Alegria na depressão: é possível!

Por Maria de Lourdes Seraphico Peixoto da Silva
Maria de Lourdes conviveu e convive ainda com a depressão; neste relato nos conta algumas das dificuldades que enfrenta uma pessoa nesta situação e não hesita em afirmar: “A OBRA É O MELHOR LUGAR PARA VIVER”, ESPECIALMENTE QUANDO SE PASSA UM MAU BOCADO.

A experiência da depressão

Para quem se sente tão no fundo do poço que já não vê qualquer luz, alegria é algo que parece ter ido para nunca mais voltar. O sentimento de inutilidade, de “não sirvo para mais nada”, a falta total de disposição para tudo leva, a cada momento, mais para o fundo do poço; essa sensação vai se tornando cada vez mais devoradora das poucas forças que ainda se tenha.

Não sou psiquiatra nem psicóloga, mas tenho uma “certa experiência” no tema da depressão. Digamos que convivi com ela, em sua fase mais aguda, por mais de 7 anos e ela ainda convive comigo, 24horas por dia! Sem dúvida, agora, graças a Deus, já com características mais leve.

Quem passou por uma depressão grave entenderá melhor do que ninguém o porquê da necessidade tão grande de sentir-se apoiado, compreendido, querido: é realmente uma questão de sobrevivência! Quando nem você se agüenta a si mesmo, quando gostar de si parece ser impossível, a necessidade de que os outros nos queiram, nos façam companhia, respeitando nossa dor; a necessidade de que compreendam que a situação em que vivemos não é uma questão de moleza nem de covardia, tudo isso é como oxigênio para continuar respirando, oxigênio para sobreviver!

Nessa terrível e indescritível situação, não se consegue sequer pensar que ainda exista quem possa ficar ao nosso lado; isto sem falar de que nos sentimos sem capacidade de amar quem quer que seja, parece que só conseguimos ferir e magoar. É incrível, mas se chega a pensar que amar aos outros como a si mesmo é um mau negócio para os outros, porque a medida do amor a nós mesmos é ínfima.

Como superar as coisas e a si mesmo, nesse contexto, para voltar a viver? Confesso que isso me parecia absolutamente impossível. Cheguei a duvidar que alguém e, pasmem até mesmo Deus, pudesse ainda ter alguma dose de paciência comigo e pudesse gostar de um “traste” como eu (ou pelo menos como eu me sentia!).

Sou do Opus Dei

Sou Numerária do Opus Dei, faz 37 anos, e nesses últimos 10 anos confesso que sofri muito e fiz sofrer a muita gente: que o diga quem viveu e vive comigo, pois agora tenho consciência de que não é fácil tanto conviver com a depressão quanto com o deprimido!

Nesses anos, quanta paciência teve comigo, cada uma das pessoas com quem convivo. Quanta paciência para agüentar meus “estouros” tão freqüentes! Quanto carinho recebi e recebo! Assino com todas as letras em maiúsculas “A OBRA É O MELHOR LUGAR PARA VIVER”, ESPECIALMENTE QUANDO SE PASSA UM MAU BOCADO, pois quando tudo vai bem na nossa vida, na maioria das vezes não se repara no carinho e nos detalhes, mas quando temos os nervos à flor da pele…

Dificuldades e alegrias

Enfrentei dificuldades muito marcantes em meu ambiente de trabalho profissional a ponto de ter que deixá-lo, e isso não foi fácil, mesmo considerando que esses problemas foram os que desencadearam minha depressão. Meu trabalho que eu tanto amava se tornou o maior fardo! Tudo era motivo de sofrimento! Tais circunstâncias aliadas a traços de personalidade presentes em toda minha família resultaram na situação que vivi.

Diante de tal panorama alguém pode indagar: pode haver alegria na depressão? Eu direi: apesar dos pesares, pode haver alegria. A alegria de sentir-se querido com um carinho tão profundo que é quase impossível descrever. O carinho de quem sofreu e sofre comigo, o carinho de quem mesmo com o risco de errar continua tentando acertar a forma de me ajudar a sair dessa. Digo isso porque realmente não é fácil saber o que agrada, o que pode dar alegria ao deprimido, porque tudo para ele é triste. Dá para entender porque eu acho difícil descrever a profundidade desse carinho? As pessoas da Obra não desistiram de mim, nem mesmo quando eu pensava e dizia “não sei como vocês me agüentam, não sei como Deus ainda me agüenta; como Deus pode gostar de mim apesar do como eu sou, apesar de que eu faça tão pouco por Ele e pela Obra”. “Tire ‘o apesar de…’ Deus gosta de você como você é; do jeito que você está agora”. Essa frase dita com o profundo carinho de quem quer verdadeiramente a você, de quem quer estar com você, moveu-me de uma maneira incrível. Essa certeza de ser querida por Deus e pelas pessoas da Obra, com um amor que superava minhas reações desabridas, fez-me reviver!

