In Evangelho do dia

Dia 14 de setembro

Jo 3, 13-17

13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

16De facto, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu intermédio.

Comentário

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeitamente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que encarnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testamento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressurreição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este facto com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mt 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr 1 Ioh 5,1), participar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; 1 Ioh 3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acrescente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, “aumenta-nos a fé” (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer actos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

Dia 15 de setembro

Jo 19, 25-27

25Estavam junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria de Magdala. 26Jesus, ao ver a mãe e o discípulo que amava, ali presente, diz à mãe: Senhora, eis o teu filho. 27A seguir, diz ao discípulo: Eis a tua mãe. E a partir daquele momento, recebeu-a o discípulo em sua casa.

Comentário

25. Enquanto os Apóstolos, excepto São João, abandonam Jesus nesta hora de opróbrio, aquelas piedosas mulheres, que O tinham seguido durante a Sua vida pública (cfr Lc 8,2-3), permanecem agora junto ao Mestre que morre na Cruz.

O Papa João Paulo II explica que a fidelidade da Virgem Santíssima se manifestou de quatro modos: o primeiro, pela busca generosa do que Deus queria d’Ela (cfr Lc 1,34); o segundo, mediante a aceitação submissa da Vontade divina (cfr Lc l ,38); o terceiro, pela coerência dos actos da vida com a decisão da fé tomada; e, finalmente, mediante a prova da perseverança. “Só pode chamar-se fidelidade uma coerência que dura ao longo de toda a vida. O fiat de Maria na Anunciação encontra a sua plenitude no fiat silencioso que repete ao pé da Cruz” (Homilia Catedral México).

A Igreja desde sempre reconheceu a dignidade da mulher e a sua importante missão na História da Salvação. Basta recordar o culto que, desde as origens, o povo cristão tributou à Mãe de Cristo, a Mulher por antonomásia, e a criatura mais excelsa e mais privilegiada que jamais saiu das mãos de Deus. O último Concílio, dirigindo uma mensagem especial às mulheres, diz entre outras coisas: “Mulheres que sofreis provações, finalmente, vós que estais de pé junto à cruz, à imagem de Maria, vós que, tantas vezes através da história, tendes dado aos homens a força para lutar até ao fim, de testemunhar até ao martírio, ajudai-os uma vez mais a conservar a audácia dos grandes empreendimentos, ao mesmo tempo que a paciência e o sentido de humildade de tudo o que principia” (Conc. Vaticano II, Mensagem do Concílio à Humanidade. Às mulheres, n.° 9).

26-27. “A pureza limpidíssima de toda a vida de João torna-o forte diante da Cruz. – Os outros apóstolos fogem do Gólgota; ele, com a Mãe de Cristo, fica.

– Não esqueças que a pureza enrijece, viriliza o carácter” (Caminho, n.° 144).

O gesto do Senhor, pelo qual confia Sua Santíssima Mãe ao cuidado do discípulo, tem um duplo sentido. Por um lado, manifesta o amor filial de Jesus à Virgem Maria. Santo Agostinho considera como Jesus nos ensina a cumprir o quarto mandamento: “É uma lição de moral. Faz o que recomenda fazer, e, como bom Mestre, ensina os Seus com o Seu exemplo, a fim de que os bons filhos tenham cuidado dos pais; como se aquele madeiro que sujeitava os Seus membros moribundos fosse também a cátedra do Mestre que ensinava” (In Ioann. Evang., 119,2).

Por outro lado, as palavras do Senhor declaram que Maria Santíssima é nossa Mãe: “Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo” (Lumen gentium, n. 58).

Todos os cristãos, representados em São João, somos filhos de Maria. Ao dar-nos Cristo Sua Mãe por nossa Mãe manifesta o amor aos Seus até ao fim (cfr Ioh 13,1). A Virgem Santíssima ao aceitar o apóstolo João como filho seu mostra o seu amor de Mãe: “A ti, Maria, o Filho de Deus e ao mesmo tempo teu Filho, do alto da Cruz indicou um homem e disse: ‘Eis o teu filho’. E naquele homem confiou-te cada homem, confiou-te todos. E Tu, que no momento da Anunciação, nestas simples palavras: ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38), concentraste todo o programa da tua vida, abraças todos, aproximas-te de todos, buscas maternalmente a todos. Desta maneira cumpre-se o que o último Concílio declarou acerca da tua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Perseveras de maneira admirável no mistério de Cristo, teu Filho unigênito, porque estás sempre onde quer que estão os homens Seus irmãos, onde quer que está a Igreja” (Homilia Basílica de Guadalupe).

