A Sinfonia de Alvaro Siviero e Bento XVI

Alvaro Siviero, pianista, fala-nos das oportunidades que teve de estar bem perto do Santo Padre. Relembrando estes “intensos momentos”, faz considerações sobre a pessoa que é Bento XVI, sobre o Opus Dei e, claro, sobre música.
É muito difícil definir cada um dos encontros de Alvaro Siviero com o Papa Bento XVI… Um filho diante de seu paizão? Um pianista que encontra outro? Dois apaixonados por música? Um fiel católico que se aproxima do Romano Pontífice? Dois amigos? Ao lermos esta entrevista, podemos intuir que estes encontros foram tudo isto e muito mais.

Nesta vinda do Papa ao Brasil, em que ocasiões esteve com ele?
Tive a oportunidade de estar com o Papa Bento XVI, de modo muito próximo, por 6 vezes. A primeira dessas vezes ocorreu já no momento de sua chegada ao Seminário Bom Jesus, em Aparecida do Norte. Estávamos lá um grupo bastante reduzido de pessoas, situados à entrada principal do seminário, para dar ao Santo Padre as boas vindas. Foi um momento muito caloroso em que o olhar de doação e carinho do Papa, unido ao seu sorriso contínuo, nos transmitiu tremenda segurança e a consciência imediata de ser absolutamente desnecessário qualquer tipo de postura tensa. Ao contrário, os seus movimentos tranqüilos e serenos, de paizão, nos deixaram muito à vontade. Surpreendeu-me seu olhar firme, profundo e acolhedor.

No dia seguinte, bem cedo, tive a oportunidade de conversar com ele, de lhe dizer que era pianista e que era um fiel do Opus Dei. Emocionou-me verificar que, enquanto eu segurava as suas mãos manifestando-lhe a minha alegria pela minha profissão, ele correspondia com seu olhar de aprovação. Ao manifestar-lhe a minha pertinência à Obra, eram agora as suas mãos as que envolviam as minhas, enquanto ele me dizia (em italiano) : “O Opus Dei… muito bem!” . A seguir, quando disse que rezávamos por ele com todo o nosso coração, verifiquei a grandeza da sua humildade, pois dizia com o olhar que agradecia essas orações e que se apoiava nelas.

Poucas horas mais tarde, estaria iniciando o recital para ele, onde novamente pude conversar com ele, ajoelhar-me novamente diante dele – como já havia feito pela manhã – beijar suas mãos, contar-lhe outros segredos…

Em todas essas ocasiões sentia-me a única pessoa do mundo a quem o Papa devotava toda a sua atenção.

Como é o Santo Padre longe das multidões?
Exatamente como o é diante delas. É um homem de uma peça só. A sua humildade e simplicidade, acredito eu, são conseqüências dessa verdade de vida, dessa coerência de comportamento, em qualquer ambiente. Hoje vejo, e não digo do que li ou me contaram, mas digo do que vivi pessoalmente, que o Papa não defende a verdade moral, ou a verdade científica, ou a verdade teológica… não! o Papa defende a verdade, sem adjetivos. As palavras comovem, mas a verdade arrasta. E o Brasil inteiro se sentiu arrastado.

Dentre as palavras que o Papa Bento lhe dirigiu, quais foram especialmente marcantes?
Era o dia 12 de maio, sábado, pela manhã. Eu havia acabado de lhe dizer algumas palavras de carinho e atenção. Nesse exato momento, voltando alguns passos, ele dirigiu-se a mim e me disse (em italiano): “devemos organizar um concerto”. Fiquei surpreso com a proposta e ao mesmo tempo edificado, pois vi plasmado numa frase tão simples, tantas coisas…

– Vi que o Papa é humano, que é um homem que se interessa não somente por questões espirituais, teológicas, eclesiais. É gente! Apesar da sua estatura intelectual e humana, ele cria vínculos com as pessoas se interessando pelo outro precisamente no aspecto onde ele percebe que esses vínculos poderão se tornar mais estreitos. É uma oferta de amizade muito natural e que cativa.

– Sempre me atraiu na espiritualidade do Opus Dei a normalidade, de que o trabalho bem feito e realizado por motivos transcendentes nos torna pessoas melhores, cristãos coerentes. Respeito a espiritualidade dos monges e religiosos, mas para mim enxergo o mundo como meu lugar. Daí, talvez, eu ter me identificado com a proposta da santificação no meio do mundo, como sugere a Prelazia do Opus Dei. Sabendo que eu conhecia o Opus Dei, o Papa se utilizou precisamente do meu trabalho, que deve ser também minha paixão, e que também é a dele, para querer se aproximar mais de mim.

