In Evangelho do dia

Dia 11 de maio

Jo 14, 21-26

21Quem tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E quem Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele.

22Diz-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, e como é que Te vais manifestar a nós, e não ao mundo? 23Respondeu-lhe Jesus, dizendo: Se alguém Me ama, há-de guardar a Minha palavra; Meu Pai amá-lo-á e nós viremos a ele e estabeleceremos nele habitação. 24Quem Me não ama não guarda as Minhas palavras; e a palavra que estais a ouvir não é Minha, é do Pai, que Me enviou.

25Isto tenho-vos Eu dito na Minha permanência entre vós. 26Mas o Assistente, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em Meu nome, é que vos há-de ensinar tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse.

Comentário

22-23. Era crença comum entre os Judeus que quando chegasse o Messias Se manifestaria a todo o mundo como Rei e Salvador. Os Apóstolos entendem as palavras de Jesus como uma manifestação reservada só a eles, e admiram-se. Daí a pergunta de Judas Tadeu. Pode observar-se a confiança dos Apóstolos no convívio com o Senhor, como Lhe perguntam o que não sabem e O consultam acerca das suas dúvidas. É um exemplo de como devemos dirigir-nos a quem é também o nosso Mestre e Amigo.

A resposta de Jesus é aparentemente evasiva, mas na realidade, ao indicar o modo dessa manifestação, explica por que não Se manifesta ao mundo: Ele dá-Se a conhecer a quem O ama e guarda os Seus mandamentos. Deus tinha-Se manifestado repetidas vezes no Antigo Testamento e tinha prometido a Sua presença no meio do povo (cfr Ex 29,45; Ez 37,26-27; etc.). Pelo contrário, aqui Jesus fala-nos de uma presença em cada pessoa. A esta presença refere-se São Paulo quando afirma que cada um de nós é templo do Espírito Santo (cfr 2 Cor 6,16-17). Santo Agostinho, ao considerar a proximidade inefável de Deus na alma, exclama: “Tarde Te amei, formosura tão antiga e tão nova, tarde Te amei; eis que Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava (…). Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tinham-me longe de Ti as coisas que, se não estivessem em Ti, não existiriam. Tu chamaste-me claramente e quebraste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira” (Confissões, X, 27,38).

Jesus refere-Se à habitação da Santíssima Trindade na alma, renovada pela graça: “O coração sente então a necessidade de distinguir e adorar cada uma das pessoas divinas. De certo modo, é uma descoberta que a alma faz na vida sobrenatural, como as de uma criancinha que vai abrindo os olhos à existência. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à actividade do Paráclito vivificador, que Se nos entrega sem o merecermos: os dons e as virtudes sobrenaturais!” (Amigos de Deus, n° 306).

25-26. Jesus expôs com clareza a Sua doutrina, mas os Apóstolos não podiam entendê-la plenamente; entendê-la-ão depois, quando receberem o Espírito Santo, o Espírito da Verdade que os guiará até à verdade completa (cfr Ioh 16,13). “Com efeito, o Espírito Santo ensinou e recordou: ensinou tudo aquilo que Cristo não tinha dito por superar as nossas forças, e recordou o que o Senhor tinha ensinado e que, quer pela obscuridade das coisas, quer pela rudeza do seu entendimento, eles não tinham podido conservar na memória” (Teofilacto, Enarratio in Evangelium Ioannis, ad loc.).

O termo que traduzimos por “recordar” inclui também a idéia de “sugerir”: o Espírito Santo trará à memória dos Apóstolos o que já tinham escutado a Jesus, mas com uma luz tal que os capacitará para descobrir a profundidade e a riqueza do que tinham visto e escutado. Assim, “os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade, gozavam (cfr 2,22), as coisas que Ele tinha dito e feito” (Dei Verbum, n. 18).

“Cristo não deixou os Seus seguidores sem guia na tarefa de compreender e viver o Evangelho. Antes de voltar ao Pai prometeu enviar o Seu Espírito Santo à Igreja: ‘Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará todas as coisas que vos disse’. Este mesmo Espírito guia os sucessores dos Apóstolos, os vossos Bispos unidos ao Bispo de Roma, a quem encarregou de manter a fé e ‘pregar o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16,15). Escutai a sua voz, pois vos transmite a palavra do Senhor” (João Paulo II, Homilia Santuário de Knock).

