dia 14 a 20 de junho de 2010

Dia 14 de junho

Mt 5, 38-42

38Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39Eu, porém, digo-vos que não resistais ao mau; mas, se alguém te ferir na face direita oferece-lhe também a outra. 40E a quem quiser pleitear contigo para te tirar a túnica, larga-lhe também a capa.41E se alguém te requisitar por uma milha, vai com ele duas. 42Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pede emprestado.

Comentário

38-42. Entre os antigos semitas, dos quais procede o povo hebraico, imperava a lei da vingança. Isto dava lugar a intermináveis lutas e crimes. A lei de talião constituiu naqueles primeiros séculos do povo eleito um avanço ético, social e jurídico notório. Esse avanço consistia em que o castigo não podia ser maior que o delito, e que cortava pela raiz toda a reiteração punitiva. Com isso, por um lado, ficava satisfeito o sentido da honra dos clãs e famílias e, por outro, cortava-se a interminável cadeia de vinganças.

Na moral do Novo Testamento Jesus dá o avanço definitivo, no que desempenha um papel fundamental o sentido do perdão e a superação do orgulho. Sobre estas bases morais e a defesa razoável dos direitos pessoais deve estabelecer-se todo o ordenamento jurídico para combater o mal no mundo. Os três últimos versículos referem-se à caridade mútua entre os filhos do Reino; caridade que pressupõe e impregna a justiça.

Dia 15 de junho

Mt 5, 43-48

43Ouvistes que foi dito: Ama o teu próximo e odeia o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. 46Porque, se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Porventura não fazem o mesmo também os publicanos? 47E se saudais só os vossos irmãos, que fazeis nisso de extraordinário? Porventura não fazem o mesmo também os gentios? 48Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste.

Comentário

43. A primeira parte do versículo “ama o teu próximo”, está em Levítico 19, 18. A segunda parte “odeia o teu inimigo”, não vem na Lei de Moisés. As palavras de Jesus, contudo, aludem a uma interpretação generalizada entre os rabinos da Sua época, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. O Senhor corrige esta falsa interpretação da Lei, entendendo por próximo todo o homem (cfr a parábola do bom samaritano em Lc 10, 25-37).

43-47. O passo recapitula os ensinamentos anteriores. O Senhor chega a estabelecer que o cristão não tem inimigos pessoais. O seu único inimigo é o mal em si, o pecado, mas não o pecador. Esta doutrina foi levada à prática pelo próprio Jesus Cristo com os que O crucificaram, e é a que segue todos os dias com os pecadores que se rebelam contra Ele e O desprezam. Por isso os santos seguiram o exemplo do Senhor, como o primeiro mártir Santo Estêvão, que orava pelos que lhe estavam a dar a morte. Chegou-se ao cume da perfeição cristã: amar e rezar até pelos que nos persigam e caluniem. Este é o distintivo dos filhos de Deus.

46. “Publicanos”: Eram os cobradores de impostos. O Império Romano não tinha funcionários próprios para este serviço, mas entregava-o a determinadas pessoas do país respectivo. Estas podiam ter empregados subalternos (daí que por vezes se fale de “chefe de publicanos”, corno é o caso de Zaqueu; cfr Lc 19, 2). A quantidade genérica do imposto para cada região era determinada pela autoridade romana. Os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam, e que se prestava a arbitrariedade; por isso normalmente eram odiados pelo povo. Além disso, no caso dos Judeus, agregava-se a nota intamante de expoliar o povo eleito em favor dos gentios.

48. O versículo 48 resume, de algum modo, todos os ensinamentos do capítulo, incluídas as Bem-aventuranças. Em sentido estrito é impossível que a criatura tenha a perfeição de Deus. Portanto, o Senhor quer dizer aqui que a perfeição divina deve ser o modelo para o qual há-de tender o fiel cristão, sabendo que há uma distância infinita em relação ao seu Criador. Isto, porém, não rebaixa nada a força deste mandamento, mas, pelo contrário, ilumina-o. Juntamente com a exigência deste mandato de Jesus Cristo, há que considerar a magnitude da graça que promete, para que sejamos capazes de tender, nada menos, que à perfeição divina. De qualquer modo a perfeição que havemos de imitar não se refere ao poder e à sabedoria de Deus, que superam por completo as nossas possibilidades, mas nesta passagem, pelo contexto, parece referir-se sobretudo ao amor e à misericórdia. Neste sentido São Lucas refere-nos as seguintes palavras do Senhor: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36).

