dia 12 a 18 de abril de 2010

Dia 12 de abril

Jo 3, 1-8

Havia, entre os Fariseus, um homem visita chamado Nicodemos, um dos principais dos Judeus. 2Veio ele ter com Jesus. e disse-Lhe: Rabi, sabemos que vieste da parte de Deus, como mestre, pois ninguém pode fazer esses milagres que Tu fazes, se Deus não estiver com ele. 3Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. 4Disse-Lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Po­derá entrar segunda vez no seio de sua mãe e renascer? 5Jesus retorquiu: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. 6Aquilo que nasceu da carne é carne, e aquilo que nasceu do Espírito é espírito. 7Não te admires de Eu te haver dito: «Vós tendes de nascer de novo». 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.

Comentário

1-21. Nicodemos era membro do Sinédrio de Jerusalém (cfr Ioh7,50). Devia ser também homem culto, provavelmente escriba ou doutor da Lei: Jesus dirigindo-Se a ele, chama-lhe mestre em Israel. Poderíamos qualificá-lo, portanto, como intelectual: é um homem que raciocina, que indaga, que busca a verdade como uma das tarefas funda­mentais da sua vida. Fá-lo naturalmente, movendo-se dentro das proposições próprias da mentalidade judaica do seu tempo. Para entender as coisas divinas, porém, faz falta a humildade, não basta a razão. Cristo vai, em primeiro lugar, elevar Nicodemos ao plano dessa virtude; por isso Jesus não responde imediatamente às suas perguntas, mas faz-lhe ver quão longe está ainda da verdadeira sabedoria: «Tu és mestre em Israel e não o sabes?». Nicodemos deve reco­nhecer que, não obstante os seus estudos, é ainda ignorante nas coisas de Deus. Como comenta São Tomás de Aquino, «o Senhor não o repreende para o injuriar, mas porque con­fiava ainda na sua ciência; por isso quis, fazendo-o passar pela humilhação, convertê-lo em morada do Espírito Santo» (Comentário sobre S. João, ad loc.). Pelo desenvolvimento da conversa é evidente que Nicodemos deu esse passo de humil­dade, e colocou-se diante de Jesus como um discípulo diante do Mestre. Então o Senhor descobre-lhe os mistérios da fé. Nicodemos seria desde esse momento muito mais sábio que todos os seus colegas que não deram esse passo.

A ciência humana, por muito grande que seja, é minúscula diante das verdades — simplesmente enunciadas mas pro­fundíssimas — dos artigos da fé (cfr Eph 3,15-19; l Cor 2;9). As verdades divinas devem ser recebidas com a simplicidade de uma criança (sem a qual não podemos entrar no Reino dos Céus), para depois serem meditadas durante toda a vida, e estudadas com a admiração do que sabe que a realidade divina sempre supera a nossa pobre inteligência.

1-2. Ao longo do diálogo íntimo daquela noite, Nico­demos mostra grande delicadeza: dirige-se a Jesus com respeito e chama-Lhe Rabbi, meu Mestre. Possivelmente tinha sido movido pelos milagres e pela pregação de Cristo, e tinha necessidade de saber. Diante do ensinamento do Senhor, a sua maneira de refletir e de pensar é ainda pouco sobrenatural, mas é humanamente nobre. A sua visita de noite,« por temor dos judeus» (Ioh19,39), é muito compreen­sível dada a sua condição de membro do Sinédrio; de todos os modos, arrisca-se e vai.

Quando os fariseus tentaram deter Jesus (Ioh7,32), fra­cassando no seu propósito por causa da admiração do povo, Nicodemos opôs-se àquela maneira injusta de atuar, que condenava um homem antes de o julgar, e opôs-se com fortaleza de ânimo aos outros (Ioh7,50-53); também não teve medo, na hora mais difícil, de honrar o Corpo morto do Senhor (Ioh19,39).

3-8. A pergunta inicial de Nicodemos, que mostra ainda a sua dúvida acerca de Jesus (um profeta ou o Messias?), o Senhor responde-lhe de maneira inesperada: Nicodemos espe­rava que lhe falasse d’Ele, da Sua missão, e, pelo contrário, Jesus revela-lhe uma verdade assombrosa: há que nascer de novo. Trata-se de um nascimento espiritual pela água e pelo Espírito Santo: é um mundo novo que se abre diante dos olhos de Nicodemos.

