dia 11 a 17 de janeiro de 2010

Dia 11 de janeiro

Mc 1, 29-39

29Saindo depois da sinagoga, foi para casa de Simão e André, com Tiago e João. 30Ora a sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falam dela. 31E Ele, aproximando-Se, pegou-lhe na mão e ergueu-a. A febre deixou-a, e ela pôs-se a servi-los.

32Ao anoitecer, depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos, 33e toda a cidade se apinhou diante da porta. 34Ele curou muitos, atacados de várias enfermidades, e expulsou muitos Demônios; mas não deixava que os Demônios falassem, porque sabiam quem Ele era.

35De madrugada, muito antes de amanhecer, levantou-Se e saiu para um lugar solitário e ali orava. 36Simão e os que com ele estavam foram à procura d’Ele. 37Quando O encontraram, disseram-Lhe: Andam todos a procurar-Te. 38Diz-lhes Ele: Vamos a outro lugar, às vilas circunvizinhas, para também ali pregar, pois para isso é que saí. 39E andava a pregar nas suas sinagogas, por toda a Galileia, e a expulsar os Demônios.

Comentário

34. Os demônios possuem um saber sobre-humano, por isso reconhecem Jesus como o Messias (Mc 1,24). Por meio dos endemoninhados, os demônios podiam dar a conhecer o carácter messiânico de Jesus. Mas o Senhor, com o Seu poder divino, manda-os guardar silêncio. Ordena a mesma coisa, noutras ocasiões, aos discípulos (Mc 8,30; 9,9), e aos doentes, depois da sua cura, ordena que não propaguem a notícia (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26).

Este proceder do Senhor pode explicar-se como pedagogia divina para ir ensinando que a idéia que do Messias tinham a maioria dos contemporâneos de Jesus era demasiado humana e politizada. Por isso quer primeiro despertar o interesse com os Seus milagres, e ir esclarecendo o sentido do Seu messianismo com as Suas palavras, para que os discípulos e todo o povo o possam compreender progressivamente.

Também devemos pensar, com alguns Santos Padres, que Jesus não quer aceitar em favor da verdade o testemunho daquele que é o pai da mentira. E por isso, apesar de O reconhecerem, não os deixa dizer Quem é.

35. São muitos os passos do Novo Testamento que referem a oração de Jesus. Os evangelistas assinalaram-no nos momentos mais importantes do ministério público do Senhor: Baptisrno (Lc 3,21), escolha dos Apóstolos (Lc 6,12), primeira multiplicação dos pães (Mc 6,46), Transfiguração (Lc 9,29), no horto do Getsémani antes da Paixão (Mt 26,39), etc. Marcos, por seu lado, refere a oração de Jesus em três momentos solenes: no começo do Seu ministério público (1,35), no meio (6,46), e no fim, no Getsémani (14,32).

A oração de Jesus é oração de louvor perfeito ao Pai, é oração de petição por Si mesmo e por nós, e é, finalmente, modelo para os Seus discípulos. É louvor e acção de graças perfeita porque Ele é o Filho amado de Deus em Quem o Pai Se compraz plenamente (cfr Mc 1,11). É oração de petição, pois pedir coisas a Deus é o primeiro movimento espontâneo da alma que reconhece Deus como Pai. A oração de Jesus, segundo vemos por numerosos passos evangélicos (p. ex. Ioh 17, 9 e ss.), era uma petição contínua ao Pai pela obra da Redenção, que Ele devia realizar por meio da dor e do sacrifício. O Senhor quer, além disso, ensinar-nos com o Seu exemplo qual deve ser a atitude do cristão: entabular habitualmente um diálogo filial com Deus, no meio e por ocasião das nossas actividades ordinárias – trabalho, vida familiar, relações sociais, apostolado -, com o fim de dar à nossa vida um significado e uma presença autenticamente cristãos, já que, como assinalará mais tarde Jesus, “sem Mim nada podeis fazer” (Ioh 15,5).

“Escreveste-me: ‘Orar é falar com Deus. Mas de quê?’ De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo.

Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te – ganhar intimidade!” (Caminho, n° 91).

38. Jesus Cristo diz-nos aqui que a Sua missão é pregar, evangelizar. Para isto foi enviado (vid. também Lc 4,43). Os Apóstolos, por sua vez, foram escolhidos por Jesus para os enviar a pregar (Mc 3,14; 16,15). A pregação é o meio escolhido por Deus para levar a cabo a salvação: “Aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Cor 1,21). Por isso o mesmo São Paulo diz a Timóteo: “Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, censura e exorta com bondade e doutrina” (2 Tim 4,1-2). A fé vem-nos pelo ouvido, dirá em Rom 10,17 e, citando o profeta Isaías, exclama com entusiasmo: “Que formosos são os pés dos que anunciam boas novas!” (Rom 10,15; Is 52,7).

