In Evangelho do dia

Dia 16 de novembro

Lc 18, 35-43

35Quando Ele Se aproximava de Jericó, estava um cego sentado a pedir, à beira da estrada. 36Ouvindo esta multidão que passava, informou-se do que era aquilo. 37Referiram-lhe que era Jesus de Nazaré que ia a passar. 38Ele então bradou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim! 39Os que vinham à frente repreendiam-no para ele se calar. Mas ele gritava muito mais: Filho de David, tem piedade de mim! 40Jesus, parando mandou que Lho trouxessem. Quando ele se aproximou, perguntou-lhe: 41Que queres que te faça? Senhor – disse ele – que eu veja. 42E Jesus retorquiu-lhe: Vê! Salvou-te a tua fé. 43Ele começou imediatamente a ver e pôs-se a segui-Lo, glorificando a Deus. E todo o povo, ao ver isto, deu louvores a Deus.

Comentário

35-43. O cego de Jericó aproveita sem demora a ocasião da passagem de Jesus. Não se podem desperdiçar as graças do Senhor porque não sabemos se as voltará a conceder. Santo Agostinho formulou lapidarmente a urgência de corresponder ao dom divino, à passagem de Cristo, com a conhecida frase: Timeo Jesum praetereuntem et non redeuntem, “temo que Jesus passe e não volte”. Porque Jesus, alguma vez pelo menos, passa pela vida de todos os homens.

O cego de Jericó confessa a gritos que Jesus é o Messias – dá-Lhe o título messiânico de Filho de David -, e pede-Lhe o que necessita: ver. A sua fé é activa: grita, insiste, apesar dos obstáculos da gente. E consegue que Jesus o oiça e o chame. Deus quis que no santo Evangelho tenha ficado registrado o episódio deste homem, exemplo de como deve ser a nossa fé e a nossa petição: firme, sem adiamentos, constante, por cima dos obstáculos, simples, até conseguir chegar ao coração de Jesus Cristo.

“Senhor, que eu veja”: Esta jaculatória simples deve aflorar continuamente aos nossos lábios, saída do mais fundo do coração. É muito útil repeti-la em momentos de dúvida, de vacilação, quando não entendemos os planos de Deus, quando escurece o horizonte da entrega. Inclusivamente é válida para aqueles que buscam a Deus sinceramente, sem que ainda tenham o dom inapreciável da fé.

Dia 17 de novembro

Lc 19, 1-10

1Entrando em Jericó, pôs-Se a atravessá-la. 2Nisto, apareceu um homem chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos e pessoalmente rico. 3Procurava ele ver quem era Jesus e não podia, devido à multidão, por ser de pequena estatura. 4Correndo à frente, subiu a um sicómoro, para O ver, porque devia passar por ali. 5Logo que chegou ao local, olhou Jesus para cima e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa. 6Ele desceu rapidamente e recebeu-O cheio de alegria. 7Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-Se em casa dum pecador. 8Zaqueu estacou e disse ao Senhor: Olha, Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir o quádruplo. 9Respondeu-lhe Jesus: Veio hoje a salvação para esta casa, por este ser também filho de Abraão, 10pois o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido.

Comentário

1-10. Jesus Cristo é o Salvador dos homens; curou muitos doentes, ressuscitou mortos, mas sobretudo trouxe o perdão dos pecados e o dom da graça aos que se aproximam d’Ele com fé. Como antes no caso da pecadora (cfr Lc 7,36-50), agora Jesus traz a salvação a Zaqueu, visto que a missão do Filho do Homem é salvar o que estava perdido.

Zaqueu pertencia à classe dos publicanos, odiados pelo povo porque eram colaboradores do poder romano e abusavam frequentemente na cobrança de impostos. O Evangelho deixa entrever que também este homem tinha de que se arrepender (cfr vv, 7-10). O certo é que quer ver o Senhor, sem dúvida movido pela graça, e para isso põe todos os meios ao seu alcance. Jesus premeia este esforço de Zaqueu, hospedando-Se em sua casa. Comovido pela presença do Senhor inicia uma vida nova.

