Bodas de Prata como membro do Opus Dei

Por Cleusa O.
Cleusa é numerária auxiliar do Opus Dei há 25 anos e em suas bodas de prata nos brinda com um grande relato: grande em sua extensão, porque há muito para contar, mas sobretudo grande nas lições que nos traz ao falar com sinceridade das suas mudanças de opinião e de atitude em busca da felicidade, do seu crescimento profissional e espiritual, da fé, da alegria e do orgulho que sente “por ser numerária auxiliar”.

O encontro com Mons. Escrivá e o Opus Dei na minha infância

Aos 9 anos de idade, tive a grandiosa oportunidade de estar com São Josemaria – quando ele esteve em São Paulo, no Anhembi – entre milhares de outras pessoas. Para mim isto sempre será um dos maiores privilégios da minha vida. Ainda que não entendia quase nada do que ele falava, algo me fez olhar para ele com muito bons olhos: é que usava batina… sempre ouvi minha avó dizer que um sacerdote 100% usava batina.

Neste mesmo dia, a pessoa que havia convidado minha mãe a participar deste encontro com Mons. Escrivá – assim o chamávamos na época – alegrou-se com a nossa presença, pois ela sabia o esforço que supunha, para uma pessoa da zona Leste, sair de ônibus com duas crianças em direção ao Anhembi, isto é: outro lado da cidade! Também neste dia nos deu o endereço de um Centro da Obra para que fôssemos conhecer e recebêssemos com maior profundidade o espírito do Opus Dei, dando continuidade ao que Mons. Josemaria tinha transmitido naquela ocasião.

Só depois de muito ensaio e passados dois anos fomos conhecer o Centro, onde encontramos pessoas alegres, amáveis e que logo deixavam transparecer sua fé e a seriedade com que a viviam.

Ainda que fosse pequena, me chamou a atenção a beleza e simplicidade da casa e a boa recepção que nos foi dada. Até apreciei a meditação, conduzida por um sacerdote da Obra, da qual tirei uma única conclusão: tudo é maravilhoso, corretíssimo, mas não para mim!

Fiz parte do Clubinho, que oferecia diferentes atividades de formação para crianças. Lá fui monitora de um grupo de meninas de 8 a 10 anos que vinham comigo, pois minha mãe, que sempre foi tão vibrante e apostólica, conseguiu que o bairro “inteiro” ficasse sabendo do Clubinho. Depois de um ano, deixei de ir ao Centro.

Deus na minha adolescência

Aos 14 anos voltei a freqüentar o Centro da Obra, pois queria mesmo estar um pouco mais perto de Deus. Comecei a participar dos meios de formação: círculo, meditação e num retiro que fiz decidi que não queria mais ofender a Deus. Ninguém nunca me falou nada disto diretamente, simplesmente me ajudavam a ler um pouco mais o Evangelho, a ir à Missa aos domingos, a rezar o terço para agradar Maria, a ler livros bons e espirituais, o que para mim era difícil, pois não tinha uma vida tão organizada e exemplar, além de que meus amigos e eu sempre tínhamos programações intensas.

Assim ia eu vivendo. Quando num mês de junho levei a filha de uma amiga de minha mãe ao Centro, ela gostou e ficou um bom tempo conversando com uma das numerárias. Saiu toda contente, pois havia conseguido um estágio na administração de um Centro da Obra, já que ela estudava nutrição e gostaria de trabalhar na prática com alimentos e bebidas. Mas no dia em que ela deveria substituir uma das alunas de Hotelaria, ela não foi e nem avisou. Eu, com meu eterno senso de justiça, resolvi ligar e dar uma satisfação… bem, percebi que seria complicado para elas e resolvi oferecer-me, mesmo que estudasse Designer de Interiores, já que seria no período de férias escolares.

Fui… e pedi para assistir à Missa todos os dias por saber, desde a infância, o valor da Santa Missa, pedi também para assistir ao círculo por lá mesmo, aproveitando que estavam mais acessíveis do que nunca. Confesso que sentia certa humilhação por estar num trabalho que era mal visto pelos teens e por mim mesma. Porém, devo confessar também que me senti muito querida por todas, que me vi num ambiente simples, mas com bastante nível humano, tanto para as residentes como para as alunas e monitoras da administração, e principalmente me sentia interiormente realizada após o trabalho bem feito, e feito com técnica. Ali estava atingindo principalmente aquela outra meta do meu coração que era não ofender a Deus. O que não percebi era a tamanha necessidade de braços e almas que a Obra tinha para o seu desenvolvimento. E ao cumprir meus dias de “estágio” fui embora feliz e contente.