As palavras do Senhor também constituem um horizonte sem limites para o progresso espiritual de qualquer alma cristã, que se deixa documente conduzir pela graça divina e pelos dons do Espírito Santo, infundidos no Batismo e corroborados pelos Sacramentos; junto com a aber­tura da alma a Deus, o cristão deve igualmente afastar as apetências egoístas e as inclinações da soberba, para poder ir entendendo o que Deus lhe ensina no seu interior. «Por isso há-de desnudar-se a alma (…) do seu entender, saborear e sentir, para que arremessado tudo o que é dissimil e desconforme com Deus, venha a receber semelhança de Deus (…); e7assim se transforma em Deus. Porque, ainda que seja verdade que, como dissemos, Deus está sempre na alma dando e conservando nela o ser natural com a Sua assis­tência, todavia nem sempre lhe comunica o ser sobrenatural. Porque este não se comunica senão por amor e graça, na qual nem todas as almas estão; e ainda essas não estão em igual grau, porque umas (estão) em maior, outras em menor grau de amor. Donde Deus comunica-se mais àquela alma que está mais avantajada em amor, o que é ter mais con­forme a sua vontade com a de Deus. E a que totalmente a tem conforme e semelhante, totalmente está unida e transformada em Deus sobrenaturalmente» (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 5).

Jesus sublinha com força a nova condição do homem: já não se trata de nascer da carne, da linhagem de Abraão (cfr Ioh1,13), mas de renascer por obra do Espírito Santo, por meio da água. O Senhor fala aqui pela primeira vez do Batismo cristão, confirmando a profecia de João Baptista (cfr Mt 3,11; Ioh1,33): veio para instituir um Batismo no Espírito Santo.

« Nicodemos — diz Santo Agostinho — não saboreava ainda nem este espírito nem esta vida (…). Não conhece outro nascimento senão o de Adão e Eva, e ignora o que se origina de Cristo e da Igreja. Só entende da paternidade que gera para a vida. Existem dois nascimentos; mas ele só tem notícia de um. Um é da terra e outro é do Céu; um da carne e outro do Espírito; um da mortalidade, outro da eternidade; um de homem e mulher, e outro de Cristo e da Igreja. Os dois são únicos. Nem um nem outro se podem repetir» (In Ioann. Evang., 11,6).

O Senhor fala dos efeitos maravilhosos que a força do Espírito Santo produz na alma do batizado. Assim como quando sopra o vento nos damos conta da sua presença, ouvimos o seu silvo mas não sabemos donde surgiu nem onde terminará, assim sucede também com o Espírito Santo, que é «sopro» (pneuma) divino, e que nos é dado no novo nascimento do Batismo: não se sabe por que caminho o Espírito penetra, no coração, mas dá a conhecer a Sua presença pela mudança no comportamento do que O recebe.

Dia 13 de abril

Jo 3, 7b-15

7bVós tendes de nascer de novo. 8O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito.

9Nicodemos interveio, para Lhe dizer: Como pode ser isso? 10Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Tu és mestre em Israel e não o sabes?! 11Em verdade, em verdade te digo: Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não recebeis o Nosso testemunho. 12Se vos disse coisas da Terra e as não acreditais, como haveis de acreditar, se vos disser coisas do Céu?13Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que do Céu desceu, o Filho do homem. 14Do mesmo modo que Moisés elevou a serpente no deserto, assim tem de ser elevado o Filho do homem, 15para que todo aquele que acredita tenha, por Ele, a vida eterna.

Comentário

3-8. À pergunta inicial de Nicodemos, que mostra ainda a sua dúvida acerca de Jesus (um profeta ou o Messias?), o Senhor responde-lhe de maneira inesperada: Nicodemos esperava que lhe falasse d’Ele, da Sua missão, e, pelo contrário, Jesus revela-lhe uma verdade assombrosa: há que nascer de novo. Trata-se de um nascimento espiritual pela água e pelo Espírito Santo: é um mundo novo que se abre diante dos olhos de Nicodemos.

As palavras do Senhor também constituem um horizonte sem limites para o progresso espiritual de qualquer alma cristã, que se deixa docilmente conduzir pela graça divina e pelos dons do Espírito Santo, infundidos no Batismo e corroborados pelos Sacramentos; junto com a abertura da alma a Deus, o cristão deve igualmente afastar as apetências egoístas e as inclinações da soberba, para poder ir entendendo o que Deus lhe ensina no seu interior. “Por isso há-de desnudar-se a alma (…) do seu entender, saborear e sentir, para que arremessado tudo o que é dissimil e desconforme com Deus, venha a receber semelhança de Deus (…); e assim se transforma em Deus. Porque, ainda que seja verdade que, como dissemos, Deus está sempre na alma dando e conservando nela o ser natural com a Sua assistência, todavia nem sempre lhe comunica o ser sobrenatural. Porque este não se comunica senão por amor e graça, na qual nem todas as almas estão; e ainda essas não estão em igual grau, porque umas (estão) em maior, outras em menor grau de amor. Donde Deus comunica-se mais àquela alma que está mais avantajada em amor, o que é ter mais conforme a sua vontade com a de Deus. E a que totalmente a tem conforme e semelhante, totalmente está unida e transformada em Deus sobrenaturalmente” (Subida ao Monte Carmelo, liv. 2, cap. 5).

