In Evangelho do dia

Dia 14 de dezembro

Mt 21, 23-27

23Em seguida, entrou no Templo e estava a ensinar, quando foram ter com Ele os Príncipes dos sacerdotes e os Anciãos do povo e Lhe disseram: Com que autoridade fazes estas coisas? E quem Te deu esta autoridade? 24Respondeu-lhes Jesus: Far-vos-ei também Eu uma pergunta. Se Me responderdes, também Eu vos direi com que autoridade faço estas coisas. 25O baptismo de João donde era? Do Céu, ou dos homens? Eles discorriam entre si e diziam: 26«Se dissermos que é do Céu, dir-nos-á: Então porque não crestes nele? Se dissermos: dos homens, temos medo do povo, pois todos têm a João em conta de profeta». 27Responderam, pois, a Jesus e disseram: Não sabemos. Disse-lhes também Ele: Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas.

Comentário

23-27. A pergunta dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos, «com que poder fazes estas coisas», refere-se tanto ao ensino de Jesus como à Sua atuação pública realizada com autoridade: arrojar do Templo os mercadores, a entrada solene em Jerusalém, deixar-Se aclamar pelas crianças, as curas, etc. Em última análise pedem-Lhe uma prova dessa autoridade ou a clara confissão de que Ele é o Messias. Mas Jesus, que conhece a má intenção dos Seus interlocutores, não dá uma resposta directa, e prefere fazer-lhes uma pergunta prévia que os obrigue a esclarecer a sua atitude. Com ela quer provocar uma crise que os leve a um exame de consciência e, em última análise, à conversão.

Dia 15 de dezembro

Mt 21, 28-32

28Mas que vos parece? Certo homem tinha dois filhos. Chegou-se ao primeiro e disse-lhe “Filho, vai hoje trabalhar na vinha”. 29Ele respondeu: “Vou sim, senhor”; mas não foi. 30Chegou depois ao segundo e disse-lhe a mesma coisa. Ele respondeu: “Não quero”; mas depois arrependeu-se e foi. 31Qual destes dois fez a vontade do pai? O último, responderam eles. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no Reino de Deus. 32Porque veio a vós João, no caminho da justiça, e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as meretrizes creram nele. E vós, vendo isto, nem assim vos arrependestes depois, crendo nele.

Comentário

32. São João Baptista tinha ensinado o caminho da santidade, anunciando o Reino de Deus e pregando a conversão. Os escribas e fariseus não o tinham crido, apesar de se gloriarem de uma atitude oficial de fidelidade aos planos de Deus. Estavam representados pelo filho que diz “vou” e depois não vai. Pelo contrário, os publicanos e as meretrizes que se arrependerem e rectificarem a sua vida precedê-los-ão no Reino: vêm a ser o filho que diz “não vou”, mas depois vai. O Senhor põe em relevo que a penitência e a conversão podem orientar e situar a todos no caminho da santidade, ainda que tenham vivido muito tempo afastados de Deus.

Dia 16 de dezembro

Lc 7, 19-23

19mandou-os João ao Senhor, com esta mensagem: Tu és Aquele que está para vir, ou devemos esperar outro? 20Ao chegarem junto d’Ele, disseram os homens: João Baptista mandou-nos ter contigo com esta mensagem: «Tu és Aquele que está para vir, ou devemos esperar outro?» 21Nessa altura curou Jesus a muitos de doenças, padecimentos e espíritos malignos; e a muitos cegos concedeu a vista. 22Disse-lhes então, em resposta: Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciada a Boa Nova; 23e feliz de quem não tiver em Mim ocasião de queda.

Comentário

18-23. «São João Baptista não perguntava pela vinda de Cristo na carne como se desconhecesse o mistério da Encarnação, pois ele próprio o tinha confessado expressamente dizendo: ‘Eu vi e dei testemunho de que Este é o Filho de Deus’ (Ioh l ,34). Por isso, não pergunta: Tu és o que veio?, mas: És tu o que há-de vir?, inquirindo sobre algo futuro, não sobre algo passado. Também não devemos pensar que o Baptista ignorava que Jesus viria para sofrer, pois ele próprio tinha dito: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Ioh l ,29), anunciando assim a Sua futura imolação, que já tinha sido vaticinada por outros profetas, segundo consta sobretudo em Isaías (cap. 53) (…). Pode dizer-se com São João Crisóstomo que não era por ignorância própria, mas para que Cristo desse resposta completa aos seus discípulos. Por isso Cristo responde para os instruir recorrendo ao argumento dos factos miraculosos (v. 22)» (Suma Teológica, II-II, q. 2, a. 7 ad 2).

22. Na Sua resposta aos enviados do Baptista, Jesus alude aos milagres que realizou como sinal de que com Ele chegou o Reino de Deus. Ele é, portanto, o Messias prometido. Juntamente com os milagres, um dos sinais da chegada do Reino é o anúncio da salvação aos pobres. Sobre o conceito de «pobre» vejam-se as notas a Mt 5,3; Lc 6,20 e 6,24.

