dia 16 a 22 de fevereiro de 2009

Dia 16 de fevereiro

Mc 8, 11-13

11Vieram os Fariseus e começaram a disputar com Ele, pedindo-Lhe, para O tentarem, um sinal do céu. 12Ele, arrancando um suspiro do íntimo da alma, disse: Porque é que esta geração pede um sinal? Digo-vos, em verdade, que não se dará nenhum sinal a esta gera­ção. 13E, deixando-os, embarcou outra vez e foi para a margem oposta.

Comentário

11-12. Jesus exprime assim a profunda tristeza que Lhe causava o endurecimento do coração dos fariseus: estes permanecem cegos e incrédulos diante da luz que brilhava na sua presença e dos prodígios que Cristo realiza. Para o homem que rejeita os milagres que Deus já lhe ofereceu, será inútil que exija novos sinais, porque esse pedido não procede de uma busca sincera da verdade mas de uma malevolência, que no fundo o que pretende é tentar Deus (cfr Lc 16,27-31). A exigência de novos milagres para crer, sem aceitar os realizados na História da Salvação, é pedir contas a Deus, a Quem se cita diante do tribunal dos homens (cfr Rom 2,1-11): o homem constitui-se em juiz, e o Senhor é deman­dado para que Se defenda. Esta atitude repete-se, infeliz­mente, na vida de muitos homens. Só se pode encontrar Deus quando temos uma disposição aberta e humilde. «Não necessito de milagres; bastam-me os que há na Escritura. — Pelo contrário, faz-me falta o teu cumprimento do dever, a tua correspondência à graça» (Caminho, n.° 362).

12. A geração a que alude Jesus não inclui todos os homens do Seu tempo, mas refere-se aos fariseus e aos seus sequazes (cfr Mc 8,38; 9,19; Mt 11,16), que não querem ver nos milagres o sinal e a garantia da missão e dignidade messiânicas de Jesus, mas inclusivamente os atribuem ao poder de Satanás (Mt 12,28).

Se não aceitam os sinais que lhes são dados, não lhes será dado nenhum outro, tão espectacular como o que eles buscam, porque o Reino de Deus não vem aparatosamente (Lc 17,20-21) e porque inclusivamente poderiam continuar a interpretar torcidamente esse novo sinal (Lc 16,31). Segundo Mt 12,38-42 e Lc 11,29-32, é-lhes oferecido ainda outro sinal, único: o milagre de Jonas, sinal da Morte e da Ressurreição de Jesus Cristo; mas diante desta prova excepcional os fariseus também não deporão a sua soberba.

Dia 17 de fevereiro

Mc 8, 14-21

14Ora os discípulos esqueceram-se de levar pão e não tinham consigo no barco mais que um. 15E Ele recomendava-lhes: Olhai: Cui­dado com o fermento dos Fariseus e com o fermento de Herodes! 16E eles começaram a discorrer uns com os outros que não tinham pão. 17Ele percebeu e disse-lhes: Porque estais a discorrer que não tendes pães? Não compreendeis ainda nem reflectis? Tendes a inteligência embotada? 18Tendo olhos, não vedes; tendo ouvidos, não ouvis? Nem vos lembrais 19de quantos cestos cheios de pedaços recolhestes, quando parti os cinco pães para aqueles cinco mil? Responderam-Lhe: Doze. 20E quando parti os sete para os quatro mil, quantos cabazes cheios de pedaços reco­lhestes? Sete, responderam. 21E dizia-lhes: Ainda não compreendeis?

Comentário

15-16. Noutro passo dos Evangelhos — Lc 13,20-21; Mt 13,33 — a imagem do fermento foi empregada por Jesus para significar a força que encerrava a Sua doutrina. Aqui a palavra « fermento» é utilizada no sentido de má disposição. Com efeito, na elaboração do pão, como é sabido, o fermento é que faz levedar a massa. A hipocrisia farisaica e a vida dissoluta de Herodes, que só se movia por ambições pessoais, eram o «fermento» que contagiava desde dentro a «massa» de Israel, para acabar por corrompê-la. Jesus quer prevenir os Seus discípulos contra esses perigos, e fazê-los compreen­der que para receber a Sua doutrina se necessita de um coração puro e simples.

