dia 15 a 21 de março de 2010

Dia 15 de março

Jo 4, 43-54

43Passados os dois dias, partiu dali para a Galileia. 44O próprio Jesus tinha efectivamente declarado que um profeta, na sua terra, não é tido em apreço. 45Quando chegou à Galileia, receberam-No os Galileus, que tinham visto quanto Ele fizera em Jerusalém, pela festa, pois eles também tinham ido à festa. 46Veio então novamente a Caná da Galileia, onde tinha convertido a água em vinho. Ora, em Cafarnaum, havia um funcionário real, cujo filho se encontrava doente. 47Ao ouvir dizer que Jesus chegara da Judeia à Galileia, veio ter com Ele e pôs-se a pedir que fosse lá abaixo curar-lhe o filho, que estava a morrer. 48Disse-lhe então Jesus: Se não virdes milagres e prodígios, não haveis de acreditar! 49Senhor – diz-Lhe o funcionário real – vem cá abaixo antes que o meu filhinho morra. 50Jesus responde-lhe: Vai, teu filho está vivo! O homem acreditou na palavra que Jesus lhe tinha dito e pôs-se a caminho. 51Já ele vinha na descida, quando lhe vieram os criados ao encontro, dizendo que o menino estava vivo. 52Perguntou-lhes a que horas tinha ele melhorado. Responderam-lhe: Foi ontem, à hora sétima, que a febre o deixou. 53O pai reconheceu então que tinha sido àquela hora que Jesus lhe havia dito: “Teu filho está vivo!”. E acreditou, ele e todos os de sua casa. 54Foi este o segundo milagre que Jesus fez, ao voltar da Judeia para a Galileia.

Comentário

46. São João fala de um funcionário real, provavelmente ao serviço de Herodes Antipas que, ainda que fosse somente tetrarca ou governador da Galileia (cfr Lc 3,1), podia receber também o título de rei (cfr Mc 6,14). Trata-se portanto de uma pessoa de alta categoria social (v. 51) que residia em Cafarnaum, cidade alfandegária. Por isto supõe São Jerónimo que devia ser um palatinus, um cortesão de palácio, como sugere o termo grego correspondente.

48. Jesus parece dirigir-Se não tanto ao funcionário real como à gente da Galileia que acorria a Ele só para pedir milagres e ver prodígios. Noutra ocasião o Senhor censuraria as cidades de Corozaim, Betsaida e Cafarnaum pela sua incredulidade (Mt 11,21-23), porque os milagres que fez ali teriam movido à penitência as cidades fenícias de Tiro e de Sidónia e inclusivamente a própria Sodoma. Os Galileus em geral estavam mais dispostos para ver manifestações extraordinárias do que para escutar a Sua palavra. Mais adiante, depois do milagre da multiplicação dos pães, buscarão o Senhor para O fazerem rei, mas nem todos acreditarão no anúncio da Eucaristia (Ioh 6,15.53.62). Jesus pede uma fé firme e pura, que, ainda que se apoie em milagres, não os exige. Não obstante, Deus continua em todos os tempos a fazer milagres, que servem para reafirmar a fé.

“Não sou ‘milagreiro’. – Disse-te já que me sobejam milagres no Santo Evangelho para firmar fortemente a minha fé. – Mas dão-me pena esses cristãos – até piedosos, ‘apostólicos’! – que sorriem quando ouvem falar de caminhos extraordinários, de factos sobrenaturais. – Sinto desejos de lhes dizer: sim, também agora há milagres; nós próprios os faríamos se tivéssemos fé!” (Caminho, n° 583).

49-50. Apesar da atitude aparentemente fria de Jesus, o “nobre” insiste a manifestar o seu sofrimento interior: “Senhor, vem cá abaixo antes que o meu filhinho morra”. Ainda que imperfeita, a sua fé tinha sido suficiente para percorrer os 33 quilômetros que separam Cafarnaum de Caná; e, não obstante a sua elevada posição, tinha-se aproximado do Senhor pedindo ajuda. Jesus gosta da perseverança e da humildade deste homem. O pedido feito com fé alcança o seu objectivo: “‘Si habueritis fidem, sicut granum sinapis!’ – Se tivesses uma fé do tamanho de um grãozito de mostarda!… – Que promessas não encerra esta exclamação do Mestre!” (Caminho, n° 585).

Os Santos Padres comparam este milagre ao servo do Centurião (Mt 8,5-12; Lc 7,1-10), pondo em realce a fé surpreendente que desde o primeiro momento manifesta o oficial romano, em contraste com a imperfeita fé inicial do personagem de Cafarnaum. São João Crisóstomo comenta: “Ali (no caso do centurião romano), a fé era robusta, por isso Jesus prometeu ir para que nós aprendamos a devoção daquele; aqui a fé era ainda imperfeita, e não sabia com clareza que Jesus podia curar estando longe: assim que o Senhor, negando-Se a descer, quis com isto ensinar a ter fé” (Hom. sobre S. João, 35).

53. O milagre da cura é força convincente que atrai à fé aquele homem e com ele toda a sua família. Todo o bom pai de família deve aproveitar os episódios domésticos para procurar que os seus acedam à fé. Assim diz São Paulo: “Se alguém não cuida dos seus e principalmente de sua casa, negou a fé e é pior que um infiel” (1 Tim 5,8). Cfr Act 16,14, onde se narra que Lídia cuidou de que com ela fosse baptizada toda a sua família; em Act 18,8, refere-se a mesma atitude do chefe da sinagoga Crispo, e em Act 16,33 a do guarda da prisão.

