dia 15 a 21 de fevereiro de 2010

Dia 15 de fevereiro

Mc 8, 11-13

11Vieram os Fariseus e começaram a disputar com Ele, pedindo-Lhe, para O tentarem, um sinal do céu. 12Ele, arrancando um suspiro do íntimo da alma, disse: Porque é que esta geração pede um sinal? Digo-vos, em verdade, que não se dará nenhum sinal a esta geração. 13E, deixando-os, embarcou outra vez e foi para a margem oposta.

Comentário

11-12. Jesus exprime assim a profunda tristeza que Lhe causava o endurecimento do coração dos fariseus: estes permanecem cegos e incrédulos diante da luz que brilhava na sua presença e dos prodígios que Cristo realiza. Para o homem que rejeita os milagres que Deus já lhe ofereceu, será inútil que exija novos sinais, porque esse pedido não procede de uma busca sincera da verdade mas de uma malevolência, que no fundo o que pretende é tentar Deus (cfr Lc 16,27-31). A exigência de novos milagres para crer, sem aceitar os realizados na História da Salvação, é pedir contas a Deus, a Quem se cita diante do tribunal dos homens (cfr Rom 2,1-11): o homem constitui-se em juiz, e o Senhor é deman­dado para que Se defenda. Esta atitude repete-se, infelizmente, na vida de muitos homens. Só se pode encontrar Deus quando temos uma disposição aberta e humilde. «Não necessito de milagres; bastam-me os que há na Escritura. — Pelo contrário, faz-me falta o teu cumprimento do dever, a tua correspondência à graça» (Caminho, n.° 362).

12. A geração a que alude Jesus não inclui todos os homens do Seu tempo, mas refere-se aos fariseus e aos seus sequazes (cfr Mc 8,38; 9,19; Mt 11,16), que não querem ver nos milagres o sinal e a garantia da missão e dignidade messiânicas de Jesus, mas inclusivamente os atribuem ao poder de Satanás (Mt 12,28).

Se não aceitam os sinais que lhes são dados, não lhes será dado nenhum outro, tão espetacular como o que eles buscam, porque o Reino de Deus não vem aparatosamente (Lc 17,20-21) e porque inclusivamente poderiam continuar a interpretar torcidamente esse novo sinal (Lc 16,31). Segundo Mt 12,38-42 e Lc 11,29-32, é-lhes oferecido ainda outro sinal, único: o milagre de Jonas, sinal da Morte e da Ressurreição de Jesus Cristo; mas diante desta prova excepcional os fariseus também não deporão a sua soberba.

Dia 16 de fevereiro

Mc 8, 14-21

14Ora os discípulos esqueceram-se de levar pão e não tinham consigo no barco mais que um. 15E Ele recomendava-lhes: Olhai: Cui­dado com o fermento dos Fariseus e com o fermento de Herodes! 16E eles começaram a discorrer uns com os outros que não tinham pão. 17Ele percebeu e disse-lhes: Porque estais a discorrer que não tendes pães? Não compreendeis ainda nem reflectis? Tendes a inteligência embotada? 18Tendo olhos, não vedes; tendo ouvidos, não ouvis? Nem vos lembrais 19de quantos cestos cheios de pedaços recolhestes, quando parti os cinco pães para aqueles cinco mil? Responderam-Lhe: Doze. 20E quando parti os sete para os quatro mil, quantos cabazes cheios de pedaços reco­lhestes? Sete, responderam. 21E dizia-lhes: Ainda não compreendeis?

Comentário

15-16. Noutro passo dos Evangelhos — Lc 13,20-21; Mt 13,33 — a imagem do fermento foi empregada por Jesus para significar a força que encerrava a Sua doutrina. Aqui a palavra «fermento» é utilizada no sentido de má disposição. Com efeito, na elaboração do pão, como é sabido, o fermento é que faz levedar a massa. A hipocrisia farisaica e a vida dissoluta de Herodes, que só se movia por ambições pessoais, eram o «fermento» que contagiava desde dentro a «massa» de Israel, para acabar por corrompê-la. Jesus quer prevenir os Seus discípulos contra esses perigos, e fazê-los compreen­der que para receber a Sua doutrina se necessita de um coração puro e simples.