A Igreja, seguindo o exemplo do Senhor, ao longo dos séculos atendeu especialmente os mais necessitados. Também no nosso tempo os Romanos Pontífices insistem na responsabilidade dos cristãos diante das situações de pobreza criadas na sociedade actual pela injustiça dos homens: «O egoísmo e a dominação são tentações permanentes entre os homens. Por isso, um discernimento cada vez mais apurado torna-se necessário para captar, na sua origem, as situações nascentes de injustiça e instaurar progressivamente uma justiça menos imperfeita (…). A atenção da Igreja volta-se para estes novos ‘pobres’ — impedidos (por toda a espécie de ‘handicaps’) e inadaptados, velhos e marginais de origem diversa — para os aceitar, para os ajudar e para defender o seu lugar e a sua dignidade, numa sociedade endurecida pela competição e pela fascinação do êxito» (Octogesima adveniens, n. 15).

23. Estas palavras referem-se ao mesmo facto que o velho Simeão profetizou ao falar de Cristo como sinal de contradição (cfr Lc 2,34). Os que rejeitem o Senhor, os que se escandalizem d’Ele, não alcançarão a bem-aventurança.

28. São João Baptista é o maior dos profetas do Antigo Testamento por ser o mais próximo de Cristo e ter recebido a missão singular de mostrar o Messias já presente. Mas continua a pertencer ao tempo da promessa (Antigo Testamento), quando ainda não se realizou a obra da Redenção. Uma vez cumprida esta por Cristo (Novo Testamento), o dom divino da graça faz que os que a recebem com fidelidade estejam em situação incomparavelmente superior aos justos da Antiga Aliança, que não receberam essa graça, mas apenas a promessa. Uma vez consumada a obra da Redenção a graça divina alcança igualmente os justos do Antigo Testamento, que estavam à espera de que Jesus Cristo abrisse os Céus também para eles.

Dia 17 de dezembro

Mt 1, 1-17

1Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.

2Abraão gerou a Isaac, Isaac gerou a Jacob, Jacob gerou a Judas e seus irmãos. 3Judas gerou a Fares e a Zara, de Tamar. Fares gerou a Esron, Esron gerou a Arão. 4Arão gerou a Aminabad, Aminabad gerou a Naasson, Naasson gerou a Salmon. 5Salmon gerou a Booz, de Raab. Booz gerou a Obed, de Rute. Obed gerou a Jessé, Jessé gerou a el-rei David.

6David gerou a Salomão, da que fora mulher de Urias. 7Salomão gerou a Roboão, Roboão gerou a Abias, Abias gerou a Asa. 8Asa gerou a Josafá, Josafá gerou a Jorão; Jórão gerou a Ozias. 9Ozias gerou a Joatã, Joatã gerou a Acaz, Acaz gerou a Ezequias. 10Ezequias gerou a Manassés, Manasses gerou a Amós, Amós gerou a Josias. 11Josias gerou a Jeconias e seus irmãos, no tempo da deportação para Babilónia.

12Depois da deportação para Babilónia, Jeconias gerou a Salatiel, Salatiel gerou a Zorobabel. 13Zorobabel gerou a Abiud, Abiud gerou a Eliacim, Eliacim gerou a Azor. 14Azor gerou a Sadoc, Sadoc gerou a Aquim, Aquim gerou a Eliud. 15Eliud gerou a Eleazar, Eleazar gerou a Matã, Matã gerou a Jacob. 16Jacob gerou a José, o esposo de Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo. 17Portanto, as gerações são ao todo: desde Abraão até David catorze gerações; desde David até à deportação para Babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para Babilônia até Cristo, catorze gerações.

Comentário

1. Este versículo vem a ser como que o título de todo o Evangelho. Em Jesus Cristo cumprem-se as promessas divinas de salvação feitas a Abraão em favor de toda a humanidade (Gen 12, 3). Igualmente se cumpre a profecia de um reino eterno dada por meio do profeta Natan ao rei David (2 Sam 7, 12-16).

A genealogia que introduz São Mateus, no começo do seu Evangelho, mostra a ascendência de Jesus Cristo segundo a Sua humanidade, ao mesmo tempo que dá uma indicação da plenitude a que chega a História da Salvação com a Encarnação do Filho de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Messias esperado.

A genealogia está apresentada segundo uma estrutura de três grupos. Cada grupo consta de catorze elos que mostram o desenvolvimento progressivo da história sagrada.

Entre os Judeus (como entre outros povos orientais de origem nómada) a árvore genealógica tinha uma importância capital. Há que ter em conta que, precisamente por essa origem semi-nómada, a identidade de uma pessoa estava especialmente ligada à família e tribo, sendo menos significativo o lugar. No povo hebreu a essas circunstâncias acrescentava-se o significado religioso de pertencer pelo sangue ao povo eleito.

Ainda na época de Jesus a árvore genealógica se conservava nas famílias judaicas com todo o cuidado, pois segundo essa árvore as pessoas constituiam-se em sujeitos de direitos e obrigações.

