dia 12 a 18 de outubro de 2009

Dia 12 de outubro

Jo 2, 1-11

1No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia, e estava lá a mãe de Jesus. 2Ora Jesus e os discípulos foram também convidados para o casamento. 3Como viesse a faltar o vinho, diz a mãe de Jesus para Este: Não têm vinho… 4Responde-lhe Jesus: Que Me desejas, Senhora? Ainda não chegou a Minha hora. 5Diz Sua mãe aos serventes: Fazei o que Ele vos disser.

6Havia ali seis talhas de pedra, dispostas para a purificação dos Judeus, cada uma das quais levava duas ou três medidas. 7Diz-lhes Jesus: Enchei essas talhas de água. E eles encheram-nas até acima. 8Depois diz-lhes: Tirai agora e levai ao chefe de mesa. E eles levaram. 9O chefe de mesa, depois de provar a água convertida em vinho – ele não sabia donde era, sabiam-no os serventes que tinham tirado a água – chama o noivo 10e diz-lhe: Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, quando tiverem bebido bem, serve então o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora!

11Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos Seus milagres. Manifestou a Sua glória, e acreditaram n’Ele os discípulos.

Comentário

1. Caná da Galileia parece que deve identificar-se com a actual Kef Kenna, situada a 7 quilómetros a Noroeste de Nazaré.

Entre os convidados menciona-se em primeiro lugar Maria Santíssima. Não se cita São José, coisa que não se pode atribuir a um esquecimento de São João: este silêncio – e outros muitos no Evangelho – faz supor que o Santo Patriarca já tinha morrido.

As festas de casamento tinham longa duração no Oriente (Gen 29,27; Idc 14,10.12.17; Tob 9,12; 10,1). Durante elas, parentes e amigos iam acorrendo a felicitar os esposos; nos banquetes podiam participar até os transeuntes. O vinho era considerado elemento indispensável nas refeições e servia, além disso, para criar um ambiente festivo. As mulheres intervinham nas tarefas da casa; a Santíssima Virgem prestaria também a sua ajuda: por isso pôde dar-se conta de que ia faltar vinho.

2. “Para demonstrar a bondade de todos os estados de vida (…) Jesus dignou-Se nascer das entranhas puríssimas da Virgem Maria; recém-nascido recebeu o louvor que saiu dos lábios proféticos da viúva Ana e, convidado na Sua juventude pelos noivos, honrou as bodas com a presença do Seu poder” (São Beda, Hom. 13, para o 2° Domingo depois da Epif.). Esta presença de Cristo nas bodas de Caná é sinal de que Jesus abençoa o amor entre homem e mulher, selado com o matrimónio. Deus, com efeito, instituiu o matrimónio no princípio da Criação (cfr Gen 1,27-28), e Jesus Cristo confirmou-o e elevou-o à dignidade de Sacramento (cfr Mt 19,6).

3. No quarto Evangelho a Mãe de Jesus – este é o título que lhe dá São João-aparece somente duas vezes. Uma neste episódio, a outra no Calvário (Ioh 19,25). Com isso vem insinuar-se a missão da Santíssima Virgem Maria na Redenção. Entre os dois acontecimentos, Caná e o Calvário, há várias analogias. Situam-se um no começo e o outro no fim da vida pública, como para indicar que toda a obra de Jesus está acompanhada pela presença de Maria Santíssima. O seu título de Mãe adquire ressonância especialíssima: Maria actua como verdadeira Mãe de Jesus nesses dois momentos em que o Senhor manifesta a Sua divindade. Ao mesmo tempo, ambos os episódios assinalam a especial solicitude de Maria Santíssima pelos homens: num caso intercede quando ainda não chegou “a hora”; no outro oferece ao Pai a morte redentora de seu Filho, e aceita a missão que Jesus lhe confere de ser Mãe de todos os crentes, representados no Calvário pelo discípulo amado.

“Na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece duma maneira bem marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cfr Ioh 2,1-11). Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr Mc 3,35 e par.; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr Lc 2,19.51). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: ‘Mulher, eis aí o teu filho’ (cfr Ioh 19,26-27)” (Lumen gentium, n. 58).

4. O relato evangélico do diálogo entre Jesus e Sua Mãe não nos revela todos os gestos, as inflexões da voz, etc., que deram o tom exacto às palavras. Ao nosso ouvido, por exemplo, a resposta de Jesus soa dura, como se dissesse “este é um assunto que não nos diz respeito”. Na realidade não é assim.