Mas os discípulos não compreendem. «Não eram cultos. nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobi sparabolam, Senhor explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão (…). Eram estes os Discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportavam antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens corren­tes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus» (Cristo que passa, n.° 2). Isto mesmo é o que nos pode acontecer a nós. Ainda que não tenhamos grandes dotes nem qualidades, o Senhor chama-nos, e o amor de Deus e a docilidade às Suas palavras farão brotar nas nossas almas frutos imprevisíveis de santidade e de eficácia sobrenatural. nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam, Senhor explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão (…). Eram estes os Discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportavam antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens correntes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus» (Cristo que passa, n.° 2). Isto mesmo é o que nos pode acontecer a nós. Ainda que não tenhamos grandes dotes nem qualidades, o Senhor chama-nos, e o amor de Deus e a docilidade às Suas palavras farão brotar nas nossas almas frutos imprevisíveis de santidade e de eficácia sobrenatural.

Dia 17 de fevereiro

Mt 6, 1-6.16-18

1Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos deles. De outra sorte, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos Céus. 2Portanto, quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique secreta, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará. 5E quando orardes, não sejais como os hipócritas que gostam de orar de pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta à chave e ora a teu Pai que está em lugar secreto. E teu Pai que vê em lugar secreto, te recompensará. 16E quando jejuais, não andeis tristes, como os hipócritas pois desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuas, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para não mostrares aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está em lugar secreto, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

Comentário

1-18. “Justiça”: Aqui quer dizer boas obras. Nosso Senhor ensina com que espírito se hão-de fazer os actos de piedade pessoal. A esmola, o jejum e a oração constituíam os actos fundamentais da piedade individual no povo escolhido; daqui que se centre nesses três temas. Jesus Cristo, como quem tem a autoridade máxima, ensina que a verdadeira piedade deve viver-se com rectidão de intenção, em intimidade com Deus e fugindo da ostentação. Esta piedade, assim vivida, supõe um exercício da fé em Deus que nos vê, e da esperança de que premiará os que vivem uma piedade sincera.

5-6. A Igreja, seguindo esta doutrina de Jesus, sempre nos ensinou a rezar desde crianças no nosso aposento. Esse “tu” do Senhor (v. 6) está a indicar inequivocamente a necessidade da oração pessoal; cada um, a sós com Deus, como um filho que fala com o Pai.

A oração pública em que participam todos os fiéis é santa e necessária; mas não pode nunca substituir este terminante preceito do Senhor; tu, no teu aposento, fechada a porta, ora a teu Pai.

O Concílio Vaticano II recolhe os ensinamentos e a prática da Igreja na sua Liturgia, que é “a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte donde promana toda a sua força (…). A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, e até, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (l Thes 5,17) (Sacrosanctum Concilium, nn. 10.12).

A alma que realmente vive a sua fé cristã sabe que necessita de se retirar freqüentemente para orar a sós com seu Pai Deus. Jesus, que nos dá este ensinamento acerca da oração, praticou-o na Sua vida terrena: o santo Evangelho refere-nos as muitas vezes que o Senhor Se retirava sozinho para orar: “As vezes, passava a noite inteira ocupado em colóquio íntimo com o Pai. Como cativou os primeiros discípulos a figura de Cristo em oração!” (Cristo que passa. n° 119) (cfr Mt 14, 23; Mc 1,35; Lc 5,16; etc.). Os Apóstolos seguiram o exemplo do Mestre, e assim vemos Pedro que sobe ao terraço da casa em que se aloja em Jope, para se retirar a orar a sós, e ali recebe uma revelação (cfr Act 10, 9-16). “A vida de oração tem de fundamentar-se, além disso, em pequenos espaços de tempo, dedicados exclusivamente a estar com Deus. São momentos de colóquio sem ruído de palavras” (Cristo que passa, n° 119).

16-18. Partindo da prática tradicional do jejum, o Senhor inculca-nos o espírito com que devemos viver a necessária mortificação dos sentidos: temos de fazê-la sem ostentação, evitando o aplauso dos homens, discretamente; assim não poderão aplicar-se contra nós essas palavras de Jesus: “Já receberam a sua recompensa”, pois seria um triste negócio. “O mundo só admira o sacrifício com espetáculo, porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso” (Caminho, n° 185).

Dia 18 de fevereiro

Lc 9, 22-25

22E acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacerdotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar. 23Então pôs-Se a dizer para todos: Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, esse há-de salvá-la. 25De fato, que vantagem tem um homem em ganhar o mundo inteiro, se se perder a si mesmo ou causar a própria ruína?

Comentário

22. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. “Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6,14)” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc).

23. “Cristo repete-o a cada um de nós, ao ouvido, intimamente: a Cruz de cada dia. Não só – escreve São Jerónimo – em tempo de perseguição ou quando se apresente a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as actividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo que antes éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo (Epístola 121,3) (…). Vedes? A cruz de cada dia. Nulla dies sine cruce, nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o Seu jugo” (Cristo que passa, nos 58 e 176).