A Igreja põe em realce entre os ofícios principais de Bispos e de presbíteros o de pregar o Evangelho. São Pio X chegou a dizer que “o dever de pregar é o que mais grave e estritamente obriga o sacerdote” (Acerbo nimis). No mesmo sentido se pronunciou o Concilio Vaticano II: “O Povo de Deus é reunido antes de mais pela palavra de Deus vivo (cfr 1 Pet 1,23; Act 6,7; 12,24), que é justíssimo esperar receber da boca dos sacerdotes (cfr Mal 2,7; 1 Tim 4,11-13; etc.). Com efeito, como ninguém se pode salvar se antes não tiver acreditado (cfr Mc 16,16), os presbíteros, como cooperadores dos Bispos, têm, como primeiro dever, anunciar a todos o Evangelho de Deus (cfr 2 Cor 11,7), para que, realizando o mandato do Senhor: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todas as criaturas (Mc 16,15), constituam e aumentem o Povo de Deus” (Presbiterorum ordinis, n. 4).

A pregação de Jesus não consiste apenas em palavras. É uma doutrina acompanhada com a autoridade e eficácia de uns factos (Mc 1,27.39). Jesus faz e ensina (Act 1,1). Também a Igreja foi enviada a pregar a salvação, e a realizar a obra salvífica que proclama. Esta obra é posta em prática mediante os sacramentos e, especialmente, através da renovação do sacrifício do Calvário na Santa Missa (Sacrosanctum Concilium, n. 6).

Na Igreja de Deus, todos os fiéis têm de escutar devotadamente a pregação do Evangelho e todos têm de sentir, por sua vez, a responsabilidade de transmiti-lo com palavras e com factos. Por seu lado, à Hierarquia da Igreja corresponde ensinar autenticamente – com a autoridade de Cristo – a doutrina evangélica.

Dia 12 de janeiro

Mc 1, 21b-28

21bNo sábado seguinte, indo à sinagoga, pôs-Se a ensinar. 22E maravilhavam-se por causa da Sua doutrina, pois os ensinava como quem tinha autoridade e não como os Escribas. 23Nisto um homem possuído do espírito imundo, o qual estava na sinagoga, começou a gritar: 24Ai! Que tens Tu connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder. Sei quem Tu és: o Santo de Deus. 25Mas Jesus intimou-lhe: Cala-te e sai desse homem! 26O espírito imundo, agitando-o convulsivamente e fazendo grande alarido, saiu dele. 27Ficaram todos atônitos, de modo que perguntavam uns aos outros: Que é isto? Uma doutrina nova, e com autoridade! Manda nos espíritos imundos, e eles obedecem-Lhe! 28E a Sua fama correu logo por toda a parte, em toda a vizinha região da Galileia.

Comentário

21. Sinagoga quer dizer reunião, assembléia, comunidade. Assim se chamava – e se chama – o lugar em que os Judeus se reuniam para escutar a leitura da Sagrada Escritura e rezar. Parece que as sinagogas tiveram a sua origem nas reuniões cultuais que celebravam os Judeus cativos em Babilônia, ainda que não se estendessem até mais tarde. No tempo de Nosso Senhor havia-as em todas as cidades e aldeias da Palestina de certa importância; e fora da Palestina nos lugares onde havia uma comunidade de Judeus suficientemente numerosa. A sinagoga constava principalmente de uma sala rectangular, construída de tal forma que os assistentes, sentados, olhassem para Jerusalém. Na sala havia uma tribuna ou estrado onde se lia e se explicava a Sagrada Escritura.

22. Aparece aqui como Jesus mostrava a Sua autoridade ao ensinar. Inclusivamente quando tomava como base a Escritura, como no Sermão da Montanha, distinguia-Se dos outros mestres, pois falava em nome próprio: “Mas Eu digo-vos”. O Senhor, na verdade, fala dos mistérios de Deus e das relações entre os homens; explica com simplicidade e com poder, porque fala do que sabe e dá testemunho do que viu (Ioh 3,11). Os escribas ensinavam também ao povo – comenta São Beda – o que está escrito em Moisés e nos Profetas; mas Jesus pregava ao povo como Deus e Senhor do próprio Moisés (cfr In Marci Evangelium expositio, ad loc.) Além disso, primeiro faz e depois diz (Act 1,1) e não é como os escribas que dizem e não fazem (Mt 23,1-5).

23-26. Os Evangelhos apresentam vários relatos de curas miraculosas. Entre elas sobressaem as de alguns endemoninhados. A vitória sobre o espírito imundo, nome que se dava correntemente ao demônio, é um sinal claro de que chegou a salvação divina: Jesus, ao vencer o Maligno, revela-Se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios: “Agora é que é o julgamento deste mundo. Agora é que o Príncipe deste mundo vai ser lançado fora” (Ioh 12,31). Ao longo do Evangelho torna-se patente a luta contínua e vitoriosa do Senhor contra o demônio.

A oposição do demônio a Jesus vai aparecendo, cada vez mais clara: é solapada e subtil no deserto; manifesta e violenta nos endemoninhados; radical e total na Paixão, que é “a hora e o poder das trevas” (Lc 22,53). A vitória de Jesus é também cada vez mais patente, até ao triunfo total da Ressurreição.