“Mulier” que alguns traduzem para português por “Mulher”: é um título respeitoso, que era equivalente a “senhora”, uma maneira de falar em tom solene. Este nome voltou a empregá-lo Jesus na Cruz, com grande afecto e veneração (Ioh 19,26).

A frase “que Me desejas?” corresponde a uma maneira proverbial de falar no Oriente, que pode ser empregada com diversos matizes. A resposta de Jesus parece indicar que embora, em princípio, não pertencesse ao plano divino que Jesus interviesse com poder para resolver as dificuldades surgidas naquelas bodas, o pedido de Maria Santíssima O move a atender a essa necessidade. Também se pode pensar que nesse plano divino estava previsto que Jesus fizesse o milagre por intercessão de Sua Mãe. Em qualquer caso, foi Vontade de Deus que a Revelação do Novo Testamento nos deixasse este ensinamento capital: a Virgem Santíssima é tão poderosa na sua intercessão que Deus atenderá todos os pedidos por mediação de Maria. Por isso a piedade cristã, com precisão teológica, chamou a Nossa Senhora “omnipotência suplicante”.

“Ainda não chegou a Minha hora”: O termo “hora” é utilizado por Jesus Cristo algumas vezes para designar o momento da Sua vinda gloriosa (cfr Ioh 5,28), ainda que geralmente se refira ao tempo da Sua Paixão, Morte e Glorificação (cfr Ioh 7,30; 12,23; 13,1; 17,1).

5. A Virgem Maria, como boa mãe, conhece perfeitamente o valor da resposta de seu Filho, que para nós poderia resultar ambígua (“que Me desejas”), e não duvida que Jesus fará algo para resolver o apuro daquela família. Por isso indica de modo tão directo aos serventes que façam o que Jesus lhes disser. Podemos considerar as palavras da Virgem como um convite permanente para cada um de nós: “Nisso consiste toda a santidade cristã: pois a perfeita santidade é obedecer a Cristo em todas as coisas” (Comentário sobre S. João, ad loc. – São Tomás de Aquino).

Com esta mesma atitude rezava o Papa João Paulo II no santuário mariano de Knock, ao consagrar à Virgem o povo irlandês: “Neste momento solene escutamos com atenção particular as tuas palavras: ‘Fazei o que vos disser o meu Filho . E desejamos responder às tuas palavras com todo o coração. Queremos fazer o que nos diz o teu Filho e o que nos manda; pois tem palavras de vida eterna. Queremos cumprir e pôr em prática tudo o que vem d’Ele, tudo o que está contido na Boa Nova, como o fizeram os nossos antepassados durante séculos (…). Por isso hoje (…) confiamos e consagramos a Ti, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, o nosso coração, consciência e obras, a fim de que estejam em consonância com a fé que professamos. Confiamos e consagramos a Ti todos e cada um dos que constituem o povo irlandês e a comunidade do Povo de Deus que habita nestas terras” (Homilia Santuário de Knock).

6. A ‘medida’ ou ‘metreta’ correspondia a uns 40 litros. A capacidade de cada uma destas talhas era, portanto, de 80 a 120 litros; no total 480-720 litros de vinho da melhor qualidade. São João sublinha a abundância do dom concedido pelo milagre, como fará também a quando da multiplicação dos pães (Ioh 6,12-13). Um dos sinais da chegada do Messias era a abundância; por isso nela vê o Evangelista o cumprimento das antigas profecias: “O próprio Yahwéh dará a felicidade e a terra dará os seus frutos”, anunciava o Salmo 85,13: “as eiras encher-se-ão de bom trigo, os lagares transbordarão de mosto e de azeite puro” (Ioel 2,24; cfr Am 9,13-15). Essa abundância de bens materiais é um símbolo dos dons sobrenaturais que Cristo nos obtém com a Redenção: mais adiante, São João porá em realce aquelas palavras do Senhor: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Ioh 10,10; cfr Rom 5,20).

7. “Até acima”: O Evangelista volta a sublinhar com este pormenor a superabundância dos bens da Redenção e, ao mesmo tempo, indica com quanta exactidão obedeceram os serventes, como insinuando a importância da docilidade no cumprimento da Vontade de Deus, mesmo nos pequenos pormenores.