– Não me atraem os indecisos, as pessoas que sempre parecem estar jogando xadrez com a vida. Sempre associei esse comportamento a pessoas que não querem se comprometer (e que acabam se comprometendo mais do que qualquer outra pessoa com a própria preguiça e moleza). Vi que o Papa é jovem, tem alma jovem, pois ele não me perguntou se era possível organizar um concerto, mas disse: “devemos organizar um concerto”. Sem dúvida, é um homem decidido e que sabe o que quer.

Como é o gosto musical do Papa atual?
Bastante eclético, mas radicado nos clássicos alemães – Bach, Beethoven – , onde incluo Mozart, que é austríaco. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Áustria foi anexada à Alemanha e a cidade de Salzburgo se tornou, portanto, ponto de paragem para os Ratzinger que se dirigiam ao Santuário de Maria Plain para peregrinações e que, obviamente, aproveitavam para se embeber da boa música. Em uma dessas idas a Salzburgo, seu irmão Georg levou-o a um concerto onde foi interpretada a Missa em Dó menor de Mozart, e seu comentário foi: “Foi ali que Mozart entrou até o fundo da minha alma. A sua música – tão brilhante e, ao mesmo tempo tão intensa – ainda continua a fazer-me vibrar de emoção. Não é um simples divertimento: a música de Mozart encerra todo o drama do ser humano”.

Em outro momento, após ouvir um quarteto de cordas em Berlim, afirmou: “queridos amigos, vemos que a música pode conduzir-nos à oração: ela convida-nos a elevar a mente a Deus, para encontrar n’Ele as razões da nossa esperança e a assistência nas dificuldades da vida”.

A Alemanha, como diz o ditado, é terra de poetas e pensadores. Esse ditado aplica-se, duplamente, à pessoa do Papa Bento XVI: um grande intelectual que é tão humilde por ter um enorme coração.

Depois destes dias perto do Romano Pontífice, o que muda em sua vida, pessoalmente e profissionalmente? Que lições aprendeu diretamente do Papa e não gostaria de esquecer jamais?
De que vale a pena abraçar a verdade, sem medo. Vemos – onde também me incluo – pessoas com atitudes que denotam pouca virtude, comportamentos viciados. Em outros casos podem ser comportamentos eticamente reprováveis, moralmente degradados. Uma decisão de busca de verdade, honesta, rapidamente evidenciaria a necessidade de uma mudança. Quem não muda acaba tendo que se justificar de alguma forma (pelo menos para si mesmo), pois esses comportamentos não resistem a um exame de consciência sério, sincero. Outra opção é chamar o erro de verdade para não ter o ônus (na realidade bônus) da necessidade de uma mudança. Quem sai perdendo? A própria pessoa. Quero, mesmo com todos os meus erros que não desaparecerão em poucos dias, assumir, ter a coragem de dizer que mais uma vez aconteceu o mesmo de sempre, que eu errei.

O Papa falou da confissão. A freqüência da confissão sacramental na Igreja Católica caiu porque as pessoas perderam a capacidade de pedir perdão. Parece que há um desejo coletivo de somente jogar a culpa para os outros. Parece que a preocupação de muitos é o esforço de entender uma situação, um problema, à base de encontrar o culpado daquela situação. Disso estou fora!

Esse Papa não tem medo de dizer o que pensa. Ele deixa claro que a Igreja não é uma ONG, que os bispos não são uns deputados com mandato e poder dado pelo povo para que eles façam o que o povo quer… é bonito você ver um homem como ele, que quer mostrar que a pessoa humana é muito mais rica e multifacética do que insistentes questões sobre aborto, homossexualismo, preservativos… parece que o homem atual norteia seu comportamento somente nisso. O sorriso dele me passou essa informação. Foi um puxão para cima!

Se tivesse que escolher uma música que servisse de resumo (ou uma trilha sonora) destes seus dias vividos perto do Papa, qual seria?
Acredito que todas e cada uma das músicas que interpretei me levam, de modo imediato, a todos aqueles intensos momentos que vivi. Não saberia precisar qual delas seria a mais importante. Acabo, no entanto, transcrevendo outro trecho de uma entrevista sobre Bento XVI, falando sobre música:

“… Podemos imaginar a história do mundo como uma maravilhosa sinfonia composta por Deus, e cuja execução é por Ele mesmo, sábio Maestro de orquestra, dirigida. Mesmo se a partitura por vezes nos pareça muito complicada e difícil, Ele conhece-a da primeira à última nota. Nós não somos chamados a pegar na batuta do maestro, e menos ainda a mudar as melodias a nosso bel-prazer. Contudo, somos chamados cada qual no seu lugar e com as próprias capacidades a colaborar com o grande Mestre para a execução da sua grande obra-prima “.

Conheça mais sobre os projetos e recitais de Alvaro Siviero pelo site www.alvarosiviero.com.