O demônio é chamado imundo – diz São João Crisóstomo – pela sua impiedade e afastamento de Deus, e porque se mistura em toda a obra má e contrária a Deus. Reconhece de alguma maneira a santidade de Cristo, mas este conhecimento não vai acompanhado pela caridade. Além do facto histórico concreto, podemos ver neste endemoninhado os pecadores que se querem converter a Deus, libertando-se da escravidão do demônio e do pecado. A luta pode ser longa, mas terminará com uma vitória: o espírito maligno não pode nada contra Cristo.

27. A mesma autoridade que Jesus mostrou no ensino (1,22) aparece agora nos Seus feitos. Fá-lo só com o Seu querer, sem necessitar de múltiplas invocações e conjuros. As palavras e os actos de Jesus evidenciam algo de superior, um poder divino, que enche de admiração e de temor aqueles que O escutam e observam.

Esta primeira impressão manter-se-á até ao fim (Mc 2,12; 5,20.42; 7,37; 15,39; Lc 19,48; Ioh 7,46). Jesus de Nazaré é o Salvador esperado. Ele sabe-o e manifesta-o precisamente nos Seus actos e nas Suas palavras, que constituem uma unidade inseparável segundo os relatos evangélicos (Mc 1,38-39; 2,10-11; 4,39). Como ensina o Vaticano II (Dei Verbum, n. 2), a Revelação faz-se com actos e palavras intimamente unidos entre si. As palavras esclarecem os actos; os factos confirmam as palavras. Deste modo Jesus vai revelando progressivamente o mistério da Sua Pessoa: primeiro as gentes captam a Sua autoridade excepcional, e os Apóstolos, iluminados pela graça de Deus, reconhecerão depois a raiz última dessa autoridade: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16).

Dia 13 de janeiro

Mc 1, 29-39

29Saindo depois da sinagoga, foi para casa de Simão e André, com Tiago e João. 30Ora a sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falam dela. 31E Ele, aproximando-Se, pegou-lhe na mão e ergueu-a. A febre deixou-a, e ela pôs-se a servi-los.

32Ao anoitecer, depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos, 33e toda a cidade se apinhou diante da porta. 34Ele curou muitos, atacados de várias enfermidades, e expulsou muitos Demônios; mas não deixava que os Demônios falassem, porque sabiam quem Ele era.

35De madrugada, muito antes de amanhecer, levantou-Se e saiu para um lugar solitário e ali orava. 36Simão e os que com ele estavam foram à procura d’Ele. 37Quando O encontraram, disseram-Lhe: Andam todos a procurar-Te. 38Diz-lhes Ele: Vamos a outro lugar, às vilas circunvizinhas, para também ali pregar, pois para isso é que saí. 39E andava a pregar nas suas sinagogas, por toda a Galileia, e a expulsar os Demônios.

Comentário

34. Os demônios possuem um saber sobre-humano, por isso reconhecem Jesus como o Messias (Mc 1,24). Por meio dos endemoninhados, os demônios podiam dar a conhecer o carácter messiânico de Jesus. Mas o Senhor, com o Seu poder divino, manda-os guardar silêncio. Ordena a mesma coisa, noutras ocasiões, aos discípulos (Mc 8,30; 9,9), e aos doentes, depois da sua cura, ordena que não propaguem a notícia (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26).

Este proceder do Senhor pode explicar-se como pedagogia divina para ir ensinando que a idéia que do Messias tinham a maioria dos contemporâneos de Jesus era demasiado humana e politizada. Por isso quer primeiro despertar o interesse com os Seus milagres, e ir esclarecendo o sentido do Seu messianismo com as Suas palavras, para que os discípulos e todo o povo o possam compreender progressivamente.

Também devemos pensar, com alguns Santos Padres, que Jesus não quer aceitar em favor da verdade o testemunho daquele que é o pai da mentira. E por isso, apesar de O reconhecerem, não os deixa dizer Quem é.

35. São muitos os passos do Novo Testamento que referem a oração de Jesus. Os evangelistas assinalaram-no nos momentos mais importantes do ministério público do Senhor: Baptisrno (Lc 3,21), escolha dos Apóstolos (Lc 6,12), primeira multiplicação dos pães (Mc 6,46), Transfiguração (Lc 9,29), no horto do Getsémani antes da Paixão (Mt 26,39), etc. Marcos, por seu lado, refere a oração de Jesus em três momentos solenes: no começo do Seu ministério público (1,35), no meio (6,46), e no fim, no Getsémani (14,32).

A oração de Jesus é oração de louvor perfeito ao Pai, é oração de petição por Si mesmo e por nós, e é, finalmente, modelo para os Seus discípulos. É louvor e acção de graças perfeita porque Ele é o Filho amado de Deus em Quem o Pai Se compraz plenamente (cfr Mc 1,11). É oração de petição, pois pedir coisas a Deus é o primeiro movimento espontâneo da alma que reconhece Deus como Pai. A oração de Jesus, segundo vemos por numerosos passos evangélicos (p. ex. Ioh 17, 9 e ss.), era uma petição contínua ao Pai pela obra da Redenção, que Ele devia realizar por meio da dor e do sacrifício. O Senhor quer, além disso, ensinar-nos com o Seu exemplo qual deve ser a atitude do cristão: entabular habitualmente um diálogo filial com Deus, no meio e por ocasião das nossas actividades ordinárias – trabalho, vida familiar, relações sociais, apostolado -, com o fim de dar à nossa vida um significado e uma presença autenticamente cristãos, já que, como assinalará mais tarde Jesus, “sem Mim nada podeis fazer” (Ioh 15,5).