9-10. Jesus faz os milagres sem tacanhez, com magnanimidade; por exemplo, na multiplicação dos pães e dos peixes (cfr Ioh 6,10-13) sacia uns cinco mil homens e ainda sobram doze canastras. Neste milagre de Caná não converteu a água em qualquer vinho, mas num de excelente qualidade.

Os Santos Padres viram no vinho de qualidade, reservado para o fim das bodas, e na sua abundância, uma figura do coroamento da História da Salvação: Deus tinha enviado os patriarcas e profetas, mas, ao chegar a plenitude dos tempos, enviou o Seu próprio Filho, cuja doutrina leva a Revelação antiga à perfeição, e cuja graça excede as esperanças dos justos do Antigo Testamento. Também viram neste vinho bom do fim das bodas o prémio e a alegria da vida eterna, que Deus concede àqueles que, querendo seguir Cristo, sofreram as amarguras e contrariedades desta vida (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

11. Antes do milagre os discípulos já criam que Jesus era o Messias; mas ainda tinham um conceito excessivamente terreno da Sua missão salvífica. São João testemunha aqui que este milagre foi o começo de uma nova dimensão da sua fé, que tornava mais profunda a que já tinham. O milagre de Caná constitui um passo decisivo na formação da fé dos discípulos. “Maria aparece como Virgem orante em Caná, onde, manifestando ao Filho com delicada súplica uma necessidade temporal, obtém também um efeito de graça: que Jesus, realizando o primeiro dos Seus ‘sinais’, confirme os discípulos na fé n’Ele” (Marialis cultus, n. 18).

“Por que terão tanta eficácia os pedidos de Maria diante de Deus? As orações dos santos são orações de servos, enquanto as de Maria são orações de Mãe, donde procede a sua eficácia e carácter de autoridade; e como Jesus ama imensamente Sua Mãe, não pode rogar sem ser atendida (…).

Para conhecer bem a grande bondade de Maria recordemos o que refere o Evangelho (…). Faltava o vinho, com o consequente apuro dos esposos. Ninguém pede à Santíssima Virgem que interceda diante do seu Filho em favor dos consternados esposos. Contudo, o coração de Maria, que não pode deixar de se compadecer dos infelizes (…), impeliu-a a encarregar-se por si mesma do ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre, apesar de ninguém lho ter pedido (…). Se a Senhora agiu assim sem que lho tivessem pedido, que teria sido se lho tivessem pedido? (Sermões abreviados, 48 – Santo Afonso Maria de Ligório).

Dia 13 de outubro

Lc 11, 37-41

37Enquanto falava, convidou-O um fariseu para almoçar consigo. 38Ele entrou e pôs-Se à mesa. O fariseu viu e admirou-se de que não Se tivesse lavado primeiro, antes do almoço. 39Disse-lhe o Senhor: Vós então, os Fariseus!… Vós limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e malvadez. 40Insensatos! Não fez o interior Aquele que fez o exterior? 41Dai antes de esmola o que está dentro, e tudo para vós ficará limpo.

Comentário

40-41. O sentido deste texto não é fácil de captar. Provavelmente Nosso Senhor aproveita o jogo de palavras “o de fora” e “o de dentro”, por ocasião da limpeza de copos e pratos, para dar um ensinamento acerca da importância primordial do interior do homem sobre as meras aparências, contra o erro comum dos fariseus e a tendência frequente de tantas pessoas. Assim, com estas palavras Jesus admoesta-nos dizendo que em vez de andar tão preocupados pelas coisas “de fora” nos devem preocupar sobretudo as “de dentro”. Aplicado ao caso da esmola, o que importa é dar generosamente dos bens que guardamos de forma egoísta: isto é, não basta dar umas moedas, que é algo que pode ficar apenas na exterioridade, mas há que dar aos outros o amor, a compreensão, o convívio delicado, o respeito pela sua liberdade, a preocupação profunda pelo seu bem espiritual e material…, que são irrealizáveis sem disposições interiores de amor ao próximo.

O Papa João Paulo II explicava assim, numa alocução aos jovens, o significado genuíno da esmola: “Esmola, palavra grega, significa etimologicamente compaixão e misericórdia. Circunstâncias diversas e influxos de uma mentalidade restritiva alteraram e profanaram de certo modo o seu significado primigénio, reduzindo-o talvez a um acto sem espírito e sem amor. Mas a esmola, em si mesma, entende-se essencialmente como atitude do homem que adverte a necessidade dos outros, que quer tornar participantes os outros do próprio bem. Quem diria que não haverá sempre outro que tenha necessidade de ajuda, antes de mais espiritual, de apoio, de consolação, de fraternidade, de amor? O mundo está sempre muito pobre de amor” (Alocução aos jovens, 28-III-1979).