Aqueles que vêem esta cena murmuram contra Jesus, porque trata afectuosamente um homem a quem eles consideram pecador. O Senhor, em vez de Se desculpar, manifesta claramente que veio precisamente para isso: para buscar os pecadores. Este episódio torna realidade a parábola da ovelha perdida (cfr Lc 15,4-7), cujo ensinamento já estava profetizado em Ezequiel: “Buscarei a ovelha perdida, reconduzirei a que se tinha tresmalhado, curarei a ferida e tratarei da que está doente” (34,16).

4. O sicómoro é uma árvore semelhante à amoreira, mas de mais altura e de tronco mais grosso.

Zaqueu quer ver Jesus. Para o conseguir não vê inconveniente em misturar-se com a multidão. Como o cego de Jericó salta por cima dos respeitos humanos. Assim há-de ser a nossa busca de Deus: nem falsa vergonha nem medo ao ridículo devem impedir que ponhamos os meios para encontrar o Senhor. “Convence-te de que o ridículo não existe para quem faz o melhor” (Caminho, n° 392).

5-6. Estamos diante de uma clara manifestação de como actua Deus para salvar os homens. Jesus chama individualmente, pelo seu nome, Zaqueu, pedindo-lhe que O receba em sua casa. O Evangelho sublinha que O recebeu prontamente e com alegria. Assim devemos responder nós aos chamamentos que Deus nos faz através da Sua graça.

8. Zaqueu, na sua imediata correspondência à graça, manifesta o propósito de devolver o quádruplo do que injustamente poderia ter defraudado. Com isto vai mais além do que ordena a Lei de Moisés (cfr Ex 21,37s.). Além disso, numa generosa compensação, entrega aos pobres a metade dos seus bens. “Aprendam os ricos – comenta Santo Ambrósio – que não consiste o mal em ter riquezas, mas em não usar bem delas; porque assim como as riquezas são um impedimento para os maus, são também um meio de virtude para os bons” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

10. Este desejo ardente de Jesus de buscar um pecador para o salvar há-de encher-nos da esperança de alcançar a salvação eterna: “Escolhe um chefe de publicanos: quem desesperará de si mesmo quando este alcança a graça?” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Dia 18 de novembro

Mt 14, 22-33

22E Ele obrigou logo os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto despedia as turbas. 23Despedidas as turbas, subiu sozinho ao monte, a orar. Ao cair da noite, estava ali sozinho. 24Entretanto, a barca afastara-se já muitos estádios da terra, açoitada pelas ondas, porque o vento era contrário. 25Na quarta vigília da noite, veio Jesus ter com eles, caminhando sobre o mar. 26Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se e disseram: É um fantasma! E gritaram de terror. 27Mas logo Jesus lhes falou, dizendo: Tende confiança! Sou Eu, não temais. 28Tornou-Lhe Pedro: Senhor, se és Tu, manda-me ir ter contigo, por cima das águas. 29Vem! disse Ele. Saltou Pedro da barca e começou a andar por cima das águas, dirigindo-se para Jesus. 30Vendo, porém, um vento forte, amedrontou-se; e, começando a afundar-se, gritou: Senhor, acode-me! 31E Jesus, imediatamente, estendendo-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, porque duvidaste? 32Apenas subiram para a barca, cessou o vento. 33E os que estavam na barca adoraram-No, exclamando: És verdadeiramente o Filho de Deus.

