Carta de uma carmelita descalça: o jovem sacerdote Josemaria

Por Milagres do Santíssimo Sacramento, o.c.d. (Carmelita Descalça)
Milagres do Santíssimo Sacramento, carmelita descalça do Convento do Coração de Jesus e da Virgem do Carmo em Torremolinos, Espanha, escreveu uma carta para o Vaticano por ocasião da abertura do processo da Causa de Beatificação e Canonização de São Josemaria. Ela o conheceu em seus primeiros anos de sacerdócio, quando cuidava do Patronato das Damas Apostólicas. Após muitos anos, voltou a ter notícias de São Josemaria e seguiu acompanhando e ajudando o Opus Dei com suas orações.

Conheci Monsenhor Josemaria Escrivá de Balaguer aproximadamente em 1927, quando era Capelão do Patronato das Damas Apostólicas do Sagrado Coração, da rua Santa Engracia, 13, em Madrid. Recordo que Dom Josemaria* era muito jovem.

O Patronato foi fundado pela senhora Luz Casanova, filha da Marquesa de Onteiro. (…) Outro labor das Damas Apostólicas era o Patronato de Enfermos, no qual eu comecei a trabalhar como Auxiliar das Damas, no ano de 1918, junto com outras meninas jovens.

Ajudávamos repartindo comida entre os doentes e visitando-os pelos bairros periféricos de Madrid. Bastava que nos avisassem por telefone que havia um doente necessitado, para que fossemos logo vê-lo. (…)

Com Dom Josemaria tínhamos muito contato, porque ia também visitar e confessar os enfermos que nos chamavam dos diferentes bairros de Madrid, especialmente de Vallecas, de Tetuán de las Victorias e de Ventas. Levava-lhes a Sagrada Comunhão às quintas-feiras, em um carro emprestado pela senhora Luz Casanova. Nos demais dias utilizava os bondes ou caminhava. Às vezes com tempo ruim, porque atendia da mesma forma os doentes tanto no inverno quanto no verão.

Dom Josemaria era muito bom, estava sempre disponível para tudo, jamais nos colocava dificuldades.

Interessava-se muito por todas aquelas pessoas e logo nos contava como estavam, do que necessitavam, de como poderíamos ajudar a cada um e a quem convinha visitar novamente.

Aquele apostolado era muito penoso e difícil: tínhamos que ir pelos bairros da periferia de Madrid, onde não sabíamos se nos receberiam bem ou mal. Necessitava-se de muito espírito de sacrifício, principalmente naquela época anterior à república.

Em certa ocasião, deram-nos um grande susto quando muitas mulheres do bairro de Ventas nos encurralaram para aterrorizar-nos e não voltássemos mais ali. Chamavam-nos de “manipuladoras de consciências”. Outra vez, no bairro de Tetuán, arrastaram várias Damas Apostólicas pela rua, ferindo-as com uma faca de sapateiro. Ainda que eu não lembre, imagino que Dom Josemaria também tenha tido algum percalço desses, porque o apostolado ali não era nada fácil.

Além disso, no Patronato havia outros labores em que Dom Josemaria também contribuía: como preparar futuros matrimônios e a catequese de operários. Confessava a centenas de crianças, porque os colégios eram o grande labor das Damas Apostólicas.

Na época em que Dom Josemaria era Capelão do Patronato, morreu Mercedes Reyna, uma Dama Apostólica que havia levado uma vida de sacrifício exemplar: Tinha os pés totalmente deformados e assim ia visitar os pobres de diversos bairros. A Dom Josemaria lhe impressionou muito. Nos chamava a atenção como Dom Josemaria ia rezar na sua tumba. Naquela época, comentávamos que víamos a Dom Josemaria cada vez mais recolhido. Agora, sabe-se que pensava na Obra que Deus lhe pedia que fizesse.

Ainda que pelo Patronato passaram vários capelões e, desde então, já passou muito tempo – eu já tenho 79 anos -, aquele de que melhor me lembro é Dom Josemaria, porque era muito fervoroso, muito alegre e simpático. Tínhamos muito carinho por ele e estávamos muito à vontade com ele porque sempre solucionava os problemas e ajudava.