“João, o discípulo amado de Jesus, recebe Maria e introdu-la em sua casa, na sua vida. Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite dirigido a todos os cristãos para que Maria entre também nas suas vidas. Em certo sentido, é quase supérfluo este esclarecimento. Maria quer certamente que a invoquemos, que nos aproximemos d’Ela com confiança, que apelemos para a sua maternidade, pedindo-lhe que se manifeste como nossa Mãe” (Cristo que passa, n.° 140).

Este modo filial de tratar Maria é o que segue constantemente João Paulo II. Assim, na sua despedida da Virgem de Czestochowa, orava com estas palavras: “Mãe da Igreja de Jasna Góra! Uma vez mais me consagro a Ti na tua maternal escravidão de amor: Totus tuus! Sou todo teu! Consagro-te a Igreja inteira, em toda a parte, até aos confins da terra. Consagro-te a humanidade; consagro-te os homens, meus irmãos. Todos os povos e nações. Consagro-te a Europa e todos os continentes. Consagro-te Roma e a Polônia unidas, através do teu servo, por um novo vínculo de amor. Mãe, aceita! Mãe, não nos abandones! Mãe, guia-nos Tu!” (Alocução de despedida no Santuário de Jasna Góra, 6-VI-1979).

Dia 16 de setembro

Lc 7, 31-35

31A quem hei-de, pois, comparar os homens desta geração? A quem são semelhantes? 32Assemelham-se a esses garotos que, sentados na praça, se interpelam uns aos outros, dizendo:

Tocámos flauta para vós e não dançastes!

Entoámos endechas e não chorastes!

33Veio, efectivamente, João Baptista, que não come pão nem bebe vinho, e vós dizeis: “Está possesso do Demónio”. 34Veio o Filho do homem, que come e bebe, e vós dizeis: “Aí está um homem glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”. 35Mas a Sabedoria foi justificada por todos os Seus filhos.

Comentário

35. A sabedoria que aqui se menciona é a Sabedoria divina, que é por excelência o próprio Cristo (cfr Sap 7,26; Prv 8,22). “Filhos da Sabedoria” é um hebraísmo que significa simplesmente “sábios”; por sua vez, é verdadeiramente sábio o que chega a conhecer Deus, O ama e se salva: numa palavra, o santo.

A sabedoria divina manifesta-se na criação e no governo do universo e, sobretudo, na salvação do género humano. Que os sábios justifiquem a sabedoria parece significar que os sábios, os santos, dêem testemunho de Cristo com a sua vida santa: “Brilhe assim a vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5,16).

Dia 17 de setembro

Lc 7, 36-50

36Um fariseu convidou-O a comer consigo. Ele entrou em casa do fariseu e pôs-Se à mesa. 37Ora uma mulher, que era pecadora naquela cidade, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume. 38Colocou-se por detrás, chorando a Seus pés e, com lágrimas, começou a banhar-Lhe os pés; pôs-se depois a enxugar-Lhos com os seus cabelos, a beijar-Lhos e a ungir-Lhos com perfume. 39Ao ver tal cena, o fariseu que O tinha convidado disse consigo: “Este homem, se fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que Lhe está a tocar: uma pecadora!” 40Então Jesus tomou a palavra e disse-lhe: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Este respondeu: Diz lá, Mestre. 41Tinha certo prestamista dois devedores: um devia quinhentos denários e o outro cinqüenta. 42Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles então lhe ficará com mais amizade? 43Simão disse, em resposta: Penso que aquele a quem mais perdoou. Respondeu-lhe Ele: Julgaste bem. 44E, voltando-Se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com lágrimas e enxugou-Mos com os seus cabelos. 45Não Me deste um ósculo; mas ela, desde que Eu entrei, não deixou de Me beijar os pés. 46Não Me ungiste a cabeça com óleo; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. 47Por isso te digo: Estão perdoados os seus muitos pecados, visto que manifestou muito amor. Mas aquele a quem pouco se perdoa pouco amor manifesta. 48Depois, disse-lhe a ela: Estão perdoados os teus pecados. 49Começaram então os convivas a dizer consigo: Quem é Este que até os pecados perdoa? 50E Jesus disse à mulher: Salvou-te a tua fé: vai em paz!

