Senhor, provocada pela hipocrisia que foi indicada no v. 2.

6. Os fariseus eram os dirigentes espirituais do judaísmo e os herodianos os partidários do regime de Herodes, com o qual tinham prosperado política e economicamente. Opunham-se uns aos outros e não conviviam, mas juntos vão fazer causa comum contra Jesus. Os fariseus tentam fazê-Lo desaparecer porque O consideram como um perigoso inovador. A ocasião mais imediata pôde ser que tinha perdoado os pecados (Mc 2,1 ss.) e interpretado com toda a autoridade o preceito do sábado (Mc 3,2); querem também acabar com Jesus porque consideram que Ele, com o Seu proceder, os desprestigiou ao curar o homem que tinha a mão seca. Os herodianos, por seu lado, desprezavam o tom sobrenatural e escatológico da mensagem de Cristo, já que eles esperavam um Messias meramente político e temporal.

Dia 21 de janeiro

Mc 3, 7-12

7E Jesus com Seus discípulos retirou-Se para o mar, seguido por uma grande multidão da Galileia; e outra grande multidão da Judeia, 8de Jerusalém, da Idumeia, de além-Jordão e das comarcas de Tiro e de Sidónia, ouvindo as grandes coisas que fazia, veio ter com Ele, 9tanto que disse aos discípulos que Lhe tivessem pronta uma barca, para que o tropel da gente O não oprimisse; 10pois, tendo curado muitos, todos os que tinham doenças se precipitavam para Ele, para Lhe tocarem; 11e os espíritos imundos, quando O viam, caíam-Lhe aos pés, gritando: Tu és o Filho de Deus. 12Mas Ele intimava-lhes com energia que O não dessem a conhecer.

Comentário

10. Durante a vida pública do Senhor repetidamente as multidões aglomeravam-se junto d’Ele para serem curadas (cfr Lc 6,19; 8,45; etc.). Como em muitas curas, São Marcos recolhe graficamente o que Jesus realizava sobre os doentes (cfr Mc 1,31.41; 7,31-37; 8,22-26; Ioh 9,1-7.11.15). O Senhor, ao fazer estas curas, mostra que é Deus e homem ao mesmo tempo: cura em virtude do Seu poder divino, servindo-Se da Sua natureza humana. Com efeito, só no Verbo de Deus feito carne se realizou a obra da nossa Redenção, e o instrumento da nossa salvação foi a Humanidade de Jesus – corpo e alma – na unidade da pessoa do Verbo (cfr Sacrosanctum Concilium, n. 5).

Este aglomerar-se das gentes reitera-se em todos os cristãos de qualquer época, porque a Humanidade Santíssima do Senhor é o único caminho para a nossa salvação e o meio insubstituível para nos unir com Deus. Assim, pois, hoje nós podemos aproximar-nos do Senhor por meio dos sacramentos, de modo singular e eminente pela Eucaristia. Pelos sacramentos flui também para nós, desde Deus e através da Humanidade do Verbo, uma virtude que cura aqueles que os recebem com fé (cfr Suma Teológica, III, q. 62, a. 5).

Dia 22 de janeiro

Mc 3, 13-19

13Subiu depois ao monte e chamou a Si os que EÍe quis, e eles foram-se para junto d Ele. 14E designou doze para andarem com Ele e para os mandar a pregar, 15com poder de expulsarem os Demônios. 16Designou, pois, os doze: Simão, a quem impôs o nome de Pedro; 17Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, isto é, «filhos do trovão»;18André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tome, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, I9e Judas Iscariotes, que foi o que O entregou.

Comentário

13. «Chamou a Si os que Ele quis»: Deus quer ensinar-nos que a vocação é uma iniciativa divina. Isto é particularmente aplicável à vocação dos Apóstolos. Por isso pôde Jesus dizer-lhes mais tarde: «Não fostes vós que Me escolhestes a Mim, mas Eu que vos escolhi a vós» (Ioh 15, 16). Aqueles que iam ter poder e autoridade dentro da Igreja, não obteriam esses poderes em virtude de um oferecimento pessoal, aceite depois por Jesus, mas ao contrário. «Pois não por própria iniciativa e preparação, mas pela graça divina, seriam chamados ao apostolado» (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

14-19. Os Doze são escolhidos por Jesus (cfr 3, 14), recebendo uma vocação específica para serem «enviados», que é o que significa a palavra «apóstolos». Jesus escolhe-os para a missão posterior (6, 6-13), e para isso lhes outorgará parte do Seu poder. O facto de Jesus escolher precisamente doze tem um profundo significado. O seu número corresponde ao dos doze Patriarcas de Israel, e os Apóstolos representam o novo Povo de Deus, a Igreja, fundada por Cristo. Jesus quis assim pôr em relevo a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Eles são as colunas sobre as quais Cristo edifica a Igreja (cfr Gal 2,9). A sua missão consistirá em fazer discípulos do Senhor (ensinar) todos os povos, santificar e governar os crentes (Mt 28, 16-20; Mc 16, 15; Lc 24, 45-48; Ioh 20, 21-23). A própria designação dos Doze mostra que formam um grupo determinado e completo; por isso, depois da morte de Judas, o traidor, é escolhido Matias para completar este número (Act l, 15-26).