Dia 16 de março

Jo 5, 1-16

Depois disto, houve uma festa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 2Ora existe em Jerusalém, junto à Piscina das Ovelhas, uma que, em hebraico, se chama Bezatá, que tem cinco pórticos. 3Nestes jazia grande número de enfermos, cegos, coxos, entrevados, que esperavam o movimento da água. 4É que o Anjo do Senhor, de tempos a tempos, descia à piscina e agitava a água. E assim, o primeiro que mergulhava, depois da agitação da água, ficava curado de qual­quer mal de que estivesse atingido. 5Estava ali um homem, enfermo havia trinta e oito anos. 6Jesus, ao vê-lo estendido e sabendo que já estava assim havia muito tempo, diz-lhe: Queres ficar são? 7Senhor — responde-Lhe o enfermo — não tenho nin­guém que me lance na piscina, quando a água se agitar; e enquanto eu vou, outro desce antes de mim. 8Diz-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu catre e anda. 9E logo o homem ficou são, tomou o catre e pôs-se a caminhar. Ora aquele dia era um sábado. 10Diziam, por isso, os Judeus ao miraculado: É sábado e não podes levar esse catre. 11Mas ele res­pondeu-lhes: Quem me curou é que me disse: «Toma o teu catre e anda». 12Perguntaram-lhe então: Quem é o homem que te disse: «Toma o teu catre e anda »? 13Mas o que tinha sido curado não sabia quem era, pois Jesus havia-Se afastado, por haver muita gente no local. 14Em seguida, encontrou-o Jesus no Templo e disse-lhe: Ficaste curado. Não tornes a pecar, para não te suceder coisa pior. 15O homem foi dizer aos Judeus que tinha sido Jesus que o curara. 16Por isso os Judeus perseguiam Jesus, visto Ele fazer tais coisas ao sábado.

Comentário

1. Não é possível determinar com certeza de que festa se trata; provavelmente refere-se à Páscoa, conhecida inclusivamente no mundo greco-romano como a festa nacional do povo judaico. Mas também poderia referir-se a outras festas, como a de Pentecostes. (Sobre esta questão veja-se Cronologia da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, parágrafo 3, Duração do Ministério Público, pp. 88-89).

2. A esta piscina7chama-se também «probática» por estar situada, nos Subúrbios de Jerusalém, junto à porta probática ou das Ovelhas (cfr Neh 3,1-32; 12,39), pela qual entrava o gado quese destinava aos sacrifícios do Templo. Em fins do século XIX encontraram-se vestígios da piscina: escavada em rocha era de forma rectangular e estava rodeada de quatro galerias ou alpendres, e um quinto alpendre dividia o tanque em duas metades quase quadra­das.

3-4. Os Santos Padres ensinam que essa piscina prefigura o Baptismo cristão. Mas assinalam que enquanto na piscina de Bezatá se curavam as doenças do corpo, no Baptismo curam-se as da alma; ali era de vez em quando e para um só doente; no Baptismo é sempre e para todos; em ambos os casos manifesta-se o poder de Deus por meio da água (cfr Hom. sobre S. João, 36,1).

A edição Sixto-Clementina da Vulgata recolhe, como segunda parte do v. 3 e constituindo todo o v. 4, o seguinte passo: 3bexspectantium aquae motum. 4Angelus autem Domini descendebat secundum tempus in piscinam et move-batur aqua. Et qui prior descendisset in piscinam post motionem aquae sanus fiebat a quacumque detinebatur infirmitate» (3b«que aguardavam o movimento da água. 4 Pois um anjo do Senhor descia de vez em quando à piscina e movia a água. O primeiro que se metesse na piscina depois do movimento da água ficava são de qualquer enfermidade que tivesse»). A Neo-vulgata, pelo contrário, omite no seu texto todo este passo, consignando-o apenas em nota de roda-pé. Tal omissão funda-se em que não vem em impor­tantes códices e papiros gregos, nem em muitas versões antigas.

14. Possivelmente o paralítico tinha acorrido ao Templo para dar graças a Deus pela sua cura. Jesus vem ao seu encontro e recorda-lhe que mais importante que a saúde do corpo é a saúde da alma.

O Senhor recorre ao santo temor de Deus como incentivo na luta contra o pecado: «Não tornes a pecar para não te suceder coisa pior». Este bom temor que nasce do respeito por nosso Pai Deus/ compagina-se perfeitamente com o amor. Assim como os filhos amam e respeitam os pais, e procuram evitar-lhes desgostos também por temor ao castigo, de modo semelhante nós temos de lutar contra o pecado em primeiro lugar porque é uma ofensa a Deus, mas também porque podemos ser castigados nesta vida e, sobretudo, na outra.

16-18. A Lei de Moisés assinalava o sábado como o dia de descanso semanal. Desta forma os Judeus pensavam imitar a maneira de agir de Deus na Criação. Observa São Tomás de Aquino que Jesus rejeita a estreita interpretação que davam os Judeus: «Estes, querendo imitar a Deus, não faziam nada ao sábado, como se Deus neste dia tivesse deixado absolutamente de actuar. É verdade que ao sábado descansou da criação de novas criaturas, mas sempre e de forma contínua actua, conservando-as no ser… Deus é causa de todas as coisas no sentido de que também as faz subsistir; porque se num momento dado se interrompesse o Seu poder, imediatamente deixariam de existir todas as coisas que a natureza contém» (Comentário sobre S. João, ad loc.). «Meu Pai trabalha continuamente e Eu também tra­balho»: Já dissemos que Deus não deixa de actuar depois da Criação. Como o Filho actua junto com o Pai, que com o Espí­rito Santo são um só Deus, por esta razão Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, pode dizer que não deixa de trabalhar. Estas palavras.de Jesus fazem referência implí­cita à Sua natureza divina, e assim o entenderam os Judeus, os quais, considerando-as uma blasfêmia, quiseram dar-Lhe a morte. «Todos — comenta Santo Agostinho — chamamos a Deus «Pai Nosso que estais nos Céus’ (Is 63,16; 64,8). Não se enfureciam, portanto, porque dissesse que Deus era Seu Pai, mas porque Lhe chamava Pai de maneira muito diferente de como Lhe chamam os homens. Vede como os Judeus vêem; os arianos, pelo contrário, não querem ver. Estes dizem que o Filho não é igual ao Pai, e daqui surge uma heresia que aflige a Igreja. Vede como até os próprios cegos e os mesmos que mataram Cristo entenderam p sentido das palavras do Senhor» (In Ioann. Evang., 17,lê). Nós chamamos a Deus nosso Pai porque somos filhos aüoptivos pela graça; Jesus Cristo chama a Deus Seu Pai porque é o Filho por natureza. Por isso diz depois de ressuscitar: Subo para Meu Pai e vosso Pai (Ioh20,17), distinguindo assim com clareza essas duas maneiras diferentes de ser filhos de Deus.