6. Nas genealogias nomeiam-se quatro mulheres: Tamar (cfr Gen 38; 1 Chr 2,4), Rahab (cfr Ios 2; 6,17), Betsabé (cfr 2 Sam 11; 12,24) e Rut (cfr livro de Rut). Estas quatro mulheres estrangeiras, que de um ou outro modo se incorporam na história de Israel, são um símbolo, entre muitos outros, da salvação divina que abarca toda a humanidade.

Ao citar também outros personagens pecadores, mostra-se como os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos humanos. Através de homens cujo comportamento não foi recto Deus vai realizar os Seus planos de salvação. Ele salva-nos, santifica-nos e escolhe-nos para fazer o bem, apesar dos nossos pecados e infidelidades. Tal é o realismo que Deus quis fazer constar na história da nossa salvação.

11. Sobre a deportação para Babilónia fala-se em 2 Reg 24-2 5. Com este facto cumpre-se a ameaça dos profetas ao povo de Israel e aos seus reis, como castigo da sua infidelidade aos mandamentos da Lei de Deus, especialmente ao primeiro.

16. Entre os Hebreus as genealogias faziam-se por via masculina. José, como esposo de Maria, era o pai legal de Jesus. A figura do pai legal é equivalente quanto a direitos e obrigações à do verdadeiro pai. Neste facto se fundamenta solidamente a doutrina e a devoção ao Santo Patriarca como padroeiro universal da Igreja, visto que foi escolhido para desempenhar uma função muito singular no plano divino da nossa salvação: pela paternidade legal de São José é Jesus Cristo Messias descendente de David.

Do costume ordinário de celebrar os desposórios entre os membros de uma mesma estirpe, deduz-se que Maria pertencia à casa de David. Neste sentido falam também antigos Padres da Igreja. Assim Santo Inácio de Antioquia, Santo Ireneu, São Justino e Tertuliano, os quais fundamentam o seu testemunho numa tradição oral constante.

É de assinalar que São Mateus, para indicar o nascimento de Jesus, usa uma fórmula completamente diversa da aplicada aos demais personagens da genealogia. Com estas palavras o texto ensina positivamente a conceição virginal de Jesus, sem intervenção de varão.

Dia 18 de dezembro

Mt 1, 18-24

18Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de morarem juntos, notou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. 19José, seu esposo, como era justo e não a queria infamar, resolveu deixá-la secretamente. 20Mas, andando ele com este pensamento, apareceu-lhe, em sonhos, um anjo do Senhor, que lhe disse:

– José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou, é obra do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados.

22Ora tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado pelo profeta, que disse: 23Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem será dado o nome de Emanuel“, que quer dizer “Deus connosco”.

24E José, despertando do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa.

Comentário

18. São Mateus narra aqui como foi a conceição de Cristo (cfr Lc 1, 25-38): “(…) verdadeiramente celebramos e veneramos por Mãe de Deus (Maria), por ter dado à luz uma pessoa que é juntamente Deus e homem (…)” (Catecismo Romano, I, 4, 7).

Segundo as disposições da Lei de Moisés, aproximadamente um ano antes do casamento realizavam-se os desposórios. Estes tinham praticamente já o valor jurídico do matrimônio. O casamento propriamente dito consistia, entre outras cerimônias, na condução solene e festiva da esposa para casa do esposo (cfr Dt 20,7).

Já desde os desposórios era preciso o libelo de repúdio, no caso de ruptura das relações.

Todo o relato do nascimento de Jesus ensina através do cumprimento da profecia de Isaías 7, 14 (que citará expressamente nos versículos 22-23): 1° Jesus é descendente de David pela via legal de José; 2° Maria é a Virgem que dá à luz segundo a profecia; 3° o carácter miraculoso da conceição do Menino sem intervenção de varão.

19. “José era efetivamente um homem corrente, em quem Deus confiou para operar coisas grandes. Soube viver, tal como o Senhor queria, todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida. Por isso, a Escritura Santa louva José, afirmando que era justo. E, na linguagem hebraica, justo quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da Vontade divina (cfr Gen 7, 1; 23-32; Ez 18, 5 ss; Prv 12, 10); outras vezes significa bom e caritativo com o próximo (cfr Tob 7, 6; 9, 6). Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os Seus mandamentos e orientando toda a sua vida ao serviço dos irmãos, os outros homens” (Cristo que passa, n° 40).

José considerava santa a sua esposa não obstante os sinais da sua maternidade. Por isso se encontrava perante uma situação inexplicável para ele. Procurando precisamente atuar de acordo com a vontade de Deus sentia-se obrigado a repudiá-la, mas, com o fim de evitar a infâmia pública de Maria, decide deixá-la privadamente.

É admirável o silêncio de Maria. A sua entrega perfeita a Deus leva-a inclusivamente a não defender a sua honra e a sua inocência. Prefere que caia sobre Ela a suspeita e a infâmia, a manifestar o profundo mistério da Graça. Perante um facto inexplicável por razões humanas, abandona-se confiadamente no amor e providência de Deus.