“Valorize as pequenas alegrias, as pequenas coisas que você vai conseguindo fazer. Deus vibra quando você se levanta de manhã, e nós também.” Que paz perceber que aquela pessoa entendia o drama que vive o deprimido por não conseguir fazer nada, nem sequer levantar da cama e tomar banho! Durante esses anos amadureci muito com o sofrimento, aprendi a ver que ter defeitos não é motivo para não gostar de mim mesma, nem para que não gostem de mim, afinal todos temos defeitos! Como é difícil compreender essa realidade! Também comecei a compreender melhor as necessidades dos demais. Vivi uma profunda mudança de paradigma, na minha vida como um todo. Para ser querida por Deus não preciso colecionar méritos. Que alivio! Seu perdão não é proporcional aos meus méritos, mas à Sua Misericórdia! E mais, por que dar tanto peso às coisas? Tomei consciência de que a vida é mais simples do que me parecia! Comecei a perceber a alegria que podem me dar as pequenas coisas do dia a dia, a valorizar essas pequenas vitórias e alegrias da minha vida e da vida dos outros.

Ouvi, claramente, da psiquiatra que me atende: “em algum momento de sua vida, você iria passar por um quadro depressivo, como todos seus irmãos. Se não tivesse o carinho e apoio que você tem tido, provavelmente nunca sairia dessa; as pessoas da Obra estão fazendo tudo para que você se recupere, elas lhe querem de verdade!” Convém dizer que essa médica não é da Obra e o que conhece da Obra é pelo que eu lhe conto.

O apoio (fundamental!) do Opus Dei

A Obra se desviveu por mim, sempre, e especialmente nestes anos. Em pleno alvoroço no ambiente de trabalho, tendo sido desligada do doutorado por razões que só Deus e algumas pessoas sabem, como não queria jogar tudo pela janela, prestei concurso para o doutorado, em São Paulo, e fui aprovada. Como não é difícil imaginar, não foi nada fácil essa empreitada, não só pelas viagens, mas pelo esforço que para mim significava manter a concentração e estudar. Nessa época tive que conciliar as aulas e atribuições na Universidade com minhas responsabilidades no doutorado. A vice-coordenadora da Pós-graduação, conhecendo toda a minha situação, no dia da minha defesa de tese me disse: “eu não pensava que você fosse conseguir, mas você conseguiu!”. De fato, só Deus e as pessoas da Obra e a psiquiatra que me acompanha conhecem de perto a minha luta.

Confesso que eu imaginava que essa vitória resolveria muito da minha depressão, mas nem tudo foram rosas. A minha insegurança decorrente da depressão não se esvaiu. Em muitos momentos não conseguia ver um sentido para a vida, pois deixara o meu trabalho na Universidade e me sentia sem forças até para fazer as coisas que habitualmente fazia na Obra, como dar palestras, aulas e até estar com minhas amigas. Saber que o deprimido se retrai e constatar que eu estava me retraindo, não foi tarefa fácil. Ver-se sem a mínima vontade para qualquer coisa, é terrível. Quanto respeito! Quanto carinho recebi nestes momentos! Quanto me ajudou que entendessem e respeitassem o meu ritmo e o passo a passo da minha depressão!

Nunca estive tão perto da Cruz de Jesus, mas também nunca senti tão de perto o que é viver uma solidão acompanhada, no meio das calúnias do assédio moral no trabalho e sofrendo as conseqüências de uma depressão que rouba todo o sentido que a vida possa ter. Assim comecei a vislumbrar a grandiosidade do amor que temos entre nós na Obra. Cada vitória minha, cada vez que sentia alguma alegria, era uma vitória e uma alegria nossa! Jamais conseguirei agradecer de forma conveniente tudo que recebi e recebo na Obra! Aprendi na pele o que significa ver-se olhada por Jesus que passa levando Sua Cruz. Até então não tinha tido consciência tão forte desse olhar carinhoso, amoroso e compreensivo.

Decisivo encontro com São Josemaria

Em 1974, quando São Josemaria esteve em São Paulo, perguntei-lhe:
– Como fazer para que meus pais compreendam que a minha vocação é o maior presente que Deus podia ter me dado e a eles também?
Com o teu sorriso, esse sorriso que tens….
Também, em outra ocasião lhe perguntei:
– O que fazer para que Deus esteja realmente em minha cabeça, nos meus lábios e no meu coração?
Dor e amor são verso e reverso de uma mesma medalha. Por que não dizes como jaculatória: “que eu ponha Tua cruz no cume de todas as minhas atividades, que eu Te ponha Jesus, no cume!”?

Em tudo que vivi, busquei colocar Jesus no cume. Com tudo que vivi continuo dizendo que o melhor presente que recebi de Deus foi minha vocação à Obra. A vida tem a cor que a gente pinta! Eu, hoje, depois de pintá-la de preto e cinza por muito tempo, descobri as outras cores da caixa de lápis de cor! É possível ter alegria sempre, mesmo quando até nossa serotonina insiste em permanecer baixa.

Maria de Lourdes Seraphico Peixoto da Silva