Jesus sublinha com força a nova condição do homem: já não se trata de nascer da carne, da linhagem de Abraão (cfr Ioh 1,13), mas de renascer por obra do Espírito Santo, por meio da água. O Senhor fala aqui pela primeira vez do Batismo cristão, confirmando a profecia de João Baptista (cfr Mt 3,11; Ioh1,33): veio para instituir um Batismo no Espírito Santo.

“Nicodemos – diz Santo Agostinho – não saboreava ainda nem este espírito nem esta vida (…). Não conhece outro nascimento senão o de Adão e Eva, e ignora o que se origina de Cristo e da Igreja. Só entende da paternidade que gera para a vida. Existem dois nascimentos; mas ele só tem notícia de um. Um é da terra e outro é do Céu; um da carne e outro do Espírito; um da mortalidade, outro da eternidade; um de homem e mulher, e outro de Cristo e da Igreja. Os dois são únicos. Nem um nem outro se podem repetir” (In Ioann. Evang., 11,6).

O Senhor fala dos efeitos maravilhosos que a força do Espírito Santo produz na alma do batizado. Assim como quando sopra o vento nos damos conta da sua presença, ouvimos o seu silvo mas não sabemos donde surgiu nem onde terminará, assim sucede também com o Espírito Santo, que é “sopro” (pneuma) divino, e que nos é dado no novo nascimento do Batismo: não se sabe por que caminho o Espírito penetra, no coração, mas dá a conhecer a Sua presença pela mudança no comportamento do que O recebe.

10-12. Ante a perplexidade de Nicodemos, Jesus ratifica o valor das Suas palavras, e explica-lhe que fala das coisas do Céu porque procede do Céu, e para Se fazer compreender usa comparações e imagens terrenas. Não obstante, esta linguagem não é suficiente para aqueles que adotam uma posição de incredulidade.

Comenta o Crisóstomo: “Com razão Cristo não disse: não compreendeis, mas: não credes. Porque se alguém não quer admitir aquilo que se pode perceber com a mente, este seria acusado com razão de estupidez; contudo, se alguém não admite aquilo que não se percebe com a mente mas com a fé, este já não peca por estupidez, mas por incredulidade” (Hom. sobre S. João, 27,1).

13. Afirmação solene da divindade de Jesus. Ninguém sobe ao Céu e, portanto, ninguém pode conhecer perfeitamente os segredos de Deus, senão o próprio Deus que encarnou e desceu do Céu: Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Homem profetizado no Antigo Testamento (cfr Dn 7,13), ao qual foi concedido senhorio eterno sobre todos os povos, nações e línguas.

Ao encarnar o Verbo não deixa de ser Deus. E assim, ainda que esteja na terra enquanto homem, nem por isso deixa de estar no Céu enquanto Deus. Só depois da Ressurreição e da Ascensão, Jesus Cristo está no Céu também enquanto homem.

14-15. A serpente de bronze, alçada por Moisés num mastro, era o remédio indicado por Deus para curar aqueles que eram mordidos pelas serpentes venenosas do deserto (cfr Num 21,8-9). Jesus Cristo compara este fato com a Sua Crucifixão, para explicar assim o valor da Sua exaltação na Cruz, que é salvação para todos os que O fixem com fé. Neste sentido podemos dizer que no bom ladrão se cumpre já o poder salvífico de Cristo na Cruz: esse homem descobriu no Crucificado o Rei de Israel, o Messias, que imediatamente lhe promete o Paraíso para aquele mesmo dia (cfr Lc 23,39-43).

O Filho de Deus tomou a nossa natureza humana para dar a conhecer os mistérios ocultos da vida divina (cfr Mt 4,11; Ioh 1,18; 3,1-13; Eph 3,9) e para livrar do pecado e da morte aqueles que O fixem com fé e amor (cfr Ioh 19,37; Gal 3,1) e aceitem a cruz de cada dia.