14. O Concilio Vaticano II vê neste texto a instituição do Colégio Apostólico: «O Senhor Jesus, depois de ter orado ao Pai, chamando a Si os que Ele quis, elegeu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (cfr Mc 3, 13-19; Mt 10, 1-42); e a estes Apóstolos (cfr Lc 6, 13) constituiu-os em colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe a Pedro, escolhido de entre eles (cfr Ioh 21, 15-17) (…). Esta missão divina confiada por Cristo aos Apóstolos durará até ao fim dos tempos (cfr Mt 28, 20), uma vez que o Evangelho que eles devem anunciar é em todo o tempo o princípio de toda a vida na Igreja. Pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierar­quicamente constituída» (Lumen gentium, nn. 19-20). Portanto, o Papa e os Bispos, que sucedem ao Colégio dos Doze, são também chamados pelo Senhor para estarem sempre com Jesus e pregar o Evangelho, secundados pelos presbíteros.

Insiste-se, por outro lado, em que a vida de união com Cristo e o zelo apostólico devem estar estreitamente vincu­lados; isto é, a eficácia no apostolado depende sempre da união com o Senhor, da oração contínua, e da vida sacra­mentai: «O zelo é uma loucura divina de apóstolo, que te desejo, e que tem estes sintomas: fome de intimidade com o Mestre; preocupação constante pelas almas; perseverança, que nada faz desfalecer» (Caminho, n.° 934).

16. A frase «designou os doze», semelhante a «designou doze» do v. 14, está atestada por muitos manuscritos, apesar de que não a recolhe a Neo-vulgata. A insistência na mesma expressão e o artigo «os doze» manifestam a importância da instituição do Colégio Apostólico.

Dia 23 de janeiro

Mc 3, 20-21

20Votou depois para casa. E de novo acorreu tanta gente, que nem sequer podiam comer um bocado de pão. 21Ao saberem isto, os Seus saíram a ter mão n’Ele, pois se dizia: Está fora de Si.

Comentário

20-21. Alguns dos Seus parentes, deixando-se levar por pensamentos meramente humanos, interpretaram a absor­vente dedicação de Jesus ao apostolado como um exagero, explicável — na sua opinião — apenas por uma perda de juízo. Ao ler estas palavras do Evangelho, não podemos pelo menos deixar de nos sentir afectados pensando naquilo a que Se submeteu Jesus por nosso amor: a que dissessem que tinha «perdido o juízo». Muitos santos, a exemplo de Cristo, passarão também por loucos, mas serão loucos de Amor, loucos de Amor a Jesus Cristo.

Dia 24 de janeiro

Lc 1, 1-4; 4, 14-21

Já que muitos empreenderam concatenar uma narração dos fatos que entre nos se consumaram, Conforme no-los transmitiram os que desde o início foram testemunhas oculares e vieram a ser ministros da Palavra, 3resolvi eu também, que tudo investiguei cuidadosamente desde a origem, descrever-vos, por ordem, excelentíssimo Teófilo, 4para que reconheças a segurança da doutrina em que foste instruído. (…)

14Voltou Jesus com a força do Espírito para a Galileia, e a Sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava pessoalmente nas sinagogas daquela gente, sendo elogiado por todos.

16Veio a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o Seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-Se para ler. 17Foi-Lhe entregue o Livro do Profeta Isaías e, ao abri-lo, deparou com a passagem em que estava escrito:

18O Espírito do Senhor está sobre Mim, por isso que Me ungiu.

A anunciar a Boa. Nova aos pobres Me enviou, a proclamar a libertação aos cativos e o recobrar da vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, 19a proclamar um ano de graça do Senhor.

20E, depois de enrolar o livro, entregou-o ao empregado e sentou-Se. Estavam cra­vados n’Ele os olhos de quantos se encontra­vam na sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir.