Nos Evangelhos ficaram escritas, sob o carisma da inspiração divina, as recordações e a compreensão que tinham os Apóstolos, depois do Pentecostes, daquelas coisas de que tinham sido testemunhas. Por isso tais escritos sagrados “narram fielmente o que Jesus, o Filho de Deus, vivendo entre os homens, fez e ensinou realmente até ao dia da Ascensão (cfr Act 1,1-2)” (Dei Verbum, n. 11). Por isso também a Igreja tem recomendado insistentemente a leitura da Sagrada Escritura e especialmente dos Evangelhos. “Oxalá fossem tais as tuas atitudes e as tuas palavras, que todos pudessem dizer quando te vissem ou ouvissem falar: Este lê a vida de Jesus Cristo” (Caminho, n° 2).

Dia 12 de maio

Jo 14, 27-31a

27Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz. Não é como o mundo a dá que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração, nem se torne pusilânime. 28Ouvistes que vos disse: “Eu vou, mas volto para junto de vós”. Se Me amasseis, alegrar-vos-íeis por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 29Pois bem, disse-vo-lo antes de acontecer, para que acrediteis quando isso acontecer. 30Já não falarei muito convosco, pois vai chegar o Príncipe do Mundo. Ele nada pode contra Mim, 31mas é para que o mundo saiba que amo o Pai, que faço como o Pai Me mandou.

Comentário

27. Desejar a paz, era, e é também hoje, a forma usual de saudação dos Hebreus e dos Árabes. Essa mesma saudação que empregava Jesus, continuaram a usá-la os Apóstolos, segundo vemos pelas suas cartas (cfr 1 Pet 1,3; 3 Ioh 15; Rom 1,7; etc.), e dela se continua a servir a Igreja na Liturgia; assim, por exemplo, antes da Comunhão o celebrante deseja aos presentes a paz, condição para participar dignamente no Santo Sacrifício (cfr Mt 5,23), e por sua vez, fruto do mesmo.

A saudação ordinária do povo hebreu recupera na boca do Senhor o seu sentido mais profundo; a paz é um dos dons messiânicos por excelência (cfr Is 9,7; 48,18; Mich 5,5; Mt 10,22; Lc 2,14; 19,38). A paz que nos dá Jesus transcende por completo a do mundo, que pode ser superficial e aparente, compatível com a injustiça. Pelo contrário, a paz de Cristo é sobretudo reconciliação com Deus e entre os homens, um dos frutos do Espírito Santo (cfr Gal 5,22-23), “é serenidade da mente, tranqüilidade da alma, simplicidade do coração, vínculo de amor, união de caridade: não pode adquirir a herança de Deus quem não cumpra o Seu testamento de paz, nem pode viver unido a Cristo quem está separado do cristianismo” (De verb. Dom. serm., 58).

“Cristo é ‘a nossa paz’ (Eph 2,14). Hoje e sempre, Ele repete-nos: ‘A paz vos deixo, a Minha paz vos dou’. Nunca na história da humanidade se falou tanto da paz e se tem desejado tanto como nos nossos dias (…). E, não obstante, constata-se mais e mais como a paz é ameaçada e destruída (…). A paz é um resultado de muitas atitudes e realidades convergentes; é o resultado de preocupações morais, de princípios éticos, baseados na mensagem do Evangelho e corroborados por ele.