Dia 17 de março

Jo 5, 17-30

17Mas Jesus respondeu-lhes: Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho. 18Daqui resultou que os Judeus mais se esforçavam por Lhe dar a morte, não só por violar o sábado, mas também por chamar a Deus Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus.

19Então Jesus tomou a palavra e pôs-Se a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Não pode o Filho fazer nada por Si mesmo, se não vir o Pai fazer alguma coisa; pois aquilo que Este faz, também o Filho o faz igualmente. 20De facto, o Pai ama o Filho e mostra-Lhe tudo o que Ele mesmo faz; e há-de mostrar-Lhe obras maiores do que estas, de modo que ficareis admirados. 21Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida àqueles que quer. 22O Pai, de facto, não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento, 23para todos honrarem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai, que O enviou.

24Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a Minha palavra e acredita n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna e não incorre em condenação, mas já transitou da morte para a vida. 25Em verdade, em verdade vos digo: Vai chegar a hora – e é já – em que os mortos hão-de ouvir a voz do Filho de Deus; e os que ouvirem viverão! 26Pois, assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho o ter a vida em Si mesmo; 27e deu-Lhe o poder de julgar, por ser Filho de homem. 28Não vos admireis com isto, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos hão-de ouvir a Sua voz; 29os que tiverem feito boas obras ressuscitarão para a vida, e os que tiverem praticado más acções hão-de ressuscitar para a condenação. 30Eu nada posso fazer por Mim mesmo. Conforme oiço é que julgo, e é justo o Meu juízo, porque não busco a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou.

Comentário

16-18. A Lei de Moisés assinalava o sábado como o dia de descanso semanal. Desta forma os Judeus pensavam imitar a maneira de agir de Deus na Criação. Observa São Tomás de Aquino que Jesus rejeita a estreita interpretação que davam os Judeus: “Estes, querendo imitar a Deus, não faziam nada ao sábado, como se Deus neste dia tivesse deixado absolutamente de actuar. É verdade que ao sábado descansou da criação de novas criaturas, mas sempre e de forma contínua actua, conservando-as no ser… Deus é causa de todas as coisas no sentido de que também as faz subsistir; porque se num momento dado se interrompesse o Seu poder, imediatamente deixariam de existir todas as coisas que a natureza contém” (Comentário sobre S. João, ad loc.).

“Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho”: Já dissemos que Deus não deixa de actuar depois da Criação. Como o Filho actua junto com o Pai, que com o Espírito Santo são um só Deus, por esta razão Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, pode dizer que não deixa de trabalhar. Estas palavras de Jesus fazem referência implícita à Sua natureza divina, e assim o entenderam os Judeus, os quais, considerando-as uma blasfêmia, quiseram dar-Lhe a morte. “Todos – comenta Santo Agostinho – chamamos a Deus ‘Pai Nosso que estais nos Céus’ (Is 63,16; 64,8). Não se enfureciam, portanto, porque dissesse que Deus era Seu Pai, mas porque Lhe chamava Pai de maneira muito diferente de como Lhe chamam os homens. Vede como os Judeus vêem; os arianos, pelo contrário, não querem ver. Estes dizem que o Filho não é igual ao Pai, e daqui surge uma heresia que aflige a Igreja. Vede como até os próprios cegos e os mesmos que mataram Cristo entenderam o sentido das palavras do Senhor” (In Ioann. Evang., 17,16). Nós chamamos a Deus nosso Pai porque somos filhos adoptivos pela graça; Jesus Cristo chama a Deus Seu Pai porque é o Filho por natureza. Por isso diz depois de ressuscitar: “Subo para Meu Pai e vosso Pai” (Ioh 20,17), distinguindo assim com clareza essas duas maneiras diferentes de ser filhos de Deus.

19. Jesus fala da igualdade e ao mesmo tempo da distinção entre o Pai e o Filho. Os dois são iguais: todo o poder do Filho é o poder do Pai, as obras do Filho são as obras do Pai. Ao mesmo tempo são duas Pessoas distintas: por isso o Filho faz o que viu fazer ao Pai.

Não se devem entender estas palavras do Senhor no sentido de que o Filho veja o que o Pai faz e que depois repita o que viu, como um discípulo que imita o professor; mas com esta frase indica-se a comunicação de poderes do Pai para o Filho por geração. Emprega-se o verbo “ver” porque o homem conhece através dos sentidos, especialmente da vista; dizer que o Filho vê o que faz o Pai é um modo de falar dos poderes que desde toda a eternidade recebe d’Ele (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

20-21. Quando se diz que o Pai mostra ao Filho “tudo o que Ele mesmo faz ” indica-se que Cristo pode fazer o mesmo que o Pai. Assim, quando Jesus Cristo realiza obras que são próprias de Deus, está a testemunhar com elas a Sua Divindade (cfr Ioh 5,36).

“Obras maiores”: Pode referir-se aos milagres que Jesus realizará na Sua vida e ao poder de julgar. Mas o milagre por excelência de Jesus é a Sua própria Ressurreição, causa e primícia da nossa (cfr 1 Cor 15,20 ss.) e da aquisição para nós da vida sobrenatural. O poder vivificador de Cristo é total, tal como o do Pai. Este ensinamento desenvolve-se ao longo dos versículos seguintes até ao 29.

22-30. O poder de julgar também foi dado pelo Pai ao Verbo Encarnado. O juízo será condenatório para quem não crer em Cristo e na Sua palavra (cfr 3,18). É necessário reconhecer o senhorio de Jesus Cristo, sabendo que só ao aceitar o Filho feito homem honramos o Pai; aquele que não honra Jesus, também não honra o Pai (v. 23). Por esta aceitação de Cristo, da Sua palavra, possuímos a vida eterna e somos libertados da condenação. Ele, assumida já de modo inseparável a Sua Humanidade, é constituído juiz, e o Seu juízo é justo porque busca cumprir a Vontade do Pai que O enviou, e não faz nada por conta própria; isto é, a Sua vontade humana está perfeitamente identificada com a Sua vontade divina: por isso pode afirmar Jesus que não faz a Sua vontade mas a Vontade do que O enviou.