Comentário

Versículos do Capítulo I

1-4. São Lucas é o único dos evangelistas que põe um prólogo no seu livro. O que se costuma chamar prólogo do Evangelho de São João é antes uma síntese antecipada do conteúdo do Evangelho. O prólogo de São Lucas, muito breve, expõe numa excelente linguagem literária a intenção que o levou a escrever a sua obra: compor uma história bem ordenada e documentada da vida de Cristo desde as suas origens.

Estes versículos deixam entrever como a mensagem de Salvação de Jesus Cristo, o Evangelho, foi pregado antes de ser posto por escrito. «Os autores sagrados, porém, escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por palavras ou por escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das igrejas, conservando, finalmente, o caráter da pregação, mas sempre de maneira a comunicar-nos coisas autênticas e verdadeiras acerca de Jesus. Com efeito, quer relatassem aquilo que se lembravam e recordavam, quer se baseassem no testemunho daqueles ‘que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra’, fizeram-no sempre com intenção de que conheçamos a ‘verdade’ das coisas a respeito das quais fomos instruídos (cfr Lc 1,2-4)» (Dei Verbum, n. 19). Assim pois. Deus quis que tenhamos nos Evangelhos escritos um testemunho divino e perene em que se apoia firmemente a nossa fé.« Não dá a conhecer a Teófilo coisas novas e desconhecidas, mas promete expor-lhe i verdade das coisas acerca das quais já está instruído. Isto é para que possas conhecer tudo o que te foi dito acerca do Senhor ou foi feito por Ele» (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

As «testemunhas oculares» a que se refere o Evangelista podem ter sido a Santíssima Virgem, os Apóstolos, as santas mulheres e outras pessoas que conviveram com Jesus durante a Sua vida na terra.

3. «Resolvi»: «Quando diz ‘resolvi’ não exclui a ação de Deus; porque Deus é quem prepara a vontade dos homens

(…)-

« Dedica o seu Evangelho a Teófilo, isto é, àquele a quem Deus ama. Mas se amas a Deus, também para ti foi escrito; e se foi escrito para ti, recebe este presente do Evangelista, conserva com cuidado no mais íntimo do teu coração esta prenda dum amigo» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Versículos do Capítulo IV

16-30. O sábado era o dia de descanso e de oração para os Judeus, por mandamento de Deus (Ex 20,8-11). Neste dia reuniam-se para se instruírem na Sagrada Escritura. Começava a reunião recitando todos juntos a Shemá, resumo dos preceitos do Senhor, e as dezoito bênçãos. Depois lia-se um passo do livro da Lei — o Pentateuco —- e outro dos Profetas, O presidente convidava algum dos presentes que conhecesse bem as Escrituras a dirigir a palavra ao auditório. Por vezes levantava-se algum voluntariamente e solicitava a honra dei cumprir este encargo. Assim deve ter acontecido nesta ocasião. Jesus busca a oportunidade de instruir o povo (cfr Lc 4,16 ss.), e o mesmo farão depois os Apóstolos (cfr Act 13,5.14.42.44; 14,l, etc.). A reunião judaica terminava com a bênção sacerdotal, que recitava o presidente ou um sacerdote se o havia, à qual todos respondiam: «Amen» (cfr Num 6,22 ss.).

18-21. Jesus leu o passo de Isaías 61,1-2, onde o profeta anuncia a chegada do Senhor que libertará o povo das suas aflições. N’Ele se cumpre essa profecia, já que é o Ungido, o Messias que Deus enviou ao Seu povo atribulado. Jesus j recebe a unção do Espírito Santo para a missão que o Pai Lhe confia. «Segundo São Lucas (w. 18-19), estas afirmações são a Sua primeira declaração messiânica, à qual se seguem os factos e as palavras conhecidos por intermédio do Evangelho. Mediante tais factos e palavras, Cristo torna o Pai presente no meio dos homens» (Dives in misericórdia n. 3).

As promessas anunciadas nos vv. 18 e 19 constituem o conjunto de bens que Deus enviaria ao Seu povo por meio do Messias. Por «pobres» deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus (cfr a nota a Mt 5,3), não tanta! uma determinada condição social mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e misericórdia divinas. Por isso evangelizar os pobres é anunciar-lhes a «boa notícia» de que Deus Se compadeceu deles. Do mesmo modo, a Redenção, a que alude o texto, tem sobretudo um sentido espiritual e trans­cendente: Cristo vem livrar-nos da cegueira e da opressão do pecado, que são, em última análise, a escravidão a que nos submeteu o demônio. «O cativeiro é sensível — ensina São João Crisóstomo num comentário ao Salmo 126 — quando procede de inimigos corporais; mas pior é o cati­veiro espiritual a que se refere aqui, já que o pecado produz a mais dura tirania, manda o mal e confunde os que lhe obedecem: deste cárcere espiritual nos tirou Jesus Cristo» (Catena Áurea). Não obstante, este passo cumpre-se, além disso, na preocupação que Jesus manifesta pelos mais neces­sitados. «De igual modo, a Igreja abraça com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo» (Lumen gentiiim, n. 8).