Como se vê, a “chamada universal à santidade” não é uma sugestão, mas um mandamento de Jesus Cristo: “Tens obrigação de te santificar. – Tu, também. – Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos? A todos, sem excepção, disse o Senhor: ‘Sede perfeitos, como Meu Pai Celestial é perfeito'” (Caminho, n° 291). Doutrina que o Concílio Vaticano II sanciona no cap. 5 da Const. Lumen gentium, n. 40, donde tiramos estas palavras: “Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida,de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos Seus discípulos, de qualquer condição: ‘sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (…). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou condição de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano”.

Dia 16 de junho

Mt 6, 1-6.16-18

1Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens, para serdes vistos deles. De outra sorte, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos Céus. 2Portanto, quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique secreta, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará. 5E quando orardes, não sejais como os hipócritas que gostam de orar de pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta à chave e ora a teu Pai que está em lugar secreto. E teu Pai que vê em lugar secreto, te recompensará. 16E quando jejuais, não andeis tristes, como os hipócritas pois desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que receberam já a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuas, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para não mostrares aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está em lugar secreto, e teu Pai, que vê em lugar secreto, te recompensará.

Comentário

1-18. “Justiça”: Aqui quer dizer boas obras. Nosso Senhor ensina com que espírito se hão-de fazer os actos de piedade pessoal. A esmola, o jejum e a oração constituíam os actos fundamentais da piedade individual no povo escolhido; daqui que se centre nesses três temas. Jesus Cristo, como quem tem a autoridade máxima, ensina que a verdadeira piedade deve viver-se com rectidão de intenção, em intimidade com Deus e fugindo da ostentação. Esta piedade, assim vivida, supõe um exercício da fé em Deus que nos vê, e da esperança de que premiará os que vivem uma piedade sincera.

5-6. A Igreja, seguindo esta doutrina de Jesus, sempre nos ensinou a rezar desde crianças no nosso aposento. Esse “tu” do Senhor (v. 6) está a indicar inequivocamente a necessidade da oração pessoal; cada um, a sós com Deus, como um filho que fala com o Pai.

A oração pública em que participam todos os fiéis é santa e necessária; mas não pode nunca substituir este terminante preceito do Senhor; tu, no teu aposento, fechada a porta, ora a teu Pai.

O Concílio Vaticano II recolhe os ensinamentos e a prática da Igreja na sua Liturgia, que é “a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte donde promana toda a sua força (…). A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós ao Pai, e até, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (l Thes 5,17) (Sacrosanctum Concilium, nn. 10.12).

A alma que realmente vive a sua fé cristã sabe que necessita de se retirar freqüentemente para orar a sós com seu Pai Deus. Jesus, que nos dá este ensinamento acerca da oração, praticou-o na Sua vida terrena: o santo Evangelho refere-nos as muitas vezes que o Senhor Se retirava sozinho para orar: “As vezes, passava a noite inteira ocupado em colóquio íntimo com o Pai. Como cativou os primeiros discípulos a figura de Cristo em oração!” (Cristo que passa. n° 119) (cfr Mt 14, 23; Mc 1,35; Lc 5,16; etc.). Os Apóstolos seguiram o exemplo do Mestre, e assim vemos Pedro que sobe ao terraço da casa em que se aloja em Jope, para se retirar a orar a sós, e ali recebe uma revelação (cfr Act 10, 9-16). “A vida de oração tem de fundamentar-se, além disso, em pequenos espaços de tempo, dedicados exclusivamente a estar com Deus. São momentos de colóquio sem ruído de palavras” (Cristo que passa, n° 119).

16-18. Partindo da prática tradicional do jejum, o Senhor inculca-nos o espírito com que devemos viver a necessária mortificação dos sentidos: temos de fazê-la sem ostentação, evitando o aplauso dos homens, discretamente; assim não poderão aplicar-se contra nós essas palavras de Jesus: “Já receberam a sua recompensa”, pois seria um triste negócio. “O mundo só admira o sacrifício com espetáculo, porque ignora o valor do sacrifício escondido e silencioso” (Caminho, n° 185).