Comentário

22-23. O dia tinha sido intenso, como outros tantos de Jesus. Depois de ter feito muitas curas (14, 14), tem lugar o impressionante milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que é figura antecipada da Santíssima Eucaristia. Aquela multidão que O tinha seguido encontrava-se faminta de pão, de palavra e de consolação. Jesus “condoeu-Se dela” (14,14), curou os seus doentes e reconfortou a todos com a Sua palavra e com o pão. Isto não era senão uma antecipação da contínua acção amorosa de Jesus, ao longo dos séculos, com todos nós, necessitados e reconfortados com a Sua palavra e o alimento do Seu próprio Corpo. Tinham sido, pois, muitas as coisas daquele dia e muito intensa a emoção da alma de Jesus, que conhecia a acção vivificante que tinha de exercer o Santíssimo Sacramento na vida dos cristãos: Sacramento que é um mistério de vida, de fé e de amor. Por tudo isso podemos razoavelmente pensar que Jesus sentia necessidade de ter umas horas de recolhimento íntimo para falar com o Pai. A oração a sós de Jesus, entre a actividade de um trabalho e outro, ensina-nos a necessidade deste recolhimento da alma cristã, que acorre a falar com seu Pai Deus, entre os afazeres quotidianos da vida. Sobre a frequente oração pessoal de Jesus, vejam-se, entre outros: Mc 1, 35; 6,47; Lc 5,16; 6,12.

24-33. O impressionante episódio de Jesus a caminhar sobre as águas deve ter feito pensar muito os Apóstolos, e ter ficado gravado vivissimamente entre as suas recordações da vida com o Mestre. Não só São Mateus, mas também São Marcos (6, 45-52), que o deve ter ouvido de São Pedro, e São João (6, 14-21) incluem-no nos seus respectivos Evangelhos.

As tempestades no lago de Genesaré são frequentes e redemoinham as águas, constituindo um grave perigo para as embarcações pesqueiras. Desde o alto do monte, Jesus em oração não esquece os Seus discípulos. Vê-os a esforçar-se na luta com o vento que lhes era contrário e com as ondas. E terminada a oração aproxima-Se deles para os ajudar.

O episódio ilumina a vida cristã. Também a Igreja, como a barca dos Apóstolos, se vê combatida. Jesus, que vela por ela, acode a salvá-la, não sem antes tê-la deixado lutar para fortalecer a têmpera dos seus filhos. E anima-os: “Tende confiança! Sou Eu, não temais” (14,27). E vêm as provas de fé e de fidelidade: a luta do cristão por manter-se firme, e o grito de súplica do que vê que as suas próprias forças fraquejam: “Senhor, salva-me!” (14, 30); palavras de Pedro que volta a repetir toda a alma que acorre a Jesus como ao seu verdadeiro Salvador. Depois, o Senhor salva-nos. E, no fim, brota a confissão da fé, que então como agora deve proclamar: “És verdadeiramente o Filho de Deus” (14,33).

29-31. São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 50) comenta que neste episódio Jesus ensinou a Pedro a conhecer, por experiência própria, que toda a sua fortaleza lhe vinha do Senhor, enquanto de si mesmo só podia esperar fraqueza e miséria. Por outro lado, o Crisóstomo chega a dizer que “quando falta a nossa cooperação cessa também a ajuda de Deus”. Daí a repreensão “homem de pouca fé” (14, 31). Por isso quando Pedro começou a temer e a duvidar, começou também a afundar-se até que, de novo, cheio de fé, gritou: “Senhor, salva-me!”.

Se como Pedro fraquejamos nalgum momento, esforcemo-nos também como ele na nossa fé e gritemos a Jesus para que venha salvar-nos.

Dia 19 de novembro

Lc 19, 41-44

41Quando Se aproximou, ao ver a cidade, chorou sobre ela, 42dizendo: Se neste dia tivesses conhecido, tu também, os trâmites da paz! Mas não; foram vedados a teus olhos. 43É que virão dias para ti, em que os teus inimigos hão-de levantar um entrincheiramento à tua volta, te hão-de cercar e apertar de todos os lados; 44hão-de esmagar-te contra o solo, bem como a teus filhos dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada.