Comentário

36-40. A mulher pecadora, movida sem dúvida pela graça, acorreu atraída pela pregação de Cristo e pelo que se dizia d’Ele. Os convidados punham-se à mesa apoiados sobre o braço esquerdo, em pequenos divãs, de forma que os pés ficavam retirados para fora. Eram deveres de cortesia para com o hóspede dar-lhe o beijo de boas-vindas, oferecer-lhe água para lavar os pés e perfumes com que se ungisse.

41-50. Três coisas nos ensina Cristo na breve parábola dos dois devedores: a Sua divindade e o poder de perdoar os pecados; o mérito do amor da pecadora; e a descortesia que encerram os descuidos de Simão, que omitiu no convívio com Jesus os pormenores de urbanidade que se costumavam ter com os convidados. O Senhor não buscava esses pormenores pelo valor que em si possuíam mas pelo carinho que eles expressavam, e por isso queixa-Se da falta de cortesia de Simão.

“(…) Jesus repara em todos esses pormenores de cortesia e de delicadeza humanas, que o fariseu não soube manifestar-Lhe. Cristo é perfectus Deus, perfectus homo (Símbolo Atanasiano), Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e homem perfeito. Traz a salvação e não a destruição da natureza. Com Ele aprendemos que não é cristão comportar-se mal com o homem, criatura de Deus, feito à Sua imagem e semelhança (Gen I, 26)” (Amigos de Deus, n° 73),

Além disso, o fariseu pensou mal ao julgar negativamente a pecadora e Jesus: Simão duvida do conhecimento que Cristo tem e murmura interiormente. O Senhor, que conhecia os segredos dos corações dos homens (manifestando assim a Sua divindade), intervém para lhe indicar o seu descaminho. A verdadeira justiça, diz-nos São Gregório Magno (cfr In Evangelia homiliae, 33), tem compaixão; a falsa, pelo contrário, indigna-se. Muitos são como esse fariseu: esquecendo a sua condição, passada ou presente, de pobres pecadores, quando vêem os pecados dos outros, imediatamente, sem piedade, deixam-se levar pela indignação, ou apressam-se a julgar, ou riem-se ironicamente deles. Não pensam nas frases de São Paulo: “O que crê estar de pé, veja que não caia” (l Cor 10,12). “Irmãos, se porventura alguém é achado em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão (…). Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gal 6,1-2).

Devemos esforçar-nos para que a caridade presida a todos os nossos juízos. Se não, facilmente seremos injustos com os outros:

“Não queiramos julgar. – Cada qual vê as coisas do seu ponto de vista… e com o seu entendimento, bem limitado quase sempre, e com os olhos obscuros ou enevoados, com trevas de exaltação muitas vezes (…). Como valem pouco os juízos dos homens! – Não julgueis sem joeirar o vosso juízo na oração” (Caminho, n°451).

A caridade e a humildade far-nos-ão ver nos pecados dos outros a nossa própria condição débil e desprotegida, e ajudar-nos-ão a unir-nos de coração à dor de todo o pecador que se arrepende, porque também nós cairíamos em iguais ou mais graves pecados se a divina piedade não estivesse misericordiosamente junto de nós.