Mas os discípulos não compreendem. «Não eram cultos. nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobi sparabolam, Senhor explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão (…). Eram estes os Discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportavam antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens corren­tes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus» (Cristo que passa, n.° 2). Isto mesmo é o que nos pode acontecer a nós. Ainda que não tenhamos grandes dotes nem qualidades, o Senhor chama-nos, e o amor de Deus e a docilidade às Suas palavras farão brotar nas nossas almas frutos imprevisíveis de santidade e de eficácia sobrenatural. nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam, Senhor explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão (…). Eram estes os Discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportavam antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens corren­tes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus» (Cristo que passa, n.° 2). Isto mesmo é o que nos pode acontecer a nós. Ainda que não tenhamos grandes dotes nem qualidades, o Senhor chama-nos, e o amor de Deus e a docilidade às Suas palavras farão brotar nas nossas almas frutos imprevisíveis de santidade e de eficácia sobrenatural.

Dia 18 de fevereiro

Mc 8, 22-26

22Chegam a Betsaida; e lá trazem-Lhe um cego e pedem-Lhe que o toque. 23Ele, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da povoação. Pôs-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos e perguntou-lhe: Vês alguma coisa? 24Levantou ele os olhos e disse: Vejo os homens; vejo-os andar semelhantes a árvores.

25Impôs-lhe de novo as mãos sobre os olhos, e ele começou a ver distintamente e ficou curado, tanto que de longe via bem e clara­mente todas as coisas. 26Mandou-o então para sua casa e disse-lhe: Nem sequer entres na povoação.

Comentário

22-25. As curas que fez Jesus costumavam ser instantâ­neas. Esta, porém, teve um breve processo. Por quê? Porque a fé do cego era muito débil, segundo parece, num princípio. Antes de curar os olhos do corpo, Jesus quis que tosse crescendo a fé daquele homem: à medida que a sua fé crescia e aumentava a sua confiança, o Senhor foi-lhe dando a visão corporal. Assim, pois, Jesus seguiu o Seu modo habitual de proceder: não fazer milagres se não havia uma disposição adequada, mas ao mesmo tempo suscitar essa disposição e ir aumentando a graça quando esta é correspondida.

É necessária a graça de Deus, inclusive para desejar os bens divinos: «Dá-nos, Senhor, luz; olhai que é mais neces­sário que para o cego (…), que este desejava ver a luz e não podia; agora, Senhor, não se quer ver. Oh, que mal incurável! Aqui, meu Deus, se deve mostrar o Vosso poder, aqui a Vossa misericórdia» (Exclamações, n.° 8).

Dia 19 de fevereiro

Mc 8, 27-33

27Partiu dali Jesus com os discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe e, no caminho, perguntava aos discípulos: Quem dizem os homens que Eu sou? 28Responderam-Lhe eles: João Baptista, outros Elias, outros que um dos profetas. 29E Ele perguntou-lhes: E vós quem dizeis que Eu sou? Respondeu Pedro e disse-Lhe: Tu és o Cristo. 30E Ele intimou-lhes que não dissessem nada d’Ele a ninguém. 31E começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de padecer muito, e ser rejei­tado pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas, e ser morto, e ressuscitar depois de três dias. 32Falava com toda a clareza. Então Pedro, tomando-O à parte, começou a estranhar-Lho. 33Voltou-Se Ele e, olhando para os discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: Tira-te de diante de Mim, satanás, pois não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens.