Devemos contemplar a magnitude da prova a que Deus submeteu estas duas almas santas: José e Maria. Não nos pode causar estranheza que também nós sejamos submetidos por vezes, ao longo da vida, a provas duras; nelas temos de confiar em Deus e permanecer-Lhe fiéis, a exemplo de José e Maria.

20. Deus ilumina oportunamente o homem que actua com rectidão e confia no poder e sabedoria divina, perante situações que superam a compreensão da razão humana. O anjo recorda neste momento a José, ao chamar-lhe filho de David, que é o elo providencial que une Jesus com a estirpe de David, segundo a profecia messiânica de Natan (cfr 2 Sam 7, 12). Como diz São João Crisóstomo: “Antes de mais recorda-lhe David, de quem tinha de vir Cristo, e não lhe consente estar perturbado desde o momento que, pelo nome do mais glorioso dos seus antepassados, lhe traz à memória a promessa feita a toda a sua linhagem” (Hom. sobre S. Mateus, 4).

“Jesus Cristo, único Senhor, nosso, Filho de Deus, quando tomou por nós carne humana no ventre da Virgem, foi concebido não por obra de varão, como os outros homens, mas, sobre toda a ordem natural, por virtude do Espírito Santo; de tal maneira que a mesma pessoa (do Verbo), permanecendo Deus, como o era desde a eternidade, se fizesse homem, o qual não era antes” (Catecismo Romano, I, 4, 1).

21. Segundo a raiz hebraica, o nome de Jesus significa “salvador”. Depois da Virgem Santa Maria, José é o primeiro homem que recebe esta declaração divina do facto da salvação, que já se estava a realizar.

“Jesus é o nome exclusivo do que é Deus e homem, o qual significa salvador, imposto a Cristo não casualmente nem por ditame ou disposição humana, mas por conselho e mandato de Deus. (…) Os nomes profetizados (…o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cfr Is 9, 6), que se deviam dar por disposição divina ao Filho de Deus, resumem-se no nome de Jesus, porque, enquanto os outros se referem apenas sob algum aspecto à salvação que nos devia dar, este compendiou em si mesmo a realidade e a causa da salvação de todos os homens” (Catecismo Romano, I, 3, 5 e 6).

23. “Emanuel”: A profecia de Isaías 7, 14 citada neste versículo, preanunciava, já desde há uns sete séculos, que o sinal da salvação divina ia ser o acontecimento extraordinário de uma virgem que vai dar à luz um filho. O Evangelho revela-nos, pois, neste passo duas verdades:

A primeira que, na verdade, Jesus é o Deus connosco preanunciado pelo profeta. Assim o sentiu sempre a tradição cristã. Inclusivamente o Magistério da Igreja (no Breve Divina de Pio VI, 1779) condenou uma interpretação que negava o sentido messiânico do texto de Isaías. Cristo é, pois, verdadeiramente Deus connosco, não só pela Sua missão divina mas porque é Deus feito homem (cfr Jo 1, 14). Não quer dizer que Jesus Cristo tenha de ser normalmente chamado Emanuel: este nome refere-se mais diretamente ao Seu mistério de Verbo Encarnado. O anjo da anunciação indicou que Lhe fosse posto o nome de Jesus, que significa Salvador. Assim o fez São José.

A segunda verdade que nos revela o texto sagrado é que Santa Maria, em quem se cumpre a profecia de Is 7, 14, permanece virgem antes do parto e no próprio parto. Precisamente o sinal miraculoso que dá Deus de que chegou a salvação é que uma mulher que é virgem, sem deixar de o ser, é também mãe.

“Jesus Cristo saiu do seio materno sem detrimento algum da virgindade de Sua Mãe; assim pois, com louvores merecidíssimos, celebramos a sua imaculada e perpétua virgindade. E isto em verdade operou-se por virtude do Espírito Santo, que tanto engrandeceu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho, que lhe deu a ela fecundidade e conservou ao mesmo tempo a sua perpétua virgindade” (Catecismo Romano, I, 4, 8).

Dia 19 de dezembro

Lc 1, 5-25

5Nos dias de Herodes, rei da Judéia, existiu um sacerdote de nome Zacarias, da turma de Abias, cuja esposa era da descendência de Aarão e se chamava Isabel. 6Eram ambos justos diante de Deus, cumprindo irrepreensivelmente todos os preceitos e regulamentos do Senhor. 7E não tinham filhos, pelo facto de Isabel ser estéril e ambos de idade avançada.

8Estando ele a exercer as funções sacerdotais diante de Deus, na ordem da sua turma, 9coube-lhe, por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor, para queimar o incenso. 10E toda a multidão estava de fora a rezar, à hora do incenso. 11Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Zacarias, ao vê-lo, ficou perturbado e encheu-se de temor.