“O Senhor – conclui Santo Ambrósio – amou não o ungüento, mas o carinho; agradeceu a fé, louvou a humildade. E tu também, se desejas a graça, aumenta o teu amor; derrama sobre o corpo de Jesus a tua fé na Ressurreição, o perfume da Igreja santa e o ungüento da caridade com os outros” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

47. O homem não pode merecer o perdão dos pecados porque, sendo Deus o ofendido, a sua gravidade torna-se infinita. É necessário o sacramento da Penitência, com que Deus nos perdoa pelos méritos infinitos de Jesus Cristo; só há uma condição indispensável para alcançar o perdão de Deus: o nosso amor, o nosso arrependimento. Perdoa-se-nos na medida em que amamos; e quando o nosso coração está cheio de amor já não há nele lugar para o pecado, porque então demos lugar a Jesus, que nos diz como a esta mulher: Ficam perdoados os teus pecados. O arrependimento é mostra de que amamos a Deus. Mas Deus é que nos amou primeiro (cfr 1 Ioh 4,10). Quando Deus nos perdoa manifesta o Seu amor por nós. O nosso amor a Deus, pois, é sempre de correspondência, depois do Seu. O perdão divino faz crescer o nosso agradecimento e o nosso amor por Ele. “Ama pouco – comenta Santo Agostinho – aquele que é perdoado em pouco. Tu, que dizes não ter cometido muitos pecados, por que não os fizeste? (…). É por te ter Deus levado pela mão (…). Nenhum pecado, com efeito, comete um homem que não possa fazê-lo também outra pessoa se Deus, que fez o homem, não o segura pela Sua mão” (Sermo 99,6). Por conseguinte, devemos amar, enamorar-nos cada dia mais do Senhor, não só porque nos perdoa os nossos pecados, mas também porque nos preserva, com a ajuda da Sua graça, de os cometer.

50. Jesus Cristo declara que a fé levou aquela mulher a prostrar-se aos Seus pés e a mostrar-Lhe o seu arrependimento; este arrependimento mereceu-lhe o perdão. Da mesma maneira nós, ao aproximar-nos do sacramento da Penitência, devemos reavivar a nossa fé em que “a confissão sacramental não é um diálogo humano; é um colóquio divino; é um tribunal de segura e divina justiça e, sobretudo, de misericórdia, com um juiz amoroso que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez XXXIII, 11)” (Cristo que passa, n° 78).

Dia 18 de setembro

Lc 8, 1-3

1Em seguida, ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. 2Andavam com Ele os doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, que era chamada de Magdala e de quem tinham saído sete Demônios, 3Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes, Susana e muitas outras, que os serviam com os seus haveres.

Comentário

1-3. Em várias ocasiões nos fala o Evangelho de mulheres que acompanhavam o Senhor. São Lucas recolhe aqui o nome de três: Maria, chamada Madalena, a quem Cristo ressuscitado aparece junto do sepulcro (Ioh 20,11-18; Mc 16,9); Joana, de posição remediada, que se encontra também entre as que acorrem ao sepulcro na manhã da Ressurreição (Lc 24,10) e Susana, da qual não temos nenhuma outra notícia no Evangelho. A missão destas mulheres consistia em ajudar com os seus bens e com o seu trabalho a Jesus e aos discípulos. Deste modo correspondiam com agradecimento aos benefícios que tinham recebido de Cristo, e cooperavam na tarefa apostólica.

Na Igreja a mulher e o homem gozam de igual dignidade. Dentro desta dignidade comum há na mulher, sem dúvida, características peculiares que se hão-de reflectir necessariamente no seu papel dentro da Igreja: “Todos os baptizados – homens e mulheres – participam igualmente da comum dignidade, liberdade e responsabilidade dos filhos de Deus (…). A mulher é chamada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade… A feminilidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível e não a incorpora na própria vida” (Temas Actuais do Cristianismo, n.os 14 e 87).

O Evangelho põe em realce a generosidade das santas mulheres. É formoso pensar que o Senhor quis apoiar-Se nesta caridade, e que elas souberam corresponder-Lhe com um desprendimento tão delicado e generoso, que provoca na mulher cristã “uma santa inveja, cheia de eficácia” (cfr Caminho, n.° 981).