Comentário

41-44. Quando a comitiva chega a um lugar donde se domina a cidade, a sua alegria vê-se perturbada pelo inesperado pranto de Jesus. O Senhor explica a razão da Sua dor ao profetizar a destruição da Cidade Santa que Ele tanto amava: não ficará pedra sobre pedra e os seus moradores serão esmagados, profecia que se cumpriu no ano 70, quando Tito arrasou a cidade e destruiu o Templo.

No desenvolvimento dos acontecimentos históricos cumpre-se um castigo: Jerusalém não conheceu a visita que lhe foi feita, isto é, permaneceu insensível diante da vinda salvadora do Redentor. Jesus teve para os judeus um amor de predilecção: foram os primeiros a receber a pregação do Evangelho (cfr Mt 10,5-6); a eles dedicou o Senhor o Seu ministério (cfr Mt 15,24). Tinha mostrado com a Sua palavra e os Seus milagres que era o Filho de Deus e o Messias anunciado nas Escrituras. Não obstante, os judeus desprezaram a graça que o Senhor vinha trazer-lhes: os dirigentes da nação judaica arrastaram o povo até pedir a crucifixão.

Jesus visita-nos a cada um de nós, vem como o nosso Salvador, ensina-nos por meio da pregação da Igreja, dá-nos o Seu perdão e a Sua graça nos Sacramentos. Não devemos rejeitar o Senhor, não devemos permanecer insensíveis à Sua visita.

Dia 20 de novembro

Lc 19, 45-48

45Entrando no Templo, começou a expulsar os vendedores, 46dizendo-lhes: Está escrito: A Minha casa há-de ser casa de oração! Mas vós fizestes dela um antro de salteadores.

47Estava todos os dias no Templo a ensinar. Ora os Sumos Sacerdotes e os Escribas procuravam perdê-Lo, e os principais dentre o povo também, 48mas não atinavam com o que haviam de fazer, pois todo o povo ficava suspenso ao ouvi-Lo.

Comentário

45-48. A indignação de Jesus manifesta o Seu zelo pela glória do Pai, que deve ser reconhecida agora no respeito pelo Templo. De modo enérgico repreende os vendedores pelo exercício de funções alheias ao culto divino (cfr Mt 21,12; Mc 11,15). Os próprios sacerdotes permitiam semelhantes abusos, que também traziam benefícios para eles ao cobrarem umas taxas. Os vendedores realizavam funções necessárias para o culto divino, mas tinham-nas viciado pelo seu afã de lucro, convertendo o Templo num mercado.

“A Minha casa há-de ser casa de oração”: Com este texto de Isaías (56,7; cfr Ier 7,11) Jesus sublinha a finalidade do Templo. O gesto do Senhor ensina o respeito que merecia o Templo de Jerusalém. Quanta maior veneração merecem os nossos templos, onde o próprio Jesus está realmente presente na Santíssima Eucaristia.

Dia 21 de novembro

Mt 12, 46-50

46Enquanto Ele falava ao povo, estavam fora Sua Mãe e irmãos, procurando falar-Lhe. 47Disse-Lhe alguém: Olha, Tua Mãe e Teus irmãos estão lá fora e querem falar-Te. 48Ele, porém, respondeu ao que Lho disse: Quem é a Minha mãe e quem são os Meus irmãos? 49E, estendendo a mão para os Seus discípulos, disse: Eis a Minha mãe e os Meus irmãos. 50Porque todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, e irmã, e mãe.

Comentário

46-47. “Irmãos”: Nos idiomas antigos, hebraico, árabe, aramaico, etc., não havia palavras concretas para indicar os graus de parentesco que existem noutros idiomas mais modernos. Em geral, todos os pertencentes a uma mesma família, clã, inclusive tribo, eram “irmãos”.