Comentário

29. A profissão de fé de Pedro é relatada aqui de uma maneira mais breve que em Mt 16,18-19. Pedro parece limi­tar-se a afirmar que Jesus é o Cristo, o Messias. Já Eusébio de Cesareia, no s. IV, explicava a sobriedade do Evangelista pela sua condição de intérprete de São Pedro, que na sua pregação costumava omitir tudo o que pudesse aparecer como louvor próprio. O Espírito Santo, ao inspirar São Marcos, quis que ficasse reflectida no seu Evangelho a pregação do Príncipe dos Apóstolos, deixando para outros Evangelhos o completar alguns pormenores importantes do mesmo epi­sódio da confissão de Pedro nos confins de Cesareia de Filipe.

Dentro da simplicidade do relato fica claro o papel de Pedro: adianta-se a todos os outros afirmando o messia­nismo de Jesus. Esta pergunta do Senhor, «e vós quem dizeis que Eu sou?», assinala o que Jesus pede aos Apóstolos: não uma opinião, mais ou menos-favorável, mas a firmeza da fé. São Pedro é quem manifesta esta fé (cfr a nota a Mt 16,13-20).

31-33. Esta é a primeira ocasião em que Jesus anuncia aos discípulos os sofrimentos e a morte que terá de padecer. Mais tarde fá-lo-á outras duas vezes (cfr Mc 9,31 e 10,32). Perante esta revelação os Apóstolos ficam surpreendidos, porque não podem nem querem compreender que o Messias tenha de passar pelo sofrimento e pela morte, e muito menos que isto Lhe seja imposto «pelos Anciãos e Príncipes dos sacerdotes e Escribas». Pedro, com a sua espontaneidade habitual, levanta imediatamente um protesto. E Jesus res­ponde-lhe usando as mesmas palavras que dirigiu ao diabo quando este O tentou (cfr Mt 4,10) para afirmar/uma vez mais, que a Sua missão não é terrena mas espiritual, e que por isso não pode ser compreendida com meros critérios humanos, mas segundo os desígnios de Deus. Estes eram que Jesus Cristo nos redimisse mediante a Sua Paixão e Morte. Por sua vez, o sofrimento do cristão, unido ao de Cristo, é também meio de salvação.

Dia 20 de fevereiro

Mc 8, 34 – 9,1

34E, chamando o povo com os Seus discí­pulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 35Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á. 36Pois de que serve ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? 37Ou que pode o homem dar para resgate da sua alma? 38Pois quem se envergonhar de Mim e das Minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também dele Se há-de envergonhar o Filho do homem, quando vier na glória de Seu Pai, com os Anjos santos.

1E dizia-lhes: Em verdade vos digo: há alguns aqui presentes que não experi­mentarão a morte sem ter visto o Reino de Deus vindo já com pujança.

Comentário

34. Quando Jesus disse « se alguém quer vir após Mim…», tinha presente que o cumprimento da Sua missão O levaria à morte de cruz; por isso fala claramente da Sua Paixão (w. 31-32). Mas também a vida cristã, vivida como se deve viver, com todas as suas exigências, é uma cruz que se deve levar em seguimento de Cristo.

As palavras de Jesus, que devem ter parecido assusta­doras àqueles que as escutavam, dão a medida do que Cristo exige para O seguir. Jesus não pede um entusiasmo passa­geiro, nem uma dedicação momentânea; o que pede é a renúncia de si mesmo, o carregar cada um com a sua cruz e o segui-Lo, Porque a meta que o Senhor quer para os homens é a vida eterna. Todo este passo evangélico está contem­plando precisamente o destino eterno do homem. À luz dessa vida eterna é que deve ser avaliada a vida presente: esta não tem um caracter definitivo nem absoluto, mas é transitória, relativa; é um meio para conseguir aquela vida definitiva do Céu. «Tudo isso, que te preocupa de momento, é mais ou menos importante. — O que importa acima de tudo é que sejas feliz, que te salves» (Caminho, n.° 297).