Dia 17 de junho

Mt 6, 7-15

7E, na oração, não sejais palavrosos como os gentios, pois imaginam que hão-de ser ouvidos pela sua verbosidade. 8Náo vos pareçais, pois, com eles, porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de Lho pedirdes. 9Vós, pois, orai assim: Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome. 10Venha o Teu Reino. Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu. 11O pão nosso de cada dia nos dá hoje. 12E perdoa-nos as nossas dívidas, como também nós perdoamos aos nossos devedores. 13E não nos metas em tentação. Mas livra-nos do mal.” 14Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará a vós. 15Se, porém, não perdoardes aos homens, nem o Pai celeste perdoará as vossas ofensas.

Comentário

7-8. Jesus corrige os exageros supersticiosos de crer que são necessárias longas orações para que Deus nos escute. A verdadeira piedade não consiste tanto na quantidade de palavras como na freqüência e no amor com que o cristão se volta para Deus nos acontecimentos, grandes ou pequenos, de cada dia. A oração vocal é boa e necessária, mas as palavras só têm valor enquanto exprimem o sentir do coração.

9-13. O “Pai-nosso” é, sem dúvida, a página mais comentada de toda a SE. Os grandes escritores da Igreja deixaram-nos explicações cheias de piedade e sabedoria. Já os primeiros cristãos, “fiéis à recomendação do Salvador e seguindo os Seus divinos ensinamentos”, centraram a sua oração nesta fórmula sublime e simples de Jesus. E também os últimos cristãos elevarão o seu coração para dizer pela última vez o Pai-nosso quando estiverem prestes a ser levados para o Céu. Entretanto, desde criança até que deixa este mundo, o Pai-nosso é a oração que enche de consolação e de esperança o coração do homem. Bem sabia Jesus Cristo a eficácia que ia ter esta oração Sua. Graças sejam dadas a Nosso Senhor porque a compôs para nós, e também aos Apóstolos por no-la terem transmitido, e às nossas mães porque no-la ensinaram nas nossas primeiras balbuciadelas. É tão importante esta oração dominical, que desde os tempos apostólicos foi utilizada como base da catequese cristã, juntamente com o Credo ou Símbolo da fé, o Decálogo e os Sacramentos. A vida de oração era ensinada aos catecúmenos comentando o Pai-nosso. E, daí este costume passou para os nossos catecismos.

Santo Agostinho diz que esta oração do Senhor é tão perfeita, que em poucas palavras compendia tudo o que o homem possa pedir a Deus (cfr Sermo 56). Normalmente distinguem-se nela uma invocação e sete pedidos: três relativos à glória de Deus e quatro às necessidades dos homens.

9. É grande consolação poder chamar “Pai nosso” a Deus. Se Jesus, o Filho de Deus, ensina os homens a que invoquem Deus como Pai é porque neles se dá esta realidade consoladora, a de ser e sentir-se filhos de Deus.

“O Senhor (…) não é um dominador tirânico, nem um juiz rígido e implacável: é nosso Pai. Fala-nos dos nossos pecados, dos nossos erros, da nossa falta de generosidade, mas é para nos livrar deles e nos prometer a Sua amizade e o Seu amor (…). Um filho de Deus trata o Senhor como Pai. Não servilmente, nem com uma reverência formal, de mera cortesia, mas cheio de sinceridade e de confiança” (Cristo que passa, n° 64).

“Santificado seja o Teu nome”: Na Bíblia o nome equivale à própria pessoa. Aqui nome de Deus é o próprio Deus. Que sentido tem pedir que Deus seja santificado? Não pode sê-lo à maneira humana: afastando-se progressivamente do mal e aproximando-se do bem, visto que Deus é a própria santidade. Pelo contrário, Deus é santificado quando a Sua santidade é reconhecida e honrada pelas Suas criaturas. Este é o sentido que tem o primeiro pedido do “Pai-nosso” (cfr Catecismo Romano, IV, 10).

10. “Venha o Teu Reino”: Chegamos aqui outra vez à idéia central do evangelho de Jesus Cristo: a vinda do Reino. O Reino de Deus identifica-se tão plenamente com a obra de Jesus Cristo, que o Evangelho é chamado indiferentemente evangelho de Jesus Cristo ou evangelho do Reino (Mt 9, 35). O advento do Reino de Deus é a realização do desígnio salvador de Deus no mundo. O Reino de Deus estabelece-se em primeiro lugar no mais íntimo do homem, elevando-o à participação da própria vida divina. Esta elevação tem como que duas etapas: a primeira na terra, que se realiza pela graça; e a segunda, definitiva, na vida eterna, que será a plenitude da elevação sobrenatural do homem. Tudo isso exige de nós uma submissão espontânea, amorosa e confiada a Deus.