Neste ínterim, meu pai faleceu subitamente e fiquei impressionada com a presença de absolutamente TODAS as pessoas deste Centro nos funerais. A diretora até fez o jantar e dormiu conosco em minha casa, mesmo sendo desconfortável e pobre, nem ao menos tínhamos um quarto só para ela. Contudo ela foi extremamente simples, solícita nos papéis, nos telefonemas etc. Enfim, fez o que faria um parente mais próximo e tudo isso sem tomar a frente, de maneira discreta e poupando a todos nós destes encargos desagradáveis mas obrigatórios no falecimento do pai de família.

A minha vocação ao Opus Dei

Alguns dias depois, por uma graça que até hoje não me explico, decidi que ficaria com elas na administração durante 6 meses, pois sabia que o quadro exigia mais pessoas e, no caso, não havia. Também sentia falta de estar naquele ambiente simples, mas puro, agradável a Deus. Pensei que nestes 6 meses eu as ajudaria e me fortaleceria para ser uma cristã coerente, forte a ponto de amar com obras: mais apostolado, mais pureza, mais aproveitamento do tempo etc.

Aos poucos dias da minha volta, já vislumbrei a necessidade que Deus tinha de muitas vocações como numerárias auxiliares e, mesmo sem sentir-me em condições para tão nobre entrega, coloquei-me à disposição das diretoras, deixando bem claro que nem me via em condições e muito menos me via capaz de levar sozinha tudo isso até o fim da vida, mas como a vocação é dada por DEUS, Ele é quem fará se eu deixar.

Sinceramente… Deus permitiu tudo isto em minha vida para eu desejar ardentemente ser desta família onde se dividem trabalhos, dores, alegrias, mas principalmente o serviço exclusivo para Deus, servindo a Igreja e as almas.

Estudos Profissionais sendo Numerária Auxiliar

Na época, deixei realmente muitas possibilidades, mas me encontrei realizada sabendo que Ele precisava de mim como mãe das pessoas da Obra. Tive a oportunidade de estar com exímias cozinheiras, confeiteiras, passadeiras, decoradoras, contadoras e isto ampliou muita a minha capacidade de trabalho ao longo da minha vida no Opus Dei. Junta-se a isto toda a gama de aprendizado humano que recebemos a cada tertúlia (momento de descanso, em que nos encontramos para conversar etc. Há duas tertúlias por dia nas administrações), a cada uma das experiências vividas em outros países que nos são transmitidas, a cada filme ou visita técnica em empresas do ramo, mais feiras como FISPAL, EQUIPOTEL, SEMINÁRIOS DE ESTUDOS, enfim… a conquista é plenamente pessoal, cada uma aproveita como quer todas as oportunidades que surgem, e sempre com muito respeito à liberdade. Tudo isto me fez crescer e chegar à felicidade.

Tudo o que falei até agora, explica o meu êxito profissional que na verdade não é tanto quanto o de muitas outras numerárias auxiliares que vieram antes e depois de mim e que por outros fatores, que só Deus sabe, penso estarem muito acima de mim em avanços técnicos, qualidade e quantidade nos trabalhos. Sinceramente, tenho meus “ídolos” da administração, ou seja, aquelas pessoas que admiro e reconheço o prestígio profissional que adquiriram.

Minha relação com Deus no Opus Dei

Em relação à minha vida espiritual sempre recebi a formação suficiente para simplificar a minha vida, isto é: colocar-me frente a Deus e resolver diante Dele os meus problemas, ou melhor, deixar que Ele resolva os meus problemas – ainda que eu tenha que facilitar a sua ação em minha alma, afastando o orgulho, a preguiça, a sensualidade, que são alguns dos principais inimigos da nossa santificação.

Na verdade, o que busco é estar 24 horas de bem com Deus, retificando o que atrapalha este relacionamento. Descobrir a cada dia que Deus é meu Pai, um Pai que pode tudo e sabe tudo a meu respeito, pois me conhece profundamente e melhor ainda: me ama, apesar de tudo o que fui, que sou; me ama e me espera sempre com braços abertos após as minhas quedas, que pelo amor vão sendo menos freqüentes; acredita em mim, acredita que eu, com a Sua graça, posso chegar ao Céu e levar muitas almas para lá. E, porque Ele acredita em mim, exige de mim FÉ.