«Há no ambiente uma espécie de medo da Cruz, da Cruz do Senhor. Tudo porque começaram a chamar cruzes a todas as coisas desagradáveis que acontecem na vida, e não sabem aceitá-las com sentido de filhos de Deus, com visão sobrenatural. Até tiram as cruzes que os nossos avós levan­taram nos caminhos!…

« Na Paixão, a Cruz deixou de ser símbolo de castigo para se converter em sinal de vitória. A Cruz é o emblema do Redentor, in quo est salus, vita et resurrectio nostra, ali está a nossa salvação, a nossa vida e a nossa ressurreição» (Via Sacra, II, n.° 5).

35. «Vida»; O texto original e a Neo-vulgata dizem literalmente «alma». Mas neste, como noutros muitos casos, «alma» e «vida» são equivalentes. A palavra «vida» é empregada, como é claro, num duplo significado: vida terrena e vida eterna, a vida do homem aqui na terra, e a felicidade eterna do homem no Céu. A morte pode pôr fim à vida terrena, mas não pode destruir a vida eterna (cfr Mt 10,28), a vida que só pode dar Aquele que vivifica os mortos.

Entendido isto capta-se bem o sentido paradoxal da frase do Senhor: quem quiser salvar a sua vida (terrena), perderá a sua vida (eterna). Mas quem perder a sua vida (terrena) por Mim e pelo Evangelho, salvá-la-á (a eterna). Que significa, pois, salvar a vida (terrena)? Significa viver esta vida como se tudo acabasse aqui na terra: deixando-se dominar pela concupiscência da carne, pela concupiscência dos olhos, e pela soberba da vida (cfr l Ioh2,16). Por contraposição, compreende-se bem que significa «perder a vida» (terrena): fazer morrer, por meio de uma luta ascética continuada, aquela tripla concupiscência — isto é tomar sobre si a cruz (v. 34) — e viver, por conseguinte, buscando e saboreando as coisas que são de Deus e não as da terra (cfr Col 3,1-2).

36-37. Jesus garante a vida eterna aos que estão dis­postos a perder por Ele a vida terrena. Ele deu-nos o exemplo: é o Bom Pastor que deu a vida pelas suas ovelhas Ioh10,15); e que cumpriu em Si próprio as palavras que disse aos Apóstolos na noite antes de morrer: «Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos» (Ioh15,13).

38. O destino eterno de cada homem será decidido por Jesus Cristo. Ele é o Juiz que há-de vir julgar vivos e mortos (Mt 16,27). A sentença será ditada segundo a fidelidade no cumprimento dos preceitos do Senhor: do amor a Deus e do amor, por Deus, ao próximo. Quem se envergonhar de imitar a humildade e o exemplo de Jesus, de seguir os preceitos do Evangelho por temor a desagradar ao mundo ou às pessoas mundanas que o rodeiam, não será reconhecido por Cristo naquele dia como Seu discípulo, pois não confessou com a sua vida a fé que diz professar. O cristão, pois, nunca se deve envergonhar do Evangelho (Rom 1,16), deixando-se arrastar pelo ambiente de mundanismo que o rodeie; mas influir com decisão para transformar esse ambiente contando para isso, além disso, com a graça de Deus. Os primeiros cristãos transformaram o antigo mundo pagão. O braço de Deus não empequeneceu agora (cfr Is 59,1). Cfr Mt 10,32-33 e a nota correspondente.

1. A vinda do Reino de Deus com poder não parece referir-se à segunda vinda gloriosa de Jesus no fim dos tempos ou Parusia, mas indica a expansão admirável da Igreja já na época apostólica. Desse desenvolvimento, com efeito, serão testemunhas alguns dos ali presentes. O cres­cimento e a dilatação da Igreja no mundo não se pode explicar senão pelo poder divino que Deus dá ao Corpo Místico de Cristo. A Transfiguração do Senhor, que se relata imediatamente, é um sinal, dado aos Apóstolos, da divin­dade de Jesus e dos poderes divinos que daria à Sua Igreja.