18-19. As palavras de Isaías, que Cristo leu nesta ocasião, descrevem de modo gráfico a finalidade para que Deus enviou o Seu Filho: a redenção do pecado, a libertação da escravidão do demônio e da morte eterna. É certo que Cristo durante o Seu ministério público, movido pela Sua misericórdia, fez algumas curas, livrou alguns endemoninhados, etc. Mas não curou todos os doentes do mundo, nem suprimiu todas as penalidades desta vida, porque a dor, introduzida no mundo pelo pecado, tem um irrenunciável valor redentor unida aos sofrimentos de Jesus. Por isso, o Senhor realizou alguns milagres, que constituem não tanto o remédio das dores em tais casos concretos, mas a mostra da Sua missão divina de redenção universal e eterna.

A Igreja continua esta missão de Cristo: «Ide, pois, e fazei discípulos todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. E sabei que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,19-20). São as palavras simples e sublimes do fim do Evangelho de São Mateus: aí está assinalada «a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida sacramentai, a promessa da assistência contínua de Cristo à Sua Igreja. Não se é fiel ao Senhor se se desatendem essas realidades sobrenaturais: a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos. Com este mandato Cristo funda a Sua Igreja (…). E a Igreja só pode dar a salvação às almas se permanece fiel a Cristo na sua constituição, nos seus dogmas, na sua moral.

«Rejeitemos, portanto, o pensamento de que a Igreja — esquecendo o Sermão da Montanha — busca a felicidade humana na terra, porque sabemos que a sua única tarefa consiste em levar as almas à glória eterna do paraíso; rejeitemos qualquer solução naturalista, que não aprecie o papel primordial da graça divina; rejeitemos as opiniões materia­listas, que procuram fazer perder a sua importância aos valores espirituais na vida do homem; rejeitemos de igual modo as teorias secularizantes, que pretendem identificar os fins da Igreja de Deus com os dos Estados terrenos: confundindo a essência, as instituições, a atividade, com características semelhantes às da sociedade temporal» (J. Escrivá de Balaguer, Hom. O fim sobrenatural da Igreja).

18. Os Santos Padres vêem designadas neste versículo as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Espírito (Espírito Santo) do Senhor (o Pai) está sobre Mim (o Filho) (cfr Orígenes, Homília 32). O Espírito Santo habitava na alma de Cristo desde o instante da Encarnação, e desceu visível mente em forma de pomba quando foi batizado por João (cfr Lc 3,21-22).

«Por isso que Me ungiu»: Refere-se à unção que Jesus Cristo recebeu no momento da Encarnação, principalmente pela graça da união hipostática. «Esta unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente» (Catecismo Maior, n.° 77). Desta união hipostática deriva a plenitude de todas as graças. Para a significar diz-se que Jesus Cristo foi ungido pelo próprio Espírito Santo, e não só recebeu as graças e os dons do Espírito Santo, como os santos.

19. «Ano de graça»: Alude ao ano jubilar dos judeus, estabelecido pela Lei de Deus (Lev 25,8 ss.) cada cinqüenta anos, para simbolizar a época de redenção e liberdade que trará o Messias. A época inaugurada por Cristo, o tempo da Nova Lei até ao fim deste mundo, é o «ano de graça», o tempo da misericórdia e da redenção, que se alcançarão completamente na vida eterna.

De maneira semelhante, a instituição do Ano Santo na Igreja Católica tem este sentido de anúncio e recordação da Redenção trazida por Cristo e da sua plenitude na vida futura.

20-22. As palavras dó versículo 21 mostram-nos a autoridade com que Cristo falava e explicava as Escrituras: «Cumpriu-se hoje este passo da Escritura que acabais de ouvir». Jesus ensina que esta profecia, como as principais do AT, se referem a Ele e n’Ele têm o seu cumprimento (cfr Lc 24,44 ss.). Por isso, o AT não pode ser retamente entendido senão à luz do NT: nisto consiste a inteligência para entender as Escrituras que Cristo Ressuscitado deu aos Apóstolos (cfr Lc 24,45) e que o Espírito Santo completou no dia de Pentecostes (cfr Act 2,4).

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