22. Deus, por ser o Criador do mundo, é o Juiz supremo de todas as criaturas. Só Ele pode saber com toda a profundidade se estas criaturas cumprem o fim que Ele lhes marcou. Jesus Cristo, Verbo Encarnado, recebe os poderes divinos (cfr Mt 11,27; 28,18; Dan 7,14), entre eles o de julgar os homens. Ora bem, a Vontade de Deus é que estes se salvem: Cristo não veio para um juízo de condenação, mas de salvação (cfr Ioh 12,47). Unicamente o que não aceitar esta missão divina do Filho se coloca a si mesmo fora do âmbito da salvação. Como ensina o Magistério: “Que o poder judicial Lhe tenha sido dado por Seu Pai, o próprio Jesus Cristo o proclama diante dos Judeus que Lhe atiram à cara o ter violado o descanso do sábado ao curar o paralítico (…). Este poder supõe o direito de impor prêmios e castigos aos homens, mesmo nesta vida” (Quas primas, Dz-Sch 3677). Jesus Cristo, portanto, é Juiz de vivos e de mortos, e retribuirá a cada um segundo as suas obras (cfr 1 Pet 1,17).

“É certo que de todas as nossas culpas temos de prestar estreitas contas ao eterno Juiz; mas, quem será este nosso Juiz? O Pai (…) deu todo o juízo ao Filho. Consolemo-nos, pois, já que o Eterno Pai pôs a nossa causa nas mãos do nosso próprio Redentor. São Paulo anima-nos com estas palavras: Quem será o que condene? Cristo, Jesus, o que morreu (…) é Quem (…) intercede por nós (Rom 8,34). Quem é o juiz que nos há-de condenar? O próprio Salvador que, para não nos condenar à morte eterna, quis condenar-Se a Si mesmo e, por conseguinte, morreu e, não contente com isso, agora no Céu prossegue junto do Pai sendo mediador da nossa salvação” (Prática de amor a Jesus Cristo, cap. 3).

24. Escutar a palavra de Cristo e crer n’Aquele que O enviou, isto é, no Pai, são duas expressões intimamente relacionadas. O que diz Jesus Cristo é revelação divina; por isso, aceitar as palavras de Jesus equivale a crer em Deus Pai: “Aquele que crê em Mim, não crê em Mim, mas n’Aquele que Me enviou (…). Porque Eu não falei por Mim Mesmo, mas o Pai que Me enviou, ordenou-Me o que hei-de dizer e falar” (Ioh 12,44.49).

Aquele que tem fé está no caminho da vida eterna, porque participa, já nesta vida terrena, da vida divina que é eterna; mas não a conseguiu definitivamente – porque pode perdê-la -, nem em plenitude: “Queridos, agora somos filhos de Deus mas ainda não se manifestou o que seremos (…), quando se manifestar seremos semelhantes a Ele” (1 Ioh3,2). Para aquele que se mantém firme na fé, e vive de acordo com as suas exigências, o juízo divino não será condenatório mas salvador.

Portanto, vale a pena esforçar-se, apoiados na graça, por viver uma vida coerente com a fé: “Se se procurar com tanto empenho, com tanto trabalho e com tanto esforço viver aqui um pouco mais, quanto não deverá fazer-se para viver eternamente?” (De verb. Dom. serm., 64).

25-30. Com estes vv. encerra-se a primeira parte do discurso do Senhor, que abarca de 5,19 a 5,47, e cujo núcleo essencial é a revelação acerca da Sua relação com o Pai. Para compreender as afirmações que o Senhor faz aqui há que ter presente que Ele, por ser uma única Pessoa (divina), um só sujeito de operações, um único Eu, exprime em palavras humanas não só os sentimentos que tem como homem, mas também a realidade mais profunda do Seu ser: é o Filho de Deus, tanto na Sua geração eterna pelo Pai, como na Sua geração no tempo ao assumir a natureza humana. Daqui que Jesus Cristo tenha uma consciência tão viva e profunda – inimaginável para nós – da Sua filiação, que O leva a tratar o Pai com uma intimidade singularíssima, com amor e, ao mesmo tempo, com respeito; está consciente ao mesmo tempo da Sua igualdade com o Pai; por isso, quando fala de que o Pai Lhe deu a vida (v. 26), ou Lhe deu o poder (v. 27), não é que tenha recebido uma parte, mas a totalidade da própria vida – “em si mesmo” – ou do próprio poder, sem que o Pai os perca.

“Vês como mostra a igualdade e como a única diferença consiste em que um é o Pai e outro o Filho. Porque a expressão ‘deu’ introduz esta única diferença e demonstra que tudo o resto é igual. Daí se segue que Ele (Cristo) faz todas as coisas com a mesma potestade e com o mesmo poder que o Pai e que não toma a Sua força senão d’Ele” (Hom. sobre S. João, 39,3).

Maravilha-nos neste passo do Evangelho como na estreiteza da linguagem humana Jesus Cristo exprimiu os sentimentos do Seu único Eu: a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que assumiu no tempo (e a partir desse momento para sempre) a natureza humana. É um mistério que o cristão deve contemplar, ainda que não o possa compreender; só pode sentir-se inundado por uma luz tão potente que supera a sua capacidade de compreensão, mas enche a sua alma de fé e de desejos de adoração.

Dia 18 de março

Jo 5, 31-47

31Se Eu der testemunho de Mim mesmo, o Meu testemunho não passa por verídico. 32É outro que dá testemunho de Mim, e Eu sei que é verídico o testemunho que Ele dá de Mim. 33Vós mandastes enviados a João e ele deu testemunho da verdade. 34Não é dum homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para que vos salveis. 35Ele era uma lâmpada que ardia e brilhava, e vós, por um momento, deixastes-vos tomar de alegria com a sua luz. 36Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar, essas mesmas obras que faço, atestam, a Meu respeito, que o Pai Me enviou. 37E o Pai que Me enviou deu Ele mesmo testemunho de Mim. Nunca Lhe ouvistes a voz, nem Lhe vistes a figura, 38e não tendes, permanecendo em vós, a Sua palavra, porque não acreditais No que Ele enviou. 39Esquadrinhais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de Mim! 40Vós, porém, não quereis vir a Mim, para terdes a vida. 41Não é dos homens que Eu tiro glória; 42aliás, bem vos conheço: não tendes em vós o amor de Deus. 43Eu vim em nome de Meu Pai e vós não Me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, recebê-lo-eis. 44Como podeis acreditar, vós que tirais glória uns dos outros e não buscais a glória só da parte de Deus? 45Não penseis que Eu vou acusar-vos ao Pai. Há quem vos acuse, Moisés, em quem pusestes a vossa esperança; 46porquanto, se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em Mim, visto ele ter escrito a Meu respeito! 47Mas, se não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas Minhas palavras?