Enquanto o Padre era Reitor do Patronato de Santa Isabel, soube por Carmen Portillo, uma íntima amiga minha, que seu sobrinho Álvaro** estava com o Fundador da Obra. Tratava-se de uma vocação claríssima e sua mãe não só não se opôs, mas recebeu a notícia agradecendo-a muito a Deus; também ela era uma mulher muito santa. A mãe de D. Álvaro tinha perdido o marido durante a guerra civil espanhola.

Eu, em 1940, depois da guerra civil espanhola, tornei-me Carmelita Descalça e perdi o contato com muitas pessoas. (…) Muitos anos mais tarde, voltei a ter notícias de Dom Josemaria por um sobrinho meu, sacerdote Numerário do Opus Dei: Fernando Maycas. Por ele soube que o Fundador da Obra se lembrava de mim e que cada vez que estava com ele, o Padre pedia que me escrevesse de sua parte e que me pedisse orações. Dom Josemaria demonstrava uma fé absoluta no poder da oração e pedia com insistência que se rezasse por ele. Eu assim o fazia.

Quando no Carmelo de Montemar soubemos da morte se Dom Josemaria senti tristeza e ao mesmo tempo alegria. Pensei em tantos milhares de filhos do Padre que sentiriam um vazio imenso e ao mesmo tempo sua ajuda e proteção, ainda mais eficaz porque agora o Padre estará perto de cada um deles. E senti a alegria de saber pela boca de outras pessoas o que eu já pensava: o Padre é um grande santo.

Passou pela nossa Casa e esteve alguns dias, o Padre Víctor, Carmelita que vive em Roma, de muita autoridade, um canonista muito célebre e que foi Consultor da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos. Explicou-nos como foi bela a sua morte, trabalhando até o último momento e pregando a palavra de Deus. Precisamente na sua última prática que havia tido em um Centro de numerárias que viviam em Castelgandolfo, o Padre lhes havia animado a comportar-se sempre como pessoas que têm alma sacerdotal porque só assim seriam instrumentos eficazes no Opus Dei para servir a Igreja e ao Papa. E faleceu, como sempre havia pedido a Deus: “sem dar demasiada guerra aos que o rodeavam”. E o Senhor lhe tinha concedido isso.

Posso assegurar por tudo que eu vi e por tudo que contaram que os sacerdotes do Opus Dei são exemplares. Vão sempre de batina. São como Dom Josemaria dizia que tinham quer ser: sacerdotes por dentro e por fora. Os leigos são também muito bons, são as pessoas que mais nos entendem e mais caridade têm conosco. Todos são edificantes, não falam nunca mal de ninguém e dão sempre bom exemplo.

Nestes tempos em que tantas coisas que foram santas se desmoronaram, Deus suscitou sua Obra com verdadeiro espírito divino. A canonização do Padre dará muita glória a Deus. A Obra se estendeu por todo o mundo tão rapidamente, dando tão bons frutos que clama em voz alta que tudo o que está nela é de Deus, ainda que muitos – que talvez não sejam tantos – a contradigam porque a contradição é um novo sinal de Deus. O Senhor nos disse “pelos frutos os conhecereis” e os frutos do Opus Dei são maravilhosos.

Diante da evidência do bem tão grande que Mons. Josemaria Escrivá de Balaguer y Albás, Fundador do Opus Dei, fez no mundo com sua vida exemplar, cheia de virtudes que soube ensinar tanta gente a viver, e para que o Senhor receba a glória que lhe é devida e pelo bem espiritual de todo o povo cristão, peço que se dê começo a Causa de Beatificação e Canonização, convencida da transcendência tão grande que terá a resolução do Processo para a Igreja inteira.

Milagres do Santíssimo Sacramento, o.c.d. (Carmelita Descalça) No século Margarita Alvarado Coghem Torremolinos, 2 de setembro de 1975.

Notas da Equipe do Opus Alegria:
* Na Espanha se usa “Dom” para todos os sacerdotes, não apenas para bispos como ocorre no Brasil.
** D. Álvaro Del Portillo esteve ao lado de São Josemaria por 40 anos e o sucedeu na direção do Opus Dei.