“Seja feita a Tua vontade”: Este terceiro pedido exprime um desejo duplo. Primeiro, a identificação do homem com a vontade de Deus, de modo rendido e incondicional; é a expressão do abandono nas mãos de seu Pai Deus. Segundo, o cumprimento daquela vontade divina, que reclama a livre cooperação humana. Este é o caso, por exemplo, da lei divina no aspecto moral, pela qual Deus manifesta a Sua vontade, mas sem a impor à força. Uma das manifestações da vinda do Reino de Deus é o cumprimento amoroso da vontade divina por parte do homem. A segunda parte da frase “assim na Terra como no Céu” quer dizer: assim como no céu os anjos e os santos estão totalmente identificados com a vontade de Deus, de modo semelhante se deseja que isso aconteça já aqui na terra.

A luta por cumprir a vontade de Deus é o sinal de que somos sinceros quando pronunciamos as palavras: “venha o Teu Reino”. Porque diz o Senhor: “Nem todo o que Me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus” (Mt 7, 21). “Quem de veras tiver dito esta palavra: ‘Fiat voluntas tua’, tem de ter feito tudo, com a determinação pelos menos” (Caminho de perfeição, cap. 63, n° 2).

11. Neste quarto pedido, o que ora tem em conta em primeiro lugar as necessidades da vida presente. A importância desta súplica consiste em que os bens materiais, necessários para viver, são declarados lícitos. Exprime-se um profundo sentido religioso da manutenção da vida: o que o discípulo de Cristo alcança com o seu próprio trabalho também o deve implorar de Deus e recebê-lo como um dom divino; Deus é quem mantém a vida. Ao pedir a Deus o próprio sustento e considerar que este vem das mãos divinas, o cristão afasta de si a angustiosa preocupação pelas necessidades materiais. Jesus quer que peçamos não a riqueza ou o gozo desses bens, mas a posse austera do necessário. Daí que, tanto em Mateus como em Lucas (Lc 11,2), se fale do alimento suficiente para cada dia. O quarto pedido dirige-se, pois, a uma moderação do alimento e dos bens necessários, afastada dos extremos de opulência e miséria, como já tinha ensinado Deus no AT: “Não me dês pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário, para que, saciado, não te renegue, e não diga: ‘Quem é o Senhor’? Ou, empobrecido, não roube e não profane o nome do meu Deus” (Prv 30,8-9)

Os Santos Padres interpretaram o pão que aqui se pede, não só como o alimento material, mas também viram significada a Santíssima Eucaristia, sem a qual não pode viver o nosso espírito.

Segundo o Catecismo Romano (cfr IV, 13,21), as razões para que se chame à Eucaristia pão nosso quotidiano são: que cada dia se oferece a Deus na Santa Missa, e que devemos recebê-lo dignamente, sendo possível todos os dias, segundo o conselho de Santo Ambrósio: “Se o pão é diário, por que o recebes tu apenas uma vez por ano? Recebe todos os dias o que todos os dias te é proveitoso; vive de modo que diariamente sejas digno de o receber” (De Sacramentis, V, 4).

12. “Dívida” tem aqui claramente o sentido de pecado. Com efeito, no dialecto aramaico do tempo de Jesus utilizava-se a mesma palavra para designar ofensa ou dívida. No quinto pedido reconhecemos, pois, a nossa situação de devedores por termos ofendido a Deus. Na revelação do AT é freqüente a recordação da condição pecadora do homem. Inclusive os “justos” são também pecadores. Reconhecer os nossos pecados é o princípio de toda a conversão a Deus. Não se trata apenas de reconhecer antigos pecados nossos, mas de confessar a nossa actual condição de pecadores. Esta mesma condição faz-nos sentir a necessidade religiosa de recorrer ao único que pode remediá-la, Deus. Daqui a conveniência de rezar insistentemente, com a oração do Senhor, para alcançar da misericórdia divina uma e outra vez o perdão dos nossos pecados.