Comentário

31-40. A Jesus, por ser o Filho de Deus, bastava-Lhe a Sua própria autoridade para dar validade às Suas palavras (cfr 8,18); mas, como outras vezes, acomoda-Se aos usos dos homens e condescende com a forma de pensar dos Seus ouvintes. Assim, antecipando-Se à possível objecção dos Judeus de que o testemunho de uma pessoa na sua própria causa não é suficiente (cfr Dt 19,15), explica que as Suas palavras são avalizadas por quatro testemunhos: o de São João Baptista, o dos milagres, o do Pai, e o das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento.

João Baptista tinha dado testemunho de que Jesus era o Filho de Deus (1,34). Ainda que Jesus não tivesse necessidade de recorrer ao testemunho de um homem, nem sequer ao de um grande profeta, aquele testemunho foi dado em atenção aos Judeus, para que reconhecessem o Messias. Jesus pode mostrar-lhes, além disso, um testemunho melhor que o do Baptista: os milagres que realiza, e que são, para quem os queira reconhecer com olhar limpo, sinais inequívocos do Seu poder divino, de que procede do Pai; os milagres de Jesus são, pois, testemunhos do Pai acerca do Seu Filho, que enviou ao mundo. Noutras ocasiões o Pai manifesta a divindade de Jesus: no Baptismo (cfr 1,31-34), na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8) e, mais tarde, diante de toda a multidão (cfr Ioh 12,28-30).

Jesus apela também para outro testemunho divino: o que se encontra nas Sagradas Escrituras. Estas falam d’Ele, mas os Judeus não são capazes de penetrar o seu verdadeiro sentido, porque as lêem sem se deixarem iluminar por Aquele a Quem Deus enviou e em Quem se cumprem todas as profecias. “A ‘economia’ do Antigo Testamento destinava-se sobretudo a preparar, a anunciar profeticamente (cfr Lc 24,44; Ioh 5,39; 1 Pet 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr 1 Cor 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico (…). Por isso, os fiéis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação” (Dei Verbum, n. 15).

41-47. Jesus lança à cara dos Seus ouvintes três impedimentos que têm para O reconhecerem como o Messias e Filho de Deus: a falta de amor a Deus, a busca da glória humana e a interpretação interessada dos textos sagrados. A defesa que Jesus fez da Sua própria actuação e das relações com o Pai poderia fazer pensar aos Seus adversários que pretendia glória humana. Porém, os testemunhos aduzidos por Jesus (o Baptista, os milagres, o Pai e as Escrituras) põem em evidência que não é Ele quem busca a Sua glória, e que os Judeus O perseguem não por amor a Deus nem por defesa da honra divina, mas por motivos que não são rectos, ou por uma visão meramente humana.

Na verdade, o Antigo Testamento leva ao conhecimento de Jesus Cristo (cfr Ioh 1,45; 2,17.22; 5,39.46; 12,16.41); não obstante, os Judeus permanecem na incredulidade pelas suas disposições interiores, pois reduzem as promessas messiânicas dos livros sagrados a uma esperança nacionalista. Tais concepções, nada sobrenaturais, fecham-lhes a alma para as palavras e para as acções de Jesus, e impedem-nos de ver que n’Ele se estão a cumprir as antigas profecias (cfr 3,14-16).

Dia 19 de março (São José)

Mt 1, 16.18-21.24a

16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

– José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

24E José, despertando do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor.

Comentário

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc 1, 25-38): “(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)” (Catecismo Romano, I, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproximadamente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimónio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimónias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expressamente nos versículos 22-23): 1° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3° o carácter miraculoso da conceição do Menino sem intervenção de varão.

19. “José era efectivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7, 1; 23-32; Ez 18, 5 ss; Prv 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7, 6; 9, 6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens” (Cristo que passa, n° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente actuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2 Sam 7, 12). Como diz São João Crisóstomo: “Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem” (Hom. sobre S. Mateus, 4).

“Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi concebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes” (Catecismo Romano, I, 4, 1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa “salvador”. Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

“Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus. (…) Os nomes profetizados (…o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens” (Catecismo Romano, I, 3, 5 e 6).

Dia 20 de março

Jo 7, 40-53

40Diziam então alguns dentre a multidão, que tinham ouvido estas palavras: Ele é na verdade o Profeta! 41Outros afirmavam: É o Messias! Outros, porém, diziam: Mas é da Galileia que vem o Messias? 42Não disse a Escritura que é da descendência de David e da povoação de Belém, de onde era David, que vem o Messias? 43Estabeleceu-se, pois, desacordo entre a multidão, por causa d’Ele. 44Alguns queriam prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou as mãos. 45Então, os guardas vieram ter com os Sumos Sacerdotes e os Fariseus, que lhes perguntaram: Porque não O trouxestes? 46Responderam os guardas: Nunca ninguém falou como esse homem fala! 47Retorquiram-lhes os Fariseus: Também vós estais seduzidos? 48Porventura creu n’Ele algum dentre os chefes ou dentre os Fariseus? 49Mas essa multidão, que não conhece a Lei, são uns malditos! 50Disse-lhes Nicodemos, aquele que tinha ido anteriormente ter com Jesus e que era um deles: 51Acaso julga a nossa Lei um homem, sem primeiro o ouvir e saber o que ele faz? 52Eles retorquiram-lhe: Também tu és da Galileia? Trata de indagar e hás-de ver que da Galileia não sai nenhum profeta. 53E foi cada qual para sua casa.

Comentário

40-43. O título “o Profeta” alude a Dt 18,18, que prediz a vinda nos últimos tempos de um profeta que todos deveriam escutar (cfr Ioh 1,21; 6,14); por sua vez, “o Cristo” (“o Messias”) era o título mais corrente no Antigo Testamento para designar o futuro Salvador enviado por Deus. O passo mostra uma vez mais a diversidade de opiniões acerca de Jesus. Muitos judeus ignoravam – sem se preocuparem de forma alguma por averiguar a verdade – que tinha nascido em Belém, a cidade de David, onde, segundo Miqueias (5,2) devia nascer o Messias. Tal ignorância culpável constituía neles uma desculpa para não O aceitar como o Cristo. Outros, porém, diante dos milagres de Jesus, compreendem que Ele deve ser o Messias. Também ao longo da história há diversas opiniões acerca de Jesus Cristo: alguns consideram-No exclusivamente como um homem extraordinário, sem quererem compreender que a Sua grandeza Lhe vem precisamente de ser o Filho de Deus.