Dia 14 de outubro

Lc 11,42-46

42Mas ai de vós, Fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as plantas hortenses, e descurais a justiça e o amor de Deus. Estas são as coisas que devíeis praticar, sem omitir aquelas. 43Ai de vós, Fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas e dos cumprimentos nas praças. 44Ai de vós, porque sois como os túmulos dissimulados: os homens que lhes passam por cima não o sabem.

45Ora um dos Legistas tomou a palavra e disse-Lhe: Mestre, dizendo isso, também a nós nos insultas! 46Mas Ele respondeu: Ai de vós também, Legistas, porque carregais os homens com fardos difíceis de levar, e vós nem com um dedo lhes tocais.

Comentário

42. Segundo a Lei de Moisés havia que pagar o dízimo das colheitas (cfr Lev 27, 30-33; Dt 12,22 ss.; etc.) para contribuir para a sustentação do culto no Templo. Os produtos insignificantes não estavam sujeitos a esta Lei.

A arruda é uma planta amarga e medicinal que se usava antigamente entre os judeus. Discutia-se entre eles se a arruda devia entrar ou não no pagamento dos dízimos. Os fariseus, levados por uma extrema meticulosidade, ensinavam que devia pagar-se.

44. Segundo a Antiga Lei quem tocasse uma sepultura ficava impuro durante sete dias (Num 19,16); não obstante, podia acontecer que com o decorrer do tempo, por causa da terra acumulada e da erva que a cobria, a sepultura ficasse imperceptível para quem passasse por cima. O Senhor toma esta comparação para desmascarar a hipocrisia dos Seus interlocutores: são cumpridores dos mais pequenos pormenores mas esquecem os deveres fundamentais, a justiça e o amor a Deus (v. 42). Limpos por fora e ao mesmo tempo com um coração cheio de malícia e podridão (v. 39), dissimulam para parecer justos e, como vivem das aparências, preocupam-se por cultivá-las; sabem que a virtude é motivo de honra, e interessam-se por simulá-la (v. 43). Isto é, a sua vida caracteriza-se pela dissimulação e pelo dolo.

Dia 15 de outubro

Lc 11, 47-54

47Ai de vós, porque edificais os túmulos dos profetas, quando foram vossos pais que os mataram. 48Assim, dais testemunho e aprovação às obras de vossos pais, porque eles mataram-nos, e vós levantais-lhes monumentos. 49Por isso mesmo é que disse a Sabedoria de Deus: “Hei-de enviar-lhes profetas e apóstolos, a alguns dos quais hão-de matar e perseguir, 50para se pedirem contas a esta geração do sangue de todos os profetas, derramado a partir da constituição do mundo, 51desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o Santuário”. Sim, vos digo Eu, serão pedidas contas a esta geração! 52Ai de vós, Legistas, porque tirastes a chave da ciência: vós próprios não entrastes e impedistes os que pretendiam entrar.

53Quando Ele saiu dali, começaram os Escribas e os Fariseus a provocá-Lo furiosamente e a faze-Lo falar sobre muitas coisas, 54armando-Lhe ciladas para apanharem alguma coisa da Sua boca.

Comentário

51. Zacarias foi um profeta que morreu apedrejado no Templo de Jerusalém pelo ano 800 a.C., por atirar à cara ao povo de Israel a sua infidelidade aos preceitos divinos (cfr 2 Chr 24,20-22). O assassinato de Abel (Gen 4,8) e o de Zacarias eram, respectivamente, o primeiro e último dos narrados no conjunto dos Livros que os judeus reconheciam como sagrados. Jesus alude a uma tradição judaica segundo a qual, ainda no Seu tempo e mesmo depois, se mostrava ali a mancha de sangue de Zacarias. O altar a que se refere o texto era o dos holocaustos, situado ao ar livre no átrio dos sacerdotes, diante da edificação que propriamente constituía o Templo.

52. Jesus faz-lhes uma grave repreensão: aqueles doutores da Lei, precisamente pelo estudo e meditação da Escritura, deveriam ter reconhecido Jesus como o Messias, visto que assim estava profetizado nos livros sagrados. Não obstante, a história evangélica mostra-nos que sucedeu precisamente o contrário. Não só não aceitaram Jesus, mas opuseram-se-Lhe obstinadamente. Eles, como mestres da Lei, deviam de ter ensinado o povo a seguir Jesus; pelo contrário, impediram-lho.