“Escreveste-me: ‘Orar é falar com Deus. Mas de quê?’ De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias…, fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo.

Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te – ganhar intimidade!” (Caminho, n° 91).

38. Jesus Cristo diz-nos aqui que a Sua missão é pregar, evangelizar. Para isto foi enviado (vid. também Lc 4,43). Os Apóstolos, por sua vez, foram escolhidos por Jesus para os enviar a pregar (Mc 3,14; 16,15). A pregação é o meio escolhido por Deus para levar a cabo a salvação: “Aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Cor 1,21). Por isso o mesmo São Paulo diz a Timóteo: “Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, censura e exorta com bondade e doutrina” (2 Tim 4,1-2). A fé vem-nos pelo ouvido, dirá em Rom 10,17 e, citando o profeta Isaías, exclama com entusiasmo: “Que formosos são os pés dos que anunciam boas novas!” (Rom 10,15; Is 52,7).

A Igreja põe em realce entre os ofícios principais de Bispos e de presbíteros o de pregar o Evangelho. São Pio X chegou a dizer que “o dever de pregar é o que mais grave e estritamente obriga o sacerdote” (Acerbo nimis). No mesmo sentido se pronunciou o Concilio Vaticano II: “O Povo de Deus é reunido antes de mais pela palavra de Deus vivo (cfr 1 Pet 1,23; Act 6,7; 12,24), que é justíssimo esperar receber da boca dos sacerdotes (cfr Mal 2,7; 1 Tim 4,11-13; etc.). Com efeito, como ninguém se pode salvar se antes não tiver acreditado (cfr Mc 16,16), os presbíteros, como cooperadores dos Bispos, têm, como primeiro dever, anunciar a todos o Evangelho de Deus (cfr 2 Cor 11,7), para que, realizando o mandato do Senhor: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todas as criaturas (Mc 16,15), constituam e aumentem o Povo de Deus” (Presbiterorum ordinis, n. 4).

A pregação de Jesus não consiste apenas em palavras. É uma doutrina acompanhada com a autoridade e eficácia de uns factos (Mc 1,27.39). Jesus faz e ensina (Act 1,1). Também a Igreja foi enviada a pregar a salvação, e a realizar a obra salvífica que proclama. Esta obra é posta em prática mediante os sacramentos e, especialmente, através da renovação do sacrifício do Calvário na Santa Missa (Sacrosanctum Concilium, n. 6).

Na Igreja de Deus, todos os fiéis têm de escutar devotadamente a pregação do Evangelho e todos têm de sentir, por sua vez, a responsabilidade de transmiti-lo com palavras e com factos. Por seu lado, à Hierarquia da Igreja corresponde ensinar autenticamente – com a autoridade de Cristo – a doutrina evangélica.

Dia 14 de janeiro

Mc 1, 40-45

40Vem ter com Ele um leproso que, suplicando e lançando-se de joelhos, Lhe diz: Se quiseres, podes limpar-me. 41Ele, enternecido, estendeu a mão, e tocou-o e disse-lhe: Quero; sê limpo! 42E imediatamente desapareceu a lepra, e ficou limpo. 43Então Jesus, tomando um ar severo, mandou-o embora e disse-lhe: 44Vê lá, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para que lhes sirva de testemunho. 45Ele, porém, saindo, começou a apregoar altamente e a espalhar a notícia do facto, de tal sorte que Jesus já não podia entrar às claras em nenhuma cidade; mas ficava fora, em lugares desertos. E de toda a parte vinham ter com Ele.

Comentário

40-44. Na lepra via-se um castigo de Deus (cfr Num 12,10-15). O desaparecimento desta doença era considerado como uma das bênçãos da época messiânica (Is 35,8; cfr Mt 11,5; Lc 7,22). Ao doente de lepra, pelo carácter contagioso desta doença, a Lei tinha-o declarado impuro e transmissor de impureza àquelas pessoas que tocava, ou àqueles lugares em que entrava. Por isso tinha de viver isolado (Num 5,2; 12,14 ss.), e mostrar, por um conjunto de sinais externos, a sua condição de leproso.

O passo mostra-nos a oração, cheia de fé e de confiança, de um homem que necessita da ajuda de Jesus e pede-a seguro de que, se o Senhor o quer, tem poder para o livrar do mal de que padece. “Aquele homem ajoelha-se prostrando-se em terra – o que é sinal de humildade e de vergonha -, para que cada um se envergonhe das manchas da sua vida. Mas a vergonha não há-de impedir a confissão: o leproso mostrou a chaga e pediu o remédio. A sua confissão está cheia de piedade e de fé. Se queres, diz, podes: isto é, reconheceu que o poder de curar-se estava nas mãos do Senhor” (In Marci Evangelium expositio, ad loc.).