Dia 19 de setembro

Lc 8, 4-15

4Como afluísse grande multidão e os de cada cidade a Ele acorressem, disse em parábola: 5Saiu o semeador para semear a sua semente. Ora, quando semeava, caiu parte da semente à beira do caminho; foi calcada e as aves do céu comeram-na. 6Outra caiu sobre a rocha e, depois de brotar, secou por não ter humidade. 7Outra caiu no meio de espinhos e os espinhos, brotando com ela, sufocaram-na. 8É outra caiu na boa terra e, depois de brotar, deu fruto centuplicado. Dizendo isto, bradava: Quem tem ouvidos para ouvir, que oiça!

9Perguntaram-Lhe os discípulos o que queria dizer esta parábola, 10e Ele respondeu: A vós está concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros é só em parábolas, a fim de que vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.

11É isto a parábola: A semente é a Palavra de Deus. 12Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouviram; em seguida, vem o Diabo e tira-lhes a Palavra do coração, para não se salvarem, acreditando. 13Os que estão sobre a rocha são aqueles que, ao ouvirem, recebem alegremente a Palavra; mas esses não têm raiz: acreditam por algum tempo e afastam-se na altura da provação. 14A semente que caiu nos espinhos são aqueles que ouviram, mas, no seu caminho, são sufocados pelos cuidados, pela riqueza e pelos prazeres da vida e não chegam à maturidade. 15E a que está na boa terra são aqueles que, tendo ouvido a Palavra com um coração recto e bom, a conservam e dão fruto com a sua perseverança.

Comentário

4-8. O Senhor dará a explicação da parábola (vv. 11-15). A semente é o próprio Jesus Cristo e a Sua pregação; e as diferentes terras reflectem as diversas atitudes dos homens diante de Jesus e da Sua doutrina: o Senhor semeia nas almas a vida divina através da pregação da Igreja e de tantas graças actuais que concede.

10-12. A finalidade que Jesus persegue com as parábolas é ensinar aos homens os mistérios da vida sobrenatural para os encaminhar para a salvação. Prevê, porém, que, pelas más disposições de alguns ouvintes, as parábola serão ocasião de endurecimento e de rejeição da graça.

12. Há homens que, metidos numa vida de pecado, são como o caminho onde cai a semente “que sofre um duplo dano, é pisada pelos caminhantes e arrebatada pelas aves. O caminho é portanto o coração que está espezinhado pela frequente passagem dos maus pensamentos, e seco de tal modo que não pode receber a semente nem esta germinar” (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.). As almas endurecidas pelos pecados podem chegar a ser terra boa e dar fruto pelo arrependimento sincero e pela penitência. É de notar o empenho do demónio por conseguir que a alma continue endurecida e não se converta.

13. “A muitos agrada o que escutam, e propõem-se agir bem; mas logo que começam a ser incomodados pelas adversidades abandonam as boas obras que tinham começado. A terra pedregosa não teve suficiente substância, pelo que, o germinado não chegou a dar fruto. Há muitos que quando ouvem falar contra a avareza a detestam, e exaltam o menosprezo das coisas deste mundo; mas mal a alma vê outra coisa para desejar, esquece-se do que exaltava. Há também muitos que quando ouvem falar contra a impureza não só não desejam manchar-se com as sujidades da carne, mas até se envergonham das manchas com que se mancharam; mas logo que se apresenta à sua vista a beleza corporal, é arrastado o coração pelos desejos de tal maneira que é como se nada tivessem feito nem determinado contra esses desejos, e fazem o que é digno de condenação e eles próprios tinham condenado ao recordar que o tinham cometido. Muitas vezes nos compungimos pelas nossas culpas e, contudo, voltaremos a cometê-las depois de as termos chorado” (In Evangelia homiliae, 15).

14. Trata-se daqueles que depois de receberem a semente divina, a vocação cristã, e tendo caminhado com passo firme durante algum tempo, começam a ceder na luta. Estas almas estão expostas a perder o gosto pelas coisas de Deus e, paralelamente, a iniciar o fácil e desviado caminho das compensações que lhes sugerem a sua ambição desordenada de poder, o seu afã pelas riquezas e a vida cómoda sem sofrimento.