53-54. São Lucas recordará freqüentemente esta atitude dos inimigos do Senhor (cfr 6,11; 19,47-48; 20,19-20; 22,2). O povo seguia Jesus e entusiasmava-se com a Sua pregação e com as Suas obras, enquanto os fariseus e os escribas não aceitaram o Senhor, e não toleravam que a multidão aderisse a Ele: tentavam por todos os meios desacreditá-Lo diante do povo (cfr Ioh 11,48).

Dia 16 de outubro

Lc 12, 1-7

1Entretanto, acumulando-se a multidão por muitos milhares, a ponto de se pisarem uns aos outros, começou Jesus a dizer, em primeiro lugar para os discípulos: Acautelai-vos do fermento dos Fariseus, que é a hipocrisia. 2Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a conhecer-se. 3Por isso mesmo, tudo o que tiverdes proferido às escuras ouvir-se-á em plena luz, e o que tiverdes dito ao ouvido, nos recintos interiores, apregoar-se-á em cima dos terraços.

4Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais têm que fazer. 5Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: Temei Aquele que, depois de matar, tem poder para lançar na Geena. Sim, vos digo Eu, temei Esse. 6Não se vendem cinco passarinhos por dois asses? E nem um deles está esquecido diante de Deus. 7Mas até os cabelos da cabeça vos estão todos contados. Não temais: tendes mais valor que muitos passarinhos.

Comentário

3. O tecto das casas da Palestina era ordinariamente um terraço. Ali se reuniam a conversar, passadas as horas do calor. Jesus adverte os Seus discípulos que assim como nessas tertúlias se comentavam as coisas ditas em privado, também, por muito que os fariseus ocultassem os seus vícios e defeitos com o véu da hipocrisia, estes chegariam a ser conhecidos e comentados por todos.

6-7. Nada – nem mesmo as coisas mais insignificantes – escapa aos olhos de Deus, à Sua Providência e ao Seu juízo. Muito menos escaparão as acções dos homens, que serão premiados ou castigados pelo justo e inapelável juízo de Deus. Por isso mesmo, não se deve temer que fique sem recompensa eterna nenhum sofrimento ou perseguição padecidos por seguir a Cristo.

Por outra parte, o ensinamento do v. 5 sobre o temor é completado nos vv. 6 e 7 ao dizer-nos que Deus é o Pai bom que vela por todos nós, muito mais que por esses passarinhos dos quais também não se esquece. Assim, pois, o nosso temor a Deus não há-de ser servil – fundado no medo ao castigo -, mas um temor filial – o de quem não quer desgostar seu pai -, e que se alimenta da confiança na divina Providência.

Dia 17 de outubro

Lc 12, 8-12

8Eu vos digo: Todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também o Filho do homem Se há-de declarar por ele diante dos Anjos de Deus. 9Mas quem Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos Anjos de Deus.

10E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem perdoar-se-á; mas não se perdoará a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo.

11Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos dê preocupação como ou com que haveis de defender-vos, ou o que haveis de dizer, 12pois o Espírito Santo vos ensinará nessa hora o que deveis dizer.

Comentário

8-9. Conclusão lógica do ensinamento anterior de Cristo: pior que os males corporais, incluída a morte, são os males da alma – isto é, o pecado -. Aqueles que por medo aos sofrimentos temporais negam o Senhor e não são fiéis às exigências da fé cairão noutro mal muito pior: serão negados pelo próprio Cristo no dia do juízo. Pelo contrário, aqueles que sofram por fidelidade a Cristo penas nesta vida receberão o prémio eterno de ser reconhecidos por Ele, e serão participantes da Sua glória.

10. A blasfémia contra o Espírito Santo consiste em atribuir maliciosamente ao demónio as acções sobrenaturais. O homem que adopta tal disposição impede que chegue o perdão de Deus e, por isto, não pode ser perdoado (cfr Mt 12,31; Mc 3,28-30). Jesus compreende e desculpa a fraqueza do homem que erra, mas, pelo contrário, não tem essa atitude indulgente com aquele que fecha os olhos e o coração às obras admiráveis do Espírito; assim agiam os fariseus que acusavam Jesus de expulsar os demónios em nome de Beelzebu; assim actua o incrédulo que nega a manifestação da bondade divina na obra de Cristo; ao negá-la, rejeita o convite que Deus lhe faz e situa-se fora da Salvação (cfr Heb 6,4-6; 10,26-31).