Dia 15 de janeiro

Mc 2, 1-12

1Dias depois, entrou outra vez em Cafarnaum. 2Quando se soube que estava em casa, juntou-se tanta gente, que não cabia nem sequer nas adjacências diante da porta; e Ele expunha-lhes a Palavra. 3Nisto chegam alguns que Lhe traziam um paralítico, transportado por quatro homens. 4Como não pudessem pôr-Lho diante por causa da multidão, descobriram o tecto sobre o lugar onde estava e, praticando uma abertura, arrearam a enxerga em que o paralítico jazia. 5Vendo Jesus a fé daqueles homens, diz ao paralítico: Filho, perdoados te são os teus pecados.

6Estavam ali sentados alguns dos Escribas e pensavam de si para consigo: 7Como é que Este assim fala? Ele blasfema: Quem pode perdoar pecados senão só Deus? 8E logo Jesus, conhecendo pelo Seu espírito que assim pensavam dentro de si, diz-lhes: Porque estais a pensar essas coisas no vosso íntimo? 9Qual é mais fácil, dizer a este paralítico: “perdoados te são os teus pecados”, ou dizer: “levanta-te, toma a tua enxerga e anda?”. 10Ora, para que saibais que o Filho do homem tem poder de perdoar pecados sobre a Terra, 11Eu te ordeno – diz ao paralítico – levanta-te, toma a tua enxerga e vai para tua casa. 12E ele levantou-se e, sem mais, tomando a enxerga, saiu à vista de todos, de modo que todos ficaram pasmados e glorificavam a Deus, dizendo: Nunca vimos coisa assim!

Comentário

4. Era muito freqüente que as casas judaicas tivessem o telhado em forma de terraço, ao qual se podia subir por uma escadinha situada na parte posterior. Hoje pode observar-se ainda a mesma estrutura.

5. Jesus põe em realce neste versículo a relação entre a fé e o perdão dos pecados. A audácia dos que levam o paralítico mostra a fé que tinham em Cristo. Movido por isso Jesus perdoa os pecados do doente. Consideremos o que vale a nossa fé diante de Deus, quando a dos outros é via para que um homem seja curado interior e exteriormente de modo instantâneo, e que pelo mérito de uns se remedeiam as necessidades de outros.

São Jerónimo vê na paralisia corporal daquele homem um tipo ou figura da paralisia espiritual: o tolhido de Cafarnaum também não tinha forças, por si mesmo, para voltar a Deus. Jesus, Deus e Homem, curou-o de ambas as paralisias (cfr Comm. in Marcum, ad loc.).

As palavras dirigidas ao paralítico – “os teus pecados te são perdoados” – reflectem que no facto de lhe perdoar se dá um encontro pessoal com Cristo; o mesmo acontece no sacramento da Penitência: “A Igreja, pois, ao observar fielmente a plurissecular prática do sacramento da Penitência – a prática da confissão individual, unida ao acto pessoal de arrependimento e ao propósito de se corrigir e de satisfazer – defende o direito particular da alma humana. É o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro do sacramento da Reconciliação: ‘São-te perdoados os teus pecados’ (Mc 2,5); ‘Vai e doravante não tornes a pecar’ (Ioh 8,11). Como é evidente, isto é ao mesmo tempo o direito do próprio Cristo em relação a todos e a cada um dos homens por Ele remidos. É o direito de encontrar-se com cada um de nós naquele momento-chave da vida humana, que é o momento da conversão e do perdão” (Redemptor hominis, n. 20).

7-12. São vários os elementos que manifestam aqui a divindade de Jesus: perdoa os pecados, conhece por Si mesmo a intimidade do coração humano e tem poder para curar instantaneamente doenças corporais. Os escribas sabem que só Deus pode outorgar o perdão das culpas e por isso consideram infundada, e inclusivamente blasfema, a afirmação do Senhor. Necessitam de um sinal que mostre a verdade daquelas palavras. E Jesus oferece-lho: assim como ninguém discutirá a cura do paralítico, do mesmo modo ninguém poderá negar razoavelmente a libertação das suas culpas. Cristo, Deus e Homem, exerceu o poder de perdoar os pecados e, pela Sua infinita misericórdia, quis estendê-lo à Sua Igreja.

Dia 16 de janeiro

Mc 2, 13-17

13Em seguida, saiu outra vez para a beira-mar; e todo o povo concorria para junto d’Ele, e Ele ensinava-os. 14Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado ao telónio e disse-lhe: Segue-Me. E ele levantou-se e seguiu-O. 15E sucedeu que, estando à mesa em casa dele, também muitos publicanos e pecadores se puseram à mesma mesa com Jesus e Seus discípulos, porque eram muitos os que O seguiam. 16Os Escribas dos Fariseus, ao verem-No a comer com os pecadores e publicanos, diziam aos discípulos: Porque é que Ele come e bebe com os publicanos e pecadores? 17Mas Jesus, que os ouvia, diz-lhes: Não precisam de médico os sãos, mas os doentes. Não vim chamar justos, mas pecadores.