No caso concreto que aqui nos ocupa deve ter-se presente, além disso, que os familiares de Jesus eram parentes de diverso grau e que se trata de dois grupos: uns por parte da Santíssima Virgem, e outros de São José. Mt 13, 55-56 menciona, como a viver em Nazaré, Tiago, José, Simão e Judas “irmãos do Senhor”, e alude também a “irmãs” (cfr Mc 6, 3). Por outro lado, Mt 27, 56 diz-nos que destes, Tiago e José são filhos de uma certa Maria, diferente da Virgem, e Simão e Judas não são irmãos de Tiago e José, mas, segundo parece, filhos de um irmão de São José.

Jesus, porém, era para todos “o filho de Maria” (Mc 6, 3) ou “o filho do carpinteiro” (Mt 13, 55).

A Igreja sempre professou com plena certeza que Jesus Cristo não teve irmãos de sangue em sentido próprio: é o dogma da perpétua virgindade de Maria.

48-50. É evidente o amor de Jesus por Sua mãe Santa Maria e por São José. O Nosso Salvador aproveita este episódio para nos ensinar que no Seu Reino os direitos do sangue não têm primazia. Em Lc 8,19 encontramos a mesma doutrina. O que faz a vontade do Seu Pai Celeste é considerado por Jesus como da Sua própria família. Por isso, mesmo sacrificando os sentimentos naturais da família, deverá abandoná-la quando lho peça o cumprimento da missão que o Pai lhe confiou (cfr Lc 2,49).

Podemos dizer que a própria Virgem Maria é mais amada por Jesus por causa dos laços criados entre ambos pela graça do que em virtude da geração natural, que fez d’Ela Sua Mãe segundo a carne: a maternidade divina é a fonte de todas as outras prerrogativas da Santíssima Virgem; mas esta mesma maternidade é, por sua vez, a primeira e a maior das graças outorgadas a Maria.

Dia 22 de novembro

Jo 18, 33b-37

33 Então Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e disse-Lhe: Tu és o Rei dos Judeus? 34Jesus respondeu-lhe: É por ti mesmo que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim? 35Porventura sou eu judeu? replicou Pilatos. A Tua nação e os Sumos Sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste? 36Jesus retorquiu: O Meu Reino não é deste mundo. Se o Meu Reino fosse deste mundo, os Meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue aos Judeus. Mas, de facto, o Meu Reino não é daqui. 37Disse-Lhe então Pilatos: Logo Tu és Rei? É como dizes — retorquiu Jesus — sou Rei! Para isso é que Eu nasci e para isso é que vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a Minha voz.

Comentário

33-34. A Pilatos não lhe incumbe intervir em questões religiosas, mas como a acusação que lhe apresentam contra Jesus diz respeito à ordem pública e política, o seu interro­gatório começa obviamente com a averiguação da denúncia fundamental: «Tu és o Rei dos judeus?».

Jesus, ao responder com uma nova pergunta, não evita a resposta, mas quer, como sempre, deixar claro o caracter espiritual da Sua missão. Realmente a resposta não era fácil, pois, na perspectiva de um gentio, um Rei dos Judeus era simplesmente um conspirador contra o Império; pelo con­trário, na perspectiva dos judeus nacionalistas, o Rei Messias era o libertador político-religioso que lhes conseguiria a independência. A verdade do messianismo de Cristo trans­cende por completo ambas as concepções, e é o que Jesus explica ao Procurador, mesmo sabendo a enorme dificul­dade que implica compreender a verdadeira natureza do Reino de Cristo.

35-36. Depois do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus tinha-Se negado a ser proclamado rei, porque a multidão pensava num reino temporal (cfr Ioh 6,15). Não obstante, Jesus entra triunfalmente em Jeru­salém e aceita que O aclamem como Rei-Messias. Agora, na Paixão, reconhece diante de Pilatos que Ele é verdadeira­mente Rei, esclarecendo que o Seu reino não é como os da terra. Por isso «aqueles que esperavam do Messias um poderio temporal visível, enganavam-se: porque o Reino de Deus não consiste em comer e beber, mas em paz, justiça e alegria no Espírito Santo (Rom XIV, 17).