46. A verdade abriu caminho nos ânimos simples dos servidores do Sinédrio e, pelo contrário, chocou contra a obstinação dos fariseus. “Eis que os fariseus e os escribas não tiraram proveito nem ao contemplarem os milagres nem ao lerem as Escrituras; pelo contrário, os servidores, sem estas ajudas, foram captados por um só discurso, e os que foram prender Jesus voltaram presos pelo Seu poder. E não disseram: não pudemos por causa da gente; mas apregoaram a sabedoria de Cristo. Não é de admirar somente a sua prudência, porque não necessitaram de sinais, mas foram conquistados só pela doutrina; não disseram, com efeito: ‘Jamais homem algum fez tais milagres’, mas: ‘Jamais falou assim homem algum’. É de admirar também a sua convicção: vão aos fariseus, que se opunham a Cristo, e falam-lhes desta maneira” (Hom. sobre S. João, 9).

Dia 21 de março

Jo 11, 1-45

1Estava doente certo homem, Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. 2Maria era aquela que ungiu o Senhor com perfume e Lhe enxugou os pés com os cabelos; seu irmão Lázaro é que estava doente. 3Mandaram-Lhe, pois, dizer as irmãs: Senhor, olha que está doente aquele de quem és amigo! 4Quando ouviu isto, Jesus observou: Essa doença não é de morte, é antes para a glória de Deus, para o Filho de Deus ser glorificado por ela.

5Ora Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. 6Mas, tendo ouvido dizer que ele estava doente, ainda ficou dois dias no sítio em que Se encontrava. 7Só depois é que disse aos discípulos: Vamos outra vez para a Judeia. 8Rabi – observam-Lhe os discípulos – ainda há pouco procuravam os Judeus apedrejar-Te, e Tu vais outra vez para lá?! 9Jesus retorquiu: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz consigo. 11Assim falou, declarando-lhes depois disso: O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo. 12Disseram-Lhe então os discípulos: Senhor, se está a dormir, salvar-se-á. 13Jesus referia-Se à morte dele, mas eles pensaram que falava do sono natural. 14Disse-lhes então Jesus abertamente: Lázaro morreu, 15e Eu, por vossa causa, estou contente por lá não ter estado, para que vós acrediteis. Mas vamos ter com ele. 16Disse então Tomé, que é chamado Dídimo, aos companheiros: Vamos nós também, para morrermos com Ele!

17E assim Jesus, ao chegar, encontrou-o já com quatro dias de túmulo. 18Ora Betânia era perto de Jerusalém, cerca duns quinze estádios; 19e muitos Judeus tinham vindo até junto de Marta e de Maria, para as consolarem pela morte do irmão.

20Quando Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, foi-Lhe ao encontro, enquanto Maria ficava em casa. 21Disse então Marta a Jesus: Se cá estivesses, Senhor, não teria morrido meu irmão! 22Ainda agora eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus To há-de conceder. 23Diz-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. 24Responde-Lhe Marta: Eu sei que há-de ressuscitar na altura da Ressurreição, no último dia! 25Eu sou a Ressurreição e a Vida – volveu-lhe Jesus. – Quem acredita em Mim, ainda que venha a morrer, viverá; 26e todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá jamais. Acreditas nisto? 27Acredito, Senhor- Lhe diz ela – eu já acreditava que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo!

28Dito isto, retirou-se e foi chamar sua irmã Maria, dizendo em segredo: Está ali o Mestre e manda-te chamar! 29Ela, ao ouvir isto, levanta-se prontamente e vai ter com Ele. 30Jesus, de facto, ainda não tinha entrado na aldeia, mas conservava-Se no sítio em que Marta Lhe tinha vindo ao encontro. 31Então os Judeus que estavam com Maria em casa a consolá-la, quando a viram levantar-se apressadamente e sair, foram atrás dela, pensando que ia ao túmulo, para aí chorar. 32Maria, ao chegar aonde estava Jesus, caiu-Lhe aos pés, quando O viu, dizendo-Lhe: Se cá estivesses, Senhor, não teria morrido meu irmão! 33Então Jesus, quando a viu a soluçar e os Judeus que tinham vindo com ela a soluçar também, teve um frêmito na alma e perturbou-Se; 34depois perguntou: Onde o pusestes? Responderam-Lhe: Vem ver, Senhor. 35Jesus chorou. 36Diziam então os Judeus: Olha como Ele o estimava! 37Mas alguns deles observavam: Não podia Ele, que abriu os olhos do cego, ter feito igualmente com que este não tivesse morrido?

38Então Jesus, tendo um novo frêmito no íntimo, chega ao túmulo. Era uma furna e nela estava colocada uma pedra. 39Diz Jesus: Tirai a pedra. Responde-Lhe Marta, irmã do morto: Já cheira, Senhor, pois está no quarto dia. 40Diz-lhe Jesus: Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus? 41Tiraram, pois, a pedra. Então Jesus ergueu os olhos ao alto e disse: Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. 42Eu bem sabia que sempre Me ouves, mas foi por causa da multidão dos circunstantes que o disse, para que acreditem que Tu Me enviaste. 43Dito isto, bradou em alta voz: Lázaro, vem cá para fora! 44O morto saiu, atado de pés e mãos com ligaduras e a cara envolta num lençol. Diz-lhes Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. 45Então, muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Ele fizera, acreditaram n’Ele.

Comentário

1-45. Este capítulo relata um dos milagres mais relevantes de Jesus. Recolheu-o o quarto Evangelho, confirmando assim o poder de Jesus sobre a morte, que os evangelhos sinópticos tinham mostrado com a ressurreição da filha de Jairo (Mt 9,25 par.) e do filho da viúva de Naim (Lc 7,12).