A fé de que nos fala o Senhor não se reduz simplesmente à aceitação intelectual das verdades que Ele nos ensinou, mas inclui reconhecê-Lo como Filho de Deus (cfr 1 Ioh 5,1), participar da Sua própria Vida (cfr Ioh 1,12), e entregarmo-nos por amor, tornando-nos assim semelhantes a Ele (cfr Ioh 10,27; 1 Ioh 3,2). Mas esta fé constitui um dom de Deus (cfr Ioh 3,3.5-8), a quem devemos pedir que a fortaleça e acrescente, como fizeram os Apóstolos: Senhor, “aumenta-nos a fé” (Lc 17,5). Sendo a fé um dom divino, sobrenatural e gratuito, é, ao mesmo tempo, uma virtude, um hábito bom, susceptível de ser exercitado pessoalmente e, portanto, robustecido através desse exercício. Daí que o cristão, que já possui o dom divino da fé, ajudado pela graça deva fazer atos explícitos de fé para que esta virtude cresça nele.

Dia 14 de abril

Jo 3, 16-21

16De fato, Deus amou de tal maneira o mundo que deu o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele acredita não pereça, mas tenha a vida eterna. 17É que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para o mundo ser salvo por Seu intermédio. 18Quem n’Ele acredita não é condenado; mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. 19É esta a causa da condenação: veio a Luz ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a Luz, pois eram más as suas obras. 20E que todo aquele que pratica más acções odeia a Luz e não se aproxima da Luz, para não serem postas a descoberto as suas obras. 21Quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, para se tornar bem claro que as suas obras estão realizadas em Deus.

Comentário

16-21. Com estas palavras carregadas de sentido sintetiza-se como a Morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens (cfr Introdução ao Evangelho segundo São João, parágrafo sobre A caridade, pp 1101-1105). “De tal maneira Deus amou o mundo que lhe entregou Seu Filho Unigênito para a sua salvação. Toda a nossa religião é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. ‘Deus é amor’ (cfr 1 Ioh 4,16), isto é, amor que se difunde e se prodigaliza; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É necessário ver a história de Jesus a esta luz. ‘Ele amou-me’, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repeti-lo a si mesmo: Ele amou-me, e sacrificou-Se por mim (Gal 2,20)” (Homilia do Corpus Christi).

A entrega de Cristo constitui o chamamento mais premente a corresponder ao Seu grande amor: “Se Deus nos criou, se nos redimiu, se nos ama ao ponto de entregar por nós o Seu Filho Unigênito (Ioh III, 16), se nos espera – todos os dias! – como aquele pai da parábola esperava o filho pródigo (cfr Lc XV, 11-32), como não há-de desejar que O tratemos com amor? O que seria estranho era não falar com Deus, afastar-se d’Ele, esquecê-Lo, dedicar-se a atividades estranhas a esses toques ininterruptos da graça” (Amigos de Deus, n° 251).

“O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor (…) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é – se assim é lícito exprimir-se – a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (…). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente (…) deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve ‘apropriar-se’ e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo. Se no homem se atuar este processo profundo, então ele produz frutos, não somente de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio. Que grande valor deve ter o homem aos olhos do Criador, se ‘mereceu ter um tal e tão grande Redentor’ (Missal Romano, Hino Exultet da Vigília Pascal), se ‘Deus deu o Seu Filho’, para que ele, o homem, ‘não pereça, mas tenha a vida eterna’.

(…) A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em considerável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição” (Redemptor hominis, n. 10).

Jesus Cristo exige como primeiro requisito para participar do Seu amor a fé n’Ele. Com ela passamos das trevas para a luz e entramos em caminho de salvação. “Quem não acredita já está condenado” (v. 18). “As palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. É que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus (…). Por si mesmo e pelas próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão, mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De fato, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz” (Ad gentes, n. 8).

Dia 15 de abril

Jo 3, 31-36

31Aquele que vem do Alto está acima de todos; aquele que é da terra, à terra pertence e da terra fala. Aquele que vem do Céu está acima de todos. 32Ele dá testemunho do que viu e ouviu, mas ninguém recebe o Seu testemunho. 33Quem recebe o Seu testemunho atesta que Deus é verídico. 34Aquele que Deus enviou refere as palavras de Deus, pois Este não dá o Espírito por medida. 35O Pai ama o Filho e tudo entregou na Sua mão. 36Quem acredita no Filho tem a vida eterna. Quem se nega a crer no Filho não verá a Vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.

Comentário

31-36. Este parágrafo revela-nos a divindade de Cristo, a Sua relação com o Pai e com o Espírito Santo, e a participação na vida eterna e divina dos que crêem em Jesus Cristo. Fora da fé não há vida nem margem para a esperança.