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1971, o meu venerado predecessor, Paulo VI, o peregrino da paz, dizia: ‘A verdadeira paz deve fundar-se na justiça, no sentido da dignidade inviolável do homem, no reconhecimento de uma igualdade indelével e desejável entre os homens, no princípio básico da fraternidade humana, isto é, no respeito e amor devido a cada homem, porque é homem’. Esta mesma mensagem repeti eu no México e na Polônia. Repito-a aqui na Irlanda. Todo o ser humano tem direitos inalienáveis que devem ser respeitados. Toda a comunidade humana – étnica, histórica, cultural ou religiosa – tem direitos que devem ser respeitados. A paz está ameaçada sempre que um destes direitos é violado. A lei moral, guardiã dos direitos do homem, protectora da dignidade da pessoa humana, não pode ser deixada de lado por nenhuma pessoa, nenhum grupo, nem pelo próprio Estado, por nenhum motivo, nem sequer pela segurança ou no interesse da lei ou da ordem pública. A lei de Deus está muito acima de todas as razões de Estado. Enquanto existirem: injustiças em qualquer campo que diga respeito à dignidade da pessoa humana, quer seja no campo político, social ou econômico, quer seja na esfera cultural ou na religiosa, não haverá verdadeira paz (…). A paz não pode ser estabelecida pela violência, a paz não pode florescer nunca num clima de terror, de intimidação ou de morte. O próprio Jesus disse: ‘Todos os que empregam a espada perecerão à espada’ (Mt 25,52). Esta é a palavra de Deus, a que ordena aos homens desta geração violenta que desistam do ódio e da violência e se arrependam” (Homilia Drogheda).

O gozo e a paz que nos traz Cristo hão-de caracterizar o estado de ânimo de um crente: “Repele esses escrúpulos que te tiram a paz. – Não é de Deus o que rouba a paz da alma. Quando Deus te visitar, hás-de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz…, deixo-vos a paz…, a paz seja convosco… E isto, no meio da tribulação” (Caminho, n° 258).

28. Jesus Cristo, enquanto Filho Unigênito de Deus, possui a glória divina desde a eternidade, mas durante o tempo da Sua vida na terra essa glória está velada e oculta por detrás da Sua Santíssima Humanidade (cfr 17,5; Phil 2,7). Só se manifesta em algumas ocasiões, como nos milagres (cfr 2,11), ou na Transfiguração (cfr Mt 17,1-8 e par.). Vai ser agora, mediante a Morte, Ressurreição e Ascensão aos céus, que Jesus vai ser glorificado, também no Seu Corpo, voltando ao Pai e entrando na Sua glória. Por isso, a Sua saída deste mundo devia ser causa de alegria para os discípulos; mas estes não entendem bem as palavras do Senhor, e entristecem-se porque os afecta mais a pena da separação física do Mestre que o pensamento da glória que O espera.

Quando Jesus diz que o Pai é maior que Ele, está a considerar a Sua natureza humana; assim, enquanto homem, Jesus vai ser glorificado ascendendo à direita do Pai. Jesus Cristo “é igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade” (Símbolo Atanasiano). Santo Agostinho exorta: “Reconheçamos, pois, a dupla natureza de Cristo: uma, pela qual é igual ao Pai, que é a divina; e a humana, que o torna inferior ao Pai. Uma e outra natureza não constituem dois mas um só Cristo…” (In Ioann. Evang., 78,3). Não obstante, embora o Pai e o Filho sejam iguais em natureza, eternidade e dignidade, também podem entender-se as palavras do Senhor considerando que “maior” se refere à origem: só o Pai é “princípio sem princípio”, enquanto o Filho procede eternamente do Pai por geração também eterna. Jesus Cristo é Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro (cfr Símbolo Niceno-Constantinopolitano).

30. É certo que o mundo é bom porque saiu das mãos do Criador, e que Deus de tal maneira o amou que lhe entregou o Seu Filho Unigênito (cfr Ioh 3,16). Não obstante, por mundo entende-se neste passo o conjunto dos homens que rejeitam Cristo; por isso, príncipe desse mundo é o demônio (cfr Ioh 1,10; 7,7; 15,18-19). Este opõe-se à obra de Jesus já desde o começo da Sua vida pública nas tentações do deserto (cfr Mt 4,1-11 e par.). Agora, na Paixão, volta a aparecer para obter a vitória sobre Cristo, ainda que seja momentânea e aparente. Esta é a hora do poder das trevas, em que, servindo-se do traidor (cfr Lc 22,53; Ioh 13,27), o demônio consegue que prendam o Senhor e O crucifiquem.

Dia 13 de maio

Lc 11, 27-28

27Enquanto Ele estava a dizer estas coisas, ergueu a voz uma mulher, do meio da multidão, e disse-Lhe: Felizes as entranhas que Te trouxeram e os peitos a que foste amamentado. 28Ele, porém, retorquiu: Felizes antes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.