Comentário

14. São Marcos e São Lucas (5,27-32) coincidem em chamar-lhe “Levi”. O primeiro Evangelho, porém (Mt 9,9-13), chama-lhe “Mateus”. Trata-se de uma mesma pessoa, ainda que tenha nomes diferentes. Nos três relatos dão-se as mesmas circunstâncias. Mais adiante, São Marcos e São Lucas, ao darem a lista dos Apóstolos (Mc 3,13-19; Lc 6,12-16), incluem Mateus, não Levi. Os Santos Padres identificaram-nos. Além disso, era freqüente entre os Judeus terem dois nomes: Jacob-Israel; Simão-Pedro; Saulo-Paulo; José-Caifás; João-Marcos… Com freqüência, o nome e o sobrenome estavam relacionados com uma mudança significativa na vida e missão de tal pessoa. Terá havido também neste caso uma mudança originada pela irrupção salvadora de Jesus na vida do apóstolo? O Evangelho nada diz.

Levi-Mateus, pela sua condição de publicano (Mt 9,9-13), estava a cobrar os impostos no “telónio” – posto público para o pagamento de tributos -. Os publicanos eram cobradores ao serviço dos romanos. Por isso era um ofício odiado e desprezado pelo povo, ainda que, ao mesmo tempo, apetecido pela facilidade de enriquecimento. Quando Jesus chama Mateus, este deixa tudo. Obedece imediatamente à vocação de Jesus, que lhe dá a graça para responder ao Seu chamamento.

Jesus é o fundamento da confiança na nossa própria transformação, se colaborarmos com a Sua graça, por mais desprezível que tenha sido o nosso comportamento anterior. E é também o fundamento da confiança para o nosso apostolado em favor da conversão e santificação dos outros. Ele, que é o Filho de Deus, até das pedras é capaz de tirar filhos de Deus (cfr Mt 3,9).

17. À pergunta que, em tom de censura, os escribas e os fariseus fazem aos discípulos, Jesus responde com um provérbio já conhecido: “Não têm necessidade de médico os sãos, mas os doentes”. Ele é o médico das almas e veio para curar os pecadores das doenças espirituais de que padecem. O Senhor chama a todos, a Sua missão redentora é universal; noutras ocasiões afirma-o utilizando parábolas como a do banquete de núpcias (Mt 22,1-14; Lc 14,16-24). Como explicar então essa restrição que parece pôr aqui o Senhor, ao dizer que não veio para chamar os justos? Não se trata na realidade de uma restrição. Jesus aproveita a ocasião para censurar aos escribas e fariseus a sua atitude orgulhosa: consideravam-se justos e a sua complacência nesta aparente virtude afastava-os do chamamento à conversão, pensando que se salvariam por si mesmos (cfr Ioh 9,41). Assim se pode explicar este provérbio pronunciado por Jesus, que, por outro lado, deixou claro na Sua pregação que “ninguém é bom senão um, Deus” (Mc 10,18), e que todos os homens têm de recorrer à misericórdia e ao perdão de Deus para se salvarem. Porque, em última análise, não há dois blocos na humanidade: um de justos e outro de pecadores. Todos somos pecadores, como atesta São Paulo: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rom 3,23). Precisamente por isto. Cristo veio para nos chamar a todos, e àquele que responde ao Seu chamamento, fá-lo justo.

As palavras do Senhor devem mover-nos também a rezar com humildade e confiança por aquelas pessoas que parece que querem continuar a viver no pecado. Como suplicava Santa Teresa: “Oh, que dura coisa Vos peço, verdadeiro Deus meu: que ameis a quem não vos ama, que abrais a quem não Vos chama, que deis saúde a quem gosta de estar doente e anda a procurar a doença! Vós dizeis, Senhor meu, que vindes buscar os pecadores. Estes, Senhor, são os verdadeiros pecadores. Não olheis a nossa cegueira, meu Deus, mas o muito sangue que derramou o Vosso Filho por nós; resplandeça a Vossa misericórdia em tão crescida maldade; olhai, Senhor, que somos feitura Vossa” (Exclamações, n° 8).

Por outro lado, os Santos Padres costumam entender esse chamamento de Jesus aos pecadores como um convite ao arrependimento e à penitência. Assim, São João Crisóstomo (Hom. sobre S. Mateus, 30,3) explica a frase, pondo na boca de Jesus estas palavras: “Não vim para que continuem a ser pecadores, mas para que se convertam e cheguem a ser melhores”.

Dia 17 de janeiro

Jo 2, 1-11

1No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia, e estava lá a mãe de Jesus. 2Ora Jesus e os discípulos foram também convidados para o casamento. 3Como viesse a faltar o vinho, diz a mãe de Jesus para Este: Não têm vinho… 4Responde-lhe Jesus: Que Me desejas, Senhora? Ainda não chegou a Minha hora. 5Diz Sua mãe aos serventes: Fazei o que Ele vos disser.

6Havia ali seis talhas de pedra, dispostas para a purificação dos Judeus, cada uma das quais levava duas ou três medidas. 7Diz-lhes Jesus: Enchei essas talhas de água. E eles encheram-nas até acima. 8Depois diz-lhes: Tirai agora e levai ao chefe de mesa. E eles levaram. 9O chefe de mesa, depois de provar a água convertida em vinho – ele não sabia donde era, sabiam-no os serventes que tinham tirado a água – chama o noivo 10e diz-lhe: Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, quando tiverem bebido bem, serve então o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora!

11Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos Seus milagres. Manifestou a Sua glória, e acreditaram n’Ele os discípulos.

Comentário

1. Caná da Galileia parece que deve identificar-se com a actual Kef Kenna, situada a 7 quilómetros a Noroeste de Nazaré.

Entre os convidados menciona-se em primeiro lugar Maria Santíssima. Não se cita São José, coisa que não se pode atribuir a um esquecimento de São João: este silêncio – e outros muitos no Evangelho – faz supor que o Santo Patriarca já tinha morrido.

As festas de casamento tinham longa duração no Oriente (Gen 29,27; Idc 14,10.12.17; Tob 9,12; 10,1). Durante elas, parentes e amigos iam acorrendo a felicitar os esposos; nos banquetes podiam participar até os transeuntes. O vinho era considerado elemento indispensável nas refeições e servia, além disso, para criar um ambiente festivo. As mulheres intervinham nas tarefas da casa; a Santíssima Virgem prestaria também a sua ajuda: por isso pôde dar-se conta de que ia faltar vinho.

2. “Para demonstrar a bondade de todos os estados de vida (…) Jesus dignou-Se nascer das entranhas puríssimas da Virgem Maria; recém-nascido recebeu o louvor que saiu dos lábios proféticos da viúva Ana e, convidado na Sua juventude pelos noivos, honrou as bodas com a presença do Seu poder” (São Beda, Hom. 13, para o 2° Domingo depois da Epif.). Esta presença de Cristo nas bodas de Caná é sinal de que Jesus abençoa o amor entre homem e mulher, selado com o matrimónio. Deus, com efeito, instituiu o matrimónio no princípio da Criação (cfr Gen 1,27-28), e Jesus Cristo confirmou-o e elevou-o à dignidade de Sacramento (cfr Mt 19,6).

3. No quarto Evangelho a Mãe de Jesus – este é o título que lhe dá São João-aparece somente duas vezes. Uma neste episódio, a outra no Calvário (Ioh 19,25). Com isso vem insinuar-se a missão da Santíssima Virgem Maria na Redenção. Entre os dois acontecimentos, Caná e o Calvário, há várias analogias. Situam-se um no começo e o outro no fim da vida pública, como para indicar que toda a obra de Jesus está acompanhada pela presença de Maria Santíssima. O seu título de Mãe adquire ressonância especialíssima: Maria actua como verdadeira Mãe de Jesus nesses dois momentos em que o Senhor manifesta a Sua divindade. Ao mesmo tempo, ambos os episódios assinalam a especial solicitude de Maria Santíssima pelos homens: num caso intercede quando ainda não chegou “a hora”; no outro oferece ao Pai a morte redentora de seu Filho, e aceita a missão que Jesus lhe confere de ser Mãe de todos os crentes, representados no Calvário pelo discípulo amado.

“Na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece duma maneira bem marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cfr Ioh 2,1-11). Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr Mc 3,35 e par.; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cfr Lc 2,19.51). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr Ioh 19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: ‘Mulher, eis aí o teu filho’ (cfr Ioh 19,26-27)” (Lumen gentium, n. 58).

4. O relato evangélico do diálogo entre Jesus e Sua Mãe não nos revela todos os gestos, as inflexões da voz, etc., que deram o tom exacto às palavras. Ao nosso ouvido, por exemplo, a resposta de Jesus soa dura, como se dissesse “este é um assunto que não nos diz respeito”. Na realidade não é assim.

“Mulier” que alguns traduzem para português por “Mulher”: é um título respeitoso, que era equivalente a “senhora”, uma maneira de falar em tom solene. Este nome voltou a empregá-lo Jesus na Cruz, com grande afecto e veneração (Ioh 19,26).

A frase “que Me desejas?” corresponde a uma maneira proverbial de falar no Oriente, que pode ser empregada com diversos matizes. A resposta de Jesus parece indicar que embora, em princípio, não pertencesse ao plano divino que Jesus interviesse com poder para resolver as dificuldades surgidas naquelas bodas, o pedido de Maria Santíssima O move a atender a essa necessidade. Também se pode pensar que nesse plano divino estava previsto que Jesus fizesse o milagre por intercessão de Sua Mãe. Em qualquer caso, foi Vontade de Deus que a Revelação do Novo Testamento nos deixasse este ensinamento capital: a Virgem Santíssima é tão poderosa na sua intercessão que Deus atenderá todos os pedidos por mediação de Maria. Por isso a piedade cristã, com precisão teológica, chamou a Nossa Senhora “omnipotência suplicante”.

“Ainda não chegou a Minha hora”: O termo “hora” é utilizado por Jesus Cristo algumas vezes para designar o momento da Sua vinda gloriosa (cfr Ioh 5,28), ainda que geralmente se refira ao tempo da Sua Paixão, Morte e Glorificação (cfr Ioh 7,30; 12,23; 13,1; 17,1).