Nesta situação começa a aparecer a tibieza, e o homem quer servir ao mesmo tempo a dois senhores:

“Não é lícito viver tentando manter acesas, como diz o povo, uma vela a São Miguel e outra ao Diabo. É preciso apagar a vela do Diabo. Temos de consumir a vida fazendo-a arder inteiramente ao serviço do Senhor. Se o nosso empenho pela santidade é sincero, se temos a docilidade de nos abandonar nas mãos de Deus, tudo correrá bem. Porque Ele está sempre disposto a dar-nos a Sua graça” (Cristo que passa, nº 59)

15. Três são as características que Jesus Cristo assinala na terra boa: ouvir com as boas disposições de um coração generoso os requerimentos divinos; esforçar-se para que essas exigências não se atenuem com o decurso do tempo; e, por fim, começar e recomeçar sem desanimar se o fruto tarda.

“Não podes ‘subir’. – Não é de estranhar: aquela queda!…

Persevera e ‘subirás’. – Recorda o que diz um autor espiritual: a tua pobre alma é um pássaro que ainda tem as asas empastadas de lama.

É preciso muito calor do céu e esforços pessoais, pequenos e constantes, para arrancar essas inclinações, essas imaginações, esse abatimento, essa lama pegajosa das tuas asas.

E ver-te-ás livre. – Se perseverares, ‘subirás'” (Caminho, nº 991).

Dia 20 de setembro

Mc 9, 30-37

30Partindo dali, iam a atravessar a Galileia, e Ele não queria que ninguém o soubesse, 31porque entretanto ia instruindo os discípulos e dizia-lhes: O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens que O hão-de matar, mas três dias depois de morto ressuscitará. 32Eles, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de O interrogar.

33Chegaram a Cafarnaum. Quando estava já em casa, perguntou-lhes: Que é que discutíeis no caminho? 34Mas eles calaram-se, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. 35Então, assentando-Se, chamou os doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro há-de ser o último de todos e o servo de todos. 36E, tomando um menino, pô-lo em frente deles e, estreitando-o nos braços disse-lhes: 37Quem receber um destes meninos em Meu nome, é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim, mas sim Aquele que Me enviou.

Comentário

30-32. Jesus Cristo, que Se comove ao ver as multidões como ovelhas sem pastor (Mt 9,36), deixa-as, porém, para Se dedicar a uma instrução esmerada dos Apóstolos. Retira-Se com eles para lugares afastados e ali, pacientemente, explica-lhes aqueles pontos que não tinham compreendido na pregação ao povo (Mt 13,36). Concretamente aqui, pela segunda vez, anuncia-lhes o acontecimento próximo da Sua Morte redentora na Cruz, seguida da Sua Ressurreição. Na Sua convivência com as almas Jesus actua da mesma forma: chama o homem ao retiro da oração e, ali, instrui-o sobre os Seus desígnios mais íntimos e sobre os aspectos mais exigentes da vida cristã. Depois, como os Apóstolos, os cristãos terão de semear esta doutrina até aos confins da terra.

34-35. Partindo de uma discussão mantida atrás de Si, Jesus Cristo doutrina os discípulos sobre o modo de exercer a autoridade na Igreja não como quem domina, mas como quem serve. Ele, no desempenho da Sua missão de fundar a Igreja de que é Cabeça e Legislador supremo, veio servir e não ser servido (Mt 20,28).

Quem não busca esta atitude de serviço abnegado, além de carecer de uma das melhores disposições para o recto exercício da autoridade, expõe-se a ser arrastado pela ambição do poder, pela soberba e pela tirania. “Estar à frente de uma obra de apostolado é o mesmo que estar disposto a sofrer tudo de todos, com infinita caridade”. (Caminho, n° 951).

36-37. Jesus, para ensinar graficamente aos Seus Apóstolos a abnegação e a humildade de que necessitam no exercício do seu ministério, toma uma criança, abraça-a e explica-lhes o significado deste gesto: acolher em nome e por amor de Cristo os que, como essa criança, não têm relevo aos olhos do mundo, é acolher o próprio Cristo e o Pai que O enviou. Nessa criança que Jesus abraça estão representadas todas as crianças do mundo, e também todos os homens necessitados, desprotegidos, pobres, doentes, nos quais nada há de brilhante e destacado para admirar.

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