A segunda parte deste pedido é uma chamada séria a perdoar aos nossos semelhantes: como nos atrevemos a pedir perdão a Deus, se não estamos dispostos a perdoar aos outros! O cristão deve ser consciente das exigências desta oração, que há-de rezar com todas as suas conseqüências: não querer perdoar a outro é condenar-se a si mesmo.

13. “E não nos deixes cair na tentação”: “Não pedimos aqui para não sermos tentados, porque a vida do homem na terra é milícia (Iob 7, 1)… Que é, pois, o que aqui pedimos? Que, sem nos faltar o auxílio divino, não consintamos por erro nas tentações, nem cedamos a elas por desalento; que esteja pronta em nosso favor a graça de Deus, a qual nos console e fortaleça quando nos faltem as próprias forças” (Catecismo Romano, IV, 15,14).

Reconhecemos nesta súplica do Pai-nosso a nossa debilidade para lutar contra a tentação só com as forças humanas. Isto deve levar-nos a recorrer com humildade a Deus, para receber d’Ele a fortaleza necessária. Porque “muito forte é Deus para livrar-te de tudo, e pode fazer-te mais bem do que mal todos os demônios. Deus quer somente que te fies d’Ele, que te arrimes a Ele, que confies n’Ele e desconfies de ti mesmo, e desta maneira há-de ajudar-te e com a Sua ajuda vencerás todo o inferno que venha contra ti. Desta firme esperança não te deixes cair, porque Se irritará com isso, nem porque os demônios sejam muitos e muitas as tentações e bravas e de muitas maneiras. Está sempre arrimado a Ele, porque se este arrimo e força não tens com o Senhor, logo cairás e temerás qualquer coisa” (Sermones 9, Domingo I de Quaresma).

“Mas livra-nos do mal”: Neste pedido, que de algum modo resume todos os anteriores, rogamos ao Senhor que nos livre de tudo aquilo que o nosso inimigo faz contra nós para perder-nos; e não nos poderemos livrar dele se o próprio Deus não nos livra, concedendo a Sua assistência aos nossos rogos.

Igualmente poderia traduzir-se por “mas livra-nos do Mau”, quer dizer, do maligno, do demônio, que é a origem, em última instância, de todos os nossos males.

Ao fazermos este pedido podemos estar seguros de ser ouvidos, porque Jesus Cristo, estando para sair deste mundo, rogava ao Pai pela salvação dos homens com estas palavras: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Ioh 17, 15).

14-15. São Mateus conserva nos vv. 14 e 15 como um comentário de Nosso Senhor à quinta petição do Pai-nosso.

Que maravilha é Deus que perdoa! Mas se Deus, três vezes Santo, tem misericórdia do pecador, quanto mais nós, pecadores, que sabemos por experiência própria da miséria do pecado, devemos perdoar aos outros. Não há ninguém perfeito na terra. Assim como Deus nos ama, mesmo com os nossos defeitos, e nos perdoa, nós também devemos amar os outros, mesmo com os seus defeitos, e perdoar-lhes. Se esperamos amar os que não têm defeitos, nunca amaremos ninguém. Se esperamos que se corrijam ou se desculpem os outros primeiro, quase nunca perdoaremos. Mas então, tambem nós não seremos perdoados. “De acordo: aquela pessoa tem sido má contigo.- Mas não tens sido tu pior com Deus?” (Caminho, n° 686).

Perdoando àqueles que nos têm ofendido tornamo-nos, pois, semelhantes ao nosso Pai Deus: “No facto de amar os inimigos, vê-se claramente certa semelhança com o nosso Pai Deus, que reconciliou consigo o género humano, que era muito inimigo e contrário Seu, redimindo-o da condenação eterna por meio da morte do Seu Filho” (Catecismo Romano, IV, 14,19).

Dia 18 de junho

Mt 6, 19-23

19Não entesoireis na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões arrombam e roubam. 20Entesoirai antes tesoiros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem destroem, e os ladrões não arrombam nem roubam. 21Porque onde está o teu tesoiro, aí está o teu coração.