13Mas o Anjo disse-lhe: Não tenhas receio, Zacarias, porque foi atendida a tua súplica. Tua esposa Isabel dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. 14Terás alegria e júbilo, e muitos se hão-de regozijar pelo seu nascimento. 15De facto, ele será grande aos olhos do Senhor, não beberá vinho nem outra bebida alcoólica, será cheio do Espírito Santo já desde o ventre materno 16e reconduzirá ao Senhor seu Deus a muitos dos filhos de Israel. 17Irá diante d’Ele, com o espírito e a força de Elias, para reconduzir os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes aos sentimentos dos justos, a fim de proporcionar ao Senhor um povo preparado. 18Zacarias disse ao Anjo: Como hei-de verificá-lo, se eu estou velho, e minha esposa, avançada em anos? 19Disse-lhe o Anjo, em resposta: Eu sou Gabriel, que estou presente diante de Deus e fui enviado para te falar e te dar estas boas novas. 20Mas olha que vais ficar calado e sem poder falar, até ao dia em que elas se realizarem, pelo facto de não teres acreditado nas minhas palavras, que se hão-de cumprir a seu tempo.

21Entretanto, o povo esperava Zacarias e admirava-se de ele se demorar no Santuário. 22Mas, ao sair, não lhes podia falar, e eles perceberam que havia tido uma visão no Santuário. Fazia-lhes sinais e continuava mudo.

23Ao terminarem os dias do seu serviço, retirou-se para casa. 24Passados estes dias, sua esposa Isabel concebeu e, por cinco meses, permaneceu oculta. 25“Assim procedeu o Senhor para comigo, dizia ela, nos dias em que se dignou tirar-me a ignomínia entre os homens”.

Comentário

5 ss. São Lucas e São Mateus dedicam os dois primeiros capítulos dos seus respectivos Evangelhos a narrar alguns episódios da infância do Senhor (Anunciação, Nascimento, meninice, vida oculta em Nazaré) dos quais não se ocupam os outros Evangelhos. Devido a esta temática, esses dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas costumam chamar-se evangelho da infância de Jesus. A primeira característica que se observa é que São Mateus e São Lucas não narram os mesmos acontecimentos.

O evangelho da infância segundo São Lucas compreende seis episódios estruturados de dois em dois e relativos à infância de João Baptista e à de Jesus: duas anunciações, dois nascimentos e circuncisões e duas cenas no Templo; e contém também uns episódios só relativos à infância do Senhor: revelação aos pastores e adoração destes, purificação da Santíssima Virgem e apresentação do Menino no Templo, vida escondida em Nazaré.

As narrações de Lucas adquirem um elevado tom lírico, simples e grandioso ao mesmo tempo, que surpreende, enamora e arrasta à contemplação íntima do mistério da Encarnação do Salvador: Anunciação do anjo a Zacarias (l,5-17); saudação e Anunciação do anjo a Maria Santíssima (1,26-38); visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel (1,39-56); Nascimento de Jesus em Belém (2,1-7); adoração dos pastores (2,8-20); apresentação do Menino no Templo e bênção do velho Simeão à Virgem Santíssima (2,22-38); o Menino perdido e achado no Templo (2,41-52). São Lucas recolhe também quatro profecias em forma versificada, a modo de cânticos: Magnificat de Maria Santíssima (l ,46-55), Benedictus de Zacarias (1,67-79), Glória dos anjos (2,14) e Nunc dimittis de Simeão (2,29-32). Estes cânticos estão entretecidos de palavras e frases que recordam, mais ou menos à letra, diversos passos do Antigo Testamento (em concreto de Gen, Lev, Num, Idc, l Sam, Is, Ier, Mich e Mal): esta circunstância é absolutamente normal, já que naquela época todo o judeu culto e piedoso rezava de ordinário repetindo de memória ou lendo os livros sagrados, e esse é o caso de Nossa Senhora e de Zacarias, de Simeão e de Ana. Além disso, foi o próprio Espírito Santo que inspirou os autores humanos do Antigo Testamento a escrever, e que moveu a falar os justos que contemplaram com os seus próprios olhos como no Menino Jesus se cumpriam os antigos anúncios proféticos. Essas características lingüísticas refletem a louçania das palavras tal como saíram daqueles que as pronunciaram.

6. Depois de ter falado da nobreza de sangue de Zacarias e de Isabel, o Evangelista alude agora a outra nobreza superior, a da virtude: “Eram ambos justos diante de Deus”.

“Porque nem todo o que é justo diante dos homens é também justo diante de Deus; porque uma é a maneira de olhar dos homens e outra a de Deus: os homens vêem no exterior, mas Deus vê no coração. Pode acontecer que alguém pareça justo por falsa virtude e diante da gente, e não o seja diante de Deus se a sua justiça não nasce da simplicidade de alma mas se simula para parecer bem.