Dia 18 de outubro

Mc 10, 35-45

35Nisto acercam-se d’Ele Tiago e João e dizem-Lhe: Mestre, queremos que nos faças tudo o que Te pedirmos. 36Disse-lhes Ele: Que quereis que vos faça? 37Responderam-Lhe: Concede-nos que nos assentemos um à Tua direita e outro à Tua esquerda, na Tua glória. 38Mas Jesus disse-lhes: Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo? Ou ser baptizados com o baptismo com que estou para ser baptizado? 39Podemos – responderam eles. E Jesus: O cálice que Eu bebo, bebê-lo-eis, e no baptismo com que Eu sou baptizado, sereis baptizados também vós. 40Mas o sentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda, não Me toca a Mim concedê-lo: é para aqueles para quem está preparado. 41Ao ouvirem isto, os dez começaram a indignar-se com Tiago e João.42Jesus, porém, chamou-os e disse-lhes: Sabeis que os que são reconhecidos por soberanos das nações as tratam como senhores, e os seus grandes lhes fazem sentir o seu poder. 43Mas entre vós não é assim; pelo contrário, o que entre vós quiser ser grande faça-se vosso servo; 44e quem quiser entre vós ser o primeiro faça-se escravo de todos: 45porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em redenção por muitos.

Comentário

35-44. É admirável a humildade dos Apóstolos que não dissimularam os seus momentos anteriores de fraqueza e de miséria, mas as contaram com sinceridade aos primeiros cristãos. Deus quis também que no Santo Evangelho ficasse notícia histórica daquelas primeiras debilidades dos que iam ser colunas inamovíveis da Igreja. São as maravilhas que opera nas almas a graça de Deus. Nunca deveremos ser pessimistas ao considerar as nossas próprias misérias: “Tudo posso n’Aquele que me conforta” (Phil 4,13).

38. Quando pedimos algo na oração devemos estar dispostos a aceitar, por cima de tudo, a vontade de Deus, ainda que não coincida com os nossos desejos: “Sua Majestade sabe melhor o que nos convém; não temos que aconselhá-Lo sobre o que nos há-de dar, pois pode com razão dizer-nos que não sabemos o que pedimos” (Moradas, II, 8).

43-45. O exemplo e as palavras do Senhor são como um impulso para que todos sintamos a obrigação de viver o autêntico espírito de serviço cristão. Só o Filho de Deus que desceu do Céu e Se submeteu voluntariamente às humilhações (Belém, Nazaré, o Calvário, a Hóstia Santíssima), pode pedir ao homem que se faça o último, se quer ser o primeiro.

A Igreja ao longo da história continua a missão de Cristo ao serviço dos homens: “Com a experiência que tem da humanidade, a Igreja, sem pretender de maneira alguma misturar-se na política dos Estados, ‘só deseja uma coisa: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido’ “(…) (Gaudium et spes, n. 3). Tomando parte nas melhores aspirações dos homens e sofrendo ao não os ver satisfeitos, deseja ajudá-los a conseguir o seu pleno desenvolvimento, e isto precisamente porque ela lhes propõe o que ela possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade” (Populorum progressio, n. 13).

A nossa atitude há-de ser a do Senhor: servir a Deus e aos outros com visão nitidamente sobrenatural, sem esperar nada em troca do nosso serviço; servir inclusivamente ao que não agradece o serviço que lhe é prestado. Esta atitude cristã chocará sem dúvida com os critérios humanos. Não obstante, o “orgulho” do cristão, identificado com Cristo, consistirá precisamente em servir. Ao servir os outros, o cristão participa da missão de Cristo e alcança assim a sua verdadeira dignidade: “Esta dignidade exprime-se na disponibilidade para servir, segundo o exemplo de Cristo, o qual ‘não veio para ser servido, mas para servir’. Se, portanto, à luz da atitude de Cristo, se pode verdadeiramente ‘reinar’ somente ‘servindo’, ao mesmo tempo este ‘servir’ exige uma tal maturidade espiritual, que se tem de defini-la precisamente como ‘reinar’. Para se poder servir os outros digna e eficazmente, é necessário saber dominar-se a si mesmo, é preciso possuir as virtudes que tornam possível um tal domínio” (Redemptor hominis, n. 21).