«Verdade e justiça, paz e júbilo no Espírito Santo. Esse é o reino de Cristo. A acção divina que salva os homens culminará com o fim da história, quando o Senhor, que Se senta no mais alto do paraíso, vier julgar definitivamente os homens» (Cristo que passa, n.° 180).

37. Este é o sentido profundo da Sua realeza: o Seu reino é «o reino da Verdade e da Vida, o reino da Santidade e da Graça, o reino da Justiça, do Amor e da Paz» (Prefácio da Missa de Cristo Rei). Cristo reina sobre aqueles que aceitam e vivem a Verdade por Ele revelada: o amor do Pai (Ioh 3,16; l Ioh 4,9). Faz-Se carne para manifestar esta Verdade, e para que os homens possam conhecê-la e aceitá-la. E assim os que reconhecem a realeza e a soberania de Cristo submetem-se a Ele, que desse modo reina sobre eles com um reinado eterno e universal.

Por seu lado, «a Igreja, contemplando Cristo que dá testemunho da Verdade, sempre e em toda a parte, deve perguntar a si mesma, e em certo sentido também ao ‘mundo’ contemporâneo, de que modo suscitara bem a partir do homem, como libertar as energias do bem que há no homem, para que seja mais forte que o mal, que qualquer mal moral, social, etc.» (Audiência geral João Paulo II, 21-11-1979).

Os cristãos, «se pretendemos que Cristo reine, temos de ser coerentes, começando por Lhe entregar o nosso coração. Se não o fizéssemos, falar do reino de Cristo seria vozearia sem substância cristã, manifestação exterior de uma fé inexistente, utilização fraudulenta do nome de Deus para compromissos humanos (…). Se deixarmos que Cristo reine na nossa alma, não nos tornaremos dominadores; seremos servidores de todos os homens. Serviço. Como gosto desta palavra! Servir o meu Rei e, por Ele, todos os que foram redimidos com o Seu sangue. Se os cristãos soubessem servir! Vamos confiar ao Senhor a nossa decisão de aprender a realizar esta tarefa de serviço, porque só servindo pode­remos conhecer e amar Cristo e dá-Lo a conhecer e conseguir que os outros O amem mais»(Cristo que passa, n.os 181-182). Jesus, mediante a Sua Morte e Ressurreição, demonstra que o julgamento levado avante contra Ele pelos homens era falso, mentiroso; era Cristo quem dizia a verdade, e não os Seus juizes e acusadores, e Deus apoia a verdade de Jesus, a verdade das Suas palavras, dos Seus factos, da Sua Reve­lação, mediante o milagre singular da Sua Ressurreição gloriosa. Para os homens, a realeza de Cristo pode parecer um paradoxo: vive para sempre tendo morrido, vence sendo derrotado no julgamento e na Cruz, a verdade, oprimida por uns dias, sai vitoriosa depois da morte. «E o próprio Jesus Cristo, quando compareceu prisioneiro diante do tribunal de Pilatos e por ele foi interrogado (…) porventura não respondeu: ‘Para isto é que Eu nasci e para isto é que Eu vim ao mundo: para dar testemunho da verdade’? Com tais palavras (…) foi como se quisesse confirmar, uma vez mais ainda, o que já havia dito antes: ‘Conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres’. No decorrer de tantos séculos e de tantas gerações, a começar nos tempos dos Apóstolos, não foi acaso o mesmo Jesus Cristo que tantas vezes compareceu ao lado dos homens julgados por causa da verdade? Cessa Ele, porventura, de continuamente ser o porta-voz e advo­gado do homem que vive ’em espírito e em verdade?’ (cfr Ioh 4.23 s.). Do mesmo modo que não cessa de sê-lo em relação à história do homem» (Redemptor hominis, n. 12).

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