O Evangelista apresenta em primeiro lugar as circunstâncias do facto (vv. 1-16); depois o diálogo de Jesus com as irmãs de Lázaro (vv. 17-37); finalmente a ressurreição deste, quatro dias após a sua morte (vv. 38-45). Betânia distava apenas uns três quilômetros de Jerusalém (v. 18). Jesus, nos dias anteriores à Sua Paixão, freqüentou a casa desta família, com que tinha grande amizade. São João faz notar os sentimentos de afecto de Jesus (vv. 3.5.36) ao descrever a Sua emoção e dor pela morte do amigo.

A ressurreição de Lázaro é ocasião para que o Senhor mostre o Seu poder divino sobre a morte, e dê assim uma prova da Sua Divindade, para confirmar a fé dos Seus discípulos e manifestar-Se como a Ressurreição e a Vida. A maior parte dos judeus, excepto os saduceus (cfr Mt 22,23), criam na futura ressurreição dos mortos. Essa é a fé que confessa também Marta (cfr v. 24).

A volta de Lázaro à vida, além de ser um facto real, histórico, é um sinal da nossa ressurreição futura. Mas Cristo, com a Sua ressurreição gloriosa, pela qual é o “primogênito de entre os mortos” (1Cor 15,20; Col 1,18; Apc 1,5), é também a causa da nossa ressurreição e modelo da mesma. Nisso se distingue a Sua ressurreição da de Lázaro, visto que “Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morre mais” (Rom 6,9), enquanto Lázaro só volta à vida terrena para ter de morrer outra vez.

2. Nos Evangelhos aparecem várias mulheres com o nome de Maria. Aqui trata-se de Maria de Betânia, a irmã de Lázaro (v. 2), a mesma que depois ungiu o Senhor, também em Betânia, em casa de Simão o leproso (cfr Ioh 12,1-8; Mc 14,3): o indefinido ou aoristo “ungiu” exprime uma acção passada relativamente ao tempo em que escreve o Evangelista, embora a unção fosse posterior à ressurreição de Lázaro.

Maria de Betânia, Maria Madalena e a mulher “pecadora” que ungiu os pés do Senhor na Galileia (cfr Lc 7,36), são uma, duas ou três mulheres? Ainda que às vezes se tenda a identificar as três, parece mais provável que se trate de pessoas diferentes. Em primeiro lugar, deve distinguir-se a unção da Galileia (Lc 7,36) realizada pela “pecadora”, da unção de Betânia levada a cabo pela irmã de Lázaro (Ioh 12,1); tanto pelo tempo em que têm lugar, como pelos pormenores específicos, são claramente diferentes. Por outro lado, nos Evangelhos não há nenhum indício positivo de que Maria de Betânia fosse a mesma que a “pecadora” da Galileia. Também não há base firme para identificar Maria Madalena com a “pecadora”, da qual não se dá o nome; a Madalena aparece entre as mulheres que seguem Jesus na Galileia, da qual tinha expulsado sete demônios (cfr Lc 8,2) e que Lucas apresenta na sua narração como um personagem ainda não conhecido, nem dá nenhum outro elemento que permita relacionar ambas as mulheres.

Por último, Maria de Betânia e Maria Madalena também não se podem identificar, pois João distingue as duas mulheres: nunca chama à irmã de Lázaro Maria Madalena, nem a esta, que está junto da Cruz (Ioh 19,25), que acorre ao sepulcro e a quem o Senhor ressuscitado aparece (Ioh 20,1.11-18), a relaciona para nada com Maria de Betânia.

A razão de que algumas vezes se tenha confundido Maria de Betânia com Maria Madalena deve-se, por um lado, à identificação desta com a “pecadora” da Galileia, por relacionar a possessão diabólica da Madalena com a condição pecadora da que fez a unção da Galileia; e, por outro lado, à confusão das duas unções: a irmã de Lázaro seria a “pecadora” protagonista da única unção. Deste modo concluiu-se, sem base sólida, na confusão das três mulheres numa, ainda que a interpretação melhor fundada e mais comum entre os exegetas seja a de que se trata de três mulheres diferentes.

4. A glória de que fala aqui Cristo, diz Santo Agostinho, “não foi um ganho para Jesus, mas proveito para nós. Portanto, diz Jesus que a doença não é de morte, porque aquela morte não era para morte, mas antes em ordem a um milagre, pelo qual os homens cressem em Cristo e evitassem assim a verdadeira morte” (In Ioann. Evang., 49,6).

8-10. A lapidação era a pena capital que se aplicava aos blasfemos (cfr Lev 24,16). Vimos que pelo menos duas vezes intentaram lapidar Jesus. A primeira porque tinha proclamado a Sua filiação divina e a Sua existência eterna ao afirmar que “era” antes de Abraão (Ioh 8,58-59). A segunda por manifestar a Sua unidade com o Pai (cfr Ioh 10,30-31).

Estes intentos das autoridades judaicas falharam porque ainda não tinha chegado a hora de Jesus, isto é, o tempo designado pelo Pai para a Sua Morte e Ressurreição. Quando chegar a Crucifixão será a hora dos Seus inimigos “e o poder das trevas” (Lc 22,53). Mas até esse momento é o tempo da luz, em que o Senhor podia caminhar sem perigo de morte.

16. As palavras de Tomé recordam as dos Apóstolos no Cenáculo, dispostos a tudo, inclusivamente a morrer pelo seu Mestre (cfr Mt 26,31-35). Já por ocasião do discurso do Pão da Vida, quando muitos dos discípulos abandonaram o Senhor, os Doze permaneceram fiéis (cfr Ioh 6,67-71), e seguiram-No apesar das suas debilidades. Mas quando Jesus, depois da traição de Judas Iscariotes, Se deixar prender em Getsemani sem resistência alguma, proibindo inclusivamente a defesa pelas armas (cfr Ioh 18,11), desconcertar-se-ão e abandonarão o Mestre. Só São João permanecerá fiel na hora suprema do Calvário.

18. “Quinze estádios”: Uns três quilômetros.

21-22. Segundo interpreta Santo Agostimho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, “não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressuscites meu irmão (…). Somente disse: Sei que tudo podes e fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos” (In Ioann. Evang., 49,13). O mesmo se deve dizer acerca das palavras de Maria que São João relata pouco mais adiante (v. 32).