Dia 21 de fevereiro

Mc 9, 2-13

2Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os só a eles à parte a um monte alto e transfigurou-Se diante deles. 3Os vestidos tornaram-se resplan­decentes e alvíssimos, tanto que nenhuma lavadeira sobre a Terra os poderia assim branquear. 4E apareceu-lhes Elias com Moisés, que estavam a conversar com Jesus. 5Tomando Pedro a palavra, disse a Jesus: Rabi, bom é estarmos aqui. Façamos três guaridas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias; 6pois não sabia o que havia de dizer, visto estarem tomados de medo. 7Formou-se então uma nuvem que os envolveu, e da nuvem saiu uma voz: Este é o Meu Filho amado. Ouvi-O. 8E, de repente, olhando à volta de si, não viram a mais ninguém, senão só a Jesus com eles.

9Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do homem ter ressuscitado dos mortos. 10Eles guardaram o facto para si, mas perguntavam-se que seria aquilo de: «ressuscitar dos mortos». 11Por fim interrogaram-No: Porque dizem então os Escribas que primeiro deve vir Elias? 12E Ele disse-lhes: Sim, Elias vem primeiro e restaura todas as coisas. Mas como está escrito do Filho do homem que há-de sofrer muito e ser desprezado? 13Eu, porém, digo-vos que Elias veio è fizeram dele quanto quiseram, conforme dele está escrito.

Comentário

2-10. Contemplamos admirados esta manifestação da glória do Filho de Deus a três dos Seus discípulos. Desde a Encarnação, a Divindade de Nosso Senhor estava habitual­mente oculta por detrás da Humanidade. Mas Cristo quis manifestar precisamente a estes três discípulos predilectos, que iam ser colunas da Igreja, o esplendor da Sua glória divina com o fim de que se animassem a seguir o caminho difícil e áspero que lhes restava para percorrer, fixando o olhar na meta gozosa que os esperava no fim. Por esta razão, como comenta São Tomás (cfr Suma Teológica, III, q. 45, &. 1), foi conveniente que Cristo tenha manifestado a clareza da sua glória. As circunstâncias da Transfiguração imediata­mente depois do primeiro anúncio da Sua Paixão, e das palavras proféticas de que os Seus seguidores também teriam de tomar a Sua Cruz, fazem-nos compreender que «precisamos de passar por meio de muitas tribulações para entrar no Reino de Deus» (Act 14,22).

Em que consistiu a Transfiguração do Senhor? Para poder compreender de algum modo este facto miraculoso da vida de Cristo deve ter-se em conta que o Senhor, para nos redimir com a Sua Paixão e Morte, renunciou volunta­riamente à glória divina e encarnou com carne passível, não gloriosa, fazendo-se semelhante em tudo a nós menos no pecado (cfr Heb 4,15). Neste momento da Transfiguração, Jesus Cristo quer que a glória que Lhe correspondia por ser Deus, e que a Sua alma tinha desde o momento da Encarnação, apareça miraculosamente no Seu corpo. «Apren­damos desta atitude de Jesus: durante a Sua vida na Terra, não quis sequer a glória que Lhe pertencia, pois, tendo direito a ser tratado como Deus, assumiu a forma de servo, de escravo (cfr Phil II. 6)» (Cristo que. passa, n.° 62). Tendo em conta Quem encarna (a dignidade da pessoa e a glória da Sua alma), era conveniente a glória do corpo de Jesus. Mas tendo em conta para que encarna (a finalidade da Encarnação), não era conveniente, de modo habitual, tal glória. Cristo mostra a Sua glória na Transfiguração para nos mover ao desejo da glória divina que nos será dada, e assim, com esta esperança, compreendamos «que os padecimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que se há-de manifestar em nós» (Rom 8,18).