Comentário

27-28. Estas palavras são a proclamação da atitude fundamental da alma da Virgem Maria. Assim o expõe o Concílio Vaticano II: “Durante a pregação de Seu Filho, (Maria) acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr Mc 3,35; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr Lc 2,19.51)” (Lumen gentium, n. 58). Portanto, com esta resposta Jesus não rejeita o inflamado galanteio que essa boa mulher dedica a Sua Mãe, mas aceita-o e vai mais além, explicando que Maria Santíssima é bem-aventurada sobretudo por ter sido boa e fiel no cumprimento da palavra de Deus.

“Era o elogio de Sua Mãe, do seu fiat (Lc I,38), do faça-se, sincero, entregue, cumprido até às últimas consequências, que não se manifestou em acções aparatosas, mas no sacrifício escondido e silencioso de cada dia” (Cristo que passa, n° 172).

Dia 14 de maio

Jo 15, 9-17

9Assim como o Pai Me amou também Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11Disse-vos isto, para a Minha alegria estar em vós e a vossa alegria ser completa. 12É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei a vós. 13Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos. 14Vós sereis Meus amigos, se fizerdes o que Eu vos ordeno. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; Eu chamei-vos amigos, porque tudo o que ouvi a Meu Pai vo-lo dei a conhecer. 16Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos estabeleci, para irdes e dardes fruto e o vosso fruto permanecer, de sorte que o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.

Comentário

9-11. O amor de Cristo aos cristãos é reflexo do amor que as três Pessoas divinas têm entre Si e para com os homens: “Amemos a Deus porque Ele nos amou primeiro” (1 Ioh 4,19).

A certeza de que Deus nos ama é a raiz da alegria e do gozo cristão (v. 11), mas ao mesmo tempo exige a nossa correspondência fiel, que deve traduzir-se num desejo fervoroso de cumprir a Vontade de Deus em tudo, isto é, os Seus mandamentos, à imitação de Jesus Cristo que cumpriu a Vontade do Pai (cfr Ioh 4,34).

12-15. Jesus insiste no “mandamento novo”, cumprindo-o Ele mesmo ao dar a Sua vida por nós.

A amizade de Cristo com o cristão, que o Senhor manifesta de modo particular neste passo, foi posta em realce na pregação de Mons. J. Escrivá de Balaguer:

“A vida do cristão que decide comportar-se de acordo com a grandeza da sua vocação converte-se num eco prolongado daquelas palavras do Senhor: Já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vo-lo dei a conhecer (Ioh XV,15). Estar pronto a seguir docilmente a Vontade divina abre horizontes insuspeitados (…) não há nada melhor que saber que somos por amor escravos de Deus, porque perdemos a situação de escravos para nos tornarmos amigos, filhos” (Amigos de Deus, n.° 35).

“Filhos de Deus, Amigos de Deus (…) Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: nosso Irmão, nosso Amigo; se procurarmos criar intimidade com Ele, ‘participaremos na dita da amizade divina'” (Ibid., n° 300); se fizermos o possível por acompanhá-Lo desde Belém até ao Calvário, compartilhando as Suas alegrias e os Seus sofrimentos, tornar-nos-emos dignos da Sua companhia amistosa: calicem Domini biberunt – canta a Liturgia das Horas – et amici Dei facti sunt, beberam do cálice do Senhor e tornaram-se amigos de Deus (Responsório da segunda leitura do ofício da Dedicação das Basílicas dos Apóstolos Pedro e Paulo).

“Filiação e amizade são duas realidades inseparáveis para aqueles que amam a Deus. A Ele acorremos como filhos, num diálogo que há-de encher toda a nossa vida; e como amigos (…). Do mesmo modo, a filiação divina leva a que a abundância de vida interior se traduza em actos de apostolado, tal como a amizade com Deus leva a pormo-nos ‘ao serviço de todos: temos de utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrirem Cristo’ (Amigos de Deus, n° 258)” (Amigos de Deus, Apresentação de Mons. A. Del Portillo, pp. 20-21).