5. A Virgem Maria, como boa mãe, conhece perfeitamente o valor da resposta de seu Filho, que para nós poderia resultar ambígua (“que Me desejas”), e não duvida que Jesus fará algo para resolver o apuro daquela família. Por isso indica de modo tão directo aos serventes que façam o que Jesus lhes disser. Podemos considerar as palavras da Virgem como um convite permanente para cada um de nós: “Nisso consiste toda a santidade cristã: pois a perfeita santidade é obedecer a Cristo em todas as coisas” (Comentário sobre S. João, ad loc. – São Tomás de Aquino).

Com esta mesma atitude rezava o Papa João Paulo II no santuário mariano de Knock, ao consagrar à Virgem o povo irlandês: “Neste momento solene escutamos com atenção particular as tuas palavras: ‘Fazei o que vos disser o meu Filho . E desejamos responder às tuas palavras com todo o coração. Queremos fazer o que nos diz o teu Filho e o que nos manda; pois tem palavras de vida eterna. Queremos cumprir e pôr em prática tudo o que vem d’Ele, tudo o que está contido na Boa Nova, como o fizeram os nossos antepassados durante séculos (…). Por isso hoje (…) confiamos e consagramos a Ti, Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, o nosso coração, consciência e obras, a fim de que estejam em consonância com a fé que professamos. Confiamos e consagramos a Ti todos e cada um dos que constituem o povo irlandês e a comunidade do Povo de Deus que habita nestas terras” (Homilia Santuário de Knock).

6. A ‘medida’ ou ‘metreta’ correspondia a uns 40 litros. A capacidade de cada uma destas talhas era, portanto, de 80 a 120 litros; no total 480-720 litros de vinho da melhor qualidade. São João sublinha a abundância do dom concedido pelo milagre, como fará também a quando da multiplicação dos pães (Ioh 6,12-13). Um dos sinais da chegada do Messias era a abundância; por isso nela vê o Evangelista o cumprimento das antigas profecias: “O próprio Yahwéh dará a felicidade e a terra dará os seus frutos”, anunciava o Salmo 85,13: “as eiras encher-se-ão de bom trigo, os lagares transbordarão de mosto e de azeite puro” (Ioel 2,24; cfr Am 9,13-15). Essa abundância de bens materiais é um símbolo dos dons sobrenaturais que Cristo nos obtém com a Redenção: mais adiante, São João porá em realce aquelas palavras do Senhor: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Ioh 10,10; cfr Rom 5,20).

7. “Até acima”: O Evangelista volta a sublinhar com este pormenor a superabundância dos bens da Redenção e, ao mesmo tempo, indica com quanta exactidão obedeceram os serventes, como insinuando a importância da docilidade no cumprimento da Vontade de Deus, mesmo nos pequenos pormenores.

9-10. Jesus faz os milagres sem tacanhez, com magnanimidade; por exemplo, na multiplicação dos pães e dos peixes (cfr Ioh 6,10-13) sacia uns cinco mil homens e ainda sobram doze canastras. Neste milagre de Caná não converteu a água em qualquer vinho, mas num de excelente qualidade.

Os Santos Padres viram no vinho de qualidade, reservado para o fim das bodas, e na sua abundância, uma figura do coroamento da História da Salvação: Deus tinha enviado os patriarcas e profetas, mas, ao chegar a plenitude dos tempos, enviou o Seu próprio Filho, cuja doutrina leva a Revelação antiga à perfeição, e cuja graça excede as esperanças dos justos do Antigo Testamento. Também viram neste vinho bom do fim das bodas o prémio e a alegria da vida eterna, que Deus concede àqueles que, querendo seguir Cristo, sofreram as amarguras e contrariedades desta vida (cfr Comentário sobre S. João, ad loc.).

11. Antes do milagre os discípulos já criam que Jesus era o Messias; mas ainda tinham um conceito excessivamente terreno da Sua missão salvífica. São João testemunha aqui que este milagre foi o começo de uma nova dimensão da sua fé, que tornava mais profunda a que já tinham. O milagre de Caná constitui um passo decisivo na formação da fé dos discípulos. “Maria aparece como Virgem orante em Caná, onde, manifestando ao Filho com delicada súplica uma necessidade temporal, obtém também um efeito de graça: que Jesus, realizando o primeiro dos Seus ‘sinais’, confirme os discípulos na fé n’Ele” (Marialis cultus, n. 18).

“Por que terão tanta eficácia os pedidos de Maria diante de Deus? As orações dos santos são orações de servos, enquanto as de Maria são orações de Mãe, donde procede a sua eficácia e carácter de autoridade; e como Jesus ama imensamente Sua Mãe, não pode rogar sem ser atendida (…).

Para conhecer bem a grande bondade de Maria recordemos o que refere o Evangelho (…). Faltava o vinho, com o consequente apuro dos esposos. Ninguém pede à Santíssima Virgem que interceda diante do seu Filho em favor dos consternados esposos. Contudo, o coração de Maria, que não pode deixar de se compadecer dos infelizes (…), impeliu-a a encarregar-se por si mesma do ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre, apesar de ninguém lho ter pedido (…). Se a Senhora agiu assim sem que lho tivessem pedido, que teria sido se lho tivessem pedido? (Sermões abreviados, 48 – Santo Afonso Maria de Ligório).