2. Segundo o Deuteronómio (19,15), para atestar um facto eram necessárias duas ou três testemunhas. Talvez por isso Jesus Cristo quis que estivessem presentes três Após­tolos. Deve notar-se que estes três Apóstolos foram os predilectos, que O acompanharam também na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), e estiveram mais perto d’Ele nos momentos tremendos de Getsémani (Mc 14,33). Cfr a nota a Mt 17,1-13.

7. Deste modo explica São Tomás o significado da Transfiguração: «Assim como no baptismo de Jesus, onde foi declarado o mistério da primeira regeneração, se mostrou a acção de toda a Trindade, já que ali esteve o Filho Encarnado, apareceu o Espírito Santo em forma de pomba, e ali se escutou a voz do Pai; assim também na Transfiguração, que é como que o sacramento da segunda regeneração (a ressur­reição), apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem; porque assim como Deus Trino dá a inocência no Baptismo, da mesma maneira dará aos Seus eleitos o fulgor da glória e o alívio de todo o mal na Ressurreição…» (Suma Teológica, III, q. 45, a.4 ad 2). Porque, na verdade, a Transfiguração foi um certo sinal ou antecipação não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa. Pois, como diz São Paulo: «O próprio Espírito dá testemunho juntamente com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. E se somos filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo; desde que padeçamos com Ele, para sermos com Ele também glorificados» (Rom 8,16-17).

«O Amado»: Com esta expressão revela-se que Cristo é o Filho Unigênito do Pai, cumprindo as profecias do Antigo Testamento. Frei Luís de León comenta: « É Cristo O Amado, isto é, o que antes foi, e agora é e será para sempre a coisa mais amada de todas (…) porque nem uma criatura sozinha, nem as criaturas todas juntas, são de Deus tão amadas, e porque só Ele é o que tem verdadeiros adoradores de Si» (Os nomes de Cristo, livro 3, Amado).

10. A verdade da ressurreição dos mortos estava já revelada no Antigo Testamento (cfr Dan 12,2-3; 2 Mach 7,9; 12,43), e os judeus piedosos criam nela (cfr Ioh11,23-25). Não obstante, não eram capazes de compreender a verdade profunda da Morte e Ressurreição do Senhor, porque apenas consideravam o aspecto glorioso e triunfador do Messias, apesar de que também estavam profetizados os Seus sofri­mentos e a Sua morte (cfr Is 53). Daí as disquisições dos Apóstolos que não se atrevem a perguntar directamente ao Senhor pela Sua Ressurreição.

11-13. Os escribas e os fariseus interpretavam a pro­fecia messiânica de Malaquias (3,1-2), no sentido de uma aparição ostentosa de Elias em pessoa, a que se seguiria o Messias definitivamente triunfante, sem sombra de dor nem de humilhação. Jesus Cristo faz-lhes ver que verdadeira­mente Elias já veio na pessoa de João Baptista (Mt 17,13) e que preparou os caminhos do Messias, que são caminhos de dor e de sofrimento.

O v. 12 constitui uma pergunta que Jesus Se faz diante dos Seus discípulos. Esta pergunta devia ter sido feita pelos discípulos, se tivessem caído na conta de que a Ressurreição de Cristo supunha os sofrimentos e a morte do Messias. Ao não a fazerem, Jesus adianta-Se para os ensinar que tanto Ele como Elias (isto é, João Baptista) deveriam passar pelo caminho do sofrimento antes de chegar à glória.