“E muito certo que aquele que ama os prazeres, que busca as suas comodidades, que foge das ocasiões de sofrer, que se inquieta, que murmura, que repreende e se impacienta porque a coisa mais insignificante não corre segundo a sua vontade e o seu desejo, tal pessoa, de cristão só tem o nome; somente serve para desonrar a sua religião, pois Jesus Cristo disse: aquele que queira vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias da vida, e siga-Me” (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas – São João B. Maria Vianney).

A Cruz não só deve estar presente na vida de cada cristão, mas também em todas as encruzilhadas do mundo: “Que formosas essas cruzes no cimo dos montes, no alto dos grandes monumentos, no pináculo das catedrais!… Mas também é preciso inserir a Cruz nas entranhas do mundo. Jesus quer ser levantado ao alto, aí: no ruído das fábricas e das oficinas, no silêncio das bibliotecas, no fragor das ruas, na quietude dos campos, na intimidade das famílias, nas assembléias, nos estádios… Onde quer que um cristão gaste a sua vida honradamente, aí deve colocar, com o seu amor, a Cruz de Cristo, que atrai a Si todas as coisas” (Via Sacra, XI, n° 3).

25. Esta afirmação categórica de Jesus ensina-nos a necessidade de fazer tudo tendo em vista a vida eterna; para ganhar esta bem podemos gastar a vida terrena. “É certo que nos é lembrado que de nada serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se a si mesmo se vem a perder. A expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer, mas antes ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro. Por conseguinte, embora o progresso terreno se deva cuidadosamente distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao reino de Deus” (Gaudium et spes, n. 39).

Dia 19 de fevereiro

Mt 9, 14-15

14Então acercam-se d’Ele os discípulos de João e perguntam: Porque é que nós e os Fariseus jejuamos com frequência e os Teus discípulos não jejuam? 15Disse-lhes Jesus: Podem acaso os convidados das bodas entristecer-se enquanto está com eles o esposo? Dias virão em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão.

Comentário

14-17. O interesse da questão que levanta este passo radica, não em saber que jejuns praticavam os judeus contemporâneos de Jesus, e em especial os fariseus e os discípulos de João Baptista, mas em saber qual é a razão pela qual Jesus não obriga os Seus discípulos a tais jejuns. A resposta que dá aqui o Senhor, é, ao mesmo tempo, um ensinamento e uma profecia. O cristianismo não é um mero remendo no antigo traje do judaísmo. A redenção operada por Cristo implica uma total regeneração. O seu espírito é demasiado novo e pujante para ser amoldado às velhas formas penitenciais, cuja vigência caducava. A história da Igreja primitiva ensina-nos até que ponto os costumes de alguns cristãos, procedentes do judaísmo, resistiam a entender a transformação operada por Jesus. É sabido que na época de Nosso Senhor dominava nas escolas judaicas uma complicadíssima casuística de jejuns, purificações etc., que afogavam a simplicidade da verdadeira piedade. As palavras de Jesus apontam para esta simplicidade de coração com que os Seus discípulos devem viver a oração, o jejum e a esmola (cfr Mt 6, 1-18 e notas correspondentes). Será a Igreja que, desde os tempos apostólicos, concretizará em cada época, com os poderes que Deus lhe deu, as formas de jejum, segundo este espírito do Senhor.

15. “Os convidados das bodas”: O texto original diz literalmente “filhos da casa onde se celebram as bodas”, que é uma expressão típica para designar os amigos mais íntimos do esposo. Deve sublinhar-se a marcada construção semítica da frase que o Evangelista conservou na sua fidelidade à expressão original de Jesus.

Por outro lado, esta “casa” a que alude Jesus Cristo tem um profundo sentido: há que pô-la em relação com a parábola dos convidados para as bodas (Mt 22, 1-14), e simboliza a Igreja como casa de Deus e Corpo de Cristo: “Moisés, na verdade, foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para dar testemunho de tudo o que se havia de anunciar. Cristo, porém, é fiel, como Filho, à frente da Sua própria casa, a qual somos nós, se conservarmos firmemente até ao fim a confiança e a esperança de que nos gloriamos” (Heb3, 5-6). A segunda parte do versículo alude à morte violenta do Senhor.