Dia 16 de abril

Jo 6, 1-15

1Depois disto, retirou-Se Jesus para outro lado do Mar da Galileia, ou de Tiberíade. 2Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que fazia nos enfermos. 3Jesus subiu ao monte e lá Se sentou com os discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos Judeus. 5Erguendo então os olhos e vendo que vinha ter com Ele numerosa multidão, Jesus diz a Filipe: Onde havemos de comprar pão para eles comerem? 6Dizia isto para o experimentar, pois bem sabia o que ia fazer. 7Respondeu-Lhe Filipe: Não lhes chegam duzentos denários de pão, para receber cada qual um poucochinho. 8Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9Está aqui um pequeno que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tanta gente? 10Jesus, porém, respondeu: Fazei com que eles se recostem. Ora havia muita erva no local. Recostaram-se, pois, os homens, em número de cerca de cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães, e, depois de dar graças, distribuiu-os aos convivas; e o mesmo fez dos peixes, tanto quanto lhes apetecia. 12Quando ficaram saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. 13Recolheram-nos, pois, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que haviam sobrado aos que tinham estado a comer.

14Ao verem aqueles homens o milagre que Ele fizera, começaram a dizer: Este é, na verdade, o Profeta que está para vir ao mundo. 15Mas Jesus, percebendo que viriam arrebatá-Lo, para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho para o monte.

Comentário

1. Refere-se ao segundo lago formado pelo Jordão. Nos Evangelhos costuma chamar-se-lhe umas vezes “Lago de Genesaré” (Lc 5,1), pela localidade do mesmo nome situada na margem Noroeste do lago; outras, “Mar da Galileia” (Mt 4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31), pelo nome da região em que se encontra. São João chama-lhe também “Mar de Tiberíades” (cfr 21,1), devido à cidade desse nome fundada por Herodes Antipas em honra do imperador Tibério. No tempo de Jesus Cristo havia à volta deste lago várias cidades: Tiberíades, Magdala, Cafarnaum, Betsaida, etc.; as suas margens foram com freqüência cenário da pregação do Senhor.

2. Ainda que São João não refira mais que sete milagres e não mencione outros que narram os Sinópticos, neste versículo, e mais expressamente no fim do seu Evangelho (20,30; 21,25), diz que foram muitos os milagres realizados pelo Senhor; a seleção desses sete é devida a que o Evangelista, querendo mostrar algumas facetas do mistério de Cristo, escolhe – inspirado por Deus – aqueles que estão mais em harmonia com o seu propósito. Narra agora o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, que está em relação direta com os discursos de Cafarnaum, em que Jesus Se apresenta a Si mesmo como “o pão da vida” (6,35.48).

4. O Evangelho de São João costuma mencionar as festas judaicas quando refere muitos dos acontecimentos do ministério público do Senhor. Aqui estamos diante de um destes casos (cfr Duração do Ministério Público, pp. 81 s.; Introdução ao Evangelho segundo São João, pp. 1088 s.). Pouco antes desta Páscoa, Jesus realiza o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, prefigurando a Páscoa cristã e o mistério da Santíssima Eucaristia, como Ele próprio explica no discurso que começa no v. 26, onde promete dar-Se como alimento da nossa alma.

5-9. Jesus é sensível às necessidades espirituais e materiais dos homens. Aqui vemo-Lo a tomar a iniciativa para satisfazer a fome daquela multidão que O segue.

Com estes diálogos e o milagre que vai realizar, Jesus ensina também aos Seus discípulos a confiar n’Ele perante as dificuldades que encontrarão nas suas futuras tarefas apostólicas, empreendendo-as com os meios que tiverem, ainda que sejam insuficientes, como neste caso o eram os cinco pães e os dois peixes. Ele entrará com o que falta. Na vida cristã há que pôr ao serviço do Senhor o que temos, ainda que nos pareça muito pouco. O Senhor saberá multiplicar a eficácia desses meios tão insignificantes.

“Tenhamos, pois, Fé, sem permitir que o desalento nos domine; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para superar os obstáculos, há que começar a trabalhar, metendo-nos em cheio, nessa tarefa, de maneira que o nosso próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos” (Cristo que passa, n° 160).

10. O Evangelista transmite um pormenor à primeira vista intranscendente: “Naquele lugar havia muita erva”. Isto indica que o milagre aconteceu em plena Primavera da Palestina, em dias muito próximos da Páscoa, como disse no v. 4. Ainda que na Palestina sejam muito escassos os prados, existe, mesmo hoje, uma verdadeira pradaria na margem oriental do lago de Genesaré, chamada el-Batihah, onde podiam sentar-se os cinco mil homens e onde, portanto, pode ter-se verificado este milagre.

11. O relato do milagre começa quase com as mesmas palavras com que os Sinópticos e São Paulo narram a instituição da Eucaristia (cfr Mt 26,26; Mc 14,22; Lc 22,19; 1 Cor 11,25). Tal coincidência indica que o milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia de Jesus para com os necessitados, é figura da Santíssima Eucaristia, da qual o Senhor falará pouco depois (cfr Ioh 6,26-59).