24-26. Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo, e que São João nos transmite com fidelidade (cfr Ioh 10,9.14; 14-16; 15,1): Jesus é a Ressurreição e a Vida. É a Ressurreição porque com a Sua vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é um sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar também um dia, como Cristo (cfr 1 Cor 15,23; Col 1,18). Por isso para o crente a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada como diz um dos Prefácios da Liturgia de defuntos: “A vida daqueles que cremos em Ti, Senhor, não termina, transforma-se; e, ao desfazer-se a nossa morada terrena, adquirimos uma mansão eterna no céu”.

Ao dizer que é a Vida, Jesus refere-Se não só à que começa no mais além, mas também à vida sobrenatural que a graça opera na alma do homem que ainda se encontra a caminho.

“Esta vida, prometida e proporcionada a cada homem pelo Pai em Jesus Cristo, eterno e unigênito Filho, encarnado e nascido da Virgem Maria ‘ao chegar a plenitude dos tempos’ (cfr Gal 4,4), é o complemento final da vocação do homem; é, de alguma maneira, o cumprir-se daquele ‘destino’ que, desde toda a eternidade, Deus lhe preparou. Este ‘destino divino’ torna-se via, por sobre todos os enigmas, as incógnitas, as tortuosidades e as curvas, do ‘destino humano’ no mundo temporal. Se, de facto, tudo isto, não obstante toda a riqueza da vida temporal, leva por inevitável necessidade à fronteira da morte e à meta da destruição do corpo humano, apresenta-se-nos Cristo para além desta meta: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim… não morrerá jamais’. Em Jesus Cristo crucificado, deposto no sepulcro e depois ressuscitado, ‘brilha para nós a esperança da feliz ressurreição… a promessa da imortalidade futura’ (Missal Romano, Prefácio de defuntos I), em direcção à qual o homem caminha, através da morte do corpo, partilhando com tudo o que é criado e visível esta necessidade a que está sujeita a matéria” (Redemptor hominis, n. 18).

33-36. Podemos contemplar a profundidade e delicadeza dos sentimentos de Jesus. Se a morte corporal do amigo arranca lágrimas ao Senhor, que não fará a morte espiritual do pecador, causa da sua condenação eterna? “Cristo chorou: chore também o homem sobre si mesmo. Por que chorou Cristo senão para ensinar o homem a chorar?” (In Ioann. Evang., 49,19). Choremos nós também, mas pelos nossos pecados, para que voltemos à vida da graça pela conversão e pelo arrependimento. Não desprezemos as lágrimas do Senhor, que chora por nós, pecadores:

“Jesus é teu amigo. – O Amigo. – Com coração de carne, como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro…

– E tanto como a Lázaro, quere-te a ti” (Caminho, n° 422).

41-42. A Humanidade Santíssima de Jesus está a exprimir a Sua Filiação divina natural, não adoptiva como a dos outros homens. Daí brotam estes sentimentos de Jesus Cristo que nos ajudam a compreender que quando Ele diz “Pai”, o afirma com uma intensidade e autenticidade inefáveis e únicas. Assim, quando os Evangelhos apresentam Jesus em oração, sempre põem em realce que começa com a invocação “Pai”, reflectindo o Seu amor e confiança singulares (cfr Mt 11,25 e par.). Esses sentimentos devem dar-se também, de algum modo, na nossa própria oração, visto que pelo Baptismo nos unimos a Cristo e n’Ele tornamo-nos filhos de Deus (cfr Ioh 1,12; Rom 6,1-11; 8,14-17). Daqui que devamos orar sempre com espírito filial e com gratidão pelos muitos benefícios recebidos de Nosso Pai Deus.

O milagre da ressurreição de Lázaro, realmente extraordinário, é uma prova de que Jesus é o Filho de Deus, enviado ao mundo pelo Pai. E assim, quando Lázaro ressuscita, aumenta a fé dos discípulos (v. 15), de Marta e de Maria (vv. 26.40) e da multidão (vv. 36.45).

43. Jesus chama Lázaro pelo seu nome. Embora estivesse verdadeiramente morto, não tinha perdido a sua identidade pessoal: os defuntos continuam a existir mas de outro modo, pois passam da vida mortal para a vida eterna. Por isso, Jesus Cristo afirma que Deus “não é Deus de mortos mas de vivos”, pois para Ele todos vivem (cfr Mt 22,32; Lc 20,38).

Este passo pode aplicar-se à ressurreição espiritual da alma em pecado que recobra a graça. Deus quer a nossa salvação (cfr 1 Tim 2,4), portanto, jamais havemos de desanimar no nosso afã e esperança por alcançar essa meta:

“Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: ‘jam foetet, quatriduanus est enim’ – já fede, porque há quatro dias que está enterrado, diz Marta a Jesus.

Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires (‘Lazare, veni foras!’ – Lázaro vem para fora!), voltarás à Vida” (Caminho, n° 719).

44. Os Judeus amortalhavam lavando e ungindo o corpo do defunto com aromas para retardar algo a decomposição e atenuar o fedor; depois envolviam o cadáver com tecidos e ligaduras, cobrindo-lhe a cabeça com um sudário. Era um sistema parecido ao que se empregava no Egipto, mas sem proceder a um embalsamamento completo, que implicava a extracção de certas vísceras.

O túmulo de Lázaro devia consistir num aposento subterrâneo que comunicava com a superfície por uma escadaria, cuja porta estava tapada com uma lousa. Lázaro foi movido por uma força sobrenatural até à entrada. Como já tinha acontecido na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,42-43), devido ao assombro, ninguém se moveu até que as palavras do Senhor romperam o ambiente de silêncio e temor que se tinha criado.

Santo Agostinho vê na ressurreição de Lázaro uma figura do sacramento da Penitência: como Lázaro do túmulo “sais tu quando te confessas. Pois, que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária. E assim como o defunto saiu ainda atado, também o que se vai confessar ainda é réu. Para que fique desatado dos seus pecados disse o Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar. Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desatardes na terra, será desatado também no céu” (In Ioann. Evang., 49,24). A arte cristã recolhe esta comparação, já desde os primeiros séculos, nas catacumbas, onde encontramos umas cincoenta e três representações da ressurreição de Lázaro, simbolizando assim o dom da vida da graça por meio do sacerdote, que repete de novo diante do pecador: “Lázaro, vem cá para fora”.