16. Três idéias estão contidas nestas palavras do Senhor. Uma, que o chamamento aos Apóstolos e também a todo o cristão não provém de bons desejos, mas da escolha gratuita de Cristo. Não foram os Apóstolos que escolheram o Senhor como Mestre, segundo o costume judaico de escolher para si um rabino, mas foi Cristo quem os escolheu a eles. A segunda idéia é que a missão dos Apóstolos e de todo o cristão consiste em seguir Cristo, buscar a santidade e contribuir para a propagação do Evangelho. O terceiro ensinamento refere-se à eficácia da súplica feita em nome de Cristo; por isso a Igreja costuma terminar as orações da Sagrada Liturgia com a invocação “por Jesus Cristo Nosso Senhor”.

As três idéias assinaladas unem-se harmonicamente: a oração é necessária para que a vida cristã seja fecunda, pois é Deus quem dá o incremento (cfr 1 Cor 3,7); e a obrigação de buscar a santidade e exercer o apostolado deriva de que é o próprio Cristo quem nos chamou a realizar esta missão.

“Lembra-te, meu filho, de que não és somente uma alma que se une a outras almas para fazer uma coisa boa.

Isso é muito…, mas é pouco. – És o Apóstolo que cumpre uma ordem imperativa de Cristo” (Caminho, n° 942).

Dia 15 de maio

Jo 15, 12-17

12É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei a vós. 13Ninguém tem amor maior que o de quem der a própria vida pelos seus amigos. 14Vós sereis Meus amigos, se fizerdes o que Eu vos ordeno. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; Eu cha­mei-vos amigos, porque tudo o que ouvi a Meu Pai vo-lo dei a conhecer. 16Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos estabeleci, para irdes e dardes fruto e o vosso fruto permanecer, de sorte que o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.

Comentário

12-15. Jesus insiste no «mandamento novo», cumprin­do-o Ele mesmo ao dar a Sua vida por nós. Veja-se a nota a Ioh 13,34-35.

A amizade de Cristo com o cristão, que o Senhor manifesta de modo particular neste passo, foi posta em realce na pregação de Mons. J. Escrivá de Balaguer: «A vida do cristão que decide comportar-se de acordo com a grandeza da sua vocação converte-se num eco prolongado daquelas palavras do Senhor: Já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vo-lo dei a conhecer (Ioh XV,15). Estar pronto a seguir documente a Vontade divina abre horizontes insuspeitados (…) ‘não há nada melhor que saber que somos por amor escravos de Deus, porque perdemos a situação de escravos para nos tornarmos amigos, filhos’ (Amigos de Deus, n.° 35).

«Filhos de Deus, Amigos de Deus (…) Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: nosso Irmão, nosso Amigo; se procurarmos criar intimidade com Ele, ‘partici­paremos na dita da amizade divina’ (Ibid., n.° 300); se fizermos o possível por acompanhá-Lo desde Belém até ao Calvário, compartilhando as Suas alegrias e os Seus sofri­mentos, tornar-nos-emos dignos da Sua companhia amistosa: calicem Domini biberunt — canta a Liturgia das Horas — ei amici Dei facti sunt, beberam do cálice do Senhor e torna­ram-se amigos de Deus (Responsório da segunda leitura do ofício da Dedicação das Basílicas dos Apóstolos Pedro e Paulo).

«Filiação e amizade são duas realidades inseparáveis para aqueles que amam a Deus. A Ele acorremos como filhos, num diálogo que há-de encher toda a nossa vida; e como amigos (…). Do mesmo modo, a filiação divina leva a que a abundância de vida interior se traduza em actos de aposto-lado, tal como a amizade com Deus leva a pormo-nos ‘ao serviço de todos: temos de utilizar esses dons de Deus como instrumentos para ajudar os homens a descobrirem Cristo’ (Amigos de Deus, n.° 258)» (Amigos de Deus, Apresentação de Mons. A. Del Portillo, pp. 20-21).

16. Três idéias estão contidas nestas palavras do Senhor. Uma, que o chamamento aos Apóstolos e também a todo o cristão não provém de bons desejos, mas da escolha gratuita de Cristo. Não foram os Apóstolos que escolheram o Senhor como Mestre, segundo o costume judaico de escolher para si um rabino, mas foi Cristo quem os escolheu a eles. A segunda idéia é que a missão dos Apóstolos e de todo o cristão consiste em seguir Cristo, buscar a santidade e contribuir para a propagação do Evangelho. O terceiro ensinamento refere-se à eficácia da súplica feita em nome de Cristo; por isso a Igreja costuma terminar as orações da Sagrada Liturgia com a invocação «por Jesus Cristo Nosso Senhor».