12-13. A abundância de pormenores reflete o realismo da narração: o nome dos Apóstolos que falam com o Senhor (vv. 5.8), a espécie dos pães que eram de cevada (v. 9), o rapaz que levava essas provisões (v. 9) e, por último, Jesus que manda recolher os pedaços.

O milagre denota o poder divino de Jesus sobre a matéria, e a liberalidade com que o realiza evoca a abundância dos bens messiânicos que os profetas tinham predito (cfr. Ier 31,14).

O mandato de recolher os pedaços que sobram ensina que os bens materiais, por serem dons de Deus, não se devem desperdiçar, mas hão-de ser usados com espírito de pobreza (cfr a nota a Mc 6,42). Neste sentido explica Paulo VI que “depois de ter alimentado com liberalidade a multidão, o Senhor recomenda aos Seus discípulos que recolham o que sobrou para que nada se perca (cfr Ioh 6,12). Que formosa lição de economia, no sentido mais nobre e mais pleno da palavra, para a nossa época dominada pelo esbanjamento! Além disso, leva consigo a condenação de toda uma concepção da sociedade em que até o próprio consumo tende a converter-se no seu próprio bem, desprezando os que se vêem necessitados e em detrimento, em última análise, dos que julgam ser os seus beneficiários, incapazes já de perceber que o homem é chamado a um destino mais alto” (Discurso aos participantes na Conferência mundial da Alimentação, 9-XI-1974).

14-15. A fé que o milagre suscita naqueles homens é ainda muito imperfeita: reconhecem-No como o Messias prometido no Antigo Testamento (cfr Dt 18,15), mas pensam num messianismo terreno e nacionalista, querem fazê-Lo rei porque consideram que o Messias os há-de livrar da dominação romana.

O Senhor, que mais adiante (vv. 26-27) explicará o verdadeiro sentido da multiplicação dos pães e dos peixes, limita-Se a fugir daquele lugar, para evitar uma proclamação popular alheia à Sua verdadeira missão. No diálogo com Pilatos (cfr Ioh 18,36) explicará que o Seu Reino “não é deste mundo”.

“Os Evangelhos mostram claramente como para Jesus era uma tentação o que alterasse a Sua missão de Servidor de Yahwéh (cfr Mt 4,8; Lc 4,5). Não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com atitudes meramente políticas (cfr Mt 22,21; Mc 12,17; Ioh 18,36) (…). A perspectiva da Sua missão é muito mais profunda. Consiste na salvação integral por um amor transformante, pacificador, de perdão e de reconciliação. Não há dúvida, por outro lado, que tudo isto é muito exigente para a atitude do cristão que quer servir de verdade os irmãos mais pequenos, os pobres, os necessitados, os marginalizados; numa palavra, todos os que refletem nas suas vidas o rosto dorido do Senhor (cfr Lumen gentium, n. 8)” (Discurso episcopado latinoamericano, n° I,4).

Não se pode, pois, confundir o cristianismo com uma ideologia social ou política, por mais nobre que seja.

“Não penso na tarefa dos cristãos na Terra como o nascer duma corrente político-religiosa – seria uma loucura – nem mesmo com o bom propósito de difundir o espírito de Cristo em todas as atividades dos homens. O que é preciso é pôr em Deus o coração de cada um, seja ele quem for. Procuremos falar a todos os cristãos, para que no lugar onde estiverem (…) saibam dar testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professam.

O cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceita que no seu coração habite Cristo, que reine Cristo, em todo o seu trabalho humano encontrar-se-á – bem forte – a eficácia salvadora do Senhor” (Cristo que passa, n° 183).

Dia 17 de abril

Jo 6, 16-21

16Quando entardeceu, desceram os discípulos ao mar 17e, subindo para um barco, puseram-se a caminho para o outro lado do mar, em direcção a Cafarnaum. Já estava a escurecer e ainda Jesus não tinha ido ter com eles; 18e, como soprasse forte ventania, o mar ia-se encrespando. 19Quando eles tinham uns vinte e cinco ou trinta estádios de avanço, vêem Jesus a andar sobre o mar e a aproximar-Se do barco; e tiveram medo. 20Mas Ele diz-lhes: Sou Eu, não tenhais medo! 21Quiseram então recebê-Lo no barco, e logo o barco chegou à terra para onde iam.