O perfeito louvor consiste em ser justo diante de Deus, porque só pode chamar-se perfeito aquele que é provado por quem não pode enganar-se” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

Em última análise, o que importa ao cristão é ser justo diante de Deus. Um bom exemplo desta conduta é-nos oferecido por São Paulo quando escreve aos Coríntios: “Quanto a mim, importa-me pouco ser julgado por vós ou por qualquer juízo humano; nem sequer eu mesmo me julgo… Porque quem me julga é o Senhor. Portanto, não queirais julgar antes de tempo até que venha o Senhor, que porá a descoberto as coisas escondidas nas trevas e descobrirá as intenções dos corações. E então Deus dará a cada um o louvor que lhe corresponde” (l Cor 4,3 ss.).

8. Havia vinte e quatro grupos ou turnos sacerdotais, entre os quais eram sorteadas as funções que deviam exercer no Templo; o oitavo grupo era o da família de Abias (cfr 1 Chr 24,7-19). Zacarias era deste oitavo turno.

9-10. Dentro do recinto sagrado, delimitado por uma muralha, estava o edifício que constituía propriamente o Templo. Este, de forma rectangular, tinha uma primeira grande estância que se chamava o “Sanctus”, onde estava o altar do incenso, a que alude o v. 9. Depois do “Sanctus” estava a segunda estância, mais interior, chamada o “Sancta Sanctorum”, onde se tinha guardado a Arca da Aliança com as tábuas da Lei; era o mais sagrado do Templo, onde não tinha acesso senão o Sumo Sacerdote. Entre ambas as estâncias estava pendurado o grande véu do Templo. Rodeando o edifício sagrado havia um primeiro átrio, chamado dos sacerdotes e junto a ele, em frente da fachada principal, encontrava-se o chamado átrio dos israelitas, em que permanecia o povo durante a incensação.

10. Enquanto o sacerdote oferecia a Deus o incenso, o povo, desde o átrio do Templo, unia-se-lhe espiritualmente. Já no Antigo Testamento todo o acto de culto externo devia ser acompanhado pela disposição interior de oferecimento a Deus.

Com maior razão se deve dar esta união nos ritos litúrgicos da Nova Aliança (cfr Mediator Dei, n. 8). Na Liturgia da Igreja, com efeito, aparecem unidos os dois elementos do culto, interno e externo, o que está em conformidade com a natureza do homem, composto de alma e corpo.

11. Os anjos são espíritos puros, não têm corpo; portanto “não aparecem aos homens tal como são, mas manifestando-se nas formas que Deus dispõe para que possam ser vistos por aqueles a quem os envia” (De Fide orthodoxa, 2,3).

Os espíritos angélicos, além de adorar e de servir a Deus, são mensageiros divinos e instrumentos da Providência de Deus em favor dos homens; por isso na História da Salvação intervém tão freqüentemente e a Sagrada Escritura faz constar isso em numerosos passos (cfr, entre outros muitos lugares, Heb 1,14).

O nascimento de Cristo é tão importante que à volta dele a intervenção dos anjos se mostra de modo singular. Neste caso concreto, como no da Anunciação a Maria, será o arcanjo São Gabriel o encarregado de transmitir a mensagem divina.

“Não sem razão apareceu o anjo no templo, porque com isso se anunciava a próxima vinda do Verdadeiro Sacerdote e se preparava o Sacrifício Celeste ao qual haviam de servir os anjos. Não se duvide, pois, que os anjos assistirão quando Cristo for imolado” (Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc.).

12. “Não pode o homem por mais justo que seja ver um anjo sem temor: por isso Zacarias se perturba, não podendo resistir à presença do anjo nem suportar aquele resplendor que o acompanha” (De incomprehensibili Dei natura, 2). A razão está não tanto na superioridade do anjo sobre o homem como em que naquele transparece a grandeza da Majestade divina: “E disse-me então: ‘Escreve: Felizes os que foram convidados para o banquete de núpcias do Cordeiro’. Disse-me ainda: ‘Estas são as verdadeiras palavras de Deus’. Prostrei-me aos seus pés para o adorar, mas ele disse-me: ‘Não faças isso; sou um servo como tu e como os teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus” (Apc 19,9-10).

13. Por meio do arcanjo Deus intervém de forma extraordinária na vida de Zacarias e de Isabel. Mas o que é anunciado ultrapassa o âmbito da intimidade familiar. Isabel, já idosa, vai ter um filho que se chamará João e será o Precursor do Messias. João significa “Yahwéh é favorável”. Este facto é a manifestação clara de que está já iminente “a plenitude dos tempos” (Gal 4,4), pela qual tinham suspirado os justos de Israel (cfr Ioh 8,56; Heb 11,13).

“Foi atendida a tua súplica”. Comenta São Jerónimo: “Isto é, é-te outorgado mais do que pediste. Tinhas rogado pela salvação do povo e foi-te dado o Precursor” (Expositio in Evangelium sec. Lucam, ad loc.). Também a nós o Senhor nos dá por vezes mais do que pedimos: “Conta-se que, certo dia, um mendigo saiu ao encontro de Alexandre Magno, pedindo uma esmola. Alexandre parou e ordenou que o fizessem senhor de cinco cidades. O pobre, confundido e atordoado, exclamou: eu não pedia tanto! E Alexandre respondeu: tu pediste como quem és; eu dou-te como quem sou” (Cristo que passa, n° 160). Quando Deus responde tão generosamente, por cima dos nossos pedidos, não nos podemos acobardar mesquinhamente com medo das dificuldades.