Dia 20 de fevereiro

Lc 5, 27-32

27Depois disto, saiu, viu um publicano chamado Levi, sentado ao posto de cobrança, e disse-lhe: Segue-Me. 28E ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29Ofereceu-Lhe Levi, em sua casa, um grande banquete, e havia grande número de publicanos e de outros, que estavam com eles à mesa. 30Os Fariseus e os seus Escribas murmuravam, dizendo aos discípulos: Por que motivo comeis e bebeis com os publicanos e pecadores? 31Jesus tomou a palavra e disse-lhes: Não são os que têm saúde que precisam de médico, senão os doentes. 32Não foram os justos, mas os pecadores, que Eu vim chamar ao arrependimento.

Comentário

27-29. Levi, mais conhecido pelo nome de Mateus, responde com generosidade e prontidão ao chamamento de Jesus. Para celebrar e agradecer a sua vocação dá um grande banquete. Este passo do Evangelho reflete com clareza que a vocação é um grande bem do qual há que alegrar-se. Se nos fixássemos só na renúncia, no que há que deixar, e não no dom de Deus, no bem que vai fazer em nós e através de nós, poderia sobrevir o abatimento, como ao jovem rico que não quis deixar as suas riquezas e se afastou triste (Lc 18,18). Muito diferente é o comportamento de Mateus, e o dos Magos, que “ao verem a estrela se encheram de imensa alegria” (Mt 2,10), porque apreciaram mais adorar a Deus recém-nascido do que todos os esforços e incomodidades da viagem.

32. Este modo de atuar do Senhor significa que o único título que temos para sermos salvos é reconhecermo-nos com simplicidade pecadores diante de Deus. “Porque Jesus não sabe que fazer da astúcia calculista, da crueldade dos corações frios, da formosura vistosa mas vã. Nosso Senhor ama a alegria dum coração moço, o passo simples, a voz sem falsete, os olhos limpos, o ouvido atento à sua palavra de carinho. E é assim que reina na alma” (Cristo que passa, n° 181).

Dia 21 de fevereiro

Lc 4, 1-13

1 Jesus, pois, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão; e era levado pelo Espírito no deserto, 2 durante quarenta dias, sendo tentado pelo Diabo. E naqueles dias não comeu coisa alguma; e terminados eles, teve fome. 3 Disse-lhe então o Diabo: Se tu és Filho de Deus, manda a esta pedra que se torne em pão. 4 Jesus, porém, lhe respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem. 5 Então o Diabo, levando-o a um lugar elevado, mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. 6 E disse-lhe: Dar-te-ei toda a autoridade e glória destes reinos, porque me foi entregue, e a dou a quem eu quiser; 7 se tu, me adorares, será toda tua. 8 Respondeu-lhe Jesus: Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. 9 Então o levou a Jerusalém e o colocou sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; 10 porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito, que te guardem; 11 e: eles te susterão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra. 12 Respondeu-lhe Jesus: Dito está: Não tentarás o Senhor teu Deus. 13 Assim, tendo o Diabo acabado toda sorte de tentação, retirou-se dele até um certo tempo.

Comentário

13. Nas tentações do Senhor estão resumidas todas as que podem acontecer ao homem: «Não diria a Sagrada Escritura, comenta São Tomás, que acabada toda a tentação ; o diabo se retirou d’Ele, se nas três não se achasse a matéria de todos os pecados. Porque a causa das tentações são as causas das concupiscências: o deleite da carne, o afã de glória e a ambição de poder» (Suma Teológica, III, q. 41, a. 4ad4).

Ao vencer todo o gênero de tentações, Jesus Cristo dá-nos exemplo de como temos de comportar-nos diante das insídias do demônio. Foi tentado como homem e como homem as superou: «Não agiu como Deus usando do Seu poder — de que, então, nos teria aproveitado o Seu exemplo?:—, mas, como homem, serviu-Se dos auxílios que tem em comum conosco» (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Queria ensinar-nos os meios para vencer, o diabo: a oração, o jejum, a vigilância, não dialogar com a tentação, ter nos lábios as palavras de Deus na Escritura, e pôr a confiança no Senhor. Essas são as armas.

«Até um certo tempo», isto é, o da Paixão de Cristo. Na vida pública do Senhor aparece com freqüência o diabo (cfr, p. ex., Mc 12,28), mas será no momento da Paixão — «esta é a vossa hora e o domínio das trevas» (Lc 22,53) — quando se manifesta claramente a sua atuação tentadora. Jesus Cristo adverte disso os Seus discípulos e assegura-lhes de novo a vitória (cfr Ioh 12;31; 14,30). Com a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo o poder do demônio fica definitivamente aniquilado. E em virtude desta vitória podemos superar todas as tentações.