As três idéias assinaladas unem-se harmonicamente: a oração é necessária para que a vida cristã seja fecunda, pois é Deus quem dá o incremento (cfr l Cor 3,7); e a obrigação de buscar a santidade e exercer o apostolado deriva de que é o próprio Cristo quem nos chamou a realizar esta missão.

«Lembra-te, meu filho, de que não és somente uma alma que se une a outras almas para fazer uma coisa boa. «Isso é muito…, mas é pouco. — Es o Apóstolo que cumpre uma ordem imperativa de Cristo» (Caminho, n.° 942).

Dia 16 de maio

Jo 15, 18-21

18Se o mundo vos odeia, ficai sabendo que, primeiro do que a vós, Me odiou a Mim. 19Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas porque não sois do mundo e porque Eu, ao contrário, do mundo vos escolhi, é que o mundo vos odeia. 20Lembrai-vos da Palavra que vos disse: “Não é o servo maior que o seu senhor”. Se a Mim Me perseguiriam, também a vós vos hão-de perseguir. Se guardaram a Minha palavra, também a vossa hão-de guardar. 21Mas tudo isto farão contra vós por causa do Meu nome, por não conhecerem Aquele que Me enviou.

Comentário

18-19. Jesus afirma que entre Ele e o mundo como reino do pecado não há possibilidade de acordo: quem vive no pecado aborrece a luz (cfr Ioh 3,19-20). Por isso perseguiram Cristo e perseguirão também os Apóstolos. “A hostilidade dos perversos soa como um louvor para a nossa vida – diz São Gregório -, porque demonstra que temos pelo menos algo de rectidão enquanto somos incômodos para os que não amam a Deus: ninguém pode ser agradável para Deus e para os inimigos de Deus ao mesmo tempo. Demonstra que não é amigo de Deus quem busca agradar aos que se opõem a Ele: e quem se submete à verdade lutará contra o que se opõe à verdade” (In Ezechielem homiliae, 9).

Dia 17 de maio

Jo 17, 11b-19

11bPai Santo, guarda-os no Teu nome, o nome que Me deste, para serem um só, como Nós. 12Quando Eu estava com eles, guardava-os no Teu nome, o nome que Me deste, e preservei-os, não se tendo perdido nenhum deles, a não ser o filho da perdição, para se cumprir a Escritura. 13Mas agora vou para Ti e, ainda no mundo, digo isto, para eles terem em si a plenitude da Minha alegria. 14Eu dei-lhes a Tua palavra, e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. 16Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade. A Tua palavra é a verdade. 18Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 19Eu consagro-Me por eles, para eles serem também consagrados na verdade.

Comentário

11-19. Jesus agora pede ao Pai para os Seus quatro coisas: a unidade, a perseverança, o gozo e a santidade. Ao pedir que os guarde em Seu nome (v. 11) está a rogar que perseverem na doutrina recebida (cfr v. 6) e em comunhão íntima com Ele. Conseqüência imediata desta comunhão é a unidade: “Para serem um só, como Nós”; a unidade que pede para os discípulos é reflexo da que existe entre as três Pessoas divinas.

Roga, além disso, que nenhum deles se perca, que o Pai os guarde e proteja, tal como Ele os protegeu enquanto esteve com eles. Em terceiro lugar, da união com Deus e da perseverança no Seu amor surge a participação no gozo completo de Cristo (v. 13). Nesta vida, quanto melhor conhecermos Deus e mais intimamente estivermos unidos a Ele, maior dita teremos. Na vida eterna, a nossa alegria será completa, porque o conhecimento e amor a Deus terão chegado à sua plenitude.

Por último, o Senhor roga pelos que, vivendo no meio do mundo, não são do mundo, para que sejam santos de verdade (v. 17) e levem a cabo a missão que Ele lhes confia, como Ele realizou a que recebeu do Pai (v. 18).