14-17. O arcanjo São Gabriel anuncia a Zacarias os três motivos de alegria pelo nascimento do menino: primeiro, porque Deus lhe concederá uma santidade extraordinária (v. 15); segundo, porque será instrumento para a salvação de muitos (v. 16); e terceiro, porque toda a sua vida e actividade serão uma preparação para a vinda do Messias esperado (v. 17).

Em São João Baptista cumprem-se dois anúncios proféticos de Malaquias, nos quais se nos diz que Deus enviará um mensageiro diante d’Ele para Lhe preparar o caminho (Mal 3,1; 4,5-6). João prepara a primeira vinda do Messias, de maneira semelhante a como Elias o fará quando se aproximar a segunda (cfr Expositio Evangelii sec. Lucam, ad loc. Comentário sobre S. Mateus, 17,11, ad loc.). Por isso Cristo dirá: “Que fostes então ver? Um profeta? Sim, vo-lo digo, e mais que profeta. É aquele de quem está escrito: Vou mandar à Tua frente o Meu mensageiro, que há-de preparar-Te o caminho diante de Ti” (Lc 7,26-27).

18. A incredulidade de Zacarias e o seu pecado não consiste em duvidar de que o anúncio vem da parte de Deus, mas em considerar somente a incapacidade sua e de sua mulher, esquecendo-se da omnipotência divina. O mesmo arcanjo explicará à Santíssima Virgem, referindo-se à concepção do Baptista, que “da parte de Deus nada é impossível” (Lc 1,37). Quando Deus pede a nossa colaboração numa empresa Sua temos de contar mais com a Sua omnipotência do que com as nossas escassas forças.

19-20. “Gabriel” significa “fortaleza de Deus”. Ao arcanjo São Gabriel Deus encomendou o anúncio dos acontecimentos relativos à Encarnação do Verbo. Assim, já no Antigo Testamento, este arcanjo anuncia ao profeta Daniel o tempo da vinda do Messias (Dan 8,15-26; 9,20-27). No passo que comentamos recolhe-se o anúncio da concepção e do nascimento do Precursor de Cristo. E, por fim, será o mesmo arcanjo que comunicará à Santíssima Virgem o mistério da Encarnação que se vai realizar n’Ela.

21. Cfr a nota aos vv. 9-10. O rito da incensação requeria pouco tempo. O povo ao ouvir o sinal convencionado, que indicava o momento exato da oferenda, unia-se ao sacerdote oficiante. Este, que oficiava dentro do “Sanctus”, ficava oculto ao povo. Estas circunstâncias explicam a estranheza de que Zacarias tardasse tanto a sair esta vez.

24. Ocultava-se tanto pelo impróprio da idade, como pelo pudor santo de não manifestar antes de tempo os dons divinos.

25. Aqueles casais aos quais Deus ainda não concedeu os filhos que desejariam ter, têm em Zacarias e Isabel um bom exemplo e uns bons intercessores no Céu. Aos casais que se encontram em tais circunstâncias recomendava Mons. J. Escrivá de Balaguer que, além de pôr os meios humanos pertinentes, “não devem dar-se por vencidos com demasiada facilidade. É preciso pedir a Deus que lhes conceda descendência, que os abençoe – se for essa a Sua vontade – como abençoou os patriarcas do Antigo Testamento. Depois, é conveniente que recorram a um bom médico, elas e eles. Se, apesar de tudo, o Senhor não lhes dá filhos, não devem ver nisso nenhuma frustração, devem ficar satisfeitos,- descobrindo nesse facto precisamente a Vontade de Deus em relação a eles. Muitas vezes, o Senhor não dá filhos porque pede mais. Pede que se tenha o mesmo esforço e a mesma entrega delicada ajudando o próximo, sem o júbilo bem humano de ter tido filhos. Não há, pois, motivo para se sentirem fracassados nem para dar lugar à tristeza” (Temas Actuais do Cristianismo, n° 96). Recentemente o Papa João Paulo II ensinava com autoridade:

“Não deve todavia esquecer-se que, mesmo quando a procriação não é possível, nem por isso a vida conjugal perde o seu valor. A esterilidade física, pode, de facto, ser para os esposos ocasião de outros serviços importantes à vida da pessoa humana, tais como a adopção, as várias obras educativas, a ajuda a outras famílias, às crianças pobres ou deficientes” (Familiaris consortio, n. 14).