22A candeia do corpo é o olho. Se, pois, o teu olho estiver são, todo o corpo terá luz. 23Mas se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo estará em trevas. Ora se a luz que em ti há é treva, quão grande a treva não será…

Comentário

19-21. A idéia é clara: o coração do homem anela por um tesouro em cuja posse pensa encontrar a segurança e a felicidade. Não obstante, todo o tesouro composto de bens da terra, de riquezas, de dinheiro, transforma-se numa contínua fonte de preocupações, porque está exposto ao perigo de perder-se, ou porque a sua defesa leva consigo uma tensão cheia de desgostos, e de dissabores.

Jesus, pelo contrário, ensina aqui que o verdadeiro tesouro são as obras boas e o comportamento recto, que serão premiadas por Deus no Céu eternamente. Esse sim que é um tesouro que não se perde! É aí que o discípulo de Cristo deve pôr o seu coração.

Jesus encerra os ensinamentos dos versículos precedentes com uma frase a modo de refrão (v. 21). Com esta doutrina Jesus não quer dizer que o homem deva despreocupar-se das coisas da terra. O que nos ensina é que nenhuma coisa criada pode ser “o tesouro”, o fim último do homem. Pelo contrário, o homem, usando rectamente das coisas nobres da terra, percorre o caminho para Deus, santifica-se e dá ao Senhor toda a glória: “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer coisa, fazei-o tudo para a glória de Deus” (l Cor 10, 31; cfr Col 3,l7).

22-23. Nestes versículos temos outra pequena jóia da doutrina sapiencial de Jesus. Começa com uma sentença que imediatamente é explicada. O Mestre emprega a imagem do olho como lamparina do corpo ao qual dá luz. A exegese cristã viu nesse “olho” e nessa “lâmpada” a intencionalidade dos nossos actos. São Tomás explica-o assim: “Com o olho é significada a intenção. O que quer fazer uma coisa, primeiro pretende-a: assim, se a tua intenção é luminosa – simples, transparente -, quer dizer, encaminhada para Deus, todo o teu corpo, ou seja, todas as tuas acções serão luminosas, dirigidas sinceramente para o bem” (Comentário sobre S. Mateus, 6,22-23).

Dia 19 de junho

Mt 6, 24-34

24Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de aborrecer um e amar o outro, ou ser dedicado a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

25Por isso vos digo: Não vos preocupeis pela vossa vida: que haveis de comer ou que haveis de beber; nem pelo vosso corpo: que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? 26Vede as aves do céu, que não semeiam nem ceifam nem enceleiram, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Não sois vós, porventura, muito mais do que elas? 27E quem de vós, com todas as suas preocupações, poderá acrescentar um côvado à sua vida? 28E quanto ao vestido, porque vos preocupais? Reparai nos lírios do campo: como crescem!… e não trabalham nem fiam. 29Ora Eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles. 30Pois, se à erva do campo que hoje é e amanhã se lança no forno, Deus assim a veste, quanto mais a vós, homens de pouca fé? 31Não andeis, pois, preocupados, dizendo: que havemos de comer ou que havemos de beber ou que havemos de vestir? 32Os gentios é que se afanam por estas coisas; bem sabe vosso Pai celeste que vós precisais de todas elas.

33Buscai primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se vos darão por acréscimo. 34Por isso, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois que o dia de amanhã se preocupará de si mesmo. Basta a cada dia o seu afã.

Comentário

24. O fim último do homem é Deus. Por este fim o homem deve entregar todo o seu ser. De facto, porém, há quem não ponha em Deus o seu fim último, mas nas riquezas. Neste caso, as riquezas convertem-se no seu deus. O homem não pode dividir-se entre dois fins absolutos e contrários.

25-32. Nesta belíssima página Jesus põe em relevo o valor das realidades correntes da vida. Ao mesmo tempo ensina-nos a pôr a nossa confiança na providência paternal de Deus. Com exemplos e comparações simples, tomados da vida quotidiana, inculca o abandono sereno nas mãos de Deus.

27. Onde se diz “vida”, pode dizer-se também “estatura”, mas seria versão mais afastada do texto (cfr Lc 12,25). A palavra “côvado” significa uma medida de espaço aplicável também ao tempo metaforicamente.