A FÉ em Deus e na chamada que Deus faz ao Opus Dei.

FÉ é um aspecto que nunca, em nenhuma situação, pode ser deixado de lado quando se trata de uma vocação divina. Sem a FÉ nada teria sentido.

Por este filtro da FÉ, devemos coar tudo, tudo, tudo o que nos acontece desde o primeiro momento em que decidimos ser do Opus Dei.

Pelo filtro da FÉ devemos coar o mal-estar físico, a doença: “Se Deus permitiu isto devo aceitar, oferecer e esperar”, ao mesmo tempo que coloco os meios para restabelecer a saúde.

Pelo filtro da FÉ devemos coar a incompreensão: “Jesus manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso”.

Pelo filtro da FÉ podemos coar as tentações de riqueza e poder: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me!” (Mt 19, 21)*.

Pelo filtro da FÉ superamos a tentação de dedicar-nos mais à família do que a Deus e às almas: “Todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá cem vezes mais e a vida eterna” (Mt 19, 29).

Pelo filtro da FÉ superamos o desejo de glória humana, de diplomas, títulos e nos lançamos abnegadamente ao serviço de quem está ao nosso lado: “Aquele que quiser ser o primeiro entre vós que seja o último de todos e o servidor de todos” (Mc 10, 44).

Pelo filtro da FÉ pedimos perdão a Deus e ao próximo quando nossa consciência nos acusa uma ofensa feita, se possível antes da próxima comunhão: “Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti (…) vai primeiro reconciliar-te com teu irmão…” (Mt 5, 23-24).

Pelo filtro da FÉ falamos a verdade sempre a quem se deve e seguimos os conselhos daqueles que Deus colocou para dirigir nossa alma: “Que o vosso sim seja sim e o vosso não seja não” (Mt 5, 37).

Pelo filtro da FÉ, quando caímos e nos sentimos a pior das piores, incapazes, lembramo-nos do publicano que sai justificado do templo (Lc 18, 9-14) e de que Jesus não veio salvar os justos mas os pecadores arrependidos (Mt 9, 13)!

Todos sabemos que a meta do cristão é identificar-se com Cristo, portanto foi sempre no Evangelho que encontrei respostas e soluções para as minhas crises, e neste mesmo Evangelho Cristo fala: “Vinde a Mim todos os atribulados e sobrecarregados…” (Mt 11, 28). É n’Ele que sempre encontrei luz e força mediante a oração e a mortificação, além do exemplo dos primeiros cristãos, do nosso Padre – o Fundador do Opus Dei – e dos primeiros membros da Obra, enfim das pessoas que se decidiram por Deus até o fim de suas vidas.

“Sonhai e ficareis aquém”

Penso que este foi o percurso que me levou a chegar até aqui e estar há tanto tempo feliz com a minha vocação, feliz com a vocação das minhas amigas bem casadas, feliz com a vocação da minha mãe supernumerária. Esta certeza de não fazer nada que seja só de interesse próprio me dá uma grande liberdade de espírito, permite-me estar à vontade por onde passo.

Também posso afirmar que não desperdiço nada do que recebo, por exemplo, a cultura que as pessoas da Obra podem proporcionar umas as outras é algo fabuloso. Só com isto tenho quase um livro todo, de mais de 200 receitas, de quando ministrei aulas de confeitaria num curso conveniado no SENAI. Elaborei um projeto com adolescentes que existe há 3 anos. É o Projeto Percurso: enriquece a personalidade, amplia a cultura, desenvolve o raciocínio e facilita a vida em sociedade.

Deus ama quem dá com alegria

Hoje só tenho a agradecer e desejo que muitas outras pessoas possam provar a alegria e o orgulho que sinto por ser numerária auxiliar. Não me troco por ninguém e amo de verdade “pilotar” o fogão, mais do que pilotar um carro ou estar aqui pilotando o teclado, mas o faço com a mesma alegria por saber que tudo pode se transformar em serviço a Deus e às almas. E as palavras que ouvi desde sempre de nosso Padre agora faço minhas: “mil vidas que tivesse, mil vidas entregaria a Deus no Opus Dei”, pois em 25 anos já pude comprovar que vale a pena ser fiel. E peço também como nosso Padre: antes a morte que a infidelidade.

Cleusa O.
São Paulo – 2006

Todas as referências das citações bíblicas foram incluídas posteriormente pela Equipe do Opus Alegria.