Dia 20 de dezembro

Lc 1, 39-45

39Por aqueles dias, pôs-se Maria a caminho e dirigiu-se à pressa para a serra, em direção a uma cidade de Judá. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, saltou-lhe o menino no seio; Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e, erguendo a voz, num grande brado, exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. 43E donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? 44Pois, logo que me chegou aos ouvidos o eco da tua saudação, saltou de alegria o menino no meu seio. 45Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!

Comentário

39-56. Contemplamos este episódio da visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel no segundo mistério gozoso do santo Rosário:

“(…) Acompanha alegremente José e Santa Maria… e ficarás a par das tradições da Casa de David. (…) Caminhamos apressadamente em direção às montanhas, até uma aldeia da tribo de Judá (Lc I,39).

Chegamos. – É a casa onde vai nascer João Baptista.

– Isabel aclama, agradecida, a Mãe do Redentor: Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!

A que devo eu tamanho bem, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc I, 42-43).

O Baptista, ainda por nascer, estremece… (Lc I,41). A humildade de Maria derrama-se no Magnificat… – E tu e eu, que somos – que éramos – uns soberbos, prometemos ser humildes” (Santo Rosário, segundo mistério gozoso).

39. Nossa Senhora ao conhecer pela revelação do anjo a necessidade em que se achava a sua prima Santa Isabel, próxima já do parto, apressa-se a prestar-lhe ajuda, movida pela caridade. A Santíssima Virgem não repara em dificuldades. Embora não saibamos o lugar exato onde se achava Isabel (hoje supõe-se que é Ayn Karim), em qualquer caso o trajeto desde Nazaré até à montanha da Judéia supunha na antiguidade uma viagem de quatro dias.

Este facto da vida da Santíssima Virgem tem um claro ensinamento para os cristãos: devemos aprender d’Ela a solicitude pelos outros. “Não podemos conviver filialmente com Maria e pensar apenas em nós mesmos, nos nossos problemas. Não se pode tratar com a Virgem e ter, egoisticamente, problemas pessoais” (Cristo que passa, n° 145).

42. Comenta São Beda que Isabel bendiz Maria com as mesmas palavras usadas pelo Arcanjo “para que se veja que deve ser honrada pelos anjos e pelos homens e que com razão se deve antepor a todas as mulheres” (In Lucae Evangelium expositio, ad loc.).

Na recitação da Ave Maria repetimos estas saudações divinas com as quais nos alegramos com Maria Santíssima pela sua excelsa dignidade de Mãe de Deus e bendizemos o Senhor e agradecemos-Lhe ter-nos dado Jesus Cristo por meio de Maria” (Catecismo Maior, n° 333).

43. Isabel, ao chamar a Maria “mãe do meu Senhor”, movida pelo Espírito Santo, manifesta que a Virgem Santíssima é Mãe de Deus.

44. São João Baptista, ainda que tenha sido concebido em pecado – o pecado original – como os outros homem, todavia, nasceu sem ele, porque foi santificado nas entranhas de sua mãe Santa Isabel pela presença de Jesus Cristo (então no seio de Maria) e da Santíssima Virgem. Ao receber este benefício divino São João manifesta a sua alegria saltando de gozo no seio materno. Estes factos foram o cumprimento da profecia do arcanjo São Gabriel (cfr. Lc 1,15).

São João Crisóstomo admirava-se na contemplação desta cena do Evangelho: “Vede que novo e admirável é este mistério. Ainda não saiu do seio e já fala mediante saltos, ainda não lhe é permitido clamar e já é escutado pelos factos (…); ainda não vê a luz e já indica qual é o Sol; ainda não nasceu e já se apressa a fazer de Precursor. Estando presente o Senhor não se pode conter nem suporta esperar os prazos da natureza, mas procura romper o cárcere do seio materno e busca dar testemunho de que o Salvador está prestes a chegar” (Sermo apud Metaphr, mense Julio).

45. Adiantando-se ao coro de todas as gerações vindouras, Isabel, movida pelo Espírito Santo, proclama bem-aventurada a Mãe do Senhor e louva a sua fé. Não houve fé como a de Maria; n’Ela temos o modelo mais acabado de quais devem ser as disposições da criatura diante do seu Criador: submissão completa, acatamento pleno. Com a sua fé, Maria é o instrumento escolhido pelo Senhor para levar a cabo a Redenção como Mediadora universal de todas as graças. Com efeito, a Santíssima Virgem está associada à obra redentora de seu Filho: “Esta associação da mãe com o Filho na obra da Salvação, manifesta-se desde a conceição virginal de Cristo até à Sua morte. Primeiro, quando Maria, tendo partido solicitamente para visitar Isabel, foi por ela chamada bem-aventurada, por causa da Fé com que acreditara na salvação prometida, e o precursor exultou no seio de sua mãe (…). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com o seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr. Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera “(Lumen gentium, nn. 57-58).

O novo texto latino recolhe de modo literal o original grego ao dizer “quae credidit”,em vez de “quae credidisti”, como fazia a Vulgata, que neste caso é mais fiel ao sentido que à letra. Assim traduzem a maioria dos autores e assim traduzimos nós: “Feliz daquela que acreditou”.

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