12. “Para se cumprir a Escritura”: É uma alusão ao que, pouco antes (Ioh 13,18), tinha dito aos Apóstolos citando explicitamente o texto sagrado: “Aquele que come o pão comigo levantará contra Mim o seu calcanhar” (Ps 41,10). A finalidade desta e de outras alusões de Cristo à traição de Judas é consolidar a fé dos Apóstolos, manifestando que conhecia tudo de antemão e que as Escrituras já o tinham anunciado.

De qualquer modo, Judas perdeu-se por sua culpa e não porque Deus o determinasse a isso; assim, a sua traição deve ter-se ido preparando pouco a pouco, mediante pequenas infidelidades, apesar de que Nosso Senhor em muitas ocasiões o ajudou para que pudesse arrepender-se e voltar ao bom caminho (cfr a nota a Ioh 13,21-32); não obstante, Judas não correspondeu a essas graças e perdeu-se por sua própria vontade. Deus, que vê o futuro, predisse a traição de Judas na Escritura; Cristo, como verdadeiro Deus, conhecia essa perdição.e anuncia-a agora aos Seus discípulos com imensa dor.

14-16. “Mundo” na Sagrada Escritura tem várias acepções. A primeira designa o conjunto da criação (Gen 1,1 ss.), e dentro dela a humanidade, os homens, que Deus ama enternecidamente (Prv 8,31). Neste contexto entende-se o pedido do Senhor: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (v. 15). “Constantemente o tenho ensinado com palavras da Santa Escritura: o mundo não é mau, porque saiu das mãos de Deus, porque Yahwéh olhou para ele e viu que era bom (cfr Gen 1,7 e ss.). Nós, os homens, é que o tornamos mau e feio com os nossos pecados e as nossas infidelidades. Não duvideis, meus filhos: qualquer forma de evasão das honestas realidades diárias é, para vós, homens e mulheres do mundo, coisa oposta à vontade de Deus” (Temas Actuais do Cristianismo, n° 114).

Em segundo lugar, “mundo” indica os bens da terra, de si caducos e que podem apresentar oposição aos bens do espírito (cfr Mt 16,26).

Finalmente, porque os homens maus foram escravizados pelo pecado e pelo demônio, “príncipe deste mundo” (Ioh 12,31; 16,11), o “mundo” é considerado por vezes como inimigo de Deus e contrário a Cristo e aos Seus seguidores (Ioh 1,10). Neste sentido, o mundo é mau, e por isso Jesus não é do mundo, nem o são os Seus discípulos (v. 16). Também a essa acepção pejorativa se refere a doutrina tradicional que considera o mundo, junto com o demônio e a carne, como inimigos da alma diante dos quais se deve estar em constante vigilância. “O mundo, o demônio e a carne são uns aventureiros que, aproveitando-se da fraqueza do selvagem que trazes dentro de ti, querem que, em troca do fictício brilho dum prazer – que nada vale – lhes entregues o ouro fino e as pérolas e os brilhantes e os rubis embebidos no Sangue vivo e redentor do teu Deus, que são o preço e o tesouro da tua eternidade” (Caminho, n° 708).

17-19. Jesus pede a santidade para os Seus discípulos. O único Santo é Deus, de cuja santidade participam as pessoas e as coisas. “Santificar” consiste em consagrar e dedicar algo a Deus, excluindo-o dos usos profanos; neste sentido Deus diz a Jeremias: “Antes de teres saído do seio materno Eu te santifiquei, te constituí profeta para as nações” (Ier 1,5). A consagração a Deus exige a perfeição ou santidade do dom consagrado. Daí que uma pessoa consagrada deva ter a santidade moral, exercitar-se nas virtudes morais. Ambas as coisas – consagração e perfeição – pede aqui o Senhor para os Seus discípulos, porque delas necessitam para cumprir a sua missão sobrenatural no mundo.

“Eu consagro-Me por eles…”: Estas palavras querem dizer que Jesus Cristo, que carregou com os pecados dos homens, Se consagra ao Pai por meio do Seu sacrifício na Cruz. Por este todos os cristãos ficam santificados: “Por isso também Jesus, para santificar o povo com o Seu sangue, padeceu fora da cidade” (Heb 13,12). Na verdade, depois da morte de Cristo, os homens mediante o Baptismo tornam-se filhos de Deus, participantes da natureza divina e capazes de alcançar a santidade a que foram chamados (cfr Lumen gentium, n. 40).

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