Dia 22 de fevereiro

Mc 2, 1-12

1Dias depois, entrou outra vez em Cafarnaum.2Quando se soube que estava em casa, juntou-se tanta gente, que não cabia nem sequer nas adjacências diante da porta; e Ele expunha-lhes a Palavra. 3Nisto chegam alguns que Lhe traziam um paralítico, trans­portado por quatro homens. 4Como não pudessem pôr-Lho diante por causa da multidão, descobriram o tecto sobre o lugar onde estava e, praticando uma abertura, arrearam a enxerga em que o paralítico jazia. 5Vendo Jesus a fé daqueles homens, diz ao paralítico: Filho, perdoados te são os teus pecados. 6Estavam ali sentados alguns dos Escribas e pensavam de si para consigo: Como é que Este assim fala? Ele blasfema: Quem pode perdoar pecados senão só Deus? 8E logo Jesus, conhecendo pelo Seu espírito que assim pensavam dentro de si, diz-lhes: Porque estais a pensar essas coisas no vosso íntimo? 9Qual é mais fácil, dizer a este paralítico: «perdoados te são os teus pecados’», ou dizer: «levanta-te, toma a tua enxerga e anda?» 10Ora, para que saibais que o Filho do homem tem poder de perdoar pecados sobre a Terra, 11Eu te ordeno — diz ao paralítico — levanta-te, toma a tua enxerga e vai para tua casa. 12E ele levantou-se e, sem mais, tomando a enxerga, saiu à vista de todos, de modo que todos ficaram pasmados e glorificavam a Deus, dizendo: Nunca vimos coisa assim!

Comentário

4. Era muito freqüente que as casas judaicas tivessem o telhado em forma de terraço, ao qual se podia subir por uma escadinha situada na parte posterior. Hoje pode obser­var-se ainda a mesma estrutura.

5. Jesus põe em realce neste versículo a relação entre a fé e o perdão dos pecados. A audácia dos que levam o paralítico mostra a fé que tinham em Cristo. -Movido por isso Jesus perdoa os pecados do doente. Consideremos o que vale a nossa fé diante de Deus, quando a dos outros é via para que um homem seja curado interior e exteriormente de modo instantâneo, e que pelo mérito de uns se remedeiam as necessidades de outros.

São Jerónimo vê na paralisia corporal daquele homem um tipo ou figura da paralisia espiritual: o tolhido de Cafarnaum também não tinha forças, por si mesmo, para voltar a Deus. Jesus, Deus e Homem, curou-o de ambas as paralisias (cfr Comm. in Marcum, ad loc.). Cfr as notas a Mt 9, 2-7.

As palavras dirigidas ao paralítico — «os teus pecados te são perdoados» — reflectem que no facto de lhe perdoar se dá um encontro pessoal com Cristo; o mesmo acontece no sacramento da Penitência: «A Igreja, pois, ao observar fielmente a plurissecular prática do sacramento da Penitência — a prática da confissão individual, unida ao acto pessoal de arrependimento e ao propósito de se corrigir e de satisfazer — defende o direito particular da alma humana. E o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro do sacramento da Reconciliação: ‘São-te perdoados os teus pecados’ (Mc 2,5); ‘Vai e doravante não tornes a pecar’ (Ioh 8, 11). Como é evidente, isto é ao mesmo tempo o direito do próprio Cristo em relação a todos e a cada um dos homens por Ele remidos. É o direito de encontrar-se com cada um de nós naquele momento-chave da vida humana, que é o momento da conversão e do perdão» (Redemptor hóminis, n. 20).

7-12. São vários os elementos que manifestam aqui a divindade de Jesus: perdoa os pecados, conhece por Si mesmo a intimidade do coração humano e tem poder para curar instantaneamente doenças corporais. Os escribas sabem que só Deus pode outorgar o perdão das culpas e por isso consideram infundada, e inclusivamente blasfema, a afirmação do Senhor. Necessitam de um sinal que mostre a verdade daquelas palavras. E Jesus oferece-lho: assim como ninguém discutirá a cura do paralítico, do mesmo modo ninguém poderá negar razoavelmente a libertação das suas culpas. Cristo, Deus e Homem, exerceu o poder de perdoar os pecados e, pela Sua infinita misericórdia, quis estendê-lo à Sua Igreja. Cf a nota a Mt 9,3-7.