A única coisa que de verdade me preocupa é ir ao Céu

Por Equipe do Opus Alegria / Antonio Fernández
Como o médico Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri encarou a doença e a morte. Seu imenso desejo de identificar-se com Cristo, manifestado na grandiosa oração: “Senhor, aumenta a minha fé, aumenta-me a esperança, aumenta-me a caridade, para que o meu coração se pareça com o teu.” Seu desejo imenso de ir para o céu.

No dia 11 de dezembro de 1998, iniciou-se oficialmente a Causa de Canonização de um supernumerário do Opus Dei, o Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri. O Dr. Eduardo, catedrático de Clínica Médica, foi um dos médicos de mais prestígio da Espanha, admirado e querido por milhares de pessoas. Ao longo de 50 anos de exercício da docência universitária e da medicina, atendeu perto de 500.000 enfermos, e deixou inúmeros discípulos.

Era casado e pai de sete filhos. Em 1º de junho de 1952 pediu incorporar-se ao Opus Dei, como supernumerário. Incentivado por são Josemaría Escrivá, empreendeu com outros colegas, partindo da estaca zero, o empreendimento quase “impossível” de fundar a Faculdade de Medicina da Universidade de Navarra – obra corporativa do Opus Dei – juntamente com a Clínica Universitária. Hoje, essa Faculdade e sua Clínica são consideradas internacionalmente entre as melhores do mundo.

Fizemos essa breve “apresentação” como introdução ao relato de um episódio tocante, relacionado com o Dr. Eduardo. Em outras oportunidades, haverá ocasião de dar a conhecer outros episódios interessantes da sua bela biografia.

O Dr. Eduardo faleceu santamente em 20 de maio de 1985, enquanto repetia essa oração: Senhor, aumenta a minha fé, aumenta-me a esperança, aumenta-me a caridade, para que o meu coração se pareça com o teu. Dois anos antes, em agosto de 1983 – quando contava 73 anos – foi-lhe diagnosticado um câncer muito espalhado e, clinicamente, incurável. Aposentara-se pouco antes, e, numa entrevista com uma jornalista do Diário de Navarra, declarara, entre outras coisas:

– “Sou apenas um cristão comum, que tratou de santificar o seu trabalho e que, se não tivesse sido do Opus Dei, eu não daria nem dois tostões pelo que poderia ter sido a minha vida. Provavelmente teria sido um agnóstico”.
“Sempre tive fé (desde a sua conversão), e peço a Deus que não a tire de mim, agora que mais preciso dela … Creio na liberdade. Sou religioso e apolítico, mas respeito os que pensam de outra maneira. “

“Na realidade, a única coisa que de verdade me preocupa é ir ao Céu. Sim, acredito no Céu, o lugar onde gozarei da presença de Deus. Como? A minha mente é pequena demais para entendê-lo e explicá-lo. Mas é para lá que eu quero ir. Tentei passar pela vida fazendo o bem que pude. Tentei, mas não quero que me digam que o consegui, porque me assusta a minha possível vaidade. Quero ir ao Céu e lá não há lugar para os vaidosos”.

Equipe do Opus Alegria

Como “contraponto” a esse relato, inserimos outro relato de um antigo paciente de Dr Eduardo.

Um antigo paciente do Dr. Eduardo leu essa entrevista, e escreveu uma carta ao Diário de Navarra, dirigida ao Dr. Eduardo. Por razões de delicadeza, o Diário não a divulgou senão quando ambos – médico e paciente – já tinham falecido. A carta diz assim:

Saragoça, 8 de dezembro, 1983.

Amigo Eduardo Ortiz: chamo-lhe amigo ainda que não nos conheçamos. Não sou do Opus Dei, nem sei o que é isso. Não tenho fé, ainda que o vigário diz que tenho a esperança de tê-la. Não tenho caridade e gostaria de ter tido.

Escrevo dizendo-lhe que não nos conhecemos porque só nos vimos uma única vez, faz quase 20 anos; sou um dos 500.000 doentes que o sr. diz que atendeu.

Meu nome é Antonio Fernández, era funcionário de uma cidade pequena. Agora não sou nada, um aposentado pelo câncer que, como o sr, espera a morte: no meu caso, com medo.

Entre nós dois há grandes diferenças: o sr, é “religioso e apolítico”, eu “político e a-religioso”; o sr. fala da morte sem tristeza, eu, com medo; o sr. diz que tentou passar pela vida fazendo todo o bem que pôde, eu tentei passar pela vida esquecendo que se pode fazer o bem; o sr. acredita no Céu, eu, agora, gostaria de acreditar. Antes pensava que não era assunto meu.

Por que lhe escrevo esta carta? Uma minha irmã freira, que reside em Pamplona, mandou-me o Diário e pude ler a sua “mensagem aos que estão para morrer”. Depois de ler a mensagem, pensando no seu câncer e no meu (nisto, sim, somos parecidos) senti um desejo imenso de ir também para um Céu no qual não acredito.

Em todo caso, confessei-me. Há vinte anos que não o fazia. A última vez foi depois da minha consulta com o Dr. Eduardo Ortiz. Entre os remédios que me receitou estava o de que me confessasse. Como doente e medroso assim o fiz; mas fiquei bom e me esqueci de tudo.

Faz uma semana, depois de pensar e meditar sobre a sua mensagem, chamei o padre. Ele me diz que estou perdoado. Eu lhe disse que me arrependo para sempre (possivelmente porque não voltarei a ficar bom). Também lhe disse que não tenho fé nem acredito no Céu. E o padre pediu-me que tivesse paciência e que rezasse a um outro padre [Mons. Josemaría Escrivá] que está no Céu e que foi muito amigo do Dr. Eduardo Ortiz.

Doutor, o sr. tem 73 anos, eu 37. A idade não tem importância: ao sr. e a mim nos falta muito pouco tempo para irmos ao outro mundo; ao sr. lhe disseram isso “com clareza e caridade”, a mim de “modo confuso e sem caridade”.

Escrevo-lhe esta carta porque me parece que, com ela, faço “o primeiro bem da minha vida a um amigo”. Se eu recebesse de um doente esta carta ficaria feliz por saber que realmente “fiz o bem” a alguém…, com certeza porque não sou como o sr., eu sou vaidoso.

Doutor, se o Céu existe mesmo e o sr. vai para o Céu não permita que eu não vá, ainda que continue sem acreditar.

Obrigado, doutor, pela sua mensagem.

Antonio Fernández

Texto resumido do livro de Luís Ignacio Seco, La herencia de Mons. Escrivá de Balaguer (Ed. Palabra, Madrid 1986) e do site www.opusdei.org.br.