Comentário

16-21. Parece que os discípulos estavam desconcertados porque tinha escurecido, o mar ia-se agitando, e Jesus não chegava. Contudo, o Senhor não os abandona, mas quando já tinham remado uns cinco quilômetros, Jesus chega inesperadamente andando sobre as águas para robustecer a sua fé ainda débil (cfr as notas a Mt 14,22-23 e a Mc 6,48.52).

Ao meditar este episódios, a tradição cristã viu na barca uma figura da Igreja, que terá de suportar muitas dificuldades e à qual o Senhor prometeu a Sua assistência ao longo dos séculos (cfr Mt 28,20); por isso a Igreja permanecerá firme e segura para sempre. São Tomás de Aquino comenta: “Aquele vento é figura das tentações e da perseguição que padecerá a Igreja por falta de amor. Porque, como diz Santo Agostinho, quando se esfria o amor, aumentam as ondas e a nave soçobra. Contudo, o vento, a tempestade, as ondas e as trevas não conseguirão que a nave se afaste do seu rumo e fique destroçada” (Comentário sobre S. João, ad loc).

Dia 18 de abril

Jo 21, 1-14

1Depois disso, voltou Jesus a manifestar-Se aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. Manifestou-Se deste modo: 2Estavam Simão Pedro, Tomé, a quem chamavam Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galileia, bem como os filhos de Zebedeu e mais dois dos Seus discípulos. 3Diz-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Eles respondem-Lhe: Nós também vamos contigo. Saíram, pois, e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada.

4Já ia a amanhecer quando Jesus Se apresentou na margem. Os discípulos, porém, não sabiam que era Ele. 5Diz-lhes então Jesus: Rapazes, tendes algum peixe que se coma? Não – responderam-Lhe. 6Ele retorquiu-lhes: Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar. Lançaram-na, pois, e já não a podiam arrastar, devido à grande quantidade de peixe. 7Diz então a Pedro aquele discípulo que Jesus amava: É o Senhor! Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, apertou o blusão à cintura, pois estava despido, e lançou-se ao mar. 8Entretanto, os outros discípulos, visto não estarem longe da terra senão uns duzentos côvados, vieram no barco, puxando a rede com peixes.

9Depois de virem para terra, vêem um monte de brasas no solo, com peixe em cima, e pão. 10Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixes que apanhastes agora. 11Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para terra, cheia com cento e cinqüenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede. 12Diz-lhes Jesus: Vinde almoçar. E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe: Tu quem és? por saberem que era o Senhor.

13Jesus aproxima-Se, toma o pão e dá-lho, o mesmo fazendo com o peixe. 14Com esta, era já a terceira vez que Jesus se manifestava aos discípulos, depois de ressuscitar dos mortos.

15No fim do almoço, pergunta Jesus ao Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-Me tu mais do que estes? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo! Diz-lhe Jesus: Apascenta os Meus cordeiros. 16Volta a perguntar-Lhe segunda vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Sim, Senhor, responde-Lhe ele. Tu sabes que Te amo. Diz-Lhe Jesus: Apascenta as Minhas ovelhas. 17Pergunta-Lhe terceira vez: Simão, filho de João, tu amas-Me? Pedro entristece-se por lhe ter perguntado pela terceira vez: “Tu amas-me?” E responde-Lhe: Tu sabes tudo, Senhor, Tu bem sabes que Te amo. Diz-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro é que há-de cingir-te e levar-te para onde não queres. 19Disse-o para indicar por que morte ele havia de glorificar a Deus. Dito isto, acrescenta: Segue-Me.

Comentário

1-3. Há vários dados significativos nesta cena: os discípulos encontram-se “junto ao mar de Tiberíades”, na Galileia, cumprindo assim o mandato de Jesus ressuscitado (cfr Mt 28,7); estão juntos porque os laços de fraternidade que os unem são muito fortes; Pedro toma a iniciativa manifestando de alguma maneira a sua autoridade; por último, vemo-los dedicados de novo ao seu ofício de pescadores, provavelmente à espera de novas instruções do Senhor.

Ao ler este episódio vem-nos à memória a primeira pesca milagrosa (ctr Lc 5,1-11), em que o Senhor prometeu a Pedro fazê-lo pescador de homens; aqui vai confirmá-lo na sua missão de Cabeça visível da Igreja.

4-8. Jesus ressuscitado vai em busca dos Seus discípulos para os animar e continuar a explicar-lhes a grande missão que lhes confiou. O relato descreve uma cena íntima do Senhor com os Seus:

“Passa ao lado dos Seus Apóstolos, junto daquelas almas que se Lhe entregaram… E eles não se dão conta disso! Quantas vezes está Cristo, não perto de nós, mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! (…). Recordam o que tinham ouvido tantas vezes dos lábios do Mestre: pescadores de homens, apóstolos!… E compreendem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca. Então aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! O amor vê. E de longe. O amor é o primeiro a captar aquela delicadeza. O Apóstolo adolescente, com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor!

Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, cingiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, com uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, aonde podemos nós chegar!?” (Amigos de Deus, nos 265-266).

9-14. Fica reflectida a profunda impressão que deve ter causado aos Apóstolos esta aparição de Jesus Ressuscitado e a recordação íntima que dela guardava São João. Jesus manifesta depois da Ressurreição a mesma delicadeza que tinha tido durante a Sua vida pública. Usa os meios materiais – as brasas, o peixe, etc. -, que põem em realce o realismo da Sua presença e continuam a dar o tom familiar costumado na convivência com os discípulos.

Os Santos Padres e Doutores da Igreja comentaram com freqüência este episódio em sentido místico: a barca é a Igreja cuja unidade está simbolizada pela rede que não se rompe, o mar é o mundo, Pedro na barca simboliza a suprema autoridade na Igreja, o número de peixes significa o número dos escolhidos (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

15-17. Jesus Cristo tinha prometido a Pedro o primado da Igreja (cfr Mt 16,16-19). Apesar das três negações do Apóstolo durante a Paixão, confere-lhe agora o Primado prometido. “Jesus Cristo interroga Pedro, por três vezes, como se lhe quisesse dar a oportunidade de reparar a sua tripla negação. Pedro já aprendeu, escarmentado com a sua própria miséria: está profundamente convencido de que são inúteis aqueles seus alardes temerários; tem consciência da sua debilidade. Por isso, põe tudo nas mãos de Cristo. Senhor, Tu sabes que eu Te amo” (Amigos de Deus, n° 267). A entrega do Primado a Pedro foi directa e imediata. Assim o entendeu sempre a Igreja e o definiu o Concilio Vaticano I: “Ensinamos, pois, e declaramos que, segundo os testemunhos do Evangelho, o primado de jurisdição sobre a Igreja universal de Deus foi prometido e conferido imediata e directamente ao bem-aventurado Pedro por Cristo Nosso Senhor (…). Porque só a Simão Pedro conferiu Jesus depois da Sua Ressurreição a jurisdição de pastor e reitor supremo sobre todo o Seu rebanho, dizendo: ‘Apascenta os Meus cordeiros’. ‘Apascenta as Minhas ovelhas'” (Pastor aeternus, cap. 1).

O Primado é uma graça que é conferida a Pedro e aos seus sucessores os Papas; é um dos elementos fundacionais da Igreja para guardar e proteger a sua unidade: “Para que o episcopado fosse uno e indiviso e a multidão universal dos crentes se conservasse na unidade da fé e da comunhão (…) ao preferir o bem-aventurado Pedro aos outros Apóstolos, nele instituiu um princípio perpétuo de uma e de outra unidade, e um fundamento visível” (Pastor aeternus, Dz-Sch 3051; cfr Lumen gentium, n. 18). Portanto, o Primado de Pedro perpetua-se em todos e em cada um dos seus sucessores por disposição de Cristo, não por costume ou legislação humana.

Em razão do Primado, Pedro, e cada um dos seus sucessores, é Pastor de toda a Igreja e Vigário de Cristo na terra, porque desempenha o poder vicário do próprio Cristo. O amor ao Papa, que Santa Catarina de Sena chamava “o doce Cristo na terra”, deve estar coalhado de oração, sacrifício e obediência.

18-19. Segundo a tradição, São Pedro seguiu o seu Mestre até morrer crucificado, de cabeça para baixo. “Pedro e Paulo sofreram martírio em Roma durante a perseguição de Nero aos cristãos, que teve lugar entre os anos 64 e 68. O martírio de ambos os Apóstolos é recordado por São Clemente, sucessor do próprio Pedro na Sede da Igreja Romana, que escrevendo aos Coríntios lhes propõe os exemplos generosos dos dois atletas, com estas palavras: por causa dos zelos e da inveja, os que eram colunas principais e santíssimas padeceram perseguição e lutaram até à morte” (Petrum et Paulum).

“Segue-Me”: Esta palavra evocaria no Apóstolo o seu primeiro chamamento (cfr Mt 4,19) e as condições de entrega absoluta que o Senhor impõe aos Seus discípulos: “Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-Me” (Lc 9,23). O próprio São Pedro, numa das suas cartas, deixa-nos o testemunho de que a exigência da Cruz é necessária para todo o cristão: “Pois para isto fostes chamados, já que também Cristo padeceu por vós, dando-vos exemplo, para que sigais os Seus passos” (1 Pet 2,21).