33. Uma vez mais a justiça do Reino de Deus aparece como a vida de graça no homem; o que leva consigo todo um conjunto de atitudes espirituais e morais, e pode resumir-se no conceito de “santidade”. A busca da santidade é a primeira coisa que se deve intentar nesta vida. De novo Jesus insiste na primazia das exigências espirituais. Afirma Sua Santidade o Papa Paulo VI, comentando este passo: “Por quê a pobreza? Para dar a Deus, ao Reino de Deus o primeiro lugar na escala de valores que são objecto das aspirações humanas. Diz Jesus: ‘Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça’; e di-lo em comparação com todos os outros bens temporais, inclusive necessários e legítimos, que normalmente empenham os desejos humanos. A pobreza de Cristo torna possível este desprendimento afectivo das coisas terrenas para pôr à frente das aspirações humanas a relação com Deus” (Audiência geral Paulo VI, 5-1-1977).

34. O Senhor exorta-nos a viver com serenidade cada dia, eliminando preocupações inúteis pelo que aconteceu ontem ou pelo que possa acontecer amanhã. É a sabedoria que se apoia na providência paternal de Deus e na própria experiência quotidiana: “O que observa o vento não semeia; e o que examina as nuvens não cega” (Eccl 11,4).

O importante, o que está nas nossas mãos, é viver diante de Deus e com intensidade o momento presente: “Porta-te bem ‘agora’, sem te lembrares de ‘ontem’, que já passou, e sem te preocupares com o ‘amanhã’, que não sabes se chegará para ti” (Caminho, n° 253).

Dia 20 de junho

Lc 9, 18-24

18Uma vez que rezava em particular, estando os discípulos com Ele, interrogou-os, nestes termos: Quem dizem as multidões que Eu sou? 19Disseram eles, em resposta: João Baptista; outros, Elias, e outros que ressuscitou um dos antigos profetas. 20Disse-lhes Ele: E vós quem dizeis que Eu sou? Pedro tomou então a palavra e respondeu: O Messias de Deus. 21Mas Ele, em tom severo, ordenou-lhes que a ninguém o dissessem, 22e acrescentou: O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado por parte dos Anciãos, dos Sumos Sacerdotes e dos Escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar. 23Então pôs-Se a dizer para todos: Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, esse há-de salvá-la.

Comentário

22. O Senhor profetizou a Sua Paixão e Morte para facilitar a fé dos discípulos. Ao mesmo tempo manifesta a voluntariedade com que aceita os sofrimentos. “Cristo não quis glorificar-Se, mas desejou vir sem glória para padecer o sofrimento; e tu, que nasceste sem glória, queres glorificar-te? Pelo caminho que Cristo percorreu é por onde tu deves caminhar. Isto é reconhecê-Lo, isto é imitá-Lo tanto na ignomínia como na boa fama, para que te glories na Cruz, como Ele próprio Se glorificou. Tal foi o comportamento de Paulo e por isso se gloria ao dizer: ‘Longe de mim gloriar-me a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gal 6, 14)” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc).

23. “Cristo repete-o a cada um de nós, ao ouvido, intimamente: a Cruz de cada dia. Não só – escreve São Jerónimo – em tempo de perseguição ou quando se apresente a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as actividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo que antes éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo (Epístola 121,3) (…). Vedes? A cruz de cada dia. Nulla dies sine cruce, nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o Seu jugo” (Cristo que passa, nos 58 e 176).

“E muito certo que aquele que ama os prazeres, que busca as suas comodidades, que foge das ocasiões de sofrer, que se inquieta, que murmura, que repreende e se impacienta porque a coisa mais insignificante não corre segundo a sua vontade e o seu desejo, tal pessoa, de cristão só tem o nome; somente serve para desonrar a sua religião, pois Jesus Cristo disse: aquele que queira vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias da vida, e siga-Me” (Sermões escolhidos, Quarta Feira de Cinzas – São João B. Maria Vianney).

A Cruz não só deve estar presente na vida de cada cristão, mas também em todas as encruzilhadas do mundo:

“Que formosas essas cruzes no cimo dos montes, no alto dos grandes monumentos, no pináculo das catedrais!… Mas também é preciso inserir a Cruz nas entranhas do mundo. Jesus quer ser levantado ao alto, aí: no ruído das fábricas e das oficinas, no silêncio das bibliotecas, no fragor das ruas, na quietude dos campos, na intimidade das famílias, nas assembléias, nos estádios… Onde quer que um cristão gaste a sua vida honradamente, aí deve colocar, com o seu amor, a Cruz de Cristo, que atrai a Si todas as coisas” (